quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O QUE VOLTA

O QUE VOLTA


Tadeu Everton Zamoiski 



Paulo contou o dinheiro duas vezes antes de espalhar as notas sobre a mesa. Não precisava. O salário só entraria dali a alguns dias, e as contas já estavam separadas em pequenos montes. Luz, água, mercado, cartão.
A geladeira fazia um ruído novo desde a semana anterior. Um ronco curto, que começava e parava. Paulo tinha dito que ainda funcionava.
Marta não respondeu. Estava na pia, enxaguando duas xícaras. Secou as mãos no pano de prato, dobrou-o duas vezes e deixou sobre o balcão.
— Eu estou cansada de fazer conta.
Paulo continuou olhando para o dinheiro.
Marta pegou a bolsa e saiu da cozinha. Antes de passar pela porta, voltou, abriu o armário e colocou uma das duas xícaras na prateleira de cima.
Era branca, com uma pequena lasca na borda.
Ela nunca jogava aquela fora.
Zeus dormia perto da porta dos fundos. Quando ouviu o motor do caminhão, levantou a cabeça antes de Paulo. Conhecia aquele som. Correu até o portão, latiu para o caminhão que avançava devagar pela rua e voltou para junto da porta.
Era segunda-feira, 21 de setembro, dia da coleta orgânica.
Paulo vestiu o uniforme e saiu.
Durante o trabalho, os movimentos eram sempre os mesmos. Recolher, levantar, separar, carregar. O que mudava eram as coisas encontradas no meio dos sacos.
Brinquedos, documentos, fotografias, ferramentas, roupas quase novas. Às vezes havia objetos que ainda pareciam pertencer a alguém. Paulo os separava quando podia.
Naquela manhã encontrou uma panela sem cabo, três pratos, um rádio antigo e uma caixa de papelão cheia de fotografias.
Devolveu tudo ao caminhão.
Quando voltou para casa, Marta tinha feito arroz e dois bifes. Um estava no prato dela. O outro continuava na frigideira, coberto com uma tampa.
Paulo percebeu que ela tinha deixado a maior parte do arroz.
— Você não vai comer?
— Depois.
Ela sentou à mesa.
Paulo abriu a carteira e tirou as notas que ainda tinha.
— Na sexta entra.
— Eu sei.
— Até lá dá para segurar.
Marta olhou para a geladeira.
— Ela não vai segurar.
O ronco começou na cozinha.
Nenhum dos dois falou enquanto o motor funcionava.
Mais tarde, Marta abriu uma gaveta do quarto e tirou um envelope pardo. Colocou-o sobre a cama.
— São meus documentos.
Paulo ficou na porta.
— Você vai embora?
— Estou pensando.
Ela não abriu o envelope.
— Eu não quero sair daqui brigando.
Paulo olhou para a cama.
— Eu também não.
Marta guardou os documentos e fechou a gaveta.
Naquela noite, dormiu virada para a parede.
Na terça-feira, Paulo trabalhou na coleta orgânica de outro setor. Na quarta, 23, voltou para a rota da coleta seletiva.
Foi quando encontrou a sacola.
Estava entre caixas de papelão, copos de plástico e embalagens de salgadinhos. Dentro havia um diário de capa marrom, de tecido grosso, com os cantos gastos e uma mancha escura perto da lombada.
Paulo abriu.
Uma fotografia antiga estava dobrada entre as páginas. Viu apenas a borda amarelada da imagem e fechou o diário.
Levou para casa.
Marta estava na sala quando ele chegou. Pegou o diário, abriu a primeira página e leu o nome.
Marta.
Abaixo havia uma data.
14 de março de 2011.
Ela passou o dedo sobre a letra.
— Tem meu nome.
Paulo se aproximou.
— Você conhece?
— Não.
Marta continuou lendo.
As primeiras páginas falavam de compras, chuva, contas, receitas, uma torneira que pingava. Em uma delas, Marta escrevera que tinha comprado tomates e esquecido o pão. Na seguinte, reclamava que o marido deixara a toalha molhada sobre a cama.
Mais adiante, havia uma receita de arroz de forno com uma observação no canto:
"Menos queijo. O bolso agradece."
Marta sorriu.
— Essa mulher economizava.
Paulo olhou para ela.
— Você também.
— Eu sei.
Continuaram lendo.
Havia reclamações sobre o marido chegar tarde, comida, dinheiro e coisas da casa. Em outra página, ela dizia que tinha separado o pedaço maior de frango porque sabia que ele gostava. Algumas páginas depois, reclamava que queria ficar sozinha.
Em 18 de março de 2011, apareceu o nome do cachorro.
"Zeus latiu antes do caminhão chegar. Preciso fechar o portão antes que ele se enfie debaixo das rodas."
Paulo parou.
Marta levantou os olhos.
— Zeus?
— É.
Os dois olharam para o cachorro, que dormia perto da porta.
Marta voltou à página.
Em outras anotações, Zeus aparecia de maneira banal. Dormia no corredor, roubava comida da mesa, esperava o marido de Marta no portão. Em uma delas, ela reclamava que ele tinha destruído uma bola nova.
Paulo fechou o diário.
— De onde você trouxe isso?
— Da coleta.
Marta colocou a mão sobre a capa.
— Então deixa fora da cozinha.
— Por quê?
Ela pensou antes de responder.
— Não sei.
Tirou a mão.
Naquela noite, Paulo guardou o diário numa gaveta da sala.
Marta ficou diante da pia. Enxaguou as duas xícaras que estavam sobre a bancada, secou uma e deixou a outra escorrendo.
Nos dias seguintes, Paulo abriu o diário algumas vezes.
Havia dias vazios. Depois, quatro ou cinco páginas seguidas.
Em 22 de março, Marta reclamou da torneira.
Em 29, escreveu que o marido havia esquecido de consertá-la.
Em 1º de abril, contou que comprara um pastel de queijo no quiosque antes de voltar para casa.
"Zeus ficou esperando no portão."
Paulo fechou o diário.
No dia seguinte, passou pelo quiosque.
O dono estava cortando cana. Paulo pediu um pastel de queijo e perguntou se ele conhecia uma mulher chamada Marta.
O homem pensou.
— Nome eu não lembro.
— Ela comprava pastel de queijo.
— Isso reduz pouco.
Paulo sorriu.
— Você viu quem deixou uma sacola no suporte?
O homem limpou as mãos no avental.
— Vi um sujeito ali. Comeu olhando para a rua.
— Você lembra dele?
— Não.
O homem voltou a cortar a cana.
— Depois colocou alguma coisa no lixo.
Paulo agradeceu e foi embora.
Naquela noite, abriu o diário.
A fotografia continuava dobrada.
Ele a retirou entre duas páginas e segurou-a pela borda.
Poderia abrir.
Não abriu.
Guardou de volta.
Quando voltou para a sala, Marta estava no sofá, com o controle da televisão na mão.
— Você está gostando desse diário.
Paulo sentou.
— É estranho.
— Eu sei.
Ela apertou o botão. A televisão não estava ligada.
— Eu não quero mais fazer conta desse jeito.
Paulo olhou para ela.
— Eu também não.
— Não é só dinheiro.
Ele esperou.
Marta deixou o controle sobre o sofá.
— Eu estou cansada de esperar você resolver tudo.
Paulo baixou os olhos.
— Eu sei.
Ela respirou fundo.
— Eu vou sair ammanhã.
Paulo olhou para a porta da sala.
— Você vai mesmo?
— Estou pensando.
— Você quer que eu peça para você ficar?
Marta olhou para ele.
— Eu quero que você diga se quer.
Paulo demorou.
— Eu quero.
Ela baixou os olhos.
— Então fala isso quando eu estiver indo.
Ficaram quietos.
Naquela noite, depois que Marta foi dormir, Paulo pegou o diário e saiu de casa.
Caminhou até o suporte de coleta seletiva.
A casa de shows estava fechada. Do bar vinha o som baixo de uma conversa. Mais adiante, uma motocicleta passou pela esquina.
Paulo colocou o diário entre as caixas de papelão.
Fechou a tampa.
Voltou para casa.
Zeus latiu quando ele abriu o portão.
Na manhã seguinte, o diário estava sobre a mesa da cozinha.
Marta olhou para ele.
Depois olhou para a gaveta da sala, aberta.
Nenhum dos dois falou.
A mancha escura perto da lombada parecia maior.
Marta passou o dedo sobre a capa.
Olhou para a ponta do dedo.
— Está úmido.
Paulo tocou.
A capa estava seca.
Marta limpou o dedo na lateral da calça.
Abriu o diário.
A fotografia continuava dobrada.
A página do pastel estava aberta.
Paulo não lembrava de tê-la deixado assim.
Marta fechou o diário.
— Guarda.
— Por quê?
— Porque eu não quero olhar.
Paulo colocou o diário na gaveta da cozinha.
Marta pegou a mala.
— Vou para a minha irmã.
Paulo assentiu.
Ela parou junto à porta.
— Não precisa me ligar hoje.
— Tá.
Ela saiu.
Zeus foi até o portão, mas não latiu.
Naquela tarde, Paulo trabalhou em outra região.
Voltou no fim do dia e encontrou a casa silenciosa. A mala de Marta tinha ido embora com ela.
Zeus estava perto da porta.
Paulo fez café e colocou uma xícara sobre a mesa.
Abriu o armário.
A outra xícara branca, com a pequena lasca na borda, continuava na prateleira de cima.
Ele não a pegou.
A geladeira ligou.
O ronco atravessou a cozinha.
Paulo abriu a gaveta.
O diário estava lá.
Sentou e começou a ler.
Na página de 7 de abril de 2011, Marta havia escrito:
"Hoje pensei em ir embora. Fiz café para ele mesmo assim."
Na página seguinte:
"Ele pediu para eu ficar. Não sei se é suficiente. Amanhã vou decidir."
Paulo fechou o diário.
Não procurou mais nada.
No fim da tarde seguinte, Marta voltou.
Deixou a mala no carro. Entrou sozinha e foi direto para a cozinha.
Paulo estava sentado à mesa.
— Você voltou.
— Por enquanto.
Ela abriu a geladeira.
— Ela está pior.
— Eu sei.
Marta pegou a folha com as contas.
Sentaram juntos.
Fizeram as contas novamente. Dessa vez, sem esconder números um do outro. Falaram sobre vender algumas coisas, reduzir despesas e procurar um conserto mais barato para a geladeira.
Marta passou o dedo por uma das contas.
— Essa aqui dá para cortar.
— Como?
— Eu vejo.
— Você já viu?
— Estou vendo agora.
Paulo quase sorriu.
— Tá.
Ela continuou fazendo as contas.
Depois recolheu as folhas e colocou a mão sobre a mesa.
— Eu vou tentar.
Paulo assentiu.
Naquela noite, dormiram juntos.
No dia seguinte, Paulo colocou o diário dentro de uma sacola e saiu cedo.
Não queria mais aquilo dentro de casa.
O suporte estava vazio.
Ele abriu a tampa.
Colocou o diário lá dentro.
Fechou.
Dessa vez, ficou alguns segundos diante do suporte.
Depois foi embora.
Quando voltou para casa, Marta estava fazendo café.
— Foi?
— Foi.
Ela colocou uma xícara diante dele.
Depois colocou outra para si.
A geladeira ligou.
Marta ouviu o ruído.
— Vai precisar consertar.
— Vai.
Ela tomou um gole de café.
Zeus entrou na cozinha, cheirou as pernas da mesa e deitou perto da porta.
No dia seguinte, Paulo saiu cedo para trabalhar.
Passou pelo bairro, mas não parou no suporte. O caminhão ainda não havia chegado.
Durante a coleta, encontrou uma caixa com objetos antigos. Havia cartas, fotografias e uma pequena xícara rachada.
Paulo pegou a xícara.
Examinou a lasca na borda.
Depois colocou de volta na caixa.
No fim do dia, voltou para casa.
Marta estava na sala.
A mala continuava no quarto.
Ela ainda não havia desfeito tudo.
Paulo não perguntou.
Naquela noite, dormiram juntos.
Na manhã de 1º de outubro, Paulo acordou antes de Marta.
Foi até a cozinha e abriu a gaveta.
Estava vazia.
Procurou na segunda gaveta.
Nada.
Fechou.
Na mesa havia uma folha com as contas do mês. Marta tinha marcado a conta da geladeira e escrito ao lado o valor que conseguiriam pagar naquela semana.
Paulo pegou a caneta.
Acrescentou outro valor.
Abriu o armário.
A xícara branca continuava na prateleira de cima.
Paulo olhou para ela.
Dessa vez, pegou.

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