quinta-feira, 24 de setembro de 2026

ONDE SEMPRE

ONDE SEMPRE
Uma novela curta sobre o luto e as estradas do tempo

Tadeu Everton Zamoiski  

A chuva tinha dado uma trégua, mas o asfalto da rodoviária continuava espelhado de água. Davi cruzou a catraca quando passava das onze e vinte. O terminal estava às moscas: um sujeito jogado num banco de ferro e um casal discutindo baixo perto da Graciosa. A mulher limpava o nariz na manga do casaco; o homem jurava por tudo que não era nada do que ela estava pensando. Davi passou reto. Não era do feitio dele se meter.
Nem devia estar ali, para início de conversa. Tinha casa, tinha cama. Só que, desde que o Mateus sumiu, seis anos atrás, dormia picado — duas, três horas, quando muito. Saía de casa quando o corpo pedia perna e só voltava quando a vista começava a embaçar de sono.
O ônibus para Matinhos já estava encostado na última plataforma, roncando fraco para sair às 23h40. O motorista era um coroa magro, de uniforme meio desbotado e caspa acumulada na gola. No painel, presa com um pedaço de fita amarelada, tinha a foto de um menino de costas, olhando a praia. Davi não deu muita atenção.
— Vai saltar no lugar de sempre? — perguntou o velho, sem olhar na cara dele enquanto pegava a nota.
Davi estranhou.
— É a primeira vez que pego esse horário.
O homem segurou o troco na mão por um segundo a mais, medindo Davi de cima a baixo.
— É. Todo mundo fala isso.
Davi subiu. Pegou a janela, três fileiras atrás do volante. O carro cheirava a óleo queimado e banco de plástico surrado, com aquele gosto azedo de café de garrafa que ele tinha tomado antes de sair grudado no céu da boca.
O ônibus arrancou. As luzes da cidade foram sumindo até restar só a escuridão da estrada e o barulho dos pneus no molhado. A garoa voltou logo em seguida, batendo fraco contra o vidro.
Na primeira parada, entrou uma senhora de vestido florido carregando aquele cheiro forte de alfazema. Dona Alzira. Morava na rua da mãe dele, lá na Vila Torres; faleceu ele não devia ter nem dez anos. Davi lembrou do caixão na sala e dele mesmo chorando escondido atrás dos tijolos no quintal.
Ela sentou duas fileiras adiante. Sem se virar para trás, soltou:
— Como você cresceu, menino.
Davi travou o maxilar. A boca virou um deserto.
Na parada seguinte, subiu um moleque de boné de aba reta. Não devia ter dezoito anos. Acomodou-se do outro lado do corredor, tirou um pão de queijo frio de um saco de papel e ofereceu para Davi sem dar uma palavra. Davi só encarou. O piá deu um dar de ombros, comeu sozinho e enfiou o fone no ouvido, ficando com o olho pregado na tela preta do celular.
Depois, do nada e sem tirar o olho do aparelho, perguntou:
— O Mateus não vem hoje não?
Davi apertou o ferro do banco da frente com tanta força que o nó dos dedos ficou branco.
— O quê?
O moleque nem piscou. Continuou mastigando, olhando para o nada. Não falou mais nada o resto da viagem.
Na terceira parada, entrou uma menina de uniforme de colégio. Cheiro de borracha e de merenda. Sentou logo atrás dele, abriu um caderno com espiral e começou a rabiscar de lápis. Davi espiou pelo vão do banco: era o desenho de um ônibus, mas sem roda, sem chão sob a lataria, flutuando na folha. Ela nem olhou para ele, só continuou desenhando.
Na quarta, subiu um sujeito de barba grisalha com um violão surrado. Foi direto para o fundão. Começou a afinar, tentou puxar o começo de Asa Branca, errou a nota, soltou um palavrão baixo. Afinou de novo. Tentou de novo. Errou no mesmo lugar.
Aquele barulho irritante fez Davi lembrar dos quinze anos do Mateus. O moleque queria um violão de aniversário. Davi cortou na hora: disse que era bobagem, que tinha que focar no estudo, que música não dava futuro para ninguém.
O sujeito lá no fundo finalmente conseguiu tocar a música até o fim, triscando duas notas erradas no meio, mas sem parar.
Quando o ônibus reduziu no próximo acostamento, Davi olhou para o fundão de rabo de olho. Tinha outro rapaz sentado lá. Não tinha visto ele subir em parada nenhuma. Ele já estava ali.
Tinha uma mochila no colo.
Azul. Zíper emperrado. Um chaveiro de peixe meio descascado e uma mancha amarelada de tinta no bolso do lado.
A mochila do Mateus.
Davi levantou. As pernas pareciam de pano. Foi andando pelo corredor meio cambaleando, esbarrando nos bancos. Sentiu o estômago dar uma volta — não tinha comido nada desde o meio-dia.
O rapaz ergueu o rosto. Vinte e poucos anos, barba rala, aquele cabelo enrolado igualzinho ao da Marisa. Passou o nó do polegar no nariz — o tique que Mateus tinha desde pequeno.
— Essa mochila...
O rapaz pegou a alça e estendeu para a frente.
— Ele pediu para te entregar. Falou que você ia vir no último carro.
Davi esticou a mão para tocar no ombro do filho, mas os dedos passaram no vazio, como se atravessassem vapor de água quente.
— Não dá, pai — disse o rapaz. A voz era comum, sem drama. — Ninguém consegue.
Davi recolheu a mão devagar. Os dedos estavam gelados.
— Você está mais alto.
Foi a coisa mais idiota que conseguiu falar. Soube disso no mesmo segundo em que a frase saiu. Um homem feito dizendo aquilo para o fantasma do filho.
O rapaz deu uma risadinha curta.
— Pois é. Cresci.
Davi olhou em volta, meio tonto.
— Cadê ele?
O rapaz olhou para fora. Lá fora era só mato e chuva.
— Você sabe por que eu não voltei, pai? Porque toda vez que eu tentava, você já estava lá na praia me procurando. E eu não sabia como te explicar que eu não estava mais lá.
Davi sentou no banco do lado, o couro sintético estalando sob o peso. Encostou a cabeça no vidro frio.
— Mateus...
— O quê?
— Eu só queria te ver, filho.
— Eu sei.
— Eu queria acertar as coisas.
— Pai. — O rapaz virou a cabeça. E aí Davi viu de verdade. O jeito de morder o canto da boca. Os olhos. — Você estava procurando uma pessoa que não existia mais.
O ônibus deu um solavanco e parou. Dá para ver a linha escura do mar do outro lado do vidro.
— Desce — disse o rapaz.
— E se eu não descer?
— Aí você fica. Mas eu não vou estar aqui amanhã. Nem depois. Eu nunca estive.
Davi ficou olhando para ele. Queria dar um abraço, pedir desculpa por tudo, mas a garganta virou um nó só. Não saiu nada.
Apenas pegou a mochila azul. E desceu.
O motorista fechou a porta e o ônibus foi embora devagar, sumindo na neblina da praia. Davi ficou ali parado na areia úmida. Abriu o zíper com cuidado.
Dentro tinha um caderno, um ingresso desbotado de show em Guaratuba de 2015, uma foto velha dos dois e um pedaço de folha dobrado.
Pai,

Fui para Matinhos. Sei que você vai bravar, mas eu precisava vir. Precisava ver o mar sem você atrás dizendo que é perigoso.

Não vou aprontar nada. Só vou ficar na areia um pouco. Eu odeio areia, você sabe.

Se eu não voltar, não fica atrás de mim. De verdade. Não fica.

Te amo.
Desculpa.

(A caneta falhou no papel. Tem uns três riscos secos antes de continuar)

Não fica triste.
Davi leu aquilo duas vezes. Na terceira, a vista embaçou e ele não conseguiu mais enxergar as linhas. Não chorou alto, só ficou ali parado sentindo o cheiro do próprio casaco sujo de suor antigo.
Tirou o celular do bolso. Ligou. Marisa atendeu logo no primeiro toque.
— Desci — disse ele.
Um silêncio longo do outro lado.
— Eu sei. Estou te esperando.
***
Nas noites seguintes, o peso mudou de lugar.
Davi voltou lá no dia seguinte. O motorista não falou nada. Os mesmos passageiros no mesmo lugar, feito estátua. Davi foi até o fundo, mas o banco do Mateus estava vazio. Só o plástico rasgado do assento. Sentou ali até o ponto final, com a cabeça metida entre as mãos, sem dar um pio.
Voltou para casa de táxi já de manhãzinha. Marisa estava na cozinha, com a mochila azul no colo.
— Você não trouxe ele — disse ela.
— Não tinha nada para trazer.
Ela olhou para a mochila, depois para ele.
— Você está com aquela mesma cara.
— Que cara?
— A de quem prefere continuar procurando para não ter que voltar para casa.
Davi não respondeu. Naquela noite, ela botou o casaco e foi junto.
Quando subiram, o ônibus já estava em movimento. Os mesmos rostos. Marisa segurou na mão dele — a mão dela estava quente, cheirando a sabonete barato.
Lá no fundo, o rapaz da mochila estava sentado de novo.
Marisa foi até lá sem hesitar. Parou do lado do banco. O queixo dela tremeu um pouco, mas ela sentou do lado dele e pegou na mão gelada do piá. Segurou firme, com as duas mãos.
— Eu sei, meu filho — disse ela. — A mãe sabe.
O rapaz olhou para ela e depois para Davi, de pé no corredor.
— Você não queria vir me ver, pai. Você só não queria me deixar ir.
Davi olhou para o chão do ônibus.
— Eu não sabia como.
— A mãe sabia — disse o piá. Ele olhou para a janela, onde o céu começava a desbotar de preto para cinza. — Não esquece do violão.
— Não vou esquecer — disse Marisa.
Ela soltou a mão dele, pegou a mochila e puxou Davi pelo braço.
— Vamos.
Davi olhou para trás uma última vez. O rapaz só deu um tchauzinho de nada com a ponta dos dedos.
Na areia, os dois sentaram juntos vendo o dia clarear. Davi leu a carta em voz alta para ela. Marisa ouviu encostada no ombro dele.
— Ele odiava areia — lembrou ela, limpando o olho.
— Eu sei.
Na volta, pararam na lanchonete da rodoviária e pediram dois pastéis de vento e café preto. Comeram no balcão sem dar uma palavra. A massa quente queimou o céu da boca de Davi, mas ele nem ligou.
No ônibus de linha para voltar para a cidade, Marisa encostou no ombro dele e dormiu na hora. Davi ficou olhando o mato na beira da estrada. Os olhos pesaram. Ele fechou a vista.
Dormiu a viagem inteira.
No sábado, ele foi até o centro. Entrou numa lojinha de instrumentos na Rua XV que cheirava a madeira e verniz. Ficou encarando as paredes cheias de violão por quase meia hora até o vendedor encostar.
— Quer experimentar algum, chefe?
— Sei tocar não — disse Davi.
— Toda hora é hora de aprender.
Davi apontou para um azul-escuro pendurado no alto.
Trouxe para casa no banco de trás do carro. Largou no canto da sala, perto da janela. Na segunda de manhã, Marisa passou pela sala e viu ele sentado no sofá, só olhando para o instrumento parado no pedestal.
Ela não disse nada. Foi para a pia, ligou a torneira e falou alto para o som cobrir o barulho da água:
— Vou passar o café.
Davi assentiu devagar, esticou o braço e deu um toque fraco na corda mais grossa. O som reverberou baixo na sala vazia.

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