domingo, 27 de setembro de 2026

PICO PARANÁ

PICO PARANÁ
Tadeu Everton Zamoiski
Setembro de 2026 — Serra do Mar, Paraná

Amaro chegou antes das seis.

Ainda escuro quando desligou o carro. Ficou ali, mãos no volante, olhando a entrada.

A cancela estava aberta.

Ele tinha certeza de que não devia estar.

Disse à filha que ia dar uma volta na serra. Ela perguntou se estava sozinho.

— Estou.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Você não gosta mais de montanha.

Amaro não respondeu. Agora, sentado no carro, soube que ela tinha razão.

Abriu a porta. O frio entrou primeiro. Cheiro de chuva e terra antiga.

Pegou a mochila no banco de trás. A mesma. Trocou o zíper, costurou a alça, reforçou o fundo. Havia uma pequena queimadura no tecido, perto do bolso lateral. Por anos pensou em jogar fora. Nunca conseguiu.

Colocou nas costas. Fechou o carro. Olhou o estacionamento vazio. Podia voltar. E talvez fosse o único que sabia.

Passou pela cancela.



A trilha parecia mais estreita. Ou era a memória que aumentou tudo.

Reconheceu uma pedra perto do córrego. Uma árvore torta. Uma curva onde alguém parou para apertar o cadarço. A voz veio junto, leve como o vento:

— Vai morrer de velho antes de chegar lá.

Amaro quase sorriu. O sorriso morreu antes de chegar inteiro.

Seguiu.

A chuva da madrugada deixou o chão macio. A sola afundava, como se a terra puxasse. Galhos molhados batiam no rosto. A mochila começou a pesar.

Parou para beber água. Ouviu uma pedra rolar. Olhou. Só folhas pingando. Esperou. Outra, mais perto.

Voltou a andar. Os passos vieram depois. Não atrás. Ao lado. Parava, paravam. Andava, andavam. Era um passo que conhecia bem demais.

Acelerou. Acompanharam. Parou de repente. Silêncio.

— Eduardo?

Não sabia por que disse o nome. Talvez porque ainda o dissesse quando estava só. Ninguém respondeu. Seguiu.



A bifurcação apareceu pouco antes das nove. Dois caminhos. O da esquerda, mais aberto. O da direita, fechado na mata.

Não lembrava. Ou nunca quis lembrar.

Tirou o celular. Sem sinal. Guardou. Pegou a bússola. Apontou normalmente. Norte. Montanha. Norte. Guardou.

O caminho da direita tinha pegadas. Lama ainda úmida. Um conjunto só. Nenhuma outra ao lado. Alguém tinha passado há pouco. Agachou. Não reconheceu a sola. Levantou.

— Tem gente aqui — disse.

Foi atrás.



Encontrou a pedra vinte minutos depois. Baixa, quase escondida. Nela, riscado:

E D U A R D O

Ficou parado. Não tocou. Olhou ao redor. Depois se aproximou. Passou o dedo nas letras. A pedra úmida. Os riscos, não. Eram novos.

Limpou a mão na calça. Deu um passo para trás. Ouviu uma respiração tão próxima que o ar pareceu mudar. Virou. Árvores. Folhas pingando. Nada.

Continuou subindo. Não olhou para trás.



Perto do meio-dia, começou a chover. Água fina que vai molhando sem perceber. Nuca úmida. Mangas pesadas. O chão escorregadio.

Apoiou a mão numa árvore. Foi quando viu o casaco. Azul. Pendurado num galho. Intocado.

Não precisou chegar perto. Conhecia aquele casaco. O rasgo perto do bolso. A manga esquerda mais comprida. Eduardo usava.

Aproximou. Não tocou. Lembrou:

— Tá quente — disse ele, tirando o casaco.
— Depois esfria — respondeu Amaro.
— Aí eu pego.

Jogou sobre o galho. Lembrava de tudo. Menos do que veio depois.

Deu um passo para trás. O casaco continuou ali. Normal. Comum. Era isso que doía mais. Seguiu.



A subida ficou mais dura. Pernas pesadas. Joelho doendo. Pensou em parar. Não parou.

A neblina veio chegando. Em minutos, não enxergava mais que quinze metros. O mundo ficou pequeno: pedra, barro, raiz, respiração.

Ouviu de novo. Atrás. Parou. Parou. Andou. Veio mais perto. Seguiu sem virar.

A voz veio de frente:

— Ainda anda assim?

Parou. Olhou. Eduardo estava ali. A uns quinze metros. Igual. Sem feridas. Sem marcas. Como se tivesse esperado.

— Demorou — disse.

— Eu procurei você.

Eduardo não respondeu. Virou e seguiu. Amaro foi atrás.

Olhou o chão. As suas pegadas estavam ali. As de Eduardo, não.



Chegaram à corda. Velha. Desfiada. Reconheceu o lugar. O estômago apertou.

Eduardo olhou para trás. E veio a memória.

Eduardo escorregou. Segurou a raiz. Amaro estava perto. Muito perto. O braço estendido. Segurou o pulso. A unha do polegar enterrou na pele dele. Doía.

— Me puxa.

Lembrava agora. Sem grito. Sem pânico. Só isso.

Olhou para baixo. Pedra molhada. O pé escorregou. Pensou: os dois caem. Ninguém sabe. Pensou na mãe. No pai. No que ainda queria viver.

Abriu a mão.

Os dedos dele buscaram. Arranharam a pele. Deslizaram. Sumiram. A marca ficou vermelha por semanas. Depois sumiu. A lembrança não.

Dizia a todos que ele escorregou. Era verdade. Só não era a história toda.



Quando levantou os olhos, Eduardo estava ali perto. Amaro chorava sem perceber.

— Eu soltei.

— Eu sei.

— Tive medo.

— Eu sei.

— Me perdoa?

Eduardo demorou.

— Você voltou.

Eduardo voltou a subir. Amaro foi atrás.



No topo, o vento era forte. A neblina se abria aos poucos. A serra lá embaixo.

Olhou para Eduardo. Depois para o horizonte. Quando voltou, ele não estava mais. Sem som. Sem clarão. Simplesmente não estava.

Sentou. Desceu.



A volta pareceu mais curta. Escolheu o caminho da esquerda.

Mais abaixo, achou o casaco no chão. Pegou. Pesado de água. O rasgo no mesmo lugar. Colocou na mochila. Pela primeira vez, levou algo de volta.

Sentiu alguma coisa no fundo. Puxou. Era um cadarço preto, desfiado numa ponta.



A cancela apareceu no fim da tarde. Entrou no carro. Ligou. Ficou parado. Saiu.



Chegou em casa à noite. Banho. Mochila no canto. Nada contado.

Percebeu a mancha de barro perto da porta. Olhou os pés. Limpos. Tocou. Úmida. Cheiro de terra. Lavou a mão.

Dormiu mal. Acordou às quatro. Foi beber água. Parou no corredor.

A porta da frente estava aberta. Tinha certeza de que trancara. Pegadas molhadas. Da porta ao quarto. Paradas. Não eram dele. Mais finas.

Do outro lado, uma respiração. Devagar.

— Disse que ia voltar.

Fechou os olhos. Não respondeu.

Quando abriu, as pegadas voltavam. Pela porta, pelo quintal. Exceto uma. A última. Mais funda. Parada.

Amaro não foi atrás.

Dessa vez, não.

Fim.

O DODGE DAS SOMBRAS

O DODGE DAS SOMBRAS

Tadeu Everton Zamoiski
Setembro de 2026 
Serra do Mar, Paraná

I.
Foi ali que comecei a trabalhar depois de dezoito meses sem beber.

Não digo isso com orgulho.

Há coisas das quais a gente deveria se orgulhar, suponho. Criar um filho. Construir uma casa. Salvar alguém de um incêndio. Ficar dezoito meses sem beber depois de passar quase vinte anos tentando se destruir não me parecia uma conquista. Parecia apenas manutenção.

Como escovar os dentes.
Como pagar uma conta.
Como respirar.

Se eu parasse, sabia o que aconteceria.

A BR-277 descia a Serra do Mar como se tivesse sido aberta à força entre a montanha e a mata. Durante o dia, a estrada era apenas uma estrada: caminhões carregados em direção ao porto, ônibus de turismo, carros seguindo para o litoral, motociclistas que pareciam não temer a chuva. Depois da meia-noite, porém, alguma coisa mudava. Não na estrada propriamente dita, mas naquilo que se podia ver dela. A neblina chegava devagar, apagando primeiro as árvores mais distantes, depois os barrancos, os guarda-corpos, as placas. Por fim, restavam apenas alguns metros de asfalto molhado e a impressão de que qualquer coisa poderia estar esperando logo depois deles.

O posto ficava numa descida, pouco depois de uma sequência de curvas fechadas. Era pequeno, antigo e suficientemente afastado para que, durante as madrugadas, o mundo parecesse terminar ali. Havia três bombas sob a cobertura, uma loja de conveniência que fechava antes da meia-noite e uma guarita de madeira onde ficavam o caixa, o rádio e um relógio redondo que nunca atrasava.

O álcool havia levado a maior parte das coisas que eu julgava importantes, embora essa frase seja simples demais para explicar o estrago. Minha esposa não desapareceu numa noite. Meu filho não deixou de falar comigo de uma vez. Minha casa não foi arrancada das minhas mãos por alguma tragédia repentina. Tudo aconteceu aos poucos, em parcelas pequenas, quase administrativas. Uma discussão. Uma promessa. Outra discussão. Um pedido de desculpas. Uma manhã sem memória. Uma conta que não deveria existir. Uma porta fechada.

Quando percebi, minha vida já não parecia uma vida arruinada.
Parecia a vida de outra pessoa, e eu apenas tinha esquecido de sair dela.

O gerente do posto não perguntou muita coisa quando me contratou. Disse apenas que o turno era da meia-noite às seis.

— Ninguém gosta de trabalhar aqui nesse horário.
— Eu gosto de ficar sozinho.

Ele me olhou por alguns segundos.

— Isso passa.

Na época, não entendi. Hoje não tenho certeza se ele estava falando comigo.


II. O fundo
A primeira coisa que senti foi a água gelada na nuca. Não lembrava de ter deitado. Não lembrava de ter saído de casa. Lembrava de cair. De chão duro nas costas. De boca cheia de terra e gosto de sangue.

Uma formiga subia pelo meu braço esquerdo. Devagar. Esmaguei. Não senti nada.

Uma mulher passou. Guarda-chuva preto. Calçados brancos. Olhou para frente. Não me viu. Um carro passou. Um cachorro latiu longe. Ninguém parou.

Eu fiquei ali.

O frio entrava pela roupa. A cabeça pesava. Eu não conseguia juntar força para levantar.

Se alguém tivesse me estendido uma garrafa naquele instante, eu teria aceitado.

Não por raiva.
Não por tristeza.

Porque era mais fácil deixar levar do que levantar.

Foi a pior verdade que aprendi.
E a mais verdadeira.


III. 3h15
Nas primeiras noites, aprendi a rotina. Depois da uma da manhã, quase não havia movimento. Às duas, eu fazia café. Às duas e meia, conferia o caixa, organizava as prateleiras e ligava o rádio. Gostava das estações AM porque os locutores pareciam cansados. Falavam devagar, anunciavam músicas antigas e davam notícias que ninguém estava acordado para ouvir.

Às vezes, quando a vontade de beber vinha, eu aumentava o volume.

A vontade não tinha forma. Era só uma ideia que aparecia e ocupava espaço. Eu tinha aprendido isso durante o tratamento. Podia tomar banho frio, caminhar, mastigar alguma coisa, ligar para alguém. A vontade vinha, crescia e depois diminuía.

Era preciso esperar.

Na quarta madrugada, o relógio marcou 3h15.

Ouvi o motor antes de ver o carro. Era um som grave, antigo, quase confortável. Um motor que parecia conhecer a estrada. Olhei para a pista. Os faróis atravessaram a neblina.

O Dodge entrou devagar sob a cobertura. Preto. Comprido. Brilhando sob a chuva. Parou diante da bomba número 2.

Fiquei esperando o motorista sair. Ele não saiu. Peguei a caneta e fui até o carro. Bati no vidro.

— Vai abastecer?

O vidro começou a descer.

Antes de ver o motorista, senti o cheiro.
Cachaça.

Meu corpo reconheceu antes da minha cabeça. Foi isso que me fez recuar.

Então vi o homem.

Durante alguns segundos, não pensei em fantasma. Não pensei em loucura.
Pensei apenas que conhecia aquele rosto.

Era o meu.

Não o rosto que eu tinha aos quarenta e quatro anos. Era o rosto que eu tinha antes de perder tudo. Mais cheio. Mais vermelho. Os olhos brilhando daquele jeito que eu aprendera a odiar porque, durante muito tempo, achei que aquilo fosse felicidade.

Havia uma garrafa no banco do passageiro. Ele sorriu.

— Demorou.

Não respondi. Olhei para trás. A guarita parecia muito distante. Quando voltei a encará-lo, ele continuava sorrindo.

— Você está bem? — perguntei.

Ele pareceu achar graça.

— Melhor que você.

A garrafa estava agora em sua mão. Não vi quando ele a pegou.

— Faz quanto tempo?
— O quê?
— Que você não bebe.

Não respondi. Ele sabia.

— Dezoito meses.

Meu estômago apertou.

— Quem é você?

Ele inclinou levemente a cabeça.

— Você sabe.

O relógio da guarita marcava 3h17.

— Não.

O sorriso diminuiu.

— Ainda não.

Ele tomou um gole. Minha garganta queimou.

Às 3h20, o motor acelerou. O Dodge saiu. Fiquei parado sob a cobertura até os faróis desaparecerem. Depois fui até a bomba 2. Não havia marcas de pneus. A chuva podia ter apagado. Foi o que pensei.


IV. A outra coisa
Na noite seguinte, não esperei na guarita. Às 3h10, já estava de pé, olhando para a estrada.

O carro não apareceu. 3h12 — nada. 3h14 — ainda nada.

Когда o relógio marcou 3h15, as luzes apagaram. Não houve queda de energia na região. O rádio simplesmente morreu, as bombas ficaram escuras e a guarita mergulhou numa sombra tão completa que, por alguns segundos, achei que tivesse ficado cego.

Então ouvi alguma coisa na parede. Uma unha. Ou algo parecido com uma unha. Arrastando-se lentamente pela madeira.

Fiquei imóvel. O som contornou a guarita. Parou atrás de mim.

— Pai?

Não me virei. Meu filho tinha oito anos quando começava a me chamar assim com medo. Eu sabia exatamente como aquela voz soava. Mas meu filho tinha trinta e dois anos.

— Pai?

A mão que segurava a lanterna começou a tremer. Não acendi.

— Abre.

Raspe. Raspe. Raspe.

O som vinha do outro lado da porta. Não sei quanto tempo aquilo durou. Quando as luzes voltaram, o relógio marcava 3h20.

O Dodge estava na bomba 2. Não tinha ouvido o motor chegar. O homem olhava para mim através do para-brisa. Não saí. Ele não buzinou. Não fez sinal. Esperou. Quando o relógio marcou 3h21, o carro não estava mais ali.

Na manhã seguinte, encontrei três marcas na madeira atrás da guarita. E uma coisa que não deveria estar ali. Uma tampinha metálica. Velha. Enferrujada. Levei até a lixeira. Depois tirei de lá. Fiquei alguns segundos segurando aquela coisa na palma da mão. Era apenas uma tampa de garrafa. Joguei fora novamente.


V. O que esteve antes
Na quinta madrugada, ele chegou antes. 3h12.

O vidro estava aberto. Ele apontou com o queixo para a bomba 2.

— Olha ali.

Olhei.

— O concreto já viu você chegar.

Fiquei calado. Ele falava baixo.

— Outro esteve no seu lugar.

— Quem?

Demorou um pouco.

— Nivaldo.

O nome ficou entre nós.

— Trabalhava aqui?

— No seu lugar. Jaqueta marrom.

Não sabia por que aquilo me incomodou.

— Quanto tempo?

— Três meses e meio. Durou três meses e meio.

— O que aconteceu?

Ele passou a língua nos lábios.

— Deixou a chave. Ali.

Apontou para o concreto. Havia uma mancha escura perto da base.

— E depois?

— O gerente disse que foi embora.

— Foi?

Ele me encarou.

— A chave ficou.

O motor começou a vibrar.

— Onde está Nivaldo?

Ele olhou para a estrada.

— Esperando.

Partiu sem acelerar. Fui até a bomba 2. A mancha estava lá. Passei o dedo. Estava seca. Limpei o dedo na calça. Naquela noite, demorei para voltar à guarita.


VI. O homem que lembrava
O Dodge voltou. Não todas as noites. Isso era pior. Algumas madrugadas passavam normalmente. Eu começava a acreditar que tinha imaginado tudo. Então, às 3h15, os faróis surgiam.

Na terceira vez, o homem falou sobre minha esposa. Não sobre o dia em que ela foi embora. Sobre uma terça-feira qualquer. Disse que eu tinha chegado em casa com uma garrafa escondida dentro da mochila. Minha esposa estava na cozinha, cortando tomates. Meu filho fazia a lição na mesa.

— Você entrou sem tirar os sapatos. Deixou marcas de lama no corredor.

Não perguntei como sabia.

— Ela viu a garrafa quando você se abaixou para pegar a carteira. Você disse que não era sua.

Olhei para o relógio. 3h18.

— Eu não disse isso.

Ele sorriu.

— Disse.

E repetiu a frase. Até a pausa antes da última palavra. Fiquei olhando para ele. Ele não falou mais nada. Nem eu.


VII. A mochila azul
Parei de perguntar quem era. Ele parou de responder. Conversávamos. A palavra parece leve. Não era.

Nunca entrava no carro. Nunca aceitava a garrafa. Nunca ficava depois das 3h20. Mas eu ia até ele. Às vezes por medo do que rondava a guarita. Outras vezes por medo de ele não aparecer.

Ele percebia.

— Sente minha falta.

Não respondi. Ele riu.

Na sexta vez, havia uma mochila azul no banco de trás. Igual à do meu filho. Eu conhecia aquela mochila. O zíper tinha um pedaço de linha azul preso no puxador. Eu tinha comprado aquela mochila para ele. Dezessete anos antes.

Não toquei no vidro. Ele levantou a mochila. Ficou olhando para mim. Não disse nada.

— Não.

A boca dele se mexeu num sorriso pequeno.

— Você nunca olhou.

— Cala a boca.

Ele continuou segurando a mochila.

Lembrei do portão. Dezessete anos. Ele disse: "Me liga quando estiver sóbrio." Não liguei. Ele também não.

O Dodge foi embora às 3h20. Fiquei parado até as seis.


VIII. O rosto errado
Chovia desde antes do meu turno. Às duas e quarenta, o rádio falhou. Às duas e cinquenta, desliguei. Às três, percebi que não respirava direito. Não por medo dele. Por medo de ele não aparecer.

Às 3h15, o motor veio de trás. Não da estrada. De trás da guarita. Senti a vibração no chão. Virei.

O Dodge estava ali. Não ouvi chegar. Não ouvi nada. Caminhei até a janela. Ela desceu.

Vi meu rosto. Não o de antes. O de agora. Depois outro. Mais jovem. Depois o rosto que minha esposa conheceu nos últimos meses. Depois o rosto do meu filho quando ainda tinha oito anos. Piscar não ajudou.

Ele ergueu a garrafa.

— Hoje entende.

3h17.

— O quê?

— Nunca pedi para beber. Só esperei. Esperei você.

O som na parede recomeçou. Lento.

A garrafa chegou mais perto. Senti o cheiro. Cachaça.

— Uma dose.

Estendi a mão. Toquei o gargalo. Tudo parou. Chuva. Motor. Respiração.

Lembrei da sarjeta. Do frio. Da formiga. Da mulher que passou. A mão continuava no gargalo. Eu queria.

Retirei a mão.

Ele não se surpreendeu. Pareceu cansado.

— É isso.
— É.
— Vai continuar?

Olhei para ele. Não sabia de amanhã. Sabia daquele minuto.

Dei um passo para trás. 3h19. Ele assentiu. O vidro subiu.

3h20. Banco vazio. Porta fechada. Ninguém. Algo respirou atrás de mim. Não virei. O motor morreu. Когда olhei, não estava mais ali. Apenas a bomba 2. A chuva. Uma tampinha no concreto.

Dessa vez, não toquei.


IX. Depois
Fiquei mais dois meses. Pedi transferência. O gerente entregou a chave. Ficou segurando minha mão por alguns segundos.

— O que vem depois já chegou.

Não entendi. Ou talvez tivesse entendido.

Ele soltou minha mão.

— Tem alguém esperando seu turno. Mais novo. Não vai durar tanto.

Não perguntei mais nada.

Naquela manhã, quando saí do posto, havia um rapaz parado perto da loja. Devia ter pouco mais de vinte anos. Uma mochila azul pendia de um dos ombros.

Não olhei para ele por muito tempo. Quando cheguei ao carro, não lembrava mais se ele estava mesmo ali.

Hoje moro longe. Nunca mais vi o Dodge. Mas acordo às 3h15. Não olho para o relógio. Когда chove forte, sinto o cheiro.

Espero. A vontade vem. Passa.

Só preciso esperar que ela passe. Uma noite. Uma hora. Um minuto de cada vez.

Naquela madrugada, na bomba número 2, eu fiquei.

E, por enquanto, isso basta.

Veda Rosca

Veda Rosca
Tadeu Everton Zamoiski

O dente doía desde terça. Anísio vinha empurrando com analgésico, um molar do fundo que ele nem sabia direito qual era. Na quarta acordou com o rosto inchado, mas não falou nada pra Marisa. Tomou um comprimido a mais, o que era errado, ele sabia, que estômago não é de aço, mas era o que tinha. A coluna também reclamava, do lado direito, uma fisgada que aparecia quando ele abaixava rápido. Fazia tempo que ele não ia ao posto por causa disso. Não ia ao posto por causa de nada.

Bia tinha aprendido a assobiar naquela semana. Assobiava o dia inteiro, mal, o ar saindo mais do que o som, e ria de si mesma cada vez que errava. Na quarta à noite Anísio ouviu aquilo do corredor e ficou parado um tempo, a mão no batente, ouvindo a filha assobiar mal no escuro. Pensou em entrar. Não entrou. Não sabia bem por quê. Depois foi dormir.

Contou os trocados em cima do balcão na quinta de manhã. Dava para o gás. Não dava para o remédio da Bia. O de manutenção, que o pediatra insistia, mais caro que o genérico do posto e, segundo Marisa, o único que segurava a crise quando o inverno apertava o peito da menina. Ele já tinha adiado a conta de luz na semana anterior. Se adiasse de novo, cortava.

Dois anos trabalhando sozinho. Sem ajudante fixo. Encanamento nas casas de temporada de Caiobá. De maio a novembro a maioria fechada, o dinheiro rareando junto com os clientes. Ele completava com bico em obra, troca de telha, o que a imobiliária mandasse. Mesmo assim o mês fechava raspando.

Marisa trabalhava de manhã numa padaria perto da rodoviária, voltava depois das duas. Nos dias em que a Bia amanhecia mais cansada, era Anísio quem ficava com ela até a vizinha chegar. Isso atrasava a saída para os serviços. Cliente ligando cobrando antes de ele botar o pé na rua. Teve um que ligou três vezes num dia só, um tal de Wanderlei, querendo saber se ele ia ou não ia, e Anísio respondeu seco. Depois passou o dia com aquilo na cabeça, remoendo. Com vergonha.

A ligação da imobiliária veio cedo. Casa na rua das Camélias, torneira da cozinha pingando fazia semanas, o dono vinha de Curitiba no fim de semana e queria aquilo resolvido. Pagamento em dinheiro, na hora, direto com o zelador. Anísio pegou sem pensar duas vezes, ajeitou a caixa de ferramentas no banco de trás e saiu ainda mastigando o resto do café.

A casa tinha cheiro de fechada. Mofo, maresia, madeira velha. Na parede da sala, um calendário de 2019 com uma foto de praia, ainda aberto no mês de junho. Em algum lugar da casa, uma geladeira velha zumbia, aquele zumbido que não desliga nunca, e Anísio ficou com aquilo no ouvido o resto do dia, sem saber por quê. Seu Osni esperava do lado de fora fumando, olhando o relógio, um cigarro que ele segurava entre o indicador e o médio, com a mão meio fechada, como quem esconde alguma coisa. Avisou que precisava trancar tudo antes do almoço porque o dono tinha ligado de novo cobrando alguma coisa, sempre alguma coisa. Antes de Anísio entrar, comentou meio de brincadeira que era bom não deixar peça velha de encanamento espalhada pela casa, que aquilo atraía bicho. Anísio riu sem vontade, o riso saindo torto por causa do dente, e seu Osni olhou para ele um segundo a mais do que precisava.

Ele gostava de abrir armário de pia. Gostava do jeito que a luz entrava por baixo e mostrava o encanamento inteiro, um mapa que só ele sabia ler. Naquele dia, porém, o mapa tinha uma peça que não devia estar ali. A torneira era de latão amarelado, com uma rachadura fina em meia lua bem na base, por onde a água escorria num fio constante. Ele parou o giro da chave de boca por um instante. Por um instante teve a impressão de que já tinha apertado aquela mesma porca com aquela mesma chave. Descartou a sensação. Mão de encanador repete movimento. Às vezes a memória inventa o resto.

Aquela meia-lua no latão. O jeito como a água escapava pela base. Tinha visto antes, numa casa perto da praça, dois ou três anos atrás, quando ainda trabalhava com o cunhado. O cunhado tinha ido embora depois do que aconteceu com o irmão de Marisa, e ninguém mais tocou no assunto. Anísio nem lembrava direito o que tinha acontecido. Lembrava da briga, lembrava de Marisa chorando, mas os motivos já tinham se misturado com outras coisas, outras brigas, e ele não sabia mais o que era verdade. Lembrou do cheiro da casa, parecido com esse. Só isso.

Trocou pela nova, de plástico reforçado, guardou a velha na caixa por hábito de não deixar lixo na casa do cliente. Recebeu o dinheiro combinado e foi embora pensando já no próximo compromisso. O calendário de 2019 ficou na cabeça dele sem motivo. Não pensou mais nisso.

Passou o resto do dia com a cabeça em outra coisa. Almoçou dentro do carro, entre um serviço e outro, um sanduíche de mortadela que comprou no posto e comeu devagar por causa do dente, mastigando do lado esquerdo, com cuidado. Só voltou para casa depois das seis, cansado demais para pensar em torneira nenhuma.

Na quinta à noite, quando voltou para casa, Bia estava na porta esperando ele. Queria mostrar uma coisa. Tinha aprendido a fazer estrela com elástico nos dedos. Mostrou, toda orgulhosa, e Anísio ficou olhando aquilo sem entender direito como aqueles dedos pequenos faziam aquilo. Ela tentou ensinar, mas ele não conseguiu, e os dois riram daquilo. Depois ele foi tomar banho.

Mais tarde, ainda naquela quinta, comprou a torneira nova para a própria casa. A velha da cozinha vazava havia meses, empurrada para o fim da lista porque conserto de casa própria sempre ficava para depois de todo o resto. Marisa já tinha reclamado duas vezes naquela semana, e na segunda vez falou num tom que não era o de sempre, um tom de quem está cansada de pedir a mesma coisa. Anísio não respondeu. Passou na loja perto da rodoviária porque estava no caminho de volta e não queria perder mais tempo escolhendo entre modelos. Escolheu a mais barata, lacrada, e só abriu a caixa em cima da mesa depois do jantar, com Bia já dormindo e Marisa assistindo televisão na sala.

O plástico branco cobria um núcleo. Ele só notou porque a peça pesava mais do que deveria para aquele tipo de torneira. Desmontou com uma chave de fenda, sem pressa, achando que fosse algum reforço de fábrica. Por baixo do plástico havia latão amarelado, gasto, com uma rachadura em meia lua na mesma posição exata das outras duas.

Ficou olhando aquilo por um tempo comprido, sentado à mesa da cozinha, sem tocar de novo na peça. O dente pulsava. Na parede em frente tinha uma mancha de umidade que ele vinha prometendo pintar desde o ano passado, uma mancha escura que subia do rodapé e parava mais o menos na altura da tomada. Ele olhou para a mancha. Olhou para a torneira. Não pensou nada de especial sobre nenhuma das duas.

Contou para Marisa no dia seguinte, de manhã, enquanto ela passava manteiga no pão. Ela ouviu sem parar o movimento da faca e disse que devia ser lote antigo, essas lojas empurram qualquer coisa. Fazia sentido enquanto ela falava. Anísio quis acreditar. A explicação durou até ela sair para o trabalho e ele ficar sozinho com a torneira aberta em cima da mesa, o núcleo de latão brilhando fosco sob a luz da manhã.

Levou o pedaço para seu Ivo, na ferragem da avenida, mais para ouvir alguma coisa que fizesse sentido do que por precisar de peça nova. Seu Ivo trabalhava ali desde os anos oitenta, tinha vendido torneira para quase toda casa da orla, uma época em que ainda conhecia os clientes pelo nome. Pegou o núcleo, virou entre os dedos grossos, ficou calado por um tempo maior do que uma resposta simple costuma levar. Disse só que já tinha visto modelo parecido, fazia muito tempo, e que aquela linha não se fazia mais. Devolveu o pedaço rápido demais, como quem larga alguma coisa quente. Antes de virar para o próximo cliente, ainda olhou para a porta dos fundos da loja. Depois já perguntava se Anísio ia levar o rolo de fita veda rosca ou não, olhando para o próximo cliente na fila do balcão. Antes de Anísio sair, ainda comentou que a pressão dele tinha subido de novo, que o médico tinha mandado cortar o sal, mas que comida sem sal não desce, e que a mulher dele tinha escondido o saleiro, e que ele tinha comprado outro e escondido no balcão, e ria sozinho daquilo. Anísio riu também, sem saber direito por quê.

Saiu da loja sem saber se tinha ficado mais tranquilo ou pior do que antes de entrar, o pedaço de latão de volta no bolso da jaqueta, batendo contra a perna a cada passo até o carro.

Quis se livrar do núcleo naquela noite. Colocou dentro de uma sacola plástica e atravessou o quintal até a lata de lixo perto do portão. No meio do caminho a sacola pareceu pesar mais na mão. O cheiro de maré vinha forte do outro lado da rua, onde a água tinha subido mais que o normal naquela semana. Anísio parou. Depois voltou para dentro. Guardou tudo no fundo do armário da área de serviço, atrás dos produtos de limpeza que quase nunca usava. Naquela noite, um cachorro magro apareceu no quintal. Anísio viu pela janela. O cachorro ficou um tempo parado, olhando para a casa, depois foi embora. Anísio não pensou nada sobre aquilo.

Depois daquilo evitou o assunto. Não comentou com os outros encanadores que conhecia. Também não voltou à casa da rua das Camélias para conferir se a torneira ainda estava lá, nem quis saber se seu Osni tinha notado alguma diferença. Quando a imobiliária ligou de novo, oferecendo serviço parecido numa casa na Riviera, Anísio ficou um tempo com o telefone na mão antes de responder. Inventou que estava sem agenda. Desligou. Ficou olhando para o telefone, como se ele fosse ligar de novo. Marisa notou o silêncio dele naqueles dias, perguntou uma vez se estava tudo bem no trabalho, e aceitou sem insistir quando ele disse que sim.

Numa dessas noites, deitado no escuro, Anísio pensou uma coisa sobre a Bia. Não chegou a terminar. Ficou acordado um tempo depois, com vergonha. Não sabia de quê.

Naquela sexta à noite, Bia piorou. A respiração ficou curta, o chiado subindo cada vez que ela tossia, e Marisa quis levar direto para a UPA. Anísio pediu para esperar até de manhã, quando pegaria o resto de um pagamento pendente e dava para completar o remédio certo, o de manutenção, sem depender do genérico do posto. Marisa disse que ele só pensava em dinheiro. Disse também que não era só ele que estava cansado, que ela também trabalhava, que ela também não dormia, e disse isso com uma raiva que não combinava com o momento, uma raiva acumulada de outras coisas que não tinham nada a residir com a filha. Anísio não respondeu. Pensou em dizer alguma coisa, uma coisa que ele nem sabia direito o que era, mas não disse. Sentou na beira da cama da Bia com a mão no peito pequeno dela, sentindo o ar entrar e sair em soluços curtos, e ficou ali até o chiado baixar um pouco, os olhos abertos no escuro muito depois de Marisa ter apagado a luz do corredor.

Foi beber água na cozinha perto da meia-noite. O som veio antes de ele acender a luz, uma gota batendo na cuba de metal com um timbre agudo que ele reconheceu antes mesmo de abrir os olhos direito. Se agachou e puxou a porta do armário embaixo da pia. A torneira nova estava fechada, o registro geral da casa também fechado, do jeito que ele mesmo tinha deixado ao instalar a peça dias antes. Girou o registro com mais força ainda, sentindo a vedação travar por completo contra a mão.

A gota continuou caindo no mesmo ritmo.

Ele tocou o líquido com a ponta do dedo. Estava frio e salgado, com o mesmo cheiro de maré baixa que sentira no quintal e na casa da rua das Camélias. Levou o dedo à boca. Era salgado mesmo. Cuspiu na pia.

Ficou parado ali, o dedo molhado, ouvindo a gota cair mais uma vez.

Não disse nada. Não chamou Marisa. Fechou o armário devagar, sem fazer barulho, e voltou para o quarto. Deitado de costas. O dente pulsava. Pensou no cachorro magro, sem saber por quê.

Da cozinha veio outra gota.

Anísio fechou os olhos.

Amanhã tinha consulta da Bia.

A Cadeira

A Cadeira
Fora de temporada
Tadeu Everton Zamoiski
Valdecir acordava antes da lotérica abrir. Cinco e quarenta em Matinhos já tem claridade, mas ainda tem aquela friagem que entra pela fresta da janela. Ele morava nos fundos da Juscelino, no Tabuleiro, numa casa de duas peças com a mulher e com a caixa de ferramentas encostada na geladeira porque não tinha outro lugar. A mulher passava a manhã na cadeirinha baixa de madeira na cozinha, descascando batata. O remédio novo era cento e vinte reais. A parcela da moto, uma CG 125 que ele usava para fazer as rondas, vencia dia dez. Já era dia oito.

Ele cuidava de sete casas de temporada entre Matinhos e Caiobá. Ganhava por faxina e por manutenção. Tirar mofo, passar veneno para barata, ligar a geladeira que fica meses desligada, ver se a caixa d'água não criou limo, cortar mato. Em Caiobá o sal come tudo. Dobradiça, parafuso, portão. Ele andava com um vidro de WD na mochila e com um rodo pequeno que não largava.

A casa da Rua Jacarandá, 212, era da Dona Lourdes de Curitiba. Ela ligou na terça.

"Valdecir, vou ter que alugar no fim de semana. O senhor pode dar uma geral. O pessoal entra na sexta."

Ele anotou no caderno de capa preta todo manchado de graxa. Casa 212. Limpeza completa. A Dona Lourdes pagava atrasado mas pagava. Sem aquela casa, seriam quatrocentos reais a menos no mês.

Chegou lá às oito. A rua ainda estava úmida da noite. A casa tinha dois andares, reboco grosso e um portão de ferro que deixava a mão laranja de ferrugem. Cheiro de casa fechada, mistura de mofo com areia fina. Abriu as janelas da frente e a porta dos fundos para ventilar. Ligou o disjuntor.

A sala estava normal. Capa nos sofás, marca de sol no piso. Na cozinha, copos virados. Começou a varrer. Quando foi para a área pegar o balde, viu a cadeira.

Era uma cadeira de plástico branca, daquelas de bar, com a perna traseira um pouco torta. Estava no meio da sala, em cima do tapete que ele ainda nem tinha aspirado. E estava molhada. Não úmida. Molhada mesmo, com água acumulada no assento, escorrendo pelas pernas e fazendo uma poça escura no tapete.

Ele parou com a vassoura na mão. Olhou para o teto. Sem goteira. Olhou para as janelas. Fechadas. Encostou a mão na água. Fria, com areia grossa no fundo, aquela areia de praia que arranha. Cheirava forte a maresia.

Pensou primeiro em alguém que tinha entrado ali. Pegou o celular e mandou áudio.

"Dona Lourdes, cheguei aqui na casa. Tem uma cadeira no meio da sala cheia de água. A senhora emprestou para alguém esses dias."

Ela respondeu uma hora depois, enquanto ele esfregava o banheiro de cima.

"Não, Valdecir. Ninguém foi. Essa cadeira nem é minha. Minhas cadeiras são as de ferro da área. Pode tirar de lá."

Ele voltou para a sala. A cadeira continuava pingando. Pegou pelas costas, levou para a garagem e encostou atrás das quatro cadeiras de ferro. Lavou as mãos no tanque. A água deixou um cheiro de peixe e lodo na pele que o sabão não tirou de primeira.

Terminou a limpeza às três. Varreu a garagem de novo, tirou foto e mandou para a Dona Lourdes. Fechou tudo.

Na quarta ele passou na lotérica para tentar pagar metade da parcela. O sistema estava fora do ar. Na volta, passou na Jacarandá só para conferir o portão.

Abriu. Da calçada já viu a porta da frente trancada como tinha deixado. Entrou.

Ainda havia cheiro de produto de limpeza. E no meio da sala, exatamente onde tinha deixado, estava a cadeira de plástico branca de novo.

Agora seca. Completamente seca. Mas com areia nos quatro pés, fazendo quatro círculos escuros no tapete claro que ele tinha aspirado.

Ele sentiu raiva porque o tapete estava limpo e agora estava sujo de novo e a Dona Lourdes ia achar que ele não tinha feito o serviço.

Deu a volta na casa inteira. Porta dos fundos trancada por dentro, com a tramela que só fecha por dentro. Janelas fechadas. Olhou o muro dos fundos. Um metro e meio, com caco de vidro em cima.

Pensou nos moleques da rua. Um deles podia ter pulado o muro. Moleque pula muro para pegar bola, para pegar manga.

Ficou alguns segundos parado na sala com a cadeira na frente. Era isso. Tinha que ser.

Pegou a cadeira e jogou no quintal dos fundos, deitada de lado, perto do muro.

Tirou foto do tapete e mandou para a Dona Lourdes.

"Dona Lourdes, a cadeira voltou para dentro da sala. Deixei no quintal."

Ela respondeu seca.

"Valdecir, só o senhor tem a chave. Deixa no quintal e pronto."

Cortou o mato da frente mais curto do que precisava. Antes de ir embora, foi na garagem contar as cadeiras de ferro. Quatro. Foi no quintal ver se a branca ainda estava lá deitada.

Não estava mais. No lugar onde tinha deixado, tinha só a grama amassada e um pouco de areia úmida grudada, mesmo sem ter chovido.

Na quinta choveu o dia inteiro, aquela chuva fina de Matinhos que enferruja tudo em dois dias. Ele não tinha serviço na Jacarandá, mas passou de moto na frente na volta do mercado. O quintal estava encharcado, cheio de poças. A marca onde ele havia deixado a cadeira tinha desaparecido. A cadeira não estava lá.

Na sexta os inquilinos entraram. Família de Ponta Grossa. Ele entregou a chave na imobiliária e não foi até a casa.

No sábado de manhã o telefone tocou. Era o rapaz da imobiliária.

"Seu Valdecir, o pessoal da Jacarandá reclamou que tem uma cadeira de plástico no meio da sala, cheia de água do mar. A Dona Lourdes está brava."

Levantou da cama ainda de bermuda.

"Eu limpei. Essa cadeira não é de lá."

"Então dá um pulo lá."

Chegou de chinelo, camisa amassada. A família estava na área fazendo churrasco. O homem veio falar com ele na garagem.

"Desculpa aí, mas a gente chegou e essa cadeira estava no meio da sala. Minha filha sentou e ficou toda molhada."

Valdecir entrou na sala. A cadeira estava lá, no centro do tapete. Molhada de novo, escorregando muito mais que da primeira vez. O assento cheio de água turva, quase preta, com areia grossa e um pouco de lodo. No meio da água turva havia duas marcas pequenas de pés descalços.

Ele não falou nada. O barulho da água pingando no tapete era alto. Pegou a cadeira com as duas mãos. A água fria escorreu pelo braço.

Levou para fora, atravessou a rua e jogou na caçamba de entulho da esquina da Rua das Flores. A cadeira caiu no fundo. Ele ainda ouviu o plástico bater duas vezes antes de parar.

Voltou, pegou o rodo e secou o tapete na frente da família.

"Essa cadeira não é da casa", ele disse. "Se aparecer de novo, me liga."

No domingo não trabalhou. Na segunda de manhã a Dona Lourdes mandou mensagem dizendo que os inquilinos tinham ido embora e que a casa estava boa, mas que tinha achado areia demais na sala. Ia descontar cinquenta reais da faxina para pagar a lavagem do tapete.

Cinquenta reais. Ele ficou olhando para a mensagem. Era quase metade do remédio. Respondeu que não era justo. Ela não respondeu.

Na segunda à tarde foi até a casa buscar a extensão laranja que tinha esquecido na área. Abriu o portão. A casa vazia, ainda com cheiro de churrasco. Entrou. A sala estava limpa.

No meio da sala não tinha cadeira nenhuma.

Respirou fundo e foi para a área pegar a extensão. A porta da lavanderia, que ele tinha certeza que tinha fechado, estava entreaberta.

Empurrou com o pé.

Na lavanderia, encostada na parede, estava a cadeira de plástico branca. Seca. Virada para o azulejo.

Valdecir ficou olhando. A cadeira estava exatamente no canto onde ele costumava sentar para fumar quando terminava de lavar o quintal. No mesmo lugar onde ele deixava o balde virado para servir de banco.

Virou as costas, fechou a casa e foi embora de moto, mais rápido do que costumava andar naquela rua esburacada.

Chegou em casa no fim da tarde. Deixou a bota na área e entrou de meia.

A mulher estava na pia. Olhou para ele.

"Valdecir..."

Ela apontou para o chão.

No lugar da cadeirinha baixa de madeira, estava a cadeira de plástico branca. Molhada. A água escorria pelas quatro pernas e se espalhava pelo cimento queimado. Havia areia grossa em volta.

"Eu tirei a minha daqui agora", ela disse.

Valdecir não respondeu. Ficou parado na entrada da cozinha. Estava de meia. A água já tinha chegado à ponta do pé dele.

Olhou para the cadeira branca.

A água continuava pingando do assento.

No lugar onde ficava a cadeirinha de madeira, havia quatro marcas molhadas no cimento.

Quarenta Reais

Quarenta Reais
Tadeu Everton Zamoiski

A mancha no teto tinha crescido desde o inverno passado. Silvia apontou na época, e ele disse que ia resolver. Não resolveu. Agora ocupava um canto inteiro do quarto, uma ilha escura que ficava mais visível quando a luz da manhã entrava pela janela. Tinta, massa corrida, impermeabilizante. Duzentos e cinquenta, talvez trezentos. Jorge acordou às cinco e vinte, antes do despertador, e ficou olhando para aquilo. Silvia dormia de costas, o cobertor puxado até o ombro. Ele pensou, sem querer, que ela podia ter feito os exames em Paranaguá, que era mais barato. Não disse nada. Mas pensou.

Na quarta anterior, ela tinha feito os exames no posto de Matinhos. O resultado saía na sexta. Nada grave, disse o médico. Mas era preciso investigar. Jorge não perguntou o que significava investigar. Trezentos e cinquenta era o preço da consulta com o especialista. Ele fez a conta de cabeça. Seis dias. Seis dias que ele não tinha.

Levantou sem fazer barulho. Vestiu a jaqueta com o rasgo no cotovelo, a que Silvia falava em costurar há duas semanas, e saiu. O ar de Caiobá em junho era pesado, cheio de maresia e de uma garoa fina que não molhava, só deixava tudo com aquela sensação de coisa que não seca. As calçadas rachadas brilhavam sob os postes. Passou pela Lotérica fechada, pelo mercado que só abria às sete, pegou a bicicleta no ponto de sempre. O quadro estava enferrujado. As rodas giravam.

Na esquina da Atlântica com a Curitiba, um homem de boné mexia numa caçamba de entulho, procurando alguma coisa. Jorge passou direto. Não sabia quem era. Talvez fosse o pedreiro que estava reformando a casa da esquina. Ou o irmão do seu Anselmo, que morreu no ano passado.

A imobiliária ficava na Avenida Atlântica, numa sala com balcão de fórmica e um ar-condicionado quebrado que ninguém consertava. Dona Cida chegava às nove, mas Jorge tinha a chave. Naquele dia, havia um bilhete na porta. "Jorge, precisamos conversar sobre a redução. Me liga." Leu duas vezes, dobrou o papel, guardou no bolso. Redução. Todo ano era a mesma coisa. Em junho, o movimento caía. O serviço passava de três para dois dias por semana. Menos casas, menos dinheiro.

Pegou a lista na gaveta. Sete imóveis, todos de veranistas que passavam o verão e deixavam as chaves com Dona Cida. A maioria ficava fechada de abril a novembro. O trabalho era simples. Passar duas vezes por semana, abrir as janelas, verificar infiltração, mofo, vazamento, trancar tudo de novo. Jorge fazia isso há sete anos. Nunca tinha acontecido nada.

A primeira casa era na Rua Londrina, construção antiga de madeira, portão que rangia. Jorge abriu o cadeado, entrou, fez o de sempre. Janelas, banheiro, teto da cozinha. Nada. Trancou e foi para a próxima.

A segunda era um sobrado na Rua Alvorada, perto da praia de Caiobá. Três quartos, os donos eram um casal de Curitiba que só aparecia em janeiro. Jorge subiu a escada externa, abriu a porta da frente, sentiu o cheiro de sempre. Madeira velha e mofo. Abriu as janelas, verificou os quartos, o banheiro, a cozinha. Tudo em ordem. Desceu, trancou a porta da frente, foi até os fundos verificar a porta traseira, que dava para um quintal pequeno com um limoeiro.

A porta dos fundos estava destrancada.

Jorge parou. Lembrava de ter trancado na quarta-feira. Lembrava do clique da chave. Mais talvez não tivesse trancado. Talvez tivesse se distraído. Acontecia. Girou a chave, sentiu o mecanismo travar, puxou para confirmar. Estava trancada. Ficou olhando para a chave por um instante. Alguma coisa incomodava, mas ele não sabia o quê. Foi embora.

Na sexta, voltou. A porta dos fundos estava destrancada de novo. Ficou parado na soleira, com a chave na mão. Tinha certeza de que havia trancado. Dormia mal, acordava às três com a cabeça cheia de contas, talvez estivesse esquecendo coisas. Trancou, testou, foi embora.

No sábado, Silvia perguntou se ele tinha falado com Dona Cida sobre a redução. Ele disse que não. Ela disse que a consulta era na terça. Ele disse que sabia. Ela disse que não parecia. Ele não respondeu. Ficaram os dois na sala, vendo televisão, sem falar. Em algum momento, ela foi dormir. Ele ficou.

Na segunda, comprou uma fechadura nova numa loja de ferragens da Rua Curitiba. Quarenta reais. O dinheiro saiu do que ele tinha separado para a consulta. Instalou com cuidado. Testou. Na quarta, a porta estava destrancada.

O vizinho viu. Ligou para o dono. O dono ligou para Dona Cida. Dona Cida ligou para Jorge.

"Jorge, o homem está querendo saber por que a porta da casa dele fica aberta. Você tem alguma explicação?"

Ele ficou em silêncio. Do outro lado, Dona Cida esperava.

"Eu troquei a fechadura", ele disse.

"E?"

"Não adiantou."

Dona Cida ficou quieta um momento. Jorge ouviu o barulho de uma cadeira, alguém falando em segundo plano. "Olha, Jorge, eu não sei o que está acontecendo. Mas o homem está pensando em chamar outra pessoa. Você entende?"

He entendeu. Se perdesse aquela casa, perderia parte do pagamento. E se perdesse o pagamento, não teria os trezentos e cinquenta. Teria ainda menos, porque quarenta já tinham ido embora na fechadura.

Na quinta, Jorge foi até a casa. Abriu a porta da frente, entrou, ficou parado na sala. Tudo como ele havia deixado. Cheiro de mofo, móveis cobertos com lençóis, poeira no chão. Foi até os fundos, abriu a porta, olhou para o quintal. O limoeiro, a grama alta, o muro de concreto. A chave que ele havia deixado na fechadura nova não estava mais lá. Não procurou. Trancou com a chave reserva, puxou, sentou-se no chão da cozinha para esperar.

O chão estava frio. A casa ficava mais escura a cada meia hora. Em algum momento, ele ouviu o mar. Em outro, um cachorro latindo longe. Jorge ficou olhando para o teto da cozinha. Tinha uma mancha parecida com a do quarto dele, só que menor. Pensou que, aos vinte anos, tinha trabalhado numa oficina de bicicletas na Rua XV, em Curitiba. O dono, seu Nelson, dizia que ele tinha mão boa para consertar coisas. Depois seu Nelson morreu, a oficina fechou, e Jorge voltou para o litoral. Nunca mais mexeu em bicicleta que não fosse a dele.

Perto das cinco, ouviu um estalo. Veio da porta dos fundos. Um som pequeno, seco, como quando a trava se ajusta no batente. Jorge levantou a cabeça. Olhou para a porta. A porta continuou trancada. Ele esperou mais um pouco. Nada. Sentou-se de novo. Quando escureceu de vez, levantou para ir embora.

Enfiou a mão no bolso para pegar a chave reserva. Não estava lá. Conferiu os dois bolsos da calça, depois o bolso da jaqueta. Nada. Foi até a porta dos fundos, olhou para a fechadura. A chave reserva estava lá, do lado de dentro. Não lembrava de ter deixado. Tirou a chave, guardou no bolso, saiu.

Em casa, Silvia estava na mesa da cozinha, com os papéis do posto espalhados à frente. Ergueu os olhos quando ele entrou.

"Conseguiu falar com alguém sobre o dinheiro?"

"Ainda não."

Ela assentiu e voltou a ler os papéis. Jorge pendurou a jaqueta no encosto da cadeira. Ficou parado um instante, olhando para as costas dela. Quis dizer alguma coisa. Não disse.

Antes de ir para a cama, olhou para o teto do quarto. A mancha parecia maior. Não comentou. Deitou. Ficou olhando para o teto no escuro. Em algum momento, sentiu a mão de Silvia no braço dele. Ela não disse nada. Só deixou a mão ali. Ele não se mexeu.

Na manhã seguinte, acordou às cinco e vinte. Vestiu a mesma jaqueta, calçou as botas, foi até a cozinha preparar o café. Antes de acender o fogão, viu. A porta da cozinha estava destrancada. A chave estava na maçaneta, do lado de dentro. Abriu a porta. O quintal de casa era pequeno, um pé de mexerica, um tanque de lavar roupa. A grama estava molhada de orvalho. Nada mais. Fechou a porta, trancou, puxou. Estava trancada.

Silvia apareceu na cozinha, ainda de camisola.

"Você está bem?"

"Estou", ele disse. "A fechadura está meio dura."

Ela olhou para ele por um instante. Olhou para a mão dele, que ainda estava no bolso da jaqueta. Jorge percebeu. Tirou a mão do bolso, mas era tarde.

"O que você está carregando aí?"

"Nada."

Ela não insistiu. Foi preparar o café. Jorge ficou na porta, olhando para o quintal. A roupa no varal balançava com o vento.

Ele trancou a porta de novo, pela segunda vez. Ficou parado na cozinha, com a chave da casa na mão. Olhou para a porta. Olhou para a chave. Depois pegou a chave da Rua Alvorada, que ainda estava no bolso da jaqueta, e encostou na fechadura da porta dos fundos de casa. Só encostou. Não tentou girar. Ficou com a chave na mão, sem fazer nada, por um tempo que não soube medir.

Depois guardou a chave de novo no bolso e saiu para trabalhar. No caminho, enfiou a mão no bolso para pegar a chave da bicicleta. Os dedos encontraram o metal. A mão ficou molhada. He não olhou. Continuou pedalando.