A Parelha
O mar sempre repõe quem falta
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
Osvaldo conhecia as canoas pelo som, antes mesmo de enxergá-las no quebra-mar. Cada uma falava com a água de um jeito. A do Duda batia leve — ele remava depressa no começo, ia afrouxando perto da areia, guardando braço para a hora de puxar. A do Ivo fazia um estalo seco, curto, desde que trocou a velha por essa nova que ainda não tinha jeito com o mar.
As duas formavam a parelha. Mas o trabalho era de cinco. Duda e Ivo na frente. Marcão, ele e o outro — o que mudava — se arrumavam entre os barcos e a praia, conforme a rede ia fechando. Os quatro primeiros eram sempre os mesmos. O quinto vinha e ia. Dependia da estação, de quem estivesse livre, de quem aguentasse o frio e o peso.
Marlene ligava de Curitiba quase todo domingo. Perguntava quando ele ia parar. Tinha dois meninos pequenos e não entendia por que o pai levantava antes das cinco para fazer a mesma coisa que fazia desde menino.
— Já dei minha parte, pai.
— Ainda tenho braço — ele dizia. E perguntava dos netos, deixava a conversa desviar.
A tainha demorou naquele ano. Maio passou sem nada que prestasse. Junho chegou e os barcos voltavam magros. Os mais velhos cochichavam: água quente, corrente mudou. Ninguém sabia dizer direito. Na terceira semana de junho, Duda bateu à porta antes de o sol nascer. Vira uma mancha escura lá pela Prainha.
Naqueles dias, o outro era Neno.
Vinte e poucos anos, calado demais. Aparecera dois invernos antes. Ninguém lembrava de onde. Não tinha barco próprio. Ficava onde faltava mão. Com Duda, com Ivo, na areia segurando a ponta. Andava leve, às vezes você olhava e ele já estava lá, sem ter ouvido chegar. Não reclamava do vento, não reclamava de nada.
Osvaldo gostava.
— Esse fica — disse a Marcão.
— Até quando?
— Até aparecer outro.
Riram os dois. Sem graça, mas riram.
A rede fechou bem naquela manhã. Duda foi para um lado, Ivo para o outro. Marcão com Duda, Neno com Ivo. Ele ficou na areia até a água puxar para o sul; então entrou. Os cinco juntos. A rede veio pesada. Os peixes brilharam quando caíram, ainda se mexendo. Ninguém falou muito — só corda estalando, água batendo no casco, um chamando o outro curto.
Quando acabaram, ele ficou olhando a marca na areia. Um arco largo, quase fechado. Contou os passos. Trinta e cinco. Na semana anterior, trinta e dois. Não disse nada a ninguém.
O caderno era de capa preta, folhas amareladas, comprado há anos na papelaria em frente à Praia Central. Hábito do pai — anotar o que ninguém mais guarda. Escreveu:
14 de junho. Mar mexido. Duda, Ivo, Marcão, Neno, Osvaldo. 82 tainhas.
Depois:
21 de junho. Vento fraco. Duda, Ivo, Marcão, Neno, Osvaldo. 79 tainhas.
A pesca melhorou. Gente começou a aparecer na praia. Ele continuou contando. Quarenta e um. Depois quarenta e três. O arco crescia, como se o espaço fosse se ajeitando de outro jeito.
Ivo percebeu.
— Está medindo a areia agora?
— A rede.
— Para quê?
— Não sei.
Ivo riu. Ele acompanhou, mais por não deixar o outro rir sozinho.
Dias depois, achou a foto. No fundo da gaveta, entre conta paga e um relógio parado há não sabia quanto tempo. Era de 98, tirada ali na frente do rancho, numa temporada boa. Reconheceu todo mundo. Depois contou de novo. Seis.
Seis pessoas.
Um homem na ponta, um pouco afastado. Camisa xadrez desbotada, chapéu de palha amassado. Não sorria. Olhava para quem tirava a foto, como se estivesse esperando. Osvaldo ficou olhando um tempão. Não lembrava.
Levou para o rancho no dia seguinte. Duda aproximou o rosto.
— Quem é esse?
— Não sei.
— Deve ter ajudado uns dias. Veio e foi. Não lembro.
Devolveu a foto e voltou para a rede. Ele guardou na carteira.
No domingo, olhou de novo. O homem não estava mais lá. Só o muro. Sem rasgo, sem marca. Virou a foto dos dois lados. Nada.
Abriu o caderno à noite. Procurou 98. A página estava quase apagada:
7 de julho de 1998. Mar mexido. Duda, Ivo, Marcão, Osvaldo. 61 tainhas.
Um buraco branco depois do nome dele. Como se alguém tivesse escrito e passado borracha. Não lembrava de ter feito isso. Passou para a frente. E viu:
Neno não veio hoje.
A letra era dele. O N apertado, fechadinho — a professora já puxava a orelha por isso. Leu duas vezes. Não lembrava de Neno ter faltado. Quanto mais pensava, mais parecia que ele estava sempre lá.
De manhã, Duda arrumava os remos. Apontou um cabo.
— Lembra do rapaz que amarrava um pano vermelho aqui?
— Que rapaz?
— Antes do Neno. Não lembro o nome.
— Como era?
— Normal. Novo.
Osvaldo tocou a madeira áspera. Não viu rosto nenhum. Mas lembrou do pano: vermelho, desbotado, balançando quando alguém içava a canoa.
— Tem certeza?
— Tenho.
Não perguntou mais. Procurou no caderno. Nada.
Começou a pensar em ficar. Em casa, com os netos, sem acordar antes do sol. Marlene ia gostar. Mas tinha uma coisa que doía mais: a ideia de outro no lugar dele. Bobagem, sempre teve alguém novo. Sempre vai ter. Mesmo assim, não saía da cabeça.
Na véspera da saída, ficou na varanda. O vento trazia cheiro de mar e de mato. Uma porta batia na casa ao lado. Um carro passou devagar e depois ficou só o som da água. Lembrou do pai. As mãos grossas, rachadas, sempre cheirando a peixe. O dia em que ele foi: manhã igual a essa. Nada de especial.
Não foi. Ficou sentado vendo Duda e Ivo levarem as canoas. Duda com Marcão. Ivo com Neno. O outro na areia. Conhecia aquela ordem. Já tinham feito assim tantas vezes.
O café esfriou. Meio-dia, pegou o caderno. Abriu. Duda, Ivo, Marcão, Neno, Osvaldo. Nada sobre hoje. Passou o dedo no próprio nome e fechou. Não abriu mais.
Voltaram quando o sol estava baixando. Ele foi até a rua. Duda, Ivo, Marcão, Neno — e mais um, de costas, puxando a rede. Contou. Cinco. Duas vezes.
Ivo chegou todo molhado.
— Melhorou? Puxou igual a rapaz.
Osvaldo não disse nada.
— Não lembra? — Ivo estranhou e foi ajudar.
Ele olhou as mãos. Cortes novos, finos, onde a corda aperta. Um ainda sangrava. Fechou os dedos. O sal ardeu.
Tirou a foto de 98 à noite. Olhou os cinco homens.
Não conseguiu lembrar quem faltava.
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