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quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O HIDRÔMETRO

O HIDRÔMETRO

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Rogério trabalhava lendo hidrômetros depois de se aposentar. Conhecia o jeito de abrir cada caixa, os visores cobertos de barro, as tampas que emperravam e os cachorros que latiam antes de ele chegar. Conversava pouco. Enquanto a água corresse, havia alguma coisa acontecendo dentro daquela casa.
A casa da Rua 19 de Dezembro ficava perto da Rua Cianorte, no Riviera. Tinha muro baixo, feito de pequenos pilares de concreto, e um portão branco que precisava de tinta. Rogério já havia feito algumas leituras ali. Naquela manhã, antes que o dono aparecesse, um dachshund preto veio às grades. A placa metálica da coleira bateu duas vezes no pescoço. O cachorro cheirou a mão de Rogério por entre as barras e ficou ali.
Rogério apontou para dentro:
─ Esse cachorro é bravo?
O dono apareceu na varanda com uma caneca de café:
─ Esse? Só com quem corre.
─ Então estou seguro.
O homem riu.
O cachorro continuou junto ao portão.
Rogério abriu a caixa do hidrômetro, fez a leitura e fechou a tampa. Não encaixou direito. Abriu de novo, ajustou e bateu duas vezes com a mão.
─ Qual é o nome dele?
─ Zeus.
Rogério olhou para o cachorro:
─ Zeus.
A cauda bateu uma vez na grade.
Nas visitas seguintes, Zeus começou a aparecer antes que Rogério chegasse ao portão. Na terceira vez, Rogério parou ainda na calçada:
─ Você me conhece agora?
Zeus abanou a cauda.
Rogério ficou olhando para ele.
O dono estava saindo para trabalhar. Tinha uma imobiliária pequena na Avenida Paranaguá, num trecho paralelo ao colégio estadual, e costumava deixar a casa pela manhã para voltar no fim da tarde. Segurava as chaves de um carro prata.
─ Ele já sabe o seu horário ─ disse.
─ Meu horário?
─ O seu.
Rogério olhou para Zeus:
─ Como pode ser?
O homem deu de ombros:
─ Ele sabe.
Rogério entrou no carro. Antes de ligar, procurou o cachorro pelo retrovisor. Zeus ainda estava junto ao portão.
Naquela época, Rogério já andava pela casa pensando no que teria de tirar dali. A prefeitura havia comunicado a desapropriação por causa das obras previstas para a região da Avenida Curitiba com a Avenida Paranaguá. Noventa dias.
Ele guardava uma cópia do documento na gaveta da cozinha. Às vezes abria a gaveta, conferia a data e fechava.
Os filhos moravam em Curitiba. Telefonavam para saber como ele estava. Rogério respondia que sim, estava bem. Quando a filha insistiu para que ele fosse morar com ela, agradeceu e mudou de assunto. Não queria ocupar o quarto de ninguém. Tinha seus móveis, suas ferramentas, seus livros. Tinha uma caixa de parafusos enferrujados que carregava havia anos. Separava alguns para jogar fora e, algum tempo depois, guardava-os de novo.
De manhã, ainda colocava duas xícaras na mesa. Era costume antigo. Às vezes só percebia depois de se sentar. Pegava a primeira, tomava o café e deixava a segunda até a hora de lavar a louça.
Foi numa dessas manhãs que o hidrômetro da Rua 19 de Dezembro lhe chamou a atenção.
A tampa estava molhada. Rogério passou a manga da camisa sobre o visor.
480.
Anotou.
Quando ia fechar a caixa, percebeu o pequeno disco indicador girando. Aproximou a luneta.
481.
Afastou.
480.
Olhou de novo.
481.
Rogério permaneceu agachado. O disco continuou girando por alguns segundos e parou.
Ele conferiu o visor diretamente.
480.
Fechou a tampa.
Naquela noite, não comentou com ninguém.
No dia seguinte, 482.
Depois, 483.
Depois, 484.
Alguns dias depois, voltou àquela casa numa manhã de chuva fina. A água escorria pela tampa metálica e deixava uma faixa escura no concreto. Rogério limpou o visor com dois dedos e apontou a luneta.
481.
Tirou os óculos. Limpou as lentes na camisa.
481.
Guardou a luneta.
Zeus estava junto ao portão. A bola vermelha estava presa entre os dentes. Quando Rogério chegou perto, soltou-a no chão.
A bola tinha areia grudada nas ranhuras.
Rogério abriu o portão, pegou o brinquedo e esfregou a palma da mão sobre o plástico:
─ Olha isso.
Zeus esperou.
Rogério devolveu:
─ Vai.
Zeus pegou a bola e caminhou pelo corredor. Parou antes da varanda e olhou para trás.
─ Vai brincar.
O cachorro continuou.
Rogério fechou o portão. No carro, viu areia na palma da mão. Esfregou os dedos na calça. Um pouco ficou debaixo da unha.
Na semana seguinte, os números seguiram normalmente: 485, 486, 487, 488.
Rogério fazia as leituras de outras casas e começou a reparar em pequenas coisas que antes passavam despercebidas: uma torneira que demorava a fechar, uma caixa-d'água com ruído contínuo, um relógio parado numa sala.
Em casa, a mancha de umidade do corredor havia diminuído. Percebeu enquanto procurava uma chave inglesa. Encostou a mão no reboco. Estava frio.
Dias depois, na Rua 19 de Dezembro, o dono mostrou uma mancha atrás do tanque:
─ Cresceu.
Rogério se abaixou:
─ Tem cano aqui?
─ Tem.
─ Pode ser vazamento.
─ Já procurei.
─ Achou?
─ Não.
Rogério passou os dedos pelo reboco úmido:
─ Pode estar em algum lugar que a gente não vê.
O homem assentiu.
Rogério foi até o hidrômetro.
490.
Anotou.
Abriu a luneta.
481.
Ficou alguns segundos.
O dono apareceu atrás dele:
─ Está errado?
Rogério fechou a luneta:
─ Não sei.
Foi a primeira vez que levou o aparelho para casa e o deixou sobre a mesa. Conferiu a lente, limpou o corpo metálico, abriu a tampa das pilhas e fechou. Depois guardou tudo na gaveta.
O corretor continuou ajudando Rogério a procurar outro lugar. Uma tarde, mostrou duas casas. Uma era pequena. A outra ficava longe demais.
Na primeira, Rogério abriu uma janela, olhou o quintal e perguntou onde ficava o hidrômetro.
─ Por quê?
─ Costuma ficar em lugar ruim.
O homem riu.
Na segunda, Rogério nem entrou:
─ Essa não.
─ Nem quer ver?
─ Não.
Voltaram para o carro.
O corretor ligou o rádio, procurou uma estação e desligou:
─ Tem gente que procura uma casa para mudar de vida. Tem gente que procura uma casa para continuar sendo quem era.
Rogério olhou a rua pela janela:
─ Você acredita nisso?
O homem deu de ombros:
─ Eu vendo casa. Cada um acredita no que quiser.
Rogério sorriu.
Na visita seguinte à Rua 19 de Dezembro, o hidrômetro marcava 492. Rogério anotou.
Abriu a luneta.
481.
O disco estava parado.
Esperou.
Nada.
De dentro da casa veio o barulho de água correndo. O disco começou a girar.
Ele olhou diretamente para o visor.
492.
Voltou à luneta.
481.
Rogério fechou a caixa.
Zeus estava sentado junto ao portão.
O carro do dono não estava na garagem.
Rogério poderia ir embora.
Sentou-se no degrau da varanda.
Zeus aproximou-se depois de algum tempo. Cheirou sua calça, deu uma volta e encostou a cabeça na perna dele.
Rogério passou a mão atrás das orelhas.
O cachorro fechou os olhos.
A perna começou a formigar.
─ Você está pesado.
Zeus não se mexeu.
Rogério riu baixo:
─ Tá bom.
Ficou mais um pouco.
Quando levantou, Zeus foi atrás dele até o portão.
─ Eu volto amanhã.
O cachorro ficou olhando.
Naquela noite, Rogério chegou em casa, colocou água para ferver e pegou duas xícaras. Só percebeu o que estava fazendo quando abriu o armário.
Ficou com uma delas na mão.
Guardou-a.
O barulho da porcelana batendo na prateleira.
Depois fez o café.
Alguns dias mais tarde, o corretor encontrou uma pasta antiga no armário da imobiliária:
─ Essas fotos estavam junto com os documentos da casa.
Eram fotografias impressas, algumas amareladas nas bordas. Fachada, quintal, uma reforma, a varanda.
Rogério passou uma por uma.
Parou.
A casa da Rua 19 de Dezembro estava na fotografia. O muro baixo, o portão branco, a varanda.
Diante da porta, um cachorro preto.
Ao lado, uma bola vermelha.
Rogério aproximou a fotografia:
─ Esse é o Zeus?
O corretor pegou a foto. Olhou por alguns segundos:
─ Não.
─ Não?
─ Eu ainda não o tinha.
─ Quando você comprou?
O homem disse o ano.
Rogério virou a fotografia. No verso havia uma data escrita à mão. Aproximou os olhos:
─ Você sabe quem tirou?
O corretor balançou a cabeça:
─ Não.
Rogério devolveu a foto.
Zeus entrou na sala naquele momento e encostou o focinho na mão dele.
Rogério fez carinho atrás da cabeça do cachorro:
─ Vem.
O corretor permaneceu com a fotografia sobre a mesa.
Naquela noite, Rogério dormiu mal.
Depois das duas da manhã, o celular vibrou.
Era o aplicativo de leituras.
Ele abriu.
Rua 19 de Dezembro.
481.
Rogério fechou o aplicativo.
Abriu novamente.
O endereço continuava ali.
481.
Apagou a notificação.
Dois minutos depois, o telefone vibrou outra vez.
Rogério virou o aparelho com a tela para baixo.
Não tocou nele.
Na manhã seguinte, voltou ao trabalho.
As leituras avançaram: 493, 494, 495.
Na Rua 19 de Dezembro, Rogério abriu a caixa do hidrômetro pela última vez.
Apontou a luneta.
481.
Abaixou.
Olhou diretamente para o visor.
495.
Guardou a luneta.
O dono não estava em casa.
Zeus estava no portão.
A bola vermelha estava no chão, molhada pela chuva da noite.
Rogério ficou diante das grades:
─ Eu não sei quando vou voltar.
Zeus chegou mais perto.
Rogério passou a mão entre as barras.
O cachorro lambeu seus dedos.
Rogério deixou a mão ali.
Depois recolheu.
Entrou no carro.
A casa de Rogério foi demolida antes do fim do prazo. A da Rua 19 de Dezembro desapareceu alguns meses depois. As obras avançaram. Restaram trechos de calçada, montes de terra e tapumes.
Rogério encontrou uma casa pequena. Levou os móveis que cabiam. Levou os livros. Levou a caixa de parafusos.
Na primeira semana, recebeu uma fotografia no celular.
Sem nome.
Sem mensagem.
Era a casa da Rua 19 de Dezembro.
Ainda estava de pé.
Rogério ampliou a imagem.
Zeus aparecia junto ao portão.
A bola vermelha estava no chão.
Ao lado dele havia uma pessoa de camisa clara.
Rogério aumentou mais.
O rosto não aparecia direito.
Apagou a fotografia.
Alguns segundos depois, ela voltou para a galeria.
Rogério olhou para a tela.
Depois desligou o telefone e o colocou dentro da gaveta.
Alguns dias depois, passou de carro pela região.
As obras tinham avançado. Onde ficava a casa havia terra, pedaços de concreto e restos de uma calçada. Rogério reduziu a velocidade.
Olhou pelo retrovisor.
Por um instante, viu o portão branco.
Zeus estava junto às grades.
A bola vermelha no chão.
Havia alguém sentado perto dele.
Rogério freou.
Quando olhou novamente, só havia terra.
A mão direita continuou no volante.
Esperou alguns segundos.
Depois engatou a marcha.
Seguiu pela avenida.
No banco ao lado, o celular vibrou.
Rogério não olhou.

A ÁGUA DENTRO DAS CASAS

A ÁGUA DENTRO DAS CASAS
um inventário de inverno

Tadeu Everton Zamoiski 
Meados de 2026

Eu trabalho com manutenção de casas de veraneio.
Caixa-d'água, portão eletrônico, infiltração, telha solta, boinha de chuveiro que queima. No verão a gente corre feito louco porque tudo quebra ao mesmo tempo e o dono quer chegar com a casa pronta. No inverno o serviço muda. Matinhos esvazia e as casas ficam fechadas, algumas desde o Carnaval, esperando a temporada que vem. O dono manda a chave pelo correio ou deixa na imobiliária do Centrinho e pede para dar uma passada para ver se não entrou bicho, se o mato não tomou o muro, se a conta de luz não veio estourada.
Eu moro no Tabuleiro, perto do rio que corta por trás. Saio cedo de moto, com frio. Levo no baú uma escada curta, um balde, uma chave de grifo e um caderno de capa dura que já está todo manchado de massa corrida. É meu inventário. Anoto tudo ali do mesmo jeito que anoto material na JK. Endereço, o que fiz, o que falta.
JUNHO
Riviera. Segunda quadra depois do canal. Caixa-d'água. 1.000 litros. Limpar e deixar seca.
Foi numa terça de junho que começou. Casa simples, de reboco grosso pintado de um amarelo que já desbotou, duas janelas na frente e um pé de pitanga no canto do muro. O dono é de Curitiba e não vinha desde fevereiro.
Subi no telhado. A telha de fibrocimento estava gelada e úmida por causa da neblina que tinha descido do Morro do Boi de madrugada. Tirei a tampa da caixa. Ela estava cheia até a boca. Aquilo não batia. O registro geral da casa estava fechado com um lacre de arame e a boia deveria ter travado faz meses. Olhei para dentro. Aquela água não vinha da torneira. Era escura, meio esverdeada, e se mexia sozinha, com uma ondulação pequena, como água de gamela quando a gente encosta. Tinha cheiro de maré baixa, de lodo e peixe do Canal da Barra.
Havia três peixes de canal nadando perto da borda. Reconheci pela forma e pelo rabo amarelado. Os mesmos que ficam embaixo da ponte.
Fiquei agachado ali. Olhando. Pensei que alguém tinha jogado água do mar de sacanagem. Mas o portão estava com cadeado e só eu e a menina da imobiliária tínhamos a chave. Desci e fui conferir o registro da Sanepar na calçada. Fechado. Voltei para o telhado. Os peixes continuavam. Encostei a mão. A água estava gelada, mais gelada que o ar, e quando levei a ponta dos dedos à boca ficou aquele gosto de sal que gruda na língua.
Anotei no caderno como anoto tudo.
Riviera. Caixa cheia. Água escura com cheiro de mar. Esvaziada e limpa.
Tirei foto da caixa vazia depois. Esvaziei tudo no quintal. A água fez um caminho escuro na grama e sumiu depressa na areia que sempre volta por baixo do muro nessas casas perto da restinga.
Três dias depois peguei um serviço na Prainha, bem no pé do Morro do Boi. Uma casa de madeira azul, dessas que o pessoal de Curitiba reformou, mas manteve o deck torto. O serviço era só varrer a garagem que tinha enchido de areia com o vento sul e passar um pano no chão da sala. A dona me deixou a chave enrolada num pano de prato e disse que não precisava de pressa. Passei a manhã inteira ali. Varri a areia fina que entra por baixo do portão mesmo fechado, juntei folha de pitanga, tirei teia de aranha do canto do forro. O rádio da vizinha ficou ligado num programa de entrevista o tempo todo. Na hora do almoço sentei no degrau da frente com um café que levei na garrafa e fiquei olhando o mar da Prainha batendo calmo. Não aconteceu nada de estranho. E foi bom que não acontecesse. Me deu até um alívio, como se o dia anterior tivesse sido cansaço.
Na semana seguinte aconteceu outra vez.
JUNHO
Monções. Forro. Mancha escura. Verificar infiltração.
Casa fechada desde março, perto da divisa com a Praia Grande. A dona pediu para olhar o forro do quarto dos fundos. Entrei. A casa tinha aquele cheiro fechado de casa de verão, de protetor solar velho, pano úmido e desinfetante barato. No quarto, a mancha no forro não era de goteira. Era escura e se espalhava a partir do canto, mas quando encostei a mão o gesso estava seco. Quente. Se eu olhava de lado, com a luz da janela batendo atravessada, dava para ver um brilho correndo por dentro da tinta, igual quando o sol bate na água rasa da Prainha e a gente vê o fundo se mexendo mesmo sem vento.
Subi para ver a caixa-d'água. Outra vez cheia. Dessa vez sem peixe, só com um pouco de areia no fundo. E tinha um barulho vindo de dentro da caixa. O mesmo barulho abafado da água do Canal da Barra de madrugada, quando a maré enche e bate no concreto da ponte. Eu conheço esse som porque passo ali todo dia.
Anotei.
Monções. Forro com brilho. Caixa cheia. Barulho de canal.
Comecei a reparar que eram sempre casas da faixa baixa, entre o rio e o mar, entre o canal e a linha de arrebentação da Praia Central. Nunca nas casas do alto de Caiobá. Nunca lá para o lado do Morro do Escalvado.
No fim de junho peguei uma casa na Rua das Monções, com portão azul. O dono pediu para desligar a energia para economizar. A casa tem um corredor lateral estreito que dá para os fundos, desses onde a gente tem que passar de lado por causa do motor do portão. Quando entrei ali, o barulho da rua, de moto e de cachorro latindo, ficou abafado de uma vez. Como se eu tivesse entrado debaixo d'água. E no lugar entrou o mesmo barulho da caixa, o ploc abafado do canal batendo no concreto, devagar.
No fim do corredor o quintal estava normal, com a grama alta. Mas o muro do vizinho parecia mais longe do que deveria. Meio torto. Voltei pelo mesmo corredor e o som da rua voltou de estalo. Como se alguém tivesse destampado meu ouvido.
Anotei no caderno.
Monções. Corredor com som de canal.
Mostrei para o Seu Nestor. A gente se encontra no fim da tarde no canal, perto da ponte, onde ele guarda o barco. Ele tem barco e pesca tainha há quarenta anos. Contei do jeito que deu, que as caixas estavam vindo com água salgada e que tinha um corredor com barulho de água.
Ele ficou mexendo na rede. Sem me olhar. Depois de um tempo disse só isso:
— Ano de muita tainha o mar fica esquisito. Ele vem por baixo.
Perguntei se ele já tinha visto. Ele disse que já viu paiol que amanheceu cheio de areia. E disse que não era bom ficar olhando muito.
Perguntei por quê.
Ele respondeu:
— Não porque faz mal. Porque a gente acostuma.
Na primeira semana de julho fecharam um trecho da beira do canal para obra e tive que fazer a volta pela Avenida Paranaguá para chegar na Riviera. Naquela noite, em casa, estendi na mesa da cozinha um mapa velho de Matinhos que tenho, desses que a prefeitura dava na rodoviária, já todo dobrado nas quinas. Marquei com caneta todas as casas onde tinha acontecido. Deu doze casas.
Liguei os pontos com a régua.
Doze casas.
A linha começava perto do Canal da Barra, passava pela Riviera, cortava Monções e terminava perto da restinga entre a Praia Grande e a Praia Brava de Caiobá.
Fiquei um tempo olhando.
Depois virei o mapa ao contrário.
A linha continuava parecendo a mesma.
Pensei que, se aquilo acontecesse durante o verão, alguém já teria percebido. Depois pensei que talvez fosse justamente por isso que acontecia no inverno.
JULHO
Praia Grande. Última rua, quase restinga. Goteira no chão. Não consegui anotar direito.
Na última casa da Praia Grande, já quase na restinga que separa da Praia Brava, encontrei uma coisa que não consegui anotar direito. Era uma casinha de madeira que já foi de pescador e agora foi toda reformada para aluguel, com deck e tudo. O dono pediu para eu ver o telhado porque tinha goteira no quarto.
Subi, olhei telha por telha. Estava boa, sem trinca, sem folha em cima. Desci para o quarto e a goteira existia, só que ao contrário. Tinha uma mancha redonda de uns trinta centímetros no meio do chão de madeira. E do forro, bem em cima da mancha, pingava água do mar, uma gota a cada dez segundos. A gota caía e sumia. Não formava poça. Não escorria para o lado. Caía e desaparecia.
Fiquei com raiva porque não sabia o que anotar. Peguei a trena e medi a altura do chão até o forro. Dois e quarenta. Peguei o nível de mão e coloquei no piso. Nivelado. Bati com a bota no ponto onde a gota caía. Som de madeira oca, normal.
Sentei no chão. Fiquei ali. Vendo.
A gota caía.
O som deveria voltar na mesma hora.
Mas demorava.
Um segundo, dois segundos, e só então vinha um ploc abafado, igual ao do canal, vindo de muito mais baixo que o chão da casa.
Quando a luz da janela mudou por causa de uma nuvem, achei que alguma coisa tinha se mexido sob o piso. Não ouvi nada. Esperei outra gota. Ela caiu. O som demorou para voltar de novo.
Anotei no caderno com a letra tremida por causa do frio:
Praia Grande. Quarto dos fundos. Goteira no chão. Não subir no telhado.
Fechei a porta do quarto com cuidado e saí da casa. Tranquei o cadeado e deixei a chave na imobiliária.
Na segunda-feira seguinte voltei à primeira casa, a da Riviera com o pé de pitanga. O dono avisou que vem no fim do mês e pediu para deixar tudo em ordem. Abri o portão. O pé de pitanga que em junho estava cheio de folhas agora estava quase pelado, com umas frutinhas pretas secas no chão.
Subi no telhado. A caixa estava vazia, seca, do jeito que deixei.
Desci e fui para a cozinha abrir o caderno para anotar a última visita. Quando abri, vi que na última página havia uma anotação que eu não lembrava de ter feito.
A letra era minha. Só que mais apertada. A caneta era a mesma. O problema é que eu não lembrava de ter escrito aquilo.
Estava escrito:
Riviera. Segunda quadra depois do canal. Caixa cheia. Não esvaziar.
Fiquei olhando para aquilo. Um tempo. Virei a página para trás para ver a data da anotação anterior. A data que eu mesmo tinha colocado no canto era quinta-feira. Três dias depois. Hoje é segunda.
Fechei o caderno devagar. Senti o cheiro de massa corrida da capa e um cheiro leve de maresia que vinha do papel, mesmo ele estando seco. Guardei no baú da moto.
Na hora de ir embora, coloquei a mão no bolso da jaqueta para pegar a chave do cadeado. A chave estava diferente. A chave que era de metal claro estava com uma camada fina de ferrugem avermelhada, áspera, e com cheiro forte de maresia. Enferrujada em um dia, como se tivesse ficado mergulhada.
Fiquei ali no quintal. Com a chave na mão.
Na esquina, olhei para trás. A casa estava normal. A sombra da pitangueira pelada se mexia devagar no asfalto.
Não havia vento.
Fiquei olhando até perceber que a sombra estava se movendo antes da árvore.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

A SALA DE VENDAS DA RUA FLAMBOYANT

A SALA DE VENDAS DA RUA FLAMBOYANT
Uma casa que não respeitava o tamanho do terreno

Tadeu Everton Zamoiski 
Meados de 2026

Na terceira semana de maio, o vento sul entrou pela cidade e deixou Matinhos com aquele aspecto de lugar que tinha sido abandonado na véspera. As portas de enrolar do comércio baixaram cedo. As cadeiras das calçadas desapareceram. Nas casas de temporada, as piscinas estavam cobertas por lonas verdes e os móveis das varandas permaneciam protegidos por capas plásticas. O movimento se concentrava nos mercados, nas oficinas e nos poucos restaurantes que continuavam abertos fora da temporada.
Valdir gostava daquela época do ano. Tinha mais serviço na oficina do que na imobiliária do tio. Durante o verão, passava boa parte do dia mostrando casas para gente de Curitiba que queria uma varanda perto da praia. Em maio, quase ninguém queria comprar nada. Era quando ele conseguia voltar aos motores de rabeira, às roçadeiras e às pequenas embarcações dos pescadores.
Naquela quinta-feira, o tio ligou pouco antes das oito.
Precisava que Valdir fosse até uma antiga sala de vendas na Rua Flamboyant, no Bom Retiro. O proprietário morava em Curitiba e não aparecia no imóvel desde o Carnaval. Um vistoriador passaria à tarde e tinha pedido que alguém verificasse a instalação elétrica, principalmente o acesso ao quadro de disjuntores.
Valdir anotou o endereço num papel, guardou no bolso e pegou a chave no escritório.
A sala ficava num sobrado antigo, desses imóveis construídos quando ainda havia terrenos vazios em vários pontos do bairro. A fachada tinha sido pintada de amarelo muitos anos antes. O reboco estava manchado de chuva e havia limo no muro baixo da frente. Sobre a porta, uma placa desbotada ainda dizia:
SALA DE VENDAS.
Valdir estacionou a moto na calçada e ficou alguns segundos olhando para a fachada.
Conhecia aquela casa. Já tinha passado diante dela muitas vezes.
Abriu a porta.
O cheiro veio primeiro. Mofo, poeira e um pouco de maresia. Era o cheiro comum de imóvel fechado durante meses.
Ele entrou pela recepção, passou por um corredor curto e chegou à sala principal. Havia uma mesa de fórmica preta, duas cadeiras de plástico e um calendário de uma borracharia pendurado na parede. O calendário era de 2018.
Valdir conferiu o celular. Tinha certeza de que estava no imóvel certo.
Foi então que percebeu uma porta de compensado no fundo da sala.
Parou diante dela.
Não se lembrava daquela porta.
Abriu.
Do outro lado havia outra sala.
Valdir ficou olhando.
Era a mesma sala.
O mesmo piso de cerâmica clara. A mesma mesa de fórmica preta. A mesma janela lateral. O mesmo calendário de 2018. Até uma pequena mancha de umidade no rodapé aparecia no mesmo lugar.
Ele entrou.
Olhou para trás.
A porta pela qual tinha passado estava aberta.
Do outro lado daquela sala havia outra porta de compensado.
Valdir abriu.
Outra sala.
Depois outra.
Na quarta, uma mosca morta estava virada de barriga para cima no parapeito. Na sétima, uma mancha de mofo ocupava uma área maior do rodapé. Na décima, o rejunte do piso estava mais solto e havia um pó branco espalhado perto da parede.
Valdir parou.
Não sentiu medo. Sentiu irritação.
Aquilo não fazia sentido.
Saiu da casa, fechou a porta e foi até o muro lateral. Olhou para o terreno vizinho. Depois olhou para trás, para o sobrado.
O imóvel tinha poucos metros de profundidade.
Ele voltou.
Abriu novamente a porta de compensado.
As salas continuavam.
Valdir entrou até a vigésima.
Parou diante de uma mesa.
Havia um prato fundo sobre ela.
Dentro do prato, dois caroços secos de mexerica.
Ele tocou o tampo.
Estava frio.
Olhou pela janela.
A rua continuava no mesmo lugar, mas a luz havia mudado. A sombra do muro parecia avançar pela calçada como se a tarde estivesse mais adiantada do que deveria.
Valdir recuou.
Não contou as salas outra vez.
Fechou a porta e foi embora.
No caminho, passou pelo Mercado do Peixe.
Seu Antenor estava no cais, limpando uma rede.
Valdir encostou a moto.
— Seu Antenor, o senhor conhece uma sala de vendas antiga na Rua Flamboyant?
O velho levantou os olhos.
— A do doutor Hélio?
— Essa.
— Conheço.
— Tem alguma coisa errada naquela casa.
Seu Antenor ficou alguns segundos calado.
Depois jogou no cais um pedaço de rede molhada.
— O doutor Hélio comprou aquilo nos anos noventa. Queria fazer escritório para vender terreno. Nunca deu certo.
— Por quê?
O velho deu de ombros.
— A casa não fica do tamanho que está no papel.
Valdir pensou que ele estivesse brincando.
— Como assim?
— Meu irmão pegou uma obra ali uma vez. Foi trocar umas telhas. Levou vinte caibros. Quando chegou no fundo, faltavam dez. Achou que alguém tinha roubado. Voltou para buscar os outros e encontrou os vinte no lugar. Só que o telhado estava maior.
Valdir ficou olhando para ele.
Seu Antenor voltou a mexer na rede.
— Tem gente que evita aquela casa no inverno.
— Por quê?
— Porque é quando ela cresce.
Valdir não perguntou mais nada.
Comprou dois quilos de posta de tainha e voltou para a oficina.
Passou a tarde desmontando o motor de uma embarcação de Prainha. Lavou as peças em querosene, limpou o carburador com ar comprimido e trocou a vela. Era um trabalho que ele conhecia. Uma chave doze cabia numa porca doze. Uma peça desgastada precisava ser substituída. Um motor ruim tinha uma causa.
No fim da tarde, voltou para a Rua Flamboyant.
Levou uma lanterna de cabeça, uma trena de cinquenta metros e um pedaço de giz amarelo.
Queria medir.
Não porque acreditasse no que tinha visto.
Justamente porque não acreditava.
A chuva começava quando ele entrou.
Na primeira sala, fez um número grande na parede.
Na segunda, escreveu 2.
Na terceira, 3.
Foi avançando.
A cada porta, o som da chuva diminuía.
Na sala doze, encontrou uma cadeira de praia dobrada num canto. O tecido verde e amarelo estava encostado na parede.
Valdir olhou para ela, mas não mexeu.
Continuou.
Na sala vinte, sentiu frio.
Parou e respirou fundo.
O ar parecia mais úmido.
Avançou mais três salas.
A cadeira estava ali outra vez.
Só que aberta.
Valdir ficou imóvel.
A mesma cadeira.
Ele se aproximou.
A lona estava fria.
Olhou para trás.
As portas continuavam alinhadas.
Voltou a andar.
Na sala trinta e um havia uma carteira de couro preta no chão, ao lado da mesa. Estava velha, úmida e desbotada. Um documento de carro aparecia pela abertura.
Valdir se abaixou.
Não tocou.
Continuou.
Na sala quarenta e seis, ouviu água.
Não chuva.
Água correndo.
Parou e encostou a mão na parede.
O som vinha de dentro.
Na sala sessenta e sete, a janela tinha mudado.
Não dava mais para a rua.
Do outro lado do vidro havia areia.
Areia grossa, escura e molhada.
Mais adiante, algumas árvores apareciam inclinadas pelo vento. Não eram árvores que Valdir reconhecesse.
Ele limpou o vidro com a manga.
Não adiantou.
Havia salitre do lado de dentro.
Valdir levantou o giz.
Não marcou a parede.
Ouviu passos.
Vinham do corredor.
Botas de borracha.
Lentas.
Arrastando areia e água sobre o piso.
Ele desligou a luz principal da lanterna.
Apenas o pequeno círculo de iluminação permaneceu aceso.
Uma bota amarela apareceu na porta.
Depois um balde azul.
Depois um homem.
Era velho, magro e usava uma capa de chuva escura. O rosto estava cheio de rugas. Trazia um maço de cigarros no bolso.
O homem olhou para Valdir.
Depois olhou para a trena estendida no chão.
— Você é o rapaz da imobiliária?
— Sou.
O homem assentiu.
— Veio procurar o quadro?
— O alçapão.
O velho deu uma risada curta.
— O alçapão ficou para trás.
— Como assim?
— Já passou.
Valdir apontou para o corredor.
— A casa tem quantas salas?
O velho olhou para trás.
— Não sei.
— O senhor trabalha aqui?
— Trabalho quando precisa.
— Quem manda o senhor?
— Ninguém.
A resposta saiu tão naturalmente que Valdir não soube o que dizer.
O velho colocou o balde no chão.
— Tem que cuidar dos caibros.
— Por quê?
— Porque quando o vento vira para o sul, ela começa a andar.
Valdir olhou para a janela.
— A casa?
— A casa.
Ele esperou uma explicação.
Ela não veio.
O velho tirou um cigarro do maço e tentou acender. O isqueiro falhou duas vezes.
— O senhor está dizendo que essa casa cresce?
— Ela não gosta de ficar apertada.
A frase pareceu absurda.
Valdir quase riu.
Quase.
O velho conseguiu acender o cigarro.
— No verão ela para um pouco. Tem gente, barulho, carro passando. Ela fica mais comportada.
— E no inverno?
— Fica maior.
— Quanto?
— Depende do vento.
Valdir olhou para a trena.
— Eu já passei de cinquenta metros.
O velho olhou para o carretel.
— Ainda é pouco.
Valdir sentiu um frio na barriga.
— Pouco para quê?
O velho apontou para a frente.
— Você ainda não chegou no fundo.
Valdir ficou em silêncio.
O homem continuou:
— O doutor Hélio tentou medir uma vez.
— Ele também entrou aqui?
— Entrou.
— E saiu?
O velho puxou o cigarro.
— Saiu. Só que não pela mesma porta.
Valdir esperou.
— Ele apareceu onde?
— Perto de Pontal do Paraná.
Valdir franziu a testa.
— Como?
O velho deu de ombros.
— A casa estava comprida naquele dia.
Valdir olhou para o corredor.
As portas pareciam menores agora.
Ou talvez estivessem mais distantes.
— E o canal de Guaratuba?
O velho levantou os olhos.
— Quem falou do canal?
— Ninguém.
Valdir percebeu que tinha dito aquilo sem saber por quê.
O homem apagou a cinza do cigarro na sola da bota.
— Tem uma parte da casa que vai para lá.
— Para Guaratuba?
— Quando o vento fica muitos dias do sul.
Valdir sentiu a boca seca.
— Mas isso é impossível.
O velho deu uma olhada para ele.
— É por isso que ninguém consegue medir.
O homem pegou o balde.
Valdir apontou para a cadeira de praia.
Ela estava dobrada.
— O senhor mexeu nela?
— Não.
— Eu também não.
O velho olhou para a cadeira.
Ficou alguns segundos em silêncio.
Depois disse:
— Ela muda de lugar quando alguém olha demais.
Valdir decidiu ir embora.
Recolheu a trena e começou a caminhar de volta.
O velho ficou para trás.
Na sala da carteira, o chão estava vazio.
A carteira tinha desaparecido.
Na sala da cadeira, ela estava dobrada novamente.
Valdir continuou.
O som da chuva voltou aos poucos.
Primeiro como um ruído distante.
Depois como gotas batendo no telhado.
Depois como água escorrendo pelas calhas.
Quando chegou à primeira sala, a porta de entrada estava onde deveria estar.
Valdir saiu.
Trancou.
Testou a fechadura duas vezes.
Na calçada, ficou parado.
Olhou para a fachada.
Parecia um sobrado comum.
Amarelo.
Baixo.
Estreito.
Nada indicava que havia mais de sessenta salas atrás daquela porta.
Valdir guardou a chave no bolso e subiu na moto.
Antes de ligar, olhou novamente para o imóvel.
As telhas do telhado continuavam para trás.
Ele percebeu isso pela primeira vez.
Não terminavam exatamente sobre a parte dos fundos da casa.
Seguiam além.
Uma fileira fina de telhas vermelhas avançava por cima dos muros e desaparecia entre árvores que ele não lembrava de existirem ali.
Valdir ligou a moto.
Não ficou olhando.
Naquela noite, fritou a tainha.
Comeu com farinha de mandioca e tomou café depois da janta.
Tentou assistir televisão.
Não conseguiu.
Perto das onze, levantou para apagar a luz da cozinha.
Passou pelo corredor de casa.
Parou.
Conhecia aquele corredor havia dez anos.
Da sala até o quarto eram quatro passos.
Sempre quatro.
Valdir voltou ao início.
Contou.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Cinco.
Parou diante da porta do quarto.
Não voltou para conferir.
Foi até o cabideiro e pegou a jaqueta que tinha usado naquela tarde.
Quando enfiou a mão no bolso, sentiu alguma coisa áspera.
Retirou os dedos.
Havia pó amarelo na ponta deles.
Giz.
Valdir ficou olhando.
Depois esfregou o pó no tecido da calça.
Apagou a luz.
Foi para o quarto.
Deitou.
Durante alguns minutos, ouviu apenas a chuva.
Então veio outro som.
Muito baixo.
Parecia água batendo contra alguma coisa de madeira.
Valdir abriu os olhos.
O som continuou.
Não vinha da rua.
Vinha do corredor.
Ele não levantou.
Na manhã seguinte, encontrou uma fina camada de areia no piso entre a cozinha e o quarto.
Não havia areia no restante da casa.
Valdir ficou olhando durante algum tempo.
Depois pegou a vassoura.
Varreu tudo para dentro da pá.
Na hora de jogar no lixo, percebeu uma coisa presa entre os grãos.
Um pequeno pedaço de cerâmica clara.
Do mesmo tipo do piso da sala de vendas.
Valdir segurou o fragmento entre os dedos.
Pensou em ligar para o tio.
Pensou em voltar à Rua Flamboyant.
Não fez nenhuma das duas coisas.
Guardou o pedaço de cerâmica numa gaveta da cozinha.
À tarde, passou pela rua de moto.
Não parou.
A placa ainda estava sobre a porta.
SALA DE VENDAS.
Valdir olhou pelo retrovisor enquanto seguia adiante.
Por um instante, teve a impressão de que a fachada estava mais distante da rua.
Naquele dia, não voltou.
Nem no seguinte.
Uma semana depois, seu tio ligou.
O vistoriador tinha ido ao imóvel.
Encontrara tudo em ordem.
Só havia uma coisa estranha.
O quadro de disjuntores estava no fundo.
Valdir ficou calado.
— No fundo de quê?
— Da casa.
— Quanto?
O tio respondeu:
— O homem disse que caminhou quase duzentos metros.
Valdir fechou os olhos.
O tio continuou falando.
Disse também que encontrou uma porta de saída perto de um canal.
— Qual canal?
Houve silêncio do outro lado.
— Guaratuba.
Valdir desligou sem se despedir.
Naquela noite, tirou o pedaço de cerâmica da gaveta.
Colocou sobre a mesa.
Ficou olhando.
Depois pegou uma trena.
Olhou para o corredor da própria casa.
Guardou a trena novamente.
Não mediu.
No inverno seguinte, a placa da antiga sala de vendas desapareceu.
Ninguém soube dizer quando.
A fachada continuou amarela.
A porta continuou fechada.
A casa continuou no mesmo terreno.
Pelo menos durante o dia.
À noite, alguns moradores do Bom Retiro começaram a notar uma coisa.
Quando o vento sul sobrava por vários dias, era possível ouvir, atrás das casas, um barulho comprido de portas se abrindo.
E fechando.
Uma depois da outra.
Como se alguém estivesse caminhando por dentro de uma casa muito grande.
Uma casa que ainda não tinha terminado de crescer.

A Parelha


A Parelha
O mar sempre repõe quem falta

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Osvaldo conhecia as canoas pelo som, antes mesmo de enxergá-las no quebra-mar. Cada uma falava com a água de um jeito. A do Duda batia leve — ele remava depressa no começo, ia afrouxando perto da areia, guardando braço para a hora de puxar. A do Ivo fazia um estalo seco, curto, desde que trocou a velha por essa nova que ainda não tinha jeito com o mar.
As duas formavam a parelha. Mas o trabalho era de cinco. Duda e Ivo na frente. Marcão, ele e o outro — o que mudava — se arrumavam entre os barcos e a praia, conforme a rede ia fechando. Os quatro primeiros eram sempre os mesmos. O quinto vinha e ia. Dependia da estação, de quem estivesse livre, de quem aguentasse o frio e o peso.
Marlene ligava de Curitiba quase todo domingo. Perguntava quando ele ia parar. Tinha dois meninos pequenos e não entendia por que o pai levantava antes das cinco para fazer a mesma coisa que fazia desde menino.
— Já dei minha parte, pai.
— Ainda tenho braço — ele dizia. E perguntava dos netos, deixava a conversa desviar.
A tainha demorou naquele ano. Maio passou sem nada que prestasse. Junho chegou e os barcos voltavam magros. Os mais velhos cochichavam: água quente, corrente mudou. Ninguém sabia dizer direito. Na terceira semana de junho, Duda bateu à porta antes de o sol nascer. Vira uma mancha escura lá pela Prainha.
Naqueles dias, o outro era Neno.
Vinte e poucos anos, calado demais. Aparecera dois invernos antes. Ninguém lembrava de onde. Não tinha barco próprio. Ficava onde faltava mão. Com Duda, com Ivo, na areia segurando a ponta. Andava leve, às vezes você olhava e ele já estava lá, sem ter ouvido chegar. Não reclamava do vento, não reclamava de nada.
Osvaldo gostava.
— Esse fica — disse a Marcão.
— Até quando?
— Até aparecer outro.
Riram os dois. Sem graça, mas riram.
A rede fechou bem naquela manhã. Duda foi para um lado, Ivo para o outro. Marcão com Duda, Neno com Ivo. Ele ficou na areia até a água puxar para o sul; então entrou. Os cinco juntos. A rede veio pesada. Os peixes brilharam quando caíram, ainda se mexendo. Ninguém falou muito — só corda estalando, água batendo no casco, um chamando o outro curto.
Quando acabaram, ele ficou olhando a marca na areia. Um arco largo, quase fechado. Contou os passos. Trinta e cinco. Na semana anterior, trinta e dois. Não disse nada a ninguém.
O caderno era de capa preta, folhas amareladas, comprado há anos na papelaria em frente à Praia Central. Hábito do pai — anotar o que ninguém mais guarda. Escreveu:
14 de junho. Mar mexido. Duda, Ivo, Marcão, Neno, Osvaldo. 82 tainhas.
Depois:
21 de junho. Vento fraco. Duda, Ivo, Marcão, Neno, Osvaldo. 79 tainhas.
A pesca melhorou. Gente começou a aparecer na praia. Ele continuou contando. Quarenta e um. Depois quarenta e três. O arco crescia, como se o espaço fosse se ajeitando de outro jeito.
Ivo percebeu.
— Está medindo a areia agora?
— A rede.
— Para quê?
— Não sei.
Ivo riu. Ele acompanhou, mais por não deixar o outro rir sozinho.
Dias depois, achou a foto. No fundo da gaveta, entre conta paga e um relógio parado há não sabia quanto tempo. Era de 98, tirada ali na frente do rancho, numa temporada boa. Reconheceu todo mundo. Depois contou de novo. Seis.
Seis pessoas.
Um homem na ponta, um pouco afastado. Camisa xadrez desbotada, chapéu de palha amassado. Não sorria. Olhava para quem tirava a foto, como se estivesse esperando. Osvaldo ficou olhando um tempão. Não lembrava.
Levou para o rancho no dia seguinte. Duda aproximou o rosto.
— Quem é esse?
— Não sei.
— Deve ter ajudado uns dias. Veio e foi. Não lembro.
Devolveu a foto e voltou para a rede. Ele guardou na carteira.
No domingo, olhou de novo. O homem não estava mais lá. Só o muro. Sem rasgo, sem marca. Virou a foto dos dois lados. Nada.
Abriu o caderno à noite. Procurou 98. A página estava quase apagada:
7 de julho de 1998. Mar mexido. Duda, Ivo, Marcão, Osvaldo. 61 tainhas.
Um buraco branco depois do nome dele. Como se alguém tivesse escrito e passado borracha. Não lembrava de ter feito isso. Passou para a frente. E viu:
Neno não veio hoje.
A letra era dele. O N apertado, fechadinho — a professora já puxava a orelha por isso. Leu duas vezes. Não lembrava de Neno ter faltado. Quanto mais pensava, mais parecia que ele estava sempre lá.
De manhã, Duda arrumava os remos. Apontou um cabo.
— Lembra do rapaz que amarrava um pano vermelho aqui?
— Que rapaz?
— Antes do Neno. Não lembro o nome.
— Como era?
— Normal. Novo.
Osvaldo tocou a madeira áspera. Não viu rosto nenhum. Mas lembrou do pano: vermelho, desbotado, balançando quando alguém içava a canoa.
— Tem certeza?
— Tenho.
Não perguntou mais. Procurou no caderno. Nada.
Começou a pensar em ficar. Em casa, com os netos, sem acordar antes do sol. Marlene ia gostar. Mas tinha uma coisa que doía mais: a ideia de outro no lugar dele. Bobagem, sempre teve alguém novo. Sempre vai ter. Mesmo assim, não saía da cabeça.
Na véspera da saída, ficou na varanda. O vento trazia cheiro de mar e de mato. Uma porta batia na casa ao lado. Um carro passou devagar e depois ficou só o som da água. Lembrou do pai. As mãos grossas, rachadas, sempre cheirando a peixe. O dia em que ele foi: manhã igual a essa. Nada de especial.
Não foi. Ficou sentado vendo Duda e Ivo levarem as canoas. Duda com Marcão. Ivo com Neno. O outro na areia. Conhecia aquela ordem. Já tinham feito assim tantas vezes.
O café esfriou. Meio-dia, pegou o caderno. Abriu. Duda, Ivo, Marcão, Neno, Osvaldo. Nada sobre hoje. Passou o dedo no próprio nome e fechou. Não abriu mais.
Voltaram quando o sol estava baixando. Ele foi até a rua. Duda, Ivo, Marcão, Neno — e mais um, de costas, puxando a rede. Contou. Cinco. Duas vezes.
Ivo chegou todo molhado.
— Melhorou? Puxou igual a rapaz.
Osvaldo não disse nada.
— Não lembra? — Ivo estranhou e foi ajudar.
Ele olhou as mãos. Cortes novos, finos, onde a corda aperta. Um ainda sangrava. Fechou os dedos. O sal ardeu.
Tirou a foto de 98 à noite. Olhou os cinco homens.
Não conseguiu lembrar quem faltava.