AS MENINAS DA LIVE
Crônicas de uma internet ao vivo
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
Minha mãe abriu uma live no ano passado. Num domingo, depois da missa.
Ela tinha acabado de fazer o cabelo. Aquele cabelo de domingo, duro de laquê, que ela chama de "cabelo de ir à missa". Me chamou para segurar o celular na altura do rosto dela. Não sabia onde ficava a câmera frontal. Achava que estava tirando foto.
Ficou quarenta minutos falando com a tela. Sete pessoas assistiram. Duas eram minhas tias. Uma era eu, no quarto do lado, com o celular na mão, sem coragem de sair. As outras quatro eu nunca soube quem eram.
No fim, ela perguntou:
— Já pode desligar?
Falei que sim.
Ela desligou. Suspirou. Ficou olhando para a tela preta um tempo. Depois disse:
— É engraçado. A gente fica ali, falando sozinha. E parece que tem alguém.
Eu não soube o que responder.
Depois ela falou que a vizinha do 302 estava com o neto novo na foto do perfil, um menino meio feio, e que a coitada não tinha noção. Falou mal da vizinha uns dez minutos. Eu escutei. Não falei nada.
Ela é assim. Fala uma coisa bonita, fala uma coisa feia. Não sei qual das duas é mais verdadeira. Acho que as duas.
Comecei a assistir a lives por causa daquele silêncio depois que a câmera apaga. Ainda estou entendendo.
Tem lugares onde as pessoas entram para conversar.
Tem lugares onde entram para vender alguma coisa.
Tem lugares onde entram para não ficar sozinhas. E não contam isso para ninguém.
E tem as lives.
A câmera liga. O ring light acende. O filtro suaviza. O microfone pega a respiração. Inclusive aquela respiração curta de quem subiu três lances de escada porque o elevador estava em manutenção.
O contador aparece no canto.
Aí começa.
"Cheguei."
"Linda."
"De onde você é?"
"Mostra o look."
"Você é casada?"
"Quanto custa?"
"Você acredita em Deus?"
"Meu freezer está fazendo um barulho estranho."
Em poucos segundos, uma sala de apartamento vira salão de beleza, consultório sentimental, loja, confessionário, tribunal e suporte técnico da Brastemp. Tudo ao mesmo tempo.
As pessoas entram para assistir. As influenciadoras entram para serem vistas. E o algoritmo fica no meio, contando. Que nem contador de condomínio, que anota tudo num caderninho e nunca esquece quem não pagou.
Ninguém sabe o que ele quer.
Mas todo mundo dança conforme a música. Inclusive quem jura que está só de passagem.
1. A INFLUENCER QUE ERA ESPECIALISTA EM TUDO
Jéssica ligou a live às 8h05. Filtro Pele de Porcelana no máximo. Ring light do Mercado Livre, três parcelas de R$ 47,90. A última atrasou quatro dias.
O filho tinha dormido às 7h20. Cinco anos, resfriado, xarope de sempre. Ela achou que ia ter tempo.
— Oiii, meus amores! Hoje a gente vai conversar e fazer uma make bem levinha para o dia a dia.
O chat começou a subir.
@gabi_viana: Diva!
@lucas_33: Qual é o batom?
@marcos_agro: Jéssica, o que você acha da crise nos relacionamentos modernos?
Jéssica parou o pincel no ar.
— Relacionamento hoje exige maturidade emocional, responsabilidade afetiva, letramento dinâmico. Se a pessoa não soma, você subtrai.
Falou e ficou pensando se tinha dito aquilo mesmo. Decidiu que sim. Era bonito.
@tiago_invest: E mineração de Bitcoin na Tailândia? Ainda vale a pena?
— Diversificação. Não adianta botar tudo na mesma carteira.
Ela nem sabia direito o que era carteira digital. Soou bem.
@agro_top: Você entende de rotação de cultura de milho?
— Um pouco.
Pensou no aluguel atrasado, no cartão, no leite em pó que acabou de manhã. Respondeu:
— A questão do solo é tipo a pele. Se a base está seca, não vinga.
Três aplausos. Uma espiga de milho.
@roberto_mecanico: Minha Brastemp Frost Free está vazando água por baixo e fazendo um estalo no motor. O que pode ser?
Jéssica parou.
O filtro deu uma piscada. Por um segundo apareceu um poro na bochecha dela, do lado esquerdo. Um poro que ela conhecia desde os catorze anos.
— Amor, eu faço conteúdo.
@roberto_mecanico: Mas você falou que entende de tudo.
— Dentro da minha bolha.
@gabi_viana: Qual é o seu nicho, Jé?
Silêncio.
Do quarto do lado veio uma tosse.
Ela ouviu. Fingiu que não.
— Meu nicho é a vida real e suas ramificações.
A live caiu três minutos depois.
Desligou tudo e correu para o quarto. O menino estava com febre. Deu o remédio. Ficou ali até ele dormir de novo. Sentiu o peso dele no colo, o calor. A camiseta dela ficou molhada de suor.
Na manhã seguinte, postou o corte. Editou a tosse.
"Autoridade digital não é saber tudo. É saber conectar tudo."
Quatrocentas mil visualizações.
Nos comentários, alguém perguntou da Brastemp.
Ela respondeu com um emoji de coração.
@user_777: Alguém sabe se a Jéssica tem irmã?
Ninguém respondeu.
2. ARRUME-SE COMIGO
Larissa entrou na live de pijama velho, camiseta com um furo no ombro.
— Gente, hoje vai ser histórico. Vocês vão se arrumar comigo do zero.
Começou às 7h20.
Hidratante. Primer. Corretivo. Base. Contorno. Pó. Blush. Iluminador. Delineador. Cílios. Cabelo. Babyliss. Perfume. Troca de roupa. Nova troca. Terceira troca.
O delineador do olho esquerdo ficou mais grosso que o do direito. Refez. O direito ficou mais grosso que o esquerdo. Refez de novo. Queimou o dedo. Falou um palavrão que o microfone pegou. Pediu desculpas. Continuou.
O pé começou a doer por causa do salto. Tirou. Colocou de novo.
Às 22h, apareceu diante da câmera.
Estava impecável.
— E aí, família?
O chat explodiu.
DEUSA.
PERFEITA.
ENTREGOU TUDO.
@pedro_021: Vai sair para onde?
Larissa sorriu.
— Para lugar nenhum.
Pausa.
— Fiz para vocês.
@marcelo_pijama: A gente está assistindo da cama. De cueca. Comendo pão com ovo.
Larissa perdeu o sorriso.
Olhou para o contador. Para o vestido. Para o pão com ovo que ela não estava comendo.
Desligou.
Ficou sentada uns dez minutos. A maquiagem pesando. O vestido apertando. Tirou os sapatos de vez.
Nova notificação.
Larissa iniciou uma transmissão ao vivo.
Estava de pijama de ursinho. Sem maquiagem. Cabelo preso de qualquer jeito.
Comia biscoito de polvilho. O biscoito estava seco. Ela comeu mesmo assim.
— Voltei.
A audiência bateu o recorde da semana.
"Agora sim, autêntica!"
Larissa leu, sorriu, comeu outro biscoito.
@marcelo_pijama: Está vendo? Assim é melhor.
Ela continuou comendo.
Depois ela abriu o perfil dele. Tinha foto com a esposa. Dois filhos. Um de uns sete anos.
Ela ficou olhando a foto dele um tempo. Não sabia por quê. Fechou o perfil.
3. A ECONOMIA DA CULPA
Bianca tinha descoberto uma coisa sobre o público.
As pessoas gostam de dar presente. Mas gostam mais ainda de se sentir culpadas por não dar.
— Boa noite, gente.
Olhou para o contador.
— Nossa. Hoje está tão parado.
Esperou.
— Acho que vocês enjoaram de mim.
Mais alguns segundos.
— Talvez seja melhor eu fechar.
Uma rosa apareceu.
— Obrigada, Lucas.
— Pelo menos uma pessoa ainda lembra que eu existo.
Outro presente.
— Um chapéu.
O chapéu era virtual. O dinheiro, não.
— Bonito.
Pausa.
— A gente passa maquiagem, trabalha, abre live cansada e ganha um chapéu.
Dois corações. Uma coroa. Outro presente.
@felipe_sp: Está muito parado.
Bianca suspirou.
— Está mesmo.
Felipe mandou um presente caro. Do tipo que paga a conta de luz.
— Agora você mandou.
Mais três apareceram.
@renato_realista: Vocês perceberam que estão mandando presente só para ver ela reclamar?
Silêncio.
Bianca olhou para o saldo.
R$ 4.200.
Quarenta minutos.
O estômago dela estava vazio desde o almoço.
— Monetização por indignação.
— Vou usar em e-book.
@renato_realista: Então chora.
Bianca pensou no aluguel. No cartão. No cheque especial em R$ 8.432,17. No curso de "Como Monetizar Suas Emoções em 7 Passos" que ela nunca terminou.
O pai votou no Bolsonaro. Ela votou no Lula. Nunca mais se falaram.
Chorou.
A audiência dobrou.
Depois, na cama, fez as contas no bloco de notas. Digitou os números. Apagou. Digitou de novo.
Dormiu.
4. ROBERTO
Roberto entrava toda noite na live da Larissa.
Cinquenta e oito anos. Pressão alta. Hérnia de disco que doía mais no frio. Casamento de trinta e um anos que ele descrevia, quando bebia, como "uma sociedade".
A hérnia doía naquela noite. Tomou um comprimido. Não adiantou.
Nunca aparecia. Nunca mandava foto. Nunca mandava presente.
Só escrevia.
@Roberto_Silva_58: Princesa.
@Roberto_Silva_58: Você é o sol do meu dia.
@Roberto_Silva_58: Você merece o mundo.
Ele olhava as mãos dela. Unha feita. Pele lisa. Às vezes sentia uma coisa que não admitia para ninguém.
Não era desejo. Bom. Era um pouco. Mas ele não admitia.
Ele votou no Lula. A esposa, no Bolsonaro. Nunca discutiram. Só não falavam do assunto.
Numa noite, Larissa perguntou:
— Roberto, você é casado?
Demorou.
@Roberto_Silva_58: Sou.
— Sua esposa sabe que você fica aqui toda noite me chamando de princesa?
Quarenta segundos.
@Roberto_Silva_58: Agora sabe.
— Como assim?
Uma nova conta entrou na live.
@Esposa_Do_Roberto_Oficial
O chat parou.
@Esposa_Do_Roberto_Oficial: Roberto.
Segunda.
@Esposa_Do_Roberto_Oficial: Larga esse celular.
Terceira.
@Esposa_Do_Roberto_Oficial: E vem pegar suas coisas na calçada.
Roberto saiu da live.
Larissa ficou olhando para a tela.
— Senhora, seja bem-vinda.
Ninguém respondeu.
— O treino de hoje é para glúteos.
@user_anonimo: Roberto não saiu da live. Roberto saiu do casamento.
Larissa leu. Não conseguiu segurar o riso.
Um vizinho do andar de cima bateu na parede. Ninguém entendeu por quê. Nunca mais bateu.
Roberto ficou sentado na sala. A esposa tinha ido dormir. Sem gritar. Sem chorar. Antes de fechar a porta do quarto, só disse:
— Eu sabia.
Ele ficou ali. Com o celular na mão.
Não abriu mais nenhuma live naquela noite.
Nem na seguinte.
Na quarta, abriu.
5. DORA
Dora tinha sessenta e um anos. Pressão alta, artrose no joelho direito. Tomava Losartana de manhã e à noite.
Nunca tinha entrado numa live na vida. Sabia o que era porque a filha tinha tentado ser criadora de conteúdo em 2023, depois desistido, depois arrumado emprego na Caixa.
Do que Roberto fazia, Dora sabia desde a Páscoa de 2024. Não porque ele escondesse bem. Porque ele não escondia. Mas porque ela tinha decidido não ver.
Uma noite, o celular dele apitou. Ela olhou de lado. Viu o nome.
Larissa | Make & Glow
Aí ela viu.
Não gritou.
Naquele momento entendeu uma coisa que não tinha nada a ver com Larissa. Ela e Roberto não conversavam havia muito tempo. A casa era silenciosa. E ela também tinha uma conta. Não em rede social. Numa dessas lojas de roupa de senhora, dessas com nome de flor. A vendedora já conhecia ela de vista. Ficava horas olhando vestido. Nunca comprava. Nunca contava para ninguém.
Ela não conseguia sentir o cheiro do café direito. Fazia dois anos que o nariz tinha entupido.
Naquela noite, entrou na live. Digitou as três frases devagar, com o dedo grosso, errou uma palavra, corrigiu. Sem saber que estava sendo vista.
Depois foi dormir.
No dia seguinte, acordou com trezentas notificações.
Não entendeu. Achou que era engano.
A filha ligou às 7h da manhã:
— Mãe. A senhora está viralizando.
— Estou o quê?
— Viralizando, mãe. A senhora é meme.
Dora ficou em silêncio.
— Mãe?
— E o que é que se faz com isso?
A filha não soube responder.
Dora fechou o telefone. Fez café. As mãos tremiam um pouco.
Roberto estava na cozinha, com a camisa do avesso, olhando para ela. Ela não deixou ele falar.
— Bebe teu café.
Ele bebeu.
Naquela noite, dormiram na mesma cama. Sem se tocar.
Na quarta, Dora abriu uma conta.
Só para olhar.
Ficou três horas. No fim, fechou.
Um mês depois, a filha perguntou se ela não queria fazer uma live. Só para conversar.
Dora fez aquele som que as velhas fazem quando acham graça de alguma coisa.
— Estou velha para essas coisas.
Mas na semana seguinte, Dora voltou à loja de roupa de senhora. Ficou olhando um vestido azul. Custava R$ 289,90. Ela tinha R$ 312,00 na conta. Não comprou.
Naquela noite, antes de dormir, abriu a conta de novo. Seguiu a Larissa. Seguiu a filha. Seguiu a tia Márcia. Seguiu uma vizinha que postava foto de comida.
Roberto nunca soube.
6. PATRÍCIA
Patrícia tinha 8.102 seguidores.
Se cada um desse um real, daria oito mil. Se cada um desse dez, daria oitenta mil. Ela fazia essa conta todo dia.
No sábado, colocou os óculos escuros enormes, passou batom vermelho e foi ao shopping. Andou pelo corredor do meio, devagar, parando nas vitrines, olhando para os lados, esperando alguém. Ninguém veio.
Entrou na cafeteria. Sentou no centro do salão, não numa mesa de canto. Tirou os óculos lentamente, como se tivesse plateia. Não tinha.
O garçom se aproximou.
— O que a senhora gostaria?
Patrícia sorriu.
— Pode tirar uma foto comigo se quiser.
— Da senhora?
— Sim.
— A senhora quer foto do cardápio?
— Não.
Abriu o celular. Começou uma live.
— Gente, vocês não têm noção do que está acontecendo aqui. As pessoas simplesmente fingem que não me conhecem.
@marcelo_00: Você é famosa?
— Sou criadora de alto impacto.
@marcelo_00: Famosa onde?
— Na internet.
@marcelo_00: Qual internet?
@marcelo_00: A minha não é.
Ela encerrou. Pagou o café com o cartão da mãe. Deixou dois reais de gorjeta, porque a mãe mandou. Voltou para casa de ônibus. Sentou no sofá.
A mãe entrou na sala.
— Que cara é essa?
— Nada.
— Está triste?
— Não.
A mãe sentou do lado, com o joelho estalando.
— Tua tia Márcia está com quarenta seguidores. Posta foto de bolo. Faz sucesso.
— Mãe.
— O quê?
— Nada.
Naquela noite, Patrícia ficou no quarto, deitada no escuro, com o celular no rosto. Foi ver quem a mãe seguia.
A mãe seguia trinta e duas pessoas. Trinta eram de bolo. Uma era da tia Márcia. Uma era da igreja.
A mãe não seguia ela.
A luz do celular batia no teto.
No dia seguinte, publicou uma foto em preto e branco.
"Preciso me afastar das redes para reencontrar minha essência."
Perdeu um seguidor.
Ela mesma.
Voltou quarenta minutos depois.
Na semana seguinte, a mãe mandou uma foto no grupo da família. Bolo de cenoura com cobertura de chocolate. A tia Márcia tinha feito. Quarenta e três seguidores agora.
Patrícia olhou. O bolo estava bonito. A cobertura brilhava. Forma redonda com buraco no meio, do jeito que a mãe fazia. A mãe usava granulado em cima, não chocolate granulado, aquele de confeitaria.
Ela lembrou que a mãe fazia bolo assim quando ela era criança. De cenoura, com cobertura de chocolate, granulado em cima. Fazia para ela.
Fazia.
Deixou o celular na mesa. Foi fazer um café. O café estava amargo. Ela bebeu mesmo assim.
Minha mãe fazia bolo assim. De cenoura, com granulado em cima. Não faz mais. Não sei por quê.
7. O DESABAFO
Marina começou a live chorando.
Ou parecia estar chorando.
— Eu não queria fazer isso.
O chat imediatamente começou a perguntar quem tinha feito alguma coisa.
— Hoje eu descobri que nem todo mundo torce por mim.
"Conta."
"Estamos com você."
"Não liga para invejosa."
— Ontem eu publiquei um tutorial de maquiagem.
Pausa.
— E uma pessoa escreveu uma coisa horrível.
O chat ficou quieto.
Marina mostrou o comentário.
"Seu delineador está torto no olho esquerdo."
@paulo_sincero: Mas está mesmo.
Marina parou.
— Moderador.
O comentário sumiu. Depois, o perfil.
@outro_usuario: Banir não vai endireitar o traço.
Marina encerrou.
Passou o resto da noite na frente do espelho. Refazendo o traço do olho esquerdo.
Cinco vezes. Seis. Sete.
Os olhos ardiam. O cotovelo doía de tanto apoiar na pia.
Ficou bom.
Apagou a luz.
8. O MODERADOR
Cauã. Vinte e três anos. Mora com a avó. Faculdade de Sistemas à noite. De dia, modera quatro lives.
Não aparece em nenhuma.
Moderar, na internet, é que nem ser segurança de uma festa que ninguém sabe que existe.
Sabia quem voltava com outra conta.
Sabia quem pagava presente para ofender.
Sabia quem chorava em live para tirar dinheiro.
Sabia quem chorava em live porque estava triste de verdade.
Esse era o mais difícil.
Numa noite, numa live da Bianca, apareceu um comentário que ele nunca esqueceu.
Uma mulher, cinquenta e poucos anos:
"Eu estou sozinha faz dois anos. Não tenho ninguém para conversar. Hoje vi sua live por acidente. Fiquei uma hora. Não tinha ninguém. Agora tem. Obrigada."
Cauã ficou olhando aquilo.
Não ia banir. Não tinha por quê.
Mas não sabia o que fazer.
Passou o número do CVV. Depois apagou. Achou que era invasivo.
Pensou de novo. Colocou de volta.
Apagou.
No fim, só curtiu.
E continuou moderando.
Na faculdade, o pessoal chamava ele de "moderador de merda". Ele não respondia.
Numa terça, estava moderando uma live qualquer. Apareceu um usuário:
"Eu não aguento mais."
Cauã apagou.
Depois se arrependeu. Procurou o perfil. Não achou. Sumiu.
Ficou três dias sem dormir direito. A avó perguntou se ele estava doente. Ele disse que não.
Ainda modera.
Mas agora tem uma regra. Quando aparece um comentário que dói, ele para. Fecha o notebook.
9. O ESPECTADOR SILENCIOSO
O nome dele ninguém sabe.
Chamemos de Antônio.
Quarenta e quatro anos. Motorista de aplicativo. Casado. Dois filhos. Mora em Osasco.
Toda noite, depois da última corrida, abre uma live. Só uma. Sempre a mesma. Uma menina de Santa Catarina que faz unha e fala de bolo.
Nunca comenta. Nunca manda presente. Nunca curte.
Só assiste.
Fica trinta, quarenta minutos olhando a moça fazer unha e falar da vida. Ela fala de tudo. Do cachorro. Da mãe. Do vestido que comprou e não serviu. Do sonho de conhecer o Egito.
Antônio não conhece o Egito. Nunca viajou de avião.
Mas quando ela fala, ele fecha os olhos e imagina.
O banco do carro está gasto. O volante, liso. Ele ganha R$ 1.847,00 por semana, em média. Se trabalhar todo dia.
Nunca vai contar isso para ninguém.
Não é nada. É uma coisa que ele faz. Só.
Um dia, a moça falou na live:
— Gente, eu queria agradecer. Tem um moço que assiste todo dia e nunca fala nada. Eu vejo o nome dele. Nunca comenta, nunca curte, mas eu sei que ele está ali.
Antônio parou.
— Se ele está me vendo agora, eu queria dizer: obrigada. Às vezes eu estou cansada e não quero abrir a live. Mas eu abro porque eu sei que ele vem.
Antônio fechou o celular.
Ficou parado no carro, na garagem do prédio.
Chorou.
Sem saber exatamente por quê.
No dia seguinte, comentou pela primeira vez.
"Boa noite."
Foi tudo.
A moça leu, sorriu, e disse:
— Boa noite, moço.
Ele nunca mais escreveu nada.
Mas continuou assistindo.
10. A PLANILHA
Carolina começou a desconfiar de Paulo.
Ele entrava em todas as lives.
Sempre a mesma frase.
"Você é diferente."
"Você é especial."
"Você é a mulher mais incrível daqui."
Carolina criou um perfil falso. Entrou em outras lives.
Paulo estava lá. Sempre. Mesmas frases. Mesma pontuação. Mesmos emojis.
Naquela noite, Carolina perguntou:
— Paulo, você fala isso para todas?
@Paulo_Sempre_Aqui: Falo.
— Então eu não sou especial?
@Paulo_Sempre_Aqui: É.
— Por quê?
@Paulo_Sempre_Aqui: Você é a número 38.
— Número 38 de quê?
@Paulo_Sempre_Aqui: Da minha planilha.
O chat começou a rir.
— Você tem uma planilha?
@Paulo_Sempre_Aqui: Tenho.
— Para quê?
@Paulo_Sempre_Aqui: Engajamento afetivo.
Carolina riu. Riu tanto que o delineador escorreu. O olho ardendo.
— Você está falando sério?
@Paulo_Sempre_Aqui: Muito.
— E qual é o critério?
@Paulo_Sempre_Aqui: Quem responde.
Carolina parou de rir.
— Então o que você procura não é uma mulher.
@Paulo_Sempre_Aqui: Não.
@Paulo_Sempre_Aqui: Procuro resposta.
Carolina ficou uns segundos sem saber o que dizer.
— Você está no lugar certo.
Paulo não respondeu.
Mas naquela noite, pela primeira vez, não saiu da live.
Ficou. Só ficou.
Carolina dormiu pensando nele. Não com paixão.
Naquela noite, ela abriu o bloco de notas do celular. Criou uma lista. Nomes. Datas. Quem respondeu. Quem não respondeu. Quem mandou presente. Quem só olhou.
Fechou o bloco. Não salvou.
Dormiu.
11. O CREME
Fernanda fazia um anúncio de um sérum facial.
— Gente, esse produto mudou minha pele.
A pele parecia plástico de tão lisa.
— A tecnologia suíça penetra profundamente e restaura a barreira da pele.
@luiz_99: Quanto você ganhou?
Fernanda ignorou.
— É um tratamento revolucionário.
@maria_cosmeticos: Minha tia vende cosméticos há 35 anos. Disse que isso é vaselina perfumada.
Fernanda parou.
O creme branco continuou espalhado na bochecha. Brilhava.
O chat começou a perguntar pelos ingredientes.
"Mostra o rótulo."
"Lê a composição."
— Gente, vamos manter o foco.
@pedro_12: O foco agora é saber se é vaselina.
Fernanda encerrou.
No dia seguinte, abriu outra.
"HOJE EU VOU CONTAR TUDO."
A audiência foi a maior da carreira.
Ela passou quarenta minutos falando sobre transparência.
Não mencionou a vaselina.
Nos comentários, alguém escreveu: "Contou tudo, menos o que a gente queria."
Fernanda curtiu.
Ela ganhou R$ 3.200,00 naquela live.
Dormiu.
12. A LIVE QUE NÃO TERMINAVA
Renata abriu a transmissão às 20h.
— Vou ficar só um pouquinho.
Às 22h, alguém mandou um presente grande.
— Não posso sair agora.
À meia-noite, ainda estava lá.
Às 3h da manhã, falava devagar.
Às 5h, a maquiagem tinha perdido a batalha.
O céu começou a clarear atrás da janela.
— Gente...
Ninguém respondeu.
— Está amanhecendo.
@pedro_madruga: Você ainda está na mesma live?
09:12:44
— Não é possível.
@pedro_madruga: Eu dormi.
@carol_sono: Eu também.
@ana_misericordia: Você ainda está aí.
Renata ficou quieta.
— Acho que eu devia dormir.
O chat começou a concordar.
"Vai."
"Desliga."
"Chega."
"Você precisa descansar."
"Isso virou live ou vigília?"
Renata sorriu.
— Só mais um presente.
Ninguém mandou.
Um minuto. Dois. Três.
Renata esperou.
Nada.
Desligou.
Ficou sentada na cadeira, olhando para a tela apagada.
Dormiu catorze horas.
Na noite seguinte, abriu live de novo.
Às 20h em ponto.
13. NEIDE
Neide tinha quarenta e nove anos. Fazia live desde 2021.
A câmera ligava às 19h. Ring light do Mercado Livre, três anos de uso, um fio já descascado. Ela sentava na cadeira da cozinha e falava.
Ninguém entrava.
O contador ficava em zero a noite inteira.
— Boa noite, gente. Hoje eu vou fazer um bolo de fubá.
Falava por uma hora. Duas. Na terça passada falou até meia-noite. O marido já tinha dormido. O cachorro latiu uma vez e parou.
Ninguém viu.
Mostrava a massa. Mostrava o forno. Uma vez, em 2023, queimou a mão na assadeira e falou um palavrão que ficou gravado. Nunca apagou. Não tinha por quê.
Um dia uma pessoa entrou. Ficou três minutos. Saiu. Neide falou mais rápido depois. Achou que era plateia. Era engano. A pessoa tinha entrado por acidente, procurando outra live.
Ela continuou.
Um dia o filho entrou no quarto.
— Mãe, para que isso?
— Para quê o quê?
— Essa live. Ninguém vê.
Neide olhou para ele.
— Eu vejo.
O filho saiu. Bateu a porta. Ela ouviu o barulho da TV na sala depois. Novela das nove.
Ela continuou.
Mostrou o bolo. Cortou. Comeu um pedaço.
O contador continuou em zero.
Ninguém viu.
Desligou. Guardou o resto na geladeira.
14. A LIVE QUE NINGUÉM ABRIU
Ela ia abrir a live às 20h.
Não abriu.
Ficou olhando o celular.
Depois foi dormir.
15. LÚCIA
Tinha uma lenda na internet.
Ninguém sabia quando começou. Não tinha data. Não tinha origem.
Uma menina. Sem nome. Sem rosto. Sem live gravada.
Aparecia às 21h17.
Às vezes em terça. Às vezes em quinta. Nunca duas noites seguidas.
Bianca tinha ouvido falar.
@misterio_net: "Você conhece a Lúcia?"
— Lúcia quem?
@misterio_net: "A menina que não fala."
Bianca riu.
— Lenda urbana.
@misterio_net: "Dizem que ela aparece para quem precisa."
— Precisa de quê?
@misterio_net: "De alguém que fique."
Bianca ficou em silêncio. Depois voltou ao assunto. Maquiagem. Unha. Cabelo.
Mas aquilo ficou.
Cauã também ouviu falar. Num grupo de moderadores:
"Vocês já moderaram a Lúcia?"
Ninguém tinha.
"Ela não tem chat. Ou tem. Não sei. As mensagens somem."
Antônio ouviu por acidente. Uma noite, a moça de Santa Catarina comentou:
— Gente, vocês conhecem a Lúcia? Eu vi um vídeo sobre ela. Dizem que ela faz live e ninguém nunca gravou. Dizem que é um experimento. Dizem que é um anjo.
Antônio anotou a data na cabeça.
21h17.
Ficou esperando.
Neide também ouviu. Numa live dela, o contador subiu para um.
Uma pessoa entrou. Ficou três minutos. Saiu.
Não escreveu nada.
Mas por três minutos, o contador não estava em zero.
Neide falou mais rápido.
Depois a pessoa saiu.
Ela continuou.
Às 21h17 de uma terça-feira, uma notificação apareceu no celular de algumas pessoas.
@menina_da_live iniciou uma transmissão ao vivo.
Ninguém conhecia o perfil.
A foto era de uma garota diante de um ring light. Tremida. Como se tirada às pressas. Dava para ver um pedaço de parede descascada atrás.
O nome dizia apenas:
Lúcia.
Trezentas pessoas entraram.
Depois mil.
Depois três mil.
Lúcia não falava.
Sentava diante da câmera.
Olhava para a tela.
@joao_pobre: Oi, Lúcia.
@carolzinha: Você está bem?
@mauro_77: Alguém conhece ela?
Lúcia continuava em silêncio.
Um presente apareceu.
Depois outro.
@renato_realista: Pelo menos ela não está fingindo que está feliz.
Lúcia levantou os olhos.
Sorriu.
Um sorriso pequeno.
— Obrigada por ficarem.
O chat explodiu.
"Estamos aqui."
"Você não está sozinha."
"Fica com a gente."
Lúcia leu tudo. Leu devagar.
— Eu sei.
A transmissão terminou.
No dia seguinte, ninguém encontrou o perfil.
Não tinha gravação. Não tinha foto. Não tinha seguidores.
Aí, às 21h17, uma nova notificação apareceu.
@menina_da_live iniciou uma transmissão ao vivo.
Milhares de pessoas entraram.
A câmera estava ligada.
O ring light aceso.
A cadeira vazia.
Lúcia não estava lá.
O chat começou a perguntar onde ela estava.
Ninguém respondeu.
Aí surgiu uma única mensagem.
De uma conta sem foto, sem seguidores, criada naquele mesmo minuto.
@lucia:
Obrigada por ficarem.
A mensagem desapareceu.
O contador continuou subindo.
Mil. Dois mil. Cinco mil. Dez mil.
Ninguém saiu.
A cadeira continuou vazia.
O contador continuou subindo.
16. A LIVE DO CACHORRO
Eu estava com insônia. Abri o celular. Entrei numa live de um cachorro. O cachorro dormia. O dono falava com o chat. Ninguém assistia.
Eu fiquei uma hora olhando.
Não sei por que estou contando isso.
Fim.
17. NEIDE, DE NOVO
Na quinta, Neide abriu a live de novo.
Bolo de fubá outra vez.
O contador em zero.
Ela falou por uma hora.
Ninguém viu.
Desligou. Guardou o bolo na geladeira.
Na sexta, abriu de novo.
Bolo de cenoura agora.
Ninguém viu.
No domingo, não abriu.
Ficou olhando o celular.
Depois foi dormir.
A câmera liga.
O bom senso desliga.
O contador continua.
Fim.
Nota do autor
Este livro é uma obra de ficção. Personagens, situações e diálogos foram inventados. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
As lives, no entanto, são todas verdadeiras. Quem já assistiu, sabe. Quem nunca assistiu, um dia vai.
O contador continua.