Um conto do interior do Paraná
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
Valdir parou no posto do quilômetro 62 porque precisava mijar e porque o café era melhor que o do posto seguinte.
Era o mesmo posto de sempre. Cleber atrás do balcão, camiseta azul, bigode ralo, celular na mão. O freezer da geladeira de bebidas continuava quebrado desde o verão. Valdir sabia disso porque o Cleber tinha passado três dias colocando gelo em saco plástico para não perder a mercadoria. Sabia que o filho dele jogava bola no Rio Branco. Sabia que a mulher fazia unha em casa, num cômodo construído com sobras de madeira no fundo do quintal.
Naquela manhã, tinha tomado o comprimido da pressão e depois ficado na dúvida. Abriu o armário. O blister estava lá, uma cartela pela metade. Não lembrava de ter tirado o comprimido. Tomou outro.
No painel do caminhão, preso com fita crepe, um bilhete que a mulher tinha escrito uns quinze anos antes: Não esquece o pão. Ele nunca tirou dali. Às vezes olhava para aquilo e vinha o cheiro da cozinha dela, o barulho da televisão na novela das sete. Naquela manhã, a letra pareceu mais inclinada. Passou o dedo na fita crepe, ressecada, amarelada nas bordas, e ligou o motor.
Chovia fino. Aquele tipo de chuva que não molha de verdade, só deixa tudo úmido. As poças no asfalto refletiam o letreiro do mercado do outro lado da rodovia. Um caminhão de frango passou na pista contrária, o motor chiando na descida.
Entrou. Cleber levantou os olhos — um segundo, dois. Voltou para o celular.
— Boa noite.
— Boa noite.
Valdir pegou um café na máquina. O copo de papel encheu até a borda, transbordou um pouco na mão dele.
— O senhor quer alguma coisa?
— Um café. — Valdir segurou o copo com as duas mãos. — Quanto é?
— Três e cinquenta.
Valdir pagou. Cleber deu o troco. O crachá estava torto, o nome meio apagado.
— Teu filho ainda joga no Rio Branco?
Cleber ergueu a cabeça devagar.
— Eu não tenho filho.
Valdir ficou com o troco na mão. O café esfriando.
— Como assim?
— Não tenho filho — Cleber falou devagar, como se explicasse para alguém que não entendia bem o português. — O senhor me confundiu com outra pessoa.
— Você é o Cleber.
Não era pergunta. Cleber passou o pano no balcão.
— Sou.
— Então.
— Então o quê?
Valdir olhou para o crachá. Cleber. O nome estava lá. Pegou o café, saiu, voltou para o caminhão. No copo, uma rachadura fina na borda. Jogou o café fora no estacionamento, o líquido escorrendo pelo asfalto molhado. Ligou o motor e foi embora.
***
No dia seguinte, quando foi pegar o documento no porta-luvas, encontrou uma chave.
Pequena, de bronze, antiga. Do tipo que abre porta de casa velha. Corpo oval, haste curta. Na cabeça, estampado no metal, o número 62.
Ele não tinha colocado aquilo ali. Enfiou no bolso do casaco e esqueceu.
***
Uma semana depois, a chave estava na mesa da cozinha.
Valdir morava num apartamento no Portão, dois quartos, um deles vazio desde que a mulher tinha morrido. Chegou do trabalho, jogou as coisas na mesa, e lá estava. Tinha certeza de que tinha deixado no porta-luvas. Certeza. Lembrava de ter fechado o porta-luvas, de ter girado a chave da ignição, de ter descido do caminhão. Pegou a chave. Estava fria. O 62 parecia mais fundo do que antes.
Colocou no bolso e não pensou mais nisso.
***
No domingo, o celular apitou.
Era a Juliana. Fazia dois anos que a filha não mandava mensagem. Desde o enterro da mãe. Desde que Valdir não chegou a tempo — estava em Santa Catarina, a carga atrasou, o caminhão quebrou perto de Joinville. Chegou às quatro da manhã. A mulher já tinha morrido.
Pai, você tem uma chave de bronze?
Valdir olhou para o telefone. Depois para a chave na mesa.
Por quê?
Encontrei uma aqui. Entre as coisas da mãe. Achei que você tivesse a outra.
A outra. Como se fossem duas.
Manda foto.
A foto chegou. Uma chave pequena, de bronze, corpo oval, haste curta. Na cabeça, o número 62.
Valdir pegou a chave na mesa. Comparou com a imagem. Eram iguais. Não parecidas. Iguais.
Onde você achou isso?
Numa caixa de sapato. Tinha foto, documento, essas coisas. A mãe falava de uma casa. Em Morretes. Você lembra?
Valdir não lembrava.
Mas lembrava.
***
Ele dirigiu até Morretes no sábado. Não avisou a filha.
A estrada estava molhada. A neblina descia da serra e cobria as árvores, os postes, as placas. Valdir conhecia aquele trecho de cor. Curva, contracurva, o rio embaixo, a ponte, o posto que não vendia mais gasolina, só café e banheiro. Passou por tudo. Não parou.
Em Morretes, estacionou perto da igreja. Andou pelas ruas de pedra. Perguntou para um homem que vendia banana na esquina:
— O senhor conhece uma casa aqui que tem uma porta de bronze?
O homem riu.
— Porta de bronze? Aqui tudo é madeira.
Valdir continuou andando. Rua da Praia, Rua do Porto, rua que subia para o morro. Nada. Nenhuma casa. Nenhuma porta.
Voltou para o caminhão. Antes de ligar o motor, enfiou a chave na ignição. O caminhão pegou.
***
Na quarta, almoçou num buffet de beira de estrada, antes de subir a serra. Arroz empapado, farofa fria, frango com quiabo. A atendente veio com a jarra de suco.
— O de sempre, né, seu Valdir?
Ele olhou para ela. Não lembrava do rosto. Ela tinha uma touca branca e um brinco grande, dourado.
— O de sempre — disse ele.
Ela encheu o copo. Foi embora. Valdir comeu devagar, olhando para a janela. Lá fora, a garoa cobria o pátio de terra vermelha. Um caminhão de frango manobrava devagar, o motor chiando.
***
Na terça, parou no posto do quilômetro 62.
Cleber estava lá. Mesma camiseta azul, mesmo bigode ralo. Valdir desceu, foi até o balcão.
Cleber levantou os olhos. Não disse nada. Pegou um copo, encheu de café, colocou no balcão.
— Três e cinquenta.
Valdir pagou. Olhou para o fundo do posto, para a geladeira de bebidas.
— O freezer tá funcionando agora?
Cleber olhou para ele.
— Sempre funcionou.
Valdir pegou o café. Ficou um instante com o copo na mão.
— Você tem filho?
Cleber passou o pano no balcão. Devagar. Como se estivesse pensando.
— O senhor já perguntou isso.
— E você disse que não.
— Então.
Valdir assentiu. Saiu. No estacionamento, olhou para a placa. 62. Ele lembrava de ter passado por aquela placa mil vezes. Mas não lembrava de ter visto o posto antes daquela semana. Entrou no caminhão. A chave de bronze ainda estava na ignição. Ele não tinha tirado.
***
Quando chegou em casa, a porta do apartamento estava aberta.
Ele morava sozinho. Tinha certeza de ter trancado. Mas a porta estava aberta, e a luz da cozinha estava acesa.
Entrou. Chamou pela Juliana. Ninguém respondeu.
Na mesa da cozinha, havia uma caixa de sapato.
Ele abriu. Dentro, uma foto. Ele, a mulher, a Juliana. Os três na frente de uma casa. Uma casa de madeira, com uma porta de bronze. Valdir não lembrava daquela casa. Não lembrava daquele dia. Mas a mulher estava sorrindo, e a Juliana era pequena, devia ter uns cinco anos. Atrás da foto, uma data: 1998. E um número escrito à mão, com caneta azul: 62.
Valdir virou a foto contra a luz da cozinha. Olhou para a casa. Olhou para a porta.
O telefone apitou.
Pai, você tá em casa?
Tô.
Posso passar aí?
Valdir olhou para a caixa de sapato. Para a foto. Para a chave.
Pode.
Ele sentou no sofá. Ficou esperando. A porta estava aberta.
***
Quinze minutos depois, o interfone tocou.
Valdir levantou. Atendeu.
— Pai? — Era a voz da Juliana. — Tô subindo.
Valdir abriu a porta. Esperou.
A filha apareceu no corredor. Estava com uma bolsa pequena. Cabelo preso. Olhos cansados. Na manga do casaco, um pedaço de gaze aparecia, preso com esparadrapo. Ela puxou a manga para baixo quando viu o pai olhando.
— Oi, pai.
— Oi.
Ela entrou. Olhou para a mesa. Para a caixa de sapato.
— Você achou.
— Achei.
Juliana pegou a foto. Olhou.
— Eu não lembrava dessa casa — disse ela. — Mas a mãe falava. Falava que a gente tinha morado lá quando eu era pequena. Antes de você começar a viajar.
Valdir não disse nada.
— Você lembra? — perguntou ela.
— Não.
Juliana assentiu. Como se esperasse aquela resposta.
— A mãe dizia que você esquecia as coisas. Que você sempre esquecia.
Valdir olhou para a chave na mão.
— Eu trouxe a minha — disse Juliana. — Tá na bolsa.
Ela abriu a bolsa. Tirou a chave. Colocou na mesa. Ao lado da outra.
Eram iguais. O mesmo 62 na cabeça.
— A mãe queria que a gente fosse lá — disse Juliana. — Juntas. Ela falava isso. Antes de morrer. “Você e seu pai vão ter que ir lá um dia.”
Valdir pegou as duas chaves. Pesou na mão. Eram leves. Frias.
— Onde é? — perguntou.
Juliana olhou para ele. Por um tempo.
— Você sabe — disse ela.
***
Valdir dirigiu até Morretes no dia seguinte. Juliana foi com ele. A estrada estava seca, o sol batia no asfalto. Nenhuma neblina.
Passaram pelo posto do quilômetro 62. Cleber estava lá, na porta, tomando café. Acenou. Valdir não parou.
Chegaram em Morretes. Valdir estacionou perto da igreja. Andaram pelas ruas de pedra. Subiram o morro. Desceram. Passaram pela Rua da Praia, pela Rua do Porto.
Nada.
Depois de uma hora, pararam numa padaria. Valdir pediu um café. Juliana não quis nada. Ficou olhando para a rua.
— A gente já veio aqui? — perguntou ela.
— Não.
— Eu tenho uma lembrança esquisita. — Ela mexeu no açucareiro. — De uma casa com quintal. De um homem que me carregava nas costas. Não era você.
Valdir não respondeu. Olhou para o café.
— Pai.
— O quê?
— Nada.
Voltaram para o caminhão. Antes de ligar o motor, Valdir olhou para as chaves na mão. Duas. Olhou para a rua.
— A foto — disse ele.
— Que foto?
Valdir olhou para ela.
— A foto que você achou. Na caixa.
Juliana franziu a testa.
— Que caixa, pai?
— A caixa de sapato. Que você achou entre as coisas da sua mãe.
— Eu não achei caixa nenhuma. Você me mandou mensagem perguntando da chave. Eu vim aqui porque você pediu.
Valdir olhou para ela. Para a bolsa. Para as mãos vazias.
— Você trouxe a chave.
— Que chave?
Ele abriu a mão. Duas chaves de bronze. Idênticas. O 62 brilhando na luz do sol.
Juliana olhou para as chaves. Depois para o pai.
— Pai, eu não tenho chave nenhuma. Eu nunca vi essas chaves.
Valdir fechou a mão. Olhou para o morro. Para as casas.
— Vamos embora.
***
Entraram no caminhão. Valdir ligou o motor. As chaves estavam na ignição.
Dirigiram devagar pela rua principal. A igreja ficou para trás. As casas de madeira, as vendas de banana, os postes com fios pendurados. Valdir não olhava para os lados. Olhava para a estrada.
— Pai.
— O quê?
— Olha.
Juliana apontou. Do lado direito, entre duas casas, uma ruela de pedra subia o morro. No fim da ruela, uma casa de madeira. Pequena, com um quintal cercado de tela. E uma porta de bronze.
Valdir parou o caminhão.
Ficou olhando. A casa era comum. Telhado de zinco, janelas de madeira, uma samambaia pendurada na varanda. Nada de especial. Uma casa como outra qualquer, daquelas que a gente passa e não nota.
— É essa? — perguntou Juliana.
Valdir não respondeu. Pegou as chaves. Desceu do caminhão. Juliana desceu atrás.
Subiram a ruela. A pedra estava úmida. No quintal, um pé de araucária, grande, cobrindo metade da casa. O cheiro de terra molhada subiu. Valdir parou na porta. Olhou para a chave na mão. Enfiou na fechadura. Girou.
A porta abriu.
Dentro, a casa estava limpa. Chão varrido. Uma mesa de madeira, duas cadeiras. Um fogão a lenha, apagado. Cheiro de café. No rádio da cozinha, uma voz baixa, modão de raiz, como se alguém tivesse acabado de sair.
Juliana entrou atrás do pai. Olhou em volta.
— Tem alguém morando aqui?
Valdir não respondeu. Andou até a parede. Havia uma foto pendurada. Ele, a mulher, a Juliana. Os três na frente da casa. A mesma foto da caixa de sapato. Mesma data: 1998.
Mas na foto da parede, ele não estava. Só a mulher e a Juliana. Duas pessoas, na frente da casa, sorrindo. O lugar onde ele deveria estar estava vazio.
Valdir ficou olhando. Juliana se aproximou.
— Pai.
— O quê?
— A gente vai voltar?
Valdir olhou para a foto. Olhou para a filha.
— Vai.
***
Dirigiram de volta para Curitiba. A estrada estava seca, o sol batia no asfalto. Juliana cochilou no banco. Valdir dirigia em silêncio. Passou pelo posto do quilômetro 62. Cleber estava na porta, tomando café. Acenou. Valdir não acenou de volta.
No painel, o bilhete da mulher, preso com fita crepe.
Valdir olhou para aquilo. Não esquece o pão.
Ele não tinha esquecido o pão. Nunca tinha esquecido o pão.
Puxou o bilhete. A fita crepe saiu fácil. Virou o papel contra a luz do sol.
A letra era dele.
Ele não lembrava de ter escrito aquilo. Nunca tinha escrito bilhete para si mesmo. Nunca tinha precisado. Olhou para a data no canto do papel. Não tinha data. Só a frase, na letra dele, com um pingo no i que ele fazia desde criança.
Dobrou o bilhete. Colocou no bolso.
Juliana dormia. O caminhão seguia. A estrada ia embora atrás dele.
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