Monte de Conchas
Tadeu Everton Zamoiski
Matinhos
A foto tinha três riscos.
Um objeto claro, meio curvo, mais fino numa ponta. Três cortes paralelos numa das extremidades. Embaixo, só: "sambaqui de Matinhos". Sem número, sem nome de quem achou, sem lugar certo.
Eu estava pesquisando sambaquis do litoral do Paraná e fiquei preso naquela imagem. Não sei por quê. Talvez o jeito como os riscos foram feitos, fundos, com ferramenta afiada. Fundos o bastante para ainda aparecerem mesmo com a superfície toda comida pelo tempo.
Meu avô marcava as ferramentas assim.
Quando eu era pequeno, ele pegava o canivete do bolso e fazia três cortes no cabo de madeira. Eu achava pouco.
Por que o senhor não escreve o nome, vô? Meu pai escreve o dele.
Ele nem levantava a cabeça.
Nome apaga. Corte fica.
E guardava o canivete de volta no bolso.
Meu avô morreu faz uns anos. Meu pai me deu a caixa de ferramentas dele para eu esvaziar. No fundo, enrolado num pano que já foi branco um dia, estava ele. O da foto. Ou um igualzinho.
Peguei na mão. Mais pesado do que parecia na foto. Frio em parte, áspero na outra, perto da ponta. Passei a unha nos três riscos e foi a mão que lembrou primeiro. O polegar achou o lugar sozinho. O indicador travou.
Eu já tinha segurado aquilo antes. Tenho certeza. Só não lembro quando.
Meu avô tirou concha de sambaqui quando era novo. Ele não falava sambaqui. Falava monte de conchas. Dizia que era carregar cesto e encher carroça no sol.
E o que vocês achavam lá dentro, vô?
Pedra, concha e terra.
Só?
Ele passava a mão na calça, mesmo com a mão limpa.
Era serviço. A gente precisava comer.
Aí perguntava se eu queria café e a conversa morria ali.
Tentei achar de onde vinha a peça. Fui atrás de arquivo, foto antiga, relato de escavação. Nada batia. Mandei a imagem para uma pesquisadora aqui do litoral. Ela demorou para responder.
Sem procedência não tem como avançar. O que saiu de Matinhos depois é tudo sem origem. É arquivo copiado de arquivo até ninguém saber mais de onde veio.
Guardei essa frase.
No mesmo dia meu pai me mandou uma foto velha no WhatsApp. Meu avô, de pé, na frente de uma parede sem reboco, de camisa clara com a manga dobrada até o cotovelo. Segurando um objeto comprido entre os dedos.
Conhecia aquele formato.
Contei de novo. Quatro.
Escrevi: Pai, o que é isso na mão dele?
Ele respondeu na hora: Seu avô dizia que aquilo não era para ficar com ele.
Liguei.
O que não era para ficar com ele?
Perguntei uma vez. Ficou bravo. Nunca mais toquei no assunto.
Você lembra de onde veio?
Ele ficou quieto. Dava para ouvir a televisão ligada atrás, alta, como ele sempre deixa.
Lembro de uma latinha. De guardar dinheiro, sabe? Pequena. Ele chegou em casa com ela e tua avó mandou devolver. Ele disse que não tinha trazido nada. No outro dia a latinha estava no armário de novo.
E onde está essa lata?
Aí na caixa, eu acho.
Depois ele começou a falar de infiltração, de conta para pagar. Deixei ele falar. Quando desliguei eu já nem lembrava direito da segunda parte.
A lata estava lá mesmo, no fundo, embaixo de uma lona dobrada. Enferrujada, tampa amassada. Quatro riscos no metal. Três velhos, escuros, quase apagados. O quarto cortando por cima da ferrugem nova, fundo, com a bordinha clara levantada.
Abri. Vazia.
Coloquei a peça do pano do lado da lata, na mesa da cozinha. Alinhei as duas. Passei o dedo primeiro nos três antigos, depois no quarto. Tinha uma rebarbinha. Encostei a unha só para sentir e uma lasquinha branca saltou. Ficou na ponta do meu dedo.
Deixei ela ali.
De noite sonhei que andava descalço num chão que era só concha. Não tinha rua, não tinha casa, era Matinhos mas sem Matinhos. Cada passo estalava. Meu pé errava. Olhei para trás para ver a pegada e não tinha nada. Acordei mordendo forte, com a mandíbula doendo. Fiquei de boca aberta um tempo, ouvindo o ventilador, com a sensação da aspereza ainda no pé.
No outro dia liguei para o meu pai.
Vou ficar com a caixa.
Então não joga a lata fora. Era a única coisa que ele guardava daquele tempo.
Mas ele dizia que não trouxe nada.
Pois é.
Umas semanas depois fui buscar uma encomenda no centro. Estava tendo obra, desviaram a rua. Tinham aberto o chão para a fundação e a terra escura estava toda exposta, com raiz cortada e um monte de concha quebrada no meio do barro.
O cara da máquina empurrou a terra de volta para a vala. As conchas sumiram embaixo da lâmina. Em dois minutos estava tudo nivelado para entrar caminhão.
Fui embora.
Voltei lá dois dias depois, de propósito. Queria achar de novo aquele ponto escuro. Já tinham mudado a entrada da obra, colocado pilha de tijolo por cima, batido o chão. Andei em volta do tapume procurando. Não achei mais.
Em casa passei um pano seco na tampa da lata. O quarto risco brilhou mais.
Guardei a lata no fundo da caixa. Antes de fechar, vi um toco de madeira que sobrou da prateleira que desmontei. Peguei o canivete do meu avô. Não para testar, só para entender.
Apoiei a madeira na mesa, segurei com a esquerda. Encostei a lâmina com a direita.
Fiz três cortes. O gesto saiu sozinho.
Tirei o canivete.
Tinha quatro.
O último mais fundo, madeira clara aparecendo, uma lasquinha ainda presa na borda. Não lembro de ter feito. Tentei voltar o filme na cabeça e ele sempre parava no terceiro.
Passei o polegar por cima. Arranhou.
Fechei o canivete e coloquei de volta na caixa.
Deixei a foto aberta no celular em cima da mesa e fui buscar água. Quando voltei a tela tinha apagado. Toquei para acender. Meu avô continuava lá, diante da parede sem reboco, com a camisa clara toda amarrotada na altura do cotovelo, segurando o objeto comprido entre os dedos. Dei zoom até a imagem começar a estourar.
Não eram quatro riscos. Eram três. O polegar dele cobria o primeiro.