sábado, 3 de janeiro de 2009

Razão e religião

Miguel Reale Júnior

No ano que se inicia, comemora-se o centenário da morte do cientista e médico Cesare Lombroso, fundador da Antropologia Criminal. Lombroso foi, ao lado de Garófalo e Ferri, um dos epígonos da Escola Penal Positiva italiana, cujas ideias foram fruto do desenvolvimento das ciências naturais e da confiança nos métodos empírico-explicativos.
A explicação causal do crime nasce com Lombroso a partir de estudos da morfologia de diversos condenados e internados, observando dados físicos dos quais retira consequências acerca do desenvolvimento mental. Sinais exteriores como queixo prognata, testa curta, orelhas de abano são características correspondentes a tendências delituosas. Dessa maneira, há um criminoso nato cuja origem está no atavismo, na herança da idade selvagem. O delito é fruto inexorável desse homem incorrigível, em razão da não-evolução de aspectos físicos e psíquicos. Assim, Lombroso negava o livre-arbítrio por acreditar na determinação absoluta da prática delituosa por fatores antropológicos.
Além de O Homem Delinquente, escreveu Lombroso A Mulher Delinquente, estudo no qual afirmava, após exame das características da mulher como as físicas, a capacidade craniana, o esqueleto, o peso e estatura, a inteligência e a moralidade, que esta possui fundamentalmente caracteres que a aproximam do selvagem e da criança.
Lombroso, contudo, mais tarde, sob influência de Ferri deu relevo aos aspectos ambientais na produção do fato delituoso, além de concluir, no final da vida, em consequência de sua adesão ao espiritismo, que dentre os criminosos poucos poderiam ser considerados como natos.
Curiosa é a caminhada do cientista, aferrado à análise dos fatos e à comprovação de suas causas, em direção ao espiritismo. Lombroso não foi fulminado pelo milagre da graça ou conduzido por uma revelação entusiasmante de Deus e das verdades escatológicas, mas chegou à religião, como se verá, por força dos fatos dos quais se declara escravo.
Na Itália do último quartel do século 19, deu-se forte influência do espiritismo, mormente no meio científico. Lombroso negou-se diversas vezes a participar de experiências espíritas, que chegou a ridicularizar. Coincidiu sua estada em Nápoles, em março de 1891, com a do professor Chiaia e da médium Eusápia Paladino, de extraordinários poderes. Lombroso concordou em presenciar uma sessão, desde que no seu hotel, à luz do dia, com cuidados contra qualquer fraude.
Na primeira de uma centena de sessões com a médium, impressionou-o o fato de, estando Eusápia presa a uma cadeira, a cortina do quarto se ter desprendido para envolvê-lo.
Poucos meses após a primeira experiência espírita, em julho, Lombroso já manifestava se envergonhar de haver combatido com violência a possibilidade de fenômenos espíritas, pois, apesar de contrário à teoria, atestava que fatos existiam e se orgulhava de deles ser escravo.
Em 1890, afirmara, diante da verificação de levitações, de transporte de objetos e de materializações, que com relação à teoria espírita era um pequeno seixo na praia, a água não o cobria, mas a cada maré sentia estar sendo arrastado um pouco mais para o mar. Experiência impressionante foi a aparição, em 1902, de sua mãe em diversas sessões, uma figura com a mesma estatura e a mesma voz, na maioria das vezes chamando-o de "fiol mio", como era próprio de sua origem veneziana.
Indagado por um jornalista em 1906 sobre os fenômenos espíritas, Lombroso disse que por educação científica fora sempre contrário ao espiritismo, mas ao lado de eminentes observadores, médicos, físicos, químicos, biólogos constatou fatos. Assim, acreditava na evidência, nada mais, sem medo do ridículo ao afirmar fatos dos quais experimentalmente adquirira profunda convicção.
Escreveu, então, em 1909, perto de morrer, o livro Hipnotismo e Mediunidade, em cujo prefácio declara que se situou distante de toda a teoria para que a convicção surgisse espontânea dos fatos solidificados pela consciência emanada do consenso geral dos povos. Fez, então, uma consistente síntese das experiências mediúnicas ao longo do tempo, mostrando a analogia entre o que sucedeu com os povos antigos, com os povos indígenas, com os fenômenos ocorridos na Idade Média ou no Renascimento e com o que sucedeu naqueles dias na presença de ilustres cientistas.
Disse, então, possuir um mosaico de provas resistente às mais severas dúvidas. Dentre tantos fenômenos e experiências que relata, muitos dos quais testemunhou, curiosos são os casos judiciários, como o da revelação por espírito de jovem falecido em navio de ter sido envenenado com ingestão de amêndoas com rícino, fato este depois constatado por perícia.
Escravo dos fatos, Lombroso descobre pela experiência o espiritismo, o que não contraria sua formação científica, causal-explicativa.
Alan Kardec, no Livro dos Espíritos, reconhece o livre-arbítrio, mas admite que não são os caracteres físicos que determinam o comportamento, e sim a natureza do espírito encarnado, que pode ter inclinação para o mal, mas possui o poder de enfrentar com o seu querer a tendência manifestada. Lombroso reconhece, ao fim, a pouca incidência de hipóteses do criminoso nato.
Este escorço histórico, quando dos cem anos da desencarnação de Lombroso, recoloca a angustiosa questão do livre-arbítrio ou do determinismo. A meu sentir, a liberdade não pode ser indiferente. Cabe situar o homem em suas circunstâncias biológicas e sociais, pois age no mundo que o circunda. O homem possui uma liberdade, mais que situada, sitiada, sem deixar de ter, contudo, uma esfera de decisão última pela qual define a realização da vontade e a do seu próprio modo de ser. Sem liberdade perdem sentido a dignidade do homem e a imortalidade do espírito

2 comentários:

Luiz Roberto Turatti disse...

Segundo QUEVEDO S.J., Oscar G.-: Palavra de Iahweh, 1.ª edição, São Paulo, Loyola, 1993, p. 211 s., volume 5 de “Os Mortos Interferem no Mundo?”:

Lombroso (foi), outro caluniado!

Cesare Lombroso (1836-1909) foi célebre professor de Antropologia e Criminologia, ainda hoje considerado nestes ramos da ciência. Em Metapsíquica…: embora com notáveis erros próprios da época, sem dúvida que no seu conjunto a obra de Lombroso tem seu lugar garantido na história da pesquisa.

*** Nunca falta Lombroso nessas listas publicadas pelos espíritas. Por quê?

●● Mais uma vez aquela lógica (?) especial. Novamente confundem os fatos com sua interpretação. Ou será que o fanatismo não deixa os espíritas lerem uma frase de três linhas, ficam na primeira linha? Lombroso – como Richet – na frase que sempre citam os espíritas, distingue expressa e insistentemente:

“Sinto-me envergonhado e condoído por ter atacado com tanta tenacidade a possibilidade dos fatos, assim chamados espíritas. E digo os fatos, porque continuo contrário à teoria. Mas os fatos existem, e eu glorio-me de ser escravo dos fatos”. Assim se expressava após toda sua carreira em Metapsíquica, oito anos antes de sua morte, em carta a Ernesto Chiolfi, de Nápoles, assinada em Turim a 25 de junho de 1891. (A carta foi publicada em “La Tribuna Giudiziaria” de Nápoles, a 5 de julho de 1891 – Cfr. Por exemplo, PICONE-CHIONO, C.: La Verità Spiritualistica. I Morti Vivono e Possono Conversare com Noi?, Roma, Luce e Ombra, 1928. Tradução: La Vérité Spiritualiste, Rethel, Ambiorix, 1935. pp. 38 s. – PAPPALARDO, Armando: Spiritismo, 5.ª edição, Milano, Hoipli, 1917 (reedição 1922), p. 13 – Por ser um dos desafiadores ao anteriormente cético Lombroso, cfr. preferentemente o madrilenho ACEVEDO, M. Otero: Los Fantasmas, Buenos Aires, Constancia, 1958, pp. 47 s.).

●● A frase é muito citada e mal-interpretada pelos espíritas.

No seu livro póstumo, publicado apenas um mês depois da imprevista morte, Lombroso reafirma a sua conversão aos fatos, não à interpretação espírita. O livro inteiro é uma defesa dos fatos e mostra a seriedade com que o ilustre professor dedicara muitos anos de sua vida ao estudo dos fenômenos chamados espíritas que na realidade se dão também em outros ambientes completamente independentes de qualquer vinculação com os mortos, como no hipnotismo.

Luiz Roberto Turatti disse...

Os escritos de Allan Kardec, com apenas 150 anos, são contraditórios para a nossa época. Se Kardec fosse vivo hoje estaria rindo de suas próprias e precipitadas conclusões.

Gostaria de lembrar que já estamos no século XXI; o homem já foi à Lua, há quase 40 anos; animais já foram clonados, de há muito; está demonstrado pela NASA que em Marte e em Júpiter não há vida humana, como Chico Xavier alardeou num passado não muito distante; hoje, num piscar de olhos, trocamos mensagens via internet visualizando nosso interlocutor; teleconferências; iPhone; TV digital…

Lembro também que nossa imaginação é naturalmente muito fértil, em especial quando somos mais ou menos supersticiosos. Espalhar – sem pesquisar, sem estudar, sem acompanhar, sem constatar etc., de todos os pontos de vista – suposições que podem ser mais invenções do que realidade é irresponsabilidade!

Estudos de especialistas constataram que a alma (ou o espírito) não pode se separar do corpo, nunca. Ao nascermos nascemos inteiros, corpo e alma, numa peça só. Quando morremos, morremos inteiros, também, corpo e alma, numa peça só, assim como um animal que gera um animalzinho, uma planta que gera uma plantinha… Tudo numa peça só! Para bom entendedor e racionalmente falando, observem que é impossível a alma vir sei lá de onde e introduzir-se num corpo para animá-lo. Da mesma forma que ao morrermos nosso corpo vá para o cemitério e a nossa alma fique “vagando”, aguardando uma impossível e quixotesca “reencarnação”, ou vá para o “céu” ou para o “inferno”, que na verdade são estados, e não locais.

Finalizando, há anos imploro a Deus para que meus pais, já falecidos, falem comigo… Nunca consegui. Será que sou discriminado por Ele? Mas, Deus, não pode discriminar ninguém! Como é isso?! Espíritas, não me digam, por favor, que tenho de “desenvolver”, ou que não tenho “dom mediúnico”, ou que devo ir a um “centro espírita” para o meu intento. Por que eu deveria ir a um “centro espírita” para ouvi-los, por meio de um estranho, este, pretendido intermediário do além com o aquém, e vice-versa, se eu vivi com meus pais até que eles morressem em minha casa? É muito descaro, mesmo!

Pobre Brasil, até quando será ridicularizado, mundo afora, por tanta impunidade?!