Um conto de Morretes
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
A chave caiu do bolso do casaco quando joguei tudo sobre a cadeira.
Fez um barulhinho baixo, mas pareceu enorme naquela sala vazia. Fiquei parado olhando para o piso escuro, tentando achar entre as tábuas o que tinha caído. Lá fora a chuva batia nas janelas fechadas. A casa estava assim desde que minha mãe, Helena, partiu, há três meses: algumas coisas ainda no lugar onde ela deixara, outras empacotadas sem eu ter coragem de olhar direito. Tinha aquele silêncio esquisito das casas onde alguém morre — tudo limpo, tudo no lugar, mas nada realmente em ordem.
A chave estava molhada.
Olhei para o teto. Nada pingando. Fui até a janela, verifiquei o trinco — fechado, sempre estivera. Passei a mão pelo casaco. Seco. Agachei e peguei a chave. Gelada. Uma rebarba cortou o dedo. Soltei um palavrão baixo, levei o dedo à boca, e quando olhei de novo vi uma gota escorrer pelo metal.
Depois outra.
Não vinha de lugar nenhum que eu conseguisse enxergar.
Coloquei a chave sobre a mesa. Foi então que vi a etiqueta amarelada.
14
Fiquei olhando aquele número. E veio devagar: chuva fina, um corredor apertado, uma porta pintada de verde.
Morretes.
Julho de 2013.
Treze anos — faltavam só algumas semanas para completar. Não sei por que esse detalhe me pareceu importante.
Abri a última caixa que ainda estava no chão. Vinha adiando isso. Roupas eram fáceis. Louças também. Documentos, nem tanto. As fotografias deixei por último porque sempre acabava sentado no chão, olhando para quem já não estava aqui.
No meio de contas e papéis antigos achei um envelope amarelado.
Dentro, uma foto da Pousada Estrela do Vale.
Eu e Helena diante da fachada, debaixo de chuva. Lembrei de ter pedido que ela olhasse para a câmera.
Ela não olhou.
Estava olhando para o segundo andar.
Cheguei mais perto da luz. Entre duas janelas, a porta verde. O número quase sumindo, mas dava para ver.
14
Virei a foto.
No verso, minha própria letra:
Morretes, julho de 2013.
Abaixo:
Helena ficou no quarto.
Li duas vezes. Reconheci a caligrafia, mas não lembrava de ter escrito aquilo.
Sentei.
Durante anos guardei daquela noite uma história simples: a gente discutiu, ela ficou, eu fui embora. Voltei para Curitiba. Era só isso.
Ou era o que eu consegui me convencer a lembrar.
Peguei a foto de novo. Tentei entender por que ela tinha ficado. Veio uma imagem: ela sentada na cama, a mão apoiada na perna. Só isso. Depois a imagem sumiu.
Coloquei a foto na mesa.
Atrás de mim, alguma coisa fez um barulho seco.
Virei depressa.
A chave continuava no mesmo lugar. Uma gota descia devagar pela etiqueta.
Dessa vez não toquei.
• • •
No dia seguinte procurei a pousada na internet.
Ainda aparecia em cadastros velhos, mas as fotos mais recentes mostravam um prédio mais gasto, menor, e só doze quartos.
Doze quartos — sussurrei. Os outros quatro não simplesmente fecharam. Foram apagados.
Achei uma página de turismo que ninguém atualizava há anos.
Pousada Estrela do Vale. Dezesseis apartamentos.
Ampliei a imagem. Os números estavam borrados, mas dava para distinguir: 13, 14, 15 e 16.
Fiquei olhando para a tela.
Naquela semana eu precisava ir a Paranaguá a trabalho. Saí de Curitiba pouco depois das sete, a foto no porta-luvas, a chave no bolso. Chovia desde a saída. A neblina cobria a serra.
Cheguei cedo em Morretes. Em vez de seguir viagem, parei diante da pousada.
O lugar parecia menor do que na foto. O mato tomava o jardim, a pintura descascava, e na lateral uma faixa de reboco mais clara, como se tivessem arrancado uma parte do prédio.
Uma senhora varria a calçada ao lado. Mostrei a foto.
Ela olhou de perto.
— Faz tempo isso.
— Treze anos.
— Mais ou menos.
— A senhora sabe se aqui já teve dezesseis quartos?
— Teve. Os outros ficavam nos fundos. Fecharam faz muito tempo.
— E o quarto 14?
Ela parou de varrer.
— Você ficou lá?
— Minha mãe.
Ela me olhou de um jeito calado.
— Procura o Nivaldo. Trabalhava aqui. Mora mais nos fundos agora.
E voltou a varrer.
• • •
Nivaldo estava num escritório pequeno, lá atrás. Reconheceu Helena antes de me reconhecer.
Pegou a foto, ficou olhando um bom tempo.
— Ela esteve aqui.
— Esteve.
— Você era o menino.
Confirmei.
— Eram dezesseis quartos?
— Eram. Os de número 13 a 16 ficavam numa extensão lá no fundo. Deu infiltração, fecharam a ala. Ficaram só os doze da frente.
Tirou um livro grosso do armário, abriu numa página de julho de 2013.
— Helena. Mauro. Quarto 14. Entrada, dezoito e quarenta e duas.
Do lado da saída, o horário: vinte e três e dezoito. Só ao lado do meu nome.
Senti um peso no peito.
— Ela não saiu comigo?
— Você saiu primeiro.
— Eu lembro disso.
Ele não falou mais nada.
— Dá pra ver onde ficavam os quartos de lá?
— Três portas ainda estão lá: treze, quinze e dezesseis.
— E o 14?
— A parede foi feita por cima.
Abriu uma gaveta e tirou um cartão dobrado.
— Ela deixou isso comigo.
Abri. Só o nome da pousada e o número 14.
— Por que guardou?
Deu um sorriso meio triste.
— A gente guarda umas coisas sem saber por quê.
Quando eu ia devolver, ele disse baixo:
— Ela chorou depois que você foi embora.
• • •
Fomos até a parte de trás. Um corredor estreito, canos à mostra, cheiro de mofo e umidade.
No fim, três portas.
13
15
16
Entre a 13 e a 15, uma parede lisa, sem marca nenhuma.
Fiquei parado. Na foto, a porta verde ficava exatamente ali.
Passei a mão naquela parede. Fria.
— Era aqui?
Nivaldo acenou com a cabeça.
Tirei uma foto com o celular. No canto da tela apareceu uma mancha escura.
— Olha isso.
Ele não chegou perto.
— Reflexo.
Limpei a lente. A mancha continuou.
— Vamos voltar — disse ele, e já ia andando.
Fiquei mais um instante. Ouvi alguma coisa do outro lado da parede — parecia uma cadeira sendo arrastada. Dei um passo para trás. O som parou.
• • •
O compromisso em Paranaguá terminou por volta das quatro. Podia ter voltado direto para Curitiba, mas peguei a estrada de volta para Morretes. Jantei sozinho e fui num hotel simples, perto da rodoviária.
Acordei às três da manhã.
E a pergunta veio nítida:
Você vai voltar?
A memória se abriu de uma vez.
Helena sentada na cama, a mão apertando a perna. Custou a se levantar aquela noite. Ficou apoiada na cadeira antes de conseguir andar até a janela. Perguntei se estava bem. Disse que sim.
Dizia isso há semanas. Dor nas costas, cansaço, sumia no banheiro e voltava escondendo alguma coisa na bolsa. Vi os remédios uma vez. Perguntei o que era.
— Nada importante.
Naquela noite me pediu:
— Quando a gente voltar, você me leva no médico?
Eu estava bravo. Não com ela — comigo mesmo, por não saber como cuidar. E fugi.
— Não posso ficar resolvendo tudo sozinho pra você.
Ela ficou calada, olhando as próprias mãos. Depois perguntou, bem baixinho:
— Você vai voltar?
Eu já estava de costas, abrindo a porta.
— Amanhã.
Não voltei.
No dia seguinte não. Na semana seguinte não. Os anos foram passando, um sobre o outro, até que aquela noite parecesse coisa de outra vida.
• • •
Voltei à pousada às oito da manhã. Nivaldo ainda não tinha chegado. A porta dos fundos estava destrancada. Entrei.
As mesmas três portas. E a parede no meio.
Cheguei perto. Encostei a mão. Senti uma saliência de metal, quase escondida. Tirei a chave do bolso — úmida, como sempre.
Encaixei onde devia estar a fechadura.
Girei.
A parede abriu devagar, como uma porta.
Do outro lado, o quarto. Cama arrumada, cadeira junto à janela, um copo com água pela metade, cortinas azuis fechadas. E o cheiro — antes de qualquer coisa, o cheiro do sabonete que ela usava em casa.
Entrei.
Na cadeira, o meu casaco. O mesmo que eu tinha jogado sobre a cadeira em casa. Faltava um botão na manga.
Não toquei. Tinha um envelope no bolso. Abri. Uma fotografia.
A fachada da pousada. Eu e Helena do lado de fora. A porta verde aberta. E lá dentro, alguém de costas, segurando uma chave.
Virei a foto.
Você saiu. Eu fiquei.
Fechei os olhos. E veio tudo de uma vez:
— Você me leva no médico quando voltarmos?
— Não posso resolver tudo sozinho.
— Você vai voltar?
— Amanhã.
Saí. Fechei a porta atrás de mim. E ouvi ela chamar meu nome.
— Mauro.
Eu ouvi. Parei no corredor, mão ainda na maçaneta. Sabia que se virasse, não teria coragem de ir. Então segui andando.
Abri os olhos.
Ela estava sentada na cama. Blusa azul. Cabelo preso. Não sorriu, não precisou. Só disse:
— Você demorou.
Não consegui falar. Ela se levantou e eu desviei o olhar. Quando olhei de novo, estava sozinho. O copo, a mesa, tudo igual. Só o cheiro ficou.
No verso da foto, outra frase aparecera:
Você prometeu que voltaria.
Guardei e saí. A porta fechou. No corredor, só a parede lisa entre a 13 e a 15.
• • •
Nivaldo me esperava lá embaixo. Olhou primeiro nos meus olhos, depois para a mão onde ainda segurava a chave.
— Encontrou?
— Encontrei.
— Ela estava esperando?
— Esperou. Muito.
Quando eu já ia saindo, ele disse:
— Não volte sozinho.
— Por quê?
Olhou fundo pra mim.
— Porque daquela vez você também não foi sozinho.
— Quem estava comigo?
Ele não respondeu. Só olhou pra chave.
• • •
A chuva tinha parado quando peguei a estrada. A serra envolta em névoa. Dirigi sem ligar o rádio. Antes de guardar a foto na gaveta, voltei a olhar a imagem antiga. Lá estava: a mancha escura, bem no lugar onde a porta verde ficava. Estivera ali o tempo todo. Não era defeito. Era ela, esperando que eu finalmente olhasse direito.
Guardei a foto e deixei a chave sobre a mesa. Tomei banho, fiz café. Quando voltei, a chave não estava mais lá.
Procurei. Abri a gaveta. Estava lá, ao lado da foto. A etiqueta tinha mudado. O número 14 sumiu. Em seu lugar:
HELENA
Fechei a gaveta. A chuva voltou a cair. E ouvi uma chave entrando devagar na fechadura da porta da frente.
Fiquei parado. Metal contra metal, uma pausa, a maçaneta girando. O cheiro do sabonete chegou antes da porta se abrir. Olhei pra minha mão. A chave estava seca.
A porta abriu um pouco. Do outro lado, a voz que eu conhecia perguntou:
— Você vai voltar?
Dei um passo à frente. E respondi, baixinho, mas claro:
— Já estou.
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