domingo, 20 de setembro de 2026

DEPENDE DE PARA ONDE

DEPENDE DE PARA ONDE
Um conto sobre escolhas, partidas e aquilo que fica

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

“Aonde fica a saída?”, perguntou Alice ao gato que ria.
“Depende”, respondeu o gato.
“De quê?”, replicou Alice.
“Depende de para onde você quer ir...”
— Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas

Helena chegou onze minutos antes do horário combinado, o que nunca acontecia.
Sentou-se no degrau de concreto diante da praia, tirou os tênis e deixou o celular virado para baixo ao lado do pé. O aparelho vibrou duas vezes. Ela não olhou.
A ressaca da véspera ainda estava espalhada pela areia. Uma espuma amarelada vinha e voltava com a água, trazendo folhas, pedaços de plástico e outras coisas que ninguém parecia disposto a recolher. Mais adiante, o toldo azul do quiosque batia contra a estrutura de ferro quando o vento apertava.
Em janeiro, aquele trecho do Balneário Rivera ficava cheio. Em setembro, sobravam algumas pessoas de casaco caminhando pela orla e um ou outro pescador na praia. Atrás dos prédios, a Serra do Mar aparecia pela metade entre as nuvens.
Ivo chegou no horário combinado, carregando dois cafés e um saco de papel.
— Onze minutos.
— A moça do quiosque resolveu discutir comigo.
— Sobre?
— Pastel.
— E quem ganhou?
— Ela.
Helena pegou o café.
— Trouxe o meu?
— Se não trouxesse, você ia reclamar.
— Provavelmente.
Ivo sentou-se ao lado dela.
Helena tinha dormido pouco. Ivo percebeu.
— Lisboa vence amanhã.
— Eu sei.
— Às seis.
— Eu sei.
Ela tomou um gole de café.
— Você não vai perguntar?
— Não.
— Por quê?
— Porque você vai contar.
Helena ficou quieta por alguns segundos.
— É um contrato de dois anos.
Ivo abriu o saco de papel.
— Come.
— Você faz isso de propósito.
— Faço.
Ela pegou um pedaço do pastel.
— Está quente.
— Eu avisei.
Vinte metros adiante, um homem pescava com tarrafa. Entrava alguns passos no mar, girava a rede, lançava. Esperava. Depois puxava a corda devagar, recolhia tudo e caminhava alguns metros.
— É o Celso — disse Ivo.
— Você conhece?
— De vista.
— Há quanto tempo?
— Uns três anos.
— E nunca falou com ele?
— Não.
— Por quê?
Ivo tomou café.
— Não sei.
Helena riu pelo nariz.
— Você está usando muito essa resposta hoje.
O pescador lançou a tarrafa novamente.
A rede abriu pela metade e caiu perto da areia seca.
O casal que morava no prédio da esquina passou pela calçada. Os dois usavam agasalhos iguais.
— Boa tarde, seu Ivo.
— Boa tarde, dona Neusa.
Ela olhou para Helena.
— A moça da matemática?
— Ela mesma.
— O Ivo fala da senhora.
Helena esperou.
Ivo não disse nada.
— Que coisas?
Dona Neusa ajeitou o casaco.
— Coisas suas.
E continuou andando.
Helena acompanhou o casal até a porta do prédio.
— Coisas minhas?
— Ela fala demais.
— Você também.
Ivo abriu o saco de papel.
— Quer outro?
— Quero.
Ele entregou.
Helena ficou alguns segundos com o pedaço de pastel na mão.
— Você lembra do gato?
Ivo olhou para ela.
— Lembro.
— Você não gostava daquela resposta.
— Não gosto.
— Por quê?
— Parece que ele sabe alguma coisa.
Helena mastigou devagar.
— E não sabe?
— Talvez.
Ela riu.
— Essa resposta é sua agora.
Ivo não respondeu.
O vento trouxe um guardanapo de papel. Ele passou pelo chão, bateu no tênis de Helena e parou junto ao pé de Ivo.
Ele colocou o sapato sobre o guardanapo.
— Quando eu tinha oito anos, meu pai me trouxe para Caiobá.
— Você já contou.
— Eu sei.
— Então?
— Não sei.
Helena olhou para ele.
— E o que aconteceu?
— Meu pai entrou na água.
— E você?
— Fiquei parado.
— Com medo?
— Um pouco.
— E ele mandou você sair?
— Mandou.
— Você saiu?
— Naquela vez.
Helena sorriu de leve.
— Obediente.
— Nem sempre.
Ivo ficou olhando para o mar.
— A Marta gostava daqui.
— Eu sei.
— Não gostava da areia.
— Eu sei.
— Queria uma varanda.
Helena esperou.
— A cadeira?
Ivo assentiu.
— Está lá.
— Você comprou quando?
— Duas semanas depois.
Ela entendeu.
— E sentou?
— Não.
— Por quê?
— A almofada.
Helena ficou quieta.
— Ela escolheu?
— Escolheu.
— E você nunca trocou?
— Não.
O pescador puxou a rede pela areia.
— Você devia sentar — disse Helena.
— Um dia.
— Você sempre diz isso?
— Às vezes.
— Não. Você sempre diz “um dia” quando não quer fazer hoje.
Ivo olhou para ela.
— Você continua igual.
— Você também.
Ele sorriu.
Helena não.
O pescador lançou a tarrafa outra vez. Dessa vez, a rede abriu inteira, mas voltou vazia.
— Começa em outubro — disse Helena.
Ivo assentiu.
— Você quer ir?
— Não sei.
— Quer ficar?
Ela demorou.
— Também não sei.
— Então está empatado.
— Não é uma conta.
— Para você, quase tudo é.
Helena baixou os olhos.
— Tem um apartamento.
Ivo esperou.
Ela mostrou uma fotografia no celular. Uma sala pequena, uma janela alta, uma parede vermelha.
— Gostou?
— Da parede.
— Só?
— É a única coisa de que me lembro.
— Bonita.
— É.
Ela guardou o celular.
— Tem um formulário.
— Que formulário?
— Contato de emergência.
Ivo ficou esperando.
— Escrevi o nome da minha mãe.
Parou.
— Depois apaguei.
O vento levantou o cabelo dela.
— E escrevi o seu.
Ivo demorou um pouco.
— Por quê?
— Porque você atenderia.
Ele assentiu.
— Minha mãe também atenderia.
— Eu sei.
— Mas faria vinte perguntas.
— Faria.
— Você não.
— Não.
O celular tocou.
Helena viu o nome da mãe.
— Oi, mãe.
Afastou-se alguns passos.
— Sim, eu comi.
Escutou.
— Pastel.
Pausa.
— De camarão.
Ela olhou para Ivo.
— Estou na praia.
Mais uma pausa.
— Estou com o Ivo.
Helena ouviu por alguns segundos.
— Não, está tudo bem.
Desligou.
Voltou.
— Ela perguntou se você levou casaco.
Ivo olhou para a própria camisa.
— Está quente.
— Eu falei.
— Ela não me conhece.
— Conhece pela voz.
Ivo pensou um pouco.
— Então manda um abraço.
— Vou mandar.
O sol desapareceu atrás das nuvens antes de tocar o horizonte. As luzes da orla começaram a acender. O quiosque fechou a porta de metal, e o toldo azul finalmente parou de bater.
Helena levantou.
Calçou os tênis sem colocar as meias.
— Amanhã eu volto.
— Antes das seis?
— Antes.
Ela sacudiu a areia da barra da calça. Uma parte ficou presa no tecido. Helena passou a mão uma vez e desistiu.
— Quero sentar na cadeira.
Ivo levantou os olhos.
— Vai amassar.
— Melhor.
Ela caminhou até o carro.
Antes de entrar, voltou.
— Você vai falar com o Celso?
Ivo olhou para o pescador.
— Talvez.
— Essa já foi.
— Eu sei.
Helena sorriu.
— Até amanhã.
— Até.
Ela entrou no carro e foi embora.
Ivo esperou até as luzes vermelhas desaparecerem na esquina.
Dona Neusa estava no portão do prédio.
— Seu Ivo.
— Boa noite.
— Ela vai voltar?
Ivo olhou para a rua.
— Disse que vai.
Dona Neusa assentiu.
— Então está bem.
Entrou.
Ivo ficou sozinho na calçada.
Celso ainda estava na praia.
Ivo tirou os sapatos e desceu.
O pescador estava enrolando a corda da tarrafa.
— Boa noite.
Celso levantou a cabeça.
— Boa noite.
Ivo ficou ao lado dele.
— Pega alguma coisa?
— Às vezes.
— Hoje?
— Hoje não.
Ivo olhou para a rede.
— Posso tentar?
Celso entregou a tarrafa.
— Segura aqui.
Ivo segurou.
— Gira.
Ele girou o corpo.
— Mais.
Ivo girou novamente.
— Agora.
Soltou.
A tarrafa abriu pela metade, pegou o vento e caiu torta sobre a espuma.
Celso olhou para a rede.
— Torta.
Ivo também olhou.
— É.
Celso puxou a corda e devolveu a ponta para ele.
Ivo segurou.

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