Tadeu Everton Zamoiski
Às 13h57, Stephen King ouviu a campainha.
Estava no escritório com o café esfriando ao lado de um exemplar de Misery aberto na mesa. Lia o mesmo parágrafo pela terceira vez e não conseguia avançar. A luz da tarde entrava pela janela e marcava a madeira com uma faixa clara onde a poeira tinha se acumulado. Molly, a corgi, dormia perto da porta.
King olhou o relógio de parede.
Pelo menos o relógio estava certo.
A campainha tocou outra vez, mais forte. Molly levantou a cabeça e correu para a entrada. King fechou o livro, enfiou o marcador no meio e foi atender.
O homem do lado de fora segurava uma mala pequena numa mão e uma mochila na outra. Parecia ter viajado horas demais.
— Stephen King?
— Depende de quem pergunta.
O homem esboçou um sorriso.
— Tadeu Everton Zamoiski. Sou escritor. Brasileiro. Adiaram a programação do festival em Boston. Aluguei um carro em Portland e resolvi passar aqui.
King apertou a mão dele e deu passagem. Molly farejou a mala, depois a perna do visitante. Quando Tadeu falou do nome Zeus, a cadela ergueu as orelhas.
— Acho que ela gostou de você.
King o levou até o escritório. Tadeu deixou a mochila junto à poltrona.
Tadeu disse que morava no litoral do Paraná.
— Onde?
— Riviera.
King perguntou o que ele escrevia.
— Gosto de histórias em que alguma coisa sai do lugar.
— Isso dá trabalho.
— Dá mais trabalho quando a gente tenta explicar.
King sorriu. A frase ficou um instante na cabeça dele.
— Você tem algum personagem que não larga?
— Tenho um que não vai embora. Não sei se fui eu que inventei.
King esperou. Tadeu bebeu um gole de café.
— Quando eu era menino, minha avó tinha um quarto que ninguém usava. Em Antonina. Casa de madeira. Eu tinha nove anos. Ela dizia que o quarto estava cheio de coisas velhas. Minha avó dizia para não responder se alguém chamasse seu nome durante a noite.
— E você entrou?
— Entrei escondido. Cama estreita, janela emperrada, guarda-roupa sem porta. Em cima de uma cadeira, uma boneca vestida de azul. Cheiro de terra molhada. Minha avó me chamou. Saí e fechei a porta. Quando voltei, a porta tinha sumido. No lugar dela, parede.
King pousou a xícara.
— E você fez o quê?
— Chamei minha avó. Bati na parede. Depois ouvi passos do outro lado. E uma criança chorando. A voz dela vinha de trás de mim. Quando me virei, a boneca estava de frente.
Tadeu ficou um tempo calado.
— Minha avó estava no corredor. Disse que eu estava desaparecido havia três dias. Abriu a porta comigo. O quarto estava vazio. A boneca também. Ela disse que aquela boneca nunca tinha sido nossa.
Molly levantou a cabeça e rosnou baixo, sem se afastar.
King sentiu a mão tremer.
— Você acredita que aconteceu exatamente assim?
— Acredito que me lembro disso.
Tadeu olhou o relógio de pulso. Não comentou nada. Os ponteiros marcavam 13h57.
— Preciso ir.
King o acompanhou até a varanda. Apertaram as mãos. Tadeu partiu. King ficou à porta até o carro sumir.
Quando voltou ao escritório, o relógio de parede também marcava 13h57.
A mochila estava ao lado da poltrona.
King parou. Tinha visto o homem colocar a mochila no carro. Mesmo assim, ela estava ali.
Pegou a mochila, saiu do escritório e a guardou no armário do corredor. Depois voltou à mesa. Leu o parágrafo uma vez, depois outra. Na terceira, desistiu.
Naquela noite, King lavou a xícara que Tadeu tinha usado.
O café ainda estava morno.
Molly comeu e se acomodou no tapete. Ele foi para a cama pouco depois das dez.
Acordou às 3h17.
Ficou deitado ouvindo a casa.
Molly se levantou no corredor antes mesmo de ele ouvir qualquer coisa. Ficou de pé, o pelo eriçado, sem se afastar da porta.
Então vieram as três batidas.
Duas rápidas. Uma terceira depois de uma pausa curta.
O som vinha do escritório.
King vestiu o roupão e caminhou até lá. A porta estava entreaberta. Empurrou.
O cheiro de terra molhada veio primeiro.
A parede atrás da poltrona estava úmida. A tinta descascava. Uma linha de barro escorria até o rodapé. No meio da mancha, a marca de uma mão pequena. Preso entre os dedos, um fiapo azul de tecido.
Abaixo dela, escrito em azul ainda úmido:
1357
King se aproximou. Não tocou.
Do outro lado da parede, uma criança chamou:
— Stephen.
King recuou.
As batidas se repetiram.
Duas rápidas. Uma terceira depois de uma pausa curta.
Molly rosnou mais forte, mas não se afastou.
A maçaneta da porta girou sozinha e depois voltou ao lugar.
Ele acendeu as luzes. Nada. Só o cheiro de terra.
Não voltou para a cama. Sentou-se na sala com Molly ao lado. Deixou a luz acesa.
Às oito o telefone tocou. Era o editor do festival de Boston.
— Stephen? Você encontrou o Tadeu Zamoiski? Ele avisou a organização que pretendia passar aí.
— Ele esteve aqui ontem.
— A participação dele foi cancelada há três dias.
King ficou calado.
— Três dias.
Desligou.
Voltou ao corredor. Abriu o armário. A mochila estava no mesmo lugar. Dentro: um caderno, duas canetas e um exemplar de Misery.
King pegou o livro. Era o mesmo parágrafo que ele relera três vezes na tarde anterior.
No fundo da mochila havia um envelope amarelado. Dentro, uma fotografia antiga: um menino de uns nove anos ao lado de uma menina, diante de uma casa de madeira. O menino segurava uma boneca vestida de azul. A menina mantinha a mão no ombro dele.
King virou a foto.
No verso, em letra infantil:
Riviera 1357
A letra não era a dele.
Ele segurou a fotografia longe do corpo. O número 1357 parecia mais escuro.
Olhou de novo para a imagem. O olhar demorou um segundo a mais na manga da menina.
Atrás dele a casa estalou.
King se virou.
A parede estava limpa. A poltrona um pouco afastada da mesa.
Ele olhou o relógio de parede. Os ponteiros estavam parados em 13h57.
Tentou mover o ponteiro com o dedo. Encontrou uma resistência seca, como se o mecanismo tivesse travado por dentro.
Pelo menos o relógio estava certo.
Então ouviu as três batidas.
Duas rápidas. Uma terceira depois de uma pausa curta.
Dessa vez o som vinha de dentro da parede.
King não se mexeu.
Uma voz surgiu do outro lado, baixa e rouca. Era a sua própria voz.
— Tadeu?
Houve um silêncio.
Molly ficou ao lado dele, o pelo eriçado, sem se afastar.
Do outro lado, alguma coisa arranhou o gesso até parar atrás da poltrona. Uma linha fina surgiu na tinta. O número 1357 agora escorria.
O cheiro de terra molhada voltou.
Então ouviu um latido curto, fino e rouco, de cachorro pequeno.
Às 3h17 acordei com o peito apertado e a camiseta grudada nas costas.
O quarto estava escuro. A janela deixava entrar a luz fraca de um poste. Por alguns segundos não soube onde estava. Depois reconheci o ventilador e o barulho distante do mar.
Eu estava em casa, na Riviera, em Matinhos.
Tinha sonhado com Stephen King. Lembrava da parede e do número azul.
1357.
Levantei. No corredor a porta do escritório estava fechada.
Eu não me lembrava de tê-la fechado.
Abri e acendi a luz.
O caderno estava aberto sobre a mesa. Na página, quatro algarismos escritos em azul ainda seco:
1357
Abaixo, em letra infantil:
Se alguém chamar seu nome durante a noite, não responda.
Não lembrava de ter escrito aquilo.
Atrás de mim Zeus se levantou.
Três batidas vieram de dentro da parede.
Duas rápidas. Uma terceira depois de uma pausa curta.
Zeus recuou até o fundo do corredor.
Ouvi uma criança chamar:
— Tadeu?
Não respondi.
A parede estalou. Uma linha úmida apareceu atrás da poltrona. O cheiro de terra ficou forte. A tinta começou a descascar. No centro, uma mão pequena surgiu, pressionando o lado de dentro.
Os dedos se abriram. Entre eles, um fiapo azul.
Olhei para o indicador.
A marca tinha o tamanho da minha mão aos nove anos.
A porta fechou com força atrás de mim.
Do outro lado, passos pequenos atravessaram o cômodo.
A mão desapareceu. O número agora escorria.
Fiquei no corredor. Zeus estava longe, no escuro.
— Stephen?
A porta não abriu.