sábado, 26 de setembro de 2026

O ABACAXI

O ABACAXI

Tadeu Everton Zamoiski 

Carlos tinha trinta e oito anos, um apartamento na Bela Vista e dois liquidificadores idênticos na cozinha. Um na caixa. O primeiro quebrou, ele comprou o segundo, o primeiro voltou a funcionar sozinho. A caixa ficou no armário. O armário ficou cheio.
Trabalhava numa seguradora havia onze anos. O salário caía todo dia cinco. Ele não olhava o extrato havia meses. Sabia que dava.
O que queria, de verdade, era escrever. Frase. Frase curta, de banca de jornal, do tipo que anotava no caderno pequeno que ficava na gaveta da escrivaninha desde os vinte anos. Fazia três anos que não abria. E não tinha percebido que tinha parado.
Tinha uma unha do dedão que roía sem perceber. Era a unha que denunciava. O resto era contido.
O vizinho de cima arrastava móvel toda quarta. Carlos nunca reclamou. Também nunca soube o nome do vizinho.
***
Na terça, acordou atrasado. Reunião às nove. Duas camisas na cama: a azul, amassada, e a branca, com uma mancha de café na manga desde o ano passado. Fotografou as duas. Mandou pro ChatGPT.
A resposta demorou.
"Considerando que a azul está amassada mas a branca está manchada, e considerando que você está atrasado, eu iria de azul. Uma passada rápida de ferro resolve. Se quiser, posso sugerir também algumas combinações de cores para o resto do look, caso você tenha uma reunião importante. É só me dizer. Estou aqui para ajudar."
Leu até a metade. Vestiu a azul sem passar.
No elevador, percebeu o cheiro de guardada úmida. Não voltou. No trabalho, ninguém comentou.
***
Naquela semana o Ricardo chamou ele na sala. Cinquenta e dois anos, gravata mesmo quando não precisava. Fechou a porta.
— Carlos, senta.
Sentou.
— Esse relatório do mês passado. Você escreveu?
— Escrevi.
— Tem uma parte aqui. "É importante ressaltar que os dados ora apresentados refletem uma análise criteriosa dos indicadores supracitados." Você fala assim, Carlos?
Carlos olhou pro papel. Não lembrava de ter escrito aquilo. Lembrava de ter pedido um relatório profissional. A IA devolveu. Ele copiou. Não leu.
— Foi... eu tava com pressa.
— Não tô te acusando de nada. — Ricardo encostou na cadeira. — Só tô dizendo que você sumiu. Você era o primeiro a chegar aqui. Trazia café pra todo mundo. Fazia piada do Márcio.
Carlos não disse nada.
— Você tá bem?
— Tô.
Ricardo olhou pra ele por um tempo. Depois disse:
— Tá bom. Pode ir.
Carlos saiu. Fechou a porta. Ficou parado no corredor por uns dez segundos antes de voltar pra mesa.
***
Na padaria, Márcio pediu misto quente e guaraná. Carlos pediu o mesmo. Márcio falou de futebol, da mulher, de um problema com o plano de saúde. Depois começou a falar de um cachorro. Um vira-lata caramelo que ficava na frente do prédio dele e que sumiu de repente. Falou uns cinco minutos sobre isso. Carlos ouviu.
Em algum momento, Márcio disse:
— Você tá esquisito, hein.
— Tô não.
— Tá. Você fala como se tivesse lendo.
Carlos riu. Márcio voltou a morder o misto. O cachorro não voltou à conversa.
***
O ChatGPT entrou pela porta dos fundos. Primeiro o arroz. A mãe tentou ensinar quatro vezes por telefone. O ChatGPT explicou em cinco linhas. O arroz saiu solto. Ele mandou foto. Ela respondeu com um emoji de joia. Depois foi tudo o resto.
E teve uma noite que ele não esqueceu. Duas da manhã, não conseguia dormir. Não era preocupação com nada específico. Era aquela coisa solta. Abriu o ChatGPT. Digitou "não consigo dormir".
A resposta veio longa. "Isso é bastante comum. A ansiedade noturna pode estar relacionada a diversos fatores, como estresse acumulado, uso de telas antes de dormir, irregularidade no ciclo circadiano ou até mesmo alimentação. Algumas estratégias que podem ajudar incluem..."
Carlos dormiu antes de terminar de ler.
Não contou pra ninguém.
***
A Renata era dentista. Trabalhava na Vila Mariana. Usava um casaco bege que devia ter uns dez anos. Cheirava a sabonete. Mordia o lábio inferior quando tava pensando em algo que não queria dizer.
Uma vez, num sábado, os dois no sofá vendo um filme ruim de propósito, ela virou pra ele:
— Carlos, você fala comigo como se tivesse ensaiado.
Ele riu. Ela não riu.
Eles tavam juntos havia um ano e quatro meses. Ou quase. Dependia de quem contava.
Numa outra noite, ela tentou. Falou de uma paciente, uma história comprida, cheia de detalhe. Carlos ouviu. Quando ela terminou, ele disse:
— Imagino que deve ser difícil pra ela. Ter que confiar em alguém que tá literalmente te furando.
A frase era boa. A Renata olhou pra ele.
— Você não tá ouvindo.
— Tô.
— Não tá. Você tá respondendo.
Ela levantou. Foi pra cozinha. Ele ficou no sofá. Pensou em ir atrás. Não foi. Abriu o celular. Fechou. Ficou olhando pro teto até ela voltar, uns quinze minutos depois, com a expressão de quem já tinha decidido uma coisa e não ia dizer qual.
***
Ele perguntou pro ChatGPT como saber se estava apaixonado. A IA respondeu em tópicos. "E se for só costume?" Respondeu. "E se ela também estiver só acostumada?" Respondeu. "Você acha que eu devo perguntar pra ela?" E a IA disse: "Acho que essa é uma conversa que vocês deveriam ter entre vocês."
Sensato. Inútil.
Naquela noite ele perguntou pra Renata. Ela mordeu o lábio. Disse que precisava pensar. E o Carlos, em vez de esperar, foi perguntar pro ChatGPT de novo. Não em voz alta. Mas pensou. Pensou que a IA teria respondido melhor.
***
A separação foi num sábado.
A Renata chegou. Tomou água. Sentou no sofá. Disse que ia pegar algumas coisas. O Carlos ficou na cozinha, mexendo numa panela que não precisava ser mexida. Tinha uma meia furada no pé esquerdo. Pensou nisso. Não pensou em mais nada.
Ela voltou com a mala pequena. Deixou a chave na mesa. Pegou o celular dele, que tava no sofá, e entregou.
A tela acendeu.
"Como terminar uma relação sem causar sofrimento desnecessário?"
Renata leu. Leu de novo. Olhou pra ele.
— Você escreveu isso ontem?
Carlos não respondeu.
— Ontem à noite. Enquanto eu dormia aqui.
— Eu não...
— Você podia ter conversado comigo. Pelo menos podia ter perguntado como conversar comigo. Em vez de perguntar pra isso.
Ela disse "isso". Não "ele". Não "a IA". "Isso".
Carlos abriu a boca. Fechou. A Renata olhou pra ele. Esperou. Ele não disse. Ela fechou a porta.
Carlos ficou na cozinha. Olhou pro celular. Abriu o ChatGPT. Digitou "como lidar com uma separação". Ficou olhando. Apagou. Letra por letra. A tela ficou em branco. O cursor voltou a piscar.
Sentou no sofá. O cheiro de sabonete ficou no tecido. Ele não levantou pra abrir a janela.
Lá em cima, o vizinho arrastou um móvel. Era quarta.
***
Depois tentou se comportar como gente normal. Funcionou mal.
No trabalho, escreveu e-mail pedindo ajuda. Em casa, pediu receita de miojo. Antes de dormir, perguntou o que fazer quando não se consegue dormir. A IA sugeriu respiração 4-7-8, chá de camomila, deixar o celular longe da cama. Ele fez a respiração errada, não tinha camomila, e ficou no celular até as três.
E teve o conselho ruim. A IA disse que era importante "respeitar o tempo de luto" e que ele devia "evitar contato por pelo menos trinta dias". Carlos seguiu. Um mês inteiro sem responder a Renata, que tinha mandado três mensagens perguntando como ele tava. Ele leu as três. Não respondeu. Na primeira, abriu o ChatGPT pra perguntar se devia responder. Na segunda, já sabia o que a IA diria. Na terceira, só leu. Fechou o aplicativo.
Numa dessas noites, abriu a conversa com a Renata. Escreveu "oi". Apagou. Escreveu "desculpa". Apagou. Escreveu "eu tô tentando". Leu. Apagou. Fechou o celular. Abriu de novo. Escreveu "oi". Apagou. Deixou o celular na mesa e foi dormir.
No trigésimo primeiro dia, mandou um textão. Escreveu demais. Explicou demais. Pediu desculpas demais. Falou em "processo", falou em "espaço", falou em "respeitar o tempo de cada um". Leu antes de enviar. Achou bom. Enviou. Ela respondeu: "Já resolvi. Boa sorte."
***
No aniversário de trinta e oito anos, perguntou pro ChatGPT o que fazer. A IA deu uma lista. Cinema. Restaurante. Viagem curta. Encontrar amigos. Atividade nova. Descansar. No final: "Lembre-se de que essas são apenas sugestões. O mais importante é fazer o que faz sentido para você."
Carlos leu duas vezes. Se soubesse o que fazia sentido, não tinha perguntado.
Mas seguiu a lista. Cinema de filme que não queria ver. Restaurante em que comeu rápido demais. Amigos com quem riu de coisa que não era engraçada. Caminhada no Ibirapuera. Café que não precisava.
Chegou em casa exausto. Sentou no sofá. Abriu o ChatGPT.
— Meu aniversário foi uma merda.
"Quer falar sobre isso?"
— Quero.
"O que você esperava que acontecesse?"
Carlos pensou. Digitou. Apagou. Digitou de novo.
— Não sei. Alguém aparecer, talvez.
A resposta demorou.
"Entendo. Aniversários podem ser momentos complicados. Às vezes criamos expectativas que não se realizam. Isso pode gerar frustração."
Carlos leu. Leu de novo. Não disse nada.
— Você é um péssimo terapeuta.
"Posso reformular."
— Não. Deixa.
"Sem problemas. Se quiser, posso sugerir algumas reflexões para você fazer antes de dormir, caso isso ajude a organizar os pensamentos. Basta me avisar."
Carlos fechou o aplicativo antes de terminar de ler. Ficou olhando pra tela apagada. Depois foi dormir sem escovar os dentes.
***
Na manhã seguinte, decidiu passar vinte e quatro horas sem perguntar nada. Nada.
Oito e quinze. Guarda-roupa aberto. Azul ou branca. As duas ali, penduradas, desde março. A branca com a mancha. A azul com o mesmo cheiro de guardada úmida.
Vestiu a azul. Sem passar. Sem fotografar.
Na cozinha, fez ovos. Queimou. Comeu assim mesmo.
Às nove e vinte, o celular vibrou.
Renata.
"Oi. Podemos conversar?"
Leu. Leu de novo. O polegar foi até o ícone do ChatGPT. Ficou lá. Um segundo. Dois. O aplicativo começou a abrir. A tela branca. O cursor piscando. Ele fechou.
Escreveu: "Podemos. Quando?"
Enviou. Ficou olhando pra tela. Nada.
Levantou. Foi até a gaveta. Tirou o caderno. Sentou. Folheou. Frases antigas. Algumas ruins. Algumas que não entendia. Numa página do meio, uma que não lembrava de ter escrito:
"Comprei um abacaxi e não comi."
Ficou olhando. Não sabia quando tinha escrito. Não sabia por quê. Virou a página. Não tinha mais nada depois. O caderno acabava ali. Passou a mão nas páginas em branco. Umas dez, talvez. Nunca ia usar. Fechou.
Na contracapa, uma data de dez anos antes, a lápis, meio apagada.
Deixou o caderno em cima da mesa.
Levantou. Foi até o armário da cozinha. Abriu. A caixa do segundo liquidificador continuava lá, embaixo de um pacote de macarrão. Fechou.
Pegou a chave.
Antes de sair, olhou pro celular. Tela apagada.
Poderia perguntar alguma coisa.
Não perguntou.
Saiu com a camisa azul.

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