um inventário de inverno
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
Eu trabalho com manutenção de casas de veraneio.
Caixa-d'água, portão eletrônico, infiltração, telha solta, boinha de chuveiro que queima. No verão a gente corre feito louco porque tudo quebra ao mesmo tempo e o dono quer chegar com a casa pronta. No inverno o serviço muda. Matinhos esvazia e as casas ficam fechadas, algumas desde o Carnaval, esperando a temporada que vem. O dono manda a chave pelo correio ou deixa na imobiliária do Centrinho e pede para dar uma passada para ver se não entrou bicho, se o mato não tomou o muro, se a conta de luz não veio estourada.
Eu moro no Tabuleiro, perto do rio que corta por trás. Saio cedo de moto, com frio. Levo no baú uma escada curta, um balde, uma chave de grifo e um caderno de capa dura que já está todo manchado de massa corrida. É meu inventário. Anoto tudo ali do mesmo jeito que anoto material na JK. Endereço, o que fiz, o que falta.
JUNHO
Riviera. Segunda quadra depois do canal. Caixa-d'água. 1.000 litros. Limpar e deixar seca.
Foi numa terça de junho que começou. Casa simples, de reboco grosso pintado de um amarelo que já desbotou, duas janelas na frente e um pé de pitanga no canto do muro. O dono é de Curitiba e não vinha desde fevereiro.
Subi no telhado. A telha de fibrocimento estava gelada e úmida por causa da neblina que tinha descido do Morro do Boi de madrugada. Tirei a tampa da caixa. Ela estava cheia até a boca. Aquilo não batia. O registro geral da casa estava fechado com um lacre de arame e a boia deveria ter travado faz meses. Olhei para dentro. Aquela água não vinha da torneira. Era escura, meio esverdeada, e se mexia sozinha, com uma ondulação pequena, como água de gamela quando a gente encosta. Tinha cheiro de maré baixa, de lodo e peixe do Canal da Barra.
Havia três peixes de canal nadando perto da borda. Reconheci pela forma e pelo rabo amarelado. Os mesmos que ficam embaixo da ponte.
Fiquei agachado ali. Olhando. Pensei que alguém tinha jogado água do mar de sacanagem. Mas o portão estava com cadeado e só eu e a menina da imobiliária tínhamos a chave. Desci e fui conferir o registro da Sanepar na calçada. Fechado. Voltei para o telhado. Os peixes continuavam. Encostei a mão. A água estava gelada, mais gelada que o ar, e quando levei a ponta dos dedos à boca ficou aquele gosto de sal que gruda na língua.
Anotei no caderno como anoto tudo.
Riviera. Caixa cheia. Água escura com cheiro de mar. Esvaziada e limpa.
Tirei foto da caixa vazia depois. Esvaziei tudo no quintal. A água fez um caminho escuro na grama e sumiu depressa na areia que sempre volta por baixo do muro nessas casas perto da restinga.
Três dias depois peguei um serviço na Prainha, bem no pé do Morro do Boi. Uma casa de madeira azul, dessas que o pessoal de Curitiba reformou, mas manteve o deck torto. O serviço era só varrer a garagem que tinha enchido de areia com o vento sul e passar um pano no chão da sala. A dona me deixou a chave enrolada num pano de prato e disse que não precisava de pressa. Passei a manhã inteira ali. Varri a areia fina que entra por baixo do portão mesmo fechado, juntei folha de pitanga, tirei teia de aranha do canto do forro. O rádio da vizinha ficou ligado num programa de entrevista o tempo todo. Na hora do almoço sentei no degrau da frente com um café que levei na garrafa e fiquei olhando o mar da Prainha batendo calmo. Não aconteceu nada de estranho. E foi bom que não acontecesse. Me deu até um alívio, como se o dia anterior tivesse sido cansaço.
Na semana seguinte aconteceu outra vez.
JUNHO
Monções. Forro. Mancha escura. Verificar infiltração.
Casa fechada desde março, perto da divisa com a Praia Grande. A dona pediu para olhar o forro do quarto dos fundos. Entrei. A casa tinha aquele cheiro fechado de casa de verão, de protetor solar velho, pano úmido e desinfetante barato. No quarto, a mancha no forro não era de goteira. Era escura e se espalhava a partir do canto, mas quando encostei a mão o gesso estava seco. Quente. Se eu olhava de lado, com a luz da janela batendo atravessada, dava para ver um brilho correndo por dentro da tinta, igual quando o sol bate na água rasa da Prainha e a gente vê o fundo se mexendo mesmo sem vento.
Subi para ver a caixa-d'água. Outra vez cheia. Dessa vez sem peixe, só com um pouco de areia no fundo. E tinha um barulho vindo de dentro da caixa. O mesmo barulho abafado da água do Canal da Barra de madrugada, quando a maré enche e bate no concreto da ponte. Eu conheço esse som porque passo ali todo dia.
Anotei.
Monções. Forro com brilho. Caixa cheia. Barulho de canal.
Comecei a reparar que eram sempre casas da faixa baixa, entre o rio e o mar, entre o canal e a linha de arrebentação da Praia Central. Nunca nas casas do alto de Caiobá. Nunca lá para o lado do Morro do Escalvado.
No fim de junho peguei uma casa na Rua das Monções, com portão azul. O dono pediu para desligar a energia para economizar. A casa tem um corredor lateral estreito que dá para os fundos, desses onde a gente tem que passar de lado por causa do motor do portão. Quando entrei ali, o barulho da rua, de moto e de cachorro latindo, ficou abafado de uma vez. Como se eu tivesse entrado debaixo d'água. E no lugar entrou o mesmo barulho da caixa, o ploc abafado do canal batendo no concreto, devagar.
No fim do corredor o quintal estava normal, com a grama alta. Mas o muro do vizinho parecia mais longe do que deveria. Meio torto. Voltei pelo mesmo corredor e o som da rua voltou de estalo. Como se alguém tivesse destampado meu ouvido.
Anotei no caderno.
Monções. Corredor com som de canal.
Mostrei para o Seu Nestor. A gente se encontra no fim da tarde no canal, perto da ponte, onde ele guarda o barco. Ele tem barco e pesca tainha há quarenta anos. Contei do jeito que deu, que as caixas estavam vindo com água salgada e que tinha um corredor com barulho de água.
Ele ficou mexendo na rede. Sem me olhar. Depois de um tempo disse só isso:
— Ano de muita tainha o mar fica esquisito. Ele vem por baixo.
Perguntei se ele já tinha visto. Ele disse que já viu paiol que amanheceu cheio de areia. E disse que não era bom ficar olhando muito.
Perguntei por quê.
Ele respondeu:
— Não porque faz mal. Porque a gente acostuma.
Na primeira semana de julho fecharam um trecho da beira do canal para obra e tive que fazer a volta pela Avenida Paranaguá para chegar na Riviera. Naquela noite, em casa, estendi na mesa da cozinha um mapa velho de Matinhos que tenho, desses que a prefeitura dava na rodoviária, já todo dobrado nas quinas. Marquei com caneta todas as casas onde tinha acontecido. Deu doze casas.
Liguei os pontos com a régua.
Doze casas.
A linha começava perto do Canal da Barra, passava pela Riviera, cortava Monções e terminava perto da restinga entre a Praia Grande e a Praia Brava de Caiobá.
Fiquei um tempo olhando.
Depois virei o mapa ao contrário.
A linha continuava parecendo a mesma.
Pensei que, se aquilo acontecesse durante o verão, alguém já teria percebido. Depois pensei que talvez fosse justamente por isso que acontecia no inverno.
JULHO
Praia Grande. Última rua, quase restinga. Goteira no chão. Não consegui anotar direito.
Na última casa da Praia Grande, já quase na restinga que separa da Praia Brava, encontrei uma coisa que não consegui anotar direito. Era uma casinha de madeira que já foi de pescador e agora foi toda reformada para aluguel, com deck e tudo. O dono pediu para eu ver o telhado porque tinha goteira no quarto.
Subi, olhei telha por telha. Estava boa, sem trinca, sem folha em cima. Desci para o quarto e a goteira existia, só que ao contrário. Tinha uma mancha redonda de uns trinta centímetros no meio do chão de madeira. E do forro, bem em cima da mancha, pingava água do mar, uma gota a cada dez segundos. A gota caía e sumia. Não formava poça. Não escorria para o lado. Caía e desaparecia.
Fiquei com raiva porque não sabia o que anotar. Peguei a trena e medi a altura do chão até o forro. Dois e quarenta. Peguei o nível de mão e coloquei no piso. Nivelado. Bati com a bota no ponto onde a gota caía. Som de madeira oca, normal.
Sentei no chão. Fiquei ali. Vendo.
A gota caía.
O som deveria voltar na mesma hora.
Mas demorava.
Um segundo, dois segundos, e só então vinha um ploc abafado, igual ao do canal, vindo de muito mais baixo que o chão da casa.
Quando a luz da janela mudou por causa de uma nuvem, achei que alguma coisa tinha se mexido sob o piso. Não ouvi nada. Esperei outra gota. Ela caiu. O som demorou para voltar de novo.
Anotei no caderno com a letra tremida por causa do frio:
Praia Grande. Quarto dos fundos. Goteira no chão. Não subir no telhado.
Fechei a porta do quarto com cuidado e saí da casa. Tranquei o cadeado e deixei a chave na imobiliária.
Na segunda-feira seguinte voltei à primeira casa, a da Riviera com o pé de pitanga. O dono avisou que vem no fim do mês e pediu para deixar tudo em ordem. Abri o portão. O pé de pitanga que em junho estava cheio de folhas agora estava quase pelado, com umas frutinhas pretas secas no chão.
Subi no telhado. A caixa estava vazia, seca, do jeito que deixei.
Desci e fui para a cozinha abrir o caderno para anotar a última visita. Quando abri, vi que na última página havia uma anotação que eu não lembrava de ter feito.
A letra era minha. Só que mais apertada. A caneta era a mesma. O problema é que eu não lembrava de ter escrito aquilo.
Estava escrito:
Riviera. Segunda quadra depois do canal. Caixa cheia. Não esvaziar.
Fiquei olhando para aquilo. Um tempo. Virei a página para trás para ver a data da anotação anterior. A data que eu mesmo tinha colocado no canto era quinta-feira. Três dias depois. Hoje é segunda.
Fechei o caderno devagar. Senti o cheiro de massa corrida da capa e um cheiro leve de maresia que vinha do papel, mesmo ele estando seco. Guardei no baú da moto.
Na hora de ir embora, coloquei a mão no bolso da jaqueta para pegar a chave do cadeado. A chave estava diferente. A chave que era de metal claro estava com uma camada fina de ferrugem avermelhada, áspera, e com cheiro forte de maresia. Enferrujada em um dia, como se tivesse ficado mergulhada.
Fiquei ali no quintal. Com a chave na mão.
Na esquina, olhei para trás. A casa estava normal. A sombra da pitangueira pelada se mexia devagar no asfalto.
Não havia vento.
Fiquei olhando até perceber que a sombra estava se movendo antes da árvore.
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