segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

O Vazio Planejado


A ciclovia parecia um erro urbano cometido por alguém sóbrio demais. Postes altos, luz branca em excesso; tudo alinhado como um necrotério de boas intenções que apodreceram no papel. A chuva tinha passado, deixando aquele cheiro de asfalto molhado que sopra promessas — daquelas que você faz para uma mulher de bar às três da manhã e esquece antes que o hálito de gim desapareça.
Não tinha ninguém pedalando. Nunca tem. Ciclovia é tipo o otimismo: um conceito bonito inventado por burocratas que andam de carro oficial. É feita para pessoas que acordam cedo, tomam suco verde e acreditam no futuro. Eu não era uma delas. Caminhei por ali como quem sobrevive por puro desaforo, arrastando os calcanhares gastos. O mar, à direita, era um abismo barulhento, uma massa escura que não dava a mínima para os meus boletos vencidos. As casas, à esquerda, dormiam com a TV ligada. Dava para ver o brilho azulado pelas janelas: gente anestesiada, sonhando com vidas que não escolheram enquanto o apresentador do telejornal mentia sobre o PIB.
No chão, os reflexos da luz na água pareciam rachaduras no mundo. Talvez o mundo estivesse mesmo quebrando, e eu estava apenas observando as fendas aumentarem. Pensei nas vezes que tentei ir para frente e acabei apenas cavando um buraco maior. Mulheres que levaram meu fígado, empregos que me cuspiram na sarjeta e amigos que hoje são só nomes difíceis de pronunciar entre um gole e outro.
A seta pintada no asfalto ordenava em letras garrafais: “SIGA”.
Sempre diz isso. É a grande piada do universo. O mundo te empurra, te dá um chute na bunda e diz para continuar andando, mas nunca se dá ao trabalho de te dar um mapa ou uma razão para não pular da ponte mais próxima.
Foi quando ele apareceu. O gato não era um animal de comercial de ração. Era um emaranhado de pelos sebosos, com uma cicatriz que atravessava o focinho e uma orelha pendurada como uma bandeira de rendição. Ele não miou. Gatos que sabem da vida não perdem tempo com música. Ele apenas parou no meio daquela tinta branca impecável e cuspiu um tufo de pelos, me olhando como se eu fosse um fiscal de impostos vindo cobrar uma dívida antiga.
— É, eu sei — eu disse, a voz saindo rouca, cheia de areia. — O planejamento urbano é uma merda, e nós somos os ratos que sobraram.
O bicho deu uma volta em torno das minhas botas, sentindo o cheiro de fracasso e de fumaça de segunda mão. Ele sabia que eu era um clandestino naquele asfalto perfeito. O gato deu um último olhar de desprezo para a seta de "SIGA", levantou o rabo e desapareceu na escuridão entre dois prédios, provavelmente indo atrás de algo que ainda estivesse sangrando.
Eu fiz o mesmo, mas meu alvo era outro tipo de sangue.
Caminhei mais dois quarteirões até que a luz da ciclovia morreu, engolida pela penumbra de uma rua que a prefeitura tinha esquecido de maquiar. No fim do beco, um letreiro de neon vermelho piscava com a urgência de um coração enfartando: BAR DO EDDIE. Empurrei a porta e o cheiro me recebeu como um velho soco no estômago: desinfetante barato, mofo e o suor acumulado de homens que tinham desistido de tentar antes mesmo de eu nascer. Eddie estava lá, limpando um copo com um pano que já tinha visto dias melhores na década de 70.
— O de sempre? — perguntou ele, sem levantar os olhos.
— O de sempre. E deixa a garrafa por perto. A ciclovia lá fora está organizada demais para o meu gosto.
Ele colocou o copo de uísque na minha frente. O líquido tinha a cor de urina de anjo e desceu queimando, limpando a fuligem da alma e substituindo a angústia por um calor entorpecente. Eddie soltou o pano encardido e serviu uma dose para si mesmo. Ele não costumava beber em serviço, mas o Eddie nunca estava realmente em serviço; ele estava apenas esperando a morte em um ambiente com ar-condicionado estragado.
— Vi você vindo pela ciclovia — Eddie disse, a voz soando como dois pedaços de lixa se esfregando. — Você parecia um fantasma tentando seguir uma linha reta.
— Aquela pista é um insulto — respondi, observando o gelo derreter no copo. — É como colocar um laço de fita num cadáver. Eles pintam o chão e acham que a cidade parou de sangrar.
Eddie deu um gole curto e limpou a boca com as costas da mão peluda.
— O progresso é para quem tem pernas fortes e lugar para chegar, Henry. Para gente como nós, o progresso é só mais um jeito de ser atropelado por algo mais brilhante.
— Um gato me parou lá fora — falei, sentindo o uísque finalmente atingir o centro nervoso da minha apatia. — Ele tinha mais bom senso que todo o departamento de urbanismo. Ele olhou para a seta e foi para o lixo. O lixo é honesto. O lixo não finge que é uma autoestrada para o paraíso.
Eddie soltou uma risada seca que terminou em uma tosse de fumante.
— O lixo é a única coisa que cresce sem investimento público. Sabe qual é o problema dessa ciclovia? Ela é silenciosa demais. Não tem o som do fracasso. Eu prefiro o barulho dos carros velhos engasgando.
— É — eu disse, levantando o copo. — À saúde das coisas que não funcionam.
— Às coisas que não têm conserto — Eddie completou, batendo o copo dele no meu.
O som do vidro se encontrando foi a única nota musical que prestou em toda a noite. Lá fora, o mundo continuava tentando ser linear e cheio de setas. Aqui dentro, o relógio estava parado, o uísque era real e ninguém esperava que você fosse a lugar nenhum. A ciclovia ficou para trás: vazia, limpa e inútil. Um monumento à nossa mania de pavimentar o caminho para esconder que, no fundo, estamos todos tropeçando no escuro.
Bebi o resto da garrafa em silêncio. Pela primeira vez na noite, o silêncio parou de gritar

Os Garotos do Manancial IX


Os barcos repousavam na areia como conspiradores cansados, alinhados lado a lado sob o sol, fingindo ser apenas madeira e tinta quando, na verdade, eram máquinas perfeitamente ajustadas para meter gente jovem em confusão. Qualquer adulto sensato teria percebido isso à distância e atravessado a praia pelo outro lado. Mas adultos sensatos raramente dão boas histórias.
Eu estava ali por acaso — que é como quase todas as grandes aventuras começam — quando vi Zeca do Vento surgir correndo, descalço, com a camisa pendurada no ombro e um plano mal explicado no olhar. Zeca tinha doze anos, talvez treze, dependendo de quem perguntasse, e era famoso por três coisas: saber ler o humor do mar, mentir com convicção e nunca voltar para casa no horário combinado.
— Hoje a gente vai longe — anunciou, sem dizer para onde, o que era um detalhe irrelevante.
O Manancial IX parecia o único barco disposto a ouvir esse tipo de promessa. Era maior que os outros, mais gasto também, com marcas de batalhas antigas contra pedras, correntes e decisões mal pensadas. Seu nome, pintado em azul torto, sugeria abundância, embora todos soubéssemos que “manancial” ali significava apenas peixe suficiente para não passar vergonha.
Zeca reuniu a tripulação: eu, por experiência questionável; Chico Damião, forte como um boi jovem e com a inteligência proporcional ao entusiasmo; e Jonas Pequeno, que tinha esse apelido não por ser pequeno, mas porque ninguém jamais o levou totalmente a sério — erro clássico da humanidade.
Partimos sem pedir permissão, pois pedir permissão é o primeiro passo para ouvir um “não”, e não estávamos interessados em estatísticas desfavoráveis.
O mar começou calmo demais, o que sempre deveria ser encarado como um aviso. Remávamos contando histórias exageradas sobre aventuras passadas, todas maiores do que realmente foram, o que é um costume respeitável entre garotos e políticos. Zeca assumiu o comando com a autoridade natural de quem não tinha nenhuma.
— Se o vento virar, a gente vira junto — explicou, como se fosse um princípio científico.
E o vento virou.
Não de forma educada, mas como um sujeito ofendido. As bandeiras no mastro começaram a estalar, e o Manancial IX rangeu de um jeito que parecia uma reclamação formal. Jonas Pequeno parou de sorrir. Chico Damião remou com mais força do que técnica. Eu comecei a calcular, em silêncio, como explicaria aquilo se não voltássemos.
A corrente nos puxou para longe da costa, e naquele instante compreendemos algo importante: não éramos exploradores destemidos, éramos apenas garotos muito confiantes que haviam ido longe demais. Essa descoberta costuma acontecer tarde demais para ser útil.
— É só contornar — disse Zeca, com a tranquilidade de quem acabara de inventar a solução.
O barco dançava, o mar discutia, e nós negociávamos com ambos usando a única moeda disponível: teimosia. Houve um momento em que o silêncio caiu sobre nós, pesado como o céu antes da chuva. Não por medo declarado, mas por respeito. Até garotos aprendem, cedo ou tarde, que certas forças não estão nem aí para bravatas.
Foi Jonas Pequeno quem salvou o dia — o que prova que subestimar alguém é sempre uma aposta ruim. Ele notou uma mudança no ritmo das ondas, quase imperceptível, e apontou um caminho que parecia menos hostil. Seguimos sem discutir, porque quando a esperança aparece, ninguém pede currículo.
O retorno foi lento, cansativo e glorioso da forma discreta que só os sobreviventes conhecem. Quando a areia finalmente tocou o casco, caímos sentados, sujos, exaustos e felizes como se tivéssemos descoberto um continente inteiro, quando na verdade apenas voltamos inteiros.
Os outros barcos nos observavam em silêncio. O Pamela, o Paula, todos ali, imóveis, como velhos sábios que já tinham visto aquilo acontecer centenas de vezes e sabiam que aconteceria de novo.
— Amanhã a gente vai mais cedo — disse Zeca, quebrando o silêncio.
Ninguém discordou. Não porque fosse uma boa ideia, mas porque algumas promessas não são feitas para serem cumpridas — apenas para manter o espírito inquieto funcionando direito.
E assim aprendi que crescer não é abandonar aventuras, mas aprender a contar menos sobre elas. E que certos barcos, parados na areia, sabem exatamente quem somos — e esperam.

Amanhã Finjo Que Não Aconteceu

Amanhã Finjo Que Não Aconteceu

Acordei mal. Mal de verdade. A boca seca, a cabeça pesada, o corpo parecendo um terreno abandonado. A casa da praia estava do mesmo jeito. Perfeito. Pelo menos a gente combinava.
A lua ainda pendurada no céu como um erro que ninguém corrigiu. Nuvem passando rápido, sem olhar para trás. Até o céu sabe a hora de ir embora. O coqueiro batendo no muro. Não forte. Irritante. Como quem não pede desculpa e continua. O muro aguenta calado. Muro aprende cedo que reclamar não adianta.
Eu encostei ali fora. Parecia uma cena importante, mas não era. Nada é. Só mais uma noite mal resolvida com cheiro de sal e álcool velho.
A casa é feia. Não feia de estilo. Feia de verdade. Pintura descascando, parede suando, mofo com personalidade. Casa bonita mente. Esta não. Esta mostra tudo. Igual a mim depois da terceira dose.
Entrei tropeçando. O chão gelado me lembrou que ainda tenho corpo. Pena. O portão rangeu atrás de mim, rindo baixo. Portões sempre riem quando você volta sozinho. Mesa suja. Copos errados. Garrafa vazia. Não lembro do último gole, mas lembro da intenção: esquecer alguma coisa que continua lá.
A pia cheia. Água parada. Reflexo torto. Olhei rápido demais e vi alguém que não conheço direito. Evitei. Ressaca também é covardia.
O mar estava ali, perto, bufando. Um bicho grande que não liga para você. Isso dá paz. Pessoas ligam demais e entendem de menos. Sentei numa cadeira que quase caiu. A gente se entende. Coisas firmes demais exigem postura. Não tenho.
A cabeça bateu na parede. De leve. De propósito. Só para sentir algo que não fosse arrependimento. A parede não pediu desculpa. Nem eu.
A casa já viu coisa pior. Gente chorando sem motivo bom. Gente prometendo mudança com cerveja na mão. Gente indo embora jurando que volta. Ninguém volta igual.
A lua sumiu. Ainda bem. Luz demais deixa o erro nítido. No escuro ele fica só cansado. Bebi água da torneira. Gosto ruim. Mas desceu. Tudo desce quando você já desistiu de escolher.
O coqueiro continuou batendo. O muro continuou calado. A casa continuou em pé. Eu também, por enquanto. Não por força. Por falta de alternativa. Amanhã o sol vem. Sempre vem. Não para salvar nada. Só para mostrar o estrago com mais detalhe.
Encostei na parede. Respirei fundo. Doeu. Respiração às vezes dói mais que soco.
A casa não me julgou.
O mar não prometeu.
Eu não melhorei.
E foi isso

Dançando no Abismo

fragmentos encontrados depois do último gole

A cidade acorda cedo demais
pra gente que já desistiu.

Dez anos longe não limpam nada.
Só ensinam a ficar em silêncio sem parecer louco.

Solidão não dói.
Ela explica.
E quando começa a explicar, apodrece.

Crianças riem.
Não porque entenderam.
Porque não precisam.

Adultos compram respostas
como quem compra pão velho:
sabem que tá duro,
mas mastigam mesmo assim.

Certeza é anestesia.
Dura pouco.
Vicia rápido.

Perguntas boas não vendem.
Incomodam.
E ninguém paga pra sangrar por dentro.

Rotina não salva.
Ela conserva.
Gente em formol.

Um café.
Sem açúcar.
Por doze anos.

Açúcar é uma traição pequena.
Por isso funciona.

Liberdade começa em gestos ridículos
que ninguém aplaude.

A vida não é absurda.
Ela só não liga.

Deus é um bom álibi
pra continuar ajoelhado.

Virtude é a palavra favorita
de quem desistiu da força.

Segurança é medo bem falado.

O futuro prometido
tem cheiro de quarto fechado.

O “último homem” sorri pouco.
Não porque sofre.
Porque não sente o bastante.

Fracasso não mata.
Explicação demais, sim.

Castelos de areia caem.
Sem drama.
Sem tese.
Sem livro.

Cair não é o problema.
Querer chão é.

A montanha não responde.
Ela testa.

Sentido é coisa de quem ainda acredita
que a vida deve algo.

Dizer “sim” não é otimismo.
É economia de energia.

O abismo não chama.
Ele espera.

Dançar não é vencer.
É não sair correndo.

Coragem não grita.
Ela fica.

No fim,
o eco não consola.
Mas acompanha.

E às vezes,
isso basta.


quinta-feira, 27 de junho de 2024

Resumo dos Livros do Novo Testamento por Significado

O Novo Testamento, composto por 27 livros, narra a história da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, além dos primórdios do cristianismo. Cada livro possui um significado e importância distintos, mas podemos agrupá-los em categorias temáticas:


1. Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João):

Foco: A vida, ensinamentos, morte e ressurreição de Jesus Cristo.
Significado: Revelam a natureza divina de Jesus como o Messias prometido, salvador da humanidade.
Mateus: Apresenta Jesus como o Rei e Messias, cumprindo as profecias do Antigo Testamento.
Marcos: Enfatiza as ações e milagres de Jesus, demonstrando seu poder e compaixão.
Lucas: Destaca a humanidade de Jesus e sua relação com os marginalizados e necessitados.
João: Apresenta Jesus como o Filho de Deus, revelando sua natureza divina e relacionamento íntimo com o Pai.

2. Atos dos Apóstolos:

Foco: A história da Igreja primitiva e a atuação dos apóstolos após a ascensão de Jesus.
Significado: Mostra como a mensagem de Jesus se espalhou pelo mundo e o nascimento da Igreja.
Destaca: Ação do Espírito Santo, perseguições aos cristãos, crescimento da Igreja e liderança de Pedro e Paulo.

3. Epístolas (Cartas):

Foco: Escritos dirigidos a comunidades ou indivíduos cristãos, oferecendo ensinamentos, conselhos e encorajamento.
Significado: Guiam os cristãos na fé, na vida prática e na organização da Igreja.
Autores: Paulo, Pedro, Tiago, João, Judas e outros líderes da Igreja primitiva.
Temas: Amor, fé, esperança, caridade, unidade da Igreja, liderança, combate à heresias, instruções sobre diversos aspectos da vida cristã.

4. Apocalipse:

Foco: Revelações sobre o fim dos tempos, a segunda vinda de Cristo e o julgamento final.
Significado: Oferece esperança e consolação aos cristãos em tempos de sofrimento e perseguição.
Linguagem: Simbólica e apocalíptica, com visões e profecias que exigem interpretação.
Mensagem: A vitória final de Deus sobre o mal, o estabelecimento do novo céu e nova terra, e a recompensa para os fiéis.

Lembre-se:

Essa é uma visão geral simplificada. Cada livro possui nuances e detalhes ricos que merecem estudo aprofundado.
A leitura e o estudo do Novo Testamento são essenciais para compreender a fé cristã e sua relevância para a vida individual e social.

Para ir além:

Leia a Bíblia e explore cada livro do Novo Testamento em detalhes.
Participe de grupos de estudo bíblico ou cursos sobre o Novo Testamento.
Consulte comentários bíblicos e outras ferramentas de estudo para aprofundar seu conhecimento.
Converse com líderes religiosos e outros cristãos sobre sua experiência com o Novo Testamento.