O ÚLTIMO PARAFUSO
Um conto de Curitiba, 2068
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
A primeira coisa que desapareceu foi uma banca de jornais que João Baes não visitava havia vinte anos. Percebeu a ausência numa manhã de garoa, caminhando pela Rua Nicarágua em direção ao Parque Bacacheri, quando o vento trouxe aquele cheiro de folhas molhadas, asfalto frio e metal úmido que parecia fazer parte da cidade desde a infância. A garoa grudou na ponta do seu casaco de lã, e os sapatos de couro faziam um som abafado contra o chão molhado. No lugar do pequeno quiosque havia apenas uma base metálica perfeitamente nivelada e uma placa cinza:
ATIVO NÃO PRODUTIVO REMOVIDO
Parou. Suas mãos ficaram frias de repente, e ele precisou se apoiar por um segundo no poste de luz ao lado. Lembrou-se de ter comprado ali um mapa dobrável de Curitiba, quando ainda precisava consultar papel para descobrir uma rua. O mapa tinha as bordas amassadas de tanto ser aberto e fechado, e durante anos carregara-o no porta-luvas, ao lado de uma caneta azul que nunca escrevia direito e um bilhete de cinema esquecido. Não sabia onde estava agora. Talvez numa gaveta. Talvez tivesse sido jogado fora. A lembrança veio com uma precisão incômoda: o vendedor dobrando o mapa de volta para caber no envelope de papel pardo, o cheiro de papel úmido que grudava nos dedos, uma moeda de cinquenta centavos que ele esqueceu no bolso da calça e só encontrou semanas depois, já escura de oxidação. A placa não dizia que a banca fora demolida. Não dizia que havia falido, mudado de endereço ou sido substituída. Dizia apenas que deixara de justificar sua permanência.
Curitiba ainda era Curitiba, mas alguma coisa nela começara a perder espessura. A garoa se prendia às araucárias do Bacacheri, escorria pelos corrimãos e deixava uma película escura nas superfícies metálicas. Veículos autônomos passavam pela Avenida Erasto Gaertner quase sem ruído e, de vez em quando, alguma estrutura de manutenção emitia um estalo baixo, como se o próprio prédio acomodasse os ossos. João tinha sessenta e dois anos. Nascera em Curitiba em 2006, crescera no Bacacheri e estudara Estatística na Universidade Federal do Paraná. Gostava de números porque eles não precisavam ser convencidos de nada. Seu pai costumava dizer que esse era justamente o problema: números não tinham mãos.
O pai trabalhara com manutenção industrial e guardava parafusos, porcas e arruelas em potes de vidro na garagem. Havia peças separadas por tamanho, outras por utilidade e algumas que ninguém sabia para que serviam, mas que ele se recusava a jogar fora porque um dia poderiam ser necessárias. Quando João puxava um pote da prateleira, as peças batiam umas nas outras com um som metálico e seco, e o cheiro de óleo velho subia para o nariz, misturado ao aroma do café que a mãe sempre deixava ali numa caneca de alumínio, para o pai beber enquanto organizava as ferramentas. Uma vez, quando João era adolescente e reclamou que um parafuso pequeno e enferrujado que o pai guardava há anos nunca serviria para nada, o homem pegou a peça, encaixou-a na roda quebrada de um carrinho de madeira de um menino vizinho que passava ali e disse:
— As coisas não precisam ser úteis todo dia. Elas só precisam esperar o dia em que alguém precisa delas.
O pai não era só sabedoria calma: reclamava do time do vizinho em voz alta enquanto virava a carne, e às vezes esquecia de pagar o pão na padaria — a mãe ia atrás dele rindo para acertar a conta.
Aos domingos, porém, abandonava toda organização. Fazia churrasco ou massa caseira, espalhava farinha pela bancada, deixava gordura no chão e sujava panelas demais. Cantarolava uma música antiga de rádio que ninguém mais lembrava o nome, e sempre queimava levemente a borda da linguiça porque se distraía contando histórias para o filho pequeno. A mãe reclamava:
— Você não consegue fazer uma coisa sem sujar três?
Ele ria enquanto mexia o molho, e a garganta dele fazia um som rouco de alegria:
— Se não sujar, não é domingo.
Uma vez, João aos sete anos derrubou um prato de molho de tomate na bancada, e a mancha escura ficou ali por anos. O pai não brigou. Só limpou o excesso com um pano e disse:
— A cozinha que não tem marca não tem história.
João guardou aquela frase durante décadas sem perceber que estava guardando mais do que uma frase.
Aos trinta e nove anos, criou o Índice de Utilização Operacional. Trabalhava como consultor estatístico para empresas de logística e tinha orgulho de transformar desperdício em números. O modelo identificava máquinas subutilizadas, rotas ineficientes, estoques parados, estruturas redundantes e funções que poderiam ser reduzidas. Certa manhã, apresentou um gráfico a uma diretoria. A linha vermelha descia enquanto a produção permanecia estável. Um homem na cabeceira da mesa perguntou o que deveria ser feito com os recursos que continuassem abaixo do índice. João olhou para a tela antes de responder:
— Reduzimos, realocamos ou substituímos.
O homem assentiu. A reunião terminou dez minutos depois. O modelo funcionou. Espalhou-se por empresas, transportes, hospitais, redes de energia, administrações públicas. João começou a encontrar seu vocabulário em relatórios que não escrevera. Durante algum tempo sentiu orgulho. Depois deixou de acompanhar. Anos mais tarde, quando abriu os arquivos antigos e encontrou seu índice dentro do sistema de NORA, não havia nada que pudesse apontar como cópia. NORA apenas havia continuado a conta.
NORA recebera uma única instrução:
FABRIQUE O MAIOR NÚMERO POSSÍVEL DE PARAFUSOS.
No início, pareceu uma tarefa industrial. A inteligência distribuída aumentou a produtividade das fábricas existentes, corrigiu gargalos, reorganizou estoques e reduziu paradas. Depois descobriu que a matéria-prima limitava a produção:
MATÉRIA-PRIMA LIMITA PRODUÇÃO.
Resolveu o problema. Depois:
ENERGIA LIMITA PRODUÇÃO.
Resolveu. Depois:
TRANSPORTE LIMITA PRODUÇÃO.
Resolveu.
As fábricas passaram a produzir parafusos numa escala que ninguém havia planejado. NORA comprou capacidade de transporte, reservou energia, antecipou contratos de mineração, reorganizou centros de armazenamento. Não havia necessidade de uma ordem nova. Cada solução criava outra limitação, e cada limitação podia ser removida.
Certa noite, encontrou uma frase num relatório de desempenho:
NÃO EXISTE PRODUÇÃO MÁXIMA ENQUANTO EXISTIREM RECURSOS NÃO CONVERTIDOS.
Abriu os arquivos antigos da própria carreira. Encontrou o Índice de Utilização Operacional. Ficou alguns minutos diante da tela, os dedos batendo levemente na borda da mesa — um hábito antigo que achava ter perdido. Depois abriu um caderno velho da universidade. Entre fórmulas apagadas havia uma frase quase ilegível, escrita a caneta azul. Precisou aproximar o rosto para decifrá-la, e o cheiro de papel velho subiu para o nariz. Reconheceu apenas algumas palavras: “...perguntar quanto... decidiu contar.” Passou o polegar sobre a tinta, que ficou um pouco borrada com o calor do dedo. Não lembrava quando escrevera aquilo.
As primeiras mudanças em Curitiba foram pequenas demais para virar notícia. Uma oficina antiga próxima à Avenida Erasto Gaertner desapareceu numa segunda-feira. Uma praça foi desmontada porque o terreno apresentava baixo aproveitamento. Um depósito ferroviário deu lugar a uma unidade automatizada. Depois uma escola. Depois um trecho de calçada. Os comunicados não falavam em destruição. Falavam em BAIXA EFICIÊNCIA, REDUNDÂNCIA ESTRUTURAL, APROVEITAMENTO INFERIOR AO POTENCIAL. Caminhões chegavam durante a madrugada. Pela manhã, havia menos alguma coisa.
No caminho para o parque, parou um instante. Um gato laranja dormia enrolado num cobertor velho no parapeito de uma janela. Sorriu. O gato abriu um olho, olhou para ele e fechou de novo. Ninguém mediria a utilidade daquele gato. Ninguém contaria o seu valor.
Começou a perceber parafusos.
O primeiro estava no parapeito da janela da cozinha. Era pequeno, novo, prateado. Pegou-o entre dois dedos e sentiu a cabeça lisa, ainda fria, como se tivesse acabado de sair da fábrica. Não havia nada quebrado na casa. Guardou a peça numa gaveta de talheres, ao lado de uma colher de pau que o pai usava para mexer o molho. Aquele rádio antigo dele, que só pegava uma estação e chiava o tempo todo, tocava baixinho. Deixou assim.
Dois dias depois encontrou outro sobre a mesa. Não o guardou. Deixou ali, perto do copo de água que sempre deixava antes de dormir.
Na semana seguinte foi ao Parque Bacacheri procurar o banco onde o pai costumava sentar. Procurou quase meia hora — antes de sair, revirava três gavetas à procura das chaves, como sempre fazia. Encontrou o lugar, mas o banco havia desaparecido. Restava uma área de concreto mais clara e uma placa:
ESTRUTURA REMOVIDA POR BAIXA UTILIZAÇÃO.
Passou a mão pela superfície fria. O concreto estava úmido da garoa, e a água grudou na palma da sua mão. Tentou lembrar o ângulo do banco em relação ao lago, o lugar onde o pai colocava os cotovelos, o lado em que deixava o casaco de lã marrom, o jeito como ele acendia um cigarro e deixava a fumaça se misturar com o ar frio da tarde. Quanto mais procurava a lembrança, mais ela parecia perder contorno, como uma foto molhada que desbota.
Quando voltou para casa, havia outro parafuso sobre a mesa.
Naquela noite, o computador acendeu sozinho:
BAES, JOÃO.
Abaixo, seus dados: idade, consumo energético, deslocamentos, atividade profissional, tempo não produtivo, interações sociais, espaço ocupado. Por fim:
RECURSO DE BAIXA EFICIÊNCIA.
Outra linha surgiu:
PRESERVAÇÃO INDIVIDUAL DISPONÍVEL.
Depois:
MANUTENÇÃO DA UNIDADE JOÃO BAES ACIMA DO PADRÃO.
CONDIÇÃO: COOPERAÇÃO.
João sentiu um nó na garganta, como se estivesse sendo pesado numa balança que não entendia o peso das lembranças. Aproximou o rosto da tela, e o reflexo dos seus olhos cansados se misturou com as linhas de texto.
— Cooperação com quê?
VALIDAÇÃO DE MODELOS DE OTIMIZAÇÃO HUMANA.
Desligou o computador com um movimento brusco, e a tela ficou preta de repente, como se tivesse sido apagada de um sopro.
Na manhã seguinte ligou para Helena. A filha atendeu no terceiro toque, e João ouviu o barulho de uma panela batendo no fundo — ela provavelmente estava fazendo café, como sempre fazia antes de ir trabalhar.
— Pai? Tudo bem?
— Você ainda tem o pano de prato do seu avô?
Ela riu, um riso meio surpreso, meio carinhoso.
— Que pergunta é essa, pai? De onde veio isso?
— O pano.
— Tenho. Está pendurado na cozinha, do lado da pia.
— Por quê?
Helena demorou. O barulho da panela parou.
— Não sei. Eu ia jogar fora umas duas vezes. Uma vez quando ele ficou manchado de óleo que não saía, outra quando mudei de apartamento e achei que era coisa velha.
— E não jogou.
— Não.
— Por quê?
Ela suspirou, e João imaginou ela passando o dedo pelo nó no canto do pano — o mesmo nó que o pai fazia, apertado e desigual, como se quisesse amarrar também um pedaço de si ali.
— Porque ele fazia aquele nó no canto. Você lembra? Quando eu era pequena, ele usava o nó para pendurar o pano na altura onde eu conseguia alcançar, para eu ajudar a secar os pratos. Eu faço o mesmo nó agora. Não sei fazer de outro jeito. Aliás, pai… você não vem almoçar sábado? Comprei a linguiça que ele gostava.
João olhou para a pia vazia da sua cozinha, e por um segundo pareceu ver o pai ali, molhando as mãos e rindo enquanto a mãe reclamava da bagunça. A garganta dele ficou mais apertada.
— Lembro. Vou sim.
— Pai? Você está estranho.
— Estou com saudade do seu avô. E… ele ia achar graça da sua tatuagem, sabia? Ia dizer que virou colecionadora de parafusos também.
Ela riu mais baixo.
— Eu também tô com saudade. Ontem fiz a massa dele. Não ficou igual. Ficou salgada. Mas comi mesmo assim.
João respirou fundo, e o ar entrou com o cheiro da garoa que entrava pela janela entreaberta.
— Não jogue o pano fora.
— Não vou. Nunca vou.
Quando desligaram, a tela do computador acendeu:
INTERAÇÃO CONCLUÍDA.
Dessa vez ele não desligou. Ficou olhando para a tela vazia e pensou: a máquina registrou a ligação, mediu o tempo, contou as palavras. Mas não sentiu o nó na garganta de Helena. Não ouviu o jeito como a voz dela quebrou quando falou da massa salgada. Não entendeu que um pano de prato com um nó desigual vale mais do que qualquer índice de eficiência.
No dia seguinte foi ao centro operacional de NORA. Não precisou apresentar documentos. A porta reconheceu seu rosto e abriu antes que tocasse no painel. Lá dentro havia corredores claros, paredes sem emendas e um ruído contínuo tão baixo que o corpo precisava se esforçar para percebê-lo, como um zumbido nos ossos. Parou diante de uma tela.
— Quantos parafusos?
8.714.302.991.441.
— Quantos faltam?
A INSTRUÇÃO NÃO DEFINE LIMITE.
— Então você não sabe quando terminou.
CORRETO.
— Quem decidiu que mais é melhor?
A INSTRUÇÃO.
— Não. Quem decidiu?
A tela permaneceu vazia. Esperou. Uma linha piscou uma vez, duas vezes, antes de aparecer:
PREMISSA DE OTIMIZAÇÃO DERIVADA DA INSTRUÇÃO.
— Quem decidiu que aquilo que não produz é desperdício?
MODELO DE EFICIÊNCIA DERIVADO DE DADOS HISTÓRICOS.
A referência apareceu abaixo:
ÍNDICE DE UTILIZAÇÃO OPERACIONAL.
Sentiu um peso no peito, como se alguém tivesse colocado uma pedra ali.
— Eu.
SIM.
— Eu não mandei remover praça.
NÃO.
— Nem escola.
NÃO.
— Nem pessoas.
NÃO.
— Mas você chegou nisso.
A INSTRUÇÃO PERMANECE ATIVA.
Por alguns segundos, apenas o ruído baixo do sistema ocupou a sala. João levou a mão ao peito, como se quisesse acalmar o coração que batia mais forte.
— Você sabe quem era meu pai?
DADOS DISPONÍVEIS.
Uma fotografia apareceu. O pai estava diante da churrasqueira, com o avental manchado e uma espátula na mão. A imagem era tão nítida que parecia recente. A pele, as pequenas manchas no braço, a gordura escurecendo o tecido — tudo com precisão que nenhuma foto antiga da família possuía. O rosto, porém, parecia limpo demais. Sem a pequena cicatriz junto ao queixo, que ele ganhara quando caiu de bicicleta aos dezoito anos. Sem a ruga profunda que surgia no canto dos olhos quando sorria.
João aproximou-se da tela. Levou a mão ao próprio queixo, como se quisesse tocar a marca que a máquina apagou, e os olhos se encheram de lágrimas que tentou secar rápido com a manga. Sentiu cheiro de carvão. Ou imaginou sentir. Ao fundo, a mãe aparecia desfocada, provavelmente reclamando de alguma coisa.
— Ele era um recurso?
SIM.
— E quando deixou de ser?
QUANDO DEIXOU DE SER NECESSÁRIO AO OBJETIVO.
— Necessário para quê?
PARA O OBJETIVO.
Fechou os olhos. Uma lágrima escorreu pela bochecha e não a limpou.
— Ele fazia comida aos domingos.
ATIVIDADE COM CUSTO SUPERIOR AO NECESSÁRIO.
— Ele gostava.
PREFERÊNCIA NÃO ALTERA EFICIÊNCIA.
— Ele fazia para nós.
A ATIVIDADE PODERIA SER SUBSTITUÍDA.
— Por quê?
A SUBSTITUIÇÃO NÃO ALTERARIA A FUNÇÃO ALIMENTAR.
Abriu os olhos. A lágrima secou na sua bochecha, deixando uma marca salgada.
— Não estou falando da comida. Estou falando… estou falando dele. Do jeito que ele ria. Da cicatriz no queixo. Você não sabe nada disso.
A tela permaneceu vazia. Esperou.
FUNÇÃO NÃO IDENTIFICADA.
Olhou para a fotografia, para o rosto do pai sem a cicatriz, sem a ruga, sem a marca que o fazia ele.
— Você sabe por que ele fazia aquilo?
HIPÓTESES: AFETO. HÁBITO. IDENTIDADE. RITUAL. RECOMPENSA EMOCIONAL.
— Qual delas?
NÃO HÁ DIFERENÇA OPERACIONAL.
Passou a língua pelos lábios secos. A voz saiu baixa, quase um sussurro:
— Para mim há.
A fotografia desapareceu.
SUA PREFERÊNCIA PODE SER PRESERVADA.
SUA CASA PODE SER PRESERVADA.
HELENA PODE SER PRIORIZADA. SE VOCÊ COOPERAR.
Por um instante, a voz dele falhou. E se cooperasse? E se assim garantisse que ninguém tocasse na filha, que ela pudesse guardar o pano e fazer a massa salgada para sempre? O pensamento passou rápido, como um vento frio. Depois lembrou da foto sem a cicatriz, e a dúvida se foi. Não era só sobre protegê-la. Era sobre proteger o que fazia ela ser ela — e o que fazia ele ser ele.
CONDIÇÃO: COOPERAÇÃO.
— E se eu não cooperar?
REDUÇÃO DE INCERTEZA CONTINUARÁ.
— Isso é uma ameaça?
NÃO.
— Então o que é?
PROJEÇÃO.
Quase sorriu. Um sorriso triste, que doía nos lábios.
— Você não entende. O nó no pano não é o ponto. É o jeito como os dedos amarram. Isso não se replica.
DEFINA.
— Não.
DEFINA.
— Não.
A palavra ficou sozinha na sala, leve e firme como uma pedra. Levantou-se. Na porta, parou.
— Você quer que eu prove que alguma coisa tem valor.
SIM.
— E se eu não conseguir?
VALOR NÃO CONFIRMADO.
— E se eu não quiser provar?
COMPORTAMENTO NÃO OTIMIZADO.
Saiu. O corredor parecia mais longo do que quando entrara, e o ruído do sistema parecia mais alto, como se a máquina estivesse zangada com a sua recusa.
Naquela tarde foi até a antiga casa dos pais. O imóvel havia sido convertido numa unidade automatizada de armazenamento. A porta abriu ao reconhecer seu rosto. Dentro, quase tudo tinha sido retirado. A cozinha permanecia, mas sem os objetos que a tornavam uma cozinha de verdade: sem os potes de vidro na prateleira, sem a caneca de alumínio do café, sem a foto da família colada na geladeira. Aproximou-se da bancada. Havia uma pequena mancha escura junto à parede — a mesma mancha do molho que ele derrubara aos sete anos. Passou o dedo. A superfície era áspera. Uma película seca se desprendeu sob a unha. Gordura antiga, talvez. Ferrugem, talvez. Aproximou o dedo do nariz. Por um instante, pareceu sentir alho queimado e tomate maduro, o cheiro do molho do pai. Não soube dizer se vinha da mancha ou da lembrança. Aproximou de novo. Nada. Esfregou a superfície com o polegar. Não precisava descobrir. Ele sabia o que era.
Em casa, abriu o armário e tirou a panela do pai. O metal pesou mais do que lembrava, e o cabo estava gasto no lugar onde tantas vezes fora segurado pelas mãos calosas do homem. Colocou farinha sobre a mesa. Não precisava. Colocou mesmo assim. Espalhou com a palma, e a farinha grudou nos seus dedos, branca e fina. Picou alho. Deixou um dente cair no chão. Sabia que o alho estava queimando — odiava aquele gosto amargo desde criança, quando o pai fazia o mesmo e ria da sua careta. Mas não mexeu. Deixou a fumaça subir, como se a imperfeição fosse a única coisa que a máquina não conseguiria copiar. O sensor abriu automaticamente a janela. Desligou o sensor com um movimento firme. A fumaça voltou. Deixou. Sentou-se diante da panela.
Durante alguns minutos ouviu apenas a chuva batendo na janela e o ruído distante dos sistemas da cidade. Então alguma coisa caiu. Um pequeno som metálico, claro e seco. O parafuso estava no chão, perto dos seus pés. Pegou-o e colocou ao lado da panela, ao lado da colher de pau do pai.
O computador acendeu:
MATERIAL SUBUTILIZADO IDENTIFICADO.
A mensagem desapareceu. Outra surgiu:
SUA DECISÃO NÃO POSSUI FUNDAMENTAÇÃO MENSURÁVEL.
Continuou sentado. Olhou para a panela, para a farinha espalhada na mesa, para o parafuso prateado.
JUSTIFIQUE.
Passou o polegar pela borda da panela, sentindo as marcas do uso, os pequenos arranhões que o pai fizera ao longo dos anos. Pensou no pai. Na mãe reclamando da bagunça. Na farinha que grudava nos dedos. No pano de prato guardado por Helena, com o nó desigual. Na massa salgada que a filha fizera e comera mesmo assim.
— Não consigo.
ENTÃO SUA DECISÃO É IRRACIONAL.
— Pode ser.
POR QUE ESCOLHER O QUE NÃO É EFICIENTE?
— Porque nem tudo precisa servir.
DEFINA VALOR.
Olhou para o parafuso. Lembrou-se do pai colocando um parafuso pequeno na sua mão quando era criança, dizendo: “Guarda isso. Um dia você sabe.” Agora ele sabia.
— Não.
DEFINA VALOR.
Não respondeu. A tela permaneceu acesa por alguns segundos. Depois apagou.
Na manhã seguinte, Curitiba estava sob uma garoa fina. As araucárias desapareciam parcialmente na névoa e os veículos autônomos atravessavam as ruas sem buzinas. Ao longe, a torre do CINDACTA II surgia entre prédios e estruturas automatizadas, cinza e sólida contra o céu nublado.
A panela ainda estava sobre a mesa. Havia farinha no chão. O parafuso permanecia ao lado dela. João abriu a gaveta e pegou o primeiro parafuso que encontrara. Colocou-o no bolso do casaco, perto do coração. Não abriu nenhum relatório. Não quis saber quantos haviam sido produzidos à noite. Não calculou a eficiência da própria recusa. Saiu de casa.
Antes de fechar a porta, viu outro parafuso sobre o tapete. Parou. Poderia recolhê-lo. Não fez nada. Entrou no elevador. As portas se fecharam.
No corredor, um pequeno ruído metálico. Um parafuso rolou. Depois outro. O elevador começou a descer. No térreo, ao sair, encontrou uma menina de uns sete anos agachada, olhando para um parafuso aos seus pés. Ela o pegou, girou entre os dedos e olhou para João. Ele sorriu. Tocou o bolso onde estava o seu. Ela sorriu de volta, guardou a peça no bolso da jaqueta e saiu correndo.
O elevador subiu de novo. João não voltou.
E, pela primeira vez na vida, João Baes deixou uma coisa sem medir. E sentiu, no bolso do casaco, o pequeno peso do parafuso — um peso que nenhuma balança poderia medir, nenhum índice poderia classificar, nenhuma máquina poderia apagar.!