Tadeu Everton Zamoiski
O causo que eu vou te contar, seu moço, é dos que a gente não conta na frente de criança nem com a maré cheia. Aconteceu aqui nos nossos lados, no Riviera, quando o vento leste ainda trazia cheiro de sargaço e o centrinho vivia de porta aberta. Dizem que foi com um homem de fora. Tadeu. Só Tadeu, no começo. O resto do nome a gente chega lá.
Ele chegou num fim de tarde, o sol derretendo no horizonte feito gema de ovo quebrada na frigideira. Desceu do ônibus com uma mala pequena e cara de quem veio pra ficar. Alugou o 302 do Riviera, de frente pro mar, num desses prédios espelhados que parecem crescer da areia. Na portaria, seu Ananias — um velho de pele curtida, olho fundo de quem já viu coisa demais — entregou a chave sem muita conversa. Tadeu, homem metódico, quis conferir a lista de moradores no quadro de cortiça. Passou o dedo pelos nomes. 101, 102, 201... até o 302. Ali estava: "302 — Sra. Helena Zamoiski". O nome dele, não. Tadeu não estava em lugar nenhum.
— Seu Ananias, tem erro na lista. Eu sou o Tadeu, marido da dona Helena, do 302.
O velho nem levantou o olho do jornal.
— Eu só leio a lista, moço.
Tadeu insistiu. O velho não abriu a boca. Cansado, ele subiu.
A chave, de metal amarelado, girou na fechadura com um estalo seco. A porta abriu. O cheiro de dentro era familiar: lavanda, o perfume da Helena, um resto de café passado. Ela estava na cozinha, de costas, mexendo uma panela.
— Helena?
Ela se virou. Era ela. Os mesmos cabelos escuros, os mesmos olhos de mel. Mas o olhar era de quem olha um estranho.
— Pois não?
— Sou eu. O Tadeu.
Ele tentou abraçar. Ela recuou. E naquele recuo, por um segundo, o nariz dela se franziu — ele jurou que ela sentiu o cheiro dele, sal, sabonete barato, um resto de cigarro. A mão dela tremeu no cabo da panela. Depois, como quem fecha uma gaveta, o rosto voltou ao de quem atende um desconhecido.
— Olha, moço, não sei quem o senhor é. Se retire.
Hele tirou o celular do bolso, trêmulo, e mostrou a tela. A foto do casamento, na praia de Caiobá. Ele de terno, ela de branco. Ao lado deles, uma mulher de vestido vermelho.
— Olha só. É a gente.
Helena olhou a foto. Franziu a testa. Olhou de novo, mais demorado, e por um instante alguma coisa passou por trás daquele olho de mel — uma sombra, um quase. Ela devolveu o celular com a ponta dos dedos, como se o aparelho estivesse sujo.
— Essa mulher não sou eu.
Foi quando se ouviu a descarga. A porta do banheiro abriu. De lá saiu um homem. Secava as mãos do mesmo jeito que Tadeu secava, dobrando a toalha em três. Usava o mesmo sabonete. Tinha a mesma cicatriz na sobrancelha, feita na infância com a ponta de uma cerca. Baixou a toalha. Era ele. O rosto dele, o nariz dele, a boca dele.
— Amor, quem é esse? — perguntou o outro Tadeu, com a voz exata dele.
Helena caminhou até o impostor e o abraçou pela cintura.
— Não sei. Entrou aqui, tá falando umas coisas sem noção.
O outro Tadeu olhou pra ele. Um olhar de faca de cozinha.
— Meu nome é Tadeu. E acho melhor você cair fora do meu apartamento antes que eu chame a polícia.
O homem desceu as escadas com a chave ainda na mão, a palma tão suada que o metal escapou, bateu no degrau, rodou. Ele nem se abaixou pra pegar. Na portaria, seu Ananias continuava lendo o jornal.
— Seu Ananias, pelo amor de Deus, olha a lista de novo.
O velho suspirou, levantou com o esforço de quem carrega o mundo nas costas, e apontou o quadro. Ali estava, em letra preta: "204 — Tadeu Everton Zamoiski".
Ele quase chorou de alívio. 204. Ele morava no 204. Aquilo era engano. A chave do 302, de alguma forma, abrira a porta errada. Coisa de prédio velho. Subiu.
A porta do 204 abriu. Uma outra mulher, morena, cabelo cacheado, recebeu ele com um sorriso. Cheiro de peixe frito.
— Tadeuzinho! Tava esperando você pro jantar.
Ele não conhecia aquela mulher. A casa não era a dela. Os móveis, os quadros, tudo outro. Mas ele estava cansado. Confuso. Sentou à mesa. Comeu o peixe que ela preparou. Tentou sorrir. A mulher falava de coisas que ele não entendia, de uma conta de luz atrasada, de um primo que ia chegar no fim de semana. Ele assentia. Era mais fácil assentir.
A campainha tocou. A mulher foi atender. Lá estava ele de novo. O outro. O mesmo rosto, agora com barba por fazer.
— Oi, amor. Quem é esse cara?
A mulher deu de ombros.
— Sei lá. Apareceu aqui dizendo que era o Tadeu.
Ele se levantou num salto, derrubando a cadeira. Correu pra fora, desceu os quatro andares, irrompeu na portaria feito bicho acuado. Seu Ananias nem se abalou.
Na manhã seguinte, ele voltou. A lista tinha o nome dele no 402, mas escrito errado: "Tadeu Everto Zamoiski". Ele subiu assim mesmo, não sabe por quê. A porta abriu. Uma criança de uns sete anos, com a cicatriz na sobrancelha, olhou pra ele.
— Mãe, tem um homem aqui que diz que é meu pai.
Ele não entrou. Ficou parado no corredor, sentindo o cheiro de café e sabão de coco, ouvindo a voz da mulher lá dentro dizendo que não conhecia ninguém com esse nome. A criança continuou olhando pra ele, sem medo, com uma curiosidade mansa que doeu mais que qualquer grito. Ele desceu.
No outro dia, o nome na lista era outro. "T. E. Zamoiski", no 103. Ele nem subiu. Já sabia o que ia encontrar. Tentou escrever o nome completo na lista com uma caneta que achou no bolso. A tinta secou no meio do "Z". Tentou ligar pro próprio celular. Do outro lado, uma voz atendeu.
— Alô?
Era a voz dele. Ele desligou.
Tentou mostrar documentos. A certidão de nascimento. O CPF. Mas os papéis pareciam se desmanchar na mão, ou as pessoas simplesmente não os viam. Tentou a polícia. Mas o que diria? "Delegado, tem vários 'eus' morando num prédio e minha esposa não me reconhece." A polícia ia achar que era doente, mendigo com delírio. Ele começou a duvidar de si mesmo. Quem era ele? O que era memória, o que era loucura? Às vezes, de noite, na praça, ele repetia o próprio nome baixinho, feito reza, pra não esquecer. Tadeu. Tadeu Everton Zamoiski. Mas até o nome parecia perder o sentido depois da décima repetição, virar um som oco, uma palavra inventada.
Passou a dormir na praça do centrinho de Matinhos, num banco de madeira, coberto com jornal velho. O cheiro de urina e pipoca velha se misturava ao cheiro do mar. As muriçocas davam conta dele à noite. Todas as manhãs, ao raiar do dia, voltava ao Riviera. Era um ritual doentio. A lista era o oráculo dele. Todo dia, um nome novo. Sempre o dele. Sempre um apartamento diferente. Sempre alguém com o rosto dele morando lá. Sempre a pergunta. E ele nunca sabia a resposta.
Um dia, exausto, desistiu. Não subiu. Caminhou até a portaria com passo arrastado. Sentou no banco de espera, aquele onde os visitantes aguardam. Seu Ananias, pela primeira vez, não o mandou sair. Apenas continuou ali, na cadeira, lendo o jornal.
A tarde caiu. O céu se tingiu de roxo. Seu Ananias levantou, arrumou as coisas, apagou a luz da portaria e foi embora. O homem ficou sozinho. O silêncio do prédio era pesado, quebrado só pelo som das ondas e pelo zumbido da geladeira velha. Sentiu um sono profundo, pesado, feito pedra no peito. Fechou os olhos.
Na manhã seguinte, a luz do sol entrou pela porta de vidro. Na lista, na seção dos funcionários, abaixo do nome de Ananias, havia um nome novo. O novo porteiro. Tadeu Everton Zamoiski.
Ele olhou-se no reflexo da porta de vidro. Não viu o rosto de um homem perturbado. Viu um rosto cansado, pele curtida, olho fundo de quem já viu coisa demais. Sentou na cadeira do porteiro. O jornal estava em cima da mesa. Pegou, abriu.
Às sete da manhã, um homem chegou carregando uma mala. Olhou a lista, depois olhou ele.
— Bom dia. O senhor pode conferir? Meu nome não está aí.
Tadeu levantou o olho do jornal. Olhou o moço de aparência perdida. E respondeu, com voz calma e oca, que ryarecia vir de outro mundo:
— A lista é quem manda, moço. Eu só leio.
O homem saiu. O vento leste trouxe cheiro de sargaço. Tadeu virou a página.