O Pico de Matinhos
Uma onda que sempre volta
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
A primeira coisa que notei foi a areia. Três grãos no corredor, perto da porta da cozinha. O chão limpo me acalma. Varro todo dia depois do café. Eu tinha varrido fazia meia hora. A Neusa dizia que eu tinha mania. Uma vez, passou uma tarde inteira limpando o azulejo da cozinha com uma escova de dentes. Não falou nada. À noite, o azulejo brilhava. Ela olhou, disse "pronto", e foi dormir.
Tinha um cheiro também.
Os grãos eram grossos. Escuros. Areia de praia, daquela que fica molhada. Abaixei-me, peguei com o dedo e fiquei olhando. Depois, olhei para a garagem.
A prancha estava lá. Só que não estava como eu deixara. Encosto-a sempre na mesma parede, atrás da bicicleta, com a rabeta para baixo. Naquela manhã, estava de lado. Endireitei-a. O joelho doeu quando me levantei. O Zeus latiu duas casas adiante. Depois parou.
Comprei essa prancha de um homem que estava esvaziando uma casa perto do Flórida. Ele tinha aberto o portão e colocado um monte de coisas na calçada. Ferro-velho, cadeira, uma caixa de ferramentas enferrujada. A prancha estava apoiada no muro.
— Leva isso também — ele disse.
— O que é?
— Uma prancha.
— Eu estou vendo.
Ele deu de ombros.
— Então pronto.
Paguei cinquenta reais. Paguei porque ele parecia precisar. A verdade é que comprei porque a prancha tinha sobrevivido a alguém. Eu gosto disso. De coisas que atravessaram a vida dos outros e continuam ali, meio tortas, meio feias, mas inteiras. Minha casa é cheia dessas coisas. A Neusa dizia que eu morava num museu de coisas que ninguém quis.
Naquela tarde, coloquei a prancha de volta na garagem. Ela pesava mais do que eu lembrava. O ombro reclamou.
Às 16h18, ouvi um barulho. Madeira raspando no piso. Pensei em cadeira. Depois lembrei que moro sozinho.
Fui até a cozinha. A xícara ainda estava na minha mão.
Ela estava no corredor.
Fiquei parado. Peguei o celular. Tirei uma foto. Levei-a de volta. De novo o ombro.
Não contei para ninguém. O mais velho, o Rafael, liga todo domingo. A gente fala de futebol. Ele pergunta do tempo, eu pergunto do serviço. Nunca falei do Pico com ele. Uma vez ele me perguntou por que eu tinha parado de surfar. Eu disse que foi o trabalho. Ele acreditou. A Neusa tem a vida dela. Teve uma vez que quase contei. Estávamos na cozinha, ela mexendo o café, e eu abri a boca. Mas ela perguntou outra coisa, eu respondi, e nunca mais voltamos àquele assunto.
Naquela noite dormi no sofá. Acordei com o pescoço doendo.
No dia seguinte, a mesma coisa.
16h18.
Ela no corredor.
Desta vez havia uma mancha de água no chão. Pequena, do tamanho de uma moeda. Passei o dedo. Molhada. Cheirava a mar. Cheirava a cera também. Uma cera antiga, de coco. Não uso cera há trinta e cinco anos. Não tenho cera em casa.
Fiquei com a mão no ar. Depois lavei o dedo na pia.
Na terceira tarde montei uma armadilha. Cadeira atrás da porta. Fio de pesca na maçaneta.
16h18.
Ouvi o barulho.
A porta fechada. O fio no lugar. Ela no corredor.
Sentei no degrau da porta e fiquei ali até escurecer. Uma hora ou outra o Zeus começou a latir de novo. Depois parou.
Fiquei pensando se não era eu.
Na manhã seguinte, coloquei a prancha no carro. O ombro doeu de novo. Não lembro de ter decidido isso. Só me vi dirigindo para o Pico, com ela no banco de trás, e o dia estava bonito, um maio daqueles em que a cidade fica vazia e a gente esquece que existe verão.
Eu surfava quando era jovem. Não era bom. Era animado, o que é diferente. Entrávamos no mar de qualquer jeito. Prancha emprestada, prancha velha, o que houvesse. Tinha um cara que levava café numa garrafa térmica. Não lembro o nome dele. Lembro da garrafa. Azul, com um amassado na tampa.
Depois eu parei. Falei para mim mesmo que foi o trabalho. Depois os filhos. Depois a idade. Mas eu morava a duzentos metros da praia. Da janela da cozinha eu via o mar. Todo dia. Nunca mais desci.
Estacionei longe. Tirei a prancha do carro.
Havia um homem sentado perto de um carrinho de pesca. Magro, pele queimada, boné velho. Tinha uma cicatriz no braço. Olhou para a prancha.
— Essa é do Neco.
O nome ficou no ar. Neco. Eu não conhecia nenhum Neco.
— Não sei.
Ele olhou de novo.
— Parece.
— O senhor o conheceu?
Ele não respondeu. Olhou para o mar.
— E o que aconteceu com ele?
Apontou com o queixo.
— Você não lembra?
O estômago fechou.
— Não.
Ele ficou me olhando. Um homem que vinha ali todo dia. Um homem que podia ter sido a testemunha. Ou não. Eu nunca soube.
— Então é melhor não perguntar.
Não perguntei. Levei a prancha até a água.
A água estava fria. Entrei sem roupa de borracha, como fazia antigamente. As pernas endureceram na hora. Sentei na prancha e fiquei esperando. O corpo lembra. A cabeça esquece, mas o corpo lembra. A posição das mãos. O movimento da remada. Eu não surfava havia décadas. Mas quando uma direita começou a abrir, remei. Não pensei. Remei.
O ombro travou na terceira remada. O joelho doeu quando me levantei. Por uns segundos eu tinha vinte anos. A prancha correu. Só que correu antes de mim. Inclinei o corpo, e a curva veio, sem que eu tivesse decidido fazer aquilo. Caí. Bati a coxa na água. Doeu. Doeu como fazia tempo que não doía.
Quando voltei à superfície, a prancha estava alguns metros adiante. Nadei até ela. O braço cansou rápido. Virei-a. Perto da quilha, quatro números gravados na madeira:
16:18.
Passei o polegar. A madeira estava escura dentro dos riscos.
Naquela noite procurei o nome Neco. Achei uma notícia de jornal digitalizada.
Surfista desaparece no Pico de Matinhos. 14 de maio de 1991.
Dois jovens entraram no mar no fim da tarde. Um saiu. O outro não. Neco Alves, 19 anos.
Fechei o celular. Fui até a cozinha. Abri a geladeira. Fiquei olhando para as garrafas de água. Peguei uma, bebi. Quando a coloquei de volta, vi que minha mão tremia.
Naquela noite sonhei com o Pico. Neco estava na água. Eu também. Havia uma onda vindo. Uma onda boa.
Acordei antes de decidir.
O relógio marcava 16h17. Levantei da cama. Só depois percebi que estava vestido. Fui até a garagem. A prancha estava diante da porta.
16h18.
Abri.
Ela caiu para fora. Caiu e ficou em pé, encostada na parede. Dei um passo para trás. A rua estava vazia. Nem o cachorro da vizinha. Nem carro. Nem vento.
A prancha começou a deslizar. Devagar. Raspando a borda no cimento. Foi descendo pela calçada, atravessou a rua, alcançou a areia.
Eu a segui. Não porque quisesse. Porque não sabia o que mais fazer.
Na praia o velho estava lá.
— Ainda está fazendo isso?
Não respondi. Uma onda abriu. A prancha entrou na água sozinha. Atravessou a primeira arrebentação. Uma onda veio atrás, levantou-a, e por um instante jurei que havia alguém em cima.
Pisquei. Não havia.
Ela desceu a parede inteira. Quando a onda terminou, desapareceu.
Esperei.
16h31.
Estava na areia. Molhada. Voltei para casa sem tocar nela.
Naquela noite abri uma caixa que estava no alto do armário. Tinha fotografias. Uma carteira de identidade vencida. Alguns papéis. Um chaveiro que não reconheci. E uma folha dobrada.
Abri. Reconheci a letra antes de ler. A minha letra.
Eu não estava sozinho.
Só isso. Não tinha mais nada escrito. Sentei na cama.
O cheiro veio primeiro. Cera de coco.
Depois a água batendo na prancha. Aquele som oco.
O Neco tinha dezenove anos. Era um ano mais novo que eu, mas parecia mais. Passava cera na prancha com a mão inteira, não com o pano, e dizia que era para sentir a madeira.
Ele ria de tudo. De mim, principalmente. Uma vez imitou um gordo que todo mundo chamava de Baleia, e riu tanto que quase engasgou. Eu ri também. Rimos muito naquele dia. O Baleia não estava lá. Pensei nele depois. Pensei que, se alguém me imitasse daquele jeito, eu não iria gostar. Nunca falei nada para o Neco.
Ele também tinha medo. Uma vez, no meio da água, falou que tinha medo do fundo. Eu ri. Ri porque não sabia o que dizer. Ele riu também. Nunca mais tocou no assunto.
Naquele dia entramos no mar no fim da tarde. Pouca gente. Neco remou primeiro. Remei atrás. Ele entrou. Fiquei alguns metros atrás.
Então ele caiu.
A prancha dele virou. A cabeça dele apareceu no meio da espuma. E ele levantou o braço. Um braço levantado, na direção do céu.
Eu vi.
Eu estava a uns cinco metros.
Não lembro o que disse. Não lembro se disse alguma coisa.
A onda seguinte começou a abrir.
Olhei para o Neco.
Olhei para a onda.
Remei.
Naquela noite contei para mim mesmo que não tinha visto. Depois contei que o mar estava forte. Depois contei que tinha voltado para procurar. Depois contei que ele tinha entrado sozinho.
Peguei o celular. Procurei a notícia de novo. Levei um tempo para achar a parte que não tinha lido.
As buscas foram encerradas três dias depois.
Três dias. E tinha outra coisa. Uma linha pequena, quase ilegível.
Uma testemunha afirmou ter visto outro surfista próximo à vítima antes do desaparecimento.
Li aquilo e senti frio. Não lembrava de testemunha nenhuma. Não lembrava de ninguém olhando. Mas alguém tinha visto. Alguém tinha visto e falado. E eu nunca soube.
No dia seguinte voltei ao Pico. O velho não estava. Fiquei um tempo esperando. O carrinho não estava lá. Nem o boné. Nada.
Fui embora.
No outro dia voltei. Ele estava. Sentei ao lado dele.
— O senhor estava lá — eu disse.
Ele não respondeu.
— Eu vi o Neco.
Ele continuou olhando para o mar.
— Ele levantou o braço.
O velho assentiu.
— O senhor foi a testemunha?
Ele passou a mão no rosto. Devagar.
— Testemunha é quem vê. Eu só estava lá.
— O senhor vem aqui todo dia?
Ele ficou um tempo sem responder. Um barco passou longe. O velho mexeu no boné. Depois ficou quieto de novo.
— O senhor também estava na água?
Ele olhou para o mar. Não respondeu. Ficou olhando.
Abaixei a cabeça. Quando levantei os olhos, a prancha estava alguns metros atrás da gente. Molhada. O velho olhou para ela.
Depois levantou-se.
E foi embora.
Fiquei sozinho. A prancha estava na areia. Virei-a. Debaixo da quilha, junto ao 16:18, havia um risco. Fundo. Feito com alguma coisa pontuda. Consegui ler uma letra. Depois outra. A terceira eu não quis ler.
Não levei a prancha para casa. Deixei-a ali e voltei caminhando.
Naquela noite fiz uma mala. Coloquei roupa, documento, carregador. Antes de dormir olhei pela janela. A rua estava vazia.
Na manhã seguinte choveu. Fiquei em casa. À tarde a chuva parou.
16h17.
Eu estava sentado na cozinha.
16h18.
Nada.
Esperei.
16h19.
Nada.
Levantei. Fui até a garagem. A prancha estava no lugar. Peguei a mala. Coloquei-a no carro. Quando liguei o motor, olhei o relógio do painel.
16h18.
O celular marcava 16h43.
Desliguei o carro. Saí.
A praia estava vazia. O mar tinha subido. Uma direita começava a se formar no Pico. E a prancha estava na água. Havia alguém em cima. Jovem. De costas. Não consegui ver o rosto.
A figura entrou na onda. Desceu. Virou. Por um instante reconheci a postura. Não era o Neco. Era eu. Aquele jeito de baixar o ombro antes da curva.
A figura desapareceu atrás da espuma.
Fiquei parado. Então ouvi um som. Não vinha do mar. Vinha da areia. A prancha estava aos meus pés. Abaixei-me. Tinha uma fotografia presa na quilha. Dois rapazes. O Neco na água. Eu, alguns metros atrás.
Aproximei o rosto.
Na imagem, o Neco não estava caindo. Estava levantando o braço. E eu estava olhando para ele. Não para a onda. Para ele.
Virei a fotografia.
Não tinha nada escrito.
Fiquei muito tempo sentado na areia. Depois guardei a fotografia no bolso. Peguei a prancha. Entrei no mar. A água chegou na cintura. Fria. Subiu pelo peito. O corpo inteiro sentiu. A prancha flutuou na minha frente.
Remei.
Uma onda começou a se formar. A mesma direita. A mesma parede comprida que eu lembrava sem ter lembrado durante trinta e cinco anos.
Parei de remar. Olhei para a onda. Depois olhei para a água ao lado. Esperei. Uma cabeça apareceu alguns metros adiante. Não sabia se era um homem, um pedaço de madeira ou só espuma. A cabeça desapareceu.
Remei.
Estiquei a mão.
A prancha ficou para trás.
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