sábado, 17 de outubro de 2026

Cão-Quente

Cão-Quente
Tadeu Everton Zamoiski 
Antonina

O ônibus parou na beira da estrada e o motorista nem olhou pra trás quando Raul desceu. Eram quatro da tarde e já chovia aquela chuva de Antonina, que não molha — infiltra. Ele ficou ali com a pasta debaixo do braço, certidão de óbito e os papéis da venda, e a estrada de terra sumia dentro da mata como uma coisa viva.

Fazia vinte e quatro anos.

O caseiro tinha dito meia hora a pé. Foram quarenta minutos. O tênis que comprara novo em Curitiba já era cinza. Quando o curral apareceu entre as árvores, parou e cuspiu no chão. A boca tinha um gosto que ele demorou a identificar. Ferrugem. Achou que era a chuva.

A casa estava igual. Pior, talvez. No quarto do fundo ainda tinha um calendário de 1998, mês de abril, com a foto de uma praia. O colchão era amarelo de tanto tempo. O cheiro era o de sempre: madeira molhada e banha velha. Abriu a janela. O cheiro de fora entrou e era pior. Fechou de novo.

Seu Tião apareceu na porta sem bater. Oitenta anos, uma bengala de goiabeira.

— O homem da compra já veio — disse. — Olhou tudo. Disse que a terra presta. Perguntou é por que o curral tem aquela ladeira de pedra subindo o morro. Duro pra subir gado.

Raul não olhou pra ele.

— Meu pai levava as ovelhas por lá.

— É. — Seu Tião cuspiu um fio de fumo. — O senhor lembra, pois.

Só isso. Saiu.

À noite fez café, comeu um pão amanhecido, deitou. A luz apagou. O silêncio era tão grande que dava pra ouvir o Rio do Nunes lá longe. Dormiu.

E sonhou.

Sonhou com um lugar que não tinha nome. Um campo cinza, o céu tão baixo que ele tinha impressão de tocar com a mão. Não tinha vento. O ar era grosso, e respirar doía um pouco no peito. O chão era uma lama cinzenta, pesada, que a cada passo engolia o tornozelo. Tentou sair e não conseguiu. As pernas respondiam devagar, como se a lama quisesse ele ali.

No meio do campo tinha o cão.

Sabia, no sonho, que aquilo era um cão. Mas não era. Era magro, os ossos saltando sob a pele, e em volta do corpo uma massa vermelha e brilhante, amarrada com tiras de pano. Por onde passava, deixava um rastro brilhante na lama. O cheiro subia: poeira velha e banha rançosa. Os olhos do cão eram olhos de gente — fundos, vermelhos. O mais terrível era que não tinham raiva nenhuma. Tinham vazio. O cão abriu a boca e não latiu. Saiu um gemido, baixo e estrangulado, igual ferro enferrujado raspando em osso.

As ovelhas estavam na frente.

Eram magras, a lã pesada de lama seca, costelas saltando. Apertadas umas nas outras, tentavam andar em círculo mas não conseguiam. O cão ia atrás. Estalava os dentes. Mordia os jarretes. E as levava pra cima, numa ladeira de pedra pontuda. Sem pasto no alto. Sem abrigo. Sem nada. Só subida.

Elas tropeçavam. A pele rasgava na pedra. Ofegavam, a boca aberta, os olhos arregalados. Quando uma caía e não se levantava mais, o cão pulava em cima. Não mordia pra matar. Mordia pra arrancar pedaços, e a ovelha ainda tentava se arrastar.

Raul estava em cima de um barranco.

Estava ali, e não conseguia se mexer. Queria gritar. Queria descer. As pernas estavam pesadas, enterradas. O pior não era o medo. Era estar ali em cima, imóvel, enquanto as ovelhas subiam. Sentia o gosto na boca. Ferrugem. Sentia a queimação nas pernas das ovelhas. Sentiu vergonha, quente, no rosto.

Aí o cão parou.

Virou a cabeça. Olhou pra ele, direto. E não tinha expressão nenhuma. Só indiferença. Como se dissesse: isso aqui não acaba nunca. Não tem porquê. E você já está sujo igual a lama.

Raul acordou sentado na cama, ofegante.

O gemido continuou.

Ficou imóvel. Vinha do quintal. Baixo, estrangulado. Igualzinho do sonho. Acendeu a vela devagar, a chama tremendo na mão. Foi até a janela. Abriu um palmo.

O cão estava no meio do pátio, debaixo da chuva. Magro. A pelagem era cor de ferrugem, grudada no osso. À luz da vela, ergueu o focinho. A garganta se moveu. Não latiu. O cheiro de banha rançosa atravessou a fresta. O lombo brilhava levemente, como se estivesse untado. Depois virou e foi andando na chuva. Sumiu no escuro. O gemido parou.

Raul não tinha visto os olhos. Mas sabia. Fechou a janela. Trancou. Sentou na cama o resto da noite.

De manhã foi até o curral.

A ladeira continuava lá, pedra pontuda subindo o morro. O barranco também. Não lembrava do caminho. O corpo lembrou.

Seu Tião estava encostado na porteira, mascando fumo.

— O senhor tá pálido.

— Meu pai levava as ovelhas por aqui?

— Levava. Dizia que era pra limpar o casco na pedra. — Cuspiu. — Nenhuma voltava. Mas todo mundo da feira conhecia a linguiça dele.

Raul ficou em silêncio.

Seu Tião encolheu os ombros e saiu.

Raul desceu e entrou no barracão dos fundos. A porta rangeu. O cheiro o bateu na cara, forte. Ganchos de ferro no teto. Um barril de banha no canto. Uma caixa de lata. Na parede, uma faca cravada na madeira. Ele a usou para forçar a tampa.

Dentro, o avental do pai. Couro, duro, manchado de um marrom escuro. E embaixo dele, um avental pequeno. De criança. Com as mesmas manchas.

Largou a tampa. A memória veio devagar, como a lama. Veio como sensação no corpo: os pés no barranco, o frio na barriga. Lembrou do pai gritando: "Para com isso, menino, isso aqui é trabalho." Depois, ficava ali. De pé. Olhando. Sem chorar.

À noite não dormiu. Vestiu a jaqueta. Subiu até o barranco. Sentou na beira, as pernas pendendo.

E lá embaixo tinha vultos subindo a ladeira.

Não conseguiu distinguir direito. A figura atrás deles era magra, de avental. Parou. Virou a cabeça. Olhou pra cima.

Os olhos eram humanos.

Raul levou a mão à boca. Estava mastigando alguma coisa. Engoliu sem querer. O gosto era de ferrugem. Tentou se levantar. Não conseguiu. A terra parecia puxá-lo devagar.

O gemido começou de novo.

Aí ele percebeu que vinha de dentro.

Ficou ali sentado até o sol nascer. O comprador não apareceu naquela manhã. Raul não assinaria os papéis. Não por bondade. Simplesmente, não conseguia ir embora.

O Rio do Nunes continua lá, água límpida sobre os pedregulhos. Nas noites de chuva fina, quem mora perto ouve um gemido vindo da direção do curral. Dizem que é o vento passando pelas pedras. Ninguém sobe para conferir.

domingo, 11 de outubro de 2026

Monte de Conchas

Monte de Conchas
Tadeu Everton Zamoiski
Matinhos

A foto tinha três riscos.

Um objeto claro, meio curvo, mais fino numa ponta. Três cortes paralelos numa das extremidades. Embaixo, só: "sambaqui de Matinhos". Sem número, sem nome de quem achou, sem lugar certo.

Eu estava pesquisando sambaquis do litoral do Paraná e fiquei preso naquela imagem. Não sei por quê. Talvez o jeito como os riscos foram feitos, fundos, com ferramenta afiada. Fundos o bastante para ainda aparecerem mesmo com a superfície toda comida pelo tempo.

Meu avô marcava as ferramentas assim.

Quando eu era pequeno, ele pegava o canivete do bolso e fazia três cortes no cabo de madeira. Eu achava pouco.

Por que o senhor não escreve o nome, vô? Meu pai escreve o dele.

Ele nem levantava a cabeça.

Nome apaga. Corte fica.

E guardava o canivete de volta no bolso.

Meu avô morreu faz uns anos. Meu pai me deu a caixa de ferramentas dele para eu esvaziar. No fundo, enrolado num pano que já foi branco um dia, estava ele. O da foto. Ou um igualzinho.

Peguei na mão. Mais pesado do que parecia na foto. Frio em parte, áspero na outra, perto da ponta. Passei a unha nos três riscos e foi a mão que lembrou primeiro. O polegar achou o lugar sozinho. O indicador travou.

Eu já tinha segurado aquilo antes. Tenho certeza. Só não lembro quando.

Meu avô tirou concha de sambaqui quando era novo. Ele não falava sambaqui. Falava monte de conchas. Dizia que era carregar cesto e encher carroça no sol.

E o que vocês achavam lá dentro, vô?
Pedra, concha e terra.

Só?

Ele passava a mão na calça, mesmo com a mão limpa.

Era serviço. A gente precisava comer.

Aí perguntava se eu queria café e a conversa morria ali.

Tentei achar de onde vinha a peça. Fui atrás de arquivo, foto antiga, relato de escavação. Nada batia. Mandei a imagem para uma pesquisadora aqui do litoral. Ela demorou para responder.

Sem procedência não tem como avançar. O que saiu de Matinhos depois é tudo sem origem. É arquivo copiado de arquivo até ninguém saber mais de onde veio.

Guardei essa frase.

No mesmo dia meu pai me mandou uma foto velha no WhatsApp. Meu avô, de pé, na frente de uma parede sem reboco, de camisa clara com a manga dobrada até o cotovelo. Segurando um objeto comprido entre os dedos.

Conhecia aquele formato.

Contei de novo. Quatro.

Escrevi: Pai, o que é isso na mão dele?

Ele respondeu na hora: Seu avô dizia que aquilo não era para ficar com ele.

Liguei.

O que não era para ficar com ele?

Perguntei uma vez. Ficou bravo. Nunca mais toquei no assunto.

Você lembra de onde veio?

Ele ficou quieto. Dava para ouvir a televisão ligada atrás, alta, como ele sempre deixa.

Lembro de uma latinha. De guardar dinheiro, sabe? Pequena. Ele chegou em casa com ela e tua avó mandou devolver. Ele disse que não tinha trazido nada. No outro dia a latinha estava no armário de novo.

E onde está essa lata?

Aí na caixa, eu acho.

Depois ele começou a falar de infiltração, de conta para pagar. Deixei ele falar. Quando desliguei eu já nem lembrava direito da segunda parte.

A lata estava lá mesmo, no fundo, embaixo de uma lona dobrada. Enferrujada, tampa amassada. Quatro riscos no metal. Três velhos, escuros, quase apagados. O quarto cortando por cima da ferrugem nova, fundo, com a bordinha clara levantada.

Abri. Vazia.

Coloquei a peça do pano do lado da lata, na mesa da cozinha. Alinhei as duas. Passei o dedo primeiro nos três antigos, depois no quarto. Tinha uma rebarbinha. Encostei a unha só para sentir e uma lasquinha branca saltou. Ficou na ponta do meu dedo.

Deixei ela ali.

De noite sonhei que andava descalço num chão que era só concha. Não tinha rua, não tinha casa, era Matinhos mas sem Matinhos. Cada passo estalava. Meu pé errava. Olhei para trás para ver a pegada e não tinha nada. Acordei mordendo forte, com a mandíbula doendo. Fiquei de boca aberta um tempo, ouvindo o ventilador, com a sensação da aspereza ainda no pé.

No outro dia liguei para o meu pai.

Vou ficar com a caixa.

Então não joga a lata fora. Era a única coisa que ele guardava daquele tempo.

Mas ele dizia que não trouxe nada.

Pois é.

Umas semanas depois fui buscar uma encomenda no centro. Estava tendo obra, desviaram a rua. Tinham aberto o chão para a fundação e a terra escura estava toda exposta, com raiz cortada e um monte de concha quebrada no meio do barro.

O cara da máquina empurrou a terra de volta para a vala. As conchas sumiram embaixo da lâmina. Em dois minutos estava tudo nivelado para entrar caminhão.

Fui embora.

Voltei lá dois dias depois, de propósito. Queria achar de novo aquele ponto escuro. Já tinham mudado a entrada da obra, colocado pilha de tijolo por cima, batido o chão. Andei em volta do tapume procurando. Não achei mais.

Em casa passei um pano seco na tampa da lata. O quarto risco brilhou mais.

Guardei a lata no fundo da caixa. Antes de fechar, vi um toco de madeira que sobrou da prateleira que desmontei. Peguei o canivete do meu avô. Não para testar, só para entender.

Apoiei a madeira na mesa, segurei com a esquerda. Encostei a lâmina com a direita.

Fiz três cortes. O gesto saiu sozinho.

Tirei o canivete.

Tinha quatro.

O último mais fundo, madeira clara aparecendo, uma lasquinha ainda presa na borda. Não lembro de ter feito. Tentei voltar o filme na cabeça e ele sempre parava no terceiro.

Passei o polegar por cima. Arranhou.

Fechei o canivete e coloquei de volta na caixa.

Deixei a foto aberta no celular em cima da mesa e fui buscar água. Quando voltei a tela tinha apagado. Toquei para acender. Meu avô continuava lá, diante da parede sem reboco, com a camisa clara toda amarrotada na altura do cotovelo, segurando o objeto comprido entre os dedos. Dei zoom até a imagem começar a estourar.

Não eram quatro riscos. Eram três. O polegar dele cobria o primeiro.

sábado, 10 de outubro de 2026

O Canto

O Canto
Tadeu Everton Zamoiski


Eu categorizo coisas. É o que eu sempre fiz. Planilha, padrão, desvio. Sempre achei que tudo tinha padrão.

Até a Helena ir embora e o apartamento ficar quieto de um jeito que não era silêncio.

Ela levou o que prestava. Ficou o sofá com o afundado do corpo dela, um colchão no chão e o Cinza.

Vira-lata cinzento, orelhas caídas. Ficou comigo porque ela disse, olhando para o lado, que não tinha tempo para ele. Eu olhei para o cachorro. Ele olhou para mim. Foi mais honesto que o resto da separação.

Trabalhava de casa, comia em pé na pia, deixava a louça virar torre, o detergente escorrer até o cotovelo enquanto olhava pela janela sem ver nada. Cinza dormia embaixo da mesa, me seguia no corredor, deitava no tapete do banheiro. Quando eu chorava, ele vinha lamber minha mão.

Na primeira noite, onze horas, ele rosnou para o canto. Aquele entre a estante e a janela da sala. Só parede, a poeira ali mais escura que no resto, quase úmida, com uma tomada que nunca funcionou, um buraco redondo e preto do tamanho de um dedo.

Eu fiquei com o copo parado na mão.

— Cinza.

Parou. Me olhou e deitou.

Na segunda noite, onze horas de novo. Onze era a hora em que eu fazia merda. Em que abria o celular para ver se a Helena tinha postado alguma coisa. Daquela vez veio um cheiro rápido de cloro com terra molhada, vindo do canto. Achei que era da pia. Ignorei.

Na terceira noite apareceu ela. Foto antiga, viagem, rindo com um cara cortado na borda. Fiquei olhando mais tempo do que devia.

Cinza levantou a cabeça, olhou para o canto e rosnou.

Fechei o aplicativo. O rosnado parou.

Abri de novo e continuei olhando para o rosto dela. Enquanto eu olhava, ele ficou encarando o canto e rosnou de novo.

No dia seguinte eu testei. É o que eu sei fazer.

Pensei na Helena de propósito. Nome, rosto, voz. Ele olhou para o canto e rosnou.

Parei de pensar. Parou.

Pensei no meu chefe. Nada.

Pensei numa vez na escola, quando roubei um compasso da mochila de um colega e deixei ele levar a culpa. Cinza olhou para o canto e rosnou.

Teve uma noite em que eu chorei e ele não veio lamber minha mão. Ficou no sofá, olhando para o canto.

Ele não me consolava mais. Ele me entregava.

Levei-o ao veterinário. Nove anos, coração forte. A veterinária escutou o peito dele e disse que não tinha nada errado.

Liguei para a Helena uma vez. Só para ouvir a voz.

Ela atendeu e disse:

— Você nunca contou nada que doeu de verdade.

Eu disse que o Cinza estava bem. Ela desligou.

A louça virou torre de novo. O colchão continuou no chão. Tem coisa que a gente aprende a não olhar. Eu aprendi cedo.

Até a noite do prato.

Eu estava lavando um prato e da água da pia subiu aquele cheiro de novo, cloro com terra molhada, mas agora forte. Quintal com poço.

E o nome veio.

Falei em voz alta, para o Cinza.

— Wesley Santos.

Verão. Eu tinha sete anos. Conheci um menino magro que ficou três dias na casa do fundo da rua. A gente passava a tarde num terreno baldio atrás das casas. Um pedaço de compensado cobria o poço. Nós dois arrastávamos a tampa para o lado e jogávamos pedras. Lá embaixo, só lama e escuridão. Ele ria de cabeça para trás, como se soubesse de alguma coisa que eu não sabia, e dizia que não tinha fundo. Aquela risada me irritava.

No segundo dia a mãe dele gritou do portão:

— Wesley Santos, pra dentro!

No terceiro dia eu levei a pedra maior. Tive que usar as duas mãos.

Ele estava na beira, curvado, olhando lá para baixo e rindo.

Eu falei:

— Então prova.

Empurrei. Com as duas mãos nas costas finas. Foi fácil.

Ele não gritou. Fez só um barulho curto, de ar saindo. Depois um barulho de saco caindo em lama.

Fiquei olhando. Lá embaixo não refletia nada. Só lama.

Voltei para casa e nunca contei. No outro dia a casa estava fechada, janelas escuras, como se nunca tivesse morado ninguém ali.

O prato ainda estava na minha mão, ensaboado. De costas para a sala, las mãos na pia.

Cinza não rosnou.

Levantou a cabeça devagar. Não olhou para o canto. Olhou para mim, com as orelhas erguidas e o focinho enrugado. Depois, olhou por cima do meu ombro.

— Cinza.

Ele não abanou. Não deitou.

Latiu. Curto, agudo. Para o que estava atrás de mim.

A água continuava correndo na pia e eu não escutava mais.

Senti frio entre as omoplatas. Duas mãos pequenas, as palmas abertas.

Decidi não virar.

Tentei categorizar. Reflexo, luz, cansaço. Sem padrão, só desvio.

Limpei o vidro com o antebraço. Nada de mim ali. Só o vão entre a estante e a janela da sala. O canto vazio. E a tomada preta, redonda, do tamanho de uma boca de poço.

O vidro não tinha fundo.

Empurraram. Com as duas mãos. Não gritei. Saiu só o ar.

Foi fácil.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Véu

Véu
Tadeu Everton Zamoiski Estrada da Graciosa

Fecharam a 277. De novo.

Eu estava na conveniência do posto de São José, mãos suando em volta do copo de café queimado, quando o rádio do frentista chiou. Deslizamento entre o Km 54 e o Km 60. Pista fechada nos dois sentidos, sem previsão.

O frentista olhou pra mim por cima do balcão.

— Vai ter que ser pela Graciosa, moça.

Peguei uma garrafinha d’água na geladeira e paguei. Ninguém que mora aqui quer a Graciosa de noite. De dia é passeio. De noite é garganta. Quase nove quilômetros de paralelepípedo que nunca seca, muro de pedra do Império coberto de limo e mata tão fechada que o farol alto não atravessa.

Eu precisava chegar em Morretes. Minha mãe tinha ligado às dez. Meu pai não estava conseguindo respirar direito. A voz dela era a mesma da noite em que a avó morreu.

Entrei no carro. 23h14.

Os primeiros quilômetros ainda tinham casa, cachorro, luz de varanda. Na última curva antes da mata engolir tudo, levei a mão à garrafa. Não abri. Meu pai não podia esperar. A última luz sumiu e o silêncio mudou.

Desci freando o tempo todo. Limpador no lento, mesmo sem chuva, só pra limpar a umidade que grudava no vidro. O cheiro de terra molhada entrou no carro com tudo fechado.

No Bela Vista, na curva mais aberta, tinha alguma coisa parada no meio da pista.

Parada. Não se mexia com o vento. Não era cerração. Cerração se mexe.

Primeiro só uma brancura. Depois o farol mostrou a textura. Renda molhada, pesada, flutuando a um palmo do chão.

Era um véu de noiva.

Buzinei. Nada.

Fui chegando e o véu abriu sozinho.

Tinha uma mulher de costas pra mim, bem no centro da pista.

O vestido ia até o chão, mas não era tecido. Era barro e raízes finas, úmidas, entrelaçadas. As pedras do calçamento entravam na barra e as raízes sumiam entre elas.

Ela não estava na estrada. Ela era a estrada.

Tentei dar ré. O carro morreu. Como se alguém tivesse puxado a chave. O painel apagou inteiro. O farol ficou amarelo, fraco.

Sem grilo. Sem vento. Nem aquele farfalhar de folhas que sempre tem na Graciosa.

Olhei no retrovisor. O vidro tinha brotado musgo por dentro. Verde, vivo, avançando das bordas pro meio.

Quando voltei pro volante, as raízes já estavam ali. Finas, pretas, saindo da coluna de direção e enrolando nos meus dedos. Não apertavam. Só seguravam, mornas e úmidas como veias.

Falei sem pensar:

— Não passa.

Ela virou só a cabeça. O estalo soou fundo, como se o pescoço tivesse quebrado por dentro. Meu ombro recuou sozinho. O estômago fechou.

Não tinha rosto. Só a mesma neblina densa do véu, girando.

Aí veio a voz da minha avó.

Ela me levava na Graciosa quando eu era pequena. Sempre parava no mesmo lugar, abria a porta do carona e jogava um pouco de água no chão.

— É o pedágio da mãe da serra. A gente pede licença.

Eu tinha entrado sem pedir.

Olhei pro lado do carona. O medo de ficar era maior. As raízes esticaram sem soltar, mornas, e acompanharam minha mão até a maçaneta. Demorei um segundo.

Abri. A mata estava colada na lata do carro. Folhas batendo no retrovisor. O frio entrou de uma vez.

Peguei a garrafa, desrosquei a tampa e deixei no chão, no paralelepípedo. A água desceu entre as pedras e sumiu entre as raízes.

Falei baixo:

— Desculpa. Me deixa passar.

O musgo parou de crescer no vidro. As raízes soltaram dos meus dedos devagar, ainda mornas, e sumiram no ar como se nunca tivessem existido.

O véu fechou. Quando abriu de novo, não tinha mais nada. Só a pista vazia e a neblina normal descendo o morro.

O painel acendeu. Dei partida. Pegou.

Desci o resto de segunda, sem parar, sem olhar no retrovisor.

Quando a luz amarela do posto 24 horas apareceu na entrada de Morretes, respirei fundo. O celular vibrou. 23h14. Mensagem da mãe: o pai tinha melhorado de repente. A respiração tinha voltado.

Entrei no banheiro pra esfregar a mão. Água gelada, sabão rosa de posto. Esfreguei. O barro não saiu. Esfreguei de novo, com a unha. O cheiro de raiz ficou.

Levantei a cabeça pro espelho manchado.

Meu reflexo ainda estava lá em cima, na curva.

Ele virou só a cabeça.

— O estalo soou no meu pescoço.

— Não passa.

A água da minha garrafinha ainda escorria entre os meus pés.

A Dobradiça na Paraná

A Dobradiça na Paraná
Tadeu Everton Zamoiski 
Caiobá

Meu avô jurava que foi ele quem abriu o canal da Avenida Paraná. Falava cuspindo o fumo de corda, com aquela empáfia de quem meteu o facão no mato e achou que virou dono da terra. Dizia que antes dali não tinha nada: nem rua, nem calçada, nem casa com laje batida. Só lama, maré cheia e um silêncio grosso de mangue. Primeiro o canal, ele repetia. Só depois a cidade veio em cima.

E que “não mexe onde já está mexido”, ele resmungava de cara amarrada quando a gente era moleque e tentava cavar buraco fundo na beirada da vala. Na época, a gente achava que era manha de velho. Hoje eu sei que ele não era o pioneiro de porra nenhuma. Ele era o carcereiro. O velho sabia perfeitamente o que a gente pisava em cima; só preferiu inventar a história da fundação para ninguém ter a curiosidade de olhar para baixo.

Eu mergulho naquele trecho desde os doze anos. Conheço cada palmo daquele fundo como se fosse a palma da minha mão calejada. Sei onde tem linguado entocado, onde o toco de bracatinga está preso no lodo, onde a pedra de contenção cedeu. Todo mês de junho, na ressaca de sul, quando a prefeitura chama a turma para a limpeza de rotina antes das chuvas, sou eu quem desce. É trabalho braçal, sujo, na água barrenta e gelada.

Até o dia em que a lâmina da minha espátula bateu em seco.

Não era pedra. Não era o concreto cinzento e remendado da última engorda de praia. Era madeira.

Passei a mão enluvada pelo limo grosso, limpando a craca com cuidado. Meus dedos tatearam as ranhuras de uma porta. Uma porta de verdade, com uma maçaneta de ferro pesado, gasta e redonda como uma castanha grossa, e dobradiças fundidas que o tempo tentou comer, mas não conseguiu. Estava embutida ali na alvenaria submersa, a uns dois metros de profundidade.

Segurei firme na maçaneta. Ela girou com um rangido abafado pela pressão. Puxei.

Na mesma hora, a água barrenta do canal deu um puxão, rodopiando num vácuo rápido. Mas o que apareceu do outro lado não foi o breu do fundo. Era ar.

Aproximei o visor de vidro, apertei o rosto contra o batente e respirei fundo pelo regulador. Vi um corredor de tijolos aparentes, secos, iluminados por uma claridade suja, que não vinha de sol nenhum. Tirei o bocal por um segundo, engoli aquele ar velho, cheirando a mofo e madeira antiga, e empurrei o corpo para dentro.

Fiquei de pé. O chão sob minhas botas era de terra batida, totalmente seca. Olhei para trás: a porta estava aberta para o verde escuro e barrento do canal de Matinhos, mas a água não caía para o corredor. Ficava presa ali na soleira, como uma respiração presa.

Dei três passos e saí na margem da Riviera de Baixo.

O canal estava ali. Era o mesmo. A mesma largura exata, a mesma curva suave buscando a maré. Mas a ponte que cruzava a água não era de concreto cinzento com nome de político e pichação de torcida. Era de toras grossas de madeira preta, encharcadas de chuva antiga.

Olhei para as margens. Não tinha sobrado, não tinha placa de aluguel de temporada. Eram casebres de tábua tosca, com rede estendida na varanda e lampiões amarelos acesos nas janelas, bem no meio do dia. As árvores... figueiras bravas gigantescas, guabirobas imensas que ninguém na Riviera de hoje viu em pé.

Mais à frente, na penumbra de uma das varandas, ouvi o arrastar abafado de um pé descalço na terra batida. Um assobio curto, antigo, que cortou o silêncio.

Uma tontura funda me pegou pelo estômago. Dei meia-volta, corri pelo corredor, atravessei a porta e me joguei de volta na água turva. Fechei a folha com toda a minha força até ouvir o baque abafado e subi à tona, cuspindo o gosto amargo de lodo e ferro, puxando o ar do mundo real com desespero.

Joguei o casco na lancha, tirei a máscara e fiquei ali, sentado no banco de alumínio, tremendo que nem vara verde. Em casa, tentei lavar o rosto com água quente e sabão azul. Não adiantou. O cheiro de lodo seco ficou grudado no meu nariz a noite inteira. E, no meu ouvido esquerdo, a água continuava batendo — um eco grosso, como se o mar de lá debaixo estivesse tentando subir pelo meu pescoço.

No dia seguinte, voltei cedo, com a maré bem baixa.

A porta estava entreaberta. Exatos dez centímetros.

Mergulhei com o corpo tenso, o suor frio misturado com o sal. Olhei para a régua de medição de cheia fincada perto do molhe, aquela que a prefeitura usa todo ano. O nível da água no canal de cima tinha baixado dois centímetros exatos da véspera para hoje. Como se a nossa vala estivesse esvaziando por dentro, pingando devagarzinho para alimentar o mundo que ficou embaixo.

Dois centímetros a menos hoje. Quinze centímetros a mais de abertura na porta. A Riviera de cima está secando, esvaziando ralo abaixo, e a conta não vai demorar a fechar.

Olhei para as camadas da parede do canal à minha volta. O concreto novo da engorda de praia. Mais abaixo, a alvenaria batida nos anos 70 pelo meu avô. E, cortando o fundo, atravessando os tijolos antigos, o topo de um tronco queimado de uma cerca que nunca esteve nos mapas.

A Riviera nunca foi a primeira Riviera.

Meu avô não foi o primeiro a cavar. Ele foi só o que encontrou a maçaneta da vez, fechou a cara e mentiu para a gente dormir em paz.

Mas em junho do ano que vem tem limpeza de novo. E não vai ser eu quem vai descer. Vai ser outro guri de doze anos. E a porta vai estar esperando por ele, dez centímetros mais aberta.