domingo, 1 de novembro de 2026

A Padaria das Cinzas

A Padaria das Cinzas
Tadeu Everton Zamoiski 


A primeira fornada daquele dia estava pronta antes de o forno ser aceso.

O padeiro percebeu isso às quatro e quarenta da manhã. Ao entrar na padaria, encontrou seis pães redondos sobre a pá de madeira. Tinham a casca dourada, o miolo macio e ainda soltavam um pouco de vapor.

A porta estava trancada. As janelas também.

Conferiu o forno. O registro de gás permanecía fechado. Um dos pães tinha uma mancha escura na crosta, parecida com letras escritas às pressas.

Esfregou o polegar sobre ela. A mancha permaneceu.

O sino da porta tocou.

Um homem entrou. Usava um casaco escuro, apesar de a manhã não estar tão fria.

— Já tem pão?

O padeiro olhou para a pá.

— Tem. Mas ainda não abri.

O homem escolheu um pão, colocou uma moeda sobre o balcão e perguntou:

— Você lembra de mim?

O padeiro examinou seu rosto.

— Não.

— Eu também não.

O homem pegou o pão e saiu.

A moeda ficou sobre o balcão. Era antiga, de um valor que já não circulava havia muitos anos. O padeiro a segurou entre os dedos. Estava gelada.

Guardou-a no bolso do avental e começou a trabalhar.

A padaria ficava numa das ruas internas do Riviera, em Matinhos. Fora da temporada, o movimento diminuía bastante. Algumas casas permaneciam fechadas durante meses. Às cinco, ele levantava a porta de aço. Às seis, os primeiros clientes apareciam para comprar pão de sal, leite e alguma coisa para levar ao trabalho.

Conhecia os hábitos de todos. Sabia quem preferia pão mais escuro, quem comprava sempre a mesma quantidade e quem pedia para separar os pães ainda quentes.

Quando abriu o forno para preparar a segunda fornada, encontrou uma camada fina de cinzas no fundo. Não havia queimado nada. O forno estava frio, e o registro de gás continuava fechado.

Retirou o material com a pá e despejou tudo numa lata. No meio das cinzas havia pequenos fragmentos escuros, quase como restos de papel queimado.

Um dos pães da primeira fornada ainda estava sobre o balcão. A mancha na crosta tinha aumentado.

Agora era possível ler um nome.

ÁLVARO.

Ele conhecia aquele nome. A palavra trouxe a lembrança de uma conversa antiga, talvez na própria padaria, mas o rosto associado a ela não apareceu.

Jogou o pão no lixo.

Na parede atrás do balcão havia uma faixa de azulejos brancos que nunca lhe agradara. Desde a reforma, pensava em cobri-la com madeira. Naquela manhã, percebeu algumas letras perto da tomada.

Passou um pano úmido. O carvão se espalhou, mas as letras continuaram ali.

ÁLVARO.

Abaixo, outros nomes apareciam em traços finos, alguns quase apagados.

Pegou uma espátula e raspou a superfície. O carvão caiu sobre o balcão. Os nomes permaneceram.

Quando a vizinha entrou para comprar pão, ele ainda estava diante da parede.

— Bom dia, seu Álvaro.

O padeiro se virou.

— Não sou Álvaro.

A mulher pareceu confusa.

— Claro que é. Desculpe. Hoje estou com a cabeça longe.

He abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.

A mulher esperou alguns segundos.

— Está tudo bem?

O padeiro pegou um pão no cesto e colocou na sacola dela.

— Deve ser o cansaço.

Ela pagou e saiu. Antes de atravessar a porta, voltou-se uma última vez.

— Até amanhã, Álvaro.

Ele ficou com a mão sobre o balcão.

O homem de casaco escuro voltou na manhã seguinte.

Entrou às quatro e quarenta e cinco, quando o padeiro organizava as bandejas. Escolheu um pão redondo e colocou outra moeda sobre o balcão.

Era igual à primeira.

O padeiro pegou as duas e as colocou lado a lado. A recém-chegada parecia mais escura. Quando a tocou, sentiu o frio atravessar a ponta dos dedos.

— Você lembra de mim? — perguntou o homem.

— Já esteve aqui.

— Estive?

O homem sorriu discretamente.

— Eu também não.

Saiu com o pão debaixo do braço.

O padeiro guardou a segunda moeda junto da primeira.

Às oito, chegou o fornecedor de farinha. Fazia aquela entrega havia anos. Conhecia o acesso pelos fundos, a irregularidade do piso e o lugar onde costumavam deixar os sacos quando a porta do depósito estava fechada.

Naquela manhã, porém, não entrou.

— O senhor é o responsável aqui?

— Sou eu.

— Qual é o seu nome?

O padeiro hesitou.

— Por quê?

— Preciso confirmar no pedido.

Ele deu uma resposta qualquer. O fornecedor consultou a prancheta e franziu a testa.

— Não tem entrega registrada para este endereço.

— Você entrega aqui toda semana.

— Nunca entreguei.

— Está brincando?

O homem olhou para o salão vazio, depois para o balcão.

— Esta padaria estava fechada quando comecei a trabalhar nesta rota.

O padeiro apontou para os sacos empilhados no depósito.

— E aquilo veio de onde?

O fornecedor entrou, examinou um dos sacos e passou o dedo pela etiqueta.

— Essa marca saiu de linha faz mais de quinze anos.

Conferiu a data impressa no papel. Depois olhou novamente para o padeiro.

— O senhor devia chamar alguém.

Foi embora sem descarregar o restante.

O padeiro acompanhou o caminhão pela janela até desaparecer na esquina.

Quando voltou ao balcão, encontrou uma fina camada de farinha espalhada sobre a madeira. No meio dela havia uma marca de dedo, pequena demais para ser sua.

Lembrou-se de uma mão miúda apoiada ali, perto do caixa.

A cliente entrou perto do meio-dia. Morava numa das casas da rua e costumava comprar pão quando voltava do mercado.

Pediu dois pães de sal e perguntou:

— O senhor está trabalhando sozinho?

— Como sempre.

Ela olhou para o salão.

— E o menino?

O padeiro parou de fechar a sacola.

— Que menino?

— Seu filho. Aquele que ficava aqui depois da escola.

Ele sentiu a moeda antiga encostar na coxa, dentro do bolso do avental.

— Não tenho filho.

A mulher franziu a testa.

— Como não? Ele ficava sentado naquele banco, perto da janela. Às vezes saía com um pão antes de você terminar de trabalhar.

O padeiro olhou para o banco. Era baixo, de madeira escura.

— Deve estar confundindo com outra pessoa.

A mulher não insistiu. Pagou, guardou os pães e saiu devagar.

Ele fechou a porta por alguns minutos.

No depósito, encontrou uma caixa de papelão embaixo de uma prateleira, coberta por farinha e poeira. Dentro havia fotografias antigas, recibos e pequenos objetos.

Um uniforme escolar azul estava dobrado no fundo. O tecido tinha encolhido, os botões estavam gastos. No bolso, uma etiqueta trazia o nome CAIO e uma data de mais de vinte anos antes.

O padeiro passou os dedos pelo bordado.

A fotografia estava embaixo do uniforme.

Mostrava um homem sentado num banco de praça, segurando um menino pela cintura. O homem usava uma camisa azul de mangas dobradas. O menino tinha os cabelos claros e segurava um pão redondo com as duas mãos.

O padeiro aproximou a imagem do rosto.

O homem da fotografia usava um relógio de pulseira metálica. O vidro tinha uma pequena rachadura perto do número quatro.

O padeiro olhou para o próprio pulso.

Usava aquele relógio. A rachadura continuava no mesmo lugar.

Havia outra coisa. O homem segurava o menino com a mão esquerda apoiada na cintura e a direita sobre o ombro, protegendo-o de uma queda. O padeiro conhecia aquele gesto. Ao levantar os sacos de farinha, fazia exatamente a mesma coisa com o braço.

Virou a fotografia.

No verso, escrito com letra infantil, havia uma frase:

Para o pai, quando eu crescer.

Abaixo, um nome:

CAIO.

O padeiro sentou-se no chão.

A fotografia tremia entre seus dedos.

— Caio.

Uma lembrança surgiu inteira por alguns segundos.

O menino sentado no banco da padaria, com as pernas balançando sem alcançar o piso. O pão estava frio, mas ele soprava a casca antes de morder. O padeiro dizia que aquilo não adiantava nada. Caio ria e soprava outra vez.

Depois vinha a imagem de uma pequena mochila encostada à porta dos fundos.

O padeiro apertou a fotografia contra o peito.

Quando se levantou, os nomes na parede estavam mais fracos.

Todos, menos um.

ÁLVARO.

O homem de casaco escuro voltou no terceiro dia.

Dessa vez, entrou quando o padeiro estava diante do forno. Foi direto ao balcão e colocou uma moeda sobre a madeira.

O padeiro não precisou tocá-la para saber que estava fria.

— O senhor já veio aqui — disse.

O homem olhou para a moeda.

— Pode ser.

O padeiro segurou a borda do balcão.

— O que quer?

— Um pão.

— Tem outros lugares.

— Eu sei.

O homem escolheu um pão redondo e o colocou no bolso do casaco.

Antes de sair, olhou para o padeiro.

Não fez a pergunta.

O sino tocou quando a porta se fechou.

O padeiro correu até a rua, mas o homem já havia desaparecido entre as casas. No chão, perto da entrada, havia um pouco de areia úmida. Ele se abaixou e recolheu a moeda.

Guardou-a junto das outras.

Naquela tarde, voltou à fotografia. O rosto do menino estava mais nítido. Os olhos apertados pelo sol, a boca entreaberta, as mãos pequenas segurando o pão.

O padeiro levou a imagem até a parede e colocou-a ao lado do nome CAIO.

— Eu lembro de você.

O nome na parede perdeu um pouco da cor.

Ele voltou ao forno. No fundo havia uma camada nova de cinzas. Pegou uma pequena quantidade entre os dedos e esfregou. O pó escuro se espalhou pela pele, acumulando-se nas linhas da mão.

Na manhã seguinte, encontrou apenas uma mancha onde o nome de Caio estivera escrito.

A fotografia continuava no balcão.

Às quatro e quarenta, o padeiro entrou na padaria.

A porta estava trancada. As janelas também.

Sobre a pá de madeira havia um único pão redondo. A casca estava dourada, e uma mancha escura atravessava o centro.

Ele se aproximou.

ÁLVARO.

O nome que a vizinha usava. O nome que ele negara. O nome que permanecera na parede quando todos os outros desapareceram.

Foi até os azulejos.

Não havia mais nada escrito, exceto aquela palavra.

Passou a mão sobre o nome. O carvão sujou seus dedos.

Atrás dele, o forno estalou.

A fotografia estava sobre o balcão. O menino segurava o pão com as duas mãos, e o homem da camisa azul mantinha o braço em volta de sua cintura.

O padeiro pegou a imagem.

— Caio.

Dessa vez, a lembrança veio acompanhada de uma voz.

— Pai, sopra para mim.

Ele fechou os olhos.

Lembrou-se de soprar a casca do pão, de esperar o menino morder, de limpar com o polegar uma migalha presa no canto da boca. Lembrou-se também de uma pequena mão segurando a sua na travessia da rua.

Quando abriu os olhos, o rosto do menino começava a desaparecer.

O padeiro correu até a parede.

— Caio!

O nome já não estava escrito.

No forno, as cinzas se mexeram. Uma pequena nuvem subiu e se espalhou pelo salão. O pão sobre a pá soltou um cheiro quente, familiar, de massa recém-assada.

O padeiro olhou para la crosta.

O nome ÁLVARO estava desaparecendo.

Tentou segurá-lo com o polegar, mas a mancha escura se desfez. Restou apenas a casca dourada.

Ele procurou a fotografia. O menino já não estava nela. O homem da camisa azul permanecia sentado no banco, com o braço estendido sobre um espaço vazio.

O padeiro guardou a imagem no bolso.

Às cinco, levantou a porta de aço.

A rua estava vazia. A maresia deixava uma película úmida nos vidros, e a areia trazida pelo vento se acumulava junto ao meio-fio.

Não havia mais nenhum nome.

Fechou a padaria, tirou o avental e guardou as moedas no bolso. Antes de sair, voltou uma última vez ao forno. O pão continuava sobre a pá, agora completamente frio.

Do outro lado da rua havia uma padaria pequena, com uma porta de vidro e uma placa que ele nunca tinha observado. Entrou.

Um rapaz trabalhava atrás do balcão. Tinha farinha nos braços e um pano sobre o ombro. Separou um pão redondo, colocou-o num saco de papel e soprou a casca antes de entregá-lo.

O gesto fez o visitante parar.

O rapaz ergueu os olhos.

— Vai querer mais alguma coisa?

O homem colocou uma moeda antiga sobre o balcão.

O jovem examinou o dinheiro e depois o rosto do cliente.

— Você lembra de mim?

O homem procurou o nome do menino. Procurou a fotografia, a voz, a pequena mão que segurava a sua.

A lembrança não veio.

— Não.

O rapaz recolheu a moeda.

O visitante pegou o pão e saiu.

Do lado de fora, a manhã começava a clarear. Na rua, uma fina camada de areia cobria as marcas dos passos.

Na antiga padaria, o forno continuava apagado.

Sobre a pá de madeira, um pão redondo acabava de sair.

Na crosta, escrito em cinzas, estava o nome de Caio.

Eco

Eco
Tadeu Everton Zamoiski

O mirante do Morro do Boi é uma ferida aberta na paisagem. De dia, vira formigueiro de turistas gritando nomes que a montanha devolve com generosidade de eco barato. “JÚLIA!” Um segundo de silêncio. “JÚLIA!” E riem.

Eu era um deles. Não por vaidade, mas por tédio — um tédio que roía as entranhas como ácido. Subia, gritava o nome de alguém que já esqueci, ouvia a resposta e descia. Onofre, gordo e solitário, estava sempre lá, gritando o nome de uma mulher que nunca aparecia. Eu o via de longe, suando sob o sol, e pensava: que patético. Ele gritava “JÚLIA!” e o morro respondia “JÚLIA!”. E ele sorria como se ela tivesse respondido de verdade.

Numa terça-feira, subi sozinho, à noite.

O cheiro de protetor solar tinha sumido. Restava só o odor mineral da pedra. O vento não uivava: sussurrava. A cidade lá embaixo era um tapete de luzes que não aquecia nada.

Cheguei ao mirante. O mar era um poço de tinta preta. O silêncio pressionava os tímpanos. Senti uma necessidade idiota de quebrá-lo.

— Quem está aí? — gritei.

— Você.

Não foi eco. Tinha textura. Era minha voz, sim, mas havia uma inflexão a mais, uma espécie de prazer. O ar frio do mirante ficou mais gelado.

— Quem está aí? — repeti, mais alto.

— Você.

Mais nítido. Mais perto. Como se a montanha tivesse dado um passo na minha direção. O vento cessou. Desci o morro tropeçando em raízes que pareciam dedos, o coração martelando contra as costelas.

Na manhã seguinte tentei rir. Acústica de mirante, pensei. Vento entre as pedras. Algum turista escondido. Subi de dia, com o sol a pino, e gritei “bom dia”. O eco respondeu “bom dia”. Normal. Idiota. Voltei para casa me sentindo um tolo.

Mas à noite, no chuveiro, o som da água virou sussurro. “Você.” Desliguei o chuveiro. Silêncio. Abri a torneira de novo. “Quem está aí?” perguntou a água. Fechei o registro com força e fiquei parado, molhado, ouvindo o coração.

Parei de falar. Não foi exatamente uma decisão. A garganta simplesmente se fechou e não abriu mais. As palavras, antes fáceis, agora eram objetos cortantes, e eu tinha medo do que poderia sair se abrisse a boca. Em casa, com Elisa, a comunicação virou mímica e papéis.

— O que houve, Tadeu? — ela perguntou. Os olhos castanhos cheios de uma preocupação que eu já não sabia como processar.

Peguei um bloco de notas e escrevi: “Não é eco.”

Ela leu. Franziu a testa.

— Que bobagem é essa?

Escrevi: “O morro responde.”

Ela suspirou — aquele suspiro cansado e familiar.

— Você está trabalhando demais.

Elisa era uma mulher que preenchia silêncios. Falava pelo rádio, pelo telefone, pela janela. Nosso casamento tinha sido construído sobre a minha escuta e a voz dela. Agora eu era um vácuo.

Ela começou a dormir no quarto de hóspedes. Uma noite me acordou, ou tentou. Eu estava de pé no meio do quarto, olhando para a parede que dá para o morro.

— Tadeu? — a voz dela tremia. — Você está falando dormindo.

Eu não estava dormindo. Estava ouvindo. E respondendo. Ela contou depois que eu ria: uma risada baixa, gutural, que não era minha.

No escritório o ar-condicionado perguntava “Quem está aí?”. E eu, com a boca fechada, sentia a resposta subir pela garganta como bile. No zumbido da geladeira, a mesma voz: “Você.” Comecei a desligar os aparelhos. A casa ficou muda. Mas o silêncio também tinha voz.

Onofre me parou na rua. Eu não o via no mirante havia meses. Estava mais magro, os olhos fundos.

— Você subiu à noite — disse ele. Não era pergunta.

Eu não respondi. Ele não esperou.

— Eu também. No começo a gente acha que é eco. Depois acha que é a gente. — Ele sorriu, um sorriso que não era de alegria. — Não é. Ela nunca responde de verdade. A gente é que começa a responder por ela.

Foi embora sem dizer mais nada. Eu fiquei parado na calçada, sentindo o sol na pele, e por um segundo tive vontade de correr atrás dele. Perguntar o que ele tinha ouvido, o que tinha respondido, o que tinha acontecido com Júlia. Mas minha garganta estava fechada. E eu já sabia a resposta.

As semanas seguintes foram um afundamento lento.

Elisa ainda tentava. Escrevia bilhetes e deixava na mesa da cozinha: “Fala comigo.” “Vamos ao médico.” Uma noite a encontrei no corredor, de pé, segurando a maçaneta do nosso antigo quarto. Olhou para mim e perguntou, quase sem voz:

— Ainda sou eu que você ouve, Tadeu?

Não consegui responder. Apenas balancei a cabeça. Ela entrou no quarto de hóspedes e trancou a porta por dentro. Na manhã seguinte havia uma mala no corredor. Não a abri.

Em casa desliguei tudo o que fazia barulho. Mesmo assim, à noite, quando o silêncio apertava, a voz vinha de dentro da garganta, baixa, paciente: “Quem está aí?”. E outra, mais antiga, respondia: “Você.”

Perdi peso. Os espelhos começaram a me devolver um homem de olhos fundos, magro, que eu só reconhecia pelo cansaço. As pessoas na rua desviavam o olhar. Eu também.

Numa madrugada Elisa me encontrou no quintal. Eu estava de costas para a casa, descalço na terra fria, olhando para o morro. Ela me chamou. Eu não virei. Depois contou que eu estava sorrindo. Não lembro de ter sorrido. Ela me puxou pelo braço e eu obedeci.

No dia seguinte a mala sumiu do corredor. A porta do quarto de hóspedes estava aberta e o quarto, vazio.

Onofre morava na casa dos fundos. Era ele quem via tudo pela janela da cozinha. Foi ele quem chamou a polícia. Ele me viu no quintal, à noite, sob a lua. Eu estava no centro do gramado, imóvel, voltado para a silhueta negra do Morro do Boi. Ele me ouviu falando. Duas vozes. Não pareceu surpreso — apenas cansado.

— Quem está aí? — perguntava uma.

— Você — respondia a outra.

Era minha voz. As duas. Uma com o timbre de antes. A outra com um chiado de pedra, como se viesse de um poço.

Quando a viatura chegou eu estava sentado no chão de terra batida. O cheiro de grama pisada e orvalho era forte. O céu, um manto de estrelas frias.

Eu olhava para o morro. Calado. Sorrindo.

— Sr. Tadeu? — chamou o policial, a mão no coldre. — Tudo bem aí?

Eu não me movi. Meus olhos estavam fixos na montanha.

O policial se aproximou, cauteloso, e agachou-se ao meu lado.

— Ele está sorrindo — sussurrou para o colega. — E não pisca.

Foi quando eu abri a boca. Senti os maxilares se destravarem com um estalo seco. O ar frio entrou, e com ele um som. Uma voz que não era minha.

— Quem está aí? — perguntou a minha boca.

O policial recuou. O outro sacou a arma.

E então, do alto do Morro do Boi, veio a resposta. Um sussurro carregado de pedra e sal, que soprou diretamente nos nossos ouvidos, deixando um rastro de arrepio na pele.

— Você.

O policial olhou para o morro. Depois para mim. Depois para o morro de novo.

O sorriso no meu rosto se alargou. Um movimento que não era meu. A mesma curvatura vazia, a mesma ausência.

Minha boca se moveu outra vez. Sem som.

Só o sorriso permaneceu.