Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
Rogério trabalhava lendo hidrômetros depois de se aposentar. Conhecia o jeito de abrir cada caixa, os visores cobertos de barro, as tampas que emperravam e os cachorros que latiam antes de ele chegar. Conversava pouco. Enquanto a água corresse, havia alguma coisa acontecendo dentro daquela casa.
A casa da Rua 19 de Dezembro ficava perto da Rua Cianorte, no Riviera. Tinha muro baixo, feito de pequenos pilares de concreto, e um portão branco que precisava de tinta. Rogério já havia feito algumas leituras ali. Naquela manhã, antes que o dono aparecesse, um dachshund preto veio às grades. A placa metálica da coleira bateu duas vezes no pescoço. O cachorro cheirou a mão de Rogério por entre as barras e ficou ali.
Rogério apontou para dentro:
─ Esse cachorro é bravo?
O dono apareceu na varanda com uma caneca de café:
─ Esse? Só com quem corre.
─ Então estou seguro.
O homem riu.
O cachorro continuou junto ao portão.
Rogério abriu a caixa do hidrômetro, fez a leitura e fechou a tampa. Não encaixou direito. Abriu de novo, ajustou e bateu duas vezes com a mão.
─ Qual é o nome dele?
─ Zeus.
Rogério olhou para o cachorro:
─ Zeus.
A cauda bateu uma vez na grade.
Nas visitas seguintes, Zeus começou a aparecer antes que Rogério chegasse ao portão. Na terceira vez, Rogério parou ainda na calçada:
─ Você me conhece agora?
Zeus abanou a cauda.
Rogério ficou olhando para ele.
O dono estava saindo para trabalhar. Tinha uma imobiliária pequena na Avenida Paranaguá, num trecho paralelo ao colégio estadual, e costumava deixar a casa pela manhã para voltar no fim da tarde. Segurava as chaves de um carro prata.
─ Ele já sabe o seu horário ─ disse.
─ Meu horário?
─ O seu.
Rogério olhou para Zeus:
─ Como pode ser?
O homem deu de ombros:
─ Ele sabe.
Rogério entrou no carro. Antes de ligar, procurou o cachorro pelo retrovisor. Zeus ainda estava junto ao portão.
Naquela época, Rogério já andava pela casa pensando no que teria de tirar dali. A prefeitura havia comunicado a desapropriação por causa das obras previstas para a região da Avenida Curitiba com a Avenida Paranaguá. Noventa dias.
Ele guardava uma cópia do documento na gaveta da cozinha. Às vezes abria a gaveta, conferia a data e fechava.
Os filhos moravam em Curitiba. Telefonavam para saber como ele estava. Rogério respondia que sim, estava bem. Quando a filha insistiu para que ele fosse morar com ela, agradeceu e mudou de assunto. Não queria ocupar o quarto de ninguém. Tinha seus móveis, suas ferramentas, seus livros. Tinha uma caixa de parafusos enferrujados que carregava havia anos. Separava alguns para jogar fora e, algum tempo depois, guardava-os de novo.
De manhã, ainda colocava duas xícaras na mesa. Era costume antigo. Às vezes só percebia depois de se sentar. Pegava a primeira, tomava o café e deixava a segunda até a hora de lavar a louça.
Foi numa dessas manhãs que o hidrômetro da Rua 19 de Dezembro lhe chamou a atenção.
A tampa estava molhada. Rogério passou a manga da camisa sobre o visor.
480.
Anotou.
Quando ia fechar a caixa, percebeu o pequeno disco indicador girando. Aproximou a luneta.
481.
Afastou.
480.
Olhou de novo.
481.
Rogério permaneceu agachado. O disco continuou girando por alguns segundos e parou.
Ele conferiu o visor diretamente.
480.
Fechou a tampa.
Naquela noite, não comentou com ninguém.
No dia seguinte, 482.
Depois, 483.
Depois, 484.
Alguns dias depois, voltou àquela casa numa manhã de chuva fina. A água escorria pela tampa metálica e deixava uma faixa escura no concreto. Rogério limpou o visor com dois dedos e apontou a luneta.
481.
Tirou os óculos. Limpou as lentes na camisa.
481.
Guardou a luneta.
Zeus estava junto ao portão. A bola vermelha estava presa entre os dentes. Quando Rogério chegou perto, soltou-a no chão.
A bola tinha areia grudada nas ranhuras.
Rogério abriu o portão, pegou o brinquedo e esfregou a palma da mão sobre o plástico:
─ Olha isso.
Zeus esperou.
Rogério devolveu:
─ Vai.
Zeus pegou a bola e caminhou pelo corredor. Parou antes da varanda e olhou para trás.
─ Vai brincar.
O cachorro continuou.
Rogério fechou o portão. No carro, viu areia na palma da mão. Esfregou os dedos na calça. Um pouco ficou debaixo da unha.
Na semana seguinte, os números seguiram normalmente: 485, 486, 487, 488.
Rogério fazia as leituras de outras casas e começou a reparar em pequenas coisas que antes passavam despercebidas: uma torneira que demorava a fechar, uma caixa-d'água com ruído contínuo, um relógio parado numa sala.
Em casa, a mancha de umidade do corredor havia diminuído. Percebeu enquanto procurava uma chave inglesa. Encostou a mão no reboco. Estava frio.
Dias depois, na Rua 19 de Dezembro, o dono mostrou uma mancha atrás do tanque:
─ Cresceu.
Rogério se abaixou:
─ Tem cano aqui?
─ Tem.
─ Pode ser vazamento.
─ Já procurei.
─ Achou?
─ Não.
Rogério passou os dedos pelo reboco úmido:
─ Pode estar em algum lugar que a gente não vê.
O homem assentiu.
Rogério foi até o hidrômetro.
490.
Anotou.
Abriu a luneta.
481.
Ficou alguns segundos.
O dono apareceu atrás dele:
─ Está errado?
Rogério fechou a luneta:
─ Não sei.
Foi a primeira vez que levou o aparelho para casa e o deixou sobre a mesa. Conferiu a lente, limpou o corpo metálico, abriu a tampa das pilhas e fechou. Depois guardou tudo na gaveta.
O corretor continuou ajudando Rogério a procurar outro lugar. Uma tarde, mostrou duas casas. Uma era pequena. A outra ficava longe demais.
Na primeira, Rogério abriu uma janela, olhou o quintal e perguntou onde ficava o hidrômetro.
─ Por quê?
─ Costuma ficar em lugar ruim.
O homem riu.
Na segunda, Rogério nem entrou:
─ Essa não.
─ Nem quer ver?
─ Não.
Voltaram para o carro.
O corretor ligou o rádio, procurou uma estação e desligou:
─ Tem gente que procura uma casa para mudar de vida. Tem gente que procura uma casa para continuar sendo quem era.
Rogério olhou a rua pela janela:
─ Você acredita nisso?
O homem deu de ombros:
─ Eu vendo casa. Cada um acredita no que quiser.
Rogério sorriu.
Na visita seguinte à Rua 19 de Dezembro, o hidrômetro marcava 492. Rogério anotou.
Abriu a luneta.
481.
O disco estava parado.
Esperou.
Nada.
De dentro da casa veio o barulho de água correndo. O disco começou a girar.
Ele olhou diretamente para o visor.
492.
Voltou à luneta.
481.
Rogério fechou a caixa.
Zeus estava sentado junto ao portão.
O carro do dono não estava na garagem.
Rogério poderia ir embora.
Sentou-se no degrau da varanda.
Zeus aproximou-se depois de algum tempo. Cheirou sua calça, deu uma volta e encostou a cabeça na perna dele.
Rogério passou a mão atrás das orelhas.
O cachorro fechou os olhos.
A perna começou a formigar.
─ Você está pesado.
Zeus não se mexeu.
Rogério riu baixo:
─ Tá bom.
Ficou mais um pouco.
Quando levantou, Zeus foi atrás dele até o portão.
─ Eu volto amanhã.
O cachorro ficou olhando.
Naquela noite, Rogério chegou em casa, colocou água para ferver e pegou duas xícaras. Só percebeu o que estava fazendo quando abriu o armário.
Ficou com uma delas na mão.
Guardou-a.
O barulho da porcelana batendo na prateleira.
Depois fez o café.
Alguns dias mais tarde, o corretor encontrou uma pasta antiga no armário da imobiliária:
─ Essas fotos estavam junto com os documentos da casa.
Eram fotografias impressas, algumas amareladas nas bordas. Fachada, quintal, uma reforma, a varanda.
Rogério passou uma por uma.
Parou.
A casa da Rua 19 de Dezembro estava na fotografia. O muro baixo, o portão branco, a varanda.
Diante da porta, um cachorro preto.
Ao lado, uma bola vermelha.
Rogério aproximou a fotografia:
─ Esse é o Zeus?
O corretor pegou a foto. Olhou por alguns segundos:
─ Não.
─ Não?
─ Eu ainda não o tinha.
─ Quando você comprou?
O homem disse o ano.
Rogério virou a fotografia. No verso havia uma data escrita à mão. Aproximou os olhos:
─ Você sabe quem tirou?
O corretor balançou a cabeça:
─ Não.
Rogério devolveu a foto.
Zeus entrou na sala naquele momento e encostou o focinho na mão dele.
Rogério fez carinho atrás da cabeça do cachorro:
─ Vem.
O corretor permaneceu com a fotografia sobre a mesa.
Naquela noite, Rogério dormiu mal.
Depois das duas da manhã, o celular vibrou.
Era o aplicativo de leituras.
Ele abriu.
Rua 19 de Dezembro.
481.
Rogério fechou o aplicativo.
Abriu novamente.
O endereço continuava ali.
481.
Apagou a notificação.
Dois minutos depois, o telefone vibrou outra vez.
Rogério virou o aparelho com a tela para baixo.
Não tocou nele.
Na manhã seguinte, voltou ao trabalho.
As leituras avançaram: 493, 494, 495.
Na Rua 19 de Dezembro, Rogério abriu a caixa do hidrômetro pela última vez.
Apontou a luneta.
481.
Abaixou.
Olhou diretamente para o visor.
495.
Guardou a luneta.
O dono não estava em casa.
Zeus estava no portão.
A bola vermelha estava no chão, molhada pela chuva da noite.
Rogério ficou diante das grades:
─ Eu não sei quando vou voltar.
Zeus chegou mais perto.
Rogério passou a mão entre as barras.
O cachorro lambeu seus dedos.
Rogério deixou a mão ali.
Depois recolheu.
Entrou no carro.
A casa de Rogério foi demolida antes do fim do prazo. A da Rua 19 de Dezembro desapareceu alguns meses depois. As obras avançaram. Restaram trechos de calçada, montes de terra e tapumes.
Rogério encontrou uma casa pequena. Levou os móveis que cabiam. Levou os livros. Levou a caixa de parafusos.
Na primeira semana, recebeu uma fotografia no celular.
Sem nome.
Sem mensagem.
Era a casa da Rua 19 de Dezembro.
Ainda estava de pé.
Rogério ampliou a imagem.
Zeus aparecia junto ao portão.
A bola vermelha estava no chão.
Ao lado dele havia uma pessoa de camisa clara.
Rogério aumentou mais.
O rosto não aparecia direito.
Apagou a fotografia.
Alguns segundos depois, ela voltou para a galeria.
Rogério olhou para a tela.
Depois desligou o telefone e o colocou dentro da gaveta.
Alguns dias depois, passou de carro pela região.
As obras tinham avançado. Onde ficava a casa havia terra, pedaços de concreto e restos de uma calçada. Rogério reduziu a velocidade.
Olhou pelo retrovisor.
Por um instante, viu o portão branco.
Zeus estava junto às grades.
A bola vermelha no chão.
Havia alguém sentado perto dele.
Rogério freou.
Quando olhou novamente, só havia terra.
A mão direita continuou no volante.
Esperou alguns segundos.
Depois engatou a marcha.
Seguiu pela avenida.
No banco ao lado, o celular vibrou.
Rogério não olhou.