Algumas horas ficam onde deveriam ter terminado.
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
Mauro saiu de Curitiba às 19h12 para entregar uma pasta em Morretes. O serviço não pagava muito, mas ele precisava do dinheiro. Depois da separação, tinha começado a aceitar trabalhos que antes recusaria sem pensar. Levava documentos, buscava chaves, mostrava apartamentos vazios, fazia pequenas coisas que apareciam no telefone de quem ainda se lembrava dele como corretor. Naquela semana, já tinha abastecido a caminhonete duas vezes no cartão e ainda não sabia como pagaria a próxima fatura.
Marina havia mandado uma mensagem naquela tarde.
— Você vai passar por Morretes?
Mauro respondeu:
— Vou. Por quê?
Ela demorou quase uma hora.
— Nada. Só queria saber.
Ele não perguntou mais nada. Marina tinha vinte anos e aprendera a conversar com o pai deixando metade das frases para depois. Desde a separação, os dois mantinham uma relação que funcionava melhor por mensagens do que pessoalmente. Mauro dizia que era falta de tempo. Marina nunca discutia isso.
Antes de sair, ela ainda mandou:
— Come alguma coisa. Você esquece.
Mauro sorriu quando leu. Marina dizia aquilo desde pequena. Guardou o celular no bolso e pegou a estrada.
A chuva começou antes de São José dos Pinhais. Na BR-277, os caminhões levantavam uma cortina de água que apagava as faixas por alguns segundos. Mauro dirigiu devagar. Conhecia aquele trecho e não tinha pressa suficiente para morrer por causa de um cliente.
Entregou a pasta às 21h36. O homem que o esperava conferiu os documentos, assinou o recebimento e ainda ficou alguns minutos reclamando dos preços dos imóveis na região. Mauro ouviu, concordou quando era preciso e saiu.
Antes da descida, parou num posto para abastecer.
Eram 22h41 quando entrou na loja de conveniência.
Pediu um café pequeno.
A moça atrás do balcão perguntou:
— Com açúcar?
— Dois.
Ela colocou o copo e dois sachês sobre o balcão. Mauro pagou seis reais em dinheiro.
O relógio do celular marcava 22h41.
Guardou o recibo no bolso da jaqueta e saiu.
Chegou a Matinhos às 22h58. A rua estava quase vazia. Algumas casas tinham luz nas janelas, mas a maioria permanecia fechada. Mauro estacionou na garagem, entrou e deixou a carteira sobre a mesa da cozinha.
Quando tirou a jaqueta, o recibo caiu no chão.
Ele se abaixou para pegá-lo e percebeu o horário impresso.
23h41
Mauro olhou para o celular.
22h58.
Voltou a olhar para o papel.
Não era possível ter passado uma hora. Tinha acabado de sair do posto.
Pensou na impressora. Talvez o relógio da máquina estivesse errado. Seis reais. Não valia a pena dar meia-volta por seis reais.
Guardou o recibo na carteira e foi tomar banho.
Quando voltou, encontrou o papel sobre a mesa.
Mauro ficou parado.
Tinha colocado o recibo na carteira. Lembrava disso porque precisara tirar a carteira do bolso para abrir a porta.
Pegou o papel novamente.
Havia uma frase escrita no verso, com caneta azul:
"Você esqueceu de pegar a pasta."
Mauro foi até a garagem.
A pasta estava no banco traseiro da caminhonete.
Abriu a porta, conferiu o banco e ficou olhando para ela durante alguns segundos. Não tinha esquecido de pegá-la. Tinha escolhido deixá-la ali porque pretendia levá-la para dentro pela manhã.
Voltou para a cozinha, amassou o recibo e o jogou no lixo.
Na manhã seguinte, encontrou o papel aberto sobre a mesa.
Não lembrava de tê-lo tirado do lixo.
Ficou alguns segundos olhando para ele antes de ligar para o posto. Explicou a compra, informou o valor e disse que havia uma diferença no horário.
O funcionário consultou o sistema.
— Café pequeno. Seis reais. Dinheiro.
— E o horário?
— 22h41.
Mauro olhou para o recibo.
— Mas o papel está marcando 23h41.
— Então a impressora está errada.
— É possível.
— Ela dá problema de vez em quando.
Mauro desligou.
Agora tinha duas informações diferentes sobre a mesma compra. O sistema registrava 22h41. O papel registrava 23h41.
Guardou o recibo na carteira.
Pouco antes do almoço, Marina mandou outra mensagem.
— Você ainda está com a chave da casa de Morretes?
Mauro respondeu:
— Acho que não.
A resposta veio quase imediatamente.
— Está sim. Você levou quando saiu de lá.
Ele abriu uma gaveta onde guardava chaves antigas. Encontrou um molho preso por um chaveiro vermelho. Reconheceu a chave maior. A menor, prateada, tinha um pequeno risco na lateral que ele jurava já ter visto antes, mas não conseguia dizer onde.
Ligou para Marina.
— Qual delas?
— A pequena.
— Para que serve?
Ela demorou.
— Você sabe.
— Não sei.
Outra pausa.
— Você sempre diz isso.
Mauro ficou olhando para a chave.
— Marina, do que você está falando?
Ela não respondeu.
A ligação terminou.
Naquela noite, Mauro voltou ao posto.
Chegou pouco antes das onze. Pediu outro café. Pagou às 23h02 e guardou o novo recibo. Dessa vez, conferiu o horário antes de sair.
23h02.
O relógio do posto e o recibo coincidiam.
O gerente estava perto do caixa. Mauro perguntou se havia registros antigos da loja.
— De 2023?
— Tem algumas coisas.
Mauro mostrou o recibo da noite anterior.
— Quero saber se esse lugar existia naquela época.
O gerente examinou o papel.
— Essa loja aqui existia. Antes era menor.
— Era só o posto?
— Não. Tinha um café ali atrás.
— Ali onde?
O gerente apontou para uma estrada lateral.
— Mais ou menos um quilômetro. Fechou faz uns três anos.
Mauro perguntou se havia algum registro daquele café.
— Talvez. Por quê?
— Estou procurando uma compra antiga.
O gerente deu de ombros e explicou como chegar.
Mauro seguiu pela estrada.
O mato alto raspava nas laterais da caminhonete. A chuva tinha diminuído, mas os galhos ainda soltavam água sobre o para-brisa. Encontrou o prédio depois de alguns minutos.
Era uma construção baixa, escondida atrás das árvores. A placa enferrujada ainda dizia CAFÉ.
Uma das portas estava apenas encostada.
Mauro entrou.
O cheiro de madeira úmida veio primeiro. Depois apareceu um resto de café velho, preso em algum lugar do ambiente, embora ele não soubesse dizer de onde vinha. Havia mesas empilhadas, uma máquina de café coberta por lona e caixas de papelão atrás do balcão.
Abriu algumas sem saber exatamente o que procurava.
Encontrou contas, pedidos de bebidas, notas fiscais e recibos antigos.
Na terceira caixa, apareceu um maço preso por um elástico.
Mauro começou a folhear.
Parou num recibo amarelado.
17/06/2023. 23h41. Café pequeno. R$ 6,00.
Ficou olhando para a data.
17 de junho.
Era o aniversário de Marina.
Na tela do celular, o horário marcava 23h41.
Mauro apagou a tela imediatamente.
Sentou-se.
Abriu a conversa com a filha e procurou as mensagens daquela noite. Levou alguns minutos para encontrá-las.
23h39. Pai, você vai voltar?
23h40. ?
Mauro passou o polegar pela tela.
Durante três anos, tinha guardado outra versão daquela noite. Marina estava na casa da avó. Eles haviam discutido antes. Mauro fora embora sozinho. No dia seguinte, voltou para Curitiba.
Era isso que lembrava.
Ou achava que lembrava.
Levantou-se e voltou ao posto.
O gerente ainda estava trabalhando. Mauro mostrou o recibo encontrado no antigo café e perguntou se havia como confirmar aquela venda.
O homem consultou o sistema antigo.
Depois chamou outro funcionário.
— Tem mesmo — disse ele. — 17 de junho de 2023. 23h41. Seis reais.
Mauro apontou para o recibo.
— Então esse horário está certo?
— Está.
— Não é erro da impressora?
O funcionário balançou a cabeça.
— Não. O registro também está em 23h41.
Mauro ficou em silêncio.
O primeiro recibo podia estar errado.
O segundo não.
Foi para Morretes.
Chegou à casa pouco depois da meia-noite. A chuva tinha voltado. Usou a chave vermelha na porta da frente e entrou.
A casa estava fechada havia meses. O cheiro de umidade vinha dos quartos.
Mauro ficou alguns segundos no corredor.
Lembrou de Marina sentada no chão da sala três anos antes, reclamando que aquela casa precisava de cortinas. Ela tinha dormido ali uma vez. Pela manhã, havia deixado uma xícara dentro da pia e um casaco sobre o sofá.
Mauro não sabia por que aquela lembrança tinha desaparecido até aquele momento.
Foi direto para a garagem.
A chave pequena abriu uma porta estreita ao lado do depósito.
Mauro acendeu a luz.
Havia caixas, ferramentas e um armário de metal. Sobre o armário encontrou um telefone celular antigo, com a capa rachada.
Tentou ligá-lo.
Funcionou.
Havia poucos arquivos.
Um deles estava marcado como 17/06/2023, 23h39.
Mauro apertou o áudio.
A voz de Marina apareceu baixa, quase abafada pela chuva.
"Pai, você disse que voltava."
Depois veio o som de uma porta de carro.
A voz de Mauro:
"Fica no carro."
Ele parou a gravação.
A mão direita começou a tremer.
Sentiu um gosto amargo de café na boca.
Ficou alguns segundos sem entender por quê.
Então fechou os olhos.
A lembrança veio em pedaços.
O banco do passageiro.
O vidro molhado.
Marina segurando alguma coisa nas mãos.
Dois sachês de açúcar no console.
Uma mecha do cabelo dela presa no casaco.
A mão pequena de Marina tocando seu braço.
"Você vai voltar?"
Ele lembrava de ter dito que sim.
Depois vinha o vazio.
Mauro abriu os olhos.
Não era um vazio completo. Havia sons dentro dele. A chuva. O motor ligado. A porta fechando.
E depois nada que conseguisse sustentar.
Procurou outra gravação.
Havia uma.
A voz de Marina surgiu novamente:
"Pai?"
Depois uma mulher, mais distante:
"Vai deixar ela sozinha?"
A gravação terminou.
Mauro ficou olhando para o telefone.
A voz da mulher não lhe dizia nada. Ou dizia e ele não queria saber.
Passou o dedo pela tela, mas não apertou nenhum botão.
Também não apagou o arquivo.
Voltou para Matinhos antes das duas da manhã.
No caminho, o limpador de para-brisa trabalhava num ritmo constante. A cada passagem, a memória parecia chegar perto e recuar.
Quando chegou em casa, colocou os dois recibos sobre a mesa.
O primeiro era daquela noite. A compra real acontecera às 22h41, mas a impressora registrara 23h41.
O segundo era de três anos antes.
23h41.
Mauro ficou olhando para os dois.
O primeiro podia ser explicado.
O segundo não.
Na noite seguinte, decidiu ficar acordado até 23h41.
Às 23h30, estava sentado na cozinha. As portas estavam trancadas. O celular permanecia sobre a mesa. Não havia contado nada a Marina. Também não tinha perguntado o que ela lembrava.
A casa parecia maior àquela hora.
O relógio da parede fazia um ruído que Mauro nunca tinha percebido durante o dia.
Na cozinha, havia cheiro de café.
Ele levantou os olhos.
A máquina estava desligada.
O cheiro desapareceu, mas na boca ficou o mesmo gosto amargo que sentira na garagem.
Às 23h39, um carro passou devagar pela rua.
Mauro levantou a cabeça.
Às 23h40, ouviu uma porta de carro bater.
O som foi exatamente igual ao da gravação.
Às 23h41, bateram três vezes na porta da frente.
Mauro não se levantou.
Bateram novamente.
— Pai?
A voz era de Marina.
Mas não era a voz que ele ouvira ao telefone naquela tarde.
Era mais jovem.
Era a voz da gravação.
Mauro sentiu as mãos esfriarem.
— Você disse que voltava.
Ele olhou para o relógio.
23h41.
A maçaneta se mexeu uma vez.
Parou.
Mauro continuou sentado.
Não ouviu passos.
Não ouviu carro.
Não ouviu nada.
Às 23h42, o relógio avançou.
Depois de alguns minutos, ele foi até a porta. Conferiu a fechadura.
Estava trancada.
Olhou pela janela.
A rua estava vazia.
Quando voltou para a cozinha, havia um recibo sobre a mesa.
Mauro parou.
Não estava ali antes.
Pegou o papel.
Café pequeno. R$ 6,00. 23h41.
Cliente: 2 pessoas.
Mauro olhou para a cadeira diante dele.
Estava vazia.
O telefone vibrou às 23h48.
Era Marina.
Ele atendeu.
Durante alguns segundos, nenhum dos dois falou. Do outro lado havia apenas a respiração dela e o ruído regular de um limpador de para-brisa.
— Marina?
Ela demorou a responder.
— Você lembra daquela noite?
Mauro olhou para o recibo.
— Não.
Silêncio.
— Eu lembro.
A ligação caiu.
O ruído do limpador de para-brisa desapareceu de uma vez.
Mauro não ligou de volta.
Ficou na cozinha até depois da meia-noite. A chuva continuou por algum tempo e depois diminuiu. Às duas da manhã, ainda estava acordado. Às quatro, cansado, foi para o quarto e deitou sem apagar a luz da cozinha.
Adormeceu perto do amanhecer.
Quando abriu os olhos, o quarto já estava claro. A chuva tinha parado. Da rua vinha o barulho dos primeiros carros, uma conversa distante e o portão metálico de alguma casa sendo aberto.
Mauro ficou alguns segundos deitado.
Então olhou para o relógio.
7h08.
Levantou, lavou o rosto e foi até a cozinha.
A luz da manhã entrava pela janela.
O recibo continuava sobre a mesa.
Café pequeno. R$ 6,00. 23h41.
Mauro virou o papel.
No verso, escrito com tinta azul, havia apenas:
"Você disse que voltava."
Ele deixou o recibo ali e foi até a garagem buscar a carteira.
Quando abriu a porta da caminhonete, encontrou dois sachês de açúcar sobre o banco do passageiro.
O banco estava seco.
Mauro ficou olhando para eles.
Não se lembrava de tê-los colocado ali.
Fechou a porta e voltou para dentro.
Na cozinha, a luz já alcançava toda a mesa.
Ao lado do recibo havia uma terceira xícara.
Vazia.
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