sexta-feira, 25 de setembro de 2026

O Intervalo

O Intervalo
Tadeu Everton Zamoiski


Ivo chegava sempre antes das sete na casa da Praia Grande. Era o único jeito de terminar os consertos antes do calor grudar a camisa no corpo. Trabalhava sozinho havia três anos, desde que o antigo patrão fechou a loja de material de construção perto da rodoviária e ele resolveu virar autônomo. Fazia de tudo. Trocava disjuntor, desentupia ralo, consertava telhado que gotejava depois da primeira chuva forte do ano. No inverno o litoral esvaziava e o dinheiro rareava, mas em outubro os proprietários começavam a ligar, ansiosos para deixar as casas prontas antes do movimento de janeiro.
Ele vinha adiando a compra do platô da embreagem havia duas semanas, esperando fechar mais um serviço antes de encarar o preço na oficina do primo. Naquela manhã, antes de ir até a Praia Grande, passou na casa de um cliente antigo no Tabuleiro para trocar uma fechadura emperrada. O homem reclamou do preço, como sempre reclamava, e acabou pagando vinte reais a menos do que Ivo tinha cobrado da última vez. A peça do carro teria de esperar mais alguns dias. Saindo de lá, viu uma vizinha estendendo lençol no varal, gritando para dentro de casa que já ia esquentar o almoço, que parasse de encher o saco.
A casa da Praia Grande pertencia a um casal de Curitiba que só aparecia em janeiro. As chaves ficavam com Ivo o ano inteiro, junto com uma lista de pendências que crescia cada vez que ele revisava o imóvel. Dessa vez era a torneira da área de serviço, pingando havia meses, segundo a mensagem que a proprietária mandou.
Trocou o registro, trocou o vedante, trocou até a torneira inteira. Fechou até sentir a borracha encostar no metal e testou de novo. Guardou a ferramenta, tomou um café da garrafa térmica sentado na varanda e foi embora achando que ali estava resolvido.
A proprietária ligou de novo antes do fim da semana. A torneira estava pingando.
Voltou incomodado, porque aquilo mexia com a reputação dele, e revisou tudo com cuidado dobrado. Não havia folga na rosca nem vazamento no cano. Mesmo assim, um fio de água escorria pela boca da torneira, forming uma poça pequena no fundo do tanque. Secou tudo, fechou o registro geral da casa, esperou uma hora, abriu de novo. A poça reapareceu antes dos dez minutos.
Molhou o dedo. A água estava salgada.
Já tinha visto umidade entrar em casa de praia por lugares que ninguém encontrava. Pensou em avisar a proprietária que talvez fosse coisa da tubulação inteira, um problema mais caro, envolvendo obra. Preferiu não ligar ainda. Se dissesse isso sem certeza, corria o risco de perder a manutenção do ano inteiro, que pagava as contas justamente nos meses mais fracos. Deixou um balde embaixo da torneira.
Quando voltou, quase uma semana depois, o balde estava cheio até a metade. Não tinha chovido naquele período, e a casa ficara fechada, sem ninguém usando água. Levantou o balde, sentiu o peso maior do que esperava, e viu no fundo uma camada de areia grossa. Passou o polegar por ela. Era úmida, áspera, do tipo que gruda embaixo da unha na praia e demora para sair. Limpou a mão na calça sem pensar, um gesto automático, e só depois se deu conta de que tinha feito aquilo.
Ficou parado olhando a torneira fechada, pingando devagar. Esperou o próximo pingo. Depois outro. Quando percebeu, estava contando. Oito segundos, depois nove, depois oito de novo.
Contou o caso para Marlene naquela mesma noite, enquanto jantavam. Ela trabalhava numa padaria perto do centro e não gostava de assunto estranho durante a refeição, mas ouviu, mastigando devagar, e por fim deu de ombros.
— Casa perto do mar dá dessas coisas, Ivo. Meu pai falava que a água entra por baixo.
Foi ela quem reclamou primeiro, um tempo depois. Disse que o café tinha saído esquisito, mais pesado, quase salobro. Ivo bebeu um gole e sentiu a mesma coisa. Testaram a água do filtro, da geladeira, da caixa d'água no telhado. Só a água da torneira da cozinha, trocada havia menos de dois anos, estava salgada. O pingo mantinha o ritmo que ele já reconhecia de cor, sem precisar contar de novo.
Não contou tudo para ela. Falou que devia ser sujeira no cano, prometeu resolver no fim de semana, e trocou o vedante de novo, sabendo no fundo que não ia adiantar. Marlene não insistiu no assunto da torneira, mas começou a acordar de madrugada quando ele levantava para checar a pia.
Uma noite, parada na porta da cozinha de camisola, perguntou.
— Tá acontecendo alguma coisa, Ivo?
Ele demorou para responder, olhando a torneira em vez dela.
— Só a torneira.
— Você fica desse jeito por causa de torneira?
Ele deu de ombros, sem virar. Ela ficou mais um pouco parada, tremendo um pouco de frio, depois voltou para o quarto sem bater a porta.
Foi antes da proprietária chegar, que tinha ligado avisando que ia antecipar a viagem, que Ivo passou pela casa da Praia Grande uma última vez para conferir o serviço. O cheiro de maresia dentro da casa estava mais forte que o normal. O tanque estava seco. A torneira, fechada. Testou, e não pingou uma vez sequer nos cinco minutos em que ficou ali parado, quase se convencendo de que tinha vencido aquilo.
Ao sair, passou a mão na parede perto do rodapé, do lado do cano de saída, e sentiu o reboco úmido debaixo dos dedos. A mancha escura subia uns vinte centímetros. Lembrou que já tinha reparado naquele canto na primeira visita, semanas antes. Não mexeu porque a parede parecia seca naquele dia. Fechou a casa, trancou o portão.
Fazia dois anos que ele mesmo tinha erguido a parede do quarto da filha, num fim de semana em que sobrara material de uma reforma. Marlene queria o quarto pronto antes do aniversário dela, e ele tinha feito tudo às pressas, sem gastar com o que achava supérfluo na hora.
Acordou de madrugada com o som da água pingando. Foi até a cozinha, na ponta dos pés para não acordar ninguém. A torneira estava fechada, seca, sem uma gota. O som continuava, baixo, vindo de outro cômodo.
Seguiu o barulho pelo corredor até parar diante da parede do quarto da filha. Encostou a mão perto da cabeceira da cama e sentiu o reboco frio e úmido, como havia sentido na casa da Praia Grande. Foi só ali, com os dedos pressionados contra a parede, que lembrou por inteiro o que tinha feito dois anos antes. Não tinha gastado com impermeabilizante porque aquele lado não pegava chuva direto, e o dinheiro daquele mês já estava contado até o último centavo.
Ficou parado, com a mão na parede, ouvindo o pingo. Oito segundos, depois nove. A filha dormia virada para o outro lado.

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