Tadeu Everton Zamoiski
Meados 2026
Carlos gravou e apagou. Gravou de novo e apagou. Na terceira tentativa, sentou na beira da cama, segurou o telefone como se pesasse mais do que devia, respirou fundo e apertou o botão. Ficou em silêncio. Apagou o áudio e discou para a filha.
— Você ainda sabe o caminho até a casa da vovó?
Olhou para a janela. A chuva escorria pelo vidro em linhas tortas.
— Sei.
Ela ficou quieta.
— Pai...
Ele esperou.
— Eu ouvi a senhora gritando ontem.
Carlos levantou os olhos.
— Que senhora?
A ligação caiu. Chamou até cair de novo. Caixa postal. Não deixou mensagem. Foi à cozinha, abriu a geladeira e ficou olhando para dentro sem procurar nada. Fechou a porta.
O telefone tocou.
— Pai, a vovó me ligou ontem.
— Como assim?
— O telefone tocou. Atendi e ninguém falava. Só respirava... depois ouvi a voz dela. Bem baixinho.
Carlos ficou calado.
— Você tem certeza?
— Tenho.
Ele não perguntou mais nada.
A mãe ligara três vezes na noite anterior à morte. Na primeira, viu o nome e deixou tocar. Na segunda, estava no banho. Na terceira, já deitado, segurou o aparelho e olhou para a tela.
Mãe.
Ficou alguns segundos olhando.
Não atendeu.
Também não ligou de volta.
Dois dias antes, tinham discutido. A conta, a casa de Matinhos, as visitas que nunca aconteciam.
— Você só aparece quando precisa — ela disse. — Quando vem?
— Logo.
— Você sempre diz logo.
Foi a última conversa que tiveram.
Na manhã seguinte, no aeroporto, Carlos leu a mensagem recebida.
Quando chegar, me avisa.
Leu duas vezes. Escreveu “mãe” na resposta e ficou olhando para aquelas quatro letras antes de apagar. Embarcou para Curitiba.
O voo atrasou duas horas. Pousou depois das dez. O táxi o levou direto ao velório. O caixão já estava fechado.
A mensagem continuava sem resposta.
No banheiro de casa, o frasco vazio de xampu permanecia na prateleira. A mãe enchia de água, sacudia e conseguia usar mais alguns dias. Fazia isso com quase tudo. Carlos apertou o plástico. Ainda havia cheiro.
Na sala, a mala estava pronta. Sobre a mesa, os papéis do inventário e a chave, pequena, de latão, com anel vermelho e um risco fino perto da cabeça. A irmã não opusera resistência.
Carlos guardou a chave no bolso da jaqueta.
Antes de sair, voltou ao banheiro e olhou o frasco mais uma vez.
Passou alguns minutos diante do caixão fechado e saiu.
Dormiu mal naquela noite.
Na manhã seguinte, voltou ao aeroporto, pegou o carro e seguiu pela BR-277. A chuva engrossou. Caminhões levantavam cortinas de água, e o limpador deixava uma névoa no vidro. Viu uma placa que não reconheceu e diminuiu a velocidade. Pensou em parar para conferir o caminho, mas havia um caminhão logo atrás.
Seguiu.
Alguns quilômetros depois, a mesma placa apareceu de novo.
Carlos não parou.
O restaurante surgiu à beira da estrada. Lona escura, mesas de plástico, cheiro de café requentado.
Sentou perto da janela.
— Café e pão com ovo.
Enquanto esperava, olhou o telefone: 3h15. A bateria estava quase no fim. Guardou o aparelho.
— Pão quente.
Comeu metade e pediu a conta.
O homem do balcão olhou para ele por um instante.
— Você pediu a mesma coisa ontem.
Carlos levantou os olhos.
— Ontem?
O homem entregou o recibo.
11h05.
Carlos olhou para o telefone.
3h15.
O homem também olhou para a tela.
— Ainda está marcando três e quinze?
Carlos demorou um instante para responder.
— Está.
O homem pegou um pano e voltou a limpar o balcão.
Carlos dobrou o recibo e guardou no bolso.
Na saída, olhou para trás. O homem limpava uma mesa vazia.
Chegou a Matinhos no fim da tarde. As ruas estavam úmidas e quase desertas. Havia cheiro de maresia e de coisa guardada. A casa pareceu menor.
Carlos ficou alguns minutos dentro do carro antes de descer.
O portão rangeu. Na parede havia uma mancha de tinta azul. Ele mesmo pintara ali, anos atrás. Passou o dedo sobre a mancha.
Ainda estava ali.
A chave entrou sem esforço. A porta abriu e veio o cheiro de mofo, madeira fechada, papel velho. A luz piscou duas vezes e acendeu.
A geladeira estava vazia. No armário havia copos, pratos e uma xícara rachada. Era da mãe. Colocou-a na pia.
Ao lado do fogão, encontrou um recibo amassado.
Do mesmo restaurante.
A data era daquele dia.
7h40.
Carlos tirou do bolso o outro recibo.
11h05.
Olhou o telefone.
3h15.
Guardou os dois papéis.
A pia... Ele lembrava dela perto da geladeira. Ficou olhando o espaço vazio e depois voltou os olhos para a pia.
No quarto de hóspedes, havia uma fotografia sobre a cômoda. A mãe estava sentada na areia. A irmã aparecia ao lado. Carlos, mais jovem, segurava uma menina de uns quatro anos.
Sua filha.
Não lembrava daquele dia.
Virou a fotografia. Nada escrito.
A mãe sorria para alguém fora do enquadramento.
Carlos olhou melhor.
A menina também estava virada para o mesmo lado.
Guardou a foto no bolso interno da jaqueta.
Sentiu novamente o cheiro de xampu.
Olhou para o corredor.
Vazio.
Ligou para a irmã.
— Você sabia que a casa ficou comigo?
— Sabia.
— Encontrei a chave.
— Entrou?
— Entrei.
Houve uma pausa.
— Você nunca chegou a tempo.
Carlos apertou o telefone na mão.
— Eu estava no aeroporto!
— Eu sei.
A ligação terminou.
A irmã nunca quisera aquela casa. Carlos percebeu isso desde que o advogado abrira o testamento. Não perguntou por quê.
O telefone vibrou.
Mensagem da filha:
Pai, está na casa da vovó?
Logo depois:
Não fica aí sozinho.
Carlos digitou:
Por quê?
Ela visualizou.
Não respondeu.
Mais tarde, já deitado, ouviu passos no corredor. Devagar. Um pé arrastava um pouco mais que o outro.
Pararam.
Carlos acendeu a luz.
Ninguém.
A porta dos fundos estava aberta. Foi até lá, fechou-a e girou a chave. Na cozinha, a lâmpada tinha queimado.
Olhou para o teto.
— Amanhã troco.
Era a promessa que fizera à mãe.
Dormiu no sofá.
De manhã, foi à padaria.
Uma mulher atrás do balcão sorriu.
— Bom dia, Carlos. Dois pães?
Ele parou.
A mulher sustentou o sorriso por um instante. Depois o perdeu.
— Desculpa. Confundi o senhor.
Carlos pegou os pães e voltou para casa.
No caminho, levou a mão ao bolso da jaqueta.
A chave não estava ali.
Procurou no outro bolso. Nada.
Quando entrou, revirou a mala, olhou o sofá, a mesa da sala.
Nada.
Foi até a cozinha.
A chave estava sobre a mesa.
O risco fino perto da cabeça era o mesmo.
Ao lado dela estava o recibo das 11h05.
O das 7h40 desaparecera.
Carlos pegou os dois e guardou.
Saiu novamente.
Caminhou até a praia. Havia poucos pescadores. O mar estava escuro.
Um barco estava virado na areia.
Carlos se aproximou. Passou o dedo pelas letras desbotadas no casco. Reconheceu o nome da mãe.
Quando afastou a mão, as letras pareciam ter sido entalhadas de novo.
Voltou para casa.
A porta estava aberta.
Tinha certeza de que a fechara.
Entrou.
Havia pegadas molhadas no piso. Começavam perto da porta e seguiam até o quintal.
Carlos acompanhou as marcas.
No varal havia uma jaqueta igual à sua.
Uma mancha escura aparecia perto do bolso.
Carlos olhou para a própria jaqueta.
A mancha estava no mesmo lugar.
No bolso da jaqueta do varal havia um papel dobrado.
Carlos abriu.
Volto amanhã.
Reconheceu a própria letra.
A data era a do enterro.
Sentou no degrau do quintal.
Não lembrava de ter escrito aquilo.
Ficou algum tempo olhando para o papel.
O avião atrasou duas horas.
Ele demorou meses.
O cheiro de xampu veio de dentro da casa.
Carlos levantou.
A porta do banheiro fechou-se devagar, sem bater.
Aquele clique suave.
Exatamente como ela fazia.
Carlos olhou para a chave na mão.
Fria.
Guardou o bilhete no bolso.
Olhou o corredor escuro.
Deu um passo à frente.
E entrou na casa.
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