terça-feira, 22 de setembro de 2026

A SALA DE VENDAS DA RUA FLAMBOYANT

A SALA DE VENDAS DA RUA FLAMBOYANT
Uma casa que não respeitava o tamanho do terreno

Tadeu Everton Zamoiski 
Meados de 2026

Na terceira semana de maio, o vento sul entrou pela cidade e deixou Matinhos com aquele aspecto de lugar que tinha sido abandonado na véspera. As portas de enrolar do comércio baixaram cedo. As cadeiras das calçadas desapareceram. Nas casas de temporada, as piscinas estavam cobertas por lonas verdes e os móveis das varandas permaneciam protegidos por capas plásticas. O movimento se concentrava nos mercados, nas oficinas e nos poucos restaurantes que continuavam abertos fora da temporada.
Valdir gostava daquela época do ano. Tinha mais serviço na oficina do que na imobiliária do tio. Durante o verão, passava boa parte do dia mostrando casas para gente de Curitiba que queria uma varanda perto da praia. Em maio, quase ninguém queria comprar nada. Era quando ele conseguia voltar aos motores de rabeira, às roçadeiras e às pequenas embarcações dos pescadores.
Naquela quinta-feira, o tio ligou pouco antes das oito.
Precisava que Valdir fosse até uma antiga sala de vendas na Rua Flamboyant, no Bom Retiro. O proprietário morava em Curitiba e não aparecia no imóvel desde o Carnaval. Um vistoriador passaria à tarde e tinha pedido que alguém verificasse a instalação elétrica, principalmente o acesso ao quadro de disjuntores.
Valdir anotou o endereço num papel, guardou no bolso e pegou a chave no escritório.
A sala ficava num sobrado antigo, desses imóveis construídos quando ainda havia terrenos vazios em vários pontos do bairro. A fachada tinha sido pintada de amarelo muitos anos antes. O reboco estava manchado de chuva e havia limo no muro baixo da frente. Sobre a porta, uma placa desbotada ainda dizia:
SALA DE VENDAS.
Valdir estacionou a moto na calçada e ficou alguns segundos olhando para a fachada.
Conhecia aquela casa. Já tinha passado diante dela muitas vezes.
Abriu a porta.
O cheiro veio primeiro. Mofo, poeira e um pouco de maresia. Era o cheiro comum de imóvel fechado durante meses.
Ele entrou pela recepção, passou por um corredor curto e chegou à sala principal. Havia uma mesa de fórmica preta, duas cadeiras de plástico e um calendário de uma borracharia pendurado na parede. O calendário era de 2018.
Valdir conferiu o celular. Tinha certeza de que estava no imóvel certo.
Foi então que percebeu uma porta de compensado no fundo da sala.
Parou diante dela.
Não se lembrava daquela porta.
Abriu.
Do outro lado havia outra sala.
Valdir ficou olhando.
Era a mesma sala.
O mesmo piso de cerâmica clara. A mesma mesa de fórmica preta. A mesma janela lateral. O mesmo calendário de 2018. Até uma pequena mancha de umidade no rodapé aparecia no mesmo lugar.
Ele entrou.
Olhou para trás.
A porta pela qual tinha passado estava aberta.
Do outro lado daquela sala havia outra porta de compensado.
Valdir abriu.
Outra sala.
Depois outra.
Na quarta, uma mosca morta estava virada de barriga para cima no parapeito. Na sétima, uma mancha de mofo ocupava uma área maior do rodapé. Na décima, o rejunte do piso estava mais solto e havia um pó branco espalhado perto da parede.
Valdir parou.
Não sentiu medo. Sentiu irritação.
Aquilo não fazia sentido.
Saiu da casa, fechou a porta e foi até o muro lateral. Olhou para o terreno vizinho. Depois olhou para trás, para o sobrado.
O imóvel tinha poucos metros de profundidade.
Ele voltou.
Abriu novamente a porta de compensado.
As salas continuavam.
Valdir entrou até a vigésima.
Parou diante de uma mesa.
Havia um prato fundo sobre ela.
Dentro do prato, dois caroços secos de mexerica.
Ele tocou o tampo.
Estava frio.
Olhou pela janela.
A rua continuava no mesmo lugar, mas a luz havia mudado. A sombra do muro parecia avançar pela calçada como se a tarde estivesse mais adiantada do que deveria.
Valdir recuou.
Não contou as salas outra vez.
Fechou a porta e foi embora.
No caminho, passou pelo Mercado do Peixe.
Seu Antenor estava no cais, limpando uma rede.
Valdir encostou a moto.
— Seu Antenor, o senhor conhece uma sala de vendas antiga na Rua Flamboyant?
O velho levantou os olhos.
— A do doutor Hélio?
— Essa.
— Conheço.
— Tem alguma coisa errada naquela casa.
Seu Antenor ficou alguns segundos calado.
Depois jogou no cais um pedaço de rede molhada.
— O doutor Hélio comprou aquilo nos anos noventa. Queria fazer escritório para vender terreno. Nunca deu certo.
— Por quê?
O velho deu de ombros.
— A casa não fica do tamanho que está no papel.
Valdir pensou que ele estivesse brincando.
— Como assim?
— Meu irmão pegou uma obra ali uma vez. Foi trocar umas telhas. Levou vinte caibros. Quando chegou no fundo, faltavam dez. Achou que alguém tinha roubado. Voltou para buscar os outros e encontrou os vinte no lugar. Só que o telhado estava maior.
Valdir ficou olhando para ele.
Seu Antenor voltou a mexer na rede.
— Tem gente que evita aquela casa no inverno.
— Por quê?
— Porque é quando ela cresce.
Valdir não perguntou mais nada.
Comprou dois quilos de posta de tainha e voltou para a oficina.
Passou a tarde desmontando o motor de uma embarcação de Prainha. Lavou as peças em querosene, limpou o carburador com ar comprimido e trocou a vela. Era um trabalho que ele conhecia. Uma chave doze cabia numa porca doze. Uma peça desgastada precisava ser substituída. Um motor ruim tinha uma causa.
No fim da tarde, voltou para a Rua Flamboyant.
Levou uma lanterna de cabeça, uma trena de cinquenta metros e um pedaço de giz amarelo.
Queria medir.
Não porque acreditasse no que tinha visto.
Justamente porque não acreditava.
A chuva começava quando ele entrou.
Na primeira sala, fez um número grande na parede.
Na segunda, escreveu 2.
Na terceira, 3.
Foi avançando.
A cada porta, o som da chuva diminuía.
Na sala doze, encontrou uma cadeira de praia dobrada num canto. O tecido verde e amarelo estava encostado na parede.
Valdir olhou para ela, mas não mexeu.
Continuou.
Na sala vinte, sentiu frio.
Parou e respirou fundo.
O ar parecia mais úmido.
Avançou mais três salas.
A cadeira estava ali outra vez.
Só que aberta.
Valdir ficou imóvel.
A mesma cadeira.
Ele se aproximou.
A lona estava fria.
Olhou para trás.
As portas continuavam alinhadas.
Voltou a andar.
Na sala trinta e um havia uma carteira de couro preta no chão, ao lado da mesa. Estava velha, úmida e desbotada. Um documento de carro aparecia pela abertura.
Valdir se abaixou.
Não tocou.
Continuou.
Na sala quarenta e seis, ouviu água.
Não chuva.
Água correndo.
Parou e encostou a mão na parede.
O som vinha de dentro.
Na sala sessenta e sete, a janela tinha mudado.
Não dava mais para a rua.
Do outro lado do vidro havia areia.
Areia grossa, escura e molhada.
Mais adiante, algumas árvores apareciam inclinadas pelo vento. Não eram árvores que Valdir reconhecesse.
Ele limpou o vidro com a manga.
Não adiantou.
Havia salitre do lado de dentro.
Valdir levantou o giz.
Não marcou a parede.
Ouviu passos.
Vinham do corredor.
Botas de borracha.
Lentas.
Arrastando areia e água sobre o piso.
Ele desligou a luz principal da lanterna.
Apenas o pequeno círculo de iluminação permaneceu aceso.
Uma bota amarela apareceu na porta.
Depois um balde azul.
Depois um homem.
Era velho, magro e usava uma capa de chuva escura. O rosto estava cheio de rugas. Trazia um maço de cigarros no bolso.
O homem olhou para Valdir.
Depois olhou para a trena estendida no chão.
— Você é o rapaz da imobiliária?
— Sou.
O homem assentiu.
— Veio procurar o quadro?
— O alçapão.
O velho deu uma risada curta.
— O alçapão ficou para trás.
— Como assim?
— Já passou.
Valdir apontou para o corredor.
— A casa tem quantas salas?
O velho olhou para trás.
— Não sei.
— O senhor trabalha aqui?
— Trabalho quando precisa.
— Quem manda o senhor?
— Ninguém.
A resposta saiu tão naturalmente que Valdir não soube o que dizer.
O velho colocou o balde no chão.
— Tem que cuidar dos caibros.
— Por quê?
— Porque quando o vento vira para o sul, ela começa a andar.
Valdir olhou para a janela.
— A casa?
— A casa.
Ele esperou uma explicação.
Ela não veio.
O velho tirou um cigarro do maço e tentou acender. O isqueiro falhou duas vezes.
— O senhor está dizendo que essa casa cresce?
— Ela não gosta de ficar apertada.
A frase pareceu absurda.
Valdir quase riu.
Quase.
O velho conseguiu acender o cigarro.
— No verão ela para um pouco. Tem gente, barulho, carro passando. Ela fica mais comportada.
— E no inverno?
— Fica maior.
— Quanto?
— Depende do vento.
Valdir olhou para a trena.
— Eu já passei de cinquenta metros.
O velho olhou para o carretel.
— Ainda é pouco.
Valdir sentiu um frio na barriga.
— Pouco para quê?
O velho apontou para a frente.
— Você ainda não chegou no fundo.
Valdir ficou em silêncio.
O homem continuou:
— O doutor Hélio tentou medir uma vez.
— Ele também entrou aqui?
— Entrou.
— E saiu?
O velho puxou o cigarro.
— Saiu. Só que não pela mesma porta.
Valdir esperou.
— Ele apareceu onde?
— Perto de Pontal do Paraná.
Valdir franziu a testa.
— Como?
O velho deu de ombros.
— A casa estava comprida naquele dia.
Valdir olhou para o corredor.
As portas pareciam menores agora.
Ou talvez estivessem mais distantes.
— E o canal de Guaratuba?
O velho levantou os olhos.
— Quem falou do canal?
— Ninguém.
Valdir percebeu que tinha dito aquilo sem saber por quê.
O homem apagou a cinza do cigarro na sola da bota.
— Tem uma parte da casa que vai para lá.
— Para Guaratuba?
— Quando o vento fica muitos dias do sul.
Valdir sentiu a boca seca.
— Mas isso é impossível.
O velho deu uma olhada para ele.
— É por isso que ninguém consegue medir.
O homem pegou o balde.
Valdir apontou para a cadeira de praia.
Ela estava dobrada.
— O senhor mexeu nela?
— Não.
— Eu também não.
O velho olhou para a cadeira.
Ficou alguns segundos em silêncio.
Depois disse:
— Ela muda de lugar quando alguém olha demais.
Valdir decidiu ir embora.
Recolheu a trena e começou a caminhar de volta.
O velho ficou para trás.
Na sala da carteira, o chão estava vazio.
A carteira tinha desaparecido.
Na sala da cadeira, ela estava dobrada novamente.
Valdir continuou.
O som da chuva voltou aos poucos.
Primeiro como um ruído distante.
Depois como gotas batendo no telhado.
Depois como água escorrendo pelas calhas.
Quando chegou à primeira sala, a porta de entrada estava onde deveria estar.
Valdir saiu.
Trancou.
Testou a fechadura duas vezes.
Na calçada, ficou parado.
Olhou para a fachada.
Parecia um sobrado comum.
Amarelo.
Baixo.
Estreito.
Nada indicava que havia mais de sessenta salas atrás daquela porta.
Valdir guardou a chave no bolso e subiu na moto.
Antes de ligar, olhou novamente para o imóvel.
As telhas do telhado continuavam para trás.
Ele percebeu isso pela primeira vez.
Não terminavam exatamente sobre a parte dos fundos da casa.
Seguiam além.
Uma fileira fina de telhas vermelhas avançava por cima dos muros e desaparecia entre árvores que ele não lembrava de existirem ali.
Valdir ligou a moto.
Não ficou olhando.
Naquela noite, fritou a tainha.
Comeu com farinha de mandioca e tomou café depois da janta.
Tentou assistir televisão.
Não conseguiu.
Perto das onze, levantou para apagar a luz da cozinha.
Passou pelo corredor de casa.
Parou.
Conhecia aquele corredor havia dez anos.
Da sala até o quarto eram quatro passos.
Sempre quatro.
Valdir voltou ao início.
Contou.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Cinco.
Parou diante da porta do quarto.
Não voltou para conferir.
Foi até o cabideiro e pegou a jaqueta que tinha usado naquela tarde.
Quando enfiou a mão no bolso, sentiu alguma coisa áspera.
Retirou os dedos.
Havia pó amarelo na ponta deles.
Giz.
Valdir ficou olhando.
Depois esfregou o pó no tecido da calça.
Apagou a luz.
Foi para o quarto.
Deitou.
Durante alguns minutos, ouviu apenas a chuva.
Então veio outro som.
Muito baixo.
Parecia água batendo contra alguma coisa de madeira.
Valdir abriu os olhos.
O som continuou.
Não vinha da rua.
Vinha do corredor.
Ele não levantou.
Na manhã seguinte, encontrou uma fina camada de areia no piso entre a cozinha e o quarto.
Não havia areia no restante da casa.
Valdir ficou olhando durante algum tempo.
Depois pegou a vassoura.
Varreu tudo para dentro da pá.
Na hora de jogar no lixo, percebeu uma coisa presa entre os grãos.
Um pequeno pedaço de cerâmica clara.
Do mesmo tipo do piso da sala de vendas.
Valdir segurou o fragmento entre os dedos.
Pensou em ligar para o tio.
Pensou em voltar à Rua Flamboyant.
Não fez nenhuma das duas coisas.
Guardou o pedaço de cerâmica numa gaveta da cozinha.
À tarde, passou pela rua de moto.
Não parou.
A placa ainda estava sobre a porta.
SALA DE VENDAS.
Valdir olhou pelo retrovisor enquanto seguia adiante.
Por um instante, teve a impressão de que a fachada estava mais distante da rua.
Naquele dia, não voltou.
Nem no seguinte.
Uma semana depois, seu tio ligou.
O vistoriador tinha ido ao imóvel.
Encontrara tudo em ordem.
Só havia uma coisa estranha.
O quadro de disjuntores estava no fundo.
Valdir ficou calado.
— No fundo de quê?
— Da casa.
— Quanto?
O tio respondeu:
— O homem disse que caminhou quase duzentos metros.
Valdir fechou os olhos.
O tio continuou falando.
Disse também que encontrou uma porta de saída perto de um canal.
— Qual canal?
Houve silêncio do outro lado.
— Guaratuba.
Valdir desligou sem se despedir.
Naquela noite, tirou o pedaço de cerâmica da gaveta.
Colocou sobre a mesa.
Ficou olhando.
Depois pegou uma trena.
Olhou para o corredor da própria casa.
Guardou a trena novamente.
Não mediu.
No inverno seguinte, a placa da antiga sala de vendas desapareceu.
Ninguém soube dizer quando.
A fachada continuou amarela.
A porta continuou fechada.
A casa continuou no mesmo terreno.
Pelo menos durante o dia.
À noite, alguns moradores do Bom Retiro começaram a notar uma coisa.
Quando o vento sul sobrava por vários dias, era possível ouvir, atrás das casas, um barulho comprido de portas se abrindo.
E fechando.
Uma depois da outra.
Como se alguém estivesse caminhando por dentro de uma casa muito grande.
Uma casa que ainda não tinha terminado de crescer.

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