sábado, 10 de outubro de 2026

O Canto

O Canto
Tadeu Everton Zamoiski


Eu categorizo coisas. É o que eu sempre fiz. Planilha, padrão, desvio. Sempre achei que tudo tinha padrão.

Até a Helena ir embora e o apartamento ficar quieto de um jeito que não era silêncio.

Ela levou o que prestava. Ficou o sofá com o afundado do corpo dela, um colchão no chão e o Cinza.

Vira-lata cinzento, orelhas caídas. Ficou comigo porque ela disse, olhando para o lado, que não tinha tempo para ele. Eu olhei para o cachorro. Ele olhou para mim. Foi mais honesto que o resto da separação.

Trabalhava de casa, comia em pé na pia, deixava a louça virar torre, o detergente escorrer até o cotovelo enquanto olhava pela janela sem ver nada. Cinza dormia embaixo da mesa, me seguia no corredor, deitava no tapete do banheiro. Quando eu chorava, ele vinha lamber minha mão.

Na primeira noite, onze horas, ele rosnou para o canto. Aquele entre a estante e a janela da sala. Só parede, a poeira ali mais escura que no resto, quase úmida, com uma tomada que nunca funcionou, um buraco redondo e preto do tamanho de um dedo.

Eu fiquei com o copo parado na mão.

— Cinza.

Parou. Me olhou e deitou.

Na segunda noite, onze horas de novo. Onze era a hora em que eu fazia merda. Em que abria o celular para ver se a Helena tinha postado alguma coisa. Daquela vez veio um cheiro rápido de cloro com terra molhada, vindo do canto. Achei que era da pia. Ignorei.

Na terceira noite apareceu ela. Foto antiga, viagem, rindo com um cara cortado na borda. Fiquei olhando mais tempo do que devia.

Cinza levantou a cabeça, olhou para o canto e rosnou.

Fechei o aplicativo. O rosnado parou.

Abri de novo e continuei olhando para o rosto dela. Enquanto eu olhava, ele ficou encarando o canto e rosnou de novo.

No dia seguinte eu testei. É o que eu sei fazer.

Pensei na Helena de propósito. Nome, rosto, voz. Ele olhou para o canto e rosnou.

Parei de pensar. Parou.

Pensei no meu chefe. Nada.

Pensei numa vez na escola, quando roubei um compasso da mochila de um colega e deixei ele levar a culpa. Cinza olhou para o canto e rosnou.

Teve uma noite em que eu chorei e ele não veio lamber minha mão. Ficou no sofá, olhando para o canto.

Ele não me consolava mais. Ele me entregava.

Levei-o ao veterinário. Nove anos, coração forte. A veterinária escutou o peito dele e disse que não tinha nada errado.

Liguei para a Helena uma vez. Só para ouvir a voz.

Ela atendeu e disse:

— Você nunca contou nada que doeu de verdade.

Eu disse que o Cinza estava bem. Ela desligou.

A louça virou torre de novo. O colchão continuou no chão. Tem coisa que a gente aprende a não olhar. Eu aprendi cedo.

Até a noite do prato.

Eu estava lavando um prato e da água da pia subiu aquele cheiro de novo, cloro com terra molhada, mas agora forte. Quintal com poço.

E o nome veio.

Falei em voz alta, para o Cinza.

— Wesley Santos.

Verão. Eu tinha sete anos. Conheci um menino magro que ficou três dias na casa do fundo da rua. A gente passava a tarde num terreno baldio atrás das casas. Um pedaço de compensado cobria o poço. Nós dois arrastávamos a tampa para o lado e jogávamos pedras. Lá embaixo, só lama e escuridão. Ele ria de cabeça para trás, como se soubesse de alguma coisa que eu não sabia, e dizia que não tinha fundo. Aquela risada me irritava.

No segundo dia a mãe dele gritou do portão:

— Wesley Santos, pra dentro!

No terceiro dia eu levei a pedra maior. Tive que usar as duas mãos.

Ele estava na beira, curvado, olhando lá para baixo e rindo.

Eu falei:

— Então prova.

Empurrei. Com as duas mãos nas costas finas. Foi fácil.

Ele não gritou. Fez só um barulho curto, de ar saindo. Depois um barulho de saco caindo em lama.

Fiquei olhando. Lá embaixo não refletia nada. Só lama.

Voltei para casa e nunca contei. No outro dia a casa estava fechada, janelas escuras, como se nunca tivesse morado ninguém ali.

O prato ainda estava na minha mão, ensaboado. De costas para a sala, las mãos na pia.

Cinza não rosnou.

Levantou a cabeça devagar. Não olhou para o canto. Olhou para mim, com as orelhas erguidas e o focinho enrugado. Depois, olhou por cima do meu ombro.

— Cinza.

Ele não abanou. Não deitou.

Latiu. Curto, agudo. Para o que estava atrás de mim.

A água continuava correndo na pia e eu não escutava mais.

Senti frio entre as omoplatas. Duas mãos pequenas, as palmas abertas.

Decidi não virar.

Tentei categorizar. Reflexo, luz, cansaço. Sem padrão, só desvio.

Limpei o vidro com o antebraço. Nada de mim ali. Só o vão entre a estante e a janela da sala. O canto vazio. E a tomada preta, redonda, do tamanho de uma boca de poço.

O vidro não tinha fundo.

Empurraram. Com as duas mãos. Não gritei. Saiu só o ar.

Foi fácil.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Véu

Véu
Tadeu Everton Zamoiski Estrada da Graciosa

Fecharam a 277. De novo.

Eu estava na conveniência do posto de São José, mãos suando em volta do copo de café queimado, quando o rádio do frentista chiou. Deslizamento entre o Km 54 e o Km 60. Pista fechada nos dois sentidos, sem previsão.

O frentista olhou pra mim por cima do balcão.

— Vai ter que ser pela Graciosa, moça.

Peguei uma garrafinha d’água na geladeira e paguei. Ninguém que mora aqui quer a Graciosa de noite. De dia é passeio. De noite é garganta. Quase nove quilômetros de paralelepípedo que nunca seca, muro de pedra do Império coberto de limo e mata tão fechada que o farol alto não atravessa.

Eu precisava chegar em Morretes. Minha mãe tinha ligado às dez. Meu pai não estava conseguindo respirar direito. A voz dela era a mesma da noite em que a avó morreu.

Entrei no carro. 23h14.

Os primeiros quilômetros ainda tinham casa, cachorro, luz de varanda. Na última curva antes da mata engolir tudo, levei a mão à garrafa. Não abri. Meu pai não podia esperar. A última luz sumiu e o silêncio mudou.

Desci freando o tempo todo. Limpador no lento, mesmo sem chuva, só pra limpar a umidade que grudava no vidro. O cheiro de terra molhada entrou no carro com tudo fechado.

No Bela Vista, na curva mais aberta, tinha alguma coisa parada no meio da pista.

Parada. Não se mexia com o vento. Não era cerração. Cerração se mexe.

Primeiro só uma brancura. Depois o farol mostrou a textura. Renda molhada, pesada, flutuando a um palmo do chão.

Era um véu de noiva.

Buzinei. Nada.

Fui chegando e o véu abriu sozinho.

Tinha uma mulher de costas pra mim, bem no centro da pista.

O vestido ia até o chão, mas não era tecido. Era barro e raízes finas, úmidas, entrelaçadas. As pedras do calçamento entravam na barra e as raízes sumiam entre elas.

Ela não estava na estrada. Ela era a estrada.

Tentei dar ré. O carro morreu. Como se alguém tivesse puxado a chave. O painel apagou inteiro. O farol ficou amarelo, fraco.

Sem grilo. Sem vento. Nem aquele farfalhar de folhas que sempre tem na Graciosa.

Olhei no retrovisor. O vidro tinha brotado musgo por dentro. Verde, vivo, avançando das bordas pro meio.

Quando voltei pro volante, as raízes já estavam ali. Finas, pretas, saindo da coluna de direção e enrolando nos meus dedos. Não apertavam. Só seguravam, mornas e úmidas como veias.

Falei sem pensar:

— Não passa.

Ela virou só a cabeça. O estalo soou fundo, como se o pescoço tivesse quebrado por dentro. Meu ombro recuou sozinho. O estômago fechou.

Não tinha rosto. Só a mesma neblina densa do véu, girando.

Aí veio a voz da minha avó.

Ela me levava na Graciosa quando eu era pequena. Sempre parava no mesmo lugar, abria a porta do carona e jogava um pouco de água no chão.

— É o pedágio da mãe da serra. A gente pede licença.

Eu tinha entrado sem pedir.

Olhei pro lado do carona. O medo de ficar era maior. As raízes esticaram sem soltar, mornas, e acompanharam minha mão até a maçaneta. Demorei um segundo.

Abri. A mata estava colada na lata do carro. Folhas batendo no retrovisor. O frio entrou de uma vez.

Peguei a garrafa, desrosquei a tampa e deixei no chão, no paralelepípedo. A água desceu entre as pedras e sumiu entre as raízes.

Falei baixo:

— Desculpa. Me deixa passar.

O musgo parou de crescer no vidro. As raízes soltaram dos meus dedos devagar, ainda mornas, e sumiram no ar como se nunca tivessem existido.

O véu fechou. Quando abriu de novo, não tinha mais nada. Só a pista vazia e a neblina normal descendo o morro.

O painel acendeu. Dei partida. Pegou.

Desci o resto de segunda, sem parar, sem olhar no retrovisor.

Quando a luz amarela do posto 24 horas apareceu na entrada de Morretes, respirei fundo. O celular vibrou. 23h14. Mensagem da mãe: o pai tinha melhorado de repente. A respiração tinha voltado.

Entrei no banheiro pra esfregar a mão. Água gelada, sabão rosa de posto. Esfreguei. O barro não saiu. Esfreguei de novo, com a unha. O cheiro de raiz ficou.

Levantei a cabeça pro espelho manchado.

Meu reflexo ainda estava lá em cima, na curva.

Ele virou só a cabeça.

— O estalo soou no meu pescoço.

— Não passa.

A água da minha garrafinha ainda escorria entre os meus pés.

A Dobradiça na Paraná

A Dobradiça na Paraná
Tadeu Everton Zamoiski 
Caiobá

Meu avô jurava que foi ele quem abriu o canal da Avenida Paraná. Falava cuspindo o fumo de corda, com aquela empáfia de quem meteu o facão no mato e achou que virou dono da terra. Dizia que antes dali não tinha nada: nem rua, nem calçada, nem casa com laje batida. Só lama, maré cheia e um silêncio grosso de mangue. Primeiro o canal, ele repetia. Só depois a cidade veio em cima.

E que “não mexe onde já está mexido”, ele resmungava de cara amarrada quando a gente era moleque e tentava cavar buraco fundo na beirada da vala. Na época, a gente achava que era manha de velho. Hoje eu sei que ele não era o pioneiro de porra nenhuma. Ele era o carcereiro. O velho sabia perfeitamente o que a gente pisava em cima; só preferiu inventar a história da fundação para ninguém ter a curiosidade de olhar para baixo.

Eu mergulho naquele trecho desde os doze anos. Conheço cada palmo daquele fundo como se fosse a palma da minha mão calejada. Sei onde tem linguado entocado, onde o toco de bracatinga está preso no lodo, onde a pedra de contenção cedeu. Todo mês de junho, na ressaca de sul, quando a prefeitura chama a turma para a limpeza de rotina antes das chuvas, sou eu quem desce. É trabalho braçal, sujo, na água barrenta e gelada.

Até o dia em que a lâmina da minha espátula bateu em seco.

Não era pedra. Não era o concreto cinzento e remendado da última engorda de praia. Era madeira.

Passei a mão enluvada pelo limo grosso, limpando a craca com cuidado. Meus dedos tatearam as ranhuras de uma porta. Uma porta de verdade, com uma maçaneta de ferro pesado, gasta e redonda como uma castanha grossa, e dobradiças fundidas que o tempo tentou comer, mas não conseguiu. Estava embutida ali na alvenaria submersa, a uns dois metros de profundidade.

Segurei firme na maçaneta. Ela girou com um rangido abafado pela pressão. Puxei.

Na mesma hora, a água barrenta do canal deu um puxão, rodopiando num vácuo rápido. Mas o que apareceu do outro lado não foi o breu do fundo. Era ar.

Aproximei o visor de vidro, apertei o rosto contra o batente e respirei fundo pelo regulador. Vi um corredor de tijolos aparentes, secos, iluminados por uma claridade suja, que não vinha de sol nenhum. Tirei o bocal por um segundo, engoli aquele ar velho, cheirando a mofo e madeira antiga, e empurrei o corpo para dentro.

Fiquei de pé. O chão sob minhas botas era de terra batida, totalmente seca. Olhei para trás: a porta estava aberta para o verde escuro e barrento do canal de Matinhos, mas a água não caía para o corredor. Ficava presa ali na soleira, como uma respiração presa.

Dei três passos e saí na margem da Riviera de Baixo.

O canal estava ali. Era o mesmo. A mesma largura exata, a mesma curva suave buscando a maré. Mas a ponte que cruzava a água não era de concreto cinzento com nome de político e pichação de torcida. Era de toras grossas de madeira preta, encharcadas de chuva antiga.

Olhei para as margens. Não tinha sobrado, não tinha placa de aluguel de temporada. Eram casebres de tábua tosca, com rede estendida na varanda e lampiões amarelos acesos nas janelas, bem no meio do dia. As árvores... figueiras bravas gigantescas, guabirobas imensas que ninguém na Riviera de hoje viu em pé.

Mais à frente, na penumbra de uma das varandas, ouvi o arrastar abafado de um pé descalço na terra batida. Um assobio curto, antigo, que cortou o silêncio.

Uma tontura funda me pegou pelo estômago. Dei meia-volta, corri pelo corredor, atravessei a porta e me joguei de volta na água turva. Fechei a folha com toda a minha força até ouvir o baque abafado e subi à tona, cuspindo o gosto amargo de lodo e ferro, puxando o ar do mundo real com desespero.

Joguei o casco na lancha, tirei a máscara e fiquei ali, sentado no banco de alumínio, tremendo que nem vara verde. Em casa, tentei lavar o rosto com água quente e sabão azul. Não adiantou. O cheiro de lodo seco ficou grudado no meu nariz a noite inteira. E, no meu ouvido esquerdo, a água continuava batendo — um eco grosso, como se o mar de lá debaixo estivesse tentando subir pelo meu pescoço.

No dia seguinte, voltei cedo, com a maré bem baixa.

A porta estava entreaberta. Exatos dez centímetros.

Mergulhei com o corpo tenso, o suor frio misturado com o sal. Olhei para a régua de medição de cheia fincada perto do molhe, aquela que a prefeitura usa todo ano. O nível da água no canal de cima tinha baixado dois centímetros exatos da véspera para hoje. Como se a nossa vala estivesse esvaziando por dentro, pingando devagarzinho para alimentar o mundo que ficou embaixo.

Dois centímetros a menos hoje. Quinze centímetros a mais de abertura na porta. A Riviera de cima está secando, esvaziando ralo abaixo, e a conta não vai demorar a fechar.

Olhei para as camadas da parede do canal à minha volta. O concreto novo da engorda de praia. Mais abaixo, a alvenaria batida nos anos 70 pelo meu avô. E, cortando o fundo, atravessando os tijolos antigos, o topo de um tronco queimado de uma cerca que nunca esteve nos mapas.

A Riviera nunca foi a primeira Riviera.

Meu avô não foi o primeiro a cavar. Ele foi só o que encontrou a maçaneta da vez, fechou a cara e mentiu para a gente dormir em paz.

Mas em junho do ano que vem tem limpeza de novo. E não vai ser eu quem vai descer. Vai ser outro guri de doze anos. E a porta vai estar esperando por ele, dez centímetros mais aberta.

O Loteador

O Loteador
Tadeu Everton Zamoiski
Pontal do Paraná

Em Pontal do Paraná, ninguém pergunta de onde vem o nome das ruas.

Rua das Gaivotas. Rua das Palmeiras. Rua dos Coqueiros. Rua dos Ipês. Nomes de postal. Eu morei na Rua das Gaivotas, casa 47. Vinte anos. Nunca vi uma gaivota ali. Meu marido dizia que era porque gaivota não lê placa. Eu ria.

Shangri-lá parece nome de lugar inventado. Mas tem placa. Tem CEP. Tem gente morando.

Sempre achei isso normal. Até o dia em que fui na prefeitura resolver uma coisa de IPTU e a moça do balcão me disse que a minha rua não existe.

— Como assim não existe?

— Não está no cadastro, dona. A senhora tem certeza que é essa rua?

Mostrei a escritura. Mostrei o carnê. Mostrei a conta de luz. Ela olhou tudo. Chamou outra moça. Chamou o supervisor. O supervisor pegou os papéis, conferiu o endereço, conferiu de novo. Depois olhou pra moça. Depois olhou pra mim. Ninguém disse nada.

— A senhora não é a primeira que vem com esse problema — falou a moça, baixinho, quando o supervisor saiu.

— E o que aconteceu com as outras?

Ela começou a arrumar umas pastas em cima do balcão. Não me olhou mais.

Fui pro cartório. Mesma coisa. Fui na imobiliária. O corretor riu.

— Rua das Gaivotas? Aqui não tem Rua das Gaivotas, dona.

— Tem sim. Fica entre a das Palmeiras e a dos Coqueiros.

Ele abriu um mapa no computador. Não tinha.

Fui pro Google. Digitei. Nada. Digitei casa 47, Shangri-lá. Nada. Olhei pela janela. A rua estava lá. A calçada, os vizinhos, o cachorro do seu Nilton latindo como sempre. Estava tudo lá. Mas não estava em lugar nenhum.

Fiquei uns dias sem falar disso. A gente faz isso, né. Acha que é cansaço, que é a idade. Toca a vida. Lava a louça. Vai no mercado.

Fui na casa do seu Nilton. Ele mora hier desde os anos 80. Perguntei se ele sabia quem tinha loteado a rua.

— Isso aqui era tudo areia, dona. Quando eu cheguei, não tinha nem poste.

— Mas quem dividiu os terrenos?

— Vieram uns homens de Curitiba. Venderam. Foram embora.

— E como era?

Ele ficou olhando o mato. A gente olha o mato quando tá procurando memória.

— Tinha um. Magro. De terno. Andava com uma pasta de papelão. Dizem que ele desenhava as ruas no papel. E depois a rua aparecia.

— Como assim aparecia?

— Sei lá, dona. Foi o que me falaram.

Dona Marlene, da casa ao lado, contou outra versão. Disse que o homem não andava com pasta. Andava com um caderno. E que ele não vendia terreno, doava. Dizia que a cidade ia ser dele depois, de qualquer jeito. Que ele só tava esperando o papel terminar.

— A senhora lembra o nome dele?

— Não. Só as iniciais. A. L.

Procurei A. L. em tudo. Registro de imóvel, arquivo de jornal, ata de prefeitura. Nada. Como se o homem nunca tivesse existido. Como se as ruas tivessem aparecido sozinhas, com nome e tudo.

Uma tarde, voltando do mercado, peguei um caminho diferente. A Rua das Palmeiras termina num descampado, depois tem um matagal, depois tem uma casa. Casa velha, sem número, sem caixa de correio, sem luz acesa. Nunca tinha reparado. Naquela tarde, reparei.

Bati.

Abriu um velho. Muito velho. Magro. De terno. Terno cinza, gasto, mas passado.

— Pois não?

— Boa tarde. Eu tô procurando uma pessoa. Não sei o nome, só as iniciais. A. L.

Ele me olhou por um tempo. Não com surpresa. Com paciência. Como quem já esperava.

— Entra.

A casa por dentro era só uma sala. Sem sofá, sem mesa de jantar, sem nada. Só uma mesa grande, de madeira, no meio. Em cima da mesa, papel. Muito papel. Mapas, plantas, desenhos. E um caderno grosso, capa preta, aberto, com uma caneta do lado.

A madeira da mesa tinha marcas. Não riscos de uso. Marcas de lápis. Uma linha atravessava a mesa de uma borda à outra e continuava pela quina, descendo pela lateral.

— A senhora mora onde?

— Rua das Gaivotas, 47.

Ele assentiu. Folheou o caderno. Cada página era um balneário. Vi Shangri-lá. Vi Ipanema. Vi Atami. Vi Riviera. Ruas desenhadas a lápis, com nome, com número, com quadra, com lote. E em cada rua, em algum lugar, em letras pequenas, ele tinha escrito um nome.

— Isso aqui é a senhora.

Ele apontou. Rua das Gaivotas, número 47. Ao lado do número, escrito a lápis, estava o meu nome. Ana. Não o nome da rua. O meu.

Olhei pro mapa. A rua desenhada no papel fazia uma curva. A linha da mesa fazia a mesma curva, no mesmo lugar.

— Eu não escolhi morar aqui.

— Ninguém escolhe. Eu escrevo, e depois alguém mora.

Fiquei olhando o caderno. Virei umas páginas pra trás.

Rua das Gaivotas, casa 47. Ao lado do meu nome, o nome do meu marido. Sebastião. Embaixo do nome, em letras menores, uma observação. Gosta de pescar de madrugada. Só volta quando o sol nasce.

Ninguém sabia disso. Nem a minha filha. Era uma coisa nossa. Ele saía às três, voltava às sete, com o balde cheio ou vazio, tanto faz. Eu esperava com café pronto. Ele morreu há oito anos. No primeiro ano, eu continuei fazendo café pra dois. Depois parei.

Quando eu levantei os olhos do caderno, o velho estava olhando pra página. Não pra mim. Pra página. Especificamente pro nome do Sebastião. Passou o polegar por cima do nome. Devagar. Como quem confere se a escrita ainda está ali.

Ficou um tempo. Eu não disse nada. Ele não disse nada. A sala ficou quieta. Só o barulho do mato lá fora. Depois ele pousou os olhos em mim de novo, como se nada tivesse acontecido.

A caneta dele continuava na mesa. Do lado do caderno. Em cima de uma folha em branco.

— Por que a senhora tá aqui?

— Porque a minha rua não existe.

— Existe. No papel.

— E fora do papel?

Ele não respondeu. Pegou a caneta. Ficou olhando a página. A ponta da caneta ficou suspensa a um dedo do papel. Ele não apagou nada. Passou uns segundos assim. Depois pousou a caneta de novo. Alinhada com a borda do caderno.

— Ainda faltam três balneários.

— O quê?

— A cidade só vai existir de verdade quando eu terminar. Ainda faltam três. Depois disso, eu paro.

— E aí?

— E aí vocês existem sem mim.

Saí dali sem saber o que pensar. Voltei pra casa pela Rua das Gaivotas. Cumprimentei o seu Nilton. Passei a mão no cachorro dele. Entrei em casa. Fiz o jantar. Lavei a louça. Sentei na varanda.

No dia seguinte, a Rua das Palmeiras não terminava mais no mesmo lugar. Terminava um pouco antes. O matagal tinha mudado de tamanho. A casa sem número não estava mais lá. Ou estava, e eu não vi.

Fui de novo. Não achei. Fui de novo. Não achei.

Perguntei pro seu Nilton se ele lembrava da casa no fim da rua.

— Que casa?

Perg perguntou pra dona Marlene se ela lembrava do homem do caderno.

— Que homem?

Fui até o quintal. Procurei o pé de limão que o Sebastião tinha plantado no ano em que a gente se mudou. A gente esfregava as folhas entre os dedos só pra sentir o cheiro. Não tinha mais. No lugar, tinha uma garagem. Cinza, de bloco, com portão de ferro. Nova. Nunca tinha visto aquela garagem na vida.

Voltei pra dentro. Abri a gaveta da cômoda. O papel amassado com a letra dele ainda estava lá. Não tinha rua. Não tinha número. Tinha só meu nome. Ana. E embaixo, escrito a lápis, com aquela caligrafia antiga: Ainda não terminei.

Fiquei um tempo com o papel na mão. Depois fui ver a escritura.

Rua das Orquídeas, casa 12.

Fui ver as fotos. Todas na Rua das Orquídeas, casa 12.

Olhei pela janela. A rua não era mais das Gaivotas. Nunca tinha sido. Sempre foi das Orquídeas.

Liguei pra minha filha.

— Filha, você lembra da casa antiga? Da Rua das Gaivotas?

— Que Rua das Gaivotas, mãe?

— Aquela rua. Onde você cresceu. Onde o seu pai pescava.

— A gente sempre morou na Rua das Orquídeas. Casa 12. Tem foto.

— Você lembra do seu pai saindo de madrugada?

— Ele pescava, mãe. Saía de manhã, voltava de tarde.

Fiquei um tempo com o telefone no ouvido. Ela perguntou se eu tava bem. Eu disse que sim. Desliguei.

Fui até a cozinha. Abri o armário. Peguei o coador. Fiz café.

Um café só.

Apoiei as costas no balcão, do jeito que eu sempre ficava. O lugar onde o Sebastião encostava pra tomar o café dele de manhã. A marca do copo dele na pedra. A mancha redonda, de tanto ele apoiar o copo no mesmo lugar. Eu esfregava e não saía.

Não tinha mais.



Em Pontal do Paraná, ninguém pergunta de onde vem o nome das ruas. As ruas vão aparecendo. A gente vai morando.

Eu moro na Rua das Orquídeas, casa 12.

Só que às vezes, quando ninguém tá olhando, eu vejo uma gaivota na esquina. Uma só. Parada. Me olhando.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

O Filho do Verão

O Filho do Verão

Tadeu Everton Zamoiski 

Antes do cheiro, o rangido.

Minha avó dizia que era o espírito da casa reclamando visita. Eu ria. Naquela manhã de julho, com a chave ainda na mão e o pé no batente, não ri.

O cheiro veio depois. Maresia com cera de móvel. Um resto de fritura que nunca sai das paredes. Fechei os olhos ali, parada, sem saber se entrava ou se voltava para o carro. Vim para vender. Vim para encerrar. Mas a casa não sabia disso.

Matinhos em julho é uma cidade que parece ter sido abandonada às pressas. As casas fechadas, os toldos recolhidos, as cadeiras de praia empilhadas atrás dos portões. O calçadão intacto, esperando uma multidão que só chega em december. Caminhei até a praia na primeira manhã. O mar estava cinza. A areia, dura. Nenhuma pegada. Nenhuma criança com balde na mão.

Voltei pela Rua das Acácias, a mesma rua de todos os verões da minha infância. Casa 112, 114, 116. Todas fechadas. Na casa 118 — a dos Ribeiro, portão azul, pé de pitanga no quintal — tinha uma menina sentada na calçada.

Uns sete anos. Cabelo molhado. Pés descalços. Um vestido amarelo.

Ela desenhava no chão com giz branco. Não olhou para mim. Continuei andando, devagar, e quando olhei para trás, não estava mais lá.

Passei o dia na casa. Abri armários, separei coisas para doar, coisas para jogar fora. Encontrei fotos. Muitas. Minha mãe, meu pai, meus tios, todos na praia, todos sorrindo. Em uma delas, eu tinha uns oito anos. Vestido amarelo. Ao meu lado, outra menina. Mesmo vestido. Mesmo cabelo. Eu não lembrava dela. Nunca tinha visto aquela foto.

Liguei para minha mãe.

— Mãe, quem é a menina da foto? A que está do meu lado, na praia, na foto de 1998?

Silêncio.

— Que menina, Helena?

— A de vestido amarelo. Igual ao meu.

— Você estava sozinha nessa foto.

Pesquisei no celular. Crianças desaparecidas Matinhos. Matinhos verão desaparecimento. Nada. Nenhuma notícia, nenhum registro, nenhum boletim de ocorrência. Liguei para o corretor, perguntei se ele conhecia a rua, se sabia de alguma coisa estranha na região. Ele riu.

— Matinhos é tranquilo no inverno, dona Helena. Não tem ninguém. É até bom.

Naquela noite, ouvi vozes.

Finas, agudas, de criança brincando. Vinham de fora. Abri a janela do quarto. A rua, vazia. Mas as vozes continuavam. Vinham da casa 118. Do portão azul trancado, do quintal murado, do escuro.

Fechei a janela. Tranquei. Deitei. Fiquei acordada até o sol nascer.

No dia seguinte, fui ao mercado. Quase vazio. Só uma senhora idosa, escolhendo tomates. Ela me olhou de um jeito estranho.

— Você é filha de quem? — perguntou.

— Sou neta da Dona Cida. Da casa 114.

Ela assentiu devagar. Pegou um tomate, pesou na mão, devolveu.

— A Cida era boa gente. Sentiu muito quando a menina foi embora.

— Que menina?

— A sua mãe. A que tinha uma pinta na perna igual a sua. Quando ela foi embora daqui, a Cida nunca mais foi a mesma.

Minha mãe nasceu em Curitiba. Nunca morou em Matinhos. Nunca teve pinta na perna. Eu tenho. Desde criança. Ninguém além da minha família sabia disso.

Abri a boca para corrigir a senhora. Ela já tinha virado as costas.

Na volta, vi mais crianças. Duas meninas pulando amarelinha na calçada em frente à casa 122. Um menino de bicicleta, dando voltas na esquina. Um grupo pequeno na mureta do calçadão, olhando o mar. Todas com o cabelo pingando. Em julho. Sem um arrepio.

Corri para casa. Tranquei a porta. Sentei no chão da sala, com as costas na parede. As fotos na parede tinham mudado.

Não todas. Algumas. Em uma delas, eu estava na praia, com uns seis anos, segurando um balde. Ao meu lado, a menina de vestido amarelo. Ela sorria. Eu não. Eu olhava para a câmera com uma expressão que não reconhecia.

Fui até o quarto. Abri o armário. Numa sacola plástica, dobrado, o vestido amarelo. O meu. Guardado há vinte anos. Peguei na mão. O tecido estava frio. Mas não frio de armário fechado. Frio de mar.

Desci ao porão com a lanterna do celular. Encontrei o baú. Madeira, ferrugem nas dobradiças. Abri.

Dentro, um caderno. Capa preta, páginas amareladas. Letra miúda. Comecei a ler. Nomes. Só nomes. "Maria." "João." "Ana." "Pedro." "Luísa." Sem idade, sem data. Só nomes, uns embaixo dos outros, em letras diferentes. Algumas páginas rasgadas. Outras com contas de barracas de milho, anotações de compras, um desenho de sol. No meio, uma lista de compras: "arroz, feijão, açúcar, giz."

Virei a página. No alto, uma data: 15 de janeiro de 1952. Embaixo, um nome. Maria. Virei. 15 de janeiro de 1953. João. Virei. 15 de janeiro de 1954. Ana. Sempre 15 de janeiro. Sempre uma criança. Sempre em Matinhos.

As últimas páginas estavam em branco. Ao lado do caderno, uma caneta esferográfica azul, dessas baratas. Peguei na mão. Estava quente.

Fechei o baú. Subi as escadas. Sentei na cama. Olhei para a caneta. Pensei em fechar o baú, pegar as chaves e ir embora.

Mas as vozes voltaram. Desta vez, vinham de dentro de casa. Do corredor. Do quarto da minha avó. Do espelho.

Olhei para o espelho.

Ela estava atrás de mim.

Cabelo molhado. Pés descalços. E, no rosto, a mesma expressão da foto. A que eu não reconhecia.

Não vim para vender a casa. Vim para preencher a última página.

Não sei explicar como sabia. Mas sabia. Como se a informação sempre tivesse estado ali, guardada em algum lugar dentro de mim. Eu era uma daquelas crianças. Uma das que não voltaram. Uma das que ficaram.

Lembrei. Não de tudo. Mas de pedaços. Do cheiro de bronzeador Cenoura & Bronze. Do gosto de sacolé de milho. Do som de risada na areia. E da sensação de correr na direção do mar, cada vez mais fundo, cada vez mais longe, enquanto alguém chamava meu nome atrás de mim — e eu não parava.

Não por rebeldia. Por alegria. Porque o verão nunca acaba quando você é criança. Você acredita que vai durar para serpre. Que a praia é sua. Que o mar é seu. Que aquele momento não vai terminar.

E, para mim, não terminou.

Eu fiquei ali. Na beira da água. No som do mar. No calor do sol. Enquanto todos os outros voltavam para casa, para a escola, para a vida. Eu fiquei. E a cidade, sem saber o que fazer com uma criança que não voltou, esqueceu. Apagou meu nome dos registros. Disse que eu tinha ido embora mais cedo. Que não vim naquele ano. Que nunca existi.

Mas eu existi.

Eu existo.

E agora eu sei.

A caneta na minha mão era um convite. Uma permissão. Eu podia escrever meu nome. Podia me contar. Podia voltar a ser lembrada. Podia deixar de ser um vazio entre duas páginas e me tornar uma linha, uma data, uma história.

Olhei pela janela. As crianças estavam todas ali, na rua, paradas, olhando para a minha casa. Dezenas delas. Todas as que ficaram. Todas as que ninguém contou. Esperando.

Esperando que eu fosse a primeira.

Abri o caderno. Peguei a caneta. E escrevi.

"Eu, Helena, 8 anos, no ano em que a casa 114 ficou vazia. Voltei."

Quando terminei, o ar da casa mudou. Ficou mais leve. Mais quente. Cheirava a bronzeador Cenoura & Bronze.

Lá fora, as crianças começaram a sorrir. Uma a uma. E depois, uma a uma, começaram a desaparecer.

Fiquei sozinha. Olhei o caderno. Minha linha estava lá, escrita com a minha letra. E, embaixo dela, outras linhas começaram a aparecer. Nomes. Idades. Datas. Todas as crianças que eu tinha visto. Todas as que não tinha visto. Todas as que ainda esperavam.

O caderno estava se preenchendo sozinho.



Na cidade, ninguém nunca soube explicar por que, a partir daquele ano, o verão em Matinhos começou a durar mais. Não nos calendários. Nos registros. Nas fotografias. Nas memórias. As crianças que voltavam em dezembro e partiam em março começaram a aparecer nas fotos de julho. Nas praias vazias. Nos calçadões desertos. De vestido de verão, cabelo molhado, pés descalços. Ninguém sabia dizer de quem eram. Ninguém sabia dizer seus nomes.

Uns chamam de Filho do Verão. Os antigos chamam de Os Que Ficaram.

Em Matinhos, no dia 15, não se deixa balde na areia. As mães chamam as crianças para dentro às 17h. Ninguém aluga casa na Rua das Acácias.

Até hoje, na casa 118, tem giz branco no chão. Mesmo quando chove.

E, a cada 15 de janeiro, Matinhos tem uma criança a mais.