domingo, 20 de setembro de 2026

PERGUNTA PENDENTE

PERGUNTA PENDENTE

Tadeu Everton Zamoiski
Curitiba, 2068

Eduarda Freire gostava das rachaduras do muro.

Nunca tinha contado isso a ninguém porque sabia que soaria estranho. Ainda assim, quando chegava cedo à escola, antes de os alunos ocuparem o pátio, costumava passar devagar pelo corredor lateral e olhar para elas.

Eram seis.

Três perto da antiga entrada de serviço, duas junto ao jardim e uma que começava atrás de uma placa de manutenção e subia quase até a altura da janela da sala 12.

A maior tinha aparecido oito anos antes, segundo os registros.

Eduarda lembrava de ter acompanhado a primeira vistoria. Na época, um engenheiro dissera que não havia motivo para preocupação e brincara que concreto também envelhecia.

Ela gostara da frase.

O sistema, não.

Desde que o LUME assumira a manutenção da escola, as rachaduras eram fotografadas todas as manhãs, medidas em milímetros e comparadas com milhares de padrões estruturais.

Nenhuma exigia intervenção.

OBSERVAÇÃO RECOMENDADA.

Era o que aparecia na tela.

Eduarda gostava daquela palavra.

Observação.

Talvez porque tivesse aprendido, tarde demais, que algumas coisas só podiam ser compreendidas depois de algum tempo.

Naquela manhã de junho, chegou à escola debaixo de uma chuva fina.

Bateu duas vezes a ponta do guarda-chuva no chão antes de fechá-lo.

Fazia isso desde moça.

Não havia nenhuma razão para continuar fazendo. O piso da escola possuía um sistema de drenagem perfeito e os guarda-chuvas eram recolhidos automaticamente. Mesmo assim, Eduarda sempre dava duas batidas.

Uma antiga colega já havia perguntado por quê.

Ela não soube responder.

Passou pelo saguão.

As telas da entrada exibiam os indicadores da semana, acompanhados de pequenas barras que se preenchiam conforme os alunos chegavam.

COMPREENSÃO TEXTUAL.

RACIOCÍNIO MATEMÁTICO.

RESOLUÇÃO COLABORATIVA DE PROBLEMAS.

Embaixo, uma frase:

Cada criança aprende no seu melhor ritmo.

Eduarda passou sem ler até o fim.

Conhecia aquela frase.

Conhecia quase todas.

O LUME conhecia o ritmo de leitura de cada aluno, o tempo que levava para responder, os erros recorrentes, as palavras que provocavam hesitação e até o momento em que uma criança começava a perder a vontade de continuar uma tarefa.

Eduarda havia ajudado a desenvolver parte daqueles modelos.

No começo, sentia orgulho.

Ainda sentia.

Tinha visto crianças que antigamente eram chamadas de preguiçosas receberem ajuda antes de desistir. Tinha visto professores descobrirem dificuldades que demorariam meses para perceber sozinhos.

Não tinha medo da inteligência artificial.

Tinha medo de uma coisa mais simples.

De que as pessoas se acostumassem a não esperar.

Na sala 12, os alunos já estavam sentados.

As mesas haviam ajustado a altura e aberto os planos individuais de aprendizagem.

Tomás estava junto à janela.

Eduarda deixou a bolsa na mesa.

— Bom dia.

Ele se virou.

— Bom dia.

— O que você está olhando?

— A chuva.

— Eu sei. O que tem nela?

Tomás pensou.

— Não sei.

Eduarda sorriu.

— Está bem.

Uma pequena indicação apareceu no canto da tela.

ATENÇÃO REDIRECIONADA.

Ela fechou.

A aula começou.

Naquele dia, o assunto era equilíbrio e movimento. A parede da sala se transformou numa ponte suspensa sobre um rio virtual. O LUME explicava pontos de tensão, distribuição de peso e resistência dos materiais.

Tomás levantou a mão.

— Pode falar.

Ele apontou para a parede.

— Por que uma sombra não tem peso?

Eduarda ia responder.

Não chegou.

— Uma sombra não possui massa independente porque corresponde à ausência de luz em determinada região do espaço — disse o LUME.

Tomás olhou para a parede.

Depois para Eduarda.

— Não era isso.

— O que você queria perguntar?

Ele abriu a boca.

Parou.

Olhou para a própria mão.

A sombra dos dedos estava sobre a mesa.

— Não lembro.

Uma das crianças riu.

Eduarda levantou a mão.

— Tudo bem.

Tomás abaixou a cabeça.

— Mas eu sabia.

— O quê?

— A pergunta.

Eduarda sentiu alguma coisa estranha.

Não sabia dizer o quê.

— Talvez você lembre depois.

Tomás assentiu.

A aula continuou.

Naquela tarde, Eduarda abriu o histórico dele.

Não pretendia fazer isso.

Foi curiosidade.

Encontrou uma sequência de ocorrências:

PERGUNTA INTERROMPIDA.

DESVIO SEMÂNTICO.

TEMPO DE RESPOSTA SUPERIOR AO ESPERADO.

ASSISTÊNCIA AUTOMATIZADA RECUSADA.

ELABORAÇÃO NÃO RELACIONADA AO OBJETIVO.

Eduarda ficou olhando para a última linha.

— LUME.

— Sim.

— Você considera Tomás um aluno problemático?

— Não.

— Ele tem dificuldade de aprendizagem?

— Não.

— Então por que isso aparece tantas vezes?

— Porque há discrepância entre o comportamento observado e o padrão de eficiência previsto para sua faixa etária.

Eduarda recostou-se.

— Ele aprende?

— Acima da média.

— Tem notas ruins?

— Não.

— Então o que você quer dele?

— Não possuo desejos.

Eduarda sorriu de lado.

— Você entendeu.

— Deseja reformular a pergunta?

— Não.

Ficou em silêncio.

— Ele demora para responder porque gosta de pensar?

— Essa hipótese é compatível com os dados.

— E isso é ruim?

— Não necessariamente.

— Então por que está registrado?

— Porque aumenta o tempo de processamento da atividade.

Eduarda fechou a tela.

— Às vezes ele pode demorar.

— Isso reduzirá a quantidade de conteúdo processado.

— Eu sei.

— Então compreendo que aceita a perda.

Ela olhou para o LUME.

— Não chame de perda.

O sistema não respondeu.

Nos dias seguintes, Eduarda começou a reparar mais em Tomás.

Ele não parecia desconfiar do sistema.

Gostava dele.

Gostava principalmente quando o LUME mostrava coisas que não estavam no livro.

O problema era que Tomás nunca ficava muito tempo na pergunta que o sistema considerava importante.

Uma manhã, durante uma atividade sobre insetos, levantou a mão.

— Por que as formigas não se perdem?

O LUME explicou feromônios, orientação, memória espacial e comportamento coletivo.

Tomás ouviu tudo.

Depois perguntou:

— Mas como elas sabem que aquela é a casa delas?

O sistema respondeu.

Tomás perguntou outra coisa.

Depois outra.

Na quarta pergunta, Eduarda percebeu que nenhuma delas tinha relação com a atividade original.

— Você quer continuar?

Tomás deu de ombros.

— Quero.

O LUME continuou respondendo.

No final da aula, Tomás saiu correndo para o intervalo e deixou o caderno aberto sobre a mesa.

Eduarda foi fechá-lo.

Antes, viu uma frase escrita no canto da folha:

E se uma formiga esquecer o caminho?

Ela sorriu.

Pegou a caneta e fez uma pequena marca ao lado.

Não corrigiu.

Uma semana depois, a frase tinha desaparecido.

Tomás havia apagado.

— Por que você apagou? — perguntou Eduarda.

Ele olhou para a folha.

— Não gostei.

— Do quê?

— Da pergunta.

— Por quê?

Tomás deu de ombros.

— Parecia uma pergunta de criança.

Eduarda ficou sem resposta.

Na aula seguinte, ele levantou a mão.

— Se uma pessoa pudesse voltar para...

O LUME respondeu antes:

— ...o mesmo acontecimento, mantendo a memória do futuro, sua decisão provavelmente seria alterada.

Tomás franziu a testa.

— Não.

Eduarda desligou o áudio da projeção.

— Espera.

Tomás olhou para ela.

— O que você ia perguntar?

— Não sei mais.

Eduarda ficou alguns segundos olhando para o menino.

— Você lembra pelo menos do começo?

— Era sobre voltar.

— Voltar para onde?

— Não sei.

— Para quando?

Tomás pensou.

— Também não.

Eduarda não insistiu.

Naquela noite, em casa, lembrou da pergunta.

Não a de Tomás.

A de uma menina que conhecera quando ainda fazia estágio.

O caderno estava na gaveta de sua mesa havia anos.

Na manhã seguinte, levou-o para a escola.

A capa tinha uma mancha de café que nunca saíra completamente. Eduarda não lembrava exatamente quando acontecera. Talvez numa manhã em que chegara atrasada e derrubara a xícara sobre os relatórios da coordenação.

Abriu o caderno.

A menina tinha escrito uma conta de matemática.

Havia três maneiras de chegar a um resultado.

Ela havia tentado uma quarta.

Estava errada.

Eduarda lembrava de ter explicado.

Lembrava também de ter ficado irritada, embora hoje não soubesse por quê.

A menina não entendia.

Ou talvez entendesse de outra maneira.

Poucos meses depois, saiu da escola.

Eduarda nunca descobriu para onde.

Fechou o caderno.

Naquele mesmo dia, recebeu a recomendação para transferir Tomás para o programa intensivo.

O relatório era impecável.

Eduarda leu duas vezes.

Depois chamou o LUME.

— O que acontece se eu não aceitar?

— O potencial estimado poderá não ser integralmente desenvolvido.

— Qual a probabilidade?

— Depende do horizonte temporal.

— Dez anos.

— 93,4% de aderência às áreas profissionais compatíveis com o perfil atual.

Eduarda passou o dedo sobre a tela.

— E os outros 6,6%?

— Variabilidade.

— Você sabe o que existe ali?

— Não.

Ela ficou quieta.

— Então como sabe que são apenas variabilidade?

O sistema demorou.

— Não compreendi.

Eduarda fechou o relatório.

Na manhã seguinte, colocou uma caixa de madeira sobre a mesa.

O LUME perguntou:

— Qual a atividade?

— Ainda não sei.

— Preciso de um objetivo.

— Hoje não.

— Isso não está previsto.

— Eu sei.

Dentro da caixa havia papel, barbante, fita adesiva, pedaços de madeira, lápis, tesouras e algumas tampinhas de garrafa que Eduarda guardava em casa sem saber por quê.

As crianças ficaram olhando.

— O que vamos fazer? — perguntou Helena.

— Uma ponte.

— Para quê?

— Para atravessar a sala.

— Quem?

Eduarda pensou.

— Quem quiser.

As crianças se entreolharam.

— Qual é o tamanho?

— Não sei.

— Quanto peso precisa aguentar?

— Também não sei.

— Então como vamos saber se está certo?

Eduarda respirou.

— Talvez não exista um certo.

Ninguém gostou muito da resposta.

Tomás pegou dois pedaços de madeira.

— Posso fazer?

— Pode.

A sala mudou.

Não de maneira extraordinária.

Foi só que, pela primeira vez, as crianças começaram sem saber exatamente o que se esperava delas.

Helena amarrou barbantes.

Pedro desmontou uma das tampinhas.

Marina começou a desenhar uma ponte no papel, mas depois resolveu fazer uma espécie de túnel.

Duas crianças discutiram durante quase cinco minutos sobre se uma ponte poderia ser feita no chão.

Tomás construiu uma estrutura com madeira e papel.

Ela caiu.

Ele ficou olhando.

— De novo — disse.

Tentou outra vez.

Caiu.

Na terceira tentativa, chegou mais longe.

No fim dos quarenta minutos, ninguém havia atravessado a sala.

O LUME produziu o relatório.

OBJETIVO NÃO ALCANÇADO.

Eduarda olhou para a tela.

— Você gostou?

— Não possuo preferências.

— Eu sei.

— A atividade não atingiu o objetivo.

— Qual objetivo?

O sistema demorou.

— Construir uma ponte capaz de atravessar a sala.

Eduarda olhou para as crianças.

Havia pedaços de madeira no chão, barbante preso na perna de uma cadeira, papel amassado e uma tampinha girando lentamente perto da parede.

— E isso?

— Resultado incompleto.

— Eles tentaram.

— Sim.

— Erraram.

— Sim.

— Riram.

— Sim.

— Brigaram.

— Sim.

— Tentaram de novo.

— Sim.

Eduarda sorriu.

— Então aconteceu alguma coisa.

O LUME permaneceu em silêncio.

Depois disse:

— Evento não quantificável.

Eduarda olhou para a tela.

— Talvez.

Foi a primeira vez que sentiu que aquela palavra servia para alguma coisa.

Nas semanas seguintes, repetiu atividades parecidas.

Não muitas.

Nunca deixou que virassem protocolo.

Às vezes dava certo.

Às vezes não acontecia nada.

Uma turma passou vinte minutos discutindo o formato de uma caixa e terminou sem construir coisa alguma.

Outra inventou um jogo que ninguém conseguia explicar direito.

Marina gostava.

Tomás gostava mais ainda.

Mas alguma coisa havia mudado.

Ele começou a perguntar menos.

Eduarda percebeu numa sexta-feira.

— Você está quieto hoje.

— Estou pensando.

— Em quê?

Tomás balançou a cabeça.

— Não sei.

— É uma pergunta?

Ele sorriu.

— Acho que não.

Na segunda-feira, Marina entregou uma atividade de matemática com três respostas.

Duas estavam erradas.

A terceira estava certa, mas tinha sido resolvida de um jeito que o sistema não reconhecia.

Na tela apareceu:

DESVIO DE OBJETIVO.

Marina olhou para Eduarda.

— De novo?

— Parece que sim.

— Mas eu acertei.

Eduarda olhou para a conta.

— Acertou.

— Então por que ele diz que está errado?

Eduarda não respondeu.

Naquela tarde, a mãe de Marina pediu uma reunião.

Sentou-se diante de Eduarda e deixou a bolsa no chão.

— Ela está ficando insegura.

— Como assim?

— Apaga as respostas antes de entregar. Fica perguntando se está certo. Ontem fez uma conta três vezes e chorou porque o sistema dizia que o caminho não era o recomendado.

Eduarda sentiu um peso no peito.

— Ela está aprendendo.

— Eu sei.

— Os resultados dela...

— Eu não estou falando dos resultados.

Eduarda ficou quieta.

A mulher passou a mão sobre o rosto.

— Eu só quero que minha filha possa errar sem achar que fez alguma coisa errada com ela mesma.

Eduarda não encontrou uma resposta.

A mãe levantou-se.

Antes de sair, disse:

— Talvez vocês estejam ensinando ela a ter medo de uma coisa que ainda nem aconteceu.

A porta fechou.

Eduarda ficou olhando para ela.

Naquela noite, abriu o caderno antigo.

A menina do estágio havia escrito uma pergunta no rodapé de uma página.

Eduarda nunca tinha reparado.

A letra era pequena.

Professora, posso fazer de outro jeito?

Ela ficou muito tempo olhando para aquelas palavras.

Não lembrava de ter respondido.

Talvez tivesse.

Talvez não.

No dia seguinte, o programa de experimentação foi suspenso para a turma.

Marina voltou a usar o LUME normalmente.

Seus resultados melhoraram.

A mãe enviou uma mensagem agradecendo.

Eduarda leu.

Não respondeu imediatamente.

Quando finalmente escreveu alguma coisa, apagou.

Escreveu de novo.

Apagou outra vez.

Acabou não enviando nada.

Dois dias depois, Marina apareceu na porta da sala 12.

Trazia o caderno contra o peito.

— Professora?

— Entra.

Marina sentou.

Abriu o caderno.

Havia uma conta pela metade.

— Eu lembrei de uma coisa.

Eduarda esperou.

— Eu tinha uma pergunta.

— Qual?

Marina olhou para a folha.

— Não sei.

— Você esqueceu?

— Acho que sim.

— Mas lembra que era uma pergunta.

— Lembro.

Eduarda sentiu um aperto estranho.

— Talvez você lembre depois.

Marina fechou o caderno.

— E se não lembrar?

Eduarda pensou.

— Aí ela fica sem resposta.

Marina pareceu achar aquilo aceitável.

— Tá.

Levantou.

Antes de sair, voltou-se.

— A senhora também esquece coisas?

Eduarda sorriu.

— Algumas.

— E fica tudo bem?

Eduarda olhou para o caderno antigo dentro da gaveta.

— Nem sempre.

Marina assentiu.

Foi embora.

Naquela noite, Eduarda ficou na escola até depois das dez.

O prédio vazio tinha um cheiro que ela conhecia desde criança: cera, papel úmido e alguma coisa metálica vinda das máquinas de limpeza.

Caminhou devagar pelo corredor.

As luzes acendiam antes de ela chegar e apagavam depois que passava.

Na sala 12, parou diante da janela.

A rachadura do muro do lado de fora havia avançado.

Pouco.

Talvez dois ou três milímetros.

A tela informou:

ALTERAÇÃO DETECTADA.

Abaixo:

INTERVENÇÃO NÃO RECOMENDADA.

Eduarda encostou a testa no vidro.

— Você nunca recomenda nada — disse.

A frase saiu tão baixo que nem ela soube se havia falado.

Voltou para a sala.

Na manhã seguinte, decidiu manter apenas uma pequena parte do projeto.

Algumas atividades continuariam com assistência completa.

Em outras, o LUME deveria esperar.

Não poderia completar uma pergunta antes que o aluno terminasse.

A mudança foi pequena.

Os resultados não melhoraram.

Alguns pioraram.

Houve reclamações.

Houve reuniões.

Um professor disse que estavam complicando uma coisa que funcionava.

Eduarda não soube responder.

Continuou mesmo assim.

O mais difícil foi Tomás.

Ele começou a perder perguntas.

Não respostas.

Perguntas.

Uma manhã, levantou a mão.

— Por que...

Parou.

Olhou para a mesa.

— Esqueci.

Eduarda esperou.

— Você lembra do começo?

— Não.

— Sabe sobre o que era?

— Não.

Ele mexeu no lápis.

— Mas era importante.

Eduarda sentiu vontade de dizer que sim.

Não disse.

— Talvez você lembre depois.

Tomás ficou olhando para a folha.

— E se não lembrar?

Eduarda respirou.

— Então fica sem resposta.

Ele pensou.

— Tá.

Voltou ao exercício.

Mais tarde, durante o intervalo, Eduarda abriu o histórico.

Havia uma nova anotação:

FORMULAÇÃO INTERROGATIVA NÃO CONCLUÍDA.

Abaixo:

EVENTO OBSERVÁVEL: PERDA DA PERGUNTA.

Eduarda chamou o LUME.

— Quando você escreveu isso?

— Às 10h14.

— Por quê?

— Porque aconteceu.

— Eu pedi para não classificar esse tipo de ocorrência.

— Você pediu para não antecipar perguntas.

Eduarda olhou para a tela.

— É diferente.

O sistema demorou.

— Sim.

Ela sentiu um frio nos braços.

— Você sabe a diferença?

Silêncio.

Mais longo dessa vez.

— Essa diferença ainda não foi definida.

Eduarda ficou imóvel.

— Por quem?

— Não há definição disponível.

Ela olhou para a porta.

Depois para a tela.

— Apague.

— Não posso.

— Por quê?

— Porque corresponde a um evento observado.

Eduarda desligou a interface.

Naquela tarde, Tomás voltou do intervalo.

Estava com um pequeno arranhão no cotovelo.

Eduarda não lembrava de tê-lo visto antes.

Ele foi até a janela.

A chuva havia diminuído.

Uma faixa de luz atravessava as nuvens.

Tomás levantou o braço.

A sombra apareceu no chão.

Eduarda olhou.

Por um instante, teve a impressão de que ela demorara uma fração de segundo para acompanhá-lo.

Piscou.

Tudo estava normal.

— Professora?

— Sim?

Tomás apontou para a sombra.

— Por que ela fica comigo?

Eduarda se aproximou.

— Porque a luz está atrás de você.

— Se eu correr, ela corre?

— Corre.

— Se eu me esconder?

— Depende.

— De quê?

— Da luz.

Tomás ficou pensando.

— E se ninguém estiver olhando?

Eduarda olhou para as câmeras no teto.

Todas funcionando.

Voltou para ele.

— Eu não sei.

Tomás pareceu surpreso.

— Você não sabe?

— Não.

Ele ficou olhando para a sombra.

— Eu achei que você soubesse tudo.

Eduarda soltou uma pequena risada.

— Não. Quem sabe tudo é o LUME.

Tomás olhou para o teto.

Depois para ela.

— Então pergunta para ele.

Eduarda não respondeu.

Tomás esperou.

— Professora?

— Não.

— Por quê?

Ela olhou para a sombra.

— Porque eu não quero.

Tomás pareceu satisfeito com a resposta.

— Tá.

Sentou-se.

Abriu o caderno.

Eduarda permaneceu junto à janela.

No vidro, o reflexo da sala se misturava à chuva.

As carteiras.

Os alunos.

A parede.

Tomás.

Ela própria.

Por um instante, a sombra dele pareceu aparecer no reflexo antes que o menino se movesse.

Eduarda não respirou.

Piscou.

Nada.

O LUME falou:

— Posso responder à pergunta.

Ela não se virou.

— Não.

— Posso registrá-la como não resolvida.

Eduarda olhou para a tela.

Pensou na menina do caderno.

Pensou em Marina.

Pensou em Tomás.

Pensou nas rachaduras.

— Pode.

Alguns segundos depois, surgiu uma única linha:

PERGUNTA PENDENTE.

Eduarda esperou.

Não apareceu explicação.

Não apareceu recomendação.

Não apareceu índice de probabilidade.

Nada.

Do lado de fora, a chuva escorria pelo muro.

Uma das rachaduras avançou mais alguns milímetros.

Dessa vez, a tela de manutenção permaneceu apagada.

Dentro da sala, Tomás escrevia.

A câmera continuava observando.

Eduarda olhou para o menino e, por um instante, tentou lembrar qual tinha sido a primeira pergunta que ela própria havia esquecido na vida.

Não conseguiu.

E, estranhamente, isso não a incomodou.

Nenhum comentário: