Inventário de casas fechadas em Matinhos
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
I. Inventário
Marcos cuidava de vinte e sete casas. Não era corretor, não era caseiro, era o cara que ficava. Quando as famílias voltavam para Curitiba, sobravam as chaves. Ele tinha um molho grande, com etiquetas de plástico amarelo escritas de caneta permanente, algumas já desbotadas pelo sol. Riviera, Sol Nascente, Monções, uma na Praia Grande perto do canal. O trabalho era abrir as janelas, ver se não tinha infiltração, se o disjuntor não tinha caído, se o forro não tinha cedido. Deixar tudo respirando um pouco e depois fechar de novo.
Em junho, o Centrinho já era outro. Lojas de bronzeamento com meia porta aberta, o cheiro de peixe mais forte que o de protetor solar, o vento que vinha do mar e atravessava as ruas sem pedir licença. Ele gostava desse período. A cidade voltava a ter tamanho real. Dava para estacionar a moto em qualquer lugar e conversar sem precisar gritar.
A imobiliária pediu fotos. Fotos de tudo. Geladeira aberta, relógio de luz, ralo do banheiro. Marcos levava o celular velho e uma prancheta.
Abrir, fotografar, anotar, fechar. Era um trabalho de repetição.
II. Três ocorrências
A primeira foi na Rua das Bromélias, entre a Riviera e o rio. Casa de dois andares, reboco simples, daquelas pintadas de azul-claro nos anos noventa e nunca mais. Ele tinha certeza de que tinha trancado a porta dos fundos no começo de maio porque a fechadura emperrava e ele precisou forçar o ombro. Agora ela estava encostada. Um vão de dois dedos.
Empurrou. O cheiro de casa fechada veio normal, abafado. No chão da cozinha havia um rastro. Pegadas de areia molhada, escura, que iam da porta até a pia e paravam. Eram marcas de pés descalços, de alguém que tinha entrado molhado.
Em cima da pia tinha uma chave. Não estava lá antes. Chave comum, de porta interna, com uma etiqueta amarela nova. Na etiqueta, com letra que não era a dele: CASA 1.
Fotografou o rastro porque a imobiliária pedia registro. Varreu a areia para fora com a vassoura que ficava atrás da geladeira. Guardou a chave no bolso.
A segunda foi na quarta-feira, na Rua Rio da Onça, perto da ponte onde o mato começa a engolir o bairro. Porta dos fundos encostada de novo. Dessa vez a areia não estava no chão. Estava acumulada em volta do rádio de madeira que ficava na estante, daqueles que os donos não levam porque não valem nada. Areia fina, quase seca, fazendo um círculo em volta do aparelho, como se alguém tivesse esvaziado um balde ali.
O rádio estava ligado. Baixo. Não era música, era aquele chiado de AM fora de estação, grave, contínuo.
Em cima do rádio, outra chave. Igual à primeira. Mesma etiqueta amarela, mesma letra. CASA 2.
Desligou o rádio da tomada. O chiado continuou por um segundo vindo do alto-falante mesmo sem energia, e depois cessou.
No rancho, comentou com o Seu João, que estava remendando rede perto da Praia Brava.
— Tá entrando gente nas casas fechadas, Seu João. Tô achando rastro de pé e chave que não é minha.
Seu João nem levantou a cabeça.
— Não tá entrando gente não. Mar tá liso.
— Areia dentro de casa?
Seu João passou a mão na rede.
— Junho é mês que o mar devolve.
Voltou a puxar a rede.
— O senhor que cuide das suas chaves.
A terceira foi na Praia Grande, casa térrea com terreno grande, cheia de goiabeiras. Nessa ele tinha colocado um cadeado novo na porta da frente. O cadeado estava lá, fechado. A porta dos fundos, encostada.
Dessa vez a areia estava em cima da cama de casal, no quarto principal. Um punhado, já seco, espalhado sobre a colcha. No banheiro, o ralo estava entupido de areia molhada, escura, como se tivesse subido pelo cano.
Ao lado da cama, uma cadeira de praia branca, virada para a janela. Virada para sudeste. Em cima dela, a terceira chave.
CASA 3.
Foi aí que percebeu que nas outras duas casas também tinha uma cadeira. Na Rua das Bromélias, encostada na parede da cozinha. Na Rio da Onça, no meio da sala. Todas iguais, de plástico branco, baratas, apontadas para o mesmo lado.
III. O padrão
Abriu o caderno pequeno que levava no bolso da jaqueta e começou a anotar fora da prancheta da imobiliária. Endereço, hora, posição da cadeira.
Voltou à casa da Rua das Bromélias no dia seguinte só para conferir. A porta dos fundos estava encostada. A areia molhada estava lá de novo, por cima do lugar que ele tinha varrido. A pia, que deixara seca, estava úmida, com uma película de água salgada.
Na Rua Rio da Onça, a areia fina tinha se movido. Agora estava dentro da primeira gaveta da cozinha, misturada com os talheres. O rádio estava ligado de novo.
Desligou da tomada.
O som continuou no alto-falante. Aproximou o ouvido. Parecia vir de dentro da madeira. Afastou dois passos. Parecia vir da janela. Abriu a janela que dava para o corredor de mato entre a casa e o terreno baldio. Lá fora o som ficou mais distante, mais fundo, como se viesse de baixo da terra.
Fechou a janela.
O som voltou para o rádio.
Na Praia Grande, a cadeira tinha afundado alguns milímetros na areia que agora cobria parte do piso da sala. O pano que ele tinha deixado para secar o chão estava úmido por baixo.
Pegou o celular, abriu a bússola. Apontou para a cadeira da Praia Grande.
Foi até a Rua Rio da Onça.
Voltou na Bromélias.
Tentou de novo na Praia Grande.
Os números oscilavam.
Nessa noite choveu forte. Ressaca. Fecharam o acesso à Prainha. Marcos ficou no sobrado onde morava com a mãe, ouvindo o vento bater na caixa-d’água. Colocou as três chaves em cima da mesa.
CASA 1, CASA 2, CASA 3.
Tentou cada uma na fechadura da porta onde as havia encontrado. Nenhuma abriu.
IV. A origem
Na quinta, sem avisar a imobiliária, começou pela Praia Grande e foi subindo. Levou fita-crepe. Em cada uma das três casas varreu, secou, deitou a cadeira no chão e prendeu a porta dos fundos por dentro com um X de fita. Se alguém abrisse, rasgaria.
No dia seguinte voltou. A fita estava intacta nas três. Porta fechada. Mas a areia estava por cima do pano seco. As cadeiras estavam em pé de novo, na mesma direção. Na Rua Rio da Onça, a cadeira estava exatamente em cima do pano, com a marca dos quatro pés afundada na areia molhada por cima do tecido.
Deixou a moto na estrada de acesso ao Parque Rio da Onça e entrou por um carreiro que os pescadores usam, entre samambaias. O chão estava encharcado. A cada passo o pé afundava e fazia um som de sucção. Aquele grave do rádio estava no ar, sem precisar de aparelho.
A mata era rala, cheia de clareiras com casas antigas de colono, telha caída. Numa clareira encontrou uma cadeira de praia branca. Igual às das casas. No meio do mato úmido, com areia clara de praia embaixo dela, no meio da terra preta. Apontada para o mesmo lado.
Atrás dela havia uma vala funda, natural, coberta de folhas, por onde passava um filete de água escura. A água não refletia o céu. No fundo, areia de praia.
Ao lado da vala, semienterrada na terra, havia uma porta. Metálica, baixa, do tipo de porta de caixa de luz ou de bueiro antigo, sem parede em volta. Só a porta, plantada na terra, com uma fechadura simples, enferrujada.
Limpou a terra da fechadura com a mão. Pegou as três chaves.
A primeira entrou sem resistência. Girou.
Do outro lado, alguma coisa bateu uma vez, seca, do lado de dentro.
Marcos soltou a chave. Ficou esperando.
Nada.
Pegou a segunda. Entrou. Girou. A mesma batida veio de dentro.
Com a terceira, não houve batida. Quando girou, ouviu água escorrendo pela parte inferior da porta, por baixo, molhando a terra.
As três giravam na mesma fechadura. Nenhuma abria.
Ele não abriu. Deixou a porta como estava. Ficou algum tempo olhando para a cadeira vazia diante dela e depois voltou pelo mesmo carreiro.
V. O retorno
Na sexta fez a ronda completa. Vinte e sete casas.
Em todas as vinte e sete a porta dos fundos estava fechada. Não trancada. Fechada.
Em todas havia areia. Não mais do mesmo jeito. Em uma, areia dentro do micro-ondas, atrás do prato de vidro. Em outra, grudada no teto do banheiro. Em outra, não havia areia nenhuma, mas todos os objetos estavam úmidos com água salgada. Em uma, na Rua Rio da Onça, o rádio estava desligado da tomada e em silêncio. Em cima dele, não tinha areia. Tinha uma marca circular seca, onde a areia tinha estado.
E em todas havia a cadeira.
Em vinte e seis, apontada para o mesmo lado.
Em uma, na Rua das Palmeiras, uma casa que ele cuidava há dois anos e que nunca tinha dado problema, a cadeira estava virada para a porta da frente.
Para onde ele entra.
Na casa da Rua das Bromélias a luz da varanda estava acesa, apesar do disjuntor geral desligado. Pela janela da sala viu a cadeira no meio da sala vazia. No vidro, a parede dos fundos não apareceu refletida. Atrás da cadeira, no reflexo, tinha mato e a vala de água escura passando bem no meio.
Na imobiliária, a Dona Cleuza olhou as fotos novas.
— Marcos, o proprietário da Bromélias ligou. Disse que viu na câmera que você deixou a cadeira no meio da sala. Pode deixar como estava antes?
Ele pensou em explicar que não tinha mexido na cadeira. Não conseguiu. Pela primeira vez percebeu que não tinha fotografado aquela sala.
Chegou em casa, colocou o molho de chaves sobre a mesa da cozinha e espalhou as etiquetas.
Contou as casas. Vinte e sete. Conferiu uma por uma. Riviera. Sol Nascente. Monções. Praia Grande.
As três chaves estavam ali também.
CASA 1. CASA 2. CASA 3.
Eram iguais até no desgaste.
Ele as separou. Contou novamente as etiquetas das casas.
Vinte e sete.
As três chaves ficaram de lado.
Então percebeu que havia uma quarta etiqueta amarela. Não lembrava de tê-la visto antes.
Virou.
Não havia endereço.
Só uma palavra:
JUNHO.
Marcos ficou olhando para ela.
Pela primeira vez desde que começara aquele trabalho, percebeu que nunca tinha perguntado por que precisava abrir as casas durante o inverno.
Sempre achou que era para entrar ar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário