quinta-feira, 24 de setembro de 2026

AS MENINAS DA LIVE

AS MENINAS DA LIVE
Crônicas de uma internet ao vivo

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Minha mãe abriu uma live no ano passado. Num domingo, depois da missa.
Ela tinha acabado de fazer o cabelo. Aquele cabelo de domingo, duro de laquê, que ela chama de "cabelo de ir à missa". Me chamou para segurar o celular na altura do rosto dela. Não sabia onde ficava a câmera frontal. Achava que estava tirando foto.
Ficou quarenta minutos falando com a tela. Sete pessoas assistiram. Duas eram minhas tias. Uma era eu, no quarto do lado, com o celular na mão, sem coragem de sair. As outras quatro eu nunca soube quem eram.
No fim, ela perguntou:
— Já pode desligar?
Falei que sim.
Ela desligou. Suspirou. Ficou olhando para a tela preta um tempo. Depois disse:
— É engraçado. A gente fica ali, falando sozinha. E parece que tem alguém.
Eu não soube o que responder.
Depois ela falou que a vizinha do 302 estava com o neto novo na foto do perfil, um menino meio feio, e que a coitada não tinha noção. Falou mal da vizinha uns dez minutos. Eu escutei. Não falei nada.
Ela é assim. Fala uma coisa bonita, fala uma coisa feia. Não sei qual das duas é mais verdadeira. Acho que as duas.
Comecei a assistir a lives por causa daquele silêncio depois que a câmera apaga. Ainda estou entendendo.
Tem lugares onde as pessoas entram para conversar.
Tem lugares onde entram para vender alguma coisa.
Tem lugares onde entram para não ficar sozinhas. E não contam isso para ninguém.
E tem as lives.
A câmera liga. O ring light acende. O filtro suaviza. O microfone pega a respiração. Inclusive aquela respiração curta de quem subiu três lances de escada porque o elevador estava em manutenção.
O contador aparece no canto.
Aí começa.
"Cheguei."
"Linda."
"De onde você é?"
"Mostra o look."
"Você é casada?"
"Quanto custa?"
"Você acredita em Deus?"
"Meu freezer está fazendo um barulho estranho."
Em poucos segundos, uma sala de apartamento vira salão de beleza, consultório sentimental, loja, confessionário, tribunal e suporte técnico da Brastemp. Tudo ao mesmo tempo.
As pessoas entram para assistir. As influenciadoras entram para serem vistas. E o algoritmo fica no meio, contando. Que nem contador de condomínio, que anota tudo num caderninho e nunca esquece quem não pagou.
Ninguém sabe o que ele quer.
Mas todo mundo dança conforme a música. Inclusive quem jura que está só de passagem.
1. A INFLUENCER QUE ERA ESPECIALISTA EM TUDO
Jéssica ligou a live às 8h05. Filtro Pele de Porcelana no máximo. Ring light do Mercado Livre, três parcelas de R$ 47,90. A última atrasou quatro dias.
O filho tinha dormido às 7h20. Cinco anos, resfriado, xarope de sempre. Ela achou que ia ter tempo.
— Oiii, meus amores! Hoje a gente vai conversar e fazer uma make bem levinha para o dia a dia.
O chat começou a subir.
@gabi_viana: Diva!
@lucas_33: Qual é o batom?
@marcos_agro: Jéssica, o que você acha da crise nos relacionamentos modernos?
Jéssica parou o pincel no ar.
— Relacionamento hoje exige maturidade emocional, responsabilidade afetiva, letramento dinâmico. Se a pessoa não soma, você subtrai.
Falou e ficou pensando se tinha dito aquilo mesmo. Decidiu que sim. Era bonito.
@tiago_invest: E mineração de Bitcoin na Tailândia? Ainda vale a pena?
— Diversificação. Não adianta botar tudo na mesma carteira.
Ela nem sabia direito o que era carteira digital. Soou bem.
@agro_top: Você entende de rotação de cultura de milho?
— Um pouco.
Pensou no aluguel atrasado, no cartão, no leite em pó que acabou de manhã. Respondeu:
— A questão do solo é tipo a pele. Se a base está seca, não vinga.
Três aplausos. Uma espiga de milho.
@roberto_mecanico: Minha Brastemp Frost Free está vazando água por baixo e fazendo um estalo no motor. O que pode ser?
Jéssica parou.
O filtro deu uma piscada. Por um segundo apareceu um poro na bochecha dela, do lado esquerdo. Um poro que ela conhecia desde os catorze anos.
— Amor, eu faço conteúdo.
@roberto_mecanico: Mas você falou que entende de tudo.
— Dentro da minha bolha.
@gabi_viana: Qual é o seu nicho, Jé?
Silêncio.
Do quarto do lado veio uma tosse.
Ela ouviu. Fingiu que não.
— Meu nicho é a vida real e suas ramificações.
A live caiu três minutos depois.
Desligou tudo e correu para o quarto. O menino estava com febre. Deu o remédio. Ficou ali até ele dormir de novo. Sentiu o peso dele no colo, o calor. A camiseta dela ficou molhada de suor.
Na manhã seguinte, postou o corte. Editou a tosse.
"Autoridade digital não é saber tudo. É saber conectar tudo."
Quatrocentas mil visualizações.
Nos comentários, alguém perguntou da Brastemp.
Ela respondeu com um emoji de coração.
@user_777: Alguém sabe se a Jéssica tem irmã?
Ninguém respondeu.
2. ARRUME-SE COMIGO
Larissa entrou na live de pijama velho, camiseta com um furo no ombro.
— Gente, hoje vai ser histórico. Vocês vão se arrumar comigo do zero.
Começou às 7h20.
Hidratante. Primer. Corretivo. Base. Contorno. Pó. Blush. Iluminador. Delineador. Cílios. Cabelo. Babyliss. Perfume. Troca de roupa. Nova troca. Terceira troca.
O delineador do olho esquerdo ficou mais grosso que o do direito. Refez. O direito ficou mais grosso que o esquerdo. Refez de novo. Queimou o dedo. Falou um palavrão que o microfone pegou. Pediu desculpas. Continuou.
O pé começou a doer por causa do salto. Tirou. Colocou de novo.
Às 22h, apareceu diante da câmera.
Estava impecável.
— E aí, família?
O chat explodiu.
DEUSA.
PERFEITA.
ENTREGOU TUDO.
@pedro_021: Vai sair para onde?
Larissa sorriu.
— Para lugar nenhum.
Pausa.
— Fiz para vocês.
@marcelo_pijama: A gente está assistindo da cama. De cueca. Comendo pão com ovo.
Larissa perdeu o sorriso.
Olhou para o contador. Para o vestido. Para o pão com ovo que ela não estava comendo.
Desligou.
Ficou sentada uns dez minutos. A maquiagem pesando. O vestido apertando. Tirou os sapatos de vez.
Nova notificação.
Larissa iniciou uma transmissão ao vivo.
Estava de pijama de ursinho. Sem maquiagem. Cabelo preso de qualquer jeito.
Comia biscoito de polvilho. O biscoito estava seco. Ela comeu mesmo assim.
— Voltei.
A audiência bateu o recorde da semana.
"Agora sim, autêntica!"
Larissa leu, sorriu, comeu outro biscoito.
@marcelo_pijama: Está vendo? Assim é melhor.
Ela continuou comendo.
Depois ela abriu o perfil dele. Tinha foto com a esposa. Dois filhos. Um de uns sete anos.
Ela ficou olhando a foto dele um tempo. Não sabia por quê. Fechou o perfil.
3. A ECONOMIA DA CULPA
Bianca tinha descoberto uma coisa sobre o público.
As pessoas gostam de dar presente. Mas gostam mais ainda de se sentir culpadas por não dar.
— Boa noite, gente.
Olhou para o contador.
— Nossa. Hoje está tão parado.
Esperou.
— Acho que vocês enjoaram de mim.
Mais alguns segundos.
— Talvez seja melhor eu fechar.
Uma rosa apareceu.
— Obrigada, Lucas.
— Pelo menos uma pessoa ainda lembra que eu existo.
Outro presente.
— Um chapéu.
O chapéu era virtual. O dinheiro, não.
— Bonito.
Pausa.
— A gente passa maquiagem, trabalha, abre live cansada e ganha um chapéu.
Dois corações. Uma coroa. Outro presente.
@felipe_sp: Está muito parado.
Bianca suspirou.
— Está mesmo.
Felipe mandou um presente caro. Do tipo que paga a conta de luz.
— Agora você mandou.
Mais três apareceram.
@renato_realista: Vocês perceberam que estão mandando presente só para ver ela reclamar?
Silêncio.
Bianca olhou para o saldo.
R$ 4.200.
Quarenta minutos.
O estômago dela estava vazio desde o almoço.
— Monetização por indignação.
— Vou usar em e-book.
@renato_realista: Então chora.
Bianca pensou no aluguel. No cartão. No cheque especial em R$ 8.432,17. No curso de "Como Monetizar Suas Emoções em 7 Passos" que ela nunca terminou.
O pai votou no Bolsonaro. Ela votou no Lula. Nunca mais se falaram.
Chorou.
A audiência dobrou.
Depois, na cama, fez as contas no bloco de notas. Digitou os números. Apagou. Digitou de novo.
Dormiu.
4. ROBERTO
Roberto entrava toda noite na live da Larissa.
Cinquenta e oito anos. Pressão alta. Hérnia de disco que doía mais no frio. Casamento de trinta e um anos que ele descrevia, quando bebia, como "uma sociedade".
A hérnia doía naquela noite. Tomou um comprimido. Não adiantou.
Nunca aparecia. Nunca mandava foto. Nunca mandava presente.
Só escrevia.
@Roberto_Silva_58: Princesa.
@Roberto_Silva_58: Você é o sol do meu dia.
@Roberto_Silva_58: Você merece o mundo.
Ele olhava as mãos dela. Unha feita. Pele lisa. Às vezes sentia uma coisa que não admitia para ninguém.
Não era desejo. Bom. Era um pouco. Mas ele não admitia.
Ele votou no Lula. A esposa, no Bolsonaro. Nunca discutiram. Só não falavam do assunto.
Numa noite, Larissa perguntou:
— Roberto, você é casado?
Demorou.
@Roberto_Silva_58: Sou.
— Sua esposa sabe que você fica aqui toda noite me chamando de princesa?
Quarenta segundos.
@Roberto_Silva_58: Agora sabe.
— Como assim?
Uma nova conta entrou na live.
@Esposa_Do_Roberto_Oficial
O chat parou.
@Esposa_Do_Roberto_Oficial: Roberto.
Segunda.
@Esposa_Do_Roberto_Oficial: Larga esse celular.
Terceira.
@Esposa_Do_Roberto_Oficial: E vem pegar suas coisas na calçada.
Roberto saiu da live.
Larissa ficou olhando para a tela.
— Senhora, seja bem-vinda.
Ninguém respondeu.
— O treino de hoje é para glúteos.
@user_anonimo: Roberto não saiu da live. Roberto saiu do casamento.
Larissa leu. Não conseguiu segurar o riso.
Um vizinho do andar de cima bateu na parede. Ninguém entendeu por quê. Nunca mais bateu.
Roberto ficou sentado na sala. A esposa tinha ido dormir. Sem gritar. Sem chorar. Antes de fechar a porta do quarto, só disse:
— Eu sabia.
Ele ficou ali. Com o celular na mão.
Não abriu mais nenhuma live naquela noite.
Nem na seguinte.
Na quarta, abriu.
5. DORA
Dora tinha sessenta e um anos. Pressão alta, artrose no joelho direito. Tomava Losartana de manhã e à noite.
Nunca tinha entrado numa live na vida. Sabia o que era porque a filha tinha tentado ser criadora de conteúdo em 2023, depois desistido, depois arrumado emprego na Caixa.
Do que Roberto fazia, Dora sabia desde a Páscoa de 2024. Não porque ele escondesse bem. Porque ele não escondia. Mas porque ela tinha decidido não ver.
Uma noite, o celular dele apitou. Ela olhou de lado. Viu o nome.
Larissa | Make & Glow
Aí ela viu.
Não gritou.
Naquele momento entendeu uma coisa que não tinha nada a ver com Larissa. Ela e Roberto não conversavam havia muito tempo. A casa era silenciosa. E ela também tinha uma conta. Não em rede social. Numa dessas lojas de roupa de senhora, dessas com nome de flor. A vendedora já conhecia ela de vista. Ficava horas olhando vestido. Nunca comprava. Nunca contava para ninguém.
Ela não conseguia sentir o cheiro do café direito. Fazia dois anos que o nariz tinha entupido.
Naquela noite, entrou na live. Digitou as três frases devagar, com o dedo grosso, errou uma palavra, corrigiu. Sem saber que estava sendo vista.
Depois foi dormir.
No dia seguinte, acordou com trezentas notificações.
Não entendeu. Achou que era engano.
A filha ligou às 7h da manhã:
— Mãe. A senhora está viralizando.
— Estou o quê?
— Viralizando, mãe. A senhora é meme.
Dora ficou em silêncio.
— Mãe?
— E o que é que se faz com isso?
A filha não soube responder.
Dora fechou o telefone. Fez café. As mãos tremiam um pouco.
Roberto estava na cozinha, com a camisa do avesso, olhando para ela. Ela não deixou ele falar.
— Bebe teu café.
Ele bebeu.
Naquela noite, dormiram na mesma cama. Sem se tocar.
Na quarta, Dora abriu uma conta.
Só para olhar.
Ficou três horas. No fim, fechou.
Um mês depois, a filha perguntou se ela não queria fazer uma live. Só para conversar.
Dora fez aquele som que as velhas fazem quando acham graça de alguma coisa.
— Estou velha para essas coisas.
Mas na semana seguinte, Dora voltou à loja de roupa de senhora. Ficou olhando um vestido azul. Custava R$ 289,90. Ela tinha R$ 312,00 na conta. Não comprou.
Naquela noite, antes de dormir, abriu a conta de novo. Seguiu a Larissa. Seguiu a filha. Seguiu a tia Márcia. Seguiu uma vizinha que postava foto de comida.
Roberto nunca soube.
6. PATRÍCIA
Patrícia tinha 8.102 seguidores.
Se cada um desse um real, daria oito mil. Se cada um desse dez, daria oitenta mil. Ela fazia essa conta todo dia.
No sábado, colocou os óculos escuros enormes, passou batom vermelho e foi ao shopping. Andou pelo corredor do meio, devagar, parando nas vitrines, olhando para os lados, esperando alguém. Ninguém veio.
Entrou na cafeteria. Sentou no centro do salão, não numa mesa de canto. Tirou os óculos lentamente, como se tivesse plateia. Não tinha.
O garçom se aproximou.
— O que a senhora gostaria?
Patrícia sorriu.
— Pode tirar uma foto comigo se quiser.
— Da senhora?
— Sim.
— A senhora quer foto do cardápio?
— Não.
Abriu o celular. Começou uma live.
— Gente, vocês não têm noção do que está acontecendo aqui. As pessoas simplesmente fingem que não me conhecem.
@marcelo_00: Você é famosa?
— Sou criadora de alto impacto.
@marcelo_00: Famosa onde?
— Na internet.
@marcelo_00: Qual internet?
@marcelo_00: A minha não é.
Ela encerrou. Pagou o café com o cartão da mãe. Deixou dois reais de gorjeta, porque a mãe mandou. Voltou para casa de ônibus. Sentou no sofá.
A mãe entrou na sala.
— Que cara é essa?
— Nada.
— Está triste?
— Não.
A mãe sentou do lado, com o joelho estalando.
— Tua tia Márcia está com quarenta seguidores. Posta foto de bolo. Faz sucesso.
— Mãe.
— O quê?
— Nada.
Naquela noite, Patrícia ficou no quarto, deitada no escuro, com o celular no rosto. Foi ver quem a mãe seguia.
A mãe seguia trinta e duas pessoas. Trinta eram de bolo. Uma era da tia Márcia. Uma era da igreja.
A mãe não seguia ela.
A luz do celular batia no teto.
No dia seguinte, publicou uma foto em preto e branco.
"Preciso me afastar das redes para reencontrar minha essência."
Perdeu um seguidor.
Ela mesma.
Voltou quarenta minutos depois.
Na semana seguinte, a mãe mandou uma foto no grupo da família. Bolo de cenoura com cobertura de chocolate. A tia Márcia tinha feito. Quarenta e três seguidores agora.
Patrícia olhou. O bolo estava bonito. A cobertura brilhava. Forma redonda com buraco no meio, do jeito que a mãe fazia. A mãe usava granulado em cima, não chocolate granulado, aquele de confeitaria.
Ela lembrou que a mãe fazia bolo assim quando ela era criança. De cenoura, com cobertura de chocolate, granulado em cima. Fazia para ela.
Fazia.
Deixou o celular na mesa. Foi fazer um café. O café estava amargo. Ela bebeu mesmo assim.
Minha mãe fazia bolo assim. De cenoura, com granulado em cima. Não faz mais. Não sei por quê.
7. O DESABAFO
Marina começou a live chorando.
Ou parecia estar chorando.
— Eu não queria fazer isso.
O chat imediatamente começou a perguntar quem tinha feito alguma coisa.
— Hoje eu descobri que nem todo mundo torce por mim.
"Conta."
"Estamos com você."
"Não liga para invejosa."
— Ontem eu publiquei um tutorial de maquiagem.
Pausa.
— E uma pessoa escreveu uma coisa horrível.
O chat ficou quieto.
Marina mostrou o comentário.
"Seu delineador está torto no olho esquerdo."
@paulo_sincero: Mas está mesmo.
Marina parou.
— Moderador.
O comentário sumiu. Depois, o perfil.
@outro_usuario: Banir não vai endireitar o traço.
Marina encerrou.
Passou o resto da noite na frente do espelho. Refazendo o traço do olho esquerdo.
Cinco vezes. Seis. Sete.
Os olhos ardiam. O cotovelo doía de tanto apoiar na pia.
Ficou bom.
Apagou a luz.
8. O MODERADOR
Cauã. Vinte e três anos. Mora com a avó. Faculdade de Sistemas à noite. De dia, modera quatro lives.
Não aparece em nenhuma.
Moderar, na internet, é que nem ser segurança de uma festa que ninguém sabe que existe.
Sabia quem voltava com outra conta.
Sabia quem pagava presente para ofender.
Sabia quem chorava em live para tirar dinheiro.
Sabia quem chorava em live porque estava triste de verdade.
Esse era o mais difícil.
Numa noite, numa live da Bianca, apareceu um comentário que ele nunca esqueceu.
Uma mulher, cinquenta e poucos anos:
"Eu estou sozinha faz dois anos. Não tenho ninguém para conversar. Hoje vi sua live por acidente. Fiquei uma hora. Não tinha ninguém. Agora tem. Obrigada."
Cauã ficou olhando aquilo.
Não ia banir. Não tinha por quê.
Mas não sabia o que fazer.
Passou o número do CVV. Depois apagou. Achou que era invasivo.
Pensou de novo. Colocou de volta.
Apagou.
No fim, só curtiu.
E continuou moderando.
Na faculdade, o pessoal chamava ele de "moderador de merda". Ele não respondia.
Numa terça, estava moderando uma live qualquer. Apareceu um usuário:
"Eu não aguento mais."
Cauã apagou.
Depois se arrependeu. Procurou o perfil. Não achou. Sumiu.
Ficou três dias sem dormir direito. A avó perguntou se ele estava doente. Ele disse que não.
Ainda modera.
Mas agora tem uma regra. Quando aparece um comentário que dói, ele para. Fecha o notebook.
9. O ESPECTADOR SILENCIOSO
O nome dele ninguém sabe.
Chamemos de Antônio.
Quarenta e quatro anos. Motorista de aplicativo. Casado. Dois filhos. Mora em Osasco.
Toda noite, depois da última corrida, abre uma live. Só uma. Sempre a mesma. Uma menina de Santa Catarina que faz unha e fala de bolo.
Nunca comenta. Nunca manda presente. Nunca curte.
Só assiste.
Fica trinta, quarenta minutos olhando a moça fazer unha e falar da vida. Ela fala de tudo. Do cachorro. Da mãe. Do vestido que comprou e não serviu. Do sonho de conhecer o Egito.
Antônio não conhece o Egito. Nunca viajou de avião.
Mas quando ela fala, ele fecha os olhos e imagina.
O banco do carro está gasto. O volante, liso. Ele ganha R$ 1.847,00 por semana, em média. Se trabalhar todo dia.
Nunca vai contar isso para ninguém.
Não é nada. É uma coisa que ele faz. Só.
Um dia, a moça falou na live:
— Gente, eu queria agradecer. Tem um moço que assiste todo dia e nunca fala nada. Eu vejo o nome dele. Nunca comenta, nunca curte, mas eu sei que ele está ali.
Antônio parou.
— Se ele está me vendo agora, eu queria dizer: obrigada. Às vezes eu estou cansada e não quero abrir a live. Mas eu abro porque eu sei que ele vem.
Antônio fechou o celular.
Ficou parado no carro, na garagem do prédio.
Chorou.
Sem saber exatamente por quê.
No dia seguinte, comentou pela primeira vez.
"Boa noite."
Foi tudo.
A moça leu, sorriu, e disse:
— Boa noite, moço.
Ele nunca mais escreveu nada.
Mas continuou assistindo.
10. A PLANILHA
Carolina começou a desconfiar de Paulo.
Ele entrava em todas as lives.
Sempre a mesma frase.
"Você é diferente."
"Você é especial."
"Você é a mulher mais incrível daqui."
Carolina criou um perfil falso. Entrou em outras lives.
Paulo estava lá. Sempre. Mesmas frases. Mesma pontuação. Mesmos emojis.
Naquela noite, Carolina perguntou:
— Paulo, você fala isso para todas?
@Paulo_Sempre_Aqui: Falo.
— Então eu não sou especial?
@Paulo_Sempre_Aqui: É.
— Por quê?
@Paulo_Sempre_Aqui: Você é a número 38.
— Número 38 de quê?
@Paulo_Sempre_Aqui: Da minha planilha.
O chat começou a rir.
— Você tem uma planilha?
@Paulo_Sempre_Aqui: Tenho.
— Para quê?
@Paulo_Sempre_Aqui: Engajamento afetivo.
Carolina riu. Riu tanto que o delineador escorreu. O olho ardendo.
— Você está falando sério?
@Paulo_Sempre_Aqui: Muito.
— E qual é o critério?
@Paulo_Sempre_Aqui: Quem responde.
Carolina parou de rir.
— Então o que você procura não é uma mulher.
@Paulo_Sempre_Aqui: Não.
@Paulo_Sempre_Aqui: Procuro resposta.
Carolina ficou uns segundos sem saber o que dizer.
— Você está no lugar certo.
Paulo não respondeu.
Mas naquela noite, pela primeira vez, não saiu da live.
Ficou. Só ficou.
Carolina dormiu pensando nele. Não com paixão.
Naquela noite, ela abriu o bloco de notas do celular. Criou uma lista. Nomes. Datas. Quem respondeu. Quem não respondeu. Quem mandou presente. Quem só olhou.
Fechou o bloco. Não salvou.
Dormiu.
11. O CREME
Fernanda fazia um anúncio de um sérum facial.
— Gente, esse produto mudou minha pele.
A pele parecia plástico de tão lisa.
— A tecnologia suíça penetra profundamente e restaura a barreira da pele.
@luiz_99: Quanto você ganhou?
Fernanda ignorou.
— É um tratamento revolucionário.
@maria_cosmeticos: Minha tia vende cosméticos há 35 anos. Disse que isso é vaselina perfumada.
Fernanda parou.
O creme branco continuou espalhado na bochecha. Brilhava.
O chat começou a perguntar pelos ingredientes.
"Mostra o rótulo."
"Lê a composição."
— Gente, vamos manter o foco.
@pedro_12: O foco agora é saber se é vaselina.
Fernanda encerrou.
No dia seguinte, abriu outra.
"HOJE EU VOU CONTAR TUDO."
A audiência foi a maior da carreira.
Ela passou quarenta minutos falando sobre transparência.
Não mencionou a vaselina.
Nos comentários, alguém escreveu: "Contou tudo, menos o que a gente queria."
Fernanda curtiu.
Ela ganhou R$ 3.200,00 naquela live.
Dormiu.
12. A LIVE QUE NÃO TERMINAVA
Renata abriu a transmissão às 20h.
— Vou ficar só um pouquinho.
Às 22h, alguém mandou um presente grande.
— Não posso sair agora.
À meia-noite, ainda estava lá.
Às 3h da manhã, falava devagar.
Às 5h, a maquiagem tinha perdido a batalha.
O céu começou a clarear atrás da janela.
— Gente...
Ninguém respondeu.
— Está amanhecendo.
@pedro_madruga: Você ainda está na mesma live?
09:12:44
— Não é possível.
@pedro_madruga: Eu dormi.
@carol_sono: Eu também.
@ana_misericordia: Você ainda está aí.
Renata ficou quieta.
— Acho que eu devia dormir.
O chat começou a concordar.
"Vai."
"Desliga."
"Chega."
"Você precisa descansar."
"Isso virou live ou vigília?"
Renata sorriu.
— Só mais um presente.
Ninguém mandou.
Um minuto. Dois. Três.
Renata esperou.
Nada.
Desligou.
Ficou sentada na cadeira, olhando para a tela apagada.
Dormiu catorze horas.
Na noite seguinte, abriu live de novo.
Às 20h em ponto.
13. NEIDE
Neide tinha quarenta e nove anos. Fazia live desde 2021.
A câmera ligava às 19h. Ring light do Mercado Livre, três anos de uso, um fio já descascado. Ela sentava na cadeira da cozinha e falava.
Ninguém entrava.
O contador ficava em zero a noite inteira.
— Boa noite, gente. Hoje eu vou fazer um bolo de fubá.
Falava por uma hora. Duas. Na terça passada falou até meia-noite. O marido já tinha dormido. O cachorro latiu uma vez e parou.
Ninguém viu.
Mostrava a massa. Mostrava o forno. Uma vez, em 2023, queimou a mão na assadeira e falou um palavrão que ficou gravado. Nunca apagou. Não tinha por quê.
Um dia uma pessoa entrou. Ficou três minutos. Saiu. Neide falou mais rápido depois. Achou que era plateia. Era engano. A pessoa tinha entrado por acidente, procurando outra live.
Ela continuou.
Um dia o filho entrou no quarto.
— Mãe, para que isso?
— Para quê o quê?
— Essa live. Ninguém vê.
Neide olhou para ele.
— Eu vejo.
O filho saiu. Bateu a porta. Ela ouviu o barulho da TV na sala depois. Novela das nove.
Ela continuou.
Mostrou o bolo. Cortou. Comeu um pedaço.
O contador continuou em zero.
Ninguém viu.
Desligou. Guardou o resto na geladeira.
14. A LIVE QUE NINGUÉM ABRIU
Ela ia abrir a live às 20h.
Não abriu.
Ficou olhando o celular.
Depois foi dormir.
15. LÚCIA
Tinha uma lenda na internet.
Ninguém sabia quando começou. Não tinha data. Não tinha origem.
Uma menina. Sem nome. Sem rosto. Sem live gravada.
Aparecia às 21h17.
Às vezes em terça. Às vezes em quinta. Nunca duas noites seguidas.
Bianca tinha ouvido falar.
@misterio_net: "Você conhece a Lúcia?"
— Lúcia quem?
@misterio_net: "A menina que não fala."
Bianca riu.
— Lenda urbana.
@misterio_net: "Dizem que ela aparece para quem precisa."
— Precisa de quê?
@misterio_net: "De alguém que fique."
Bianca ficou em silêncio. Depois voltou ao assunto. Maquiagem. Unha. Cabelo.
Mas aquilo ficou.
Cauã também ouviu falar. Num grupo de moderadores:
"Vocês já moderaram a Lúcia?"
Ninguém tinha.
"Ela não tem chat. Ou tem. Não sei. As mensagens somem."
Antônio ouviu por acidente. Uma noite, a moça de Santa Catarina comentou:
— Gente, vocês conhecem a Lúcia? Eu vi um vídeo sobre ela. Dizem que ela faz live e ninguém nunca gravou. Dizem que é um experimento. Dizem que é um anjo.
Antônio anotou a data na cabeça.
21h17.
Ficou esperando.
Neide também ouviu. Numa live dela, o contador subiu para um.
Uma pessoa entrou. Ficou três minutos. Saiu.
Não escreveu nada.
Mas por três minutos, o contador não estava em zero.
Neide falou mais rápido.
Depois a pessoa saiu.
Ela continuou.
Às 21h17 de uma terça-feira, uma notificação apareceu no celular de algumas pessoas.
@menina_da_live iniciou uma transmissão ao vivo.
Ninguém conhecia o perfil.
A foto era de uma garota diante de um ring light. Tremida. Como se tirada às pressas. Dava para ver um pedaço de parede descascada atrás.
O nome dizia apenas:
Lúcia.
Trezentas pessoas entraram.
Depois mil.
Depois três mil.
Lúcia não falava.
Sentava diante da câmera.
Olhava para a tela.
@joao_pobre: Oi, Lúcia.
@carolzinha: Você está bem?
@mauro_77: Alguém conhece ela?
Lúcia continuava em silêncio.
Um presente apareceu.
Depois outro.
@renato_realista: Pelo menos ela não está fingindo que está feliz.
Lúcia levantou os olhos.
Sorriu.
Um sorriso pequeno.
— Obrigada por ficarem.
O chat explodiu.
"Estamos aqui."
"Você não está sozinha."
"Fica com a gente."
Lúcia leu tudo. Leu devagar.
— Eu sei.
A transmissão terminou.
No dia seguinte, ninguém encontrou o perfil.
Não tinha gravação. Não tinha foto. Não tinha seguidores.
Aí, às 21h17, uma nova notificação apareceu.
@menina_da_live iniciou uma transmissão ao vivo.
Milhares de pessoas entraram.
A câmera estava ligada.
O ring light aceso.
A cadeira vazia.
Lúcia não estava lá.
O chat começou a perguntar onde ela estava.
Ninguém respondeu.
Aí surgiu uma única mensagem.
De uma conta sem foto, sem seguidores, criada naquele mesmo minuto.
@lucia:
Obrigada por ficarem.
A mensagem desapareceu.
O contador continuou subindo.
Mil. Dois mil. Cinco mil. Dez mil.
Ninguém saiu.
A cadeira continuou vazia.
O contador continuou subindo.
16. A LIVE DO CACHORRO
Eu estava com insônia. Abri o celular. Entrei numa live de um cachorro. O cachorro dormia. O dono falava com o chat. Ninguém assistia.
Eu fiquei uma hora olhando.
Não sei por que estou contando isso.
Fim.
17. NEIDE, DE NOVO
Na quinta, Neide abriu a live de novo.
Bolo de fubá outra vez.
O contador em zero.
Ela falou por uma hora.
Ninguém viu.
Desligou. Guardou o bolo na geladeira.
Na sexta, abriu de novo.
Bolo de cenoura agora.
Ninguém viu.
No domingo, não abriu.
Ficou olhando o celular.
Depois foi dormir.
A câmera liga.
O bom senso desliga.
O contador continua.
Fim.



Nota do autor
Este livro é uma obra de ficção. Personagens, situações e diálogos foram inventados. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
As lives, no entanto, são todas verdadeiras. Quem já assistiu, sabe. Quem nunca assistiu, um dia vai.
O contador continua.


O INTERVALO ENTRE DUAS MARÉS

O INTERVALO ENTRE DUAS MARÉS
Um conto do litoral paranaense

Tadeu Everton Zamoiski Meados de 2026

Eu administrava dezessete casas entre a Riviera e Monções.
Não eram casas minhas. Cuidava dos aluguéis de temporada, entregava chaves, fazia vistorias e resolvia os pequenos problemas que sempre aparecem quando alguém chega à praia. Chuveiro que não esquenta, torneira pingando, janela que emperra. Essas coisas.
Eu gostava do trabalho porque conhecia as casas pelos detalhes. Sabia qual portão precisava ser levantado antes de girar a chave, qual janela inchava depois de uma semana de chuva e qual chuveiro demorava mais para esquentar.
Minha mulher dizia que eu conhecia melhor as casas dos outros do que a nossa.
Eu ria quando ela falava isso.
Nossa casa tinha quatro cadeiras de praia. Duas de alumínio e duas de plástico. Uma das de alumínio estava com a pintura descascada. A outra tinha tecido listrado.
Eu sabia disso porque tinha arrumado a área de serviço algumas semanas antes.
Naquela época, parecia uma informação sem importância.
A casa 412 ficava no caminho entre a Riviera e Monções. Eu passava por ela quase todos os dias.
Era uma casa antiga, de muro baixo, janelas grandes e um quintal que ainda conservava um pedaço de terra. As casas ao redor tinham sido reformadas, ganharam muros altos, portões automáticos, pisos novos.
A 412 continuava quase igual.
Depois de chuva forte, o terreno dos fundos ficava molhado por mais tempo que os outros. Às vezes, mesmo quando a rua já estava seca, ainda havia uma faixa escura de terra junto ao muro.
Eu já tinha reparado nisso, mas nunca tinha pensado muito no motivo.
A casa 03 era da Sueli.
Foi ali que começou.
Naquele dia, fui verificar uma infiltração no banheiro dos fundos. Sueli estava fora e tinha pedido que eu conferisse tudo antes da chegada dos próximos hóspedes.
Chovera durante a madrugada. O quintal ainda estava molhado. Havia areia grudada no rodapé da parede dos fundos e o ar tinha aquele cheiro salgado que fica depois da chuva.
Fiz a vistoria e, antes de ir embora, passei pela lavanderia.
Quatro cadeiras de praia estavam encostadas na parede.
Eram iguais. Estrutura de alumínio, tecido azul e branco. Uma delas tinha um pequeno rasgo no tecido, perto do canto esquerdo.
Tirei uma fotografia.
Eu fotografava as casas depois das vistorias. Era uma mania antiga. Se algum hóspede reclamasse depois, eu tinha como mostrar como tudo estava antes.
Quatro cadeiras.
Fechei a lavanderia, tranquei a porta dos fundos e fui embora.
À noite, Sueli me ligou.
— Você deixou uma cadeira na sala? — Não. — Tem uma aqui.
Voltei à casa.
A cadeira estava aberta no meio da sala, virada para a janela dos fundos.
Olhei para a lavanderia.
As quatro continuavam lá.
Voltei para a sala e contei de novo.
Uma na sala, quatro na lavanderia.
Cinco.
Sueli ficou parada perto da porta.
— Você tirou foto?
Mostrei a fotografia.
Quatro cadeiras.
Ela aproximou o celular do rosto.
— São as quatro. — Tem certeza? — Tenho.
Ela apontou para uma delas.
— Essa era da minha mãe.
Depois olhou para a cadeira da sala. Pegou o tecido e passou o dedo pelo canto esquerdo.
— Essa também parece igual.
Olhou novamente.
— Não. É igual.
Pegou uma das quatro cadeiras da lavanderia e aproximou da quinta.
O tecido era o mesmo.
A estrutura também.
Até o pequeno rasgo estava no mesmo lugar.
Sueli ficou alguns segundos sem falar.
— Eu nunca vi essa cadeira. — Nem eu.
Olhei as portas e janelas.
Tudo estava fechado.
Não havia sinal de que alguém tivesse entrado.
A cadeira também estava limpa. Não tinha barro nas pernas nem areia nos pés.
Voltei à fotografia.
Quatro.
Olhei para a sala.
Cinco.
Naquele momento, ainda pensei que deveria existir uma explicação, alguma coisa que eu não tinha percebido.
Era o que eu fazia quando alguma coisa não fechava.
Procurava o detalhe que faltava.
Na manhã seguinte, voltei.
As quatro cadeiras continuavam na lavanderia. A quinta estava novamente na sala, aberta e virada para a janela dos fundos.
Passei a mão pelo tecido.
O rasgo estava ali.
Olhei para as quatro da lavanderia.
A cadeira que tinha o rasgo continuava entre elas.
Era isso que me incomodava.
A quinta não havia tomado o lugar de nenhuma delas. Ela era uma cadeira a mais.
Peguei o celular e comparei com a fotografia.
Não havia dúvida.
Na fotografia eram quatro.
Agora eram cinco.
Foi nesse dia que comecei a fotografar antes de mexer nas coisas.
Minha mulher percebeu que eu estava preocupado.
Foi no sábado, no mercado.
Eu estava respondendo a uma mensagem enquanto ela escolhia tomates. Ela pegou meu celular e colocou dentro da bolsa.
— Depois. — É do trabalho. — É sempre do trabalho.
Na padaria, contei o que tinha acontecido.
Ela ouviu sem interromper.
— Você acha que alguém colocou a cadeira? — Não sei. — Você acha que ela apareceu? — Também não sei.
Ela mexeu o café.
— E o que você sabe?
Pensei.
— Que havia quatro. — E agora? — Cinco.
Ela me olhou.
— Você está assustado. — Estou tentando entender. — Você sempre tenta entender.
Não respondi.
Ela tomou mais um gole de café.
— Eu só não quero virar mais um problema para você resolver.
Foi a única vez que discutimos sobre aquilo.
Na volta para casa, ela dirigiu.
Eu fiquei olhando pela janela.
Nos dias seguintes, outras coisas começaram a acontecer.
Na 05, o banco de madeira que ficava perto da mesa apareceu encostado na janela dos fundos. Quando passei a mão no assento, senti a madeira úmida.
Na 09, encontrei uma toalha molhada sobre uma cadeira. A casa estava fechada havia três dias. O cheiro de sal ficou na minha mão depois que toquei no tecido.
Na 12, a areia estava junto à parede dos fundos.
Não havia marcas de pés. Só uma faixa estreita, irregular, que terminava antes da porta. Ajoelhei e passei dois dedos por ela. A areia estava úmida.
Na 16, o banco baixo usado para calçar os sapatos estava do lado de fora, encostado no muro. A madeira ainda estava úmida. A dona jurava que o havia deixado dentro de casa na noite anterior.
As outras casas continuavam normais.
Voltei à casa 03.
A quinta cadeira ainda estava lá.
Passei a chamá-la de cadeira duplicada. Não porque eu soubesse o que era, mas porque precisava de um nome para colocar nas anotações.
Ela aparecia em lugares diferentes da casa. Às vezes na sala, uma vez perto da porta dos fundos, outra vez no corredor.
As quatro originais continuavam na lavanderia.
Sempre quatro, mais a quinta.
Comecei a fotografar tudo.
Também anotei os horários.
Depois passei a anotar a maré.
Foi aí que percebi uma coisa.
Os acontecimentos pareciam surgir perto da mudança da maré.
Não havia uma hora certa. Às vezes aconteciam antes, às vezes depois. Mas havia alguma coisa no ar quando a água começava a mudar.
O cheiro de sal ficava mais forte. A umidade parecia entrar pelas frestas. Em algumas noites, eu ouvia a arrebentação mesmo com as janelas fechadas.
Comecei a prestar atenção no terreno.
Marquei as casas num papel:
3 — 4 — 5 — 6 — 7 — 8 — 9
Quando liguei os pontos, percebi que elas acompanhavam uma faixa baixa do terreno.
Na altura da 12, havia uma depressão quase imperceptível no chão.
Eu conhecia aquela rua havia anos.
Nunca tinha reparado.
A faixa seguia em direção à casa 412.
Fui até lá.
Parei diante do muro.
A terra junto aos fundos estava mais escura que o restante do terreno.
Lembrei das poças depois das chuvas.
Naquele momento, a casa antiga pareceu fazer parte daquilo.
Contei a Nildo.
Ele pescava tainha e conhecia a região desde menino.
Mostrei algumas fotografias.
Ele ficou olhando para a tela.
— Antes era diferente. — Como? — Antes de aterrarem.
Apontou para a direção das casas.
— Por aqui passava água. — Um rio? — Não.
Ele pensou um pouco.
— Água.
Perguntei onde começava.
Ele apontou para a casa 412.
— Ali. — Você lembra? — Eu lembro do lugar.
Depois baixou os olhos para a rede que estava arrumando.
— Meu pai pescava aqui.
Fiquei esperando.
Ele não continuou.
— Você sabe alguma coisa sobre essa casa? — Procura nos papéis. — Que papéis? — Da casa.
Antes de voltar para a rede, disse:
— Antes de aterrar, todo mundo sabia por onde a água passava.
A casa 412 não era uma das minhas.
A família nunca tinha me contratado.
Mesmo assim, consegui falar com uma mulher da família. Expliquei que estava tentando entender um problema antigo de drenagem.
Ela ficou desconfiada, mas acabou me deixando entrar.
A casa era antiga por dentro também. Piso gasto, paredes com várias camadas de tinta, móveis que pareciam estar ali havia décadas.
Contei o que Nildo tinha falado.
Ela foi buscar uma pasta.
Voltou com uma folha grande, dobrada.
— Meu avô guardou isso.
Abriu sobre a mesa.
Era um desenho do terreno feito em 1968.
A casa ainda não existia.
O terreno estava vazio.
Havia as medidas do lote e uma linha azul atravessando a parte mais baixa.
Ao lado da linha estava escrito: Passagem natural de água.
Mais abaixo, à mão: Deixar passagem para a água.
— Meu avô comprou o terreno nesse ano — ela explicou. — A casa foi construída em 1970.
Passei o dedo perto da linha sem tocar no papel.
— Essa água ia para onde? — Para o canal.
Acompanhei o desenho.
A linha saía da 412 e seguia na direção das casas onde os objetos apareciam.
Perguntei se podia fotografar.
Ela deixou.
Antes de guardar a planta, comentou:
— Meu avô dizia que, quando a maré subia muito, a água voltava por esse caminho. — Ele tinha medo? — Não.
Ela deu um pequeno sorriso.
— Ele só dizia que água não sabe que aterram.
Fiquei olhando para ela.
Água não sabe que aterram.
Levei uma cópia da planta para casa.
Minha mulher estava fazendo café.
Coloquei o papel sobre a mesa.
Ela examinou a linha azul.
— É a 412? — É. — E essas são as casas? — Mais ou menos.
Mostrei os números.
Ela ficou olhando.
Depois pegou uma régua.
— Vamos ver.
Passamos parte da tarde comparando a planta com os terrenos.
Não era uma linha perfeita. Em alguns lugares passava mais perto, em outros mais longe.
Eu errei uma das medidas da 12 na primeira vez e precisei voltar à anotação da vistoria para conferir. Minha mulher percebeu antes de mim.
— Você marcou vinte e oito metros aqui. — Marquei? — Vinte e seis.
Senti uma irritação rápida, mais comigo do que com ela. Eu quase respondi que tinha certeza da medida, mas a anotação estava ali.
Apaguei o número.
Era uma coisa pequena, mas me incomodou mais do que deveria.
Corrigi a anotação e continuamos.
No fim, os objetos apareciam sempre naquela faixa.
Minha mulher fechou o caderno.
— Chega por hoje. — Quero conferir mais uma vez. — Você já conferiu. — Eu sei.
Ela me olhou.
— Você está procurando uma resposta que talvez não exista.
Não tive o que dizer.
No dia seguinte, voltamos à casa 03.
A cadeira duplicada estava na sala.
Minha mulher ficou olhando para ela.
— Ela está virada para a mesma direção. — Da janela? — Não.
Apontou para os fundos.
Para o caminho antigo da água.
Fomos às outras casas.
Não precisamos medir de novo. Os objetos estavam voltados aproximadamente para a mesma faixa.
Na volta, minha mulher ficou calada por alguns quilômetros.
O limpador de para-brisa fazia um movimento regular no vidro.
Então ela disse:
— Ontem eu encontrei areia na nossa área de serviço.
Olhei para ela.
— Como assim? — Pouca. — Por que você não me contou?
Ela deu de ombros.
— Porque você já estava vendo areia em todo lugar.
Fiquei olhando para a estrada.
— Estava molhada? — Um pouco. — Você tirou foto? — Não.
Ela respirou fundo.
— Eu não queria começar a contar cadeiras.
O motor continuou trabalhando baixo.
Fiquei alguns segundos sem responder.
Ela olhou pela janela.
— Você ainda acha que consegue resolver?
Olhei para as mãos no volante.
— Não.
Ela assentiu.
Não disse mais nada.
Por algumas semanas, nada aconteceu.
As casas ficaram quietas.
Parei de anotar as marés.
Parei de procurar novos sinais.
A planilha voltou a servir para o trabalho.
Eu e minha mulher voltamos aos sábados no mercado. Tomávamos café fora. Eu deixava o celular na mesa de casa durante o jantar.
As coisas ficaram mais fáceis.
Ou pelo menos pareciam.
Às vezes chovia forte e eu olhava para a janela dos fundos.
Minha mulher percebia.
Não dizia nada.
Uma noite, perguntou:
— Você acha que acabou? — Não sei. — Você quer que tenha acabado? — Quero. — Eu também.
Ela encostou a cabeça no meu ombro.
Ficamos assim algum tempo.
Foi a primeira vez, em semanas, que não pensei nas casas.
O barulho veio numa terça-feira.
Eu estava dormindo quando ouvi alguma coisa na cozinha.
Um ruído curto, como uma cadeira sendo arrastada pelo piso.
Levantei.
Minha mulher continuou dormindo.
Acendi a luz da cozinha.
A janela dos fundos estava fechada.
No chão, bem diante dela, havia areia molhada.
Pouca.
Uma faixa irregular.
Ajoelhei.
Toquei com a ponta do dedo.
Estava fria.
A areia grudou na pele.
Levei a mão perto do rosto.
Cheiro de sal.
Não era o cheiro da rua depois da chuva.
Era cheiro de mar.
Fiquei ali, com o dedo sujo de areia, olhando para a janela fechada.
Pensei em fotografar.
Peguei o celular.
Abri a câmera.
Enquadrei o chão.
O dedo ficou sobre o botão.
Depois abaixei o aparelho.
Não tirei a fotografia.
Deixei a areia no lugar.
Voltei para o quarto.
Não acordei minha mulher.
Na manhã seguinte, fui até a área de serviço.
As quatro cadeiras da nossa casa estavam lá.
Duas de alumínio.
Uma listrada.
Uma com a pintura descascada.
As duas de plástico estavam dobradas ao lado.
Tudo no lugar.
Minha mulher entrou na cozinha.
— Está procurando alguma coisa? — Não.
Tomamos café.
Não contei sobre a areia.
Ela também não perguntou.
Depois saiu.
Fiquei trabalhando em casa.
No fim da manhã, ouvi a porta abrir.
Ela voltou.
Estava dobrando algumas roupas quando passei pela área de serviço.
As quatro cadeiras continuavam lá.
Fui até a cozinha.
Parei.
Havia uma cadeira aberta perto da janela dos fundos.
Por alguns segundos, não entendi o que estava vendo.
Depois reconheci o tecido.
Azul e branco.
No canto esquerdo havia um pequeno rasgo.
O mesmo rasgo.
A mesma cadeira.
A cadeira duplicada.
Não era nenhuma das quatro da nossa casa.
Eu sabia disso.
Minha mulher apareceu na porta.
Olhou para a cadeira.
Depois para mim.
— Você brought essa? (Nota: corrigido no texto para "Você brought" -> "Você brought" corrigido para "Você trouxe essa?") — Não.
Ela ficou olhando.
Pensei em pegar o celular.
Não peguei.
Minha mulher voltou os olhos para a cadeira.
— Eu sei.
Do lado de fora, a maré começava a mudar.

ONDE SEMPRE

ONDE SEMPRE
Uma novela curta sobre o luto e as estradas do tempo

Tadeu Everton Zamoiski  

A chuva tinha dado uma trégua, mas o asfalto da rodoviária continuava espelhado de água. Davi cruzou a catraca quando passava das onze e vinte. O terminal estava às moscas: um sujeito jogado num banco de ferro e um casal discutindo baixo perto da Graciosa. A mulher limpava o nariz na manga do casaco; o homem jurava por tudo que não era nada do que ela estava pensando. Davi passou reto. Não era do feitio dele se meter.
Nem devia estar ali, para início de conversa. Tinha casa, tinha cama. Só que, desde que o Mateus sumiu, seis anos atrás, dormia picado — duas, três horas, quando muito. Saía de casa quando o corpo pedia perna e só voltava quando a vista começava a embaçar de sono.
O ônibus para Matinhos já estava encostado na última plataforma, roncando fraco para sair às 23h40. O motorista era um coroa magro, de uniforme meio desbotado e caspa acumulada na gola. No painel, presa com um pedaço de fita amarelada, tinha a foto de um menino de costas, olhando a praia. Davi não deu muita atenção.
— Vai saltar no lugar de sempre? — perguntou o velho, sem olhar na cara dele enquanto pegava a nota.
Davi estranhou.
— É a primeira vez que pego esse horário.
O homem segurou o troco na mão por um segundo a mais, medindo Davi de cima a baixo.
— É. Todo mundo fala isso.
Davi subiu. Pegou a janela, três fileiras atrás do volante. O carro cheirava a óleo queimado e banco de plástico surrado, com aquele gosto azedo de café de garrafa que ele tinha tomado antes de sair grudado no céu da boca.
O ônibus arrancou. As luzes da cidade foram sumindo até restar só a escuridão da estrada e o barulho dos pneus no molhado. A garoa voltou logo em seguida, batendo fraco contra o vidro.
Na primeira parada, entrou uma senhora de vestido florido carregando aquele cheiro forte de alfazema. Dona Alzira. Morava na rua da mãe dele, lá na Vila Torres; faleceu ele não devia ter nem dez anos. Davi lembrou do caixão na sala e dele mesmo chorando escondido atrás dos tijolos no quintal.
Ela sentou duas fileiras adiante. Sem se virar para trás, soltou:
— Como você cresceu, menino.
Davi travou o maxilar. A boca virou um deserto.
Na parada seguinte, subiu um moleque de boné de aba reta. Não devia ter dezoito anos. Acomodou-se do outro lado do corredor, tirou um pão de queijo frio de um saco de papel e ofereceu para Davi sem dar uma palavra. Davi só encarou. O piá deu um dar de ombros, comeu sozinho e enfiou o fone no ouvido, ficando com o olho pregado na tela preta do celular.
Depois, do nada e sem tirar o olho do aparelho, perguntou:
— O Mateus não vem hoje não?
Davi apertou o ferro do banco da frente com tanta força que o nó dos dedos ficou branco.
— O quê?
O moleque nem piscou. Continuou mastigando, olhando para o nada. Não falou mais nada o resto da viagem.
Na terceira parada, entrou uma menina de uniforme de colégio. Cheiro de borracha e de merenda. Sentou logo atrás dele, abriu um caderno com espiral e começou a rabiscar de lápis. Davi espiou pelo vão do banco: era o desenho de um ônibus, mas sem roda, sem chão sob a lataria, flutuando na folha. Ela nem olhou para ele, só continuou desenhando.
Na quarta, subiu um sujeito de barba grisalha com um violão surrado. Foi direto para o fundão. Começou a afinar, tentou puxar o começo de Asa Branca, errou a nota, soltou um palavrão baixo. Afinou de novo. Tentou de novo. Errou no mesmo lugar.
Aquele barulho irritante fez Davi lembrar dos quinze anos do Mateus. O moleque queria um violão de aniversário. Davi cortou na hora: disse que era bobagem, que tinha que focar no estudo, que música não dava futuro para ninguém.
O sujeito lá no fundo finalmente conseguiu tocar a música até o fim, triscando duas notas erradas no meio, mas sem parar.
Quando o ônibus reduziu no próximo acostamento, Davi olhou para o fundão de rabo de olho. Tinha outro rapaz sentado lá. Não tinha visto ele subir em parada nenhuma. Ele já estava ali.
Tinha uma mochila no colo.
Azul. Zíper emperrado. Um chaveiro de peixe meio descascado e uma mancha amarelada de tinta no bolso do lado.
A mochila do Mateus.
Davi levantou. As pernas pareciam de pano. Foi andando pelo corredor meio cambaleando, esbarrando nos bancos. Sentiu o estômago dar uma volta — não tinha comido nada desde o meio-dia.
O rapaz ergueu o rosto. Vinte e poucos anos, barba rala, aquele cabelo enrolado igualzinho ao da Marisa. Passou o nó do polegar no nariz — o tique que Mateus tinha desde pequeno.
— Essa mochila...
O rapaz pegou a alça e estendeu para a frente.
— Ele pediu para te entregar. Falou que você ia vir no último carro.
Davi esticou a mão para tocar no ombro do filho, mas os dedos passaram no vazio, como se atravessassem vapor de água quente.
— Não dá, pai — disse o rapaz. A voz era comum, sem drama. — Ninguém consegue.
Davi recolheu a mão devagar. Os dedos estavam gelados.
— Você está mais alto.
Foi a coisa mais idiota que conseguiu falar. Soube disso no mesmo segundo em que a frase saiu. Um homem feito dizendo aquilo para o fantasma do filho.
O rapaz deu uma risadinha curta.
— Pois é. Cresci.
Davi olhou em volta, meio tonto.
— Cadê ele?
O rapaz olhou para fora. Lá fora era só mato e chuva.
— Você sabe por que eu não voltei, pai? Porque toda vez que eu tentava, você já estava lá na praia me procurando. E eu não sabia como te explicar que eu não estava mais lá.
Davi sentou no banco do lado, o couro sintético estalando sob o peso. Encostou a cabeça no vidro frio.
— Mateus...
— O quê?
— Eu só queria te ver, filho.
— Eu sei.
— Eu queria acertar as coisas.
— Pai. — O rapaz virou a cabeça. E aí Davi viu de verdade. O jeito de morder o canto da boca. Os olhos. — Você estava procurando uma pessoa que não existia mais.
O ônibus deu um solavanco e parou. Dá para ver a linha escura do mar do outro lado do vidro.
— Desce — disse o rapaz.
— E se eu não descer?
— Aí você fica. Mas eu não vou estar aqui amanhã. Nem depois. Eu nunca estive.
Davi ficou olhando para ele. Queria dar um abraço, pedir desculpa por tudo, mas a garganta virou um nó só. Não saiu nada.
Apenas pegou a mochila azul. E desceu.
O motorista fechou a porta e o ônibus foi embora devagar, sumindo na neblina da praia. Davi ficou ali parado na areia úmida. Abriu o zíper com cuidado.
Dentro tinha um caderno, um ingresso desbotado de show em Guaratuba de 2015, uma foto velha dos dois e um pedaço de folha dobrado.
Pai,

Fui para Matinhos. Sei que você vai bravar, mas eu precisava vir. Precisava ver o mar sem você atrás dizendo que é perigoso.

Não vou aprontar nada. Só vou ficar na areia um pouco. Eu odeio areia, você sabe.

Se eu não voltar, não fica atrás de mim. De verdade. Não fica.

Te amo.
Desculpa.

(A caneta falhou no papel. Tem uns três riscos secos antes de continuar)

Não fica triste.
Davi leu aquilo duas vezes. Na terceira, a vista embaçou e ele não conseguiu mais enxergar as linhas. Não chorou alto, só ficou ali parado sentindo o cheiro do próprio casaco sujo de suor antigo.
Tirou o celular do bolso. Ligou. Marisa atendeu logo no primeiro toque.
— Desci — disse ele.
Um silêncio longo do outro lado.
— Eu sei. Estou te esperando.
***
Nas noites seguintes, o peso mudou de lugar.
Davi voltou lá no dia seguinte. O motorista não falou nada. Os mesmos passageiros no mesmo lugar, feito estátua. Davi foi até o fundo, mas o banco do Mateus estava vazio. Só o plástico rasgado do assento. Sentou ali até o ponto final, com a cabeça metida entre as mãos, sem dar um pio.
Voltou para casa de táxi já de manhãzinha. Marisa estava na cozinha, com a mochila azul no colo.
— Você não trouxe ele — disse ela.
— Não tinha nada para trazer.
Ela olhou para a mochila, depois para ele.
— Você está com aquela mesma cara.
— Que cara?
— A de quem prefere continuar procurando para não ter que voltar para casa.
Davi não respondeu. Naquela noite, ela botou o casaco e foi junto.
Quando subiram, o ônibus já estava em movimento. Os mesmos rostos. Marisa segurou na mão dele — a mão dela estava quente, cheirando a sabonete barato.
Lá no fundo, o rapaz da mochila estava sentado de novo.
Marisa foi até lá sem hesitar. Parou do lado do banco. O queixo dela tremeu um pouco, mas ela sentou do lado dele e pegou na mão gelada do piá. Segurou firme, com as duas mãos.
— Eu sei, meu filho — disse ela. — A mãe sabe.
O rapaz olhou para ela e depois para Davi, de pé no corredor.
— Você não queria vir me ver, pai. Você só não queria me deixar ir.
Davi olhou para o chão do ônibus.
— Eu não sabia como.
— A mãe sabia — disse o piá. Ele olhou para a janela, onde o céu começava a desbotar de preto para cinza. — Não esquece do violão.
— Não vou esquecer — disse Marisa.
Ela soltou a mão dele, pegou a mochila e puxou Davi pelo braço.
— Vamos.
Davi olhou para trás uma última vez. O rapaz só deu um tchauzinho de nada com a ponta dos dedos.
Na areia, os dois sentaram juntos vendo o dia clarear. Davi leu a carta em voz alta para ela. Marisa ouviu encostada no ombro dele.
— Ele odiava areia — lembrou ela, limpando o olho.
— Eu sei.
Na volta, pararam na lanchonete da rodoviária e pediram dois pastéis de vento e café preto. Comeram no balcão sem dar uma palavra. A massa quente queimou o céu da boca de Davi, mas ele nem ligou.
No ônibus de linha para voltar para a cidade, Marisa encostou no ombro dele e dormiu na hora. Davi ficou olhando o mato na beira da estrada. Os olhos pesaram. Ele fechou a vista.
Dormiu a viagem inteira.
No sábado, ele foi até o centro. Entrou numa lojinha de instrumentos na Rua XV que cheirava a madeira e verniz. Ficou encarando as paredes cheias de violão por quase meia hora até o vendedor encostar.
— Quer experimentar algum, chefe?
— Sei tocar não — disse Davi.
— Toda hora é hora de aprender.
Davi apontou para um azul-escuro pendurado no alto.
Trouxe para casa no banco de trás do carro. Largou no canto da sala, perto da janela. Na segunda de manhã, Marisa passou pela sala e viu ele sentado no sofá, só olhando para o instrumento parado no pedestal.
Ela não disse nada. Foi para a pia, ligou a torneira e falou alto para o som cobrir o barulho da água:
— Vou passar o café.
Davi assentiu devagar, esticou o braço e deu um toque fraco na corda mais grossa. O som reverberou baixo na sala vazia.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A Água Dentro das Casas

A Água Dentro das Casas
Um inventário de inverno

Tadeu Everton Zamoiski


Eu trabalho com manutenção de casas de veraneio.

Meu caderno de capa dura começou como uma coisa prática.

Endereço. Problema. Peça trocada. Data.

A primeira casa ficava na Riviera.

Era amarela, com uma pitangueira junto ao muro lateral. O proprietário reclamava de umidade no corredor.

Quando entrei, a casa estava seca.

Passei a mão na parede. Nada.

Fui até o quintal e levantei a tampa da caixa de inspeção. Havia água escura no fundo.

Não deveria haver.

Retirei um pouco com um copo.

A água tinha cheiro de maré baixa, lodo e peixe do Canal da Barra.

Junto com ela vieram três peixinhos.

Eram pequenos, quase transparentes.

Um deles tinha o rabo amarelado.

Coloquei os três num balde com água limpa e fiquei olhando durante alguns segundos.

Depois escrevi no caderno:

1. Riviera. Água na caixa de inspeção. Areia e três peixes pequenos.

Na segunda casa, encontrei areia dentro do ralo do banheiro.

Na terceira, havia uma mancha escura no rodapé do corredor. O reboco estava quente.

Abaixei o rosto.

Ouvi água.

Não um gotejamento. Água correndo.

Fiquei agachado, esperando.

O som desapareceu.

Um segundo.

Dois.

Então veio um ploc abafado, vindo de muito mais baixo que o chão.

Levantei.

Não havia tubulação naquele ponto.

Anotei:

3. Monções. Mancha no rodapé. Ruído de água. Sem vazamento identificado.

A quarta casa tinha um cheiro forte de maresia dentro de um banheiro fechado.

A quinta ficava também nas Monções.

Essa eu lembro melhor.

Eu estava no corredor, conferindo uma tomada, quando percebi que os sons da rua tinham diminuído.

Primeiro deixei de ouvir as motos. Depois os carros. Por último, até o vento que passava pela janela pareceu parar.

Fiquei imóvel.

No lugar daqueles sons veio um ruído de água.

Era baixo, contínuo, quase abafado.

Encostei o ouvido na parede.

A água parecia estar do outro lado.

Não era um cano pingando. O som tinha volume. Parecia um canal passando atrás da casa.

Fui até o banheiro.

Nada.

Abri a torneira.

A água saiu normalmente.

Fechei.

O ruído continuou.

Fiquei alguns minutos no corredor, sem saber o que fazer.

Então os sons da rua voltaram.

Primeiro uma moto.

Depois um carro.

Um cachorro latiu duas casas adiante.

O barulho da água desapareceu ao mesmo tempo.

Foi a única vez em que o silêncio aconteceu daquele jeito.

No caderno escrevi:

5. Monções. Corredor. Sons da rua desapareceram por alguns minutos. Barulho de água atrás da parede.

Nas casas seguintes, os sinais foram menores.

Na sexta, nada.

Na sétima, um balde com água salgada e areia no fundo.

Na oitava, uma gota surgia do piso de um banheiro seco.

Na nona, uma parede úmida.

Na décima, cheiro de peixe dentro de uma casa fechada.

Na décima primeira, nenhum sinal visível. Quando eu estava saindo, ouvi água correndo sob o piso.

A décima segunda tinha uma faixa escura na parede da sala.

Depois parei.

Espalhei as doze anotações sobre a mesa. Liguei os pontos na ordem em que visitei as casas.

A linha fazia uma curva que começava perto da água e entrava no bairro.

A distância entre a última casa e a minha era praticamente a mesma que existia entre algumas das outras.

Fiquei olhando para o mapa.

A curva parecia continuar depois da última casa.

Guardei o mapa dentro do caderno.

No dia seguinte fui procurar Seu Nestor.

Ele morava perto do canal e conhecia aquela parte de Matinhos melhor do que qualquer mapa.

Tinha sido pescador de tainha durante boa parte da vida.

Mostrei os pontos.

Ele não perguntou o que eu estava procurando.

Só passou o dedo pelo mapa.

Parou na primeira casa.

Depois na última.

Olhou para o espaço entre os dois.

“Tem ano que o mar fica estranho.”

Perguntei o que ele queria dizer.

“Ele vem por baixo.”

Achei que estivesse falando de água infiltrando no terreno.

Perguntei se era perigoso.

Nestor demorou um pouco para responder.

“Não porque faz mal.”

Olhou novamente para o mapa.

“Porque a gente acostuma.”

Não perguntei mais nada.

Na semana seguinte soube que Nestor tinha morrido.

Disseram que foi durante a madrugada.

Infarto.

Fui ao velório.

Não falei sobre o mapa com ninguém.

Quando voltei para casa, abri o caderno.

As doze casas estavam ali.

Abaixo da décima segunda havia uma anotação que eu não lembrava de ter feito.

13.

A letra era minha.

Só que mais apertada.

A caneta era a mesma.

Virei a página.

Nada.

Peguei o mapa.

As doze casas continuavam marcadas.

Minha casa ficava fora.

Ainda.

Fui até ela no dia seguinte.

Eu tinha uma caixa-d’água de mil litros.

Conhecia aquela instalação.

Sabia como funcionava.

O registro de entrada estava fechado.

A boia estava funcionando.

Mesmo assim, quando retirei a tampa, a caixa estava cheia.

Não pela metade.

Cheia.

Fiquei alguns segundos sem entender.

Abri o registro.

Nada mudou.

Fechei novamente.

Levantei a boia com a mão.

Não havia água entrando.

Ela simplesmente continuava ali.

Abri a saída.

A água começou a descer.

Quando chegou a um terço da caixa, parou.

Fiquei olhando.

Então ouvi um ruído vindo do fundo.

Era o mesmo som da quinta casa.

O mesmo da décima primeira.

Água passando onde não deveria haver água.

Peguei a lanterna.

Apontei para dentro.

Havia areia no fundo.

Depois vi alguma coisa se mexendo.

Um peixe pequeno.

Rabo amarelado.

Fechei a tampa.

Desci da escada.

Entrei em casa.

Peguei o caderno.

Escrevi:

13. Tabuleiro. Casa própria. Caixa cheia.

Abaixo, depois de hesitar, escrevi:

Casa ocupada.

Naquela noite, voltei ao mapa.

Desta vez não tentei entender a sequência.

Só coloquei a folha sobre a mesa e marquei minha casa.

Fiquei olhando para os pontos.

Foi quando percebi que havia um espaço vazio entre a última casa e a minha.

Um espaço grande demais para ser ignorado.

Peguei o carro.

Fui até lá.

Era um terreno baixo, com vegetação, uma valeta e água acumulada junto à margem.

Não havia casa.

Não havia cano.

Não havia nada que justificasse um ponto no mapa.

Voltei para casa no fim da tarde.

Abri o caderno.

O mapa estava onde eu havia deixado.

Mas havia uma pequena marca no espaço vazio.

Um círculo.

Parecia ter sido feito com a ponta de uma caneta.

Passei o dedo sobre a tinta.

Estava seca.

Fiquei olhando para aquilo.

Depois escrevi ao lado:

14.

Não coloquei endereço.

Fechei o caderno.

Na manhã seguinte levei uma pá até o terreno.

Cavei no ponto marcado.

A menos de meio metro encontrei água.

Não água acumulada pela chuva.

Água que subia do chão.

Deixei a pá cair.

Fiquei olhando o buraco encher.

Naquela noite não consegui dormir.

Ouvi água sob o piso da minha casa.

Não havia vazamento.

Não havia chuva.

Não havia torneira aberta.

O som vinha de baixo.

Fui até o corredor.

Fiquei parado.

O ruído aumentou.

Depois diminuiu.

E parou.

Na manhã seguinte, encontrei o caderno no quintal.

A capa estava molhada.

O mapa estava aberto.

Os treze pontos continuavam marcados.

O décimo quarto permanecia no terreno vazio.

Havia uma pequena mancha de água sobre o papel.

Ela ficava exatamente onde estava a minha casa.

Não era um novo ponto.

Não era um número.

Era apenas uma marca.

Fechei o caderno.

Desde então, verifico a caixa todos os dias.

No começo eu verificava para descobrir se havia água.

Agora verifico para descobrir se não há.

A água nunca mais ficou completamente ausente.

Às vezes encontro areia no fundo.

Às vezes sinto cheiro de maré baixa.

Uma vez encontrei um peixe pequeno.

Não toquei nele.

Só fiquei olhando até que parasse de se mexer.

O mapa continua guardado dentro do caderno.

Não faço mais marcações.

Não acrescento endereços.

Não tento descobrir onde termina.

Ainda assim, algumas manhãs encontro o papel úmido.

E o décimo quarto ponto continua lá.

Sempre no mesmo lugar.

Ontem abri o caderno antes de dormir.

A mancha perto da minha casa estava maior.

Fechei o caderno.

Na sala, ouvi uma gota cair.

Depois outra.

Fiquei esperando.

Não fui verificar.

Lá fora, a sombra da pitangueira atravessou a janela. A árvore permaneceu imóvel. Só a sombra se moveu.

Então ouvi água dentro da caixa.

E, pela primeira vez, não fui olhar.

O QUE VOLTA

O QUE VOLTA


Tadeu Everton Zamoiski 



Paulo contou o dinheiro duas vezes antes de espalhar as notas sobre a mesa. Não precisava. O salário só entraria dali a alguns dias, e as contas já estavam separadas em pequenos montes. Luz, água, mercado, cartão.
A geladeira fazia um ruído novo desde a semana anterior. Um ronco curto, que começava e parava. Paulo tinha dito que ainda funcionava.
Marta não respondeu. Estava na pia, enxaguando duas xícaras. Secou as mãos no pano de prato, dobrou-o duas vezes e deixou sobre o balcão.
— Eu estou cansada de fazer conta.
Paulo continuou olhando para o dinheiro.
Marta pegou a bolsa e saiu da cozinha. Antes de passar pela porta, voltou, abriu o armário e colocou uma das duas xícaras na prateleira de cima.
Era branca, com uma pequena lasca na borda.
Ela nunca jogava aquela fora.
Zeus dormia perto da porta dos fundos. Quando ouviu o motor do caminhão, levantou a cabeça antes de Paulo. Conhecia aquele som. Correu até o portão, latiu para o caminhão que avançava devagar pela rua e voltou para junto da porta.
Era segunda-feira, 21 de setembro, dia da coleta orgânica.
Paulo vestiu o uniforme e saiu.
Durante o trabalho, os movimentos eram sempre os mesmos. Recolher, levantar, separar, carregar. O que mudava eram as coisas encontradas no meio dos sacos.
Brinquedos, documentos, fotografias, ferramentas, roupas quase novas. Às vezes havia objetos que ainda pareciam pertencer a alguém. Paulo os separava quando podia.
Naquela manhã encontrou uma panela sem cabo, três pratos, um rádio antigo e uma caixa de papelão cheia de fotografias.
Devolveu tudo ao caminhão.
Quando voltou para casa, Marta tinha feito arroz e dois bifes. Um estava no prato dela. O outro continuava na frigideira, coberto com uma tampa.
Paulo percebeu que ela tinha deixado a maior parte do arroz.
— Você não vai comer?
— Depois.
Ela sentou à mesa.
Paulo abriu a carteira e tirou as notas que ainda tinha.
— Na sexta entra.
— Eu sei.
— Até lá dá para segurar.
Marta olhou para a geladeira.
— Ela não vai segurar.
O ronco começou na cozinha.
Nenhum dos dois falou enquanto o motor funcionava.
Mais tarde, Marta abriu uma gaveta do quarto e tirou um envelope pardo. Colocou-o sobre a cama.
— São meus documentos.
Paulo ficou na porta.
— Você vai embora?
— Estou pensando.
Ela não abriu o envelope.
— Eu não quero sair daqui brigando.
Paulo olhou para a cama.
— Eu também não.
Marta guardou os documentos e fechou a gaveta.
Naquela noite, dormiu virada para a parede.
Na terça-feira, Paulo trabalhou na coleta orgânica de outro setor. Na quarta, 23, voltou para a rota da coleta seletiva.
Foi quando encontrou a sacola.
Estava entre caixas de papelão, copos de plástico e embalagens de salgadinhos. Dentro havia um diário de capa marrom, de tecido grosso, com os cantos gastos e uma mancha escura perto da lombada.
Paulo abriu.
Uma fotografia antiga estava dobrada entre as páginas. Viu apenas a borda amarelada da imagem e fechou o diário.
Levou para casa.
Marta estava na sala quando ele chegou. Pegou o diário, abriu a primeira página e leu o nome.
Marta.
Abaixo havia uma data.
14 de março de 2011.
Ela passou o dedo sobre a letra.
— Tem meu nome.
Paulo se aproximou.
— Você conhece?
— Não.
Marta continuou lendo.
As primeiras páginas falavam de compras, chuva, contas, receitas, uma torneira que pingava. Em uma delas, Marta escrevera que tinha comprado tomates e esquecido o pão. Na seguinte, reclamava que o marido deixara a toalha molhada sobre a cama.
Mais adiante, havia uma receita de arroz de forno com uma observação no canto:
"Menos queijo. O bolso agradece."
Marta sorriu.
— Essa mulher economizava.
Paulo olhou para ela.
— Você também.
— Eu sei.
Continuaram lendo.
Havia reclamações sobre o marido chegar tarde, comida, dinheiro e coisas da casa. Em outra página, ela dizia que tinha separado o pedaço maior de frango porque sabia que ele gostava. Algumas páginas depois, reclamava que queria ficar sozinha.
Em 18 de março de 2011, apareceu o nome do cachorro.
"Zeus latiu antes do caminhão chegar. Preciso fechar o portão antes que ele se enfie debaixo das rodas."
Paulo parou.
Marta levantou os olhos.
— Zeus?
— É.
Os dois olharam para o cachorro, que dormia perto da porta.
Marta voltou à página.
Em outras anotações, Zeus aparecia de maneira banal. Dormia no corredor, roubava comida da mesa, esperava o marido de Marta no portão. Em uma delas, ela reclamava que ele tinha destruído uma bola nova.
Paulo fechou o diário.
— De onde você trouxe isso?
— Da coleta.
Marta colocou a mão sobre a capa.
— Então deixa fora da cozinha.
— Por quê?
Ela pensou antes de responder.
— Não sei.
Tirou a mão.
Naquela noite, Paulo guardou o diário numa gaveta da sala.
Marta ficou diante da pia. Enxaguou as duas xícaras que estavam sobre a bancada, secou uma e deixou a outra escorrendo.
Nos dias seguintes, Paulo abriu o diário algumas vezes.
Havia dias vazios. Depois, quatro ou cinco páginas seguidas.
Em 22 de março, Marta reclamou da torneira.
Em 29, escreveu que o marido havia esquecido de consertá-la.
Em 1º de abril, contou que comprara um pastel de queijo no quiosque antes de voltar para casa.
"Zeus ficou esperando no portão."
Paulo fechou o diário.
No dia seguinte, passou pelo quiosque.
O dono estava cortando cana. Paulo pediu um pastel de queijo e perguntou se ele conhecia uma mulher chamada Marta.
O homem pensou.
— Nome eu não lembro.
— Ela comprava pastel de queijo.
— Isso reduz pouco.
Paulo sorriu.
— Você viu quem deixou uma sacola no suporte?
O homem limpou as mãos no avental.
— Vi um sujeito ali. Comeu olhando para a rua.
— Você lembra dele?
— Não.
O homem voltou a cortar a cana.
— Depois colocou alguma coisa no lixo.
Paulo agradeceu e foi embora.
Naquela noite, abriu o diário.
A fotografia continuava dobrada.
Ele a retirou entre duas páginas e segurou-a pela borda.
Poderia abrir.
Não abriu.
Guardou de volta.
Quando voltou para a sala, Marta estava no sofá, com o controle da televisão na mão.
— Você está gostando desse diário.
Paulo sentou.
— É estranho.
— Eu sei.
Ela apertou o botão. A televisão não estava ligada.
— Eu não quero mais fazer conta desse jeito.
Paulo olhou para ela.
— Eu também não.
— Não é só dinheiro.
Ele esperou.
Marta deixou o controle sobre o sofá.
— Eu estou cansada de esperar você resolver tudo.
Paulo baixou os olhos.
— Eu sei.
Ela respirou fundo.
— Eu vou sair ammanhã.
Paulo olhou para a porta da sala.
— Você vai mesmo?
— Estou pensando.
— Você quer que eu peça para você ficar?
Marta olhou para ele.
— Eu quero que você diga se quer.
Paulo demorou.
— Eu quero.
Ela baixou os olhos.
— Então fala isso quando eu estiver indo.
Ficaram quietos.
Naquela noite, depois que Marta foi dormir, Paulo pegou o diário e saiu de casa.
Caminhou até o suporte de coleta seletiva.
A casa de shows estava fechada. Do bar vinha o som baixo de uma conversa. Mais adiante, uma motocicleta passou pela esquina.
Paulo colocou o diário entre as caixas de papelão.
Fechou a tampa.
Voltou para casa.
Zeus latiu quando ele abriu o portão.
Na manhã seguinte, o diário estava sobre a mesa da cozinha.
Marta olhou para ele.
Depois olhou para a gaveta da sala, aberta.
Nenhum dos dois falou.
A mancha escura perto da lombada parecia maior.
Marta passou o dedo sobre a capa.
Olhou para a ponta do dedo.
— Está úmido.
Paulo tocou.
A capa estava seca.
Marta limpou o dedo na lateral da calça.
Abriu o diário.
A fotografia continuava dobrada.
A página do pastel estava aberta.
Paulo não lembrava de tê-la deixado assim.
Marta fechou o diário.
— Guarda.
— Por quê?
— Porque eu não quero olhar.
Paulo colocou o diário na gaveta da cozinha.
Marta pegou a mala.
— Vou para a minha irmã.
Paulo assentiu.
Ela parou junto à porta.
— Não precisa me ligar hoje.
— Tá.
Ela saiu.
Zeus foi até o portão, mas não latiu.
Naquela tarde, Paulo trabalhou em outra região.
Voltou no fim do dia e encontrou a casa silenciosa. A mala de Marta tinha ido embora com ela.
Zeus estava perto da porta.
Paulo fez café e colocou uma xícara sobre a mesa.
Abriu o armário.
A outra xícara branca, com a pequena lasca na borda, continuava na prateleira de cima.
Ele não a pegou.
A geladeira ligou.
O ronco atravessou a cozinha.
Paulo abriu a gaveta.
O diário estava lá.
Sentou e começou a ler.
Na página de 7 de abril de 2011, Marta havia escrito:
"Hoje pensei em ir embora. Fiz café para ele mesmo assim."
Na página seguinte:
"Ele pediu para eu ficar. Não sei se é suficiente. Amanhã vou decidir."
Paulo fechou o diário.
Não procurou mais nada.
No fim da tarde seguinte, Marta voltou.
Deixou a mala no carro. Entrou sozinha e foi direto para a cozinha.
Paulo estava sentado à mesa.
— Você voltou.
— Por enquanto.
Ela abriu a geladeira.
— Ela está pior.
— Eu sei.
Marta pegou a folha com as contas.
Sentaram juntos.
Fizeram as contas novamente. Dessa vez, sem esconder números um do outro. Falaram sobre vender algumas coisas, reduzir despesas e procurar um conserto mais barato para a geladeira.
Marta passou o dedo por uma das contas.
— Essa aqui dá para cortar.
— Como?
— Eu vejo.
— Você já viu?
— Estou vendo agora.
Paulo quase sorriu.
— Tá.
Ela continuou fazendo as contas.
Depois recolheu as folhas e colocou a mão sobre a mesa.
— Eu vou tentar.
Paulo assentiu.
Naquela noite, dormiram juntos.
No dia seguinte, Paulo colocou o diário dentro de uma sacola e saiu cedo.
Não queria mais aquilo dentro de casa.
O suporte estava vazio.
Ele abriu a tampa.
Colocou o diário lá dentro.
Fechou.
Dessa vez, ficou alguns segundos diante do suporte.
Depois foi embora.
Quando voltou para casa, Marta estava fazendo café.
— Foi?
— Foi.
Ela colocou uma xícara diante dele.
Depois colocou outra para si.
A geladeira ligou.
Marta ouviu o ruído.
— Vai precisar consertar.
— Vai.
Ela tomou um gole de café.
Zeus entrou na cozinha, cheirou as pernas da mesa e deitou perto da porta.
No dia seguinte, Paulo saiu cedo para trabalhar.
Passou pelo bairro, mas não parou no suporte. O caminhão ainda não havia chegado.
Durante a coleta, encontrou uma caixa com objetos antigos. Havia cartas, fotografias e uma pequena xícara rachada.
Paulo pegou a xícara.
Examinou a lasca na borda.
Depois colocou de volta na caixa.
No fim do dia, voltou para casa.
Marta estava na sala.
A mala continuava no quarto.
Ela ainda não havia desfeito tudo.
Paulo não perguntou.
Naquela noite, dormiram juntos.
Na manhã de 1º de outubro, Paulo acordou antes de Marta.
Foi até a cozinha e abriu a gaveta.
Estava vazia.
Procurou na segunda gaveta.
Nada.
Fechou.
Na mesa havia uma folha com as contas do mês. Marta tinha marcado a conta da geladeira e escrito ao lado o valor que conseguiriam pagar naquela semana.
Paulo pegou a caneta.
Acrescentou outro valor.
Abriu o armário.
A xícara branca continuava na prateleira de cima.
Paulo olhou para ela.
Dessa vez, pegou.