sábado, 19 de setembro de 2026

A BOMBA 3

A BOMBA 3
Uma viagem de trabalho

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

A primeira vez que Nélson parou no posto do km 58, o frentista disse uma frase que ele não conseguiu esquecer: “O senhor voltou”.
Chovia desde Curitiba. Uma chuva fina embaçava o para-brisa e transformava os faróis dos caminhões em manchas amarelas na neblina. Dirigia pela BR-277, sentido Paranaguá, levando material odontológico para uma clínica em Morretes. Conhecia aquele trecho como as próprias mãos — a curva depois do pedágio, o radar atrás da placa, o posto do km 40, a descida íngreme antes da ponte. Não havia posto no km 58. Passava por ali duas vezes por semana, fazia onze anos.
Mas o letreiro azul cortava a neblina e um Fiat antigo, cor de vinho, ocupava a bomba 3 com a porta do motorista aberta. Vazio. Nélson reduziu. Por um segundo quase puxou para a bomba 3, como se o carro quisesse ir até ela. Corrigiu. Parou na 2. O frentista veio andando devagar, magro, de uniforme azul-marinho e nome bordado em amarelo no peito. Nélson não leu. O rapaz inclinava a cabeça para o lado, como quem escuta algo distante.
— O senhor voltou.
O cheiro de café queimado misturava-se ao diesel e à terra molhada. Uma lâmpada fluorescente piscava sobre a porta.
— Eu nunca estive aqui.
O frentista apenas assentiu, de forma quase imperceptível.
— A bomba 3, como sempre.
Voltou para a loja. Nélson encheu o tanque, pagou e guardou o recibo no bolso sem olhar.
Em Morretes, entregou o material sob a figueira antiga cujas raízes rachavam o asfalto. A recepcionista comentou que o doutor saíra cedo por causa da chuva. Ele assentiu e ficou um momento olhando o Nhundiaquara: água marrom, alta, carregando restos de galhos.
Depois, foi à casa da mãe. Fechada desde o enterro. Empurrou a porta dos fundos com o ombro. O cheiro de mofo e madeira velha veio primeiro. Louça no escorredor, toalha na mesa, calendário de 2019 ainda na parede. Na gaveta da cômoda, fotografias. Ele e Aldo na beira do rio, com os cabelos molhados. Aldo erguia uma moeda antiga, furada no meio, contra a luz. O outro menino — que deveria ser Nélson — estava de costas. Não se via o rosto. Guardou a foto.
Do lado de fora, Dona Cida estava no portão, com o mesmo avental florido de quarenta anos atrás. Olhou-o como se olhasse para um estranho, depois virou-se para o quintal, atrás do pé de araçá que ninguém podara.
— O senhor por aqui de novo?
— Vim ver a casa.
— A casa está fechada desde que a sua mãe morreu.
Ficou calada um instante.
— O senhor não tem irmão, Nélson.
A mão no bolso tocou a foto.
— O Aldo mora em São Paulo.
Ela fez o sinal da cruz rápido, quase escondido, e fechou o portão sem barulho. Nélson ficou ali sentindo o frio subir pela nuca. Lembrou da voz grossa do irmão, do pastel no Brás, da discussão pela herança. Lembrou também do peso do corpo na correnteza. Um peso que já não era de criança. Como se algo tivesse mudado dentro da água antes mesmo de ele conseguir puxar. E do grito da mãe.
Passou em frente ao cemitério municipal sem parar. Numa lápide baixa, perto do muro, viu uma data que parecia 1962.
Voltou já de noite. A neblina subia densa da serra. No km 58, o posto estava lá de novo. O Fiat na bomba 3, porta aberta. O frentista no mesmo lugar. Nélson não parou. Pelo retrovisor, viu o rapaz inclinar a cabeça.
Em casa, em Curitiba, esvaziou os bolsos. O recibo dizia 23:47. A data era de uma semana atrás. Naquela noite, ele estava no aniversário da filha: bolo, vela, o abraço apertado da menina de sete anos. Abriu a galeria do celular e ficou olhando a foto por muito tempo. Tudo parecia certo. Mas alguma coisa não encaixava.
Na manhã seguinte, ligou para o número de Aldo. Chamou. Uma voz de mulher, baixa, cansada:
— Alô?
Ele desligou. Tentou de novo. A chamada não completou.
À noite, dirigiu sem entrega e sem motivo. Passou pelo posto do km 40 sem ver. No km 58, o letreiro azul esperava. O frentista veio até a janela antes que ele decidisse parar.
— O senhor esqueceu.
Dessa vez, Nélson olhou o peito do uniforme. O nome bordado em amarelo era legível sob a luz do posto. Um nome que ele conhecia demais. No banco do passageiro, havia uma moeda antiga, furada no meio. Quente. O frentista inclinou a cabeça e voltou para a loja. Nélson pegou a moeda, guardou-a no bolso e engatou a primeira. Ao sair, olhou uma última vez para a bomba 3. O Fiat continuava lá, com a porta aberta, como se alguém tivesse acabado de descer e nunca mais voltado.
A estrada não acabava. Placa de Curitiba. Depois, placa de Morretes com a tinta descascada. O relógio do painel travado em 23:47. O mesmo poste, a mesma curva. Em determinada passagem, viu o Fiat na bomba 3 antes mesmo de chegar ao posto. Parou no acostamento. O ar frio da serra encheu os pulmões. Não havia som.
Voltou ao carro. A moeda pesava no bolso. No verso: 1962. Deu partida. Chegou a Curitiba de manhã e dormiu o dia inteiro.
Quando acordou, a foto do aniversário ainda estava aberta no celular. Olhou de novo. O homem que abraçava a menina não era ele. O rosto era outro. A menina sorria do mesmo jeito. Minutos depois, o celular vibrou. Mensagem da filha:
Pai?
Onde está o Aldo?


Naquela noite, dirigiu pela terceira vez. No km 58, não havia posto. Não havia letreiro azul. Não havia Fiat. Só a estrada, o mato e a neblina. Ele parou exatamente no lugar onde a bomba 3 ficava. Desligou o motor. O silêncio entrou pelo vidro aberto, denso, quase sólido. O relógio do painel continuava em 23:47. Ficou ali longos minutos, sentindo o cheiro de gasolina que não deveria existir, ouvindo a chuva fina sobre o teto, esperando que o letreiro azul acendesse de novo. Não acendeu. Desceu. Andou até a beira do mato. A terra estava molhada, mas não havia pegadas. Nada.
Voltou ao carro. No banco do motorista, a moeda. Ele não se lembrava de tê-la tirado do bolso. Não a pegou. Ligou o motor e seguiu. Ela ficou imóvel, brilhando fracamente na luz do painel.
Na manhã seguinte, ao pagar o café na padaria, Nélson abriu a carteira. O nome no documento era o mesmo do crachá. Fechou. Pagou. O padeiro não disse nada.
Do lado de fora, estendeu a mão para a chave. Não era a dele. No outro bolso, a moeda estava de volta. Procurou o carro na rua. Não estava onde ele havia estacionado. Em vez dele, o Fiat cor de vinho estava parado na calçada, com a porta do motorista aberta. O celular vibrou. O mesmo número de antes. Atendeu.
— O senhor voltou — disse a voz de mulher, baixa, cansada.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

DEZOITO QUILÔMETROS

DEZOITO QUILÔMETROS
Um conto de estrada

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Era a terceira vez que passava por aquela placa.
Não havia nada de especial nela. Uma chapa de metal enferrujado, lascada nas bordas, presa a dois mourões de madeira escurecida pela chuva. Dizia apenas: Morretes, 18 km. Otávio conhecia a estrada; já tinha feito aquele trajeto dezenas de vezes nos últimos anos, e a placa sempre estivera ali, no mesmo lugar, entre a curva fechada e a entrada de terra que levava a não sei quantas propriedades.
Mas era a terceira vez. Não em três viagens diferentes. Na mesma viagem. Na mesma hora. Com os mesmos caminhões lentos subindo a serra, as mesmas carrocerias cobertas por lonas escuras, os mesmos pneus pesados cantando no asfalto molhado — caminhões que ele ultrapassava e que depois reapareciam atrás dele, como se a estrada os devolvesse.
Ajustou as mãos no volante. A chuva fina de junho cobria o para-brisa como uma película de gordura, e o limpador, na velocidade mínima, deixava um rastro que se refazia em segundos. Do lado de fora, a Serra do Mar era uma parede verde-escura, quase preta, coberta por uma neblina que não subia nem descia, apenas permanecia, encaixada entre as montanhas. Ele conhecia aquela neblina. Crescera com ela. E com o cheiro que ela trazia: umidade, mato e, por baixo, quase imperceptível, o fumo de cigarro barato que o pai usava.
Olhou o relógio do painel. 16h47. 14 de junho. Tinha saído de Curitiba às três e meia, depois de uma reunião que poderia ter sido um e-mail. Uma viagem de uma hora, talvez uma hora e vinte com a chuva. Já deveria estar chegando. Mas a placa dizia dezoito quilômetros.
Da primeira vez, não pensou nada. Da segunda, achou que fosse o cansaço. Agora, com a placa surgindo de novo na curva seguinte, sentiu um arrepio que não tinha nada a ver com o frio. Pisou no freio. O carro deslizou um pouco no asfalto molhado, e ele encostou no acostamento, entre a faixa de rodagem e o barranco. Desligou o motor. O silêncio que se seguiu foi imediato, denso, como se a chuva tivesse parado de repente — mas não tinha; ele ainda a via escorrendo pelo vidro, ainda ouvia o tamborilar leve no teto.
Ficou ali, imóvel, olhando a placa pelo retrovisor.
Dezoito quilômetros.
Abriu o porta-luvas e pegou o mapa. Um mapa de papel, velho, que guardava desde os tempos em que viajava para o litoral com os pais. Dobrado em oito, gasto nas dobras, com anotações a lápis que já não faziam sentido. Procurou a BR-277, a saída para Morretes. A estrada estava lá, com a mesma configuração de sempre. E a placa, no mapa, indicava vinte e dois quilômetros. Olhou de novo pela janela. A placa continuava lá. Dezoito.
Junto com o mapa, havia uma fotografia. Uma foto antiga, com as bordas amareladas, dessas que se revelavam em farmácia. Na imagem, um adolescente de costas, na frente de uma casa de madeira. A casa de Morretes. O adolescente usava uma camisa xadrez que Otávio conhecia bem. Era ele. Tinha uns quinze, dezesseis anos. Ele nunca tinha voltado a Morretes depois dos doze. Nunca. Tinha certeza disso.
Guardou a foto de volta no porta-luvas. Fechou.
O celular vibrou no suporte. Uma mensagem da mãe: "Você chegou?"
Ele olhou a tela por alguns segundos. Acima da mensagem, duas ligações não atendidas. Uma de três semanas atrás. Outra de dois meses. Digitou: "Ainda na estrada."
Ela respondeu imediatamente: "Cuidado com a curva depois do posto."
Ele franziu a testa. Havia um posto antes da curva, um posto antigo, com um letreiro de neon que nunca acendia e um frentista que sempre parecia estar esperando alguém que não chegava. Mas depois da curva não havia nada. Só mato e barranco. Digitou: "Que posto?"
A mãe não respondeu.
Otávio ficou parado mais um tempo, olhando a tela acesa. A chuva batia no teto, regular, monótona. Pensou em voltar. Pegar a próxima entrada, dar meia-volta, retornar a Curitiba e dizer que a estrada estava intransitável. Ninguém questionaria. Mas então pensou no cliente esperando, nos documentos úmidos na pasta de couro no banco de trás. Abriu a carteira para pegar o cartão do cliente e encontrou um bilhete dobrado. Papel de caderno, letra da mãe, antiga. Dizia: "Seu pai pergunta por você." Sem data. Sem assinatura.
Ele fechou a carteira. Guardou no bolso do casaco.
Deu partida no carro e voltou para a estrada. A chuva tinha aumentado. O limpador agora trabalhava no máximo, e mesmo assim ele mal enxergava a faixa branca no asfalto. Os caminhões continuavam subindo, lentos. Ultrapassou um, depois outro, e quando olhou pelo retrovisor, os dois estavam atrás dele, na mesma posição de antes. Como se não tivessem se movido. Desta vez, ouviu um som vago sair de baixo das lonas: o som distante de um martelo batendo em madeira, no ritmo exato que o pai usava para consertar a cerca da casa de Morretes. Um ritmo que ele reconhecia na espinha.
Pisou fundo. O motor respondeu, e o carro avançou pela curva, os pneus cantando no asfalto molhado. A neblina fechou de vez. Por alguns segundos, não viu nada além de branco. Depois, a estrada reapareceu. E, à direita, o posto.
Estava lá. O letreiro de neon apagado, a bomba antiga, o prédio de azulejos manchados. Havia uma luz acesa dentro da loja de conveniência. Otávio reduziu. Não precisava parar. Mas parou. Encostou o carro no pátio de concreto rachado, desligou o motor e ficou olhando.
O frentista estava na porta. Um homem magro, de macacão azul, com um pano vermelho no bolso. Olhava para o carro de Otávio sem se mexer. Otávio abaixou o vidro.
— Boa tarde — disse.
O frentista não respondeu de imediato. Continuou olhando, como se estivesse conferindo alguma coisa. Depois disse:
— O senhor já passou por aqui hoje.
Otávio ficou quieto.
— Duas vezes — completou o frentista. E, antes que Otávio pudesse falar, acrescentou, baixo: — A primeira, o senhor estava mexendo no mapa velho. A segunda, segurava a foto do menino de costas.
— Eu não parei.
— Não disse que parou. Disse que passou.
O frentista ficou mais um instante olhando, depois virou as costas e entrou na loja. A porta de vidro bateu atrás dele. Otávio ficou parado no carro, com as mãos no volante, sentindo o frio entrar pela janela aberta. Olhou para a bomba. Olhou para a placa do posto, enferrujada, com um nome que ele não conseguia ler. Olhou para o retrovisor.
Não havia caminhões atrás dele. Não havia nada. A estrada estava vazia.
Subiu o vidro, deu partida e saiu do pátio. Enquanto dirigia, percebeu que estava repetindo baixinho, entre os dentes:
— Duas vezes.
A neblina abriu depois de alguns minutos. Primeiro, ele viu as árvores: araucárias altas, com os galhos carregados de água, pingando sem parar. Depois, as casas. Casas antigas, de madeira, com telhados de zinco e varandas vazias. Depois, a ponte.
A ponte sobre o rio. A mesma ponte de sempre, estreita, com corrimãos de ferro pintados de verde. Passou por ela devagar, ouvindo o barulho dos pneus na madeira, e quando chegou do outro lado, estava em Morretes. A cidade estava vazia. Não havia carros nas ruas. Não havia pessoas nas calçadas. As lojas estavam fechadas, com as portas de ferro abaixadas, e as placas de trânsito balançavam ao vento. A chuva tinha parado, mas o céu continuava cinza, pesado.
Otávio pegou o celular e ligou para o cliente. A chamada não completou. Tentou de novo. Nada. Olhou a tela: sem sinal. Guardou o celular. Dirigiu até a rua da casa. Subiu a ladeira devagar, passando pela igreja, pelo mercado, pela escola. Tudo fechado. Tudo silencioso. Numa casa, viu uma luz acesa na janela. Quando passou de novo, olhando pelo retrovisor, a luz tinha apagado.
Parou o carro em frente à casa da família. A madeira estava mais escura, o telhado mais baixo, a varanda menor. Mas era a mesma casa. Reconhecia a janela do quarto, a porta da cozinha, o pé de limão no quintal. No tronco da árvore, havia uma marca de faca baixa, o risco que ele fizera aos doze anos para marcar a sua altura. Ao lado, outra marca, um pouco mais alta, que ele nunca tinha visto antes. Reconhecia o cheiro, aquele cheiro de umidade e mato que entrava pelas frestas e impregnava tudo — e, por baixo dele, o cheiro de óleo de máquina e fumo do pai.
Saiu do carro e caminhou até o portão. Estava aberto. A porta da frente também. Otávio parou na soleira. O coração batia devagar, pesado. Entrou. Os passos ecoaram na madeira, e o som pareceu vir de mais de um lugar ao mesmo tempo. Atravessou o corredor, passou pela sala vazia, pela cozinha com a pia enferrujada, e chegou ao fundo da casa. A porta do porão estava aberta. Desceu.
O porão era menor do que ele lembrava. O teto baixo, as paredes de pedra, o chão de terra batida. No canto, uma prateleira com potes vazios e uma corda enrolada. No centro, a caixa de ferramentas. Otávio agachou-se e abriu a caixa. Dentro, o martelo, a chave de fenda, o alicate. E uma chave. Uma chave pequena, de metal amarelado, do tamanho de um dedo. Ele pegou. A chave estava levemente morna. Pesava mais do que deveria. O pai sempre usava essa chave num cordão no pescoço. Ela não deveria estar ali.
Em cima, na escada, havia uma camisa xadrez pendurada no corrimão. Uma camisa antiga, desbotada, que ele conhecia. O cheiro de fumo entrou no porão, misturado com a umidade. Por um segundo, pareceu que alguém vestia a camisa. Otávio não virou. Ouviu passos no andar de cima. Uma cadeira arrastada. Uma porta que abriu e não fechou.
— Você voltou — disse uma voz atrás dele.
Otávio não reconheceu a voz. Não era a do pai. Era a dele.
Ficou parado, ajoelhado no chão de terra, com a chave na mão. Não respondeu. Não olhou para trás. O cheiro de fumo ficou mais forte, depois diminuiu, depois sumiu. Quando finalmente se levantou e subiu a escada, o porão estava vazio. A camisa xadrez continuava pendurada no corrimão. Ele passou por ela sem tocar.
No andar de cima, antes de sair, viu uma fotografia na parede da sala. Uma foto antiga, emoldurada, que ele não lembrava de ter visto antes. Um adolescente de costas, na frente da casa. A camisa xadrez. Ele mesmo. A mesma foto do porta-luvas. Presa na parede, como se sempre tivesse estado ali.
Saiu pela porta da frente, correu até o carro, entrou e trancou as portas. Ficou ali, respirando fundo, com as mãos no volante, olhando para a casa. Ligou o carro e deu ré. Desceu a ladeira rápido, passou pela igreja, pelo mercado, pela escola. As ruas continuavam vazias. A ponte continuava lá. Atravessou, sentindo a madeira ceder sob os pneus, e quando chegou do outro lado, a estrada estava aberta.
Pisou fundo. A neblina fechou de novo, e por alguns minutos não viu nada além de branco. Depois, a estrada reapareceu. E com ela, a placa.
Morretes, 18 km.
Otávio não parou. Continuou dirigindo, os olhos fixos na estrada, as mãos apertando o volante. A chuva voltou, fina, persistente. Quando chegou em Curitiba, estacionou em frente ao prédio e ficou dentro do carro por um longo tempo. O painel ainda marcava 14 de junho. O celular vibrou. Uma mensagem da mãe: "Você chegou?"
Olhou a tela. Depois, olhou o banco de trás. A pasta de couro continuava lá. Os documentos, as bordas úmidas, o cheiro de papel molhado. Abriu a pasta. Os documentos estavam intactos. Nenhuma chave. Levou a mão ao bolso do casaco. A chave estava lá. Pequena, de metal amarelado, do tamanho de um dedo.
Abriu o porta-luvas para guardar a foto. O frasco de remédio continuava ali, sem receita, sem nome legível. Estava vazio.
Subiu as escadas. Enfiou a chave na fechadura do apartamento, por hábito, sem pensar. A chave entrou. Girou. A porta abriu. Ele ficou parado no corredor do prédio, com a mão na chave, olhando a porta aberta.
Entrou. A mãe estava sentada na sala, olhando para ele. Sobre a mesa de centro, um copo d'água pela metade, como se estivesse ali há horas. A mão esquerda dela repousava sobre a mesa, e ele notou a cicatriz pequena na palma — feita quando ele, aos dez anos, deixara cair a chave da caixa de ferramentas nela.
— Você tá molhado — ela disse. — Tira esse casaco.
Otávio fechou a porta. Ficou parado, no meio da sala, sentindo o peso da chave no bolso. Olhou para a mãe. Ela estava com a mão estendida, a palma aberta.
— Não era para você ter ido — disse ela.
— Por quê?
Ela não respondeu. Os olhos dela foram para o bolso do casaco dele.
— Você foi sozinho naquele ano — disse ela, por fim. — Eu não fui.
Otávio olhou para a mão dela. Depois, para a janela. No vidro escuro, refletida, havia uma placa.
Morretes, 18 km.
Ele não virou. Colocou a chave na palma da mãe. Ela fechou os dedos devagar, pousando a chave exatamente sobre a cicatriz. No bolso do casaco, onde a chave tinha estado, ouviu-se o barulho de metal contra metal.
Curitiba — Morretes, inverno de 2026.

O TERCEIRO ANDAR

O TERCEIRO ANDAR
Algumas coisas que desaparecem não querem ser encontradas.

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Matinhos estava quase vazia quando Augusto voltou.
Fora de temporada, a cidade parecia maior. Os quiosques permaneciam fechados sob lonas presas por cordas, as casas de veraneio exibiam piscinas cobertas e cadeiras empilhadas atrás dos muros, e o movimento da avenida diminuía assim que a tarde perdia a luz. Depois, ficavam o vento, algumas janelas acesas e o mar atrás dos telhados.
Augusto tinha vindo vender a casa da mãe.
Helena fora enterrada no inverno anterior.
Nos últimos meses, vivera numa clínica em Curitiba. Havia dias em que reconhecia o filho e dias em que o chamava pelo nome do irmão mais velho, morto quando criança. No fim, já não reconhecia ninguém.
Augusto preferia lembrar dela antes disso.
A casa permanecera fechada desde o funeral.
No segundo dia, começou a esvaziar os armários.
Encontrou roupas, contas, panelas, fotografias, documentos e uma caixa de madeira escondida atrás de cobertores.
Dentro havia botões, moedas, duas chaves, uma presilha azul e uma pequena lanterna de metal.
A lanterna era pesada.
Havia areia dentro do vidro.
Augusto girou o objeto entre os dedos.
Tentou acendê-lo.
Nada.
Bateu duas vezes contra a palma.
Uma luz amarela apareceu por um instante e morreu.
Colocou a lanterna sobre a mesa.
Continuou arrumando a casa.
Mais tarde percebeu que estava olhando para ela.
Não sabia por quê.
Naquela tarde foi ao bar de Arnaldo.
O velho demorou alguns segundos para reconhecê-lo.
— Augusto.
— Faz tempo.
— Faz.
Arnaldo serviu café.
Não perguntou se ele queria.
Ficaram em silêncio enquanto uma televisão transmitia um jogo antigo sem som.
Augusto mexeu a colher na xícara.
— Minha mãe vinha aqui?
— Às vezes.
— Falava de mim?
Arnaldo continuou limpando um copo.
— Falava pouco.
Augusto esperou.
— Encontrei uma caixa na casa.
O pano parou.
— O que tinha?
— Uma lanterna.
Arnaldo levantou os olhos.
— Ainda estava lá?
Augusto assentiu.
O velho voltou ao copo.
— Então ela guardou.
— O quê?
Arnaldo não respondeu.
Do lado de fora, uma rajada de vento fez a porta de metal bater.
Augusto olhou para o morro.
— Minha mãe esteve lá?
Arnaldo acompanhou seu olhar.
— No Escalvado?
Augusto assentiu.
O velho demorou.
— Você lembra da história?
— Qual?
— A do terceiro andar.
— Da gruta?
Arnaldo olhou para ele.
— Não são três andares.
Augusto esperou.
— São três níveis. O terceiro é o nome que deram ao último.
— E o que tem lá?
Arnaldo dobrou o pano.
— Pedra.
— Só?
O velho levantou os olhos.
— Para quem volta.
Naquela noite, Augusto encontrou uma folha dentro de uma gaveta da cozinha.
A letra era de Helena.
NÃO DEIXE AUGUSTO DESCER.
Abaixo, quase apagado:
Ele já desceu.
Augusto ficou sentado diante da mesa.
Tentou lembrar.
Uma escada.
Um cheiro de terra molhada.
A voz da mãe:
— Fica aqui.
Depois:
— Não olha para trás.
A lembrança terminava ali.
Na manhã seguinte, subiu o Morro do Escalvado.
O caminho estava úmido. O solo cedia sob os tênis nos trechos mais inclinados, e Augusto precisou se apoiar em troncos e raízes para continuar. A vegetação fechava-se sobre a trilha.
A entrada da gruta não parecia uma entrada.
Era uma fenda baixa entre dois blocos de rocha, parcialmente escondida por raízes e folhas acumuladas.
Augusto se agachou.
Uma mancha azul estava presa à pedra.
Entrou.
Precisou avançar de lado nos primeiros metros.
A luz de fora desapareceu depressa.
O teto baixou.
O cheiro de terra molhada aumentou.
Havia água escorrendo pela parede e formando pequenas poças no chão irregular.
Augusto acendeu o celular.
A luz revelou riscos na pedra.
Nomes.
Datas.
Alguns quase apagados.
JORGE
MÁRIO
RENATO
Mais abaixo:
HELENA
O nome estava riscado várias vezes.
Ao lado havia uma pequena marca azul.
Augusto tocou.
A pedra estava gelada.
A presilha apareceu entre duas rochas.
Ele a pegou.
A lembrança veio.
Dez anos.
Praia.
Helena procurando alguma coisa na areia.
— Não sai daqui.
Ele esperava.
Ela encontrou a presilha.
Prendeu o cabelo.
Depois segurou sua mão.
Os dois começaram a caminhar.
Em direção ao morro.
Augusto abriu os olhos.
O celular piscou.
Apagou.
Voltou.
Apagou novamente.
No escuro, ouviu água.
Uma gota.
Outra.
Depois uma respiração.
A respiração parou.
Augusto continuou.
A luz voltou por um segundo.
Havia um sapato infantil azul no chão.
Mais adiante, uma carteira de couro.
Depois um relógio sem ponteiros.
Uma chave.
Os objetos estavam encostados nas partes mais secas da pedra.
Augusto não tocou em nenhum.
A passagem estreitou.
Precisou apoiar as duas mãos na rocha para atravessar.
A água entrou pela manga da camisa.
O cheiro de bolor se misturava ao cheiro metálico da pedra molhada.
Quando a passagem se abriu, ele não sabia mais dizer se havia descido cinco metros ou cinquenta.
O segundo nível era apenas uma área mais larga da formação rochosa.
O teto subia o suficiente para que pudesse ficar de pé.
Havia marcas de passos no barro.
Algumas antigas.
Uma delas estava nítida.
Pequena.
Augusto aproximou o celular.
A luz apagou de vez.
No escuro, ouviu passos.
Leves.
Rápidos.
De criança.
Os passos atravessaram o segundo nível.
Depois começaram a subir.
Augusto ficou parado.
Não sabia mais se estava ouvindo os passos acima ou abaixo dele.
Então percebeu que estava segurando a lanterna.
Não lembrava de tê-la tirado do bolso.
Ela estava acesa.
A luz era fraca.
Amarela.
Apontava para uma abertura na rocha.
Augusto passou por ela.
A passagem inclinava-se para baixo.
Não havia escada.
Era uma fenda estreita, lisa pela água.
Ele desceu de costas, apoiando as mãos nas laterais e procurando os pontos onde os pés pudessem firmar.
A pedra escorregou sob o tênis.
Por um instante, Augusto perdeu a direção.
Não sabia se estava descendo ou subindo.
Fechou os olhos.
Quando abriu, viu uma porta branca.
Parou.
A porta estava encaixada na pedra.
Não havia parede.
Não havia espaço para ela.
A maçaneta era dourada.
Augusto tocou.
Abriu.
A cozinha da mãe estava do outro lado.
A toalha florida.
A geladeira antiga.
O armário.
O pote de açúcar.
O relógio.
O cheiro de café.
Havia cinco cadeiras.
Augusto contou.
Uma.
Duas.
Três.
Quatro.
Cinco.
Sempre tinham sido quatro.
Helena estava sentada à mesa.
Levantou os olhos.
— Você está molhado.
Ela se levantou.
Pegou uma toalha.
Aproximou-se.
Começou a secar o cabelo dele.
A toalha áspera atrás das orelhas.
A mão pressionando sua cabeça.
Augusto fechou os olhos.
Quando abriu, havia um menino sentado à mesa.
Dez anos.
Casaco azul.
Comia bolo de fubá.
O menino levantou o rosto.
— Você trouxe meu casaco?
Augusto olhou para ele.
— Não.
O menino baixou os olhos para o próprio casaco.
— Está comigo.
Helena voltou a sentar.
Na cadeira ao lado havia um casaco masculino.
Augusto reconheceu.
Era do pai.
Sentiu o cheiro de cigarro e sabão.
Na quinta cadeira havia um prato vazio.
Mas o prato estava quente.
Augusto tocou.
Retirou a mão.
— Mãe.
Helena passou manteiga no pão.
— Você lembra da presilha?
Augusto olhou para o cabelo dela.
A presilha azul estava ali.
— Lembro.
Ela assentiu.
O menino continuou comendo.
Augusto puxou uma cadeira.
— O que aconteceu?
Helena parou o movimento.
Não respondeu.
Ele olhou para o menino.
— Quem é você?
O menino levantou os olhos.
— Augusto.
— Eu sou Augusto.
O menino deu de ombros.
— Eu sei.
Augusto olhou para Helena.
Ela estava olhando para os dois.
Como se comparasse alguma coisa.
Depois empurrou o prato de bolo para o centro da mesa.
— Come.
Augusto não se mexeu.
— Você não me reconhecia.
Helena segurou a xícara com as duas mãos.
— Aqui reconheço.
Ele sentiu a garganta apertar.
— Por quê?
Ela olhou para o menino.
Depois para Augusto.
Não disse nada.
O menino parou de comer.
— Você precisa ir.
Augusto olhou para a porta.
— Por quê?
O menino não respondeu.
Helena fechou os olhos.
— Não olha para trás.
Augusto levantou.
A cadeira rangeu.
Atravessou a porta.
Parou do outro lado.
Não ouviu nada.
Olhou para trás.
Havia apenas rocha.
A porta desaparecera.
Augusto voltou pela passagem.
A descida parecia diferente.
O sapato não estava mais lá.
Nem a carteira.
Nem o relógio.
Ele continuou.
A entrada apareceu diante dele.
Arnaldo estava sentado perto das pedras.
O velho olhou para a presilha na mão de Augusto.
Depois para o rosto dele.
— Você entrou.
Augusto assentiu.
— Minha mãe estava lá.
Arnaldo ficou em silêncio.
— Ela estava fazendo café.
O velho baixou os olhos.
— Então era a cozinha.
Augusto ficou esperando.
— Você já esteve lá.
Arnaldo não respondeu.
— O que viu?
O velho esfregou o polegar no indicador.
— Uma menina.
Augusto franziu a testa.
— Sua filha?
Arnaldo olhou para o morro.
— Eu não tinha filha.
E foi embora.
Augusto voltou para casa.
Colocou a presilha sobre a mesa.
A lanterna estava onde a deixara.
Pegou.
Sacudiu.
A areia se moveu.
Tentou acender.
Nada.
Foi até a pia.
Lavou o rosto.
Quando voltou, havia cinco cadeiras.
Augusto parou.
Contou.
Uma.
Duas.
Três.
Quatro.
Cinco.
Não tocou em nenhuma.
Na quinta cadeira havia uma pequena marca de mão.
Molhada.
Na mesa, o café começou a soltar vapor.
O cheiro de bolo veio depois.
Augusto recuou.
Uma cadeira rangeu.
A quinta.
A voz do menino veio de trás.
— Você trouxe meu casaco?
Augusto não respondeu.
Olhou para a cadeira.
O casaco azul estava sobre ela.
Molhado.
Ele o pegou.
No bolso havia uma fotografia.
Augusto aproximou-a da luz.
Helena diante da entrada da gruta.
Os três homens.
O menino.
Na entrada, uma mulher segurava uma lanterna.
O rosto estava borrado.
Augusto passou o dedo sobre a imagem.
A fotografia estava úmida.
A tinta começou a escorrer.
O rosto do menino deformou-se primeiro.
Depois o de Helena.
Augusto virou o papel.
No verso havia apenas:
AGOSTO DE 1997.
Nada mais.
Atrás dele, uma cadeira foi puxada.
Augusto não se virou.
Outra.
Depois outra.
Quatro.
Uma quinta arrastou-se lentamente pelo piso.
A voz da mãe veio da porta.
— Não olha para trás.
Augusto apertou a fotografia.
A lanterna acendeu.
A luz caiu sobre o chão.
Os azulejos desapareceram.
Havia pedra.
Água.
A fenda.
E, muito abaixo, uma pequena luz.
Augusto ficou imóvel.
Outra luz apareceu.
Depois outra.
Três pontos amarelos no escuro.
A primeira começou a subir.
Augusto recuou.
Uma mão pequena surgiu na abertura.
Depois outra.
O menino começou a subir.
Augusto reconheceu o casaco.
Não o rosto.
O rosto estava molhado.
A criança levantou a cabeça.
— Você demorou.
Augusto deu um passo para trás.
A cozinha desapareceu.
Arnaldo chegou à casa na manhã seguinte.
A porta estava aberta.
Chamou por Augusto.
Nada.
Entrou.
A cozinha estava arrumada.
Quatro cadeiras.
Sobre a mesa, a fotografia.
Arnaldo pegou.
Helena diante da gruta.
Os três homens.
O menino.
A entrada escura.
Ele aproximou a fotografia dos olhos.
Havia alguém atrás da criança.
Um homem.
De costas.
Arnaldo conhecia o casaco.
Virou a fotografia.
O verso estava branco.
Completamente branco.
A lanterna estava ao lado.
Arnaldo tocou.
Acendeu.
A luz caiu sobre o chão.
Os azulejos desapareceram.
Por um instante havia pedra molhada sob seus pés.
Uma abertura estreita.
Uma mão pequena apareceu na borda.
Arnaldo recuou.
A mão desapareceu.
Então ouviu:
— Pai?
Ele ficou parado.
A voz veio outra vez.
Mais perto.
— Pai?
Arnaldo olhou para a lanterna.
A luz tremia.
No chão, a sombra dele não estava sozinha.
Havia uma segunda sombra.
Menor.
Arnaldo não se virou.
Sentiu uma mão pequena fechar-se sobre a sua.
A lanterna apagou.
E alguma coisa começou a puxá-lo para baixo.

A Filha que Ninguém Lembra

A Filha que Ninguém Lembra
Sentido Paranaguá

Tadeu Everton Zamoiski
Curitiba, meados de 2026

No quilômetro 38 da BR-277, sentido Paranaguá, há uma placa que não deveria existir.
Nelson a viu pela primeira vez numa terça-feira, quando voltava de Matinhos com a Fiorino vazia. Era pequena, de madeira, pintada à mão com letras irregulares, presa a um poste de luz por arame enferrujado. Dizia apenas: «Retorno — 2 km». Havia dezenas de placas assim em toda a serra, indicando acessos a sítios, pousadas, restaurantes de beira de estrada. Na quinta, quando fez o mesmo trajeto, a placa dizia a mesma coisa. Nelson diminuiu a velocidade e teve a impressão nítida de que, na terça, ela indicava três quilômetros. Não tinha certeza, e não tinha como ter certeza; comentou com a esposa naquela noite, enquanto jantavam em silêncio na cozinha apertada do apartamento no Portão. Ela disse que devia ser coisa de obra — aquele trecho vive caindo barreira — e não levantou os olhos do prato. Ele não insistiu.
Fazia três meses que a filha tinha ido embora. Dezoito anos, uma mochila, um namorado que ninguém conhecia. Não houve briga, não houve despedida longa, não houve nada que servisse de marco. Ela apenas desceu as escadas do prédio numa manhã de fevereiro, com o casaco cinza que usava desde os quinze anos, e não voltou. Nelson não perguntou para onde ia, não perguntou se precisava de dinheiro, não perguntou nada. Ficou parado na porta, vendo-a sumir na esquina, e depois fechou a porta e foi trabalhar. O casaco dela continuou pendurado no cabideiro da entrada, no mesmo lugar onde ela o deixava todas as noites, e nem ele nem a esposa o tiraram dali.
Na semana seguinte, Nelson notou o restaurante. Era uma construção antiga de madeira escurecida pela chuva, com letreiro desbotado, no acostamento antes de Morretes. Ele parava ali desde que começou a trabalhar na região. Naquela quinta, as janelas estavam cobertas por tábuas, o mato invadia a entrada, e não havia placa de reforma nem nada. Nelson estacionou e ficou olhando. Lembrava-se do gosto do barreado, da mesa perto da janela, da chuva batendo no telhado de zinco. Perguntou ao frentista do posto em frente. O homem, magro, de uns sessenta anos, com olheiras fundas, balançou a cabeça devagar.
— Esse restaurante está fechado há mais de ano, senhor.
Nelson não respondeu. Pagou a gasolina e voltou para a estrada. Na sexta, parou no mesmo posto, no fim da tarde, e o frentista o cumprimentou pelo nome: «Boa noite, Nelson». Ele nunca tinha dito o nome, nunca tinha preenchido cadastro, nunca tinha pago com cartão nominal, nunca tinha feito nada que justificasse aquilo. Ficou parado ao lado da bomba, com a mangueira na mão. O frentista não explicou. Encheu o tanque, recebeu o dinheiro, voltou para dentro da loja. Na semana seguinte, quando Nelson passou de novo pelo mesmo posto, havia outro homem atrás do balcão, mais jovem, de barba rala. Nelson perguntou pelo frentista de antes. O rapaz franziu a testa.
— Aqui nunca teve turno da noite, senhor. Fecho às seis.
— ✦ —
A concha apareceu pela primeira vez num bolso do casaco, numa manhã de maio em Matinhos. Nelson tinha ido até lá por motivo nenhum — uma entrega cancelada, uma tarde livre, a necessidade de ver o mar. A praia estava vazia, o mar cinzento, o vento frio atravessando o cais. Caminhou pela areia molhada até a altura dos pescadores, que consertavam redes em silêncio, e o bolso tinha um peso que ele não conhecia. A concha era pequena, branca, com uma listra marrom atravessando a superfície. Ele não se lembrava de tê-la pegado, mas colocou-a de volta no bolso e esqueceu.
Duas semanas depois, encontrou-a na caixa de ferramentas da Fiorino, entre uma chave de fenda e um rolo de fita isolante. Era a mesma concha — a mesma listra, a mesma curvatura —, mas estava quente. Não morna, não aquecida pelo sol, porque a caixa ficava na sombra e o dia estava frio. Quente como se alguém a tivesse segurado por muito tempo, minutos antes. Nelson ficou com ela na mão por um momento, sentindo o calor subir pela palma, e depois a guardou no bolso. Naquela noite, tirou-a do casaco e colocou-a na gaveta da cozinha, atrás dos guardanapos. Não contou à esposa.
O casaco da filha continuava no cabideiro. Nelson passava por ele toda manhã, ao sair, e toda noite, ao voltar, e nunca o tocava. Mas começou a notar que o tecido estava úmido — não molhado, apenas úmido, como se tivesse sido usado na chuva e pendurado de qualquer jeito. Não chovia dentro do apartamento, não chovia há dias, e ele não disse nada. Uma manhã, tomou coragem e apalpou o bolso do casaco. Estava vazio. Mas a ponta dos dedos saiu com um cheiro leve de maresia, e ele ficou parado no corredor, com a mão no bolso do casaco da filha.
— ✦ —
Na quinta-feira seguinte, Nelson fez o trajeto Curitiba–Paranaguá com o relógio do painel marcando uma hora e vinte. Quando chegou ao destino, o relógio marcava três e quarenta. Olhou para o sol, que estava baixo demais para aquela hora, olhou para o celular, e o celular confirmava. Tinha saído ao meio-dia e chegado às três e quarenta, e a estrada não tinha obra, não tinha desvio, não tinha trânsito. Fez a entrega, voltou, e no caminho parou no acostamento para verificar o mapa. O GPS mostrava um trecho reto, sem desvios, sem acessos. Mas, à frente, a estrada se dividia em duas. Uma delas não aparecia em lugar nenhum. Escolheu a que conhecia e chegou em casa duas horas depois.
Naquela noite, abriu a gaveta da cozinha para pegar um guardanapo e a concha não estava lá. Procurou nos outros armários, no lixo, no bolso do casaco. Nada. Dormiu mal, acordou cedo, e quando foi pegar o casaco para sair, o bolso tinha o mesmo peso da primeira vez. A concha. A mesma. A listra marrom, a mesma curvatura. Não estava quente desta vez. Estava fria como pedra.
— ✦ —
Ele começou a cronometrar a estrada. Anotava no bloco de pedidos da Fiorino a hora de saída, a hora de chegada, o número de quilômetros no painel. Na segunda, a viagem de Curitiba a Morretes levou uma hora e quarenta. Na terça, duas horas e dez. Na quarta, uma hora e vinte e cinco. Na quinta, quatro horas.
Na sexta, Nelson chegou a um cliente em São José dos Pinhais e o homem o recebeu com um sorriso.
— Já entregou, chefe. Semana passada.
Nelson olhou para o bloco. A página da semana anterior tinha uma assinatura no canhoto. Era dele. Ele não lembrava de ter entregado, não lembrava de ter estado ali. Mas a letra era a dele — os r tortos, o z cortado — e o cliente confirmava. Nelson guardou o bloco no bolso e foi embora sem discutir.
No fim do dia, quando abriu o bloco para anotar o horário, a página estava diferente. A letra era dele, mas as anotações diziam outras coisas. Números que ele não tinha escrito, horários que não correspondiam a nada. E, no fim da página, uma frase que ele nunca teria escrito: «Você já chegou.» Ele arrancou a página, amassou, jogou pela janela. Seguiu dirigindo. No km 38, a placa não dizia mais Retorno. Dizia: Bem-vindo.
— ✦ —
Nelson decidiu ir até Morretes sem entrega, sem motivo. Havia uma construção antiga na estrada secundária que ligava Morretes à Serra do Mar, de madeira, com telhado de duas águas e janelas escuras. Ele passava por ela desde que começou a trabalhar na região, mas nunca tinha prestado atenção. Agora, não conseguia parar de pensar nela. A casa estava lá, como sempre. Fechada, silenciosa, cercada de mato alto. A chuva fina caía sobre o telhado, escorrendo pelas calhas enferrujadas. Nelson estacionou no acostamento e ficou olhando. Uma cortina se moveu numa janela do andar de cima, pequena, quase escondida pela vegetação.
Ele desceu do carro. A estrada estava vazia, o silêncio só quebrado pela chuva e pelo murmúrio distante de um rio. Caminhou até o portão, que estava aberto, e entrou. A porta da casa estava destrancada.
Dentro, o cheiro era de mofo e madeira úmida. Os móveis estavam cobertos por lençóis brancos. Havia fotografias nas paredes, mas os rostos estavam desbotados, cobertos por poeira. Na cozinha, uma xícara sobre a mesa. Ainda estava morna. No cabideiro da entrada, um casaco cinza. Nelson parou. O casaco tinha a mesma cor, o mesmo tecido, os mesmos bolsos fundos do casaco da filha. Ele não o tocou. Subiu as escadas. O corredor era estreito, escuro, com portas fechadas dos dois lados. Abriu a primeira. Um quarto vazio, com uma cama de solteiro e um armário embutido. A segunda. Outro quarto, com uma escrivaninha e uma cadeira. Sobre a escrivaninha, um caderno aberto.
A letra era familiar. Os r tortos, o z cortado. A letra dele.
Se você está lendo isso, é porque voltou.
Virou a página.
Eu esperei. Fiquei aqui por muito tempo. Mas você nunca veio.
Outra página.
Agora eu sei que não é você. É outra pessoa. Sempre é outra pessoa.
Nelson fechou o caderno. As mãos estavam tremendo.
— Você voltou.
Ele se virou. Na porta do quarto, uma mulher o observava. Era jovem, talvez vinte anos, com cabelo escuro e olhos fundos. Vestia uma blusa fina, inadequada para o frio, e estava descalça. Nelson não a reconheceu. Ficaram os dois parados, um diante do outro, por um tempo que Nelson não conseguiu medir. A mulher olhou para o caderno na mão dele e não disse nada. Apenas olhou, como se soubesse que ele o tinha pegado, e depois desviou os olhos para a janela, para a chuva, e ficou ali, parada, esperando alguma coisa que Nelson não sabia o que era. Ele deu um passo para trás. Desceu as escadas. Atravessou a sala. Saiu pela porta. A chuva continuava caindo, fina e persistente. Entrou no carro e ligou o motor. Quando olhou pelo retrovisor, a mulher estava na metade da escada, descalça, parada, olhando para ele através da porta aberta. Ele engatou a primeira e acelerou. Quando olhou de novo, a porta estava fechada.
— ✦ —
Dirigiu por horas. Passou por Morretes, por Paranaguá, por Matinhos. Voltou para Curitiba. Estacionou em frente ao prédio. Subiu as escadas. Abriu a porta. A esposa estava na cozinha, preparando o jantar.
— Você está atrasado — disse ela, sem se virar.
Nelson olhou para o relógio da parede. Marcava seis e meia. Tinha saído de casa às nove da manhã.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou.
— Não. Por quê?
Ele não respondeu. Foi até o quarto, tirou o casaco e sentiu o peso no bolso. A concha. Tirou-a e olhou para a superfície. A listra marrom ainda estava lá. Mas havia areia presa nas ranhuras, areia molhada, escura, de praia. Nelson nunca tinha levado a filha à praia. A filha nunca tinha ido a Matinhos. Ele guardou a concha no bolso e voltou para a sala.
A esposa estava sentada à mesa, com a concha na mão. A mesma concha. A listra marrom, a mesma curvatura, a areia molhada. Nelson parou no meio da sala.
— Onde você achou isso?
— No quarto dela.
— De quem?
A esposa levantou os olhos. Olhou para ele com uma expressão que Nelson não conseguiu decifrar — não era surpresa, não era medo; era algo mais próximo do cansaço.
— Da nossa filha, Nelson.
Nelson ficou parado. Não porque não soubesse de quem ela estava falando, mas porque, por um instante, não soube. Como se a palavra filha tivesse chegado antes do rosto, e o rosto não viesse.
— Nós não temos uma filha.
A esposa o olhou como se ele tivesse dito algo obsceno. Não respondeu. Pousou a concha na mesa, devagar, como se estivesse colocando um objeto frágil no lugar. Levantou-se. Foi até o cabideiro da entrada. Tocou o casaco cinza, que continuava pendurado ali, no mesmo lugar onde estava há três meses. Passou a mão pela manga, como se estivesse alisando o tecido.
Nelson olhou para o cabideiro. Havia um gancho vazio ao lado do casaco. Ele ficou olhando para o gancho por um tempo maior do que deveria.
— Que casaco? — perguntou ele.
A esposa não respondeu. Continuou alisando a manga do casaco, sem olhar para ele.
— ✦ —
Naquela noite, Nelson acordou com sede. Foi até a cozinha, bebeu um copo de água e, quando voltou para o quarto, notou que a porta da entrada estava aberta. Não escancarada, apenas encostada. Ele foi fechar. No cabideiro, o casaco cinza não estava mais. O gancho estava vazio. Nelson ficou parado por um momento, olhando para o gancho, e depois fechou a porta e voltou para a cama. Não acordou a esposa. Não procurou o casaco. Deitou-se de costas, olhando para o teto, ouvindo a chuva, sentindo a concha no bolso do pijama, e adormeceu pensando que na manhã seguinte precisaria fazer uma entrega em Matinhos.
— ✦ —
Na manhã seguinte, Nelson pegou a estrada. Não tinha entrega marcada. Não disse nada à esposa. Apenas saiu, entrou na Fiorino e dirigiu até o km 38 da BR-277. A placa ainda estava lá. Agora dizia: Você já chegou.
Ele seguiu em frente. No quilômetro seguinte, havia uma saída. Uma estrada de terra, estreita, que não aparecia em nenhum mapa. Nelson entrou nela. A casa estava no fim do caminho. A porta estava aberta.
Dentro, a mesa da cozinha estava posta para duas pessoas. Duas xícaras, dois pratos, dois talheres. A água ainda estava quente. Sobre a segunda cadeira, o casaco cinza. Não pendurado. Vestido. Como se houvesse um corpo dentro. O corpo não se mexia. Nelson não olhou diretamente. Aproximou-se da mesa. Sentou-se na primeira cadeira. A xícara da segunda cadeira soltava vapor. Ele não olhou para a segunda cadeira. Ficou olhando para a própria xícara, que estava fria, e para a chuva que continuava caindo do lado de fora.
Na escrivaninha do andar de cima, que agora estava encostada na parede da sala, o caderno continuava aberto. Nelson não lembrava de tê-lo trazido, não lembrava de ter subido para pegá-lo. Mas estava ali, na sala, aberto, e a página tinha uma nova frase, na letra dele: Você já chegou. Agora sente.
Nelson sentou. A xícara esfriou. A chuva continuou. Em algum momento da tarde, ele estendeu a mão e tocou o casaco cinza. O tecido estava úmido. A manga estava morna, como se alguém a tivesse vestido minutos antes. Ele não olhou para dentro do capuz, não olhou para o rosto que poderia estar ali. Apenas deixou a mão sobre a manga, sentindo o calor passar para os dedos, e ficou assim, parado, ouvindo a chuva, até que a luz começou a diminuir e a xícara da segunda cadeira esfriou também.
Quando anoiteceu, Nelson levantou-se. Não olhou para a segunda cadeira. Atravessou a sala. Saiu pela porta. Entrou no carro. Ligou o motor. A estrada de terra não estava mais lá. Havia apenas mato, e a casa atrás dele, e a BR-277 adiante. Nelson dirigiu até Curitiba. Estacionou em frente ao prédio. Subiu as escadas. Abriu a porta.
A esposa estava na cozinha, preparando o jantar.
— Você está atrasado — disse ela, sem se virar.
Nelson olhou para o relógio da parede. Marcava seis e meia. Foi até o cabideiro da entrada. O gancho estava vazio. Ele tirou o casaco e o pendurou no gancho. O casaco ficou pendurado. Nelson olhou para ele por um momento e não conseguiu se lembrar de já ter usado aquela peça antes.
— Achei uma coisa no quarto — disse a esposa, da cozinha.
Nelson não respondeu.
— Uma concha.
Ele levou a mão ao bolso. Estava vazio.
— De quem é? — perguntou a esposa.
Nelson olhou para o gancho, onde o próprio casaco pendurado parecia menor do que deveria ser, e para a esposa, que esperava uma resposta, e para a janela, onde a chuva continuava caindo sobre Curitiba, fina e persistente. Pensou em dizer alguma coisa. Mas não conseguiu se lembrar do que era. Não conseguia se lembrar de nada que tivesse acontecido antes daquela manhã, quando entrou na Fiorino e pegou a estrada, e a única coisa que sabia era que não deveria ter voltado.
— Não sei — disse ele.
A esposa não respondeu. Continuou mexendo a panela. E Nelson ficou parado no meio da sala, ouvindo a chuva, com o casaco pendurado no gancho.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O VAGÃO QUE DESCEU DEPOIS

O VAGÃO QUE DESCEU DEPOIS
Há viagens que continuam mesmo depois que o passageiro chega

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Álvaro decidiu ir a Morretes numa sexta-feira de manhã, três meses depois da morte da mãe, quando finalmente encontrou coragem para mexer nos livros que ela havia deixado. Durante semanas evitara aquela estante. Não porque os livros trouxessem sofrimento, mas porque cada um parecia conservar alguma coisa da mulher que os havia tocado tantas vezes. A mãe dobrava discretamente os cantos das páginas, guardava contas entre os capítulos e escrevia pequenas observações nas margens. Álvaro conhecia aqueles sinais. O que não conhecia eram as coisas que ela havia decidido esconder.
Na noite anterior, enquanto separava alguns volumes para doação, um livro caiu da prateleira. Uma passagem de trem escorregou de dentro das páginas e pousou no chão. Álvaro a pegou esperando encontrar apenas um pedaço de papel velho, mas reconheceu imediatamente o destino impresso no bilhete: Curitiba-Morretes. A data era de muitos anos antes. Vagão 4, assento 11.
Virou a passagem.
No verso havia uma anotação da mãe, quase apagada pelo tempo. Álvaro aproximou o papel da luz, inclinou-o várias vezes e tentou seguir os traços com a ponta do dedo, mas conseguiu distinguir apenas algumas letras. Reconheceu a caligrafia. A frase inteira, porém, permanecia escondida.
Naquela noite, lembrou-se de uma coisa que não pensava havia muitos anos: a mãe nunca gostara de trens.
Quando criança, Álvaro perguntara por que nunca faziam a viagem até Morretes. Ela respondera que havia lugares para os quais não valia a pena voltar. Ele rira, pensando que fosse uma daquelas respostas de adulto que não significavam nada. Mais tarde, quando insistiu, ela apenas dissera:
— Trens levam as pessoas para longe demais.
Foi tudo.
Na manhã seguinte, Álvaro comprou uma passagem para Morretes.
Não havia motivo prático para a viagem. Não precisava visitar ninguém, não tinha reserva marcada nem compromisso na cidade. Disse a si mesmo que queria conhecer a paisagem que a mãe havia evitado durante tantos anos, mas sabia que não era exatamente isso. Guardou a passagem antiga na carteira e foi para a estação.
Chegou pouco antes do embarque, tomou um café e ficou observando os passageiros. Havia famílias com crianças, casais carregando mochilas, turistas tirando fotografias e homens sozinhos olhando para os próprios celulares. Álvaro se reconheceu nos últimos.
Quando anunciaram o embarque, conferiu a passagem.
Vagão 4.
Assento 18.
Entrou.
A mulher estava sentada no assento 11.
Tinha pouco mais de cinquenta anos, cabelos escuros presos na nuca e uma pequena mala marrom apoiada sobre as pernas. Não havia nada de particularmente estranho nela. Era o tipo de passageira que Álvaro poderia esquecer poucos minutos depois de chegar ao destino, mas, quando passou pelo corredor, ela levantou os olhos e o observou durante tempo suficiente para fazê-lo diminuir o passo.
— O senhor vai até Morretes?
— Vou.
Ela sorriu.
— Eu também.
Álvaro seguiu para o assento 18.
O trem deixou Curitiba pela manhã. Durante os primeiros quilômetros, a cidade continuou aparecendo pela janela, com seus muros, casas, terrenos e ruas paralelas. Depois as construções ficaram mais espaçadas e a vegetação começou a ocupar os espaços. Álvaro tentou ler o livro que havia levado, mas a presença da mulher no assento 11 permanecia em algum lugar da sua atenção.
Ela parecia conhecer o trajeto. Não tirava fotografias, não comentava a paisagem, não demonstrava a curiosidade dos turistas. Apenas observava a janela como quem acompanha uma estrada conhecida.
Depois de algum tempo, perguntou:
— Sua mãe gostava de Morretes?
Álvaro levantou os olhos.
— Por que pergunta?
A mulher deu de ombros.
— Você parece ter vindo por causa dela.
Ele sentiu um desconforto que tentou esconder.
— Minha mãe morreu há três meses.
A mulher o observou por alguns segundos.
— Sinto muito.
— Obrigado.
Ela voltou a olhar pela janela.
— Ainda está cedo.
— Para quê?
A mulher demorou a responder.
— Para lembrar.
Álvaro não respondeu. Havia alguma coisa na maneira como ela dizia certas palavras que lhe provocava uma impressão absurda de familiaridade. Não era a voz. Talvez fosse o jeito de inclinar a cabeça, ou a maneira como apertava a alça da mala quando o trem fazia uma curva.
Pouco antes da subida da serra, ela perguntou:
— Você se lembra de mim?
Álvaro sorriu sem graça.
— Acho que não.
Ela não pareceu surpresa.
— Tudo bem.
O trem começou a entrar na Serra do Mar. A mata fechou-se ao redor dos trilhos, o ar ficou mais úmido e frio e, entre uma curva e outra, o rio aparecia muito abaixo, desaparecendo logo depois entre as árvores. A mulher retirou a pequena mala do colo e pediu que Álvaro a ajudasse a colocá-la no bagageiro.
Ele se levantou.
A mala era pesada, muito mais do que deveria.
— O que tem aqui?
Ela segurou a alça por um instante antes de soltá-la.
— Coisas que não consegui deixar em Curitiba.
Álvaro colocou a mala no bagageiro.
Quando voltou ao assento, percebeu que ela o observava.
— Obrigada.
— De nada.
Ela sorriu.
Foi um sorriso simples, mas trouxe uma lembrança que Álvaro não conseguiu alcançar: uma varanda molhada pela chuva, uma mão pequena segurando a sua, o cheiro de óleo e madeira úmida. Depois, nada.
O trem continuou descendo a serra.
Pouco antes das dez e meia, entrou no túnel.
O vidro da janela virou um espelho escuro. As luzes do vagão tremularam sobre os reflexos dos passageiros e o ruído das rodas pareceu ficar mais próximo, como se o som viesse de dentro das paredes.
Álvaro olhou para o relógio.
10h17.
No reflexo, viu a mulher em pé.
Ela estava junto ao seu assento.
Segurava a mala.
Álvaro virou o rosto para trás.
Ela continuava sentada no assento 11.
Olhou novamente para a janela.
No reflexo, a mulher permanecia em pé, agora muito próxima dele. Parecia dizer alguma coisa, mas o ruído do trem cobria sua voz. Álvaro inclinou-se para ouvir e teve a impressão de que ela pronunciara seu nome.
Então o trem saiu do túnel.
A luz voltou.
O assento 11 estava vazio.
Álvaro olhou para o bagageiro.
A mala havia desaparecido.
Durante alguns segundos, permaneceu sentado, esperando que a mulher surgisse no corredor. Quando o funcionário passou, perguntou se ela havia mudado de vagão. O homem conferiu o aparelho e respondeu que o assento estava livre desde Curitiba.
Álvaro insistiu que havia uma mulher ali.
O funcionário olhou para o assento vazio e depois para ele.
— Talvez o senhor esteja confundindo.
Não havia hostilidade na resposta, apenas a certeza tranquila de quem não tinha visto ninguém.
Álvaro não discutiu.
Pegou o celular.
Havia uma fotografia tirada às 10h17.
Ele não tinha fotografado nada naquela manhã.
A imagem mostrava o interior do vagão durante a passagem pelo túnel. A mulher aparecia sentada no assento 11, segurando a mala. Ao lado dela, parcialmente cortado pelo enquadramento, havia um homem.
Álvaro ampliou a imagem.
Viu o braço.
A camisa.
O relógio.
Tocou o próprio pulso.
Era o mesmo modelo, com a pequena marca junto à borda que seu pai havia feito muitos anos antes.
Álvaro fechou a fotografia.
Durante o restante da viagem, não olhou novamente para o assento 11.
O trem chegou a Morretes pouco depois do meio-dia.
Álvaro permaneceu sentado por alguns minutos depois que os outros passageiros começaram a desembarcar. Olhou para o assento 11 uma última vez.
Vazio.
Não havia marca da mala, nem qualquer objeto esquecido.
Desceu.
A estação estava movimentada, mas o ar parecia diferente do de Curitiba, mais quente e úmido, carregado de cheiro de vegetação e ferro. Álvaro caminhou até o hotel que havia escolhido na noite anterior e deixou a bagagem no quarto.
Durante o almoço, tentou convencer a si mesmo de que tudo poderia ter uma explicação. Talvez tivesse confundido a mulher com outra passageira. Talvez a fotografia tivesse sido feita sem que percebesse. Talvez estivesse mais cansado do que imaginava.
O problema era a mala.
E o problema maior era a sensação de que já conhecia Helena antes de saber seu nome.
À tarde, voltou para o quarto e abriu a própria mala.
Foi então que encontrou a carteira.
Estava entre duas camisas.
Álvaro não a reconheceu de imediato. Pegou-a, virou-a nas mãos e sentiu um cheiro antigo de couro guardado. Abriu.
Havia uma fotografia.
A mulher estava diante da janela de um trem, mais jovem, segurando a pequena mala marrom.
Álvaro virou a fotografia.
No verso havia uma data.
Era a mesma da passagem que encontrara no livro da mãe.
Abaixo, escrito à mão, estava um nome.
Helena.
Ele permaneceu sentado na cama.
Abriu a carteira novamente. Havia apenas um recibo antigo de guarda-volumes da estação de Curitiba.
Número 18.
O mesmo número do seu assento.
Pegou o celular e pesquisou o nome.
Demorou alguns minutos até encontrar uma referência antiga. Era uma página de jornal digitalizada, quase ilegível, publicada muitos anos antes.
Helena Duarte desaparece durante viagem para Morretes.
Álvaro leu a notícia inteira.
Helena havia embarcado em Curitiba e deveria chegar a Morretes naquela manhã. Nunca chegou.
A família procurara por ela durante semanas.
Não havia corpo.
Não havia testemunha confiável.
O caso desaparecera dos jornais pouco depois.
Álvaro olhou para a data.
Depois olhou para a passagem.
A mesma viagem.
Abriu o livro da mãe.
A passagem continuava entre as páginas.
Curitiba.
Morretes.
Vagão 4.
Assento 11.
Virou o papel.
A tinta que antes parecia ilegível agora podia ser vista com mais clareza.
A frase da mãe dizia:
Helena perguntou por ele.
Álvaro ficou imóvel.
A primeira lembrança veio como uma coisa que não queria ser lembrada.
Uma estação.
Chuva.
A mão da mãe apertando a sua.
Uma mulher ajoelhada diante dele.
Uma mala marrom.
Depois o som de um trem partindo.
A lembrança desapareceu antes que ele conseguisse ver o rosto da mulher.
Naquela noite, Álvaro quase não dormiu.
Pouco antes das duas da manhã, levantou-se, foi até a janela e ficou olhando a cidade silenciosa. Morretes parecia outra quando vista daquele quarto. As ruas vazias, as luzes amarelas, a serra escura ao fundo.
Pensou em voltar para Curitiba pela manhã.
Pensou em ir embora imediatamente.
Não fez nenhuma das duas coisas.
Na manhã seguinte, depois do café, voltou à estação.
Procurou um funcionário mais velho e mostrou a fotografia de Helena.
O homem reconheceu alguma coisa na imagem, mas não disse o quê.
— Helena Duarte — Álvaro falou.
O funcionário continuou olhando.
— O senhor conheceu?
— Não.
— Sabe o que aconteceu?
O homem devolveu a fotografia.
— Faz muito tempo.
Álvaro mostrou a passagem.
— E o assento 11?
O funcionário olhou para o papel.
— Essa numeração mudou.
— Então existia?
— Existia.
Álvaro esperou.
O funcionário baixou os olhos e passou um dedo sobre o balcão riscado, como se procurasse alguma coisa numa lembrança antiga.
— Eu lembro desse nome.
Álvaro sentiu a respiração prender.
— Helena?
O homem não respondeu.
Álvaro mostrou a anotação no verso da passagem.
— Minha mãe escreveu isso.
O funcionário leu.
Depois levantou os olhos.
— Qual era o nome da sua mãe?
Álvaro respondeu.
O homem permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Ela esteve aqui.
— Naquele dia?
O funcionário assentiu.
— Veio procurar alguém.
Álvaro sentiu a garganta apertar.
— Quem?
O homem olhou diretamente para ele.
— Você.
Álvaro não conseguiu responder.
— Eu estava aqui?
— Estava.
— Com minha mãe?
— Sim.
— E Helena?
O funcionário desviou os olhos para os trilhos.
— Ela ficou.
Álvaro esperou alguma explicação.
Ela não veio.
Depois de alguns segundos, o homem disse:
— Sua mãe levou você embora antes de o trem partir.
Álvaro olhou para a fotografia.
— Tem certeza?
O funcionário demorou.
— Eu estava aqui.
Foi tudo.
Álvaro comprou a passagem de volta para Curitiba naquela mesma manhã.
Durante a viagem de retorno, sentou-se novamente no assento 18.
O assento 11 estava vazio.
Não tentou ler. Não tirou fotografias. Não pesquisou mais nada. Levava a carteira de Helena no bolso e a passagem antiga dentro do livro da mãe.
A viagem parecia mais silenciosa do que a da véspera.
Quando o trem começou a subir pela Serra do Mar, Álvaro percebeu que estava procurando a curva onde ficava o túnel.
Não queria encontrá-la.
Encontrou.
O trem entrou na escuridão.
Dessa vez, Álvaro não olhou para o relógio.
Ficou observando a janela.
O reflexo dos passageiros apareceu.
Depois apareceu Helena.
Ela estava sentada no assento 11, segurando a mala.
Não olhou para Álvaro.
Olhou para o espaço ao lado.
Havia alguém sentado ali.
Um menino.
Álvaro não conseguia ver seu rosto.
Mas reconheceu a camisa.
Era a camisa que usava na fotografia encontrada no livro da mãe.
O menino segurava uma das mãos de Helena.
Na outra havia um relógio.
O mesmo relógio que Álvaro usava naquele momento.
Então percebeu uma coisa que o fez esquecer o ruído do trem.
O menino estava de pé.
Um dos pés já havia ultrapassado a porta do vagão.
Álvaro tentou se virar.
O trem saiu do túnel.
O reflexo desapareceu.
O assento 11 estava vazio.
Chegou a Curitiba no final da tarde.
Foi direto para casa.
Não abriu a televisão. Não ligou o computador. Deixou a mala no quarto e colocou a carteira de Helena sobre a mesa da cozinha.
Depois pegou o livro da mãe.
A fotografia estava entre as páginas.
Sua mãe e Helena apareciam juntas na estação.
Álvaro estava entre as duas.
Durante muito tempo, acreditara lembrar daquela cena. Agora percebeu que talvez não lembrasse dela, mas apenas daquilo que sua mãe lhe permitira lembrar.
Virou a fotografia.
No verso, a letra da mãe dizia:
Não conte a ele que Helena veio buscá-lo.
Abaixo havia outra frase.
Eu disse para ele descer.
Álvaro fechou os olhos.
A lembrança voltou.
Dessa vez trouxe também o cheiro de chuva misturado ao óleo do trem.
Helena estava ajoelhada diante dele.
Segurava sua mão.
Sua mãe estava atrás.
— Vamos, Álvaro.
A mãe respondeu:
— Não.
Helena olhou para ela.
— Você prometeu.
— Ele não vai.
O apito do trem cortou a estação.
Álvaro lembrava da porta aberta.
Lembrava da mão de Helena puxando a sua.
Lembrava da mãe segurando seu outro braço.
Lembrava do pai dentro do vagão.
Lembrava do relógio.
Lembrava do medo.
Depois disso, havia apenas uma ausência.
Não conseguia lembrar se seus pés haviam tocado a plataforma.
Não conseguia lembrar se entrara no trem ou se havia descido dele.
Não conseguia lembrar quem soltou sua mão primeiro.
Álvaro abriu os olhos.
Pegou a fotografia novamente.
Foi então que percebeu um detalhe que nunca havia visto.
Na fotografia, Helena segurava a mão do menino.
A mãe segurava o outro braço.
Mas os pés do menino estavam fora do vagão.
Um deles já tocava a plataforma.
Álvaro aproximou a fotografia do rosto.
No fundo da imagem, seu pai permanecia dentro do trem.
A porta estava aberta.
Ele não sabia mais qual lembrança era verdadeira.
Do lado de fora do apartamento, um trem passou ao longe.
O som demorou a desaparecer.
Álvaro voltou a olhar para a fotografia.
No verso, abaixo das frases da mãe, havia uma terceira linha escrita com uma caneta azul.
Ele não reconheceu a letra.
Ele desceu uma vez.
Álvaro ficou olhando para aquelas palavras até ouvir duas batidas na porta.
Esperou.
Vieram outras duas, rápidas.
O corpo reconheceu o ritmo antes da memória.
Era o código que Helena usava quando ele era menino.
A brincadeira havia acabado.
Era hora de abrir a porta.
Álvaro olhou para o relógio.
10h17.
Do outro lado, ouviu o som de uma mala sendo colocada cuidadosamente no chão.
Não abriu.
Permaneceu diante da porta, segurando a fotografia.
Na imagem, Helena ainda segurava a mão do menino.
Álvaro olhou para os pés dele.
Depois para a porta.
E, pela primeira vez, percebeu que talvez não fosse ele quem estivesse esperando alguém voltar.
Talvez fosse Helena quem estivesse esperando que ele terminasse de descer.