Por Tadeu Everton Zamoiski
Valdir tinha cinquenta e dois anos e o corpo moldado por trinta verões roçando o mato alto das casas de veraneio. Orgulhava-se de conhecer o Balneário Ipacaraí pelo cheiro da grama recém-cortada e pela maresia impregnada nas cercas de arame. Naquela quinta-feira de vento frio descendo de Matinhos, a preocupação dele não era o céu escuro; a roçadeira a gasolina estava parada na oficina desde segunda-feira. O mecânico pedira trezentos reais para trocar o pistão e a biela. Valdir tinha apenas cento e vinte reais guardados na carteira de couro gasta. Faltavam cento e oitenta — e, sem a máquina principal, perderia os poucos contratos da baixa temporada.
Para não deixar os clientes na mão, arrastava-se com um aparador elétrico pequeno emprestado pelo cunhado e uma tesoura de poda velha. O aparador esquentava rápido, e a fiação curta exigia três extensões emendadas com fita isolante.
A casa da quadra três estava fechada desde o Carnaval. A maresia tinha comido a tinta verde das paredes, e o muro da frente estava tomado por uma moita densa de picão. Valdir arrastava o fio elétrico pelo terreno quando a ponta da tesoura bateu em algo duro no pé do muro, afundado na areia preta.
Baixou-se com o estalo no joelho de quem já trabalhara demais no dia e raspou a terra com as unhas. Encontrou um carretel de nylon.
Era um pedaço de plástico amarelo queimado de sol, do tamanho de um pires, crostoso de sal grosso e areia seca. Nenhum nome impresso, nenhuma marca de fábrica. Parecia largado ali fazia dez anos. Valdir limpou o cascalho no jeans da calça e viu a ponta do fio sobressaindo.
Puxou por costume, achando que só tinha um cotoco de sobra. O nylon correu. Puxou um metro, dois metros, três metros. O fio saía sem engatar, limpo, gelado como se estivesse guardado num freezer. O carretel continuava leve na mão dele, mas o nylon ia se enroscando no chão feito uma mola sem fim.
Ao tentar cortar o nylon com a tesoura de poda, a lâmina de aço cedeu com um estalo seco, trincando o metal de vez. O fio de nylon não foi mastigado pela ferramenta; ele simplesmente se soltou, frio e intacto, como se tivesse decidido se separar do rolo por vontade própria. Valdir guardou o carretel amarelo no bolso interno do colete. O objeto pesou contra as costelas com um frio denso, que parecia atravessar o tecido da camisa.
Naquela mesma tarde, ao passar pela quadra dois, a dona de uma das poucas casas ocupadas o chamou no portão. Precisava do jardim limpo até a noite para receber parentes de Curitiba. Valdir olhou para o bolso do colete, pensou nos cento e oitenta reais que faltavam na oficina e aceitou o serviço antes de pensar no resto.
Encaixou o fio amarelo no lugar do carretel do aparador elétrico e ligou a extensão. O motorzinho zuniu fino, mas, ao encostar a ponta amarela na macega, o milagre sinistro aconteceu: a vegetação tombou sem resistência, como se pedisse para cair. Em quinze minutos, o terreno estava limpo. A dona da casa, impressionada com a rapidez, pagou cento e oitenta reais exatos em notas novas. Valdir contou duas vezes, em silêncio.
Mas, quando recolheu as extensões, a satisfação sumiu. O ar ao redor do terreno cheirava a maresia podre e sal queimado. A grama cortada não soltava aquele odor fresco de terra molhada; ficara cinzenta, murcha e estaladiça, como se tivesse sido regada com veneno puro. A sua mão direita, que segurava o cabo do aparador, estava dormente e pálida, sem sensibilidade até o pulso.
À noite, na cozinha da sua casa em Matinhos, Valdir alinhou as notas sobre a mesa de fórmica: a nota de vinte, duas de dez e as notas novas recebidas no serviço da tarde. Os trezentos reais do conserto estavam ali, completos. Do lado do dinheiro, o carretel amarelo repousava, doentio sob a luz da lâmpada.
A ponta do nylon deu um estalo seco na fórmica.
Valdir tentou segurar a xícara de café, mas a mão direita continuava dormente, sem força; precisou usar a esquerda. Sem vento na cozinha fechada, o fio esticou dois centímetros. Depois, mais três. Deslizou pela borda da mesa, contornou a nota de vinte reais como se a reconhecesse e começou a descer pelo pé de ferro da cadeira.
O nylon tocou o chão de cimento e veio rastejando, silencioso, até a bota suja de barro. Começou a subir pela barra da calça, trazendo aquele frio de geladeira contra a pele da perna.
Valdir não gritou. Não se levantou da cadeira. Sentiu o carretel no bolso interno pulsar frio contra as costelas. Olhou para o dinheiro do conserto e para o fio amarelo que o abraçava bem devagar. Ele não afastou o fio. Na manhã seguinte, teria outro jardim para roçar.
E o fio, frio e paciente como uma dívida, não tinha pressa.
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