Tadeu Everton Zamoiski
Norberto conhecia o cheiro daquela hora melhor do que qualquer coisa na vida: lama de mangue morna, salmoura de maré baixa. Toda manhã, antes do sol furar o horizonte por cima do Superagui, ele encostava o casco da canoa no trapiche, tocava a mão na lama fria e dizia baixinho: "Bom dia, Dona Maré". Era o único deus que ele ainda tinha.
Descia a ladeira de terra. Ouvia o ritual inteiro antes de ver: a frigideira batendo na boca do fogão, o cheiro de café torrado na hora, o chiado baixo da panela de barro. Iracema, na cozinha, não falava. Cozinhava. É assim que ela fala com ele há quarenta anos — e há quarenta anos ele entende.
Café com rapadura. Pão de farinha com banana amassada. Queijo coalho espetado no garfo. Ele come. Levanta. Beija a testa dela, seca e morna. Sai.
Na mesa, Iracema sempre deixava duas xícaras. Sempre. Mesmo quando era só ele em casa. Norberto nunca perguntou por quê. Ela nunca explicou.
O trapiche cede sob o pé. A canoa boia no bouro raso, onde a água é cor de chá escuro. A rede voa — bola macia e faminta estufando no ar — e abre em flor sobre a água.
E toda manhã volta cheia.
Tainha. Robalo. Caranguejo, quando tinha sorte. O canto da boca de Norberto torce num sorriso de dor de dente antiga. Rema pra casa satisfeito. Isso é paz.
Antes de remar, ele sempre gira a aliança no dedo. É costume. A dele, com o nome de Iracema gravado por dentro. Ele gira, gira, até ela voltar pro lugar.
Na porta, ele deixa o chinelo de borracha azul-marinho. Sempre deixa. Pra não sujar a canoa.
Foi numa terça, de céu limpo, com uma neblina baixa grudada no morro, que a rede trouxe o tênis.
Nike branco. Amarrado em dezoito nós, do jeito dele. Barro fresco no solado, nas costuras, barro de fundo, barro que só existe onde o sol nunca chegou.
O coração dele bateu forte como sino enferrujado na torre da capelinha velha.
Era o tênis dele. Perdido no naufrágio da voadeira do Zé Antônio, dez anos atrás. Ele lembra da onda virando a voadeira e arrancando o tênis do pé dele, lembra do pé nu batendo na madeira, lembra do Zé gritando, lembra do Luizinho — o afilhado, doze anos, que tinha ido só pra ver a maré — com a mão agarrada na borda, pedindo pra não soltar. Norberto tentou segurá-lo. A água arrancou o menino das mãos dele. Dez anos depois, ainda sentia os dedos escorregando.
Nunca mais.
Norberto ficou um tempo comprido olhando. Sentiu a mão arriar — não de cansaço, não. Arriar de defunto. Pegou o tênis. Jogou de volta.
A onda engoliu. E no silêncio que ficou, pareceu-lhe ouvir, bem lá dentro da água, uma risadinha pequenina, quase de menina.
Remou pra casa sem falar com ninguém.
Aquela noite, o quarto cheirou a mangue. E veio o sonho: a rede no chão, feita bola, se desenrolando devagarzinho como cobra subindo do banquinho. E do lado de dentro, algo respirava. Era a respiração dele.
No dia seguinte, a rede puxou a camisa.
Xadrez verde-clara, com as mangas dobradas três vezes. Mancha de molho de peixe no cotovelo direito.
A camisa que ele mesmo queimou no fogão de lenha, duas semanas depois do naufrágio, porque ele não suportava mais o cheiro dela — a maresia velha, a água escura. Ele tinha visto ela virar cinza. Tinha sentido o cheiro de pano queimado.
Ela subiu da água inteira. Limpa. À espera dele.
Era a camisa que ele vestia na tarde do naufrágio. A mesma que o Luizinho tinha puxado quando pediu pra ir junto. "Deixa eu ir, padrinho, eu fico quieto." Norberto ainda sentia os dedos pequenos fechados na manga.
Norberto vomitou no bouro. Depois, tremendo, jogou a camisa de volta. Não olhou onde caiu.
O relógio veio no terceiro dia.
Casio de pulseira de couro já rachada, vidro riscado em três surcos. O que he ofereceu ao menino Luizinho na festa de São João, semanas antes do naufrágio. O menino vivia perguntando: "Padrinho, que horas são? Padrinho, que horas são?" Norberto deu. Porque já não queria mais olhar pra ele.
Marcava 15h47. A hora do naufrágio. Dez anos parado naquele minuto.
Norberto não gritou — queria, não conseguiu. Amarrou a rede num nó de seis laços no moitão do trapiche e se benzeu três vezes com o polegar, do jeito que a avó dele fazia.
Depois, jogou o relógio de volta. Ficou olhando a rede esperneando no ar, cheia de água e de nada, até virar uma coisa só com a tarde caindo.
Naquela noite a maré desceu diferente. Mais baixa. Mais lenta. Como se a água estivesse segurando alguma coisa.
Doze dias sem pescar.
No primeiro dia ele tentou colher cambuci no mato. Chegou lá e não conseguiu lembrar como se faz. Ficou parado no meio do pé, com a mão estendida pra um fruto que não sabia mais colher, até o joelho doer de vez.
No segundo dia, Iracema percebeu. Ela nunca perguntou nada diretamente. Só colocou na mesa uma garrafa de borrachudo — a pinga ruim que só serve pra num doer — e ficou olhando ele de longe, com aqueles olhos cor de caldo de peixe que sabiam tudo antes da boca dizer.
No quarto dia, ele tentou consertar a porta do galinheiro e martelou o próprio dedo. Ficou olhando o sangue como se fosse de outro. No sétimo, pegou a rede pra remendar um rasgo e não lembrou como se faz o nó. O nó que ele sabia desde menino. Ficou com a linha na mão, parado, até a linha cair.
Depois, o silêncio da casa engoliu os dois. Norberto dormia sentado no banco do fogão. Iracema deixava a comida pronta e não acordava.
Mesmo assim, toda manhã, ela continuava pondo duas xícaras na mesa. Norberto reparou num dia em que nem sentou pra comer. Comeu de pé, encostado na pia. As duas xícaras ficaram lá, cheias, esfriando juntas. Ele não disse nada. Ela também não.
Na manhã do décimo segundo dia, Norberto estava na varanda da casa, com a garganta fechada. Lá fora, no quintal de barro vermelho, a rede estava — a mesma que ele tinha amarrado no trapiche, do outro lado do mangue. Encharcada. Escorrendo. Estufada de algo que devia pesar o mundo.
A rede respirava.
Norberto avançou descalço pela lama gelada. A cada passo ao redor da rede, o cheiro aumentava: maré de fundo, rio depois de três dias de chuva no despenhadeiro.
Norberto desfez o nó de laço. Abriu a rede.
Havia um homem.
Afogado. Inchado. Escorrendo. Tingido de violeta e verde-escuro, os olhos brancos de quem está morto há dias. Blusa branca de linho esfarrapada — a que ele usava por baixo da xadrez na tarde do naufrágio. E no dedo anular, uma aliança, igualzinha à dele.
Norberto olhou para a própria mão. A aliança continuava no dedo. O morto usava outra, com o mesmo nome gravado.
E o rosto.
O rosto dele.
Sem a cicatriz do queixo — aquela que ele ganhou meses depois do naufrágio, quando a lâmina do facão escapou e rasgou o queixo — mas com a mesma covinha estranha, a mesma pálpebra direita mais pesada, a mesma dentadura ruim aparecendo quando os lábios se erguiam.
A mão de Norberto subiu sozinha até o queixo. Tocou a cicatriz. Tocou de novo. Como se precisasse confirmar que ela ainda estava ali.
Um Norberto de antes da cicatriz. De antes do naufrágio.
Aí, o homem abriu os olhos.
Não olhos de defunto. Olhos de água. Olhos que eram os olhos dele, e olhavam sem espanto nem raiva, só com uma paciência que não era de gente.
O homem respirou. O bafo saiu salgado, morno, com um fundo de peixe podre. E a boca se abriu, e o que ela disse não veio por voz mas por dentro da cabeça de Norberto, fundo e oco como a matinta-perera assobiando atrás do curral às três da manhã:
"Joga de volta."
E Norberto, sem escolha no corpo, largou o homem na rede.
E jogou.
A rede abriu no ar com um som que não era de tecido, era de ovo estalando. Caiu no barro vermelho — não havia água ali, água nenhuma — mas a rede afundou, afundou, afundou, como se o barro fosse água do fundo, e desapareceu. Só ficou um círculo de lama escurecida e três bolhas que estouraram devagar, cada uma soltando um suspiro velho e fétido.
Em casa, Iracema estava encostada na porta, de avental estampado.
— O que houve?
— Pesquei.
— Pesquei o quê?
— Nada.
Iracema olhou. Para as mãos dele.
Molhadas, frias. Sujas de areia preta, areia de fundo, com fiapos de capim seco e uma carapaça fininha e mole de algum camarão que só existe no escuro.
Ela pegou a xícara. Despejou café. Não disse mais palavra.
Na manhã seguinte, a rede estava na porta. Cheia. Gotejando no piso de taipa.
Norberto não abriu.
A rede se mexeu. Ele não olhou.
Ficou um silêncio comprido. Depois, um barulho de talher. Uma cadeira arrastando no chão de taipa. O cheiro de café passado na hora.
Когда ergueu os olhos, já era tarde: o homem estava sentado à mesa.
Seco. O cabelo grumoso e negro grudado na testa. O chinelo de borracha azul-marinho nos pés — o chinelo que Norberto sempre deixava na porta. Comendo, primeiro com a mandíbula direita, depois com a esquerda. O mesmo jeito de mastigar. E o cheiro dele não era cheiro de defunto nem de mar. Era o cheiro do Norberto de antes: suor e brisa de manga em flor e cigarro de palha. O cheiro que a pele dele tinha dez anos atrás, quando a vida era simples e cheia de gente.
Mais jovem. Mais magro, mais vivo.
Iracema saiu da penumbra com a frigideira. Puxou a cadeira dele, ajeitou, como se já soubesse onde ele sentava. Serviu ovos mexidos. Bobó de camarão numa travessa de barro. Farinha de mandioca esfarelada. Não perguntou nada.
Na mesa, as duas xícaras já estavam postas. Como sempre.
— Quem é você? — perguntou Norberto, e a voz saiu fraca, cor de leite talhado.
O homem engoliu. Enxugou a boca no pano listrado que a avó de Iracema fizera há meio século. Olhou para ele.
E disse:
— Sou o que você jogou fora.
Iracema ergueu a cabeça da panela. Sorriu. Olhou para Norberto e disse, dócil, com aquela dignidade de quem serve comida há quarenta anos e jamais falou alto:
— Senta, amor. O café tá esfriando.
E Norberto sentou. Puxou a cadeira. Ajeitou o guardanapo. Serviu café para o outro homem, sem pensar, como quem serve para si mesmo.
O outro homem girou a aliança no dedo. Gira, gira, até ela voltar pro lugar. O mesmo gesto. A mesma demora.
Norberto comeu.
Amanhã, bem cedo, ele ia pescar de novo.
E a rede vai voltar.
Sempre volta.