Ou: A estrada devolve o que nunca foi entregue
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
Há um posto de combustível na BR-277, entre Curitiba e Paranaguá, onde o frentista se recusa a olhar para o retrovisor dos carros que param depois da meia-noite.
Eu sei disso porque fui esse frentista. Não por muito tempo. O suficiente para aprender que há coisas que a neblina da Serra do Mar não esconde, ela revela.
Naquela época eu morava em Curitiba, no Portão, num apartamento pequeno demais para mim e para a ausência de minha irmã. Marina havia desaparecido em setembro, numa terça-feira, depois de pegar a BR-277 sentido litoral. A polícia encontrou o carro dela no acostamento, perto do km 64, porta aberta, chave na ignição, tanque cheio. Nenhum sinal dela. Nenhuma pegada. Nenhuma explicação.
O caso esfriou em três semanas. Eu não esfriei.
Antes de sumir, Marina tinha o hábito de me ligar de madrugada. Não dizia nada importante. Falava do trabalho, do trânsito, de um filme que tinha visto. Eu atendia com sono, respondia monossílabos, desligava. Na última ligação, três dias antes do desaparecimento, ela disse uma coisa que só fui lembrar meses depois:
— Você já sentiu que a estrada é mais longa na volta?
— O quê?
— Nada. Esquece. Boa noite, João.
Foi a última vez que ouvi a voz dela.
Comecei a trabalhar no posto porque ele ficava a poucos metros de onde o carro foi achado. Era um turno da noite, das dez às seis, e o posto tinha aquele cheiro específico de diesel misturado com café velho e umidade de serra. As prateleiras da loja de conveniência rangiam com o vento que descia da mata. Às vezes, caminhões passavam tão perto que as janelas vibravam, e eu pensava que a estrada estava respirando.
O gerente, um homem chamado Nelson, me contratou sem muitas perguntas. Disse que ninguém queria o turno da noite, que o último frentista havia ido embora sem avisar e que, se eu aguentasse um mês, poderia ficar. Havia algo de cansado nos olhos dele, como se tivesse visto coisas que preferia não nomear.
— Só uma regra — disse ele, no primeiro dia. — Depois da meia-noite, não olhe para o retrovisor dos carros que param. Nunca.
Eu ri. Achei que fosse piada.
Ele não riu.
Nas primeiras semanas, nada aconteceu. Eu abastecia carros, verificava óleo, vendia café para caminhoneiros que mal falavam. A neblina subia da serra por volta das duas da manhã e engolia tudo, as luzes do posto, os postes da rodovia, a linha do horizonte. O mundo ficava reduzido a um círculo de asfalto molhado e ao zumbido das lâmpadas fluorescentes.
Foi numa dessas noites que vi o primeiro.
Um carro prata, modelo antigo, parou na bomba 3. Desci do balcão, sentindo o cheiro de terra molhada que a neblina trazia. O motorista não desceu. Bati no vidro. Nada. Bati de novo.
Então ele abaixou o vidro, lentamente, e pediu para completar o tanque. A voz era rouca, distante. Enquanto a bomba funcionava, olhei pela janela traseira, por reflexo, e vi o retrovisor.
Havia alguém no banco de trás.
Uma mulher de cabelos escuros, rosto virado para o lado. O coração disparou. Pensei em Marina. Mas, quando o motorista pagou e foi embora, olhei de novo, e o banco estava vazio. Apenas o banco. Apenas o vazio.
Contei a Nelson no dia seguinte. Ele me olhou por um longo tempo.
— Você olhou para o retrovisor.
— Olhei.
— Então já era. — Ele suspirou. — Vai começar agora.
— O quê?
— Você vai começar a ver. E depois vai começar a procurar. E depois... — Ele parou. — Depois não sei. Nunca ninguém voltou para me contar.
Pedi demissão naquela manhã. Não fui embora.
O objeto apareceu pela primeira vez três dias depois. Uma concha. Pequena, branca, com uma espiral perfeita. Estava no balcão da loja, ao lado da máquina de café, como se alguém a tivesse deixado ali de propósito.
Conchas não aparecem em postos de combustível na serra. Não há praia ali. Só mata, pedra, neblina.
Guardei-a no bolso. Não sei por quê.
Naquela noite, sonhei com Marina. Estávamos em Matinhos, na praia fora de temporada, o vento frio cortando o rosto, a areia úmida grudando nos pés. Ela ria de algo que eu não conseguia ouvir. O mar estava calmo demais. E então apontou para o horizonte e disse:
— Não é o mar que devolve. É a estrada.
Acordei com o cheiro de maresia na boca.
A segunda concha apareceu no dia seguinte. Mesma forma, mesmo tamanho. Desta vez, estava dentro do meu carro, no banco do passageiro, como se alguém a tivesse colocado ali enquanto eu trabalhava.
Comecei a anotar tudo. Horários, placas, rostos. Mas as anotações não faziam sentido no dia seguinte. Palavras que eu não lembrava de ter escrito. Nomes que não conhecia. Numa página, no meio de números de placa, encontrei uma frase que não era minha, escrita com uma letra que eu não reconhecia:
Ela ainda está no carro.
O terceiro aparecimento foi diferente.
Eu estava no km 64, no acostamento, tentando reconstruir os últimos minutos de Marina. A neblina estava tão densa que eu mal via a mão na frente do rosto. Foi quando senti algo sob o pé.
Uma concha. Igual às outras. Mas desta vez havia algo escrito nela. Letras pequenas, arranhadas na superfície, como se alguém tivesse usado uma unha.
ELA NÃO SAIU DO CARRO.
O sangue fugiu do meu rosto. Olhei ao redor, procurando alguém. Nada. Apenas neblina e o som distante de um caminhão subindo a serra.
Quando olhei de novo para a concha, as letras haviam mudado.
VOCÊ NÃO SAIU DO CARRO.
Passei a frequentar os arquivos da polícia. As delegacias de Morretes, de Paranaguá, de Curitiba. Os relatórios não diziam muito. Sete carros abandonados na mesma região em cinco anos. Motor frio, tanque cheio, portas abertas, nenhum vestígio. Nenhum motorista encontrado.
Foi numa dessas tardes, folheando um relatório de acidente antigo, que encontrei a primeira coisa que não fazia sentido. Uma ocorrência de 2019, colisão sem vítimas fatais, na BR-277, sentido Paranaguá. O documento listava os marcos da via: km 60, km 62, km 63, km 65, km 67. Passei os olhos duas vezes. Três. O km 64 não estava lá. Não havia sido pulado por erro de digitação, os números estavam em sequência, e o 64 simplesmente não existia entre eles. Como se a rodovia, naquele trecho, tivesse sessenta e três quilômetros, e depois sessenta e cinco.
Fechei o arquivo. Procurei outro. Outro. Todos os relatórios daquele trecho, dos últimos dez anos, listavam os mesmos marcos. Nenhum mencionava o km 64. Nenhum.
Mas o carro de Marina havia sido encontrado no km 64. A polícia havia escrito isso no laudo. Eu havia lido o laudo. Eu havia estado no km 64. Havia estacionado no acostamento do km 64. Havia sentido a neblina do km 64 no rosto.
A menos que não houvesse km 64. A menos que nunca tivesse havido.
Setembro é o mês que não termina.
Fechei o arquivo. Não voltei mais lá.
A lembrança veio numa noite de chuva, enquanto eu dirigia de volta a Curitiba pela BR-116. Marina e eu éramos crianças, estávamos em Morretes, visitando nossos avós. Havia um rio perto da casa deles, e ela gostava de ficar na margem, olhando a água.
— Você lembra daquele dia? — perguntei a ela, no telefone, semanas antes do desaparecimento.
— Que dia?
— O dia do rio. Quando você caiu.
Silêncio.
— Eu nunca caí no rio, João.
— Caiu, sim. Eu te puxei. Você estava molhada, chorando.
— João... — A voz dela ficou estranha. — Eu nunca caí nesse rio. Nunca.
Mas eu lembrava. Lembrava da água fria, do barulho, do peso do corpo dela. Lembrava de tudo.
Ou achava que lembrava.
Voltei ao posto. Nelson não estava mais lá. Um homem mais jovem ocupava o balcão, com olheiras profundas e um olhar que evitava o meu.
— O Nelson? — disse ele. — Nunca ouvi falar.
— Ele trabalhou aqui. Gerente. Uns meses atrás.
— Não. — O homem balançou a cabeça. — Eu sou o gerente há dois anos. Nunca teve outro.
Saí de lá com o estômago embrulhado. Dirigi até o km 64. Ou até onde o km 64 deveria estar. Passei o km 63. Depois o km 65. Duas vezes. Três. Não havia placa entre eles. Não havia acostamento. Não havia nada além de asfalto molhado e neblina, e um silêncio que parecia ter sido colocado ali de propósito, como uma tampa sobre um buraco.
Estacionei onde achei que era o lugar. A neblina estava subindo.
E então vi o carro.
Prata. Modelo antigo. Parado no acostamento que não existia. Porta aberta. Chave na ignição.
Dentro, no banco do passageiro, havia uma concha.
Peguei-a. Havia algo escrito.
VOCÊ ESTÁ AQUI DESDE SETEMBRO.
O mundo girou. Olhei para minhas mãos. Para o carro. Para a estrada. Tentei lembrar da última vez que havia saído do posto. Tentei lembrar de ter ido para casa. Tentei lembrar do meu apartamento. Tentei lembrar da minha cama. Tentei lembrar. Tentei. Tentei.
Não havia nada depois de setembro. Setembro. Setembro. O posto. A neblina. A estrada. Setembro.
Minhas pernas se moveram antes que eu pudesse decidir. Quando percebi, estava sentado no banco do motorista. A chave estava na ignição. O tanque, cheio. O volante, frio sob as mãos.
Olhei para o retrovisor.
Havia alguém no banco de trás. Uma mulher de cabelos escuros. O rosto virado para o lado. Eu conhecia aquele rosto. Eu não conhecia aquele rosto.
Ela virou.
E sorriu.
Na manhã seguinte, a polícia encontrou um carro abandonado no km 64 da BR-277. Prata, modelo antigo. Porta aberta. Chave na ignição. Tanque cheio. Motor frio. Nenhum vestígio.
Nenhum sinal do motorista.
No banco do passageiro, havia uma concha.
Pequena, branca, com uma espiral perfeita.
Dentro dela, gravado com unha, um nome que ninguém reconheceu.
JOÃO.
O laudo registrou o local como km 64. O relatório anterior, arquivado no mesmo dia, não mencionava esse quilômetro.