Tadeu Everton Zamoiski
A placa apareceu. Exatamente no km 47.
Soube, antes de entender por quê, que não era para estar ali.
Paranaguá–Curitiba. Duas vezes por semana. Dez horas. BR-277. Conhecia cada curva, cada buraco, cada luz que se apaga antes da meia-noite. Confiava naquela estrada mais do que em si mesma. Contava os quilômetros sem querer: 45… 46… 47.
Lá estava.
Restaurante do Porto — 2 km.
Torta. Enferrujada. Fincada no acostamento como uma cicatriz.
Passou direto. O peito apertou devagar, como quem reconhece uma dor que pensava ter esquecido. Lembrou-se: um sábado de sol, há muito tempo. Os dois foram até Morretes sem motivo nenhum, só para sair de casa. Ele pediu peixe; ela, frango. Ficaram horas na varanda, olhando o rio correr. Lembrou-se da camisa azul, do sol no rosto, do cheiro de peixe fresco misturado ao vento.
Mas aquele lugar não existe mais. Fogo. Novembro de 2009. Nada além de ruínas desde então.
Seguiu. A garoa deixava o asfalto brilhante. Os faróis em sentido contrário abriam manchas douradas na pista molhada. Dirigia com as duas mãos no volante, os olhos fixos, a mente em outro lugar. Doze horas em pé no hospital. Lombar doendo de um cansaço que não se vai com banho quente. A mãe esquecendo nomes, rotas, até de comer se não lhe lembram. A cuidadora que pediu demissão. A família que ficou no corredor a noite toda, esperando notícias que não vieram. E ele. Sempre ele. Sem querer. Como a neblina que sobe devagar e cobre tudo.
Chegou a casa. Tomou banho. Comeu um sanduíche em pé. Deitou-se.
Não contou a ninguém. O passado voltara para ocupar o lugar onde ela nunca parou.
— Não contou a ninguém. O passado voltara para ocupar o lugar onde ela nunca parou.
• • •
Dois dias depois. O mesmo trajeto. A mesma hora.
45… 46…
A placa estava lá. O mesmo lugar. A mesma ferrugem. A mesma seta torta.
Pisou no freio. O carro reduziu. Quase parou. Depois acelerou de novo.
"Sempre esteve ali", pensou. Passo por aqui cansada, com a cabeça cheia de outras coisas. Não vi antes. É só isso.
Naquela noite sonhou com ele. Estava sentado à mesa 4, de costas para a porta, com a camisa azul que usava no verão. O prato intacto à sua frente. A luz amarela e fraca, e, do lado de fora das janelas, a neblina cobria tudo. Ela tentou chamar. A voz não saiu.
Acordou. Coração batendo forte. Lençol úmido. Quarto escuro. Ficou deitada até o sol nascer, sem dormir de novo.
• • •
Sábado. Casa da mãe. Bairro do Portão. O apartamento pequeno cheirava a café frio e televisão ligada em volume alto. A cuidadora saíra na sexta. A mãe andava devagar, como se reaprendesse a estar só.
Vera foi ao quarto dele. Tudo igual. Dezesseis anos. Camisas no armário. Livros na estante. Fotos na parede. Ela evitava entrar ali. Naquele dia, entrou.
Gaveta da escrivaninha. Boletins escolares. Cartas amareladas. No fundo, uma fotografia.
Caio na porta do restaurante. Sorrindo. Braço levantado. Fachada branca e azul. Virou a foto. A letra dele, firme: Restaurante do Porto — 14 de março de 2010.
Jurava que o fogo tinha sido antes. O fim, tudo antes. Mas a data estava lá. Clara. Inconfundível. E a letra era dele.
Guardou no bolso. Desapareceu em casa. Revirou a bolsa, o carro, a cozinha. Nada. De manhã, estava em cima da mesa, bem no meio. Como se alguém a tivesse colocado ali enquanto dormia.
• • •
Caio desapareceu naquele dia. Foi a Morretes sozinho, num sábado, e não voltou. O carro encontrado no acostamento, perto da saída. Chave na ignição. Porta aberta. Ninguém. Buscas por uma semana. Cães. Helicópteros. Nada. Nem rastro.
Vera nunca disse que viu o carro.
Passou por ali pouco depois da meia-noite, voltando de uma festa em Curitiba. Viu o pisca-alerta aceso. Reduziu a velocidade. Pensou em parar. Estava cansada, com sono, e não havia ninguém à vista. Seguiu.
Dois dias depois, a polícia ligou. Era o carro dele.
Nunca contou. Nunca disse que podia ter parado.
Na casa da mãe, quando o assunto vinha à tona, ela se levantava e ia lavar a louça. Um dia, a mãe disse, sem olhar para ela:
— Você era muito nova para carregar aquilo.
Vera não respondeu. Não perguntou se falavam dele ou do silêncio que crescera entre as duas. Ficou calada.
— Você era muito nova para carregar aquilo.
• • •
Terça-feira. Saiu mais cedo do plantão. Parou num posto. Frentista magro, uns sessenta anos, boné sujo, cigarro atrás da orelha.
— Conhece o Restaurante do Porto?
— Fogo. Fechou faz tempo.
— Há uma placa na estrada. Ainda.
— Placa velha. Ninguém tira.
— E a estrada que leva até lá?
— Mato. Não leva a lugar nenhum.
Ele fechou o tanque. Ficou um instante em silêncio, olhando para ela.
— A senhora já perguntou isso.
Vera franziu a testa.
— Já?
Ele deu de ombros e voltou para dentro, como se nada tivesse dito.
Pagou. Pegou o recibo. No canto, pequeno: Nº 47.
• • •
Seguiu. A placa apareceu no mesmo lugar. Virou à direita. O asfalto acabou de repente. Estrada de terra. Buracos. Pedras. Mato batendo nas laterais do carro. Percorreu uns dez minutos. E ali estava.
O prédio não fora demolido. Paredes de pé. Telhado parcialmente desabado. Janelas quebradas. Tinta branca e azul descascando. Mato cobrindo o estacionamento. Tudo quieto, tudo abandonado — exceto uma luz.
Amarela. Fraca. Oscilando lá dentro.
Desligou o motor. Ficou um minuto ouvindo o silêncio. Pegou a lanterna. Desceu. A porta estava entreaberta. Empurrou-a devagar. Cheiro de mofo e madeira queimada. Mesas cobertas de poeira. Garrafas vazias no balcão. Um rádio antigo, parado. Ninguém.
Caminhou até o balcão. Um caderno aberto. Páginas amareladas. Na última, escrito com firmeza:
Mesa 4 — Caio — 1 café.
Olhou para a mesa do canto. Uma xícara sozinha no centro. Tocou a porcelana. Fria.
A letra… era dela. Reconheceu o jeito de desenhar o C, a pressão da caneta no papel, o pequeno borrão depois do nome. Não lembrava de ter escrito. Não lembrava de ter estado ali. Mas era dela.
Saiu devagar, sem olhar para trás. Quando voltou à BR-277, olhou o painel:
23h47.
Passara mais de uma hora desde que saíra do posto. Olhou de novo. O número não mudou.
Chegou a casa. Relógio da cozinha: 23h47. Celular: 23h47. O tempo não parara. Simplesmente não avançava. Esperando que ela decidisse.
Ficou parada entre os três relógios até o do micro-ondas piscar e passar a marcar 00h12.
De manhã cedo, notou: os pneus cobertos de barro vermelho. Barro de estrada de terra. Não lembrava de ter saído do asfalto.
— O tempo não parara. Simplesmente não avançava. Esperando que ela decidisse.
• • •
Quinta-feira. Voltou. Levou a câmera. Queria registrar tudo. Provar a si mesma que não imaginava.
Chegou. Parou. Tudo diferente. Chão varrido. Mesas limpas. A xícara na mesa 4.
Entrou devagar. O cheiro de café era forte, fresco, como se tivesse sido feito instantes antes. Tocou a borda da xícara. Quente.
Como se ele tivesse se levantado no instante exato em que ela entrou.
Pegou a caneta que estava ao lado. Escreveu por baixo, com firmeza: Vera — 14 de março de 2026.
Fotografou tudo. Saiu. Olhou para trás uma última vez. O prédio estava escuro agora. Nenhuma luz. Nenhuma sombra. Apenas o mato crescendo ao redor.
Em casa, abriu as fotos no computador. Uma por uma. Chegou à última. Ao lado da linha que escrevera, a data mudara. 14 de março de 2010.
Fechou a imagem. Abriu de novo. 2010.
Ficou olhando a tela escura.
• • •
Dia seguinte. Casa da mãe. Encontrou-a sentada na sala, olhando a porta assim que Vera entrou.
— Você foi lá — disse a mãe. Não era pergunta. — Na terça-feira. Você me contou.
Vera franziu a testa. Não lembrava de ter contado. Não lembrava de ter ido na terça-feira. Havia um buraco entre a segunda e a quarta, um vazio que não conseguia preencher.
— Eu disse mais alguma coisa?
A mãe hesitou. Olhou para a televisão, mas não via. Ficou em silêncio um instante.
— Ele nunca foi embora — disse, baixinho. — Só esperava você voltar.
Vera foi ao quarto dele. Abriu o armário. A camisa azul não estava lá. Ligou para o hospital. Confirmaram: não compareceu na terça-feira. Sem aviso, sem justificativa.
Desligou. Ficou parada no meio do quarto, ouvindo o silêncio da casa.
• • •
Mais tarde. Voltou ao quarto. A fotografia estava na cômoda. Virou-a. No verso, a data mudara de novo: 14 de março de 2026. E a letra já não era dele. Era a dela.
Guardou a foto no bolso. Desceu as escadas. O carro estava estacionado na rua, porta aberta, motor desligado. Ninguém. Mas sentiu — nítido, de repente — o cheiro de peixe fresco, de sol na varanda, de um dia que não deveria mais existir.
Entrou no carro. Ligou o motor. O relógio do painel marcava:
23h47.
Dirigiu sem pressa. Passou pelo km 47. A placa estava lá, torta e enferrujada, como sempre estivera. Olhou para a saída. A estrada de terra sumia entre as árvores. A neblina começava a subir.
E compreendeu.
Não era ela que ia procurar.
Era ele que finalmente tinha parado de esperar.
— Não era ela que ia procurar. Era ele que finalmente tinha parado de esperar.
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