sábado, 26 de setembro de 2026

O Segundo Eco

O Segundo Eco
Tadeu Everton Zamoiski

Rogério tinha quarenta e um anos e um jeito de andar meio arrastado, herdado do pai, que trabalhara trinta anos numa fábrica de conservas em Paranaguá. Fazia bico para o Centro de Estudos do Mar em Pontal do Paraná, consertando bomba de água, trocando tomada queimada, carregando caixa, e quando algum barco voltava com defeito ficava encarregado de lavar o convés antes da próxima saída. Naquela semana tinha aceitado tudo que apareceu porque os dois pneus de trás do Gol estavam carecas e o mecânico da esquina já tinha avisado duas vezes que não ia garantir mais nada.
Chovia desde segunda. A água empoçava no pátio do CEM e os funcionários iam escolhendo por onde pisar, sempre pelos mesmos três caminhos secos, como se o chão tivesse virado um jogo que só eles conheciam.
Na quarta, Rogério entrou no barco pouco depois das seis para pegar uma caixa de ferramentas esquecida. O sonar continuava ligado. Ele entendia pouco daquilo, só sabia que a faixa colorida na tela mostrava o fundo do mar embaixo do casco, e que um dos pesquisadores, um sujeito magro que só bebia café sem açúcar, brigava quando alguém desligava o aparelho no meio de uma leitura.
Um risco escuro descia por baixo do desenho do barco.
Rogério encostou o dedo na tela. O risco se afastou, como se tivesse sido tocado de verdade.
Achou engraçado, tirou uma foto com o celular para mostrar depois e desligou o equipamento antes de trancar a porta.
No outro dia, mostrou a imagem ao técnico, um rapaz mais novo que ele, sempre de boné do Coritiba desbotado de tanto sol, do tipo que raramente ficava calado por mais de um minuto.
"Isso é retorno de fundo."
"Mas mexeu quando eu toquei."
"Você tocou na tela, Rogério. Óbvio que mexeu."
Ele deu de ombros. Era mais simples concordar.
Na sexta, voltou para trocar uma lâmpada da cabine. Um navio de carga passava longe, devagar, rumo a Paranaguá, deixando aquele barulho grave de motor que se sente no peito antes de ouvir direito. O sonar estava ligado outra vez. Dessa vez ele ficou parado, esperando o navio sumir atrás do galpão de manutenção, e só depois olhou.
O risco continuava ali, no ponto exato para onde o navio ainda ia passar.
Ficou olhando aquilo mais tempo do que devia, até o celular vibrar no bolso com uma mensagem da esposa perguntando se ele ia passar no mercado.
No fim de semana pegou um trabalho numa casa de veraneio em Caiobá, fechada havia três meses, a pedido de uma senhora que ele conhecia de vista, dona de um salão de cabelo perto da rodoviária. Queria a infiltração resolvida antes da família chegar para o feriado. Rogério achou uma mancha no teto, bem em cima de uma cama de casal com lençol estampado de âncoras. Checou o registro, subiu no telhado, mexeu na calha. Tudo seco. Fechou o quarto sem entender de onde vinha aquilo e foi embora contando os trocados do combustível.
À noite recebeu mensagem do técnico.
"Você fotografou a tela na sexta?"
"Fotografei."
"Manda de novo aqui."
Alguns minutos depois:
"Apaga essa foto."
"Por quê?"
"Porque a hora não bate."
Rogério abriu a imagem salva. No canto tinha um horário gravado, dezessete e quarenta e dois. Ele tinha quase certeza de ter entrado no barco depois das seis, embora, pensando bem, não tivesse olhado o relógio antes de subir. Perguntou se o aparelho estava desregulado.
"Já conferi."
Nada mais. Apagou a foto sentindo que era mais seguro obedecer do que discutir, e estranhou o técnico responder tão pouco, ele que normalmente mandava três áudios pra dizer o que cabia numa frase.
Na terça voltou a Caiobá para terminar o serviço. A mancha tinha crescido. Abriu o forro e achou água acumulada entre as vigas, sem cano nenhum passando perto, sem explicação de encanamento possível. Secou o que dava, trocou um pedaço de madeira podre, avisou que o telhado ia precisar de obra grande, coisa de outro orçamento.
Antes de sair ouviu um pingo caindo dentro do quarto. Foi ver. O teto estava seco. No meio do colchão tinha uma mancha escura, do tamanho de um prato. Encostou a mão achando que ia sentir água de chuva, morna, qualquer coisa banal. Estava gelada. E salgada, o que fazia menos sentido ainda.
Não comentou nada com a dona da casa. Secou com uma toalha velha que achou no armário e foi embora com uma vergonha idiota de estar assustado por causa de água num colchão.
Naquela semana o filho ligou pedindo um dinheiro pra faculdade, uma taxa de material que Rogério nem entendeu direito. Disse que via o que dava de fazer no fim do mês, desligou, e ficou na mesa da cozinha somando as contas com um lápis, porque a calculadora do celular sempre travava. Pneu. Luz. Cartão. Combustível. Agora talvez um telhado inteiro.
O técnico chamou ele ao CEM na quinta, depois do expediente. O laboratório estava vazio, só o zumbido do ar condicionado e a luz fluorescente deixando tudo com a mesma cor amarelada de posto de gasolina. O boné do Coritiba estava largado em cima de uma cadeira, o técnico sem ele, os cabelos amassados por baixo, e calado de um jeito que não combinava com ele. Na tela, uma sequência de arquivos salvos, um atrás do outro. Em todos, o mesmo risco escuro. Sob um navio. Sob uma boia de sinalização. Sob o próprio barco do centro, parado no cais.
O técnico foi passando as imagens devagar, sem falar, como quem espera o outro chegar sozinho a algum lugar incômodo. Rogério reparou nos horários no canto de cada tela. Em três delas o relógio marcava um instante antes do momento em que o barco de fato tinha chegado àquele ponto. Quis perguntar se era só erro de sincronização, coisa besta de sistema desatualizado.
"Já vi isso."
Foi só o que o técnico disse antes de fechar o programa, desligar o monitor e sair da sala carregando o boné na mão em vez de pôr na cabeça.
Rogério passou dois dias evitando aquela ala do prédio. Quando precisava buscar ferramenta no depósito, dava a volta maior, pelo lado de fora, mesmo debaixo de chuva, dizendo pra si mesmo que era só coincidência de rota, que o depósito velho tinha ferramenta melhor mesmo.
Numa dessas noites a esposa perguntou por que ele estava dormindo virado pra parede, coisa que nunca fazia. Rogério disse que era só cansaço do trabalho e apagou a luz antes que ela perguntasse mais alguma coisa.
No sábado voltou uma última vez a Caiobá, porque o dono avisara que chegava à noite. Terminou o conserto, limpou o quarto, e quando ia guardar as ferramentas achou o colchão molhado outra vez, uma faixa fina e reta indo da cabeceira até os pés.
Ligou avisando que estava pronto e saiu antes da chuva engrossar.
No domingo recebeu o pagamento em dinheiro, contado na mão pela senhora do salão. Na segunda comprou os dois pneus, sentiu o carro andar diferente na volta pra casa, mais firme nas curvas. Na terça voltou ao CEM pra um serviço elétrico e precisou passar pela sala do sonar pra pegar um multímetro.
A tela estava ligada. O barco, atracado. Nenhum navio por perto.
Mesmo assim o risco estava lá, bem embaixo do ponto onde Rogério parou ao entrar.
Deu um passo pra trás. O risco ficou onde estava. Deu outro passo, na direção da porta. Dessa vez o risco acompanhou, sempre um instante antes de ele terminar de chegar.
Desligou o equipamento com a mão gelada e saiu andando rápido, quase trotando, sem virar a cabeça pra trás.
No estacionamento o telefone tocou. Era a senhora do salão.
"Rogério, tem água em cima da cama de novo."
"A janela tava fechada?"
"Tava."
Ele olhou pro mar, atrás dos prédios baixos do centro de Matinhos.
"Eu volto depois."
Desligou e ficou parado ao lado do carro mais tempo do que precisava, com a chave na mão sem coragem de abrir a porta. Quando abriu, uma faixa fina e reta de água salgada cobria o banco, do encosto até a beira do assento, bem onde ele sempre sentava.
Ficou olhando aquilo esperando que escorresse pro chão, mas a água veio subindo pelo tecido na direção contrária, direto pra onde ele estava parado.

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