domingo, 20 de setembro de 2026

O QUARTO QUE DAVA PARA A ESTRADA

O QUARTO QUE DAVA PARA A ESTRADA
Um conto de terror psicológico

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

— O senhor quer o mesmo quarto?
Mauro ainda estava dentro do carro quando ouviu a pergunta. O homem permanecia à porta da pousada, uma das mãos apoiada no batente, olhando primeiro para o veículo e depois para ele. A chuva fina cobria o para-brisa e deformava a luz amarela da placa pendurada sobre a entrada.
Mauro desligou o motor e ficou alguns segundos com a mão sobre o volante.
— Como?
O homem pareceu perceber o próprio erro.
— Nada. O quarto três está livre.
Mauro não respondeu imediatamente. Não conhecia aquela pousada. Nunca tinha estado ali. Pelo menos era o que lembrava.
A estrada entre Morretes e Antonina estava quase vazia naquela tarde. Chovia desde Curitiba, uma chuva miúda e persistente que escurecia os barrancos, encharcava o mato e fazia as poucas casas aparecerem atrás de cercas e árvores como coisas abandonadas. Mauro pegou a mochila no banco traseiro e entrou.
A recepção tinha cheiro de madeira úmida, café velho e produto de limpeza. Sobre o balcão havia um livro de hóspedes aberto. Mauro assinou o nome. A caneta estava morna. O homem pegou a chave e indicou o corredor.
— Quarto três.
O quarto ficava no fundo da pousada. Era simples, antigo, mas limpo, com cama de casal, guarda-roupa escuro, uma mesa pequena e uma janela voltada para os fundos da propriedade. Mauro deixou a mochila sobre a cadeira e, enquanto tirava o casaco, percebeu um papel dobrado sobre a mesa.
Era um recibo antigo.
A data fazia onze anos.
Duas diárias.
No espaço destinado ao hóspede havia apenas uma letra:
M.
Mauro ficou olhando. Pegou a caneta que trouxera da recepção e escreveu um M no verso. Comparou as duas letras. A dele era parecida. Não igual. Parecida demais.
Dobrou o recibo e o colocou novamente sobre a mesa, tentando não pensar naquilo.
* * *
À noite, jantou em um restaurante pequeno na estrada e voltou para a pousada pouco depois das dez. A recepção estava vazia. Subiu para o quarto, tomou banho e abriu o computador, mas não conseguiu trabalhar. A chuva havia aumentado e o som constante da água contra o telhado ocupava o quarto inteiro.
Pouco depois das onze e meia, ouviu duas batidas na janela.
Toc.
Toc.
Mauro levantou a cabeça e esperou. Nada. Foi até a janela. Os fundos da pousada desapareciam na chuva. Havia um terreno inclinado, algumas árvores baixas e, além delas, uma faixa escura que parecia uma estrada. Mauro franziu a testa. A janela deveria estar voltada para os fundos.
Abriu.
O ar frio entrou trazendo cheiro de terra molhada.
Então dois faróis apareceram.
Um carro vinha pela estrada atrás da pousada. Mauro ficou imóvel enquanto os faróis avançavam devagar, atravessavam a chuva e desapareciam atrás da construção.
Ele fechou a janela.
Por alguns segundos, o quarto pareceu encolher. A cama ocupava espaço demais e o guarda-roupa estava mais perto da janela do que deveria. Mauro permaneceu parado, sem saber exatamente o que esperava. Piscou e olhou outra vez. A cama estava onde sempre estivera. O guarda-roupa também.
Sobre a mesa, o recibo estava aberto.
Mauro se aproximou. Na linha das diárias havia uma anotação que ele não lembrava de ter visto antes:
DUAS NOITES.
Pegou o celular e fotografou. Depois tentou apagar a fotografia. O dedo ficou parado sobre a tela. Tentou novamente, mas não conseguiu. Guardou o aparelho no bolso.
Naquela noite, dormiu pouco.
* * *
Às sete e vinte da manhã, sua irmã ligou. Mauro atendeu ainda deitado.
— Você já esteve aí.
Ele se sentou.
— Onde?
— Nessa pousada.
Mauro olhou para a porta.
— Como você sabe onde estou?
— Você mandou a localização ontem.
Ele não lembrava.
— Eu nunca vim aqui.
— Veio.
— Quando?
— Onze anos atrás.
Mauro passou a mão pelo rosto.
— Com quem?
Houve um silêncio antes da resposta.
— Com o pai.
Ele ficou olhando para a parede.
— Não lembro.
— Eu sei.
— O que aconteceu?
— Eu já contei.
— O quê?
— Outras vezes.
Mauro não respondeu. A voz da irmã ficou mais baixa.
— Você sempre esquece essa parte.
A ligação caiu.
Ele tentou retornar, mas não havia sinal. Permaneceu sentado por alguns minutos, segurando o telefone, até sentir cheiro de cigarro. Era muito fraco, misturado ao cheiro de terra molhada.
A memória veio por menos de um segundo: o banco traseiro de um carro, chuva no vidro, uma lanterna, a mão do pai apoiada no encosto e uma voz dizendo:
— Não me deixa aqui.
Mauro levantou tão depressa que bateu o joelho na mesa. O quarto estava vazio.
Foi ao banheiro e lavou o rosto. Quando ergueu a cabeça, viu no espelho a porta do quarto aberta atrás dele. Virou-se. A porta estava fechada.
Ficou parado alguns segundos antes de voltar para o quarto.
* * *
O recepcionista estava atrás do balcão, limpando a madeira. Mauro se aproximou.
— Eu já estive aqui?
O homem continuou o movimento do pano.
— Já.
— Com meu pai?
O pano parou por um instante.
— O senhor estava acompanhado.
— O que aconteceu?
O homem retomou a limpeza.
— Choveu bastante.
— Eu estava procurando alguém?
— Estava.
Mauro sentiu uma pressão atrás dos olhos.
— Por que você perguntou ontem se eu queria o mesmo quarto?
O homem levantou os olhos.
— Eu não perguntei isso.
Mauro ficou olhando para ele.
— Perguntou.
O homem dobrou o pano.
— Quarto três está livre hoje à noite, se quiser ficar.
Mauro não respondeu e voltou para o quarto.
* * *
Passou a manhã tentando trabalhar. As palavras na tela começaram a perder sentido e, em determinado momento, percebeu que havia escrito três vezes a mesma frase. Apagou tudo e tentou ligar para a irmã, mas ela não atendeu.
No início da tarde, abriu a mochila. O recibo estava lá.
Pegou o papel e pensou em rasgá-lo. Os dedos apertaram a borda, mas ele parou e o guardou novamente.
Foi então que encontrou a fotografia.
Estava dentro de um envelope antigo, embora Mauro não se lembrasse de tê-la colocado ali. Na fotografia, ele era mais jovem e estava diante da mesma pousada, ao lado do pai. A parede de madeira aparecia atrás dos dois, assim como a janela do quarto três.
Mauro aproximou a fotografia do rosto e depois a virou. No verso havia uma frase escrita pela mãe:
Não deixe Mauro voltar sozinho.
Ele virou novamente.
Na janela havia uma figura pequena, parada atrás do vidro. Mauro aproximou a fotografia ainda mais. A camisa parecia a mesma que ele vestia naquele momento.
O pai não olhava para a câmera. Olhava para Mauro. Havia no rosto dele um cansaço que Mauro não lembrava de ter visto naquela época.
Mauro quis rasgar a fotografia. Os dedos apertaram a borda, mas ele parou e guardou-a na mochila.
A dor atrás dos olhos pulsou uma vez.
Depois passou.
* * *
No fim da tarde, decidiu ficar. A chuva havia engrossado, e sair pela estrada depois do escuro não parecia uma boa ideia. Na recepção, o homem não perguntou nada. Apenas entregou a chave.
Quarto três.
A segunda noite foi silenciosa. Não havia televisão nos outros quartos, conversa ou carro chegando. Mauro ficou deitado no escuro, olhando para o teto, até ouvir passos no corredor pouco depois da meia-noite.
Eram lentos.
Pararam diante da porta.
Duas batidas.
Toc.
Toc.
Mauro se levantou e chegou perto. Colocou a mão sobre a maçaneta. Por um instante, a dor atrás dos olhos cedeu, mas a mão permaneceu imóvel.
Do outro lado da porta, ninguém falou.
Os passos continuaram pelo corredor e desceram a escada.
Mauro não abriu.
Ficou acordado até amanhecer.
* * *
Às sete e cinquenta, tomou banho, fechou a mochila e saiu. A recepção estava vazia. Havia uma xícara sobre o balcão e o café ainda soltava um pouco de vapor. Mauro chamou pelo homem, mas ninguém respondeu. Deixou a chave e seguiu até o carro.
No caminho, viu marcas de barro perto da entrada lateral.
Parou.
Uma sequência de pegadas seguia até o quarto três. Ao lado dela havia outra marca, mais estreita, que terminava diante da mesma porta.
Mauro olhou para os próprios sapatos.
Depois entrou no carro.
O painel marcava 8h04.
Saiu.
Durante os primeiros quilômetros, não pensou em nada. A chuva havia diminuído e a estrada seguia entre morros baixos, árvores molhadas e pequenos trechos de neblina.
Então apareceu uma placa:
MORRETES
18 km
Mauro continuou.
Mais adiante, outra:
MORRETES
18 km
Reduziu e olhou pelo retrovisor.
Nada.
O celular continuava sem sinal.
Duas batidas vieram do vidro traseiro.
Toc.
Toc.
Mauro apertou o volante.
O cheiro voltou. Cigarro, terra molhada, papel velho.
A lembrança veio em pedaços: o banco traseiro, a chuva, a porta aberta, a mão do pai do lado de fora.
— Mauro, abre.
Ele olhou pelo retrovisor.
O banco traseiro estava vazio.
No banco do passageiro havia um papel.
O recibo.
Mauro pegou. Na parte inferior estava escrito:
SAÍDA: AMANHÃ.
Ficou olhando por alguns segundos. Depois amassou o papel e jogou pela janela.
Continuou dirigindo.
Alguns minutos depois, viu novamente:
MORRETES
18 km
Parou.
Desceu.
A placa estava voltada para o sentido contrário.
Mauro olhou para a estrada e depois para trás.
Entre a chuva e a neblina havia uma construção.
A pousada.
A mesma madeira escura.
A mesma placa.
A mesma janela.
O quarto três estava iluminado.
Mauro voltou para o carro e ficou sentado sem ligar o motor. Não sabia quanto tempo havia passado quando olhou para o banco do passageiro.
O recibo estava ali.
Inteiro.
Sem marcas de amassado.
Mauro não o tocou.
Leu.
VOCÊ NÃO ME DEIXOU AQUI.
Mauro leu.
A dor atrás dos olhos pulsou uma vez.
Olhou para o banco traseiro.
Vazio.
Quando voltou os olhos para o recibo:
VOCÊ FICOU.

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