Um inventário de inverno
Tadeu Everton Zamoiski
Eu trabalho com manutenção de casas de veraneio.
Meu caderno de capa dura começou como uma coisa prática.
Endereço. Problema. Peça trocada. Data.
A primeira casa ficava na Riviera.
Era amarela, com uma pitangueira junto ao muro lateral. O proprietário reclamava de umidade no corredor.
Quando entrei, a casa estava seca.
Passei a mão na parede. Nada.
Fui até o quintal e levantei a tampa da caixa de inspeção. Havia água escura no fundo.
Não deveria haver.
Retirei um pouco com um copo.
A água tinha cheiro de maré baixa, lodo e peixe do Canal da Barra.
Junto com ela vieram três peixinhos.
Eram pequenos, quase transparentes.
Um deles tinha o rabo amarelado.
Coloquei os três num balde com água limpa e fiquei olhando durante alguns segundos.
Depois escrevi no caderno:
1. Riviera. Água na caixa de inspeção. Areia e três peixes pequenos.
Na segunda casa, encontrei areia dentro do ralo do banheiro.
Na terceira, havia uma mancha escura no rodapé do corredor. O reboco estava quente.
Abaixei o rosto.
Ouvi água.
Não um gotejamento. Água correndo.
Fiquei agachado, esperando.
O som desapareceu.
Um segundo.
Dois.
Então veio um ploc abafado, vindo de muito mais baixo que o chão.
Levantei.
Não havia tubulação naquele ponto.
Anotei:
3. Monções. Mancha no rodapé. Ruído de água. Sem vazamento identificado.
A quarta casa tinha um cheiro forte de maresia dentro de um banheiro fechado.
A quinta ficava também nas Monções.
Essa eu lembro melhor.
Eu estava no corredor, conferindo uma tomada, quando percebi que os sons da rua tinham diminuído.
Primeiro deixei de ouvir as motos. Depois os carros. Por último, até o vento que passava pela janela pareceu parar.
Fiquei imóvel.
No lugar daqueles sons veio um ruído de água.
Era baixo, contínuo, quase abafado.
Encostei o ouvido na parede.
A água parecia estar do outro lado.
Não era um cano pingando. O som tinha volume. Parecia um canal passando atrás da casa.
Fui até o banheiro.
Nada.
Abri a torneira.
A água saiu normalmente.
Fechei.
O ruído continuou.
Fiquei alguns minutos no corredor, sem saber o que fazer.
Então os sons da rua voltaram.
Primeiro uma moto.
Depois um carro.
Um cachorro latiu duas casas adiante.
O barulho da água desapareceu ao mesmo tempo.
Foi a única vez em que o silêncio aconteceu daquele jeito.
No caderno escrevi:
5. Monções. Corredor. Sons da rua desapareceram por alguns minutos. Barulho de água atrás da parede.
Nas casas seguintes, os sinais foram menores.
Na sexta, nada.
Na sétima, um balde com água salgada e areia no fundo.
Na oitava, uma gota surgia do piso de um banheiro seco.
Na nona, uma parede úmida.
Na décima, cheiro de peixe dentro de uma casa fechada.
Na décima primeira, nenhum sinal visível. Quando eu estava saindo, ouvi água correndo sob o piso.
A décima segunda tinha uma faixa escura na parede da sala.
Depois parei.
Espalhei as doze anotações sobre a mesa. Liguei os pontos na ordem em que visitei as casas.
A linha fazia uma curva que começava perto da água e entrava no bairro.
A distância entre a última casa e a minha era praticamente a mesma que existia entre algumas das outras.
Fiquei olhando para o mapa.
A curva parecia continuar depois da última casa.
Guardei o mapa dentro do caderno.
No dia seguinte fui procurar Seu Nestor.
Ele morava perto do canal e conhecia aquela parte de Matinhos melhor do que qualquer mapa.
Tinha sido pescador de tainha durante boa parte da vida.
Mostrei os pontos.
Ele não perguntou o que eu estava procurando.
Só passou o dedo pelo mapa.
Parou na primeira casa.
Depois na última.
Olhou para o espaço entre os dois.
“Tem ano que o mar fica estranho.”
Perguntei o que ele queria dizer.
“Ele vem por baixo.”
Achei que estivesse falando de água infiltrando no terreno.
Perguntei se era perigoso.
Nestor demorou um pouco para responder.
“Não porque faz mal.”
Olhou novamente para o mapa.
“Porque a gente acostuma.”
Não perguntei mais nada.
Na semana seguinte soube que Nestor tinha morrido.
Disseram que foi durante a madrugada.
Infarto.
Fui ao velório.
Não falei sobre o mapa com ninguém.
Quando voltei para casa, abri o caderno.
As doze casas estavam ali.
Abaixo da décima segunda havia uma anotação que eu não lembrava de ter feito.
13.
A letra era minha.
Só que mais apertada.
A caneta era a mesma.
Virei a página.
Nada.
Peguei o mapa.
As doze casas continuavam marcadas.
Minha casa ficava fora.
Ainda.
Fui até ela no dia seguinte.
Eu tinha uma caixa-d’água de mil litros.
Conhecia aquela instalação.
Sabia como funcionava.
O registro de entrada estava fechado.
A boia estava funcionando.
Mesmo assim, quando retirei a tampa, a caixa estava cheia.
Não pela metade.
Cheia.
Fiquei alguns segundos sem entender.
Abri o registro.
Nada mudou.
Fechei novamente.
Levantei a boia com a mão.
Não havia água entrando.
Ela simplesmente continuava ali.
Abri a saída.
A água começou a descer.
Quando chegou a um terço da caixa, parou.
Fiquei olhando.
Então ouvi um ruído vindo do fundo.
Era o mesmo som da quinta casa.
O mesmo da décima primeira.
Água passando onde não deveria haver água.
Peguei a lanterna.
Apontei para dentro.
Havia areia no fundo.
Depois vi alguma coisa se mexendo.
Um peixe pequeno.
Rabo amarelado.
Fechei a tampa.
Desci da escada.
Entrei em casa.
Peguei o caderno.
Escrevi:
13. Tabuleiro. Casa própria. Caixa cheia.
Abaixo, depois de hesitar, escrevi:
Casa ocupada.
Naquela noite, voltei ao mapa.
Desta vez não tentei entender a sequência.
Só coloquei a folha sobre a mesa e marquei minha casa.
Fiquei olhando para os pontos.
Foi quando percebi que havia um espaço vazio entre a última casa e a minha.
Um espaço grande demais para ser ignorado.
Peguei o carro.
Fui até lá.
Era um terreno baixo, com vegetação, uma valeta e água acumulada junto à margem.
Não havia casa.
Não havia cano.
Não havia nada que justificasse um ponto no mapa.
Voltei para casa no fim da tarde.
Abri o caderno.
O mapa estava onde eu havia deixado.
Mas havia uma pequena marca no espaço vazio.
Um círculo.
Parecia ter sido feito com a ponta de uma caneta.
Passei o dedo sobre a tinta.
Estava seca.
Fiquei olhando para aquilo.
Depois escrevi ao lado:
14.
Não coloquei endereço.
Fechei o caderno.
Na manhã seguinte levei uma pá até o terreno.
Cavei no ponto marcado.
A menos de meio metro encontrei água.
Não água acumulada pela chuva.
Água que subia do chão.
Deixei a pá cair.
Fiquei olhando o buraco encher.
Naquela noite não consegui dormir.
Ouvi água sob o piso da minha casa.
Não havia vazamento.
Não havia chuva.
Não havia torneira aberta.
O som vinha de baixo.
Fui até o corredor.
Fiquei parado.
O ruído aumentou.
Depois diminuiu.
E parou.
Na manhã seguinte, encontrei o caderno no quintal.
A capa estava molhada.
O mapa estava aberto.
Os treze pontos continuavam marcados.
O décimo quarto permanecia no terreno vazio.
Havia uma pequena mancha de água sobre o papel.
Ela ficava exatamente onde estava a minha casa.
Não era um novo ponto.
Não era um número.
Era apenas uma marca.
Fechei o caderno.
Desde então, verifico a caixa todos os dias.
No começo eu verificava para descobrir se havia água.
Agora verifico para descobrir se não há.
A água nunca mais ficou completamente ausente.
Às vezes encontro areia no fundo.
Às vezes sinto cheiro de maré baixa.
Uma vez encontrei um peixe pequeno.
Não toquei nele.
Só fiquei olhando até que parasse de se mexer.
O mapa continua guardado dentro do caderno.
Não faço mais marcações.
Não acrescento endereços.
Não tento descobrir onde termina.
Ainda assim, algumas manhãs encontro o papel úmido.
E o décimo quarto ponto continua lá.
Sempre no mesmo lugar.
Ontem abri o caderno antes de dormir.
A mancha perto da minha casa estava maior.
Fechei o caderno.
Na sala, ouvi uma gota cair.
Depois outra.
Fiquei esperando.
Não fui verificar.
Lá fora, a sombra da pitangueira atravessou a janela. A árvore permaneceu imóvel. Só a sombra se moveu.
Então ouvi água dentro da caixa.
E, pela primeira vez, não fui olhar.
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