segunda-feira, 28 de setembro de 2026

A NOIVA DO PORTO

A NOIVA DO PORTO
Tadeu Everton Zamoiski
Setembro de 2026 — Antonina, Litoral do Paraná

A capela fica onde a rua de pedra termina e o cais começa. De costas para a cidade, olha para a baía.

Foi ali que Mariana esperou pelo noivo.

Conheci essa história quando era criança. Minha avó dizia que ela esperou vários dias. Meu pai achava que tinha sido menos. Em Antonina, ouvi versões diferentes, mas ninguém discordava do final.

O homem não veio.

Na manhã em que morreu, Mariana ainda estava com o vestido de casamento. Sentou-se no degrau da capela e ficou olhando para a baía. O padre tentou convencê-la a entrar. Ela não entrou.

Foi enterrada com o vestido.

Depois começaram os relatos de uma mulher de branco aparecendo perto do cais quando a cidade ficava coberta pela neblina. Alguns juravam ter ouvido passos na rua de pedra. Outros diziam que ela procurava um navio.

Eu nunca levei aquilo a sério.

Meu avô paterno se chamava Carlos. Meu pai recebeu o mesmo nome e eu também. Na família, ninguém achava aquilo estranho. Era apenas o nome que passava de uma geração para outra.

Meu avô nasceu em Antonina e trabalhou boa parte da vida perto do porto. Conhecia os navios, os horários e as mudanças da maré. Quando eu era pequeno, gostava de ficar com ele na varanda no fim da tarde.

Foi numa dessas tardes que ele chegou em casa com a roupa úmida e os sapatos sujos de barro.

Minha avó perguntou onde ele tinha ido.

Ele não respondeu.

Sentou-se na varanda, tirou do bolso uma faca pequena e começou a descascar uma laranja, fazendo uma espiral comprida, sem quebrar a casca.

Minha avó olhou para ele, depois para mim.

“Vou deixar vocês conversarem.”

Ela entrava em casa toda vez que meu avô pegava aquela faca.

Eu não entendia por quê.

“Você foi ao porto?”

Ele continuou descascando.

“Fui.”

“Por quê?”

A mão dele parou sobre a laranja.

“Eu tinha serviço num navio.”

Ficou alguns segundos olhando para a fruta.

“Era para eu voltar antes do casamento.”

Não entendi.

Ele retomou a faca.

Perguntei sobre Mariana.

Ele baixou os olhos para a laranja.

“Por que você quer saber disso?”

“Porque todo mundo fala dela.”

Ele voltou a descascar.

“Todo mundo fala sem saber.”

Perguntei se ele a tinha conhecido.

Dessa vez, deixou a faca sobre o prato.

“Conheci.”

Ele não olhou para mim.

“Eu era o homem que ela esperava.”

Achei que fosse conversa de velho.

A mão dele tremia um pouco. Meu avô apoiou o polegar na laranja e terminou de tirar a casca. A espiral caiu inteira sobre o prato.

Depois tirou do bolso uma bala de banana.

“Ela me deu duas.”

Estendeu a última para mim.

“Guarda.”

Когда peguei a bala, ele não soltou minha mão. Antes de eu sair da varanda, fechou meus dedos sobre ela.

Anos depois da morte dele, encontrei uma fotografia dentro de uma caixa de madeira. Meu avô era jovem e estava diante do antigo Complexo Matarazzo.

No verso havia uma anotação:

Mariana.
4 de novembro de 1938.

Fiquei algum tempo olhando para a data.

Trinta anos depois, no mesmo dia, eu nasci.

Entre as coisas que eu tinha guardado sem saber por quê, estava a bala de banana que ele havia colocado na minha mão.

O papel estava amarelado. O doce, intacto.

Guardei a fotografia junto dela.

Semanas depois, o carro parou.

Eu voltava de Paranaguá. A estrada estava úmida e o vidro começava a embaçar por dentro. O cheiro de maré entrava pela ventilação. A neblina vinha baixa, atravessando a estrada e apagando as luzes dos postes antes de devolvê-las alguns metros adiante.

O rádio tinha perdido o sinal. Pouco depois, o celular também.

Tentei ligar o motor outra vez.

Nada.

Vi a mulher do outro lado da rua, perto da direção do cais.

Vestia branco.

Por alguns segundos, achei que fosse alguém voltando para casa. Uma moradora, talvez.

Ela atravessou a rua e parou diante do carro.

“Você viu?”

“Vi o quê?”

“O navio.”

Olhei para a baía. A neblina tinha engolido quase tudo.

“Não.”

Ela ficou olhando para a água.

“Ele está atrasado.”

Depois olhou para mim.

“Você é da família dele?”

“De quem?”

“Seu avô tinha esse jeito de olhar.”

Não soube o que responder.

Ela disse:

“Seu avô prometeu que voltaria.”

Eu tinha dez anos.

A lembrança da varanda voltou.

“Se ela perguntar pelo navio, o que você vai dizer?”

Eu sabia de quem ele falava.

Meu avô olhou para a minha mão fechada.

A lembrança terminava ali.

A mulher continuava me olhando.

“Então é você.”

O motor pegou.

Entrei no carro e saí.

Em casa, deixei a chave sobre a mesa e fui dormir.

Acordei de madrugada com sede. Na cozinha havia uma espiral de casca de laranja sobre a mesa, comprida, ainda úmida. Eu não tinha comprado laranjas. Coloquei a bala ao lado da casca. O cheiro de banana ficou no ar.

Alguém bateu três vezes na porta da frente.

Esperei alguns segundos. Não se repetiu.

Na manhã seguinte, a casca estava seca. A bala havia desaparecido.

Havia água no corredor.

Duas semanas depois, voltei a Antonina durante o dia.

Levei a fotografia comigo.

Queria ver a capela. Não sabia exatamente o que procurava.

A porta estava aberta. O sacristão estava perto do altar, passando um pano numa das imagens e ajeitando o tecido sobre a mesa. Fiz um aceno e entrei. Os bancos estavam vazios. No fundo, junto à parede lateral, havia uma mesa pequena com um livro encadernado à mão. As páginas estavam amareladas e gastas nas bordas. Peguei o livro e comecei a folheá-lo. Encontrei o nome dela.

Abaixo estava o nome do noivo.

Carlos.

Meu avô.

O nome pareceu errado na página.

Li outra vez.

A data era 4 de novembro de 1938.

Na margem, alguém havia escrito:

O noivo não compareceu.

Abaixo, em outra caligrafia, havia uma anotação mais recente:

Voltou. Não entrou.

Perguntei ao sacristão quem havia escrito aquilo.

“Meu pai.”

“Ele conheceu meu avô?”

“Conheceu.”

Passei o dedo pela margem.

A lembrança daquela tarde de 1978 voltou. A roupa úmida, os sapatos sujos de barro, a laranja descascada na varanda.

Deixei a fotografia ali.

Na saída, olhei para a baía.

A neblina começava a subir outra vez.

Não havia ninguém.

Voltei para o carro.

Senti alguma coisa apertando o dedo da mão esquerda.

Uma aliança estava presa ali.

Eu não a tinha colocado.

Tentei puxá-la. Não saiu.

Dentro do aro havia uma palavra gravada.

MARIANA.

Naquela noite, ouvi passos dentro de casa. Pareciam vir da cozinha. Fui até lá e encontrei a espiral de casca de laranja sobre a mesa. O papel vazio da bala estava ao lado dela. Não toquei em nenhum dos dois. Voltei para o quarto e fechei a porta.

Alguém bateu na porta da frente.

Esperei.

Dessa vez, ouvi a batida morrer na rua.

Na manhã seguinte, encontrei uma pegada molhada no corredor, voltada para a porta.

Passei o dia pensando na capela.

No fim da tarde, fui até lá.

Já estava escurecendo quando cheguei.

A porta da capela estava fechada.

Ouvi um arrastar lento do outro lado.

Depois, uma pancada na madeira.

Encostei a mão na porta.

“Mariana?”

Nada respondeu.

Abri.

A capela estava escura.

O banco da primeira fila estava molhado.

Sentei-me por um instante.

Tirei do bolso o papel vazio da bala e deixei sobre o banco.

Levantei.

A voz veio atrás de mim.

“Você viu o navio?”

Fiquei calado.

“Ele está atrasado.”

A voz veio outra vez:

“Seu avô também disse que voltaria.”

Pensei na varanda, na mão dele fechando a minha e naquela pergunta.

Se ela perguntar pelo navio, o que você vai dizer?

Mariana falou outra vez:

“Você prometeu, Carlos.”

Engoli seco.

Depois respondi:

“Que ele vem.”

O apito veio da baía.

Baixo no começo. Depois tão perto que os vidros da capela vibraram.

Passos soaram atrás de mim.

Lentos.

Когда pararam, senti cheiro de laranja e maresia.

A voz veio muito baixa:

“Demorou.”

A aliança afrouxou no meu dedo.

Caiu no chão.

Olhei para ela.

Do outro lado da capela, Mariana estava de pé.

Sem véu.

O vestido continuava branco, mas estava seco.

Ela segurava alguma coisa na mão fechada.

Abriu os dedos.

Era a bala de banana.

Por um instante, ela ficou olhando para o doce.

Depois colocou a bala na boca.

Mastigou devagar.

Engoliu.

Então se virou.

Pela primeira vez, ficou de costas para a baía.

Os passos passaram por mim e pararam diante dela.

A NÉVOA DA BAÍA

A NÉVOA DA BAÍA
Tadeu Everton Zamoiski

Meados de 2026

Davi chegou a Antonina pouco depois das quatro da tarde, com Bia dormindo no banco ao lado. Quando estacionou diante da casa que tinha sido do pai, ela abriu os olhos e ficou alguns segundos olhando pela janela.

A casa parecia menor do que ele lembrava.

Davi desligou o motor.

“Chegamos.”

Bia se espreguiçou.

“É menor do que eu imaginava.”

“Você nunca veio aqui.”

“Eu não. Minha mãe veio.”

Davi olhou para ela.

“Quando?”

“Antes de morrer.”

Ele ficou quieto por alguns segundos.

“Ela nunca me falou.”

Bia deu de ombros.

“Talvez ela também estivesse tentando esquecer.”

Davi não respondeu. Pegou as chaves e saiu do carro.

A casa estava fechada havia quase dois anos. O portão emperrou antes de abrir. Dentro, havia cheiro de madeira úmida, poeira e maresia. Uma torneira na cozinha pingava devagar. O relógio da sala estava parado às onze e vinte. Sobre um móvel havia uma fotografia virada para baixo.

Bia pegou a fotografia.

Davi estendeu a mão.

“Deixa isso.”

“Por quê?”

“Porque eu ainda não sei o que tem aí.”

Ela virou a fotografia mesmo assim. Era uma foto antiga de Augusto diante da casa, muito mais jovem, com um homem que Davi não reconheceu.

Bia devolveu.

Na cozinha, encontrou uma caneca lascada dentro do armário e uma chave de fenda azul sobre a pia.

“Essa era da mãe.”

Davi olhou.

“Era.”

“Você ainda guarda tudo.”

“Eu sei.”

Bia encostou a chave de fenda no balcão.

“Você nunca joga nada fora.”

“Algumas coisas a gente demora para conseguir jogar.”

Ela não respondeu.

Foi quando Davi percebeu que a luz do lado de fora tinha mudado.

A névoa vinha do mangue.

Primeiro apareceu baixa, atrás das casas. Depois atravessou a rua e cobriu os carros estacionados. Em poucos minutos, já não se enxergava o outro lado da calçada.

Davi fechou as janelas.

“Vamos sair.”

“Agora?”

“Agora.”

Pegou Bia pela mão e foi até o carro. Ligou o motor, saiu devagar e tentou seguir pela rua que levava para a saída da cidade.

Depois de alguns minutos, reconheceu a mesma praça.

Tinha voltado ao ponto de partida.

Tentou outra rua.

Voltou de novo.

Na terceira tentativa, Bia começou a chorar.

“Pai.”

“Estou aqui.”

Foi quando alguém chamou pelo nome dela.

“Bia.”

Davi freou.

A voz vinha da névoa.

Ele conhecia aquela voz.

Sua mulher.

A mãe de Bia.

Davi saiu do carro antes de pensar. Bia segurou seu braço.

“Pai, não.”

“Fica aqui.”

He caminhou alguns metros.

Uma mulher estava parada perto de um muro. A roupa estava molhada. O cabelo cobria parte do rosto.

“Você não pode estar aqui”, Davi disse.

Ela não respondeu.

Davi avançou.

A mulher desapareceu.

Não houve grito, movimento ou corrida. Num instante estava ali. No seguinte, só havia água escorrendo pelo muro.

Davi voltou para o carro.

Bia estava branca.

“Era ela.”

Davi respirou fundo.

“Eu não sei.”

“Era ela.”

Dessa vez ele não conseguiu dizer que não.

O Mercado Municipal ainda estava aberto quando conseguiram chegar até lá. Algumas pessoas já tinham se reunido dentro. Outras haviam chegado carregando sacolas, cobertores e crianças.

Seu Nilo, dono de uma das bancas, organizava os lugares.

“Todo mundo fica aqui. Ninguém sai sozinho.”

Davi entrou com Bia.

Um homem sentado perto da porta levantou os olhos.

Era Joca.

Davi lembrava dele das histórias do pai. Pescador, barba branca, mãos grandes e sempre cheirando a peixe.

Joca demorou um pouco para falar.

“Você é filho do Augusto.”

Davi assentiu.

“Sou.”

Joca olhou para Bia.

“E ela?”

“Minha filha.”

Joca voltou a olhar para Davi.

“Seu pai esteve aqui naquela noite.”

Davi sentiu um aperto no estômago.

“Que noite?”

Joca não respondeu.

Bia olhou de um para o outro.

“Meu pai conhece você?”

“Conheci seu avô.”

“Meu pai quase não fala dele.”

Joca abaixou os olhos.

“Ele tinha motivos.”

Mais tarde, quando a noite já tinha tomado conta da cidade, Joca contou que a mulher de Davi tinha ido até ele alguns meses antes.

“Ela queria saber o que seu pai fazia no mangue.”

Davi ficou imóvel.

“Ela perguntou de mim?”

“Perguntou.”

“E o que você disse?”

“Que algumas coisas ficam enterradas porque ninguém quer desenterrar.”

Bia estava ouvindo.

“Minha mãe descobriu alguma coisa?”

Joca olhou para ela.

“Descobriu que seu avô não contou tudo.”

Davi sentiu raiva.

“Por que você não me procurou?”

Joca deu uma risada curta, sem humor.

“Você teria acreditado?”

Davi não respondeu.

Depois das dez, o mercado foi ficando silencioso. As pessoas se acomodaram como podiam. Algumas rezavam. Outras telefonavam para parentes, embora os celulares já começassem a apresentar problemas.

Davi e Bia deitaram atrás de uma banca de tecidos.

Perto das duas da manhã, Bia acordou o pai.

“Pai.”

“Que foi?”

“Minha mãe já esteve nessa casa.”

Davi abriu os olhos.

“Você já falou.”

“Ela conhecia a cozinha.”

Davi ficou sentado.

“Como você sabe?”

“Ela me contou.”

“Quando?”

“Um dia.”

“Que dia?”

Bia pensou.

“Não lembro.”

Davi passou a mão no rosto.

Naquele momento, lembrou de um envelope.

Era de papel pardo. Tinha sido encontrado entre documentos antigos de Augusto.

Na frente estava escrito:

Augusto. Antonina. Mangue.

Davi lembrava de ter segurado o envelope.

Depois, não lembrava mais.

Ou talvez lembrasse e tivesse decidido não lembrar.

Bia perguntou:

“Você está com medo?”

“Um pouco.”

“Eu também.”

Davi segurou a mão dela.

“Então estamos empatados.”

Pouco depois das seis, Joca chamou Davi.

A névoa ainda cobria parte da cidade, mas a luz começava a aparecer por trás dela.

Joca segurava uma fotografia antiga.

“Olha.”

Davi pegou.

Na fotografia estavam Augusto, quatro adultos e um menino.

Davi reconheceu o pai imediatamente.

Os quatro adultos eram diferentes entre si. Uma mulher usava um lenço vermelho no pescoço. Um homem segurava uma lanterna. Outra mulher carregava uma pequena panela. O quarto tinha a camisa rasgada no ombro.

Joca apontou.

“Marta.”

Depois:

“Ernesto.”

“Lúcia.”

“Paulo.”

Davi passou o polegar pela borda da fotografia.

Quando chegou perto de Paulo, seus dedos pararam.

Ele não sabia por quê.

Joca continuou.

“Paulo pescava comigo. Era um homem bom. Falava demais, mas era bom.”

Davi olhou para o menino.

Era ele.

Dez anos.

Magro, cabelo cortado curto, segurando a mão de alguém.

Seu pai.

A lembrança veio sem aviso.

A lama.

O cheiro forte do mangue.

Uma lona.

Quatro corpos.

A mão de Paulo apertando a sua.

“Não fica com medo, guri.”

Davi soltou a fotografia.

Ela caiu no chão.

“Meu pai estava lá.”

Joca não disse nada.

“Eu também.”

“Estava.”

“Eles morreram?”

Joca assentiu.

“Os quatro.”

Davi fechou os olhos.

“Meu pai levou eles para o mangue.”

“Levou.”

“E eu fui junto.”

“Foi.”

Davi respirou fundo.

A fotografia continuava no chão entre os dois.

Joca pegou.

Quando olhou para o próprio documento de identidade, ficou parado.

Seu nome não estava mais lá.

No lugar havia apenas um espaço em branco.

Davi se aproximou.

“Joca?”

Ele passou o dedo sobre o papel.

“Estava aqui.”

“Seu nome?”

Joca assentiu.

Depois olhou para a fotografia.

“Não está acontecendo só comigo.”

Durante a manhã, outras coisas começaram a mudar.

Uma mulher esqueceu o nome da própria rua. Um homem procurou durante vários minutos pela fotografia da filha e encontrou uma foto em que havia apenas uma criança, embora tivesse certeza de que eram duas.

As pessoas começaram a perguntar umas às outras quem eram.

Bia segurou a mão de Davi.

“E se eu esquecer você?”

Davi olhou para ela.

“Porque eu vou lembrar por nós dois.”

Ela apertou sua mão.

Pouco depois, Irmã Celina começou a chorar.

“Marta.”

Davi olhou para ela.

“Marta.”

A mulher repetiu o nome da irmã como quem tentava segurá-la pela última vez.

“Eu passei trinta e dois anos procurando por ela.”

Davi não respondeu.

Celina olhou para a névoa.

“Agora ela está এখানে.” (Nota: aqui)

Bia observava Davi.

De repente, perguntou:

“Quem é você?”

He sentiu o sangue esfriar.

Bia piscou.

“Pai?”

Ela levou a mão à boca.

“Desculpa.”

Davi se ajoelhou diante dela.

“Está tudo bem.”

Mas não estava.

Naquele momento, entendeu.

Não tinha passado a vida tentando esquecer aquela noite.

Tinha passado a vida tentando esquecer que havia escolhido esquecer.

Davi levantou.

Olhou para Joca, para Celina, para as pessoas espalhadas pelo mercado.

E falou.

“Os quatro morreram no mangue. Marta. Ernesto. Lúcia. Paulo. Meu pai estava lá. Eu também.”

Ninguém se mexeu.

“Eu vi as lonas. Vi meu pai levando eles. E fiquei quieto.”

A voz falhou.

“Passei tantos anos dizendo para mim mesmo que era criança que comecei a acreditar que não lembrava.”

Davi olhou para Bia.

“Mas eu lembrava.”

He respirou.

“Eu só não queria lembrar.”

A névoa começou a recuar.

Devagar.

A luz entrou pelas portas do mercado.

Joca olhou novamente para o documento.

Seu nome estava lá.

He ficou alguns segundos olhando para aquilo.

Depois pegou a fotografia.

Celina se aproximou.

Marta ainda estava na fotografia, mas alguma coisa parecia diferente nela. As bordas do rosto estavam pouco definidas.

Joca virou a fotografia.

Davi olhou.

O lugar onde o menino estava parecia diferente.

Não havia rosto.

Não havia camisa.

Só uma área clara entre os outros.

Davi não perguntou quem era.

Dobrou a fotografia e devolveu a Joca.

Antes de sair, voltou à casa do pai.

Não sabia exatamente o que procurava.

Na cozinha, abriu uma gaveta emperrada.

Encontrou um papel molhado.

Reconheceu a letra da mulher.

Você estava lá.

No verso havia uma data, três dias antes da morte dela.

E uma frase:

Joca sabe.

Davi ficou muito tempo olhando para aquilo.

Depois guardou o papel no bolso.

Chamou a polícia.

Quando a atendente perguntou de onde estava ligando, respondeu:

“Antonina.”

Houve um silêncio do outro lado.

“Que cidade?”

Davi desligou.

Pouco depois do meio-dia, colocou Bia no carro.

Deixaram Antonina.

Na Estrada da Graciosa, a névoa parecia ter ficado para trás.

Por alguns quilômetros, Bia não falou.

Depois perguntou:

“Você lembra da mãe?”

Davi segurou o volante com mais força.

“Lembro.”

“De tudo?”

“Não.”

He pensou no envelope que a mulher segurava dias antes de morrer.

Ela estava sentada à mesa.

Tinha os olhos vermelhos.

“Seu pai não contou tudo.”

Davi havia respondido:

“Eu não quero mexer nisso.”

Ela ficou olhando para ele.

“Então alguém vai ter que lembrar por você.”

Davi não sabia se aquela conversa terminava assim ou se sua cabeça tinha completado o resto.

Bia perguntou:

“Você vai voltar?”

Davi olhou pelo retrovisor.

A estrada estava vazia.

“Não.”

“Por quê?”

He demorou a responder.

“Porque não quero parar.”

Alguns quilômetros depois, encontraram um veículo parado no acostamento.

Era verde-oliva, antigo, parecido com um carro militar.

Não havia ninguém dentro.

Davi diminuiu a velocidade.

O rádio estava ligado.

Uma voz masculina repetia, muito baixo:

“Antonina não existe.”

Davi parou.

“Tem alguém aí?”

Nenhuma resposta.

A voz continuou.

“Antonina não existe.”

Bia olhou para el rádio.

“Pai, o que isso quer dizer?”

“Não sei.”

Davi voltou para a estrada.

Pouco depois, passou por uma placa.

ANTONINA

Olhou pelo retrovisor.

A placa não estava mais lá.

Bia percebeu.

“Você viu?”

Davi não respondeu.

O rádio ligou sozinho.

Primeiro veio um ruído de água.

Depois uma voz.

“Davi.”

He reconheceu.

A voz da mulher.

A voz da mãe de Bia.

“Pai.”

Davi olhou para a filha.

Bia estava olhando para o banco traseiro.

“Tem alguém aí?”

Ela não respondeu.

Davi olhou pelo retrovisor.

Bia segurava uma mão molhada.

A mão de uma mulher.

“Bia.”

Ela continuou olhando para trás.

“É ela?”

Bia apertou os dedos da mulher.

“Eu acho.”

O rádio virou um chiado.

Na estrada, Davi viu duas sombras atravessando o asfalto.

Freou.

As sombras desapareceram.

Então apareceu uma terceira.

Davi não soube dizer se estava dentro do carro, atrás deles ou apenas no chão.

Bia segurou seu braço.

“Pai.”

“Estou aqui.”

Davi continuou dirigindo pela Graciosa. Sem olhar para trás.

No rádio, muito baixo, alguém começou a dizer quatro nomes.

He reconheceu o primeiro.

Depois o segundo.

No terceiro, a voz falhou.

O quarto demorou mais.

Davi esperou.

Quando ouviu “Paulo”, fechou os olhos por um instante.

Ao abrir, a estrada estava vazia.

A névoa cobria tudo atrás deles.

E, no banco traseiro, alguém respirou.

O SILÊNCIO DE GUARAQUEÇABA

O SILÊNCIO DE GUARAQUEÇABA

Tadeu Everton Zamoiski

Setembro de 2026
Guaraqueçaba, Litoral do Paraná

A estrada encolheu no instante em que o asfalto terminou.

Tiago diminuiu a velocidade. As pedras molhadas batiam por baixo do carro, e a lama começava a subir pelas laterais. Elisa olhava pela janela, acompanhando as casas que apareciam de vez em quando entre árvores e cercas tortas.

"Você sabia?"

"Sabia."

"Podia ter avisado."

"Você teria vindo do mesmo jeito."

"Não é esse o ponto."

A discussão morreu ali, mas continuou dentro do carro. Os dois já tinham aprendido que algumas brigas podiam ficar horas sem que ninguém precisasse continuar falando.

Mais adiante, a estrada desceu e a baía apareceu entre as árvores. A água estava quase parada, cinza sob o céu fechado. Alguns barcos balançavam perto da margem.

"É bonito", Elisa disse.

"É."

"Foi por isso que você escolheu esse lugar?"

Tiago demorou um pouco para responder.

"Queria que você conhecesse."

A pousada ficava perto da igreja, numa construção antiga de madeira. Havia cheiro de pano úmido, produto de limpeza e madeira molhada. Um cachorro dormia debaixo da escada.

Nivaldo, o dono, entregou a chave do quarto.

"Se precisarem de alguma coisa, estou aqui."

Tiago apontou para a rua.

"Tem algum bar aberto por perto?"

"Tem um depois da igreja."

"Serve cataia?"

Nivaldo sorriu de leve.

"Serve."

No fim da tarde, os dois foram até a igreja.

Tiago caminhava na frente. Não precisava procurar o caminho.

"Você já esteve aqui", Elisa disse.

"Uma vez."

"Com seu pai?"

"Com ele."

Na entrada da igreja, entre duas pedras, havia uma folha pequena, amarelada e ainda molhada. O chão em volta estava seco. Tiago parou por um instante, olhando para ela.

Elisa percebeu.

"Que foi?"

"Nada."

Ele entrou.

Depois de alguns minutos, ficaram do lado de fora.

"Foi aqui que ele sumiu."

Elisa olhou para Tiago.

"Seu pai?"

"Foi."

Tiago contou que o pai tinha saído depois do jantar. Disse que ia caminhar um pouco. Tiago ficou na pousada. Esperou até tarde. Em algum momento, ouviu a porta.

"Ele voltou?"

"Eu ouvi os passos."

Tiago olhou para a rua vazia.

"Meu pai batia duas vezes antes de entrar em casa. Sempre."

No bar, havia três homens perto do balcão e um rádio ligado baixo. Tiago sentou e pediu:

"Me vê um martelinho de cataia."

O homem colocou o copo diante dele. O líquido era escuro e dourado quando a luz bateu.

Elisa experimentou um gole.

"Forte."

Tiago bebeu o restante.

Ficaram algum tempo em silêncio, ouvindo o rádio, os copos e a chuva começando do lado de fora.

"Você veio para cá por causa daquela noite", Elisa disse.

Tiago não respondeu de imediato.

"Eu queria lembrar direito."

"Você não lembra?"

"Algumas coisas."

"Ele saiu."

"É."

"Você disse alguma coisa para ele?"

Tiago olhou para o copo vazio.

"Eu disse uma coisa para ele."

Elisa esperou.

Ele não terminou.

A chuva apertou durante a noite. O telhado da pousada estalava com o peso da água.

Na manhã seguinte, foram até o Salto Morato.

A trilha estava úmida. Folhas grudavam nas solas dos tênis, e o cheiro de terra e madeira molhada ficava mais forte conforme avançavam.

"Foi aqui que ele me mandou esperar", Tiago disse.

"Ele demorou?"

"Demorou."

Continuaram andando.

Mais tarde, sentados perto da água, ficaram algum tempo sem falar sobre o pai. Elisa também não insistiu.

À noite, Tiago saiu sozinho.

Voltou depois de algum tempo com uma garrafa pequena de cataia. Colocou-a sobre a mesa do quarto.

Elisa olhou para a garrafa, mas não perguntou nada.

Nivaldo apareceu mais tarde no corredor. Viu a garrafa pela porta aberta e parou.

"Seu pai gostava."

Tiago levantou os olhos.

Nivaldo continuou andando.

Na manhã seguinte, enquanto arrumavam as coisas, Tiago procurou a garrafa sobre a mesa.

Não estava mais lá.

"Você mexeu nisso?"

Elisa olhou para ele.

"Não."

Ele procurou no quarto. Encontrou a garrafa no parapeito da janela.

Ficou olhando para ela.

Não disse nada.

Na volta para Curitiba, a chuva acompanhou boa parte da estrada.

Depois de alguns quilômetros, Elisa perguntou:

"O que aconteceu depois que você ouviu a porta?"

"Eu ouvi os passos."

"Você abriu?"

"Não."

"Você achou que era seu pai?"

"Eu achei."

"Você não viu?"

"Não."

Elisa ficou olhando pela janela.

"Então por que disse que ele voltou?"

Tiago demorou para responder.

"Porque foi isso que eu guardei."

"Guardou?"

"É."

Ela ficou quieta.

Depois de mais alguns quilômetros, Tiago falou:

"Eu lembro de ter encontrado meu pai na cozinha naquela manhã."

Elisa virou o rosto para ele.

"Você acabou de dizer que não abriu a porta."

"Eu sei."

"Então qual lembrança é verdadeira?"

Tiago manteve os olhos na estrada.

"Não sei."

Elisa olhou novamente pela janela.

"Foi o bastante."

O sinal do celular voltou alguns quilômetros depois.

Em Curitiba, Elisa dormiu no quarto de hóspedes. Foi a primeira vez que fez isso desde que estavam juntos.

Na manhã seguinte, Tiago encontrou a pequena garrafa de cataia sobre a mesa da cozinha.

Elisa estava arrumando uma bolsa.

"Você vai embora?"

"Vou passar uns dias na minha irmã."

"Por causa da viagem?"

"Por causa da mentira."

"Que mentira?"

"Você disse que me levou para conhecer Guaraqueçaba."

Tiago abaixou os olhos.

"Você já conhecia o caminho. Sabia onde ficava o bar. Sabia da igreja. Sabia exatamente onde seu pai tinha desaparecido."

Ele não respondeu.

"Você não me trouxe para conhecer Guaraqueçaba."

Tiago continuou olhando para a mesa.

Elisa fechou a bolsa.

"Eu consigo viver com as coisas que você não lembra. O que eu não consigo é você decidir o que eu posso saber."

Ela saiu.

A casa ficou quieta.

Dois dias passaram.

Na terceira noite, Tiago abriu o armário da cozinha. A pequena garrafa estava no fundo, atrás das outras.

Ele ficou parado.

Lembrava de tê-la deixado sobre a mesa.

Pegou a garrafa e ficou olhando para o líquido escuro.

A lembrança voltou aos poucos. A porta. Duas batidas. Os passos no corredor. Depois a cozinha.

Ou talvez não.

Tiago fechou os olhos.

"Eu queria que você..."

A frase morreu antes do fim.

Ele guardou a garrafa novamente no armário, apagou a luz da cozinha e foi para o quarto. Deitou sem trocar de roupa. A chuva começava a bater no telhado.

Pouco antes do amanhecer, duas batidas soaram na porta da frente.

Tiago abriu os olhos.

Ficou sentado na cama.

Olhou para o celular sobre o criado-mudo.

A última mensagem de Elisa continuava ali desde três dias antes.

"Cheguei."

Ele não tinha respondido.

Duas batidas.

Tiago levantou.

Foi até a porta.

Parou diante dela.

Não abriu.

domingo, 27 de setembro de 2026

A FAZENDA DO RIO ESCONDIDO

A FAZENDA DO RIO ESCONDIDO

Tadeu Everton Zamoiski
Setembro de 2026, 
Rio do Nunes, Antonina

A chuva tinha parado durante a madrugada, mas a estrada ainda estava ruim. O cascalho solto fazia o carro deslizar nas curvas e, em alguns trechos, a água que descia do barranco havia transformado o caminho numa mistura de barro e pedra. Marcos dirigia devagar, escolhendo onde passar. De vez em quando, o Rio do Nunes aparecia entre as árvores, tão perto da estrada que Luísa conseguia enxergar as pedras do fundo através da água limpa.

Ela mantinha o vidro fechado por causa do frio, mas o cheiro da mata entrava de algum jeito. Terra molhada, folhas esmagadas e um aroma diferente, mais forte quando passavam perto de algum trecho de plantação.

“Gengibre”, disse Marcos.

“Você sente de dentro do carro?”

“Quando está úmido, sinto.”

Depois de uma curva apareceu a primeira cancela.

Marcos parou, desligou o motor e desceu. A porteira era pesada, feita de madeira, e estava presa por uma corrente. Ele abriu o cadeado, soltou a corrente e empurrou a cancela para o lado.

Luísa aproveitou para olhar para trás. A estrada que tinham acabado de percorrer já parecia distante. Não havia casa, poste ou outro carro à vista, apenas o caminho de cascalho, a mata e o rio acompanhando tudo por baixo das árvores.

Marcos voltou ao carro, passou pela abertura e desceu outra vez para fechar a cancela.

“Quantas dessas ainda têm?”, perguntou Luísa.

“Não sei.”

“Você não veio aqui antes?”

“Vim.”

“E não lembra?”

“Faz bastante tempo.”

Luísa ficou alguns segundos olhando para ele.

“Você está estranho desde que entramos.”

Marcos ligou o carro.

“Só estou dirigindo.”

Ela não insistiu.

As outras cancelas apareceram ao longo do caminho. Marcos parava, abria e fechava cada uma delas quase sem pensar, como quem já tinha feito aquilo muitas vezes. Na terceira, a chuva começou novamente, fina, quase uma névoa sobre o para-brisa.

Depois de uma curva, o rio apareceu mais aberto. A água corria sobre pedras arredondadas e era tão transparente que Luísa conseguia acompanhar alguns lambaris se movimentando contra a corrente.

Havia três homens pescando na margem. Estavam sentados em cadeiras baixas, cada um com uma vara nas mãos. Um balde branco descansava perto do homem mais velho.

Luísa abaixou o vidro.

“Pegaram alguma coisa?”

O homem levantou os olhos.

“Lambari.”

“Tem bastante?”

Ele olhou para o rio.

“Quando querem.”

Voltou para a vara e não disse mais nada.

Luísa fechou o vidro.

“Ele é meio estranho.”

“Pescador.”

“Isso explica?”

“Às vezes.”

Ela riu. Marcos também.

A fazenda ficava depois de uma curva fechada. Primeiro apareceu a plantação de gengibre, em fileiras que acompanhavam o terreno até desaparecerem perto da mata. A terra escura estava molhada e algumas folhas ainda carregavam gotas da chuva.

Mais adiante surgiu outra cancela. Essa estava apenas encostada.

“Por quê?”, perguntou Luísa.

“Costume.”

“Você fazia isso quando vinha?”

Marcos olhou rapidamente para ela.

“Fazia.”

Ele desceu, abriu a cancela, passou com o carro e voltou para fechá-la.

Alguns metros depois havia uma placa de madeira presa em dois mourões. A tinta estava velha e descascada. As letras tinham sido pintadas à mão, grandes e tortas.

AQUI TERMINA DEUS

Luísa virou o corpo para acompanhar a placa enquanto o carro avançava.

“Você já tinha visto isso?”

“Não.”

“Tem certeza?”

“Tenho.”

Ela continuou olhando para a placa pelo vidro traseiro.

“Então por que você sabia onde ficava a casa?”

Marcos demorou alguns segundos.

“Porque já estive aqui.”

Luísa voltou o rosto para ele.

“Você não falou isso.”

“Você não perguntou.”

Ela ficou quieta.

A estrada terminou diante da casa.

Era uma construção antiga de madeira escura, com telhado de barro e uma varanda comprida voltada para o rio. Nos fundos havia uma churrasqueira de alvenaria, mesas e bancos. Debaixo de uma cobertura estavam empilhados alguns pedaços de lenha ainda secos, apesar da chuva. Uma caixa térmica velha permanecia encostada na parede.

Luísa desceu do carro e bateu no braço de Marcos.

“Já começou.”

“Borrachudo?”

Ela mostrou a marca vermelha que surgia no antebraço.

“Vou precisar daquele repelente.”

Enquanto Marcos tirava as malas, Luísa caminhou até o rio. A margem ficava poucos metros abaixo da casa. A água corria limpa sobre as pedras, formando pequenas áreas mais fundas entre uma corredeira e outra. Um grupo de lambaris passou perto da margem e desapareceu sob uma pedra.

Ela ficou observando até Marcos chamá-la.

“Vem ajudar aqui.”

“Já vou.”

Antes de voltar, olhou novamente para a água.

Uma pedra branca chamou sua atenção. Havia muitas pedras no fundo, mas aquela era diferente. Lisa, comprida e quase branca, parecia deslocada entre as demais.

Marcos se aproximou.

“O que foi?”

“Essa pedra.”

Ele se agachou.

“Que tem?”

“Parece colocada aí.”

Marcos olhou para a pedra e depois para ela.

“É uma pedra.”

“Eu sei.”

Ele se levantou.

“Então está resolvido.”

Luísa sorriu, mas continuou olhando para o rio.

Naquela tarde, entraram na água. Marcos conhecia alguns pontos onde era possível nadar sem escorregar nas pedras. A água estava gelada e Luísa reclamou nos primeiros minutos, mas depois se acostumou.

Ficaram algum tempo numa parte mais funda, onde a corrente passava devagar.

Luísa mergulhou e voltou limpando o rosto.

“Dá para ver tudo daqui.”

“Quase tudo.”

Ela olhou para o meio do rio.

“Ali não.”

Marcos acompanhou o olhar.

“Ali é fundo.”

“Quanto?”

“Não sei.”

Ela riu.

“Você conhece tudo e não sabe nada.”

“É por isso que ainda estou vivo.”

Voltaram antes do escurecer. Prepararam a churrasqueira e ficaram na varanda enquanto a noite chegava. De vez em quando alguma coisa se mexia no mato. Um pássaro passou entre as árvores. Mais longe, perto dos pesqueiros, uma luz apareceu durante alguns minutos e depois sumiu.

Luísa pegou o celular para tirar uma foto do rio.

“Sem sinal.”

Marcos olhou para o próprio aparelho.

“Tem aqui também?”

Ele verificou.

“Nada.”

“Nem uma barrinha?”

“Nem uma.”

Ela guardou o celular.

“Se acontecer alguma coisa, estamos ferrados.”

Marcos mexeu na carne sobre a grelha.

“Tem telefone fixo.”

Luísa olhou para dentro da casa.

“Tem?”

“Na cozinha.”

“Funciona?”

Marcos ficou em silêncio por um instante.

“Funcionava.”

Ela percebeu a resposta.

“Você está me tranquilizando bastante.”

“Não era essa a intenção.”

Luísa sorriu, mas não respondeu.

Quando a chuva voltou, entraram.

Mais tarde, já perto da meia-noite, ouviram uma pancada na água.

Os dois estavam na sala. Marcos tinha acabado de abrir uma cerveja.

“Ouviu?”, perguntou Luísa.

“Ouvi.”

Esperaram.

Alguns segundos depois veio outra pancada, mais perto.

“Tem alguém pescando?”

“Essa hora?”

Luísa foi até a janela. A chuva escorria pelo vidro e distorcia o que havia do lado de fora. Não havia luz na outra margem.

Então alguma coisa caiu na água.

O som foi mais pesado.

Marcos levantou e pegou a lanterna.

“Fica aqui.”

“Nem pensar.”

Ele abriu a porta da varanda e os dois saíram.

A luz percorreu a margem, as árvores e o rio. A água continuava correndo sobre as pedras, clara mesmo sob a chuva.

“Não tem nada”, disse Marcos.

“Olha mais para a esquerda.”

Ele virou a lanterna.

Foi quando Luísa viu alguma coisa entre as árvores do outro lado do rio. Marcos apontou a luz para o mesmo lugar e os dois perceberam que parecia uma pessoa parada perto da margem.

Não havia vara, mochila ou lanterna. A figura apenas permanecia ali, olhando para a casa.

Marcos levantou mais a luz.

“Ei!”

Nenhuma resposta.

“Está tudo bem aí?”

A figura deu um passo para trás.

Marcos avançou até o limite da varanda.

“Tem alguém aí?”

A chuva aumentou por alguns segundos. A luz da lanterna oscilou sobre as folhas e, quando voltou para o mesmo ponto, não havia mais ninguém.

Marcos continuou olhando.

“Você viu?”, perguntou Luísa.

“Vi.”

“Quem era?”

Ele demorou antes de responder.

“Não sei.”

“Você tem certeza de que não era alguém da fazenda?”

Marcos baixou a lanterna.

“Não.”

“Como sabe?”

Ele não respondeu.

Voltaram para dentro e trancaram a porta.

Luísa ainda ficou alguns segundos olhando para Marcos.

“Você realmente já esteve aqui?”

Ele tirou a capa de chuva.

“Já.”

“Quando?”

Marcos pendurou a capa perto da porta.

“Faz tempo.”

“Quanto tempo?”

Ele não respondeu.

Foi até a sala e sentou no sofá.

Luísa não perguntou novamente.

Por volta das duas da manhã, Luísa acordou com sede. A casa estava silenciosa. Marcos dormia no quarto ao lado e ela decidiu não acordá-lo.

Foi até a cozinha, pegou um copo e abriu a torneira.

A água caiu normalmente.

Foi então que ela ouviu outro barulho.

Água correndo do lado de fora.

Luísa fechou a torneira.

O som continuou.

Ela ficou parada, tentando entender de onde vinha. Parecia água escorrendo pela varanda, mas havia alguma coisa misturada ao ruído, um arrastar lento seguido de um pequeno estalo da madeira.

Ela olhou para a porta.

Ouviu um passo.

Depois outro.

Não eram passos rápidos. Quem quer que estivesse lá fora caminhava devagar, sem nenhuma pressa.

Luísa ficou imóvel.

Os passos pararam diante da porta.

Por alguns segundos não aconteceu nada.

Então uma voz falou do outro lado.

“Você leu a placa.”

Luísa sentiu o estômago apertar.

Não respondeu.

A voz veio novamente.

“Agora já sabe onde está.”

Ela olhou para o chão.

Uma pequena quantidade de água começava a passar por baixo da porta da varanda. Era limpa e muito fria. Entre a água havia pequenos grãos de areia e duas pedras claras.

Luísa recuou.

Olhou para as pedras.

Reconheceu uma delas.

Era igual à que tinha visto no rio naquela tarde.

Só que havia duas.

Então percebeu outra coisa.

A terceira pedra estava dentro do copo que ela acabara de encher.

Luísa soltou o copo.

O barulho fez Marcos acordar no quarto.

Antes que ele aparecesse, ela ouviu novamente a voz do lado de fora.

Dessa vez não conseguiu entender as palavras.

Marcos surgiu no corredor.

“Luísa?”

Ela não respondeu.

Continuava olhando para o chão.

A água tinha parado de entrar.

Mas havia pegadas molhadas no chão da cozinha.

Começavam na porta da varanda e terminavam ao lado dela.

Nenhuma delas era de Luísa.

PICO PARANÁ

PICO PARANÁ
Tadeu Everton Zamoiski
Setembro de 2026 — Serra do Mar, Paraná

Amaro chegou antes das seis.

Ainda escuro quando desligou o carro. Ficou ali, mãos no volante, olhando a entrada.

A cancela estava aberta.

Ele tinha certeza de que não devia estar.

Disse à filha que ia dar uma volta na serra. Ela perguntou se estava sozinho.

— Estou.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Você não gosta mais de montanha.

Amaro não respondeu. Agora, sentado no carro, soube que ela tinha razão.

Abriu a porta. O frio entrou primeiro. Cheiro de chuva e terra antiga.

Pegou a mochila no banco de trás. A mesma. Trocou o zíper, costurou a alça, reforçou o fundo. Havia uma pequena queimadura no tecido, perto do bolso lateral. Por anos pensou em jogar fora. Nunca conseguiu.

Colocou nas costas. Fechou o carro. Olhou o estacionamento vazio. Podia voltar. E talvez fosse o único que sabia.

Passou pela cancela.



A trilha parecia mais estreita. Ou era a memória que aumentou tudo.

Reconheceu uma pedra perto do córrego. Uma árvore torta. Uma curva onde alguém parou para apertar o cadarço. A voz veio junto, leve como o vento:

— Vai morrer de velho antes de chegar lá.

Amaro quase sorriu. O sorriso morreu antes de chegar inteiro.

Seguiu.

A chuva da madrugada deixou o chão macio. A sola afundava, como se a terra puxasse. Galhos molhados batiam no rosto. A mochila começou a pesar.

Parou para beber água. Ouviu uma pedra rolar. Olhou. Só folhas pingando. Esperou. Outra, mais perto.

Voltou a andar. Os passos vieram depois. Não atrás. Ao lado. Parava, paravam. Andava, andavam. Era um passo que conhecia bem demais.

Acelerou. Acompanharam. Parou de repente. Silêncio.

— Eduardo?

Não sabia por que disse o nome. Talvez porque ainda o dissesse quando estava só. Ninguém respondeu. Seguiu.



A bifurcação apareceu pouco antes das nove. Dois caminhos. O da esquerda, mais aberto. O da direita, fechado na mata.

Não lembrava. Ou nunca quis lembrar.

Tirou o celular. Sem sinal. Guardou. Pegou a bússola. Apontou normalmente. Norte. Montanha. Norte. Guardou.

O caminho da direita tinha pegadas. Lama ainda úmida. Um conjunto só. Nenhuma outra ao lado. Alguém tinha passado há pouco. Agachou. Não reconheceu a sola. Levantou.

— Tem gente aqui — disse.

Foi atrás.



Encontrou a pedra vinte minutos depois. Baixa, quase escondida. Nela, riscado:

E D U A R D O

Ficou parado. Não tocou. Olhou ao redor. Depois se aproximou. Passou o dedo nas letras. A pedra úmida. Os riscos, não. Eram novos.

Limpou a mão na calça. Deu um passo para trás. Ouviu uma respiração tão próxima que o ar pareceu mudar. Virou. Árvores. Folhas pingando. Nada.

Continuou subindo. Não olhou para trás.



Perto do meio-dia, começou a chover. Água fina que vai molhando sem perceber. Nuca úmida. Mangas pesadas. O chão escorregadio.

Apoiou a mão numa árvore. Foi quando viu o casaco. Azul. Pendurado num galho. Intocado.

Não precisou chegar perto. Conhecia aquele casaco. O rasgo perto do bolso. A manga esquerda mais comprida. Eduardo usava.

Aproximou. Não tocou. Lembrou:

— Tá quente — disse ele, tirando o casaco.
— Depois esfria — respondeu Amaro.
— Aí eu pego.

Jogou sobre o galho. Lembrava de tudo. Menos do que veio depois.

Deu um passo para trás. O casaco continuou ali. Normal. Comum. Era isso que doía mais. Seguiu.



A subida ficou mais dura. Pernas pesadas. Joelho doendo. Pensou em parar. Não parou.

A neblina veio chegando. Em minutos, não enxergava mais que quinze metros. O mundo ficou pequeno: pedra, barro, raiz, respiração.

Ouviu de novo. Atrás. Parou. Parou. Andou. Veio mais perto. Seguiu sem virar.

A voz veio de frente:

— Ainda anda assim?

Parou. Olhou. Eduardo estava ali. A uns quinze metros. Igual. Sem feridas. Sem marcas. Como se tivesse esperado.

— Demorou — disse.

— Eu procurei você.

Eduardo não respondeu. Virou e seguiu. Amaro foi atrás.

Olhou o chão. As suas pegadas estavam ali. As de Eduardo, não.



Chegaram à corda. Velha. Desfiada. Reconheceu o lugar. O estômago apertou.

Eduardo olhou para trás. E veio a memória.

Eduardo escorregou. Segurou a raiz. Amaro estava perto. Muito perto. O braço estendido. Segurou o pulso. A unha do polegar enterrou na pele dele. Doía.

— Me puxa.

Lembrava agora. Sem grito. Sem pânico. Só isso.

Olhou para baixo. Pedra molhada. O pé escorregou. Pensou: os dois caem. Ninguém sabe. Pensou na mãe. No pai. No que ainda queria viver.

Abriu a mão.

Os dedos dele buscaram. Arranharam a pele. Deslizaram. Sumiram. A marca ficou vermelha por semanas. Depois sumiu. A lembrança não.

Dizia a todos que ele escorregou. Era verdade. Só não era a história toda.



Quando levantou os olhos, Eduardo estava ali perto. Amaro chorava sem perceber.

— Eu soltei.

— Eu sei.

— Tive medo.

— Eu sei.

— Me perdoa?

Eduardo demorou.

— Você voltou.

Eduardo voltou a subir. Amaro foi atrás.



No topo, o vento era forte. A neblina se abria aos poucos. A serra lá embaixo.

Olhou para Eduardo. Depois para o horizonte. Quando voltou, ele não estava mais. Sem som. Sem clarão. Simplesmente não estava.

Sentou. Desceu.



A volta pareceu mais curta. Escolheu o caminho da esquerda.

Mais abaixo, achou o casaco no chão. Pegou. Pesado de água. O rasgo no mesmo lugar. Colocou na mochila. Pela primeira vez, levou algo de volta.

Sentiu alguma coisa no fundo. Puxou. Era um cadarço preto, desfiado numa ponta.



A cancela apareceu no fim da tarde. Entrou no carro. Ligou. Ficou parado. Saiu.



Chegou em casa à noite. Banho. Mochila no canto. Nada contado.

Percebeu a mancha de barro perto da porta. Olhou os pés. Limpos. Tocou. Úmida. Cheiro de terra. Lavou a mão.

Dormiu mal. Acordou às quatro. Foi beber água. Parou no corredor.

A porta da frente estava aberta. Tinha certeza de que trancara. Pegadas molhadas. Da porta ao quarto. Paradas. Não eram dele. Mais finas.

Do outro lado, uma respiração. Devagar.

— Disse que ia voltar.

Fechou os olhos. Não respondeu.

Quando abriu, as pegadas voltavam. Pela porta, pelo quintal. Exceto uma. A última. Mais funda. Parada.

Amaro não foi atrás.

Dessa vez, não.

Fim.