domingo, 1 de novembro de 2026

A Padaria das Cinzas

A Padaria das Cinzas
Tadeu Everton Zamoiski 


A primeira fornada daquele dia estava pronta antes de o forno ser aceso.

O padeiro percebeu isso às quatro e quarenta da manhã. Ao entrar na padaria, encontrou seis pães redondos sobre a pá de madeira. Tinham a casca dourada, o miolo macio e ainda soltavam um pouco de vapor.

A porta estava trancada. As janelas também.

Conferiu o forno. O registro de gás permanecía fechado. Um dos pães tinha uma mancha escura na crosta, parecida com letras escritas às pressas.

Esfregou o polegar sobre ela. A mancha permaneceu.

O sino da porta tocou.

Um homem entrou. Usava um casaco escuro, apesar de a manhã não estar tão fria.

— Já tem pão?

O padeiro olhou para a pá.

— Tem. Mas ainda não abri.

O homem escolheu um pão, colocou uma moeda sobre o balcão e perguntou:

— Você lembra de mim?

O padeiro examinou seu rosto.

— Não.

— Eu também não.

O homem pegou o pão e saiu.

A moeda ficou sobre o balcão. Era antiga, de um valor que já não circulava havia muitos anos. O padeiro a segurou entre os dedos. Estava gelada.

Guardou-a no bolso do avental e começou a trabalhar.

A padaria ficava numa das ruas internas do Riviera, em Matinhos. Fora da temporada, o movimento diminuía bastante. Algumas casas permaneciam fechadas durante meses. Às cinco, ele levantava a porta de aço. Às seis, os primeiros clientes apareciam para comprar pão de sal, leite e alguma coisa para levar ao trabalho.

Conhecia os hábitos de todos. Sabia quem preferia pão mais escuro, quem comprava sempre a mesma quantidade e quem pedia para separar os pães ainda quentes.

Quando abriu o forno para preparar a segunda fornada, encontrou uma camada fina de cinzas no fundo. Não havia queimado nada. O forno estava frio, e o registro de gás continuava fechado.

Retirou o material com a pá e despejou tudo numa lata. No meio das cinzas havia pequenos fragmentos escuros, quase como restos de papel queimado.

Um dos pães da primeira fornada ainda estava sobre o balcão. A mancha na crosta tinha aumentado.

Agora era possível ler um nome.

ÁLVARO.

Ele conhecia aquele nome. A palavra trouxe a lembrança de uma conversa antiga, talvez na própria padaria, mas o rosto associado a ela não apareceu.

Jogou o pão no lixo.

Na parede atrás do balcão havia uma faixa de azulejos brancos que nunca lhe agradara. Desde a reforma, pensava em cobri-la com madeira. Naquela manhã, percebeu algumas letras perto da tomada.

Passou um pano úmido. O carvão se espalhou, mas as letras continuaram ali.

ÁLVARO.

Abaixo, outros nomes apareciam em traços finos, alguns quase apagados.

Pegou uma espátula e raspou a superfície. O carvão caiu sobre o balcão. Os nomes permaneceram.

Quando a vizinha entrou para comprar pão, ele ainda estava diante da parede.

— Bom dia, seu Álvaro.

O padeiro se virou.

— Não sou Álvaro.

A mulher pareceu confusa.

— Claro que é. Desculpe. Hoje estou com a cabeça longe.

He abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.

A mulher esperou alguns segundos.

— Está tudo bem?

O padeiro pegou um pão no cesto e colocou na sacola dela.

— Deve ser o cansaço.

Ela pagou e saiu. Antes de atravessar a porta, voltou-se uma última vez.

— Até amanhã, Álvaro.

Ele ficou com a mão sobre o balcão.

O homem de casaco escuro voltou na manhã seguinte.

Entrou às quatro e quarenta e cinco, quando o padeiro organizava as bandejas. Escolheu um pão redondo e colocou outra moeda sobre o balcão.

Era igual à primeira.

O padeiro pegou as duas e as colocou lado a lado. A recém-chegada parecia mais escura. Quando a tocou, sentiu o frio atravessar a ponta dos dedos.

— Você lembra de mim? — perguntou o homem.

— Já esteve aqui.

— Estive?

O homem sorriu discretamente.

— Eu também não.

Saiu com o pão debaixo do braço.

O padeiro guardou a segunda moeda junto da primeira.

Às oito, chegou o fornecedor de farinha. Fazia aquela entrega havia anos. Conhecia o acesso pelos fundos, a irregularidade do piso e o lugar onde costumavam deixar os sacos quando a porta do depósito estava fechada.

Naquela manhã, porém, não entrou.

— O senhor é o responsável aqui?

— Sou eu.

— Qual é o seu nome?

O padeiro hesitou.

— Por quê?

— Preciso confirmar no pedido.

Ele deu uma resposta qualquer. O fornecedor consultou a prancheta e franziu a testa.

— Não tem entrega registrada para este endereço.

— Você entrega aqui toda semana.

— Nunca entreguei.

— Está brincando?

O homem olhou para o salão vazio, depois para o balcão.

— Esta padaria estava fechada quando comecei a trabalhar nesta rota.

O padeiro apontou para os sacos empilhados no depósito.

— E aquilo veio de onde?

O fornecedor entrou, examinou um dos sacos e passou o dedo pela etiqueta.

— Essa marca saiu de linha faz mais de quinze anos.

Conferiu a data impressa no papel. Depois olhou novamente para o padeiro.

— O senhor devia chamar alguém.

Foi embora sem descarregar o restante.

O padeiro acompanhou o caminhão pela janela até desaparecer na esquina.

Quando voltou ao balcão, encontrou uma fina camada de farinha espalhada sobre a madeira. No meio dela havia uma marca de dedo, pequena demais para ser sua.

Lembrou-se de uma mão miúda apoiada ali, perto do caixa.

A cliente entrou perto do meio-dia. Morava numa das casas da rua e costumava comprar pão quando voltava do mercado.

Pediu dois pães de sal e perguntou:

— O senhor está trabalhando sozinho?

— Como sempre.

Ela olhou para o salão.

— E o menino?

O padeiro parou de fechar a sacola.

— Que menino?

— Seu filho. Aquele que ficava aqui depois da escola.

Ele sentiu a moeda antiga encostar na coxa, dentro do bolso do avental.

— Não tenho filho.

A mulher franziu a testa.

— Como não? Ele ficava sentado naquele banco, perto da janela. Às vezes saía com um pão antes de você terminar de trabalhar.

O padeiro olhou para o banco. Era baixo, de madeira escura.

— Deve estar confundindo com outra pessoa.

A mulher não insistiu. Pagou, guardou os pães e saiu devagar.

Ele fechou a porta por alguns minutos.

No depósito, encontrou uma caixa de papelão embaixo de uma prateleira, coberta por farinha e poeira. Dentro havia fotografias antigas, recibos e pequenos objetos.

Um uniforme escolar azul estava dobrado no fundo. O tecido tinha encolhido, os botões estavam gastos. No bolso, uma etiqueta trazia o nome CAIO e uma data de mais de vinte anos antes.

O padeiro passou os dedos pelo bordado.

A fotografia estava embaixo do uniforme.

Mostrava um homem sentado num banco de praça, segurando um menino pela cintura. O homem usava uma camisa azul de mangas dobradas. O menino tinha os cabelos claros e segurava um pão redondo com as duas mãos.

O padeiro aproximou a imagem do rosto.

O homem da fotografia usava um relógio de pulseira metálica. O vidro tinha uma pequena rachadura perto do número quatro.

O padeiro olhou para o próprio pulso.

Usava aquele relógio. A rachadura continuava no mesmo lugar.

Havia outra coisa. O homem segurava o menino com a mão esquerda apoiada na cintura e a direita sobre o ombro, protegendo-o de uma queda. O padeiro conhecia aquele gesto. Ao levantar os sacos de farinha, fazia exatamente a mesma coisa com o braço.

Virou a fotografia.

No verso, escrito com letra infantil, havia uma frase:

Para o pai, quando eu crescer.

Abaixo, um nome:

CAIO.

O padeiro sentou-se no chão.

A fotografia tremia entre seus dedos.

— Caio.

Uma lembrança surgiu inteira por alguns segundos.

O menino sentado no banco da padaria, com as pernas balançando sem alcançar o piso. O pão estava frio, mas ele soprava a casca antes de morder. O padeiro dizia que aquilo não adiantava nada. Caio ria e soprava outra vez.

Depois vinha a imagem de uma pequena mochila encostada à porta dos fundos.

O padeiro apertou a fotografia contra o peito.

Quando se levantou, os nomes na parede estavam mais fracos.

Todos, menos um.

ÁLVARO.

O homem de casaco escuro voltou no terceiro dia.

Dessa vez, entrou quando o padeiro estava diante do forno. Foi direto ao balcão e colocou uma moeda sobre a madeira.

O padeiro não precisou tocá-la para saber que estava fria.

— O senhor já veio aqui — disse.

O homem olhou para a moeda.

— Pode ser.

O padeiro segurou a borda do balcão.

— O que quer?

— Um pão.

— Tem outros lugares.

— Eu sei.

O homem escolheu um pão redondo e o colocou no bolso do casaco.

Antes de sair, olhou para o padeiro.

Não fez a pergunta.

O sino tocou quando a porta se fechou.

O padeiro correu até a rua, mas o homem já havia desaparecido entre as casas. No chão, perto da entrada, havia um pouco de areia úmida. Ele se abaixou e recolheu a moeda.

Guardou-a junto das outras.

Naquela tarde, voltou à fotografia. O rosto do menino estava mais nítido. Os olhos apertados pelo sol, a boca entreaberta, as mãos pequenas segurando o pão.

O padeiro levou a imagem até a parede e colocou-a ao lado do nome CAIO.

— Eu lembro de você.

O nome na parede perdeu um pouco da cor.

Ele voltou ao forno. No fundo havia uma camada nova de cinzas. Pegou uma pequena quantidade entre os dedos e esfregou. O pó escuro se espalhou pela pele, acumulando-se nas linhas da mão.

Na manhã seguinte, encontrou apenas uma mancha onde o nome de Caio estivera escrito.

A fotografia continuava no balcão.

Às quatro e quarenta, o padeiro entrou na padaria.

A porta estava trancada. As janelas também.

Sobre a pá de madeira havia um único pão redondo. A casca estava dourada, e uma mancha escura atravessava o centro.

Ele se aproximou.

ÁLVARO.

O nome que a vizinha usava. O nome que ele negara. O nome que permanecera na parede quando todos os outros desapareceram.

Foi até os azulejos.

Não havia mais nada escrito, exceto aquela palavra.

Passou a mão sobre o nome. O carvão sujou seus dedos.

Atrás dele, o forno estalou.

A fotografia estava sobre o balcão. O menino segurava o pão com as duas mãos, e o homem da camisa azul mantinha o braço em volta de sua cintura.

O padeiro pegou a imagem.

— Caio.

Dessa vez, a lembrança veio acompanhada de uma voz.

— Pai, sopra para mim.

Ele fechou os olhos.

Lembrou-se de soprar a casca do pão, de esperar o menino morder, de limpar com o polegar uma migalha presa no canto da boca. Lembrou-se também de uma pequena mão segurando a sua na travessia da rua.

Quando abriu os olhos, o rosto do menino começava a desaparecer.

O padeiro correu até a parede.

— Caio!

O nome já não estava escrito.

No forno, as cinzas se mexeram. Uma pequena nuvem subiu e se espalhou pelo salão. O pão sobre a pá soltou um cheiro quente, familiar, de massa recém-assada.

O padeiro olhou para la crosta.

O nome ÁLVARO estava desaparecendo.

Tentou segurá-lo com o polegar, mas a mancha escura se desfez. Restou apenas a casca dourada.

Ele procurou a fotografia. O menino já não estava nela. O homem da camisa azul permanecia sentado no banco, com o braço estendido sobre um espaço vazio.

O padeiro guardou a imagem no bolso.

Às cinco, levantou a porta de aço.

A rua estava vazia. A maresia deixava uma película úmida nos vidros, e a areia trazida pelo vento se acumulava junto ao meio-fio.

Não havia mais nenhum nome.

Fechou a padaria, tirou o avental e guardou as moedas no bolso. Antes de sair, voltou uma última vez ao forno. O pão continuava sobre a pá, agora completamente frio.

Do outro lado da rua havia uma padaria pequena, com uma porta de vidro e uma placa que ele nunca tinha observado. Entrou.

Um rapaz trabalhava atrás do balcão. Tinha farinha nos braços e um pano sobre o ombro. Separou um pão redondo, colocou-o num saco de papel e soprou a casca antes de entregá-lo.

O gesto fez o visitante parar.

O rapaz ergueu os olhos.

— Vai querer mais alguma coisa?

O homem colocou uma moeda antiga sobre o balcão.

O jovem examinou o dinheiro e depois o rosto do cliente.

— Você lembra de mim?

O homem procurou o nome do menino. Procurou a fotografia, a voz, a pequena mão que segurava a sua.

A lembrança não veio.

— Não.

O rapaz recolheu a moeda.

O visitante pegou o pão e saiu.

Do lado de fora, a manhã começava a clarear. Na rua, uma fina camada de areia cobria as marcas dos passos.

Na antiga padaria, o forno continuava apagado.

Sobre a pá de madeira, um pão redondo acabava de sair.

Na crosta, escrito em cinzas, estava o nome de Caio.

Eco

Eco
Tadeu Everton Zamoiski

O mirante do Morro do Boi é uma ferida aberta na paisagem. De dia, vira formigueiro de turistas gritando nomes que a montanha devolve com generosidade de eco barato. “JÚLIA!” Um segundo de silêncio. “JÚLIA!” E riem.

Eu era um deles. Não por vaidade, mas por tédio — um tédio que roía as entranhas como ácido. Subia, gritava o nome de alguém que já esqueci, ouvia a resposta e descia. Onofre, gordo e solitário, estava sempre lá, gritando o nome de uma mulher que nunca aparecia. Eu o via de longe, suando sob o sol, e pensava: que patético. Ele gritava “JÚLIA!” e o morro respondia “JÚLIA!”. E ele sorria como se ela tivesse respondido de verdade.

Numa terça-feira, subi sozinho, à noite.

O cheiro de protetor solar tinha sumido. Restava só o odor mineral da pedra. O vento não uivava: sussurrava. A cidade lá embaixo era um tapete de luzes que não aquecia nada.

Cheguei ao mirante. O mar era um poço de tinta preta. O silêncio pressionava os tímpanos. Senti uma necessidade idiota de quebrá-lo.

— Quem está aí? — gritei.

— Você.

Não foi eco. Tinha textura. Era minha voz, sim, mas havia uma inflexão a mais, uma espécie de prazer. O ar frio do mirante ficou mais gelado.

— Quem está aí? — repeti, mais alto.

— Você.

Mais nítido. Mais perto. Como se a montanha tivesse dado um passo na minha direção. O vento cessou. Desci o morro tropeçando em raízes que pareciam dedos, o coração martelando contra as costelas.

Na manhã seguinte tentei rir. Acústica de mirante, pensei. Vento entre as pedras. Algum turista escondido. Subi de dia, com o sol a pino, e gritei “bom dia”. O eco respondeu “bom dia”. Normal. Idiota. Voltei para casa me sentindo um tolo.

Mas à noite, no chuveiro, o som da água virou sussurro. “Você.” Desliguei o chuveiro. Silêncio. Abri a torneira de novo. “Quem está aí?” perguntou a água. Fechei o registro com força e fiquei parado, molhado, ouvindo o coração.

Parei de falar. Não foi exatamente uma decisão. A garganta simplesmente se fechou e não abriu mais. As palavras, antes fáceis, agora eram objetos cortantes, e eu tinha medo do que poderia sair se abrisse a boca. Em casa, com Elisa, a comunicação virou mímica e papéis.

— O que houve, Tadeu? — ela perguntou. Os olhos castanhos cheios de uma preocupação que eu já não sabia como processar.

Peguei um bloco de notas e escrevi: “Não é eco.”

Ela leu. Franziu a testa.

— Que bobagem é essa?

Escrevi: “O morro responde.”

Ela suspirou — aquele suspiro cansado e familiar.

— Você está trabalhando demais.

Elisa era uma mulher que preenchia silêncios. Falava pelo rádio, pelo telefone, pela janela. Nosso casamento tinha sido construído sobre a minha escuta e a voz dela. Agora eu era um vácuo.

Ela começou a dormir no quarto de hóspedes. Uma noite me acordou, ou tentou. Eu estava de pé no meio do quarto, olhando para a parede que dá para o morro.

— Tadeu? — a voz dela tremia. — Você está falando dormindo.

Eu não estava dormindo. Estava ouvindo. E respondendo. Ela contou depois que eu ria: uma risada baixa, gutural, que não era minha.

No escritório o ar-condicionado perguntava “Quem está aí?”. E eu, com a boca fechada, sentia a resposta subir pela garganta como bile. No zumbido da geladeira, a mesma voz: “Você.” Comecei a desligar os aparelhos. A casa ficou muda. Mas o silêncio também tinha voz.

Onofre me parou na rua. Eu não o via no mirante havia meses. Estava mais magro, os olhos fundos.

— Você subiu à noite — disse ele. Não era pergunta.

Eu não respondi. Ele não esperou.

— Eu também. No começo a gente acha que é eco. Depois acha que é a gente. — Ele sorriu, um sorriso que não era de alegria. — Não é. Ela nunca responde de verdade. A gente é que começa a responder por ela.

Foi embora sem dizer mais nada. Eu fiquei parado na calçada, sentindo o sol na pele, e por um segundo tive vontade de correr atrás dele. Perguntar o que ele tinha ouvido, o que tinha respondido, o que tinha acontecido com Júlia. Mas minha garganta estava fechada. E eu já sabia a resposta.

As semanas seguintes foram um afundamento lento.

Elisa ainda tentava. Escrevia bilhetes e deixava na mesa da cozinha: “Fala comigo.” “Vamos ao médico.” Uma noite a encontrei no corredor, de pé, segurando a maçaneta do nosso antigo quarto. Olhou para mim e perguntou, quase sem voz:

— Ainda sou eu que você ouve, Tadeu?

Não consegui responder. Apenas balancei a cabeça. Ela entrou no quarto de hóspedes e trancou a porta por dentro. Na manhã seguinte havia uma mala no corredor. Não a abri.

Em casa desliguei tudo o que fazia barulho. Mesmo assim, à noite, quando o silêncio apertava, a voz vinha de dentro da garganta, baixa, paciente: “Quem está aí?”. E outra, mais antiga, respondia: “Você.”

Perdi peso. Os espelhos começaram a me devolver um homem de olhos fundos, magro, que eu só reconhecia pelo cansaço. As pessoas na rua desviavam o olhar. Eu também.

Numa madrugada Elisa me encontrou no quintal. Eu estava de costas para a casa, descalço na terra fria, olhando para o morro. Ela me chamou. Eu não virei. Depois contou que eu estava sorrindo. Não lembro de ter sorrido. Ela me puxou pelo braço e eu obedeci.

No dia seguinte a mala sumiu do corredor. A porta do quarto de hóspedes estava aberta e o quarto, vazio.

Onofre morava na casa dos fundos. Era ele quem via tudo pela janela da cozinha. Foi ele quem chamou a polícia. Ele me viu no quintal, à noite, sob a lua. Eu estava no centro do gramado, imóvel, voltado para a silhueta negra do Morro do Boi. Ele me ouviu falando. Duas vozes. Não pareceu surpreso — apenas cansado.

— Quem está aí? — perguntava uma.

— Você — respondia a outra.

Era minha voz. As duas. Uma com o timbre de antes. A outra com um chiado de pedra, como se viesse de um poço.

Quando a viatura chegou eu estava sentado no chão de terra batida. O cheiro de grama pisada e orvalho era forte. O céu, um manto de estrelas frias.

Eu olhava para o morro. Calado. Sorrindo.

— Sr. Tadeu? — chamou o policial, a mão no coldre. — Tudo bem aí?

Eu não me movi. Meus olhos estavam fixos na montanha.

O policial se aproximou, cauteloso, e agachou-se ao meu lado.

— Ele está sorrindo — sussurrou para o colega. — E não pisca.

Foi quando eu abri a boca. Senti os maxilares se destravarem com um estalo seco. O ar frio entrou, e com ele um som. Uma voz que não era minha.

— Quem está aí? — perguntou a minha boca.

O policial recuou. O outro sacou a arma.

E então, do alto do Morro do Boi, veio a resposta. Um sussurro carregado de pedra e sal, que soprou diretamente nos nossos ouvidos, deixando um rastro de arrepio na pele.

— Você.

O policial olhou para o morro. Depois para mim. Depois para o morro de novo.

O sorriso no meu rosto se alargou. Um movimento que não era meu. A mesma curvatura vazia, a mesma ausência.

Minha boca se moveu outra vez. Sem som.

Só o sorriso permaneceu.

sábado, 31 de outubro de 2026

A Segunda Boia

A Segunda Boia
Tadeu Everton Zamoiski

Helena acordou às quatro e quarenta, vestiu o maiô azul e saiu.

A Praia Brava estava quase deserta. O mar tinha uma cor escura, e as ondas chegavam pequenas à areia. Ela deixou a toalha perto de uma das escadas e entrou na água. Nadou até a primeira boia, descansou alguns segundos e seguiu em direção à segunda.

Когда voltou, o sol começava a aparecer atrás dos prédios.

No caminho de casa, percebeu que havia esquecido alguma coisa.

Não era a toalha, nem a chave. A chave estava na bolsa, junto da carteira e de um pacote de lenços. Havia outra coisa faltando. Sabia que precisava chegar a algum lugar, mas não conseguia lembrar o nome da rua. O número da casa surgiu sem dificuldade: 1357. O restante não veio.

Parou numa esquina. Uma mulher que passava deixou cair uma sacola de compras, e Helena se abaixou para ajudá-la. Quando se levantou, já não sabia em qual direção seguir.

Augusto a encontrou perto de uma banca fechada.

— Helena?

Ela olhou para ele. Levou alguns segundos para responder.

— Você me conhece?

— Sou eu. Augusto.

Ela repetiu o nome baixinho. Não tentou abraçá-lo, como costumava fazer quando se encontravam depois de uma caminhada. Quis saber onde morava.

Ele a levou para casa. Durante o trajeto, Helena olhava pela janela. Ao passarem em frente à padaria onde costumavam comprar pão, comentou que nunca tinha entrado ali.

— Você vai quase todos os dias — ele respondeu.

Ela continuou olhando para a fachada até o carro virar a esquina.

Na cozinha, Augusto preparou café. Helena sentou-se à mesa e observou as mãos dele.

— Você sabe onde ficam as xícaras?

— No armário de sempre.

Ela abriu a porta errada. Depois outra. Na terceira tentativa, encontrou as xícaras, colocou duas sobre a mesa e serviu o café. Segurou a própria xícara com as duas mãos, mas não bebeu.

Augusto reparou na pequena cicatriz perto do queixo dela. Helena a tinha desde a adolescência. Quando estava distraída, costumava passar o dedo sobre a marca. Naquela manhã, não fez isso.

Na sala, parou diante de uma fotografia do casamento. Os dois estavam no jardim de um restaurante, quatro anos antes. Augusto reconheceu a gravata, o vestido e as flores que haviam escolhido juntos.

Helena aproximou o rosto do vidro.

— Por que estou olhando para trás de você?

Augusto pegou a fotografia e a colocou de volta no aparador.

— Você deve estar cansada.

Ela ficou diante do móvel, olhando para o lugar onde a fotografia estivera.

Na madrugada seguinte, pouco depois das três, Augusto acordou e encontrou o lado de Helena vazio. Ela estava sentada na beira da cama, com os cabelos molhados. O travesseiro também estava úmido.

— O que aconteceu?

— Acho que fui à praia.

— Você foi de manhã.

Helena passou a mão pelo cabelo.

— Não. Agora.

Augusto tocou o travesseiro. Estava frio. Quando levantou os olhos, ela já estava deitada, de costas para ele.

Às quatro e quarenta, percebeu que Helena não estava mais no quarto.

Foi até a Praia Brava. A toalha azul permanecia na areia, dobrada ao lado da escada. As sandálias estavam alinhadas sobre ela. A bolsa havia ficado em casa.

Augusto chamou por Helena. Caminhou até a beira da água e procurou entre as ondas. Não viu ninguém.

Voltou para casa com a toalha nas mãos.

Naquela tarde, enquanto Helena descansava, abriu uma gaveta e retirou uma pasta antiga. Dentro havia recortes de jornal, o boletim de ocorrência e um caderno de capa preta.

A notícia ocupava poucas linhas:

Mulher desaparece durante banho de mar na Praia Brava.

A fotografia mostrava Helena sorrindo na praia. A data era de quatro anos antes. As buscas haviam durado vários dias. Não encontraram o corpo.

Quatro dias depois do desaparecimento, Helena aparecera na porta de casa. Vestia a mesma roupa da praia, estava descalça e tinha os cabelos molhados. Não se lembrava de ter desaparecido. Reconheceu a torneira que pingava, reclamou do sofá fora do lugar e perguntou por que Augusto ainda não havia comprado pão.

Ele não chamou a polícia. Não perguntou onde ela estivera. Abraçou-a e deixou que entrasse.

Durante quatro anos, viveram como antes. Helena cozinhava, cuidava da casa e fazia compras. Às vezes, interrompia uma frase no meio e ficava olhando para Augusto, como se tivesse perdido o fio da conversa. Ele não a apressava. Depois de algum tempo, ela retomava o assunto.

No caderno, encontrou três anotações:

Não se lembra do mar.

Hoje perguntou por que eu estava sozinho na fotografia.

Ela ainda está no mar.

Augusto fechou o caderno.

Helena apareceu à porta do quarto. Viu a pasta aberta sobre a cama e se aproximou. Pegou o caderno, leu as páginas e passou o dedo pela última frase.

— Você escreveu isso?

— Escrevi.

— Então você sabe.

Augusto não respondeu.

Ela fechou o caderno, deixou-o sobre a cama e foi para o banheiro.

Na madrugada seguinte, Augusto acordou com o barulho do chuveiro.

Encontrou Helena de maiô, imóvel sob a água. Os braços estavam junto ao corpo. Ela olhava para a própria pele, sem se mexer.

— O que você está fazendo?

Ela não respondeu.

Augusto desligou o chuveiro. Helena continuou olhando para os braços.

Nenhum dos dois falou por alguns instantes.

— Eu lembro daquela manhã — disse ela.

Augusto permaneceu junto à porta.

Helena olhou para ele.

— Você me viu levantar o braço.

Ele desviou os olhos.

Ela se aproximou do espelho. A cicatriz perto do queixo estava quase da cor da pele. Passou o dedo sobre a marca, como fazia havia tantos anos.

— Está desaparecendo.

Augusto olhou para o reflexo.

— O quê?

— Aquilo que ainda me prende a esta casa.

— Você não precisa ir a lugar nenhum.

Helena se virou.

— Não sei mais onde é minha casa.

Às quatro e quarenta, ela saiu.

Augusto encontrou a porta aberta. No caminho até a Praia Brava, viu as pegadas molhadas que atravessavam a calçada. Helena já estava entrando no mar quando chegou à areia.

— Helena!

Ela não olhou para trás.

Nadou até a primeira boia e continuou. Perto da segunda, havia outra mulher, em pé sobre a água, com os cabelos escuros colados ao rosto.

As duas se olharam.

Augusto tentou distinguir os rostos. Uma delas parecia ter alguma coisa perto do queixo, mas uma onda passou e a claridade mudou. Quando conseguiu enxergar novamente, a mulher mais próxima estava de costas.

Helena levantou um braço e olhou para a outra.

Augusto entrou na água.

A primeira onda chegou aos joelhos. Ele avançou até a água alcançar a cintura. Perto da segunda boia, a mulher que estava em pé começou a afundar. A água turvou de repente. Augusto perdeu a mulher de vista.

Helena continuava nadando.

Augusto alcançou a primeira boia e segurou a corda. A segunda estava perto. Bastava soltar e continuar.

Debaixo da água, uma forma se moveu. A corrente levantou areia e turvou tudo ao redor.

Quando voltou à superfície, Helena estava perto dele.

Ela segurou seu braço.

Augusto olhou para a praia. Quatro anos antes, estivera naquele mesmo lugar, com o telefone na mão. Helena havia mandado uma mensagem:

Não quero voltar para casa hoje.

Vira uma mulher perto da segunda boia levantar um braço.

Agora, a segunda boia estava perto. Helena segurava seu braço.

A corrente puxava seu corpo na direção da segunda boia. A água já lhe chegava ao peito. O frio subia pelas pernas, e a corda pressionava a palma da mão. Tentou firmar os pés, mas a areia cedeu sob eles.

Não soltou.

Ficou segurando a primeira boia, como da outra vez.

Helena apertou seu braço.

Uma onda bateu em seu rosto. A água salgada entrou em sua boca e ele tossiu. Quando conseguiu olhar novamente, Helena não estava mais ali.

Augusto permaneceu junto da boia por alguns instantes. Depois voltou para a areia.

A casa estava vazia quando chegou.

A toalha permanecia no banheiro. O maiô azul não estava no armário. Sobre a mesa da cozinha havia uma xícara com água no fundo.

Augusto passou por ela sem tocar.

A Casa Sem Número

A Casa Sem Número
Tadeu Everton Zamoiski

Preciso contar como tudo começou. Quando terminar, vou entender por que voltei.

A casa ficava na Rua das Gaivotas, no Balneário Riviera. Não tinha número, placa ou qualquer identificação. Era uma construção simples, de muros baixos e telhado antigo, espremida entre duas casas maiores. Quem me entregou a chave disse que a prefeitura ainda não havia colocado a numeração. Não vi motivo para perguntar mais.

Cheguei numa quinta-feira à tarde, com duas malas, uma mochila e a intenção de ficar ali por alguns meses. O aluguel era barato. A casa ficava perto do mar, numa rua tranquila, e eu não precisava de muito mais.

A primeira coisa que percebi foi o cheiro. Madeira úmida, roupa guardada e alguma coisa adocicada, quase estragada. Abri as janelas, deixei o ar circular e comecei a desfazer as malas.

Na cozinha havia uma mesa pequena, uma geladeira antiga e um armário com portas de correr. Sobre a pia, uma mosca insistia em voar no mesmo lugar. Encontrei uma única xícara azul, com uma lasca na borda. Lavei, sequei e deixei ao lado da cafeteira.

No andar de cima, no quarto dos fundos, havia um armário embutido. As portas estavam emperradas. Quando consegui abrir uma delas, encontrei algumas roupas esquecidas: camisas, calças e um casaco escuro. Não pareciam pertencer a ninguém que eu conhecesse. Fechei a porta e resolvi deixar aquilo para outro dia.

Naquela noite, antes de dormir, encontrei um envelope amarelo sobre o muro da frente.

Meu nome estava escrito na parte de fora.

Fiquei olhando para a letra. O g tinha uma cauda comprida, o r terminava num pequeno gancho. Reconheci também o jeito de fechar o a, quase sem espaço no meio.

Era minha.

Abri o envelope. Dentro havia uma folha dobrada ao meio, com poucas linhas:

Você vai acordar às sete e quinze. Vai preparar café e usar a xícara azul que está ao lado da cafeteira. A mosca continuará sobre a pia. Não tente matá-la.

Li duas vezes.

Pensei que alguém estivesse fazendo uma brincadeira. Talvez o antigo inquilino tivesse encontrado alguma carta minha. Mas eu nunca havia estado naquela casa antes. Não conhecia ninguém na rua e não tinha deixado meus documentos com qualquer pessoa além do corretor.

Guardei a folha na gaveta da cozinha.

Na manhã seguinte, acordei às sete e quinze.

Não foi o despertador. Ele estava desligado. Acordei de repente, olhei o relógio e fiquei alguns segundos tentando entender por que aquele horário me incomodava tanto.

Preparei café. Peguei a xícara azul. A mosca continuava sobre a pia.

Não tentei matá-la.

Passei a manhã tentando encontrar uma explicação. Abri a gaveta, reli a carta e examinei o papel contra a luz. Não havia marca, assinatura ou qualquer coisa que pudesse indicar quem a escrevera.

Por volta das nove, saí para comprar o jornal. Quando voltei, havia outro envelope amarelo no muro.

O papel era igual ao anterior. A letra também, embora o traço do o parecesse um pouco mais curto.

Dessa vez, a mensagem era mais comprida:

Hoje, às dez, você vai até a padaria da avenida. Vai comprar pão e voltar pela mesma rua. No caminho, encontrará um homem usando uma camisa verde. Vai olhar para você. Não pare para conversar.

Ele vai lembrar você do seu irmão. A camisa é parecida com a que ele usava no dia em que vocês foram à praia pela última vez.

Fiquei parado diante do muro.

Meu irmão morreu onze anos antes, num acidente de carro. A última vez que estivemos juntos na praia foi muito antes disso. Eu me lembrava da camisa verde, desbotada nos cotovelos, e de uma discussão boba que tivemos naquela tarde. Nunca havia contado aquilo a ninguém naquela cidade. Na verdade, quase nunca falava sobre o assunto.

Olhei para a rua. Não havia ninguém.

A carta poderia estar errada. Eu poderia simplesmente ficar em casa. Ainda assim, pouco antes das dez, peguei a carteira e saí.

Na padaria, comprei pão e um pacote de café. Voltei pela mesma rua, como estava escrito.

O homem apareceu perto da esquina.

Usava uma camisa verde de mangas compridas. Era magro, tinha os cabelos grisalhos e caminhava devagar, olhando para o chão. Quando passou por mim, levantou a cabeça.

Por um instante, tive a impressão de reconhecer seu rosto.

Ele também pareceu me reconhecer, mas não disse nada. Continuou andando.

Não voltei para perguntar quem era. Segui até a casa, tentando convencer a mim mesmo de que aquela coincidência não significava coisa alguma.

O portão estava fechado. Eu tinha certeza de que o deixara encostado.

Na sala, a cortina da janela estava fechada. Pela manhã, eu a havia deixado aberta.

Fiquei olhando para ela por alguns segundos. Depois fui até a cozinha. A mosca continuava sobre a pia.

O cheiro adocicado estava mais forte.

Naquela tarde, resolvi descobrir quem estava deixando os envelopes.

Abri a cortina da sala e deixei a janela livre. Coloquei o celular sobre o parapeito, voltado para o muro e para a entrada da casa. Ativei a gravação e saí. Caminhei até a praia, sentei num quiosque e fiquei ali mais tempo do que pretendia.

Quando voltei, já passava das sete.

A cortina estava fechada outra vez.

O celular continuava no lugar. A gravação tinha pouco mais de duas horas.

Antes de assistir ao vídeo, encontrei outro envelope amarelo no muro.

A folha dizia:

Você vai encontrar a gravação. Vai assistir até o fim. Não precisa procurar o rosto. Olhe para a mão.

Senti um frio na barriga.

Entrei, fechei a porta e coloquei o celular sobre a mesa. A gravação mostrava a rua vazia durante quase todo o tempo. Um carro passou. Um cachorro atravessou a calçada. Depois, às seis da tarde, alguém entrou no enquadramento.

A pessoa se aproximou do muro, deixou um envelope amarelo sobre a pedra e saiu.

Não consegui ver seu rosto. Usava uma camisa escura, e a cabeça ficou fora do enquadramento.

Voltei alguns segundos.

A mão apareceu com clareza quando colocou o envelope no muro. Havia uma cicatriz perto do polegar e uma unha roída até a carne. No pulso, um relógio com uma marca no vidro.

Olhei para a minha mão.

A cicatriz era minha. A unha também. O relógio estava no meu pulso.

Continuei assistindo. Nos últimos segundos, depois que a pessoa desapareceu, uma das bordas da cortina deslizou devagar diante da janela. O tecido avançou até cobrir a lente. A imagem escureceu aos poucos, até desaparecer.

Parei o vídeo.

Não dormi naquela noite.

Na manhã seguinte, decidi ir embora. Não tinha mais interesse em descobrir quem escrevia as cartas, nem em entender o que havia acontecido na gravação. Queria sair dali antes que outra coisa acontecesse.

Arrumei algumas roupas às pressas. Guardei as cartas e os envelopes no bolso externo da mochila. Peguei as chaves, conferi a casa e tranquei a porta.

Antes de entrar no carro, olhei para o muro.

Não havia envelope.

Entrei e dei partida.

Segui em direção a Curitiba. A estrada estava tranquila. Eu dirigia sem música, com os olhos fixos no asfalto. De vez em quando, olhava pelo retrovisor para conferir se algum carro se aproximava.

Parei num posto para abastecer e comprar água. Quando voltei ao carro, havia um envelope amarelo sobre o banco do passageiro.

Não me lembrava de tê-lo deixado ali.

Abri.

A carta tinha duas frases:

Na primeira curva depois do posto, olhe pelo retrovisor.

Não faça isso.

Dobrei o papel e o deixei no banco.

Continuei dirigindo.

Na primeira curva, olhei pelo retrovisor.

Por um instante, vi a cozinha da casa.

A mesa, a xícara azul e a mosca sobre a pia. A luz parecia vir da janela dos fundos. Tudo estava exatamente como eu havia deixado, mas a imagem ocupava o lugar da estrada atrás de mim.

Pisei no freio.

O carro parou no acostamento. Olhei novamente. Havia apenas a pista, as árvores e um caminhão distante.

Fiquei com as mãos no volante.

O cheiro adocicado entrou pelo carro. Era o mesmo da casa, o cheiro de madeira úmida e alguma coisa estragada. Abri a porta e saí. Caminhei alguns metros pelo acostamento, respirando o ar frio.

Não voltei a olhar pelo retrovisor.

Passei a noite num recuo perto de um posto fechado. Tentei dormir no banco do carro, mas qualquer ruído me fazia abrir os olhos. De madrugada, desisti. Fiquei sentado, olhando a estrada vazia, com a mochila no banco ao lado.

As cartas continuavam no bolso externo. De vez em quando, eu passava a mão sobre elas, como se precisasse confirmar que estavam ali.

Ao amanhecer, lavei o rosto numa pia do posto e comprei um café. Fiquei algum tempo segurando o copo de papel, sem beber. Depois entrei no carro e voltei para Matinhos.

Cheguei ao Riviera no começo da manhã.

A rua estava vazia. Estacionei diante do muro e fiquei alguns minutos sem sair do carro.

A casa parecia a mesma.

Abri o portão, entrei e destranquei a porta. O cheiro estava lá. A xícara azul permanecia sobre a mesa, com um resto de café seco no fundo. A mosca continuava sobre a pia.

No quarto, encontrei um envelope amarelo sobre o travesseiro.

Dessa vez, meu nome estava escrito na parte de fora.

Sentei na cama antes de abrir.

A carta dizia:

O carteiro deixa os envelopes no muro. Sempre com o nome de quem vai morar aqui.

O endereço é o seu nome.

Eu fui o morador. Agora é você.

O próximo chega de São Paulo. Vai atravessar o portão, deixar a mochila na sala e sair novamente. Você vai vê-lo da janela do andar de cima.

Não deixe que ele te veja.

*Quando ele estiver longe, você vai escrever a primeira carta. Coloque o nome"_*dele no envelope. Deixe-o sobre o muro e espere.

Depois, entre no armário.

Li a carta até o fim.

Voltei ao início e li novamente.

Peguei as outras folhas na mochila e espalhei sobre a cama. Comparei as letras, os traços, os espaços entre as palavras. Havia pequenas diferenças. O g de uma carta tinha uma cauda mais longa. Em outra, o r terminava num gancho. O o mudava de tamanho. Mesmo assim, todas pareciam ter sido escritas pela mesma pessoa.

Nenhuma era exatamente igual à outra.

Guardei os papéis e subi para o quarto dos fundos. A janela dava para o portão e para o muro da frente. Fiquei ali, sem acender a luz.

Pouco depois, um homem atravessou a calçada. Parou diante da casa, consultou o celular e abriu o portão. Trazia uma mochila nas costas. Entrou sem olhar para os lados.

Vi quando deixou a mochila na sala. Depois saiu e fechou o portão com cuidado.

Esperei até ele desaparecer na esquina.

Desci.

Na cozinha, encontrei uma folha de papel e uma caneta. Sentei à mesa e comecem a escrever a primeira carta.

Escrevi o que estava na minha lembrança, palavra por palavra:

Você vai acordar às sete e quinze. Vai preparar café e usar a xícara azul que está ao lado da cafeteira. A mosca continuará sobre a pia. Não tente matá-la.

No começo, a letra saiu exatamente como a minha. O g tinha a cauda comprida. O r terminava no mesmo gancho. Reconheci o movimento da mão e até a maneira como apertava a caneta nas curvas.

Continuei escrevendo.

Na segunda linha, o g perdeu um pouco da cauda. Na seguinte, o r já não formava o gancho. Tentei corrigir, mas a mão seguiu outro caminho. As palavras ficaram mais estreitas, inclinadas para a direita. A pressão da caneta também mudou.

Parei por um instante.

Olhei para o começo da página. A primeira linha ainda tinha a minha letra. Mais abaixo, os traços já eram outros.

Continuei até o fim.

A última palavra não parecia ter sido escrita por mim.

Voltei à primeira linha. Ela também tinha mudado.

Dobrei a folha, coloquei-a no envelope e escrevi o nome do homem na parte de fora. Eu não sabia como ele se chamava. Não tinha ouvido ninguém pronunciar seu nome, nem visto qualquer documento. Mesmo assim, minha mão escreveu:

Marcelo.

A letra saiu com a mesma inclinação das últimas linhas. Não precisei pensar no movimento da mão.

Fiquei algum tempo com o envelope entre os dedos. Depois caminhei até a entrada e o deixei sobre o muro, no mesmo lugar onde encontrara os outros.

Subi para o quarto dos fundos.

O armário embutido continuava no mesmo lugar. Abri as portas. As roupas antigas estavam amontoadas no interior. Entre elas, vi a manga de uma camisa verde.

Pensei no meu irmão. Tentei recuperar a discussão daquela tarde na praia, lembrar o que ele havia dito e por que eu ficara tão irritado. A lembrança estava ali, mas as palavras tinham desaparecido. Quanto mais tentava reconstruir a conversa, menos conseguia.

Afastei a roupa com a mão e entrei no armário.

O espaço era apertado. Precisei dobrar os joelhos para conseguir fechar a porta. O cheiro adocicado estava mais forte ali dentro.

Fiquei quieto.

Ouvi o portão abrir.

Depois, passos no corredor.

Uma porta se fechou. O homem devia ter voltado para buscar alguma coisa. Escutei a mochila sendo arrastada pelo chão e, em seguida, um ruído de papel.

Ele encontrou o envelope.

Por alguns segundos, não ouvi nada.

Então sua voz veio da sala:

— Tem alguém aí?

Não respondi.

Os passos começaram a subir a escada. Um degrau de cada vez. Pararam no corredor do quarto.

Fiquei imóvel, com as mãos apertadas contra os joelhos.

Entendi por que voltei. Ele precisava de alguém atrás da porta.

Do outro lado da porta do armário, ouvi alguém respirar.

A Praia de Inverno

A Praia de Inverno
Tadeu Everton Zamoiski

No inverno, o Riviera vai fechando. Uma janela depois da outra. As temperaturas descem até os treze graus, o mar escurece e a orla parece encolher — fica só aquela faixa pálida de areia cinzenta entre a água e as casas todas trancadas. É a minha época favorita. A calmaria. O silêncio. Ninguém por perto. É quando finalmente consigo trancar a porta e respirar.

Alugo a mesma casa todos os anos. Sempre ela. Exijo a que fica mais afastada, sem janelas para a propriedade ao lado. Chego no primeiro fim de semana de junho e só volto no fim de julho. O mar ali parado, o céu todo branco, o vento gelado batendo no rosto. Saio caminhando pela praia todas as manhãs, sempre os mesmos passos, sempre o mesmo ritmo. Os pescadores ficam na venda, os veranistas ainda não apareceram. O Riviera fica todo meu. Quando o corretor me entregou a chave, sorriu e disse: — Ninguém vem por aqui nessa época, seu Tadeu. O senhor gosta mesmo de ficar sozinho, né? Sorri de volta. Não expliquei. A solidão não é uma escolha. É um remédio.

Naquela manhã, encontrei pegadas na areia.

Vinham da água, bem de onde a onda quebra e recua. Mas estranhamente: todas apontavam para a terra. Para a casa. Eram grandes, descalças, estranhamente largas — como se os pés tivessem se espalhado ao tocarem a areia úmida. E não tinha chovido há dias. Segui. Não sei bem por quê. Talvez porque lá no fundo eu soubesse que não ia encontrar nada. As marcas acabaram no meio do mato. A areia terminou, virou terra batida e folha seca. Nada mais. Voltei para casa. Não contei a ninguém. Não tinha ninguém para contar.

No dia seguinte, a praia estava lisa. Completamente vazia. Andei até a restinga e voltei duas vezes. Nada. Nem uma marca sequer. E aquilo foi pior do que se elas ainda estivessem lá.

No terceiro dia, elas voltaram. Mais perto.

Vieram da água, como sempre. E mais uma vez: todas voltadas para mim. Paravam a uns cinquenta metros da minha varanda. Ao redor, tudo intacto. Sem rastro de bicho, sem sinal de vento. Só elas.

Grandes. Descalças.

Naquela noite tranquei tudo. Porta da frente, dos fundos, da varanda. Fechei as janelas. Deixei a luz da sala acesa. Nunca fui de ter medo. Mas ali, com o vento batendo nas telhas, eu não conseguia me calmar. Fiquei deitado com um livro aberto, sem conseguir ler uma única linha. Ouvia o vento. Ouvia o mar. E ouvi outra coisa.

Alguém pisando na areia. Lá fora.

Não tem como confundir. Areia sendo pisada tem um som próprio — suave e seco ao mesmo tempo. Conheço esse som de cor. Sei quando alguém anda devagar, corre ou se arrasta. Mas aquele era diferente. Lento. Pesado. Sem destino.

Apaguei a luz. Fiquei imóvel, ouvindo. O som contornou a casa. Então ouvi algo leve, arrastando sobre o vidro da janela. Uma vez. Duas vezes. Depois, silêncio. Ficou ali. Do outro lado.

Senti que me observavam. Não dá para explicar direito. É um peso no ar, um arrepio que sobe pela nuca. Fiquei deitado, olhos abertos no escuro. A janela estava fechada, a cortina corrida, o vidro embaçado pelo frio. Mas eu sabia. Havia alguém do outro lado.

Depois o som se afastou. Do mesmo jeito que chegou — devagar. Sumiu em direção ao mar. O vento continuou. O mar continuou. Não sei como consegui dormir, mas dormi.

Quando abri os olhos pela manhã, vi as marcas. Do lado de fora do vidro.

Dedos escorregando no vidro. Na altura do meu rosto. Na altura dos meus olhos.

Não era uma mão. Eram muitas.

Naquela época, eu achava que o Riviera fechava no inverno.

Saí naquela mesma hora. Não terminei a temporada. Guardei tudo, tranquei a porta e avisei a imobiliária: não voltaria mais. Olhei pelo retrovisor enquanto me afastava. A praia estava vazia.

Exceto pelas pegadas. Da água até a porta. Da porta até a água. Como se alguém apenas cumprisse um percurso conhecido.

Não voltei no inverno seguinte. Aluguei uma casa bem longe do mar. Nas montanhas. Sem praia. Sem areia. Sem aquele cheiro de sal no vento. Mas de vez em quando, acordo de madrugada.

Sento na beira da cama e olho para os meus pés.

Estão cobertos de areia fina e úmida.

E ouço lá fora, bem perto da janela, aquele som.

Devagar.

Dando a volta.

Parando.

Esperando.