segunda-feira, 21 de setembro de 2026

O que fica esperando quando ninguém volta

O que fica esperando quando ninguém volta
Um conto sobre memórias e ausências

Autor: Tadeu Everton Zamoiski Data: Meados de 2026

A chuva começou antes da serra.
Nelson percebeu pelo vidro ficando opaco e pelo movimento irregular dos limpadores. Não era uma chuva forte. Era aquela chuva miúda da Graciosa, que parecia entrar no carro mesmo com os vidros fechados e deixava a estrada escura antes de molhá-la de verdade.
Ele dirigia devagar. Conhecia aquele caminho, embora não soubesse dizer há quanto tempo não passava por ali.
Na curva depois de Porto de Cima, reduziu ainda mais.
Foi quando viu o guarda-chuva.
Estava no banco de trás.
Nelson olhou pelo retrovisor.
Era preto, fechado, com cabo de madeira escura. Nelson conhecia aquele guarda-chuva. Não sabia de onde.
Parou no acostamento.
Abriu a porta traseira e pegou o guarda-chuva. O cabo estava frio e havia uma pequena farpa levantada na madeira. Tentou arrancá-la com a unha e sentiu a ponta entrar no dedo.
Soltou o cabo.
Por um instante, sentiu cheiro de tecido molhado.
Helena.
A lembrança veio sem aviso. O casaco dela pendurado atrás da porta. O cabelo molhado depois de uma caminhada na chuva. A voz reclamando que ele nunca levava guarda-chuva porque sempre achava que conseguiria voltar antes de a chuva apertar.
Nelson fechou a mão.
Depois entrou no carro e colocou o guarda-chuva no banco do passageiro.
Seguiu.
O quiosque ainda estava aberto.
Nelson parou perto das mesas cobertas por lona. Havia um homem atrás do balcão, mexendo numa caixa de isopor. Um rádio pequeno tocava chorinho, quase escondido pelo barulho da chuva.
Pediu um caldo de cana e um pastel de camarão.
Comeu em pé.
O homem não parecia ter pressa. Limpava o balcão com um pano úmido, embora a madeira já estivesse seca.
Nelson percebeu que uma das mesas estava torta. Sem pensar, puxou uma das pernas alguns centímetros para fora, até ela firmar no chão.
Só então percebeu o que tinha feito.
Olhou para a mesa.
O homem continuou limpando o balcão.
Nelson olhou para o relógio pendurado na parede.
14h12.
Depois olhou para o painel do carro, através da porta aberta.
14h08.
Pegou o celular.
14h08.
Comparou os três horários.
O homem percebeu.
— Esse relógio adianta.
Nelson olhou novamente para a parede.
— Quatro minutos?
— Às vezes mais.
Nelson voltou ao carro e acertou o relógio do painel.
Na volta para casa, Helena apareceu de novo na memória.
Não era uma lembrança inteira. Primeiro veio a cozinha. Depois a pia. A toalha dobrada sobre a cadeira. O café que ela colocava na frente dele mesmo quando ele dizia que não queria.
Helena tirava o açúcar que ele deixava espalhado perto da cafeteira enquanto ele mexia numa gaveta.
— Você não precisa resolver tudo, Nelson.
Ele estava consertando uma gaveta.
— Se eu não resolver, quem vai?
Helena olhou para ele.
Não respondeu.
Ele lembrava daquele silêncio melhor do que lembrava da conversa.
A Igreja de São Sebastião estava aberta.
Nelson entrou levando o guarda-chuva.
O interior cheirava a madeira antiga e tecido molhado. Havia poucas pessoas. Uma mulher organizava algumas coisas perto do altar.
Nelson perguntou pelos livros antigos.
Ela indicou uma sala lateral.
Os registros estavam guardados em armários baixos. A mulher trouxe um livro grande, colocou sobre a mesa e abriu numa página amarelada.
Nelson procurava nomes.
Não encontrou.
Virou algumas páginas.
Nada.
A mulher se aproximou.
— Está procurando alguém?
— Uma menina.
— Quando?
— 1998.
A mulher passou o dedo por uma linha.
Depois por outra.
Nelson esperou.
Ela não encontrou nada.
O cabo do guarda-chuva encostava na perna de Nelson. Quando mudou de posição, a pequena farpa raspou de leve a palma da mão.
Ele apertou os dedos em volta da madeira.
Na saída da sala, uma fotografia caiu de dentro de uma pequena pilha que estava sobre uma cadeira.
Nelson se abaixou.
Reconheceu Helena antes de reconhecer as outras pessoas.
Ela estava sorrindo.
Mariana aparecia ao lado dela, com o rosto virado para a câmera.
A terceira menina estava um pouco atrás, quase fora do enquadramento.
Nelson virou a fotografia.
No verso, escrito à caneta, estava um nome.
Cláudia.
A ponta da caneta tinha falhado no final da palavra.
Nelson passou o polegar sobre a tinta.
Não lembrava daquela fotografia.
Mariana ligou naquela noite.
— Você foi para a Graciosa?
Nelson estava sentado à mesa da cozinha.
— Fui.
— Por quê?
— Queria lembrar de uma coisa.
Ela ficou quieta.
— Você sempre lembra de tudo.
Nelson não respondeu.
— Você lembra onde deixou ferramenta há quinze anos. Lembra o nome de cliente que viu duas vezes. Lembra placa de carro. Lembra o caminho de uma casa onde trabalhou uma vez.
— Mariana...
— Mas dessa viagem você não lembra.
Nelson olhou para a janela.
— Eu voltei.
Do outro lado, Mariana ficou em silêncio.
Um silêncio mais comprido dessa vez.
Nelson afastou o telefone do ouvido e olhou para a tela, como se a ligação tivesse caído.
— Mariana?
— Também.
Ele demorou a responder.
— Também o quê?
Ela respirou fundo.
— Também ouvi você dizer que voltaria.
A ligação terminou pouco depois.
Nelson ficou com o telefone na mão.
Mariana apareceu dois dias depois.
Trouxe uma caixa de papelão que estava guardada no apartamento de Helena.
— Era dela.
Nelson abriu.
Havia documentos, algumas fotografias, recibos antigos e uma xícara azul pequena, dessas que vendiam em conjuntos baratos.
Ele passou o dedo pela borda da xícara.
Havia uma marca escura perto do fundo.
— Ela guardava moedas aqui — disse Mariana.
Nelson levantou os olhos.
— Guardava.
Dentro da xícara havia duas moedas.
Ele pegou uma delas.
Era uma moeda antiga, já sem brilho, com a borda gasta.
Mariana abriu a geladeira.
— Você ainda compra aquele queijo?
— Qual?
— O amarelo.
— Às vezes.
Ela tirou o queijo e encontrou um pão dentro de um saco plástico.
— Tem manteiga?
— Na porta.
Mariana preparou um sanduíche.
Comeu encostada na pia.
Depois olhou para a mesa.
— Você ainda compra comida para três?
Nelson demorou um pouco.
— Às vezes.
Mariana não respondeu.
Nelson colocou a moeda de volta na xícara.
Passou o polegar pela borda uma última vez.
— Ela fazia isso desde sempre — disse Mariana.
Nelson assentiu.
Mariana colocou a caixa sobre a mesa e passou alguns segundos passando o polegar sobre a unha do indicador.
— Pai.
— Hum?
Ela olhou para ele.
— Você sabe.
Nelson não respondeu.
Mariana desviou os olhos.
Antes de sair, pegou o casaco na cadeira.
— Não esquece de comer.
— Tá.
Ela saiu.
Eu fiquei aqui porque você disse que voltava.
A chuva parou.
Eu achei que era você.
Depois começou de novo.
Nelson voltou à Graciosa no sábado.
O homem do quiosque ainda estava lá.
Parecia mais velho do que ele lembrava.
Ou talvez fosse outro homem.
Nelson não tinha certeza.
Pediu um café.
O homem colocou a xícara sobre o balcão.
— Você já esteve aqui antes.
— Em 1998.
O homem pensou.
— Pode ser.
— Eu estava com uma mulher.
— Estava.
Nelson esperou.
— Ela estava brava comigo?
O homem deu de ombros.
— Vocês estavam com pressa.
— Eu estava com duas meninas?
O homem continuou limpando o balcão.
— Talvez.
— Uma delas se chamava Cláudia.
O pano parou.
Por um instante, o homem ficou com a mão apoiada sobre a madeira.
— Cláudia.
Nelson sentiu o estômago apertar.
— Você lembra dela?
— Eu lembro de vocês.
— Isso não responde.
O homem levantou os olhos.
— Eu achei que vocês fossem voltar.
— Quem disse que voltaria?
— Você.
Nelson não falou.
O homem voltou a limpar o balcão.
— Ela ficou esperando.
Na igreja, a mulher reconheceu Nelson.
Ou pareceu reconhecê-lo.
Ele perguntou novamente pelos registros de 1998.
Ela abriu o mesmo livro.
Procurou devagar.
Não havia Cláudia.
Não havia registro de acidente.
Não havia notícia de desaparecimento.
Não havia nada.
Se Cláudia tivesse morrido, existiria um lugar. Um túmulo, um nome, uma data, alguma coisa contra a qual pudesse bater a culpa.
Mas não havia nada.
A mulher fechou o livro.
O som da capa contra a madeira pareceu mais alto do que deveria.
— Minha mãe trabalhava aqui naquela época — disse ela. — Mas morreu há muitos anos.
— Ela se lembrava de mim?
A mulher pousou a mão sobre a capa fechada.
— Talvez.
Nelson esperou.
Ela não abriu o livro novamente.
Quando ele saiu da sala, teve a impressão de que a mesa estava mais perto da porta do que antes.
Não parou para conferir.
Em casa, abriu a caixa de ferramentas.
Passou os dedos pelo interior.
Pegou uma chave de fenda.
Girou-a entre os dedos.
A chuva batia no telhado.
A chave escorregou da mão e caiu dentro da caixa.
Nelson fechou a tampa.
A lembrança voltou naquela noite.
Não veio como uma cena inteira.
Primeiro foi a estrada.
Depois a chuva.
Depois Helena, parada ao lado do carro.
Uma menina estava perto dela.
Nelson não conseguia ver o rosto.
— Ela não vai ficar aqui.
— É só por alguns minutos.
— Você disse isso antes.
— Eu vou voltar.
Helena olhou para ele.
— Nelson, você sabe que não é disso que eu estou falando.
Ele fechou a porta do carro.
— Deixa comigo.
Depois foi embora.
A lembrança terminava ali.
Nelson não sabia quanto tempo a menina ficara esperando.
Não sabia se alguém tinha voltado.
Não sabia se ela tinha ido embora sozinha.
Não sabia se aquela menina era Cláudia.
Mas agora havia uma fotografia.
Havia o homem do quiosque.
Havia Helena.
Helena sabia.
Era isso que doía.
"Você sabe."
Foi a última coisa que ela dissera.
Na manhã seguinte, Nelson voltou à igreja.
A chuva tinha diminuído.
O interior estava vazio.
Ele caminhou até o banco onde havia sentado no dia anterior.
Havia uma pequena marca de água na madeira.
Passou os dedos.
Estava fria.
Olhou para o teto.
Não havia goteira.
Nelson ficou ali por algum tempo.
Depois voltou até a entrada.
O guarda-chuva estava encostado na parede.
Ele o pegou.
A farpa raspou de leve a palma da mão.
Nelson olhou para o cabo.
Pensou em levá-lo.
Não levou.
Deixou o guarda-chuva ali e saiu.
Do lado de fora, olhou para a estrada.
O quiosque estava lá embaixo, entre as árvores.
Por algum motivo, pareceu menor do que antes.
Nelson ficou olhando por alguns segundos, tentando descobrir se havia alguma coisa diferente.
Não descobriu.
Entrou no carro.
Pensou em Helena.
Pensou em Mariana.
Pensou na menina.
No banco do passageiro havia uma moeda.
Nelson olhou para ela.
Era igual à que havia colocado na xícara azul.
Ele não se lembrava de tê-la tirado de lá.
Depois a colocou no console.
Ficou ali, ouvindo a chuva, enquanto o vidro diante dele começava a embaçar por dentro.
Quase disse:
— Deixa comigo.
Não disse.

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