quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O INTERVALO ENTRE DUAS MARÉS

O INTERVALO ENTRE DUAS MARÉS
Um conto do litoral paranaense

Tadeu Everton Zamoiski Meados de 2026

Eu administrava dezessete casas entre a Riviera e Monções.
Não eram casas minhas. Cuidava dos aluguéis de temporada, entregava chaves, fazia vistorias e resolvia os pequenos problemas que sempre aparecem quando alguém chega à praia. Chuveiro que não esquenta, torneira pingando, janela que emperra. Essas coisas.
Eu gostava do trabalho porque conhecia as casas pelos detalhes. Sabia qual portão precisava ser levantado antes de girar a chave, qual janela inchava depois de uma semana de chuva e qual chuveiro demorava mais para esquentar.
Minha mulher dizia que eu conhecia melhor as casas dos outros do que a nossa.
Eu ria quando ela falava isso.
Nossa casa tinha quatro cadeiras de praia. Duas de alumínio e duas de plástico. Uma das de alumínio estava com a pintura descascada. A outra tinha tecido listrado.
Eu sabia disso porque tinha arrumado a área de serviço algumas semanas antes.
Naquela época, parecia uma informação sem importância.
A casa 412 ficava no caminho entre a Riviera e Monções. Eu passava por ela quase todos os dias.
Era uma casa antiga, de muro baixo, janelas grandes e um quintal que ainda conservava um pedaço de terra. As casas ao redor tinham sido reformadas, ganharam muros altos, portões automáticos, pisos novos.
A 412 continuava quase igual.
Depois de chuva forte, o terreno dos fundos ficava molhado por mais tempo que os outros. Às vezes, mesmo quando a rua já estava seca, ainda havia uma faixa escura de terra junto ao muro.
Eu já tinha reparado nisso, mas nunca tinha pensado muito no motivo.
A casa 03 era da Sueli.
Foi ali que começou.
Naquele dia, fui verificar uma infiltração no banheiro dos fundos. Sueli estava fora e tinha pedido que eu conferisse tudo antes da chegada dos próximos hóspedes.
Chovera durante a madrugada. O quintal ainda estava molhado. Havia areia grudada no rodapé da parede dos fundos e o ar tinha aquele cheiro salgado que fica depois da chuva.
Fiz a vistoria e, antes de ir embora, passei pela lavanderia.
Quatro cadeiras de praia estavam encostadas na parede.
Eram iguais. Estrutura de alumínio, tecido azul e branco. Uma delas tinha um pequeno rasgo no tecido, perto do canto esquerdo.
Tirei uma fotografia.
Eu fotografava as casas depois das vistorias. Era uma mania antiga. Se algum hóspede reclamasse depois, eu tinha como mostrar como tudo estava antes.
Quatro cadeiras.
Fechei a lavanderia, tranquei a porta dos fundos e fui embora.
À noite, Sueli me ligou.
— Você deixou uma cadeira na sala? — Não. — Tem uma aqui.
Voltei à casa.
A cadeira estava aberta no meio da sala, virada para a janela dos fundos.
Olhei para a lavanderia.
As quatro continuavam lá.
Voltei para a sala e contei de novo.
Uma na sala, quatro na lavanderia.
Cinco.
Sueli ficou parada perto da porta.
— Você tirou foto?
Mostrei a fotografia.
Quatro cadeiras.
Ela aproximou o celular do rosto.
— São as quatro. — Tem certeza? — Tenho.
Ela apontou para uma delas.
— Essa era da minha mãe.
Depois olhou para a cadeira da sala. Pegou o tecido e passou o dedo pelo canto esquerdo.
— Essa também parece igual.
Olhou novamente.
— Não. É igual.
Pegou uma das quatro cadeiras da lavanderia e aproximou da quinta.
O tecido era o mesmo.
A estrutura também.
Até o pequeno rasgo estava no mesmo lugar.
Sueli ficou alguns segundos sem falar.
— Eu nunca vi essa cadeira. — Nem eu.
Olhei as portas e janelas.
Tudo estava fechado.
Não havia sinal de que alguém tivesse entrado.
A cadeira também estava limpa. Não tinha barro nas pernas nem areia nos pés.
Voltei à fotografia.
Quatro.
Olhei para a sala.
Cinco.
Naquele momento, ainda pensei que deveria existir uma explicação, alguma coisa que eu não tinha percebido.
Era o que eu fazia quando alguma coisa não fechava.
Procurava o detalhe que faltava.
Na manhã seguinte, voltei.
As quatro cadeiras continuavam na lavanderia. A quinta estava novamente na sala, aberta e virada para a janela dos fundos.
Passei a mão pelo tecido.
O rasgo estava ali.
Olhei para as quatro da lavanderia.
A cadeira que tinha o rasgo continuava entre elas.
Era isso que me incomodava.
A quinta não havia tomado o lugar de nenhuma delas. Ela era uma cadeira a mais.
Peguei o celular e comparei com a fotografia.
Não havia dúvida.
Na fotografia eram quatro.
Agora eram cinco.
Foi nesse dia que comecei a fotografar antes de mexer nas coisas.
Minha mulher percebeu que eu estava preocupado.
Foi no sábado, no mercado.
Eu estava respondendo a uma mensagem enquanto ela escolhia tomates. Ela pegou meu celular e colocou dentro da bolsa.
— Depois. — É do trabalho. — É sempre do trabalho.
Na padaria, contei o que tinha acontecido.
Ela ouviu sem interromper.
— Você acha que alguém colocou a cadeira? — Não sei. — Você acha que ela apareceu? — Também não sei.
Ela mexeu o café.
— E o que você sabe?
Pensei.
— Que havia quatro. — E agora? — Cinco.
Ela me olhou.
— Você está assustado. — Estou tentando entender. — Você sempre tenta entender.
Não respondi.
Ela tomou mais um gole de café.
— Eu só não quero virar mais um problema para você resolver.
Foi a única vez que discutimos sobre aquilo.
Na volta para casa, ela dirigiu.
Eu fiquei olhando pela janela.
Nos dias seguintes, outras coisas começaram a acontecer.
Na 05, o banco de madeira que ficava perto da mesa apareceu encostado na janela dos fundos. Quando passei a mão no assento, senti a madeira úmida.
Na 09, encontrei uma toalha molhada sobre uma cadeira. A casa estava fechada havia três dias. O cheiro de sal ficou na minha mão depois que toquei no tecido.
Na 12, a areia estava junto à parede dos fundos.
Não havia marcas de pés. Só uma faixa estreita, irregular, que terminava antes da porta. Ajoelhei e passei dois dedos por ela. A areia estava úmida.
Na 16, o banco baixo usado para calçar os sapatos estava do lado de fora, encostado no muro. A madeira ainda estava úmida. A dona jurava que o havia deixado dentro de casa na noite anterior.
As outras casas continuavam normais.
Voltei à casa 03.
A quinta cadeira ainda estava lá.
Passei a chamá-la de cadeira duplicada. Não porque eu soubesse o que era, mas porque precisava de um nome para colocar nas anotações.
Ela aparecia em lugares diferentes da casa. Às vezes na sala, uma vez perto da porta dos fundos, outra vez no corredor.
As quatro originais continuavam na lavanderia.
Sempre quatro, mais a quinta.
Comecei a fotografar tudo.
Também anotei os horários.
Depois passei a anotar a maré.
Foi aí que percebi uma coisa.
Os acontecimentos pareciam surgir perto da mudança da maré.
Não havia uma hora certa. Às vezes aconteciam antes, às vezes depois. Mas havia alguma coisa no ar quando a água começava a mudar.
O cheiro de sal ficava mais forte. A umidade parecia entrar pelas frestas. Em algumas noites, eu ouvia a arrebentação mesmo com as janelas fechadas.
Comecei a prestar atenção no terreno.
Marquei as casas num papel:
3 — 4 — 5 — 6 — 7 — 8 — 9
Quando liguei os pontos, percebi que elas acompanhavam uma faixa baixa do terreno.
Na altura da 12, havia uma depressão quase imperceptível no chão.
Eu conhecia aquela rua havia anos.
Nunca tinha reparado.
A faixa seguia em direção à casa 412.
Fui até lá.
Parei diante do muro.
A terra junto aos fundos estava mais escura que o restante do terreno.
Lembrei das poças depois das chuvas.
Naquele momento, a casa antiga pareceu fazer parte daquilo.
Contei a Nildo.
Ele pescava tainha e conhecia a região desde menino.
Mostrei algumas fotografias.
Ele ficou olhando para a tela.
— Antes era diferente. — Como? — Antes de aterrarem.
Apontou para a direção das casas.
— Por aqui passava água. — Um rio? — Não.
Ele pensou um pouco.
— Água.
Perguntei onde começava.
Ele apontou para a casa 412.
— Ali. — Você lembra? — Eu lembro do lugar.
Depois baixou os olhos para a rede que estava arrumando.
— Meu pai pescava aqui.
Fiquei esperando.
Ele não continuou.
— Você sabe alguma coisa sobre essa casa? — Procura nos papéis. — Que papéis? — Da casa.
Antes de voltar para a rede, disse:
— Antes de aterrar, todo mundo sabia por onde a água passava.
A casa 412 não era uma das minhas.
A família nunca tinha me contratado.
Mesmo assim, consegui falar com uma mulher da família. Expliquei que estava tentando entender um problema antigo de drenagem.
Ela ficou desconfiada, mas acabou me deixando entrar.
A casa era antiga por dentro também. Piso gasto, paredes com várias camadas de tinta, móveis que pareciam estar ali havia décadas.
Contei o que Nildo tinha falado.
Ela foi buscar uma pasta.
Voltou com uma folha grande, dobrada.
— Meu avô guardou isso.
Abriu sobre a mesa.
Era um desenho do terreno feito em 1968.
A casa ainda não existia.
O terreno estava vazio.
Havia as medidas do lote e uma linha azul atravessando a parte mais baixa.
Ao lado da linha estava escrito: Passagem natural de água.
Mais abaixo, à mão: Deixar passagem para a água.
— Meu avô comprou o terreno nesse ano — ela explicou. — A casa foi construída em 1970.
Passei o dedo perto da linha sem tocar no papel.
— Essa água ia para onde? — Para o canal.
Acompanhei o desenho.
A linha saía da 412 e seguia na direção das casas onde os objetos apareciam.
Perguntei se podia fotografar.
Ela deixou.
Antes de guardar a planta, comentou:
— Meu avô dizia que, quando a maré subia muito, a água voltava por esse caminho. — Ele tinha medo? — Não.
Ela deu um pequeno sorriso.
— Ele só dizia que água não sabe que aterram.
Fiquei olhando para ela.
Água não sabe que aterram.
Levei uma cópia da planta para casa.
Minha mulher estava fazendo café.
Coloquei o papel sobre a mesa.
Ela examinou a linha azul.
— É a 412? — É. — E essas são as casas? — Mais ou menos.
Mostrei os números.
Ela ficou olhando.
Depois pegou uma régua.
— Vamos ver.
Passamos parte da tarde comparando a planta com os terrenos.
Não era uma linha perfeita. Em alguns lugares passava mais perto, em outros mais longe.
Eu errei uma das medidas da 12 na primeira vez e precisei voltar à anotação da vistoria para conferir. Minha mulher percebeu antes de mim.
— Você marcou vinte e oito metros aqui. — Marquei? — Vinte e seis.
Senti uma irritação rápida, mais comigo do que com ela. Eu quase respondi que tinha certeza da medida, mas a anotação estava ali.
Apaguei o número.
Era uma coisa pequena, mas me incomodou mais do que deveria.
Corrigi a anotação e continuamos.
No fim, os objetos apareciam sempre naquela faixa.
Minha mulher fechou o caderno.
— Chega por hoje. — Quero conferir mais uma vez. — Você já conferiu. — Eu sei.
Ela me olhou.
— Você está procurando uma resposta que talvez não exista.
Não tive o que dizer.
No dia seguinte, voltamos à casa 03.
A cadeira duplicada estava na sala.
Minha mulher ficou olhando para ela.
— Ela está virada para a mesma direção. — Da janela? — Não.
Apontou para os fundos.
Para o caminho antigo da água.
Fomos às outras casas.
Não precisamos medir de novo. Os objetos estavam voltados aproximadamente para a mesma faixa.
Na volta, minha mulher ficou calada por alguns quilômetros.
O limpador de para-brisa fazia um movimento regular no vidro.
Então ela disse:
— Ontem eu encontrei areia na nossa área de serviço.
Olhei para ela.
— Como assim? — Pouca. — Por que você não me contou?
Ela deu de ombros.
— Porque você já estava vendo areia em todo lugar.
Fiquei olhando para a estrada.
— Estava molhada? — Um pouco. — Você tirou foto? — Não.
Ela respirou fundo.
— Eu não queria começar a contar cadeiras.
O motor continuou trabalhando baixo.
Fiquei alguns segundos sem responder.
Ela olhou pela janela.
— Você ainda acha que consegue resolver?
Olhei para as mãos no volante.
— Não.
Ela assentiu.
Não disse mais nada.
Por algumas semanas, nada aconteceu.
As casas ficaram quietas.
Parei de anotar as marés.
Parei de procurar novos sinais.
A planilha voltou a servir para o trabalho.
Eu e minha mulher voltamos aos sábados no mercado. Tomávamos café fora. Eu deixava o celular na mesa de casa durante o jantar.
As coisas ficaram mais fáceis.
Ou pelo menos pareciam.
Às vezes chovia forte e eu olhava para a janela dos fundos.
Minha mulher percebia.
Não dizia nada.
Uma noite, perguntou:
— Você acha que acabou? — Não sei. — Você quer que tenha acabado? — Quero. — Eu também.
Ela encostou a cabeça no meu ombro.
Ficamos assim algum tempo.
Foi a primeira vez, em semanas, que não pensei nas casas.
O barulho veio numa terça-feira.
Eu estava dormindo quando ouvi alguma coisa na cozinha.
Um ruído curto, como uma cadeira sendo arrastada pelo piso.
Levantei.
Minha mulher continuou dormindo.
Acendi a luz da cozinha.
A janela dos fundos estava fechada.
No chão, bem diante dela, havia areia molhada.
Pouca.
Uma faixa irregular.
Ajoelhei.
Toquei com a ponta do dedo.
Estava fria.
A areia grudou na pele.
Levei a mão perto do rosto.
Cheiro de sal.
Não era o cheiro da rua depois da chuva.
Era cheiro de mar.
Fiquei ali, com o dedo sujo de areia, olhando para a janela fechada.
Pensei em fotografar.
Peguei o celular.
Abri a câmera.
Enquadrei o chão.
O dedo ficou sobre o botão.
Depois abaixei o aparelho.
Não tirei a fotografia.
Deixei a areia no lugar.
Voltei para o quarto.
Não acordei minha mulher.
Na manhã seguinte, fui até a área de serviço.
As quatro cadeiras da nossa casa estavam lá.
Duas de alumínio.
Uma listrada.
Uma com a pintura descascada.
As duas de plástico estavam dobradas ao lado.
Tudo no lugar.
Minha mulher entrou na cozinha.
— Está procurando alguma coisa? — Não.
Tomamos café.
Não contei sobre a areia.
Ela também não perguntou.
Depois saiu.
Fiquei trabalhando em casa.
No fim da manhã, ouvi a porta abrir.
Ela voltou.
Estava dobrando algumas roupas quando passei pela área de serviço.
As quatro cadeiras continuavam lá.
Fui até a cozinha.
Parei.
Havia uma cadeira aberta perto da janela dos fundos.
Por alguns segundos, não entendi o que estava vendo.
Depois reconheci o tecido.
Azul e branco.
No canto esquerdo havia um pequeno rasgo.
O mesmo rasgo.
A mesma cadeira.
A cadeira duplicada.
Não era nenhuma das quatro da nossa casa.
Eu sabia disso.
Minha mulher apareceu na porta.
Olhou para a cadeira.
Depois para mim.
— Você brought essa? (Nota: corrigido no texto para "Você brought" -> "Você brought" corrigido para "Você trouxe essa?") — Não.
Ela ficou olhando.
Pensei em pegar o celular.
Não peguei.
Minha mulher voltou os olhos para a cadeira.
— Eu sei.
Do lado de fora, a maré começava a mudar.

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