sábado, 12 de setembro de 2026

O QUILÔMETRO QUE NÃO EXISTE

O QUILÔMETRO QUE NÃO EXISTE
Ou: A estrada devolve o que nunca foi entregue

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Há um posto de combustível na BR-277, entre Curitiba e Paranaguá, onde o frentista se recusa a olhar para o retrovisor dos carros que param depois da meia-noite.
Eu sei disso porque fui esse frentista. Não por muito tempo. O suficiente para aprender que há coisas que a neblina da Serra do Mar não esconde, ela revela.
Naquela época eu morava em Curitiba, no Portão, num apartamento pequeno demais para mim e para a ausência de minha irmã. Marina havia desaparecido em setembro, numa terça-feira, depois de pegar a BR-277 sentido litoral. A polícia encontrou o carro dela no acostamento, perto do km 64, porta aberta, chave na ignição, tanque cheio. Nenhum sinal dela. Nenhuma pegada. Nenhuma explicação.
O caso esfriou em três semanas. Eu não esfriei.
Antes de sumir, Marina tinha o hábito de me ligar de madrugada. Não dizia nada importante. Falava do trabalho, do trânsito, de um filme que tinha visto. Eu atendia com sono, respondia monossílabos, desligava. Na última ligação, três dias antes do desaparecimento, ela disse uma coisa que só fui lembrar meses depois:
— Você já sentiu que a estrada é mais longa na volta?
— O quê?
— Nada. Esquece. Boa noite, João.
Foi a última vez que ouvi a voz dela.
Comecei a trabalhar no posto porque ele ficava a poucos metros de onde o carro foi achado. Era um turno da noite, das dez às seis, e o posto tinha aquele cheiro específico de diesel misturado com café velho e umidade de serra. As prateleiras da loja de conveniência rangiam com o vento que descia da mata. Às vezes, caminhões passavam tão perto que as janelas vibravam, e eu pensava que a estrada estava respirando.
O gerente, um homem chamado Nelson, me contratou sem muitas perguntas. Disse que ninguém queria o turno da noite, que o último frentista havia ido embora sem avisar e que, se eu aguentasse um mês, poderia ficar. Havia algo de cansado nos olhos dele, como se tivesse visto coisas que preferia não nomear.
— Só uma regra — disse ele, no primeiro dia. — Depois da meia-noite, não olhe para o retrovisor dos carros que param. Nunca.
Eu ri. Achei que fosse piada.
Ele não riu.
Nas primeiras semanas, nada aconteceu. Eu abastecia carros, verificava óleo, vendia café para caminhoneiros que mal falavam. A neblina subia da serra por volta das duas da manhã e engolia tudo, as luzes do posto, os postes da rodovia, a linha do horizonte. O mundo ficava reduzido a um círculo de asfalto molhado e ao zumbido das lâmpadas fluorescentes.
Foi numa dessas noites que vi o primeiro.
Um carro prata, modelo antigo, parou na bomba 3. Desci do balcão, sentindo o cheiro de terra molhada que a neblina trazia. O motorista não desceu. Bati no vidro. Nada. Bati de novo.
Então ele abaixou o vidro, lentamente, e pediu para completar o tanque. A voz era rouca, distante. Enquanto a bomba funcionava, olhei pela janela traseira, por reflexo, e vi o retrovisor.
Havia alguém no banco de trás.
Uma mulher de cabelos escuros, rosto virado para o lado. O coração disparou. Pensei em Marina. Mas, quando o motorista pagou e foi embora, olhei de novo, e o banco estava vazio. Apenas o banco. Apenas o vazio.
Contei a Nelson no dia seguinte. Ele me olhou por um longo tempo.
— Você olhou para o retrovisor.
— Olhei.
— Então já era. — Ele suspirou. — Vai começar agora.
— O quê?
— Você vai começar a ver. E depois vai começar a procurar. E depois... — Ele parou. — Depois não sei. Nunca ninguém voltou para me contar.
Pedi demissão naquela manhã. Não fui embora.
O objeto apareceu pela primeira vez três dias depois. Uma concha. Pequena, branca, com uma espiral perfeita. Estava no balcão da loja, ao lado da máquina de café, como se alguém a tivesse deixado ali de propósito.
Conchas não aparecem em postos de combustível na serra. Não há praia ali. Só mata, pedra, neblina.
Guardei-a no bolso. Não sei por quê.
Naquela noite, sonhei com Marina. Estávamos em Matinhos, na praia fora de temporada, o vento frio cortando o rosto, a areia úmida grudando nos pés. Ela ria de algo que eu não conseguia ouvir. O mar estava calmo demais. E então apontou para o horizonte e disse:
— Não é o mar que devolve. É a estrada.
Acordei com o cheiro de maresia na boca.
A segunda concha apareceu no dia seguinte. Mesma forma, mesmo tamanho. Desta vez, estava dentro do meu carro, no banco do passageiro, como se alguém a tivesse colocado ali enquanto eu trabalhava.
Comecei a anotar tudo. Horários, placas, rostos. Mas as anotações não faziam sentido no dia seguinte. Palavras que eu não lembrava de ter escrito. Nomes que não conhecia. Numa página, no meio de números de placa, encontrei uma frase que não era minha, escrita com uma letra que eu não reconhecia:
Ela ainda está no carro.
O terceiro aparecimento foi diferente.
Eu estava no km 64, no acostamento, tentando reconstruir os últimos minutos de Marina. A neblina estava tão densa que eu mal via a mão na frente do rosto. Foi quando senti algo sob o pé.
Uma concha. Igual às outras. Mas desta vez havia algo escrito nela. Letras pequenas, arranhadas na superfície, como se alguém tivesse usado uma unha.
ELA NÃO SAIU DO CARRO.
O sangue fugiu do meu rosto. Olhei ao redor, procurando alguém. Nada. Apenas neblina e o som distante de um caminhão subindo a serra.
Quando olhei de novo para a concha, as letras haviam mudado.
VOCÊ NÃO SAIU DO CARRO.
Passei a frequentar os arquivos da polícia. As delegacias de Morretes, de Paranaguá, de Curitiba. Os relatórios não diziam muito. Sete carros abandonados na mesma região em cinco anos. Motor frio, tanque cheio, portas abertas, nenhum vestígio. Nenhum motorista encontrado.
Foi numa dessas tardes, folheando um relatório de acidente antigo, que encontrei a primeira coisa que não fazia sentido. Uma ocorrência de 2019, colisão sem vítimas fatais, na BR-277, sentido Paranaguá. O documento listava os marcos da via: km 60, km 62, km 63, km 65, km 67. Passei os olhos duas vezes. Três. O km 64 não estava lá. Não havia sido pulado por erro de digitação, os números estavam em sequência, e o 64 simplesmente não existia entre eles. Como se a rodovia, naquele trecho, tivesse sessenta e três quilômetros, e depois sessenta e cinco.
Fechei o arquivo. Procurei outro. Outro. Todos os relatórios daquele trecho, dos últimos dez anos, listavam os mesmos marcos. Nenhum mencionava o km 64. Nenhum.
Mas o carro de Marina havia sido encontrado no km 64. A polícia havia escrito isso no laudo. Eu havia lido o laudo. Eu havia estado no km 64. Havia estacionado no acostamento do km 64. Havia sentido a neblina do km 64 no rosto.
A menos que não houvesse km 64. A menos que nunca tivesse havido.
Setembro é o mês que não termina.
Fechei o arquivo. Não voltei mais lá.
A lembrança veio numa noite de chuva, enquanto eu dirigia de volta a Curitiba pela BR-116. Marina e eu éramos crianças, estávamos em Morretes, visitando nossos avós. Havia um rio perto da casa deles, e ela gostava de ficar na margem, olhando a água.
— Você lembra daquele dia? — perguntei a ela, no telefone, semanas antes do desaparecimento.
— Que dia?
— O dia do rio. Quando você caiu.
Silêncio.
— Eu nunca caí no rio, João.
— Caiu, sim. Eu te puxei. Você estava molhada, chorando.
— João... — A voz dela ficou estranha. — Eu nunca caí nesse rio. Nunca.
Mas eu lembrava. Lembrava da água fria, do barulho, do peso do corpo dela. Lembrava de tudo.
Ou achava que lembrava.
Voltei ao posto. Nelson não estava mais lá. Um homem mais jovem ocupava o balcão, com olheiras profundas e um olhar que evitava o meu.
— O Nelson? — disse ele. — Nunca ouvi falar.
— Ele trabalhou aqui. Gerente. Uns meses atrás.
— Não. — O homem balançou a cabeça. — Eu sou o gerente há dois anos. Nunca teve outro.
Saí de lá com o estômago embrulhado. Dirigi até o km 64. Ou até onde o km 64 deveria estar. Passei o km 63. Depois o km 65. Duas vezes. Três. Não havia placa entre eles. Não havia acostamento. Não havia nada além de asfalto molhado e neblina, e um silêncio que parecia ter sido colocado ali de propósito, como uma tampa sobre um buraco.
Estacionei onde achei que era o lugar. A neblina estava subindo.
E então vi o carro.
Prata. Modelo antigo. Parado no acostamento que não existia. Porta aberta. Chave na ignição.
Dentro, no banco do passageiro, havia uma concha.
Peguei-a. Havia algo escrito.
VOCÊ ESTÁ AQUI DESDE SETEMBRO.
O mundo girou. Olhei para minhas mãos. Para o carro. Para a estrada. Tentei lembrar da última vez que havia saído do posto. Tentei lembrar de ter ido para casa. Tentei lembrar do meu apartamento. Tentei lembrar da minha cama. Tentei lembrar. Tentei. Tentei.
Não havia nada depois de setembro. Setembro. Setembro. O posto. A neblina. A estrada. Setembro.
Minhas pernas se moveram antes que eu pudesse decidir. Quando percebi, estava sentado no banco do motorista. A chave estava na ignição. O tanque, cheio. O volante, frio sob as mãos.
Olhei para o retrovisor.
Havia alguém no banco de trás. Uma mulher de cabelos escuros. O rosto virado para o lado. Eu conhecia aquele rosto. Eu não conhecia aquele rosto.
Ela virou.
E sorriu.
Na manhã seguinte, a polícia encontrou um carro abandonado no km 64 da BR-277. Prata, modelo antigo. Porta aberta. Chave na ignição. Tanque cheio. Motor frio. Nenhum vestígio.
Nenhum sinal do motorista.
No banco do passageiro, havia uma concha.
Pequena, branca, com uma espiral perfeita.
Dentro dela, gravado com unha, um nome que ninguém reconheceu.
JOÃO.
O laudo registrou o local como km 64. O relatório anterior, arquivado no mesmo dia, não mencionava esse quilômetro.

A ROTA DO NUNCA

A ROTA DO NUNCA
O Lugar Onde Ninguém Chega Sozinho

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

 Vilmar conhecia cada curva da Graciosa tão bem quanto conhecia as próprias mãos. E as mãos, ultimamente, tremiam mais do que deviam.
Tinha cinquenta e nove anos e trinta e dois de estrada, subindo e descendo a serra transportando banana, farinha, madeira, palmito, caixas de fruta — o que aparecesse. Aprendera a dirigir ali antes mesmo de aprender a desconfiar da estrada. Reconhecia as curvas pelo tempo que levava para vencê-las, os trechos onde a água escorria sobre o paralelepípedo, as árvores inclinadas sobre o asfalto e até o cheiro da mata quando começava a chover.
O caminhão era um Mercedes 710 azul, antigo, desbotado pelo sol e pela maresia. Vilmar o chamava de Fiel.
Nunca o deixara na mão.
Nem naquela noite de 1998, em que a neblina desceu tão espessa que ele dirigiu durante quatro horas sem enxergar mais do que alguns metros à frente. Naquela vez, guiou-se pela memória. Os pneus pareciam conhecer o caminho melhor do que os olhos.
No retrovisor pendia um terço de contas de madeira.
Iracema o pendurara ali numa manhã de sol, quando o caminhão ainda tinha pintura nova e os dois ainda faziam planos para quando ele parasse de trabalhar.
— Se você morrer, quero que seja com isso balançando diante dos olhos — dissera ela.
Vilmar rira.
— Belo incentivo.
— É para você lembrar de que tem alguém esperando.
Iracema morreu numa terça-feira de agosto.
Aneurisma.
Foi o que disseram.
Rápido demais para despedidas, rápido demais para perguntas.
Vilmar não estava em casa; estava na estrada. Quando chegou a Morretes, havia sete chamadas perdidas no celular.
O terço continuou pendurado no retrovisor.
Dezenove anos depois, ainda não tivera coragem de tirá-lo.
♦ ♦ ♦
Naquela quarta-feira, 14 de junho, a neblina se formou antes das dez da noite.
Vilmar saiu de Morretes com o Fiel carregado de banana com destino a Matinhos. O rádio funcionou por alguns minutos, depois começou a chiar. Ele o desligou.
A estrada estava vazia.
A mata parecia mais próxima do que de costume.
No quilômetro 12, havia um homem no acostamento.
Magro. Casaco escuro. Uma das mãos no bolso; a outra levantada, com o polegar para cima.
Vilmar reduziu a velocidade.
Não pensou.
Durante trinta e dois anos aprendera que certas coisas se faziam sem pensar. Parar para alguém na estrada era uma delas.
O homem abriu a porta e entrou.
— Boa noite.
— Boa noite.
Vilmar voltou a acelerar.
— Vai até onde?
— Matinhos.
— Suba então.
O homem fechou a porta.
Durante alguns minutos, só se ouvia o motor e o ruído dos pneus sobre a estrada úmida.
Vilmar olhou de relance para o passageiro.
Rosto comum. Cabelo escuro. Olhos claros.
Não parecia jovem nem velho. Era o tipo de rosto que a memória guardaria mal.
— O senhor faz essa rota há muito tempo? — perguntou o homem.
— Trinta e dois anos.
— Muito tempo.
— É.
O homem olhou para a frente.
— Deve conhecer cada curva.
— Conheço.
— Mesmo no escuro?
Vilmar sorriu de lado.
— Principalmente no escuro.
Passaram por uma curva fechada. Depois outra.
Havia algo naquela conversa que lhe parecia antiga. Não exatamente familiar, mas antiga — como uma frase ouvida muitos anos antes e depois esquecida.
— Já deu muitas caronas? — perguntou o homem.
— Bastantes.
— E todos chegam ao destino?
Vilmar tirou os olhos da estrada por um instante.
— A maioria.
O homem assentiu.
— A maioria.
No retrovisor, o terço balançava.
Vilmar tornou a olhar para a estrada.
As contas de madeira brilhavam.
Franziu a testa. O terço estava úmido. Não muito — apenas uma película de água sobre as contas, como se alguém tivesse soprado sobre elas.
Passou a mão pelo rosto. A cabine estava quente. Os vidros estavam fechados.
— Está sentindo frio? — perguntou o homem.
— Não.
— Eu estou.
Vilmar apertou o volante.
— Falta muito para Matinhos?
O passageiro sorriu.
— Depende.
— De quê?
— De onde o senhor decidir parar.
♦ ♦ ♦
No quilômetro 23, Vilmar perguntou:
— Será que já nos conhecemos?
O homem demorou a responder.
— O senhor acha que não?
Vilmar olhou para ele. Dessa vez, o passageiro virou o rosto; os olhos claros pareciam quase sem cor.
— Sua esposa ainda o espera? — perguntou.
Vilmar sentiu um aperto no peito.
— Minha esposa morreu.
— Eu sei.
— Como sabe?
O homem olhou para o retrovisor, para o terço.
— Foi ela que deixou isso aqui.
Vilmar ficou alguns segundos sem responder.
— Faz quanto tempo?
— Dezenove anos.
— Dezenove?
— É.
O homem passou o dedo pelo vidro da janela, sem deixar marca.
— Tem certeza?
Vilmar apertou o volante com força.
— Tenho.
— Então está quase na hora.
— Hora de quê?
Nenhuma resposta.
O motor continuou a trabalhar. A neblina adensou-se.
Vilmar percebeu que já deveria ter passado por um ponto que conhecia bem: ali, à esquerda, ficava uma árvore enorme com o tronco dividido em dois. Esperou. A árvore não apareceu. Continuou dirigindo. Esperou mais. Nada.
No retrovisor, o terço começou a pingar. Uma gota caiu. Depois outra.
Olhou para o assoalho da cabine. Havia uma pequena mancha escura ao lado do banco do passageiro.
— Seu casaco está molhado?
O homem olhou para baixo.
— Não.
— Então de onde vem essa água?
O passageiro ergueu os olhos.
— O senhor sabe.
Vilmar pisou no freio com força. O caminhão parou.
A neblina envolveu a cabine. Por alguns instantes, não havia estrada, árvores nem céu — só branco.
Tentou abrir a porta. A maçaneta não se moveu. Tentou de novo. Nada.
— Abra a porta.
O homem permaneceu imóvel.
— Quero descer.
— Ainda não.
— Abra a porta!
— O senhor sempre pede isso.
Vilmar virou-se para ele.
— Como?
— Sempre.
O motor engasgou. Uma vez. Duas.
No assoalho, a mancha de água crescia. Vilmar olhou para os próprios pés: a água já cobria os sapatos.
— Não...
O homem não parecia assustado.
— O senhor nunca gostou desta parte.
— De que parte?
O passageiro não respondeu.
A água subiu até os tornozelos e depois até as pernas. Vilmar tentou alcançar a janela; o vidro não se moveu. Tentou gritar, mas a água já chegava à cintura.
No retrovisor, o terço balançava. As contas batiam umas nas outras num som pequeno e regular — como dentes batendo de frio.
Respirou fundo. A água chegou ao peito. E, antes de cobrir-lhe a boca, ouviu uma voz. Não era a do passageiro. Era a de Iracema, bem perto:
— Você demorou.
Vilmar abriu a boca para responder. A água entrou.
♦ ♦ ♦
Abriu os olhos.
Estava dirigindo. A estrada estava seca. O sol começava a despontar atrás das montanhas, tingindo de laranja o céu entre as árvores. O rádio tocava Evidências.
Conhecia aquela música. Não lembrava de a ter ligado.
Olhou para o banco ao lado: vazio.
Parou o caminhão. Ficou alguns minutos com as mãos sobre o volante. Depois olhou para o retrovisor: o terço estava seco.
Respirou fundo, pegou o celular e viu nove chamadas perdidas — todas do mesmo número desconhecido. Ligou de volta. Chamou três vezes. Uma mulher atendeu:
— Alô?
Vilmar não respondeu.
— Alô?
— Foi você que me ligou.
— O senhor é o Vilmar?
— Sou.
Houve um breve silêncio.
— Meu pai falava muito no senhor.
O estômago de Vilmar se contraiu.
— Quem é seu pai?
— Ele morreu há dez anos.
— E por que falava de mim?
— Dizia que o senhor o levou pela Graciosa.
Vilmar olhou pela janela.
— Quando foi isso?
— Na noite em que ele desapareceu.
— Ele morreu?
— O corpo foi encontrado três dias depois.
Vilmar calou-se.
— Minha mãe nunca acreditou que tivesse sido acidente — prosseguiu a mulher.
— E sua mãe...?
— Faleceu no ano passado.
— E o que isso tem a ver comigo?
A mulher respirou fundo.
— Antes de morrer, me pediu que nunca ligasse para o senhor.
Vilmar fechou os olhos.
— Então por que está ligando?
— Porque ontem encontrei uma fotografia.
O coração acelerou.
— Que fotografia?
— Meu pai, sentado no banco do seu caminhão.
Vilmar emudeceu.
— No verso havia uma data.
— Qual?
— 1987.
A ligação caiu.
Ficou olhando para o telefone. O número desconhecido continuava na tela. Não ligou de volta.
♦ ♦ ♦
Chegando em casa, não conseguiu dormir. A cozinha parecia maior do que lembrava. Iracema fora uma mulher barulhenta: ria alto, falava alto, batia portas, cantava enquanto lavava a louça. Depois que ela se foi, a casa se encheu de um silêncio que ele nunca aprendera a preencher.
Preparou café e esqueceu a xícara sobre a mesa. Abriu um armário e encontrou uma caixa de sapatos cheia de fotografias: o casamento, viagens, Iracema diante da casa, o caminhão novo. No fundo, uma imagem que não reconhecia.
Aproximou da luz: era ele, muito jovem, ao volante do Fiel. Ao lado, o homem do casaco escuro, de olhos claros — o mesmo rosto.
Virou a foto. No verso, a data: 1987. E, abaixo, uma frase com a letra de Iracema:
Não pare no 47.
Sentou-se. Leu de novo. A frase parecia absurda — ainda mais porque conhecia aquela letra tão bem quanto a própria voz. Então notou algo: uma segunda linha, quase apagada. Aproximou da janela e conseguiu decifrar apenas três palavras:
...se ele entrar...
O restante fora arrancado.
Passou o polegar sobre o papel. Uma lembrança tentou vir à tona: Iracema na cozinha, uma mala no chão, o rádio ligado, uma discussão... ele saindo pela porta e a voz dela:
— Não vá pela Graciosa!
E a memória se desfez.
Ficou sentado por muito tempo. Ao se levantar, já não sabia se aquela recordação era verdadeira ou se a fotografia a havia plantado ali.
♦ ♦ ♦
Na quinta-feira seguinte, o dinheiro acabou. Não teve escolha. Saiu de Morretes às dez da noite. A neblina estava lá — densa, leitosa, pousada sobre a estrada como se esperasse.
No quilômetro 12, viu o homem. Não reduziu. Passou direto. O homem não levantou o polegar, não fez nenhum gesto; apenas o acompanhou com o olhar.
Continuou. Quilômetro 17... 19... 23... A estrada parecia normal. Então ouviu:
— Boa noite.
Congelou. O banco ao lado estava ocupado. O homem olhava para a frente.
— Como entrou?
— O senhor sabe.
— Eu não parei!
— Eu sei.
Apertou o volante.
— O que quer?
— Chegar.
— Aonde?
O homem virou-se devagar.
— O senhor ainda não se lembra.
Uma dor atravessou-lhe a cabeça. Imagens vieram: a cozinha, Iracema, o relógio marcando onze e pouca coisa, a porta batendo, o caminhão saindo... e depois algo que não deveria existir: Iracema correndo pela beira da estrada.
Piscou e a imagem sumiu.
— Minha esposa morreu de aneurisma — disse, quase sussurrando.
— Foi o que disseram?
— Eu estava trabalhando! Recebi as ligações ao chegar a Morretes.
— E antes disso? Onde estava antes?
— Na estrada.
— Qual estrada?
A pergunta pareceu tola — até deixar de parecer. No assoalho, a mancha reapareceu.
— Eu matei alguém? — perguntou, com a garganta seca. — Matei a Iracema?
Silêncio.
— Foi isso?
O homem virou o rosto.
— O senhor continua fazendo a pergunta errada.
A água cobriu-lhe os sapatos. Vilmar não gritou.
— Então qual é a pergunta certa?
O homem inclinou-se um pouco.
— Por que o senhor nunca chegou em casa?
Algo dentro dele se partiu. A memória veio, nítida: a discussão, o terço, o homem parado no acostamento... o aviso: Não pare no 47. Depois, Iracema no banco ao lado, molhada, pálida, dizendo:
— Você demorou.
A água subiu. Fechou os olhos.
♦ ♦ ♦
Quando abriu, estava dirigindo. O sol nascia. O rádio tocava Evidências. O banco estava vazio. O terço, seco.
Não parou. Seguiu adiante. No quilômetro 47, reduziu a velocidade. O acostamento estava deserto — nenhuma figura, nenhuma casa, só a neblina subindo do vale.
Olhou pelo retrovisor. Por um instante, viu Iracema ao seu lado. Não parecia morta — parecia cansada. Não o olhou; apenas apontou para a estrada adiante.
Acelerou.
♦ ♦ ♦
Na manhã seguinte, outro caminhoneiro encontrou o Mercedes 710 parado no acostamento, no quilômetro 47. O motor estava desligado; a porta do motorista, aberta. Ninguém dentro. No banco do passageiro, uma pequena poça de água.
O homem olhou, sem entender de onde viera. No retrovisor, um terço de contas de madeira — não notara ao aproximar-se. Tocou as contas; estavam geladas.
O celular vibrou. Mensagem de número desconhecido:
NÃO PARE.
Guardou o aparelho e olhou para a estrada. A neblina começava a subir. Então ouviu:
— Moço?
Virou-se. Uma mulher jovem, de cabelos escuros e roupas claras, estava no acostamento. Parecia perdida.
Olhou o celular de novo. NÃO PARE.
Deveria ter ido embora. Em vez disso, perguntou:
— Precisa de carona?
Ela sorriu.
— Vou para Matinhos.
Abriu a porta. Ela entrou. Fechou-se a porta. O caminhão retomou a marcha.
Durante minutos, nenhum falou. Então a mulher perguntou:
— O senhor faz essa rota há muito tempo?
Ele sorriu.
— Tempo demais.
Ela olhou para o retrovisor. O terço balançava. Uma gota caiu sobre o painel.
— Muito tempo — repetiu ela.
O rádio começou a chiar. Antes de encontrar o botão, ela perguntou:
— Conhece o quilômetro 47?
— Conheço.
Virou-se para a janela.
— Eu também.
A neblina fechou a estrada. O caminhão seguiu adiante.
♦ ♦ ♦
Em algum ponto da serra, um homem de casaco escuro caminhava pelo acostamento. Não parecia perdido; parecia esperar. Ao ouvir um motor aproximar-se, levantou o polegar. O motorista reduziu.
Dentro da cabine, a mulher olhou pelo retrovisor. O terço embaçou. Tocou as contas e sussurrou, como para si mesma:
— Você demorou.
O homem entrou. A porta fechou. A estrada desapareceu na névoa. Por alguns minutos, silêncio. Então ele perguntou:
— O senhor faz essa rota há muito tempo?
A mulher sorriu.
— Trinta e dois anos.
O caminhão continuou subindo. Na curva seguinte, não havia mais estrada — só neblina. E, bem no fundo, algo que esperava apenas mudar de lugar.
Na Graciosa, certas viagens não terminam. Apenas trocam de motorista.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O CADERNO DE MARIANA

O CADERNO DE MARIANA
Conto de Suspense e Mistério


Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Dona Regina sabia que era terça-feira antes de abrir os olhos.
Não pelo despertador. Ela não usava despertador desde a aposentadoria. Sabia pelo silêncio, um silêncio específico de terça-feira, diferente do de domingo e mais profundo que o de segunda. Era o dia em que a feira da Água Verde não acontecia, em que os vizinhos do 302 raramente brigavam e em que o telefone costumava tocar.
Ela permaneceu deitada, olhando para o teto manchado do quarto.
Havia uma mancha perto do lustre. Durante anos, Regina enxergara nela um pássaro com as asas abertas. Em certas manhãs, quando a luz entrava pela janela de determinado ângulo, parecia uma mão.
Naquela manhã, era uma mão.
O telefone tocou às 6h47.
Regina não se mexeu.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
O telefone parou.
O silêncio que voltou não era o mesmo.
Regina ficou alguns segundos olhando para a porta do quarto, convencida de que havia alguém do outro lado.
Não havia.
Levantou-se às 7h15, fez café, passou manteiga em duas fatias de pão e sentou-se à mesa da cozinha.
O telefone ficava na sala, sobre um móvel baixo, ao lado de uma fotografia antiga da turma de 2004.
Era um aparelho preto, pesado, dos anos noventa, que ela nunca substituíra. Funcionava. As pessoas ligavam. Algumas pessoas ainda ligavam.
Às 8h03, ele tocou novamente.
Regina não levantou.
O visor mostrava um número.
Ela o conhecia de cor.
Mesmo assim, olhou.
41 9987-3241.
Por alguns segundos, Regina não respirou.
O número estava desconectado havia vinte anos.
Ela sabia porque ligara para ele todos os dias durante seis meses depois da morte de Mariana. Às vezes de manhã, às vezes à noite. Primeiro ouvira a gravação:
— O número que você discou não existe.
Meses depois:
— Este número está temporariamente indisponível.
Então a linha desaparecera.
Mariana também.
Regina permaneceu sentada enquanto o telefone tocava.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Cinco.
Seis.
Sete.
Na oitava chamada, a linha caiu.
Ela não tocou no aparelho.
Passou o resto da manhã organizando os cadernos.
— 2 —
O armário da sala ocupava quase uma parede inteira.
Era o coração do apartamento.
Trinta e sete anos de magistério estavam ali, guardados em caixas de papelão etiquetadas por ano. Regina conhecia cada uma. Sabia onde estavam as redações sobre férias de 1983, os desenhos de árvores de 1991, os exercícios de matemática de 1998, as primeiras tentativas de assinatura de crianças que hoje provavelmente tinham filhos.
Durante a vida inteira, ensinara crianças a escrever.
E durante a vida inteira guardara aquilo que elas escreviam.
Era seu vício mais inocente.
Abriu a caixa de 2004.
Os cadernos estavam em ordem alfabética.
Almeida, Ana.
Barbosa, Carlos.
Cardoso, Juliana.
Costa, Mariana.
Regina parou.
O espaço estava vazio.
Havia apenas um retângulo de poeira no fundo da caixa, preservando o lugar onde o caderno permanecera durante anos.
Ela passou o dedo pela marca.
A poeira se acumulou na ponta da unha.
Regina fechou os olhos.
Lembrou-se da menina.
Nove anos.
Duas tranças.
Olheiras que pareciam grandes demais para um rosto tão pequeno.
Mariana sentava sempre no fundo da sala, perto da janela, e desenhava nas margens dos cadernos. Não gostava de copiar textos. Não gostava de ler em voz alta. Quando Regina fazia perguntas, Mariana olhava para o chão antes de responder, como se procurasse a resposta entre os próprios sapatos.
Mas desenhava. Sempre desenhava.
E havia alguma coisa naqueles desenhos que Regina nunca conseguira entender.
Não eram desenhos de criança. Eram corredores. Portas. Círculos. Uma sala vazia vista de cima.
Regina lembrava-se do cheiro de lápis de cor. Da borracha mastigada. Da unha suja de grafite.
Lembrava-se também do último dia. Ou pensava lembrar.
Mariana não apareceu numa segunda-feira. Na terça também não. Na quarta, a mãe telefonou.
A voz do outro lado estava quebrada:
— Ela não acordou, professora.
Regina se lembrava de ter ficado sentada diante do telefone depois da ligação, sem conseguir chorar.
Lembrava-se do velório. Do rosto da mãe. De ter tocado o caixão.
Lembrava-se de tudo. Quase tudo.
Fechou a caixa.
Quando abriu novamente os olhos, percebeu que estava segurando uma folha de chamada que não lembrava ter retirado de dentro dela.
Era uma lista de 2004. Os nomes estavam escritos em sua própria letra.
Almeida.
Barbosa.
Cardoso.
Costa, Mariana.
Ao lado do nome havia uma pequena marca de lápis.
Regina franziu a testa. Não se lembrava daquela marca.
Virou a folha.
No verso, alguém havia escrito uma frase com letra infantil:
Professora, você volta?
Regina largou o papel.
— 3 —
O telefone tocou às 14h22.
Ela não atendeu.
— 4 —
Na quarta-feira, Regina foi ao Mercado Municipal.
Era seu hábito. Segundas, quartas e sextas. Frutas, verduras, pão.
Seu Joaquim sempre separava as maçãs menores porque sabia que ela morava sozinha.
Naquela quarta, porém, o homem não estava na banca. Havia um rapaz em seu lugar.
Regina parou diante das frutas.
— O Seu Joaquim?
O rapaz levantou os olhos.
— Quem?
— Joaquim. O dono daqui.
O rapaz olhou para a banca. Depois para Regina.
— Acho que é outra banca, senhora.
Regina ficou alguns segundos em silêncio.
— Eu compro aqui há vinte anos.
O rapaz deu de ombros.
Ela pegou três maçãs.
Na banca de jornais, o jornaleiro também não a reconheceu.
— Bom dia, dona...
Ele parou. Procurou alguma coisa no rosto dela.
— A senhora vai querer o jornal?
— Como sempre.
Ele entregou o jornal. Não disse o nome dela.
Na saída do mercado, Regina sentiu uma inquietação que não conseguia transformar em pensamento.
No elevador do prédio, apertou o botão do sexto andar.
Quando as portas se abriram, encontrou a fechadura do apartamento arranhada.
Não parecia tentativa de arrombamento. Eram riscos finos e precisos, quase delicados. Formavam uma espiral.
Regina tocou o metal. Estava frio.
Abriu a porta. Trancou.
Ficou alguns minutos encostada na parede.
Então ouviu o telefone. 16h11.
Regina foi até a sala. O aparelho tocava.
O visor mostrava: 41 9987-3241.
Ela levantou o fone. Não disse nada.
Do outro lado havia respiração. Muito baixa. Muito distante.
Regina fechou os olhos. Por um instante, teve a impressão de sentir cheiro de lápis de cor.
— Mariana?
A respiração parou. Uma voz veio do outro lado, tão baixa que poderia ter sido uma interferência:
— Cinco minutos.
A ligação caiu.
Regina permaneceu com o fone no ouvido.
Cinco minutos. Ela conhecia aquelas palavras. Não sabia de onde.
— 5 —
Naquela noite, procurou a antiga caixa de fotografias.
Espalhou as imagens sobre a mesa. Turmas. Formaturas. Passeios. Natal. Festas juninas. Crianças diante de árvores, quadras, murais.
Encontrou a turma de 2004. Dezessete alunos.
Regina passou o dedo pelos rostos.
Um. Dois. Três.
Chegou a Mariana.
A fotografia estava rasgada exatamente naquele ponto. Não era um rasgo antigo. As fibras brancas ainda estavam expostas.
Regina aproximou a fotografia da lâmpada.
O espaço onde Mariana deveria estar parecia maior que o próprio corpo. Atrás dela havia apenas o fundo da sala. Uma janela. Uma porta. Uma sombra.
Regina virou a fotografia. No verso, sua letra:
17 de agosto.
Mariana ficou depois da aula.
Regina sentiu uma pontada no peito. Não se lembrava disso.
Então outra lembrança veio. Mariana em pé junto à carteira. As outras crianças saindo. A sala ficando vazia. A menina segurando o caderno contra o peito.
E Regina dizendo:
— Espere aqui. Vou chamar a coordenadora. Cinco minutos. Só cinco.
Então alguém a chamou no corredor.
A lembrança terminou ali.
Regina ficou olhando para a fotografia. Não conseguiu lembrar se voltara.
— 6 —
Na sexta-feira, o telefone tocou duas vezes. Regina não atendeu.
No sábado, tocou às 3h14 da manhã. Ela acordou antes do primeiro toque terminar.
Ficou deitada no escuro. O aparelho continuou chamando.
Regina levantou-se. Caminhou até a sala. O visor iluminava o ambiente: 41 9987-3241.
Ela não tocou no telefone.
Então viu o caderno.
Estava sobre a mesa. Verde. Pequeno. As bordas gastas.
O nome escrito no canto superior: Mariana Costa.
Regina parou. Não se aproximou imediatamente. Ficou olhando. O caderno parecia tão banal que isso era o pior.
Ela tocou a capa. Estava fria. Abriu.
Na primeira página:
Mariana Costa — 4ª série B — 2004
A letra era infantil. Abaixo, havia um desenho: uma porta.
Regina virou a página. Outra porta. Na seguinte, um corredor. Na seguinte, uma sala. Na quinta, apenas uma palavra:
Volta.
Regina virou mais uma: Volta. Outra: Volta.
Ela parou. No fundo da sala desenhada havia uma pequena figura: uma menina.
Regina aproximou o rosto. Havia uma porta atrás dela. E alguém do lado de fora.
A figura adulta estava riscada com tanta força que o papel quase se rompera.
Regina sentiu o estômago revirar. Virou a página. Nada. Outra. Nada.
Até chegar à última. Havia apenas uma frase:
Você disse cinco minutos.
O telefone tocou. Regina levantou o fone.
— O que você quer?
Silêncio. Depois:
— Professora.
A palavra atravessou Regina como uma agulha.
— Mariana?
— Você lembra?
Regina segurou o telefone com as duas mãos.
— Onde você está?
Uma pausa.
— No lugar onde você me deixou.
Regina olhou para o caderno.
— Eu fui ao seu velório.
— Eu sei.
— Sua mãe me disse que você morreu em casa.
Silêncio.
— Sua mãe acreditava nisso.
Regina sentiu um frio subir pelos braços.
— O que você está dizendo?
A respiração do outro lado ficou mais próxima.
— Você disse que voltava.
Regina fechou os olhos. E lembrou-se. Não de tudo. De um pedaço.
O corredor. O relógio. A porta. Uma batida pequena. Depois outra.
Mariana chamando: — Professora?
Regina abriu os olhos.
— Não.
— Você ouviu.
— Não.
— Você estava do outro lado.
Regina levou a mão à cabeça.
— Pare.
— Você disse cinco minutos.
— Eu voltei.
Silêncio.
— Quando?
Regina não respondeu. Porque não sabia.
— 7 —
Ela passou o restante da madrugada na cozinha. O caderno estava aberto sobre a mesa. O telefone, ao lado.
Às 5h20, Regina pegou uma folha e escreveu:
Eu voltei.
Ficou olhando para a frase. Depois riscou. Escreveu novamente:
Eu tentei voltar.
Riscou. Por fim:
Eu não lembro.
A palavra 'lembro' parecia errada.
Ela virou a folha. No verso, havia uma frase que não escrevera:
Agora lembra.
Regina largou a caneta.
— 8 —
Na manhã de domingo, levou o caderno para o quintal do prédio.
Havia uma velha lata de metal onde os moradores queimavam papéis e folhas secas.
Regina abriu a tampa. O metal rangeu. Segurou o caderno sobre a abertura.
Sentiu cheiro de papel velho. E, por baixo dele, algo familiar: lápis de cor.
Regina tentou soltá-lo. Não conseguiu. Os dedos estavam rígidos. Tentou novamente. Nada.
— Você não pode.
Regina virou-se. Mariana estava junto ao muro. Tranças. Uniforme azul e branco. As mãos cruzadas na frente do corpo.
Regina sentiu o coração bater uma vez, forte.
— Mariana.
A menina não respondeu. O sol atravessava o quintal. A sombra dela estava no chão, mas não estava exatamente onde deveria.
Regina olhou para os pés da menina. Depois para a sombra. A sombra parecia alguns centímetros afastada.
— Você morreu — disse Regina.
— Foi o que disseram.
— Sua mãe me disse.
— Sua mãe também disse coisas sobre você?
Regina ficou imóvel. Mariana inclinou a cabeça.
— Você guardou todos os cadernos.
Regina olhou para o objeto em suas mãos.
— Eu guardei.
— Por quê?
— Porque eram lembranças.
— E o meu?
— Eu procurei.
— Não o suficiente.
Regina sentiu a garganta fechar.
— Eu procurei durante anos.
Mariana deu um passo.
— Não. Você procurou o caderno.
Outro passo.
— Eu queria que você procurasse a mim.
Regina não conseguiu responder. Mariana estava perto agora.
— Eu estava com medo — disse.
Regina apertou o caderno contra o peito.
— Eu não sabia.
— Sabia.
— Não.
— Você ouviu.
Regina sentiu uma dor súbita atrás dos olhos. E lembrou-se.
O corredor. O relógio. A porta. Mariana batendo. Uma vez. Duas. Depois muitas.
Regina saiu da sala. A porta fechou. E ela continuou andando.
Regina levou a mão à boca. — Não.
Mariana observava: — Você voltou?
Regina fechou os olhos: — Eu...
A menina esperou. Regina tentou encontrar a lembrança. Não encontrou.
— Eu não sei.
Mariana sorriu. Regina abriu os olhos.
— O que aconteceu naquela sala?
A menina olhou para o caderno.
— Eu esperei.
— E depois?
— Continuei esperando.
— Mariana...
— Até a sala ficar escura.
Regina começou a chorar.
— Eu não sabia.
A menina ficou olhando para ela. O caderno caiu das mãos de Regina. As páginas se abriram sozinhas. Uma. Duas. Três.
O vento não soprava. Mesmo assim, as folhas começaram a virar. Até parar numa página em branco.
No centro havia apenas uma frase:
QUEM SAI PRECISA DE ALGUÉM PARA FICAR.
Regina levantou os olhos.
— O que significa?
Mariana olhou para ela.
— Você passou vinte anos tentando me encontrar.
— Sim.
— Encontrou.
Regina olhou para a lata. Depois para a menina.
— Se eu deixar você sair...
Mariana ficou em silêncio.
— O que acontece comigo?
Nada.
— Mariana. O que acontece comigo?
Mariana aproximou o rosto.
— Você já sabe.
Regina olhou para o caderno. Uma linha começava a aparecer na margem. Um círculo incompleto.
Regina compreendeu.
— Você não quer sair.
Mariana sorriu.
— Quero.
— Você quer entrar.
Por um instante, a menina pareceu novamente ter nove anos. Cansada. Assustada. Quase humana.
Então Regina viu alguma coisa por trás daqueles olhos. Não eram corredores. Não eram salas. Eram apenas portas. Muitas portas. E, atrás de cada uma, uma criança esperando.
Regina recuou.
— O que você é?
Mariana inclinou a cabeça.
— Eu sou a parte que você esqueceu.
— Não.
— Sou a parte que ninguém consegue levar consigo.
Regina sentiu os dedos se fecharem.
— Todas aquelas crianças...
Mariana não respondeu.
O telefone começou a tocar dentro do prédio. Uma vez. Duas. Três.
Regina olhou para as janelas. Mariana estendeu a mão.
— Cinco minutos, professora.
Regina olhou para a mão. Depois para o caderno.
— Eu voltei.
A menina sorriu.
— Dessa vez.
Regina segurou sua mão. Estava gelada. O círculo na página terminou de se fechar.
— 9 —
Na segunda-feira, ninguém atendeu ao telefone do apartamento 604.
Na terça, também não.
Na quarta-feira, às 6h47, o telefone tocou.
Uma vizinha que passava pelo corredor parou diante da porta. Ouviu o aparelho. Depois ouviu uma voz. Uma voz de criança:
— Professora?
A vizinha ficou imóvel. A voz voltou:
— Professora, você está aí?
Ela pensou em bater. Pensou em chamar alguém. Então ouviu uma segunda voz. Mais velha. Muito baixa:
— Estou.
A vizinha foi embora.
— 10 —
O apartamento estava silencioso.
Regina estava sentada à mesa da cozinha. O telefone repousava diante dela. O caderno estava aberto.
Todas as páginas estavam em branco. Exceto a primeira:
Mariana Costa — 4ª série B — 2004
Regina passou o dedo pela margem. Começou a desenhar um círculo. Parou antes de fechá-lo.
Pegou o telefone. Discou um número. Esperou.
— Alô?
Uma mulher atendeu. Regina sorriu. Por um instante, sua voz pareceu a mesma de sempre:
— Professora?
Silêncio.
— Sou eu. Mariana. Você lembra de mim?
Do outro lado, ninguém respondeu.
Regina olhou para o caderno. Uma pequena linha apareceu na margem.
— Eu preciso da sua ajuda — disse.
A mulher respirou fundo.
— Quem está falando?
Regina sorriu.
— Tem uma menina presa aqui.
Fez uma pausa.
— Ela está esperando há muito tempo.
A ligação caiu. Regina continuou segurando o telefone. Depois colocou o fone no lugar.
O caderno permaneceu aberto. Na margem da página, o círculo terminou de se fechar.
— 11 —
Em algum lugar de Curitiba, numa sala de aula que já não existia, uma menina de nove anos continuava sentada junto à porta.
O corredor estava escuro. Às vezes, ela levantava a cabeça quando ouvia passos.
Ainda esperava. A porta permanecia fechada.
Até que alguém parou do outro lado.
A menina apertou o caderno contra o peito.
— Professora?
A maçaneta começou a girar.
FIM

A ÁGUA NÃO ESCOLHE


A ÁGUA NÃO ESCOLHE
O que entra por uma porta que nunca foi trancada

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

 Há uma coisa que aprendi em quinze anos limpando o que os outros sujam: todo lugar guarda o cheiro de quem já viveu ali. Não é metáfora. É química. Suor cristalizado no reboco, óleo de cozinha entranhado no rejunte, unha cortada que escorrega pelo ralo e fica. O corpo deixa rastro mesmo quando vai embora. Mesmo quando morre.
Estou escrevendo isso porque não durmo há nove dias.
Não é insônia.
É que, quando fecho os olhos, sinto a água subindo pelo colchão.
• • •
O Balneário Flórida fora de temporada é um lugar que ninguém fotografa. As placas dos edifícios estão descascadas, os nomes dos condomínios perderam vogais. Edifício Mar Azul virou Edi. Mar Az, como se a cidade também estivesse esquecendo de falar.
Adilson conhecia cada sílaba desse esquecimento.
Era zelador do Residencial Costa Verde desde 2009, quando ainda tinha cabelo preto e Neusa ainda respirava.
Agora era só ele, uma bicicleta Caloi com o selim rasgado e trezentas e quarenta e duas chaves penduradas em ganchos de latão na sala da zeladoria.
Conhecia cada uma.
Apartamento 101.
102.
103.
Bloco A. Bloco B.
Portão. Casa de máquinas. Caixa de correio. Salão de festas.
Nunca precisava olhar as etiquetas.
— Nunca perdi uma — dizia.
Ninguém perguntava.
Ele dizia mesmo assim, para as paredes, para o ventilador de teto que girava devagar como um pensamento cansado, para a fotografia de Neusa na parede, sorrindo com aquele dente torto que ele amava.
Uma vez, anos atrás, ela perguntara:
— Você confere essas chaves todo dia?
— Todo dia.
— Por quê?
Ele levantara o molho diante dos olhos.
— Porque alguma porta sempre fica aberta.
Ela rira.
Adilson também.
Na época ainda era possível rir daquela frase.
O inverno em Matinhos não é frio como em Curitiba. É úmido. Uma umidade que entra nos ossos e fica, que faz as juntas estalarem às cinco da manhã, quando ele levantava para verificar as bombas de água.
Adilson gostava dessa hora.
A cidade toda parecia pertencer a ele.
As ruas vazias. Os postes piscando. O mar batendo longe como um coração que nunca aprendera a parar.
Foi numa terça-feira de junho que encontrou a primeira.
• • •
Apartamento 302.
Fechado desde março, quando a família de São Paulo fora embora depois do carnaval.
Adilson subiu para verificar um vazamento na laje. O síndico do bloco B ligara reclamando de uma mancha no teto do 202.
A chave girou macia na fechadura.
Ele tinha orgulho disso.
Óleo de máquina nas engrenagens uma vez por mês, chave por chave.
O apartamento cheirava a fechado. Poeira, plástico de móvel coberto, madeira guardando o cheiro de uma família que já não estava ali.
Acendeu a lanterna.
A luz do corredor não chegava até a cozinha.
Foi quando viu.
Uma pegada molhada.
Descalça.
No porcelanato branco, entre a porta e a geladeira desligada.
Adilson ficou parado.
A marca era perfeita.
Calcanhar.
Arco.
Dedos.
Uma unha ligeiramente mais escura no segundo dedo.
Ele olhou para os próprios pés.
Chinelo de borracha.
Número 44.
O dedo mindinho do pé direito era torto desde criança, desde uma bicicleta que caíra em cima dele.
Voltou a olhar.
A mesma deformação.
Adilson se abaixou.
Passou o dedo na água.
Gelada.
Ainda fresca.
Não cheirava a nada.
Olhou para a torneira.
Seca.
Banheiro seco.
Registro fechado.
As janelas, trancadas.
Não chovia havia quatro dias.
Por alguns segundos, pensou em chamar Nivaldo.
Depois desistiu.
Era só água.
E água sempre vinha de algum lugar.
Pegou o pano de chão que carregava no bolso traseiro, secou a marca e passou álcool.
Antes de sair, olhou novamente para o piso.
Havia ficado uma pequena mancha úmida onde estivera o calcanhar.
Adilson fechou a porta.
Desceu contando os degraus.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Contava desde criança quando queria afastar pensamentos ruins.
Na zeladoria, conferiu os ganchos.
Uma, duas, três fileiras.
Parou.
Contou novamente.
Trezentas e quarenta e duas.
Todas ali.
Nunca faltava nenhuma.
• • •
A segunda apareceu três dias depois.
Apartamento 105.
Fechado desde janeiro.
Adilson entrou para trocar uma lâmpada do corredor interno. O síndico achava que ele não percebia quando as lâmpadas queimavam sozinhas nos apartamentos vazios.
Adilson percebia tudo.
Trocava.
Ninguém agradecia.
Trocava de novo.
A pegada estava no banheiro.
Dentro do box.
Uma única marca de pé no piso seco.
Ao redor dela, nenhum respingo.
Nenhuma gota.
Nada.
Adilson se agachou.
Reconheceu antes de querer reconhecer.
A pequena torção no dedo mínimo.
Ele não tinha entrado no box.
Nunca entrava.
Desde que Neusa morreu, não entrava.
Era uma regra que nunca explicara a ninguém.
Talvez nem a si mesmo.
Fechou a porta do banheiro.
Depois a do apartamento.
Sentou no chão do corredor, encostado à parede.
Havia uma infiltração antiga no teto. A mancha escura lembrava o mapa da Itália.
Ele nunca consertara.
Gostava dela.
— É o encanamento — disse.
A voz saiu baixa.
— É só o encanamento.
Olhou para a mancha no teto.
Por um instante, teve a impressão de que ela havia mudado de forma.
Parecia uma mão.
Piscou.
Era apenas infiltração.
• • •
Naquela noite, sonhou com Neusa.
Ela estava na cozinha do apartamento 101.
De costas.
Lavava pratos.
A água corria da torneira.
Corria.
Corria.
Corria.
— Neusa.
Ela não respondeu.
— A água tá transbordando.
Nada.
Adilson percebeu que a água já cobria o chão.
Subia pelos tornozelos.
Pelos joelhos.
Pela cintura.
— Neusa.
Ela continuava de costas.
Ele tentou chegar até ela, mas a cozinha ficava cada vez maior.
A torneira continuava aberta.
A água chegava ao peito.
— Neusa!
Ela parou.
Virou devagar.
O rosto era dela.
Mas os olhos...
Adilson acordou antes de conseguir compreender.
O travesseiro estava molhado.
Não de suor.
Água.
Ele sentou na cama.
O quarto estava escuro.
Passou a mão pelo colchão.
Seco.
Olhou para o chão.
Uma pequena poça.
No centro dela, uma marca de pé.
Ele não se aproximou.
Ficou sentado até amanhecer.
• • •
Às seis e vinte da manhã, pegou o pano.
Depois o balde.
Depois o desinfetante.
Antes de limpar, percebeu uma coisa.
A pegada estava virada para a cama.
Como se alguém tivesse ficado parado ali durante a noite.
Adilson limpou.
Não contou para ninguém.
• • •
A terceira apareceu no corredor do bloco A.
Em frente à porta do 401.
O 401 era o único apartamento que nunca fora alugado.
Estava vazio desde a construção, em 1998.
O proprietário, segundo Nivaldo, morava na Europa.
Ou na Alemanha.
Ou na Itália.
Nivaldo nunca lembrava.
Adilson nunca tinha visto o homem.
Mas a chave estava no gancho.
Como todas as outras.
Naquela manhã, a pegada estava no corredor.
Virada para a porta.
Adilson parou.
Não havia outras marcas.
Nenhuma pegada vindo das escadas.
Nenhuma saindo.
Apenas aquela.
Diante do 401.
Esperando.
Adilson olhou para a porta.
Depois para o molho de chaves que trazia preso à cintura.
Sentiu um frio no estômago.
Tirou a chave do 401.
Nunca a havia usado.
O metal estava frio demais.
Encostou a chave na fechadura.
Antes de girá-la, ouviu um ruído do outro lado.
Não uma voz.
Não exatamente.
Parecia água escorrendo por dentro de uma parede.
Adilson ficou imóvel.
Depois girou.
A porta abriu.
O cheiro que saiu não era de apartamento fechado.
Era de maré baixa.
Madeira molhada.
Alguma coisa antiga deixada tempo demais debaixo d'água.
Adilson permaneceu na soleira.
A lanterna iluminou a sala vazia.
Piso de taco.
Paredes descascadas.
Nenhum móvel.
Nenhuma janela aberta.
No centro da sala havia uma pegada.
Molhada.
Virada para ele.
Adilson não entrou.
A luz da lanterna tremeu.
Por um instante, teve certeza de que havia alguém parado no fundo da sala.
Quando apontou a luz para lá, não havia ninguém.
Ele fechou a porta.
Dessa vez não contou os degraus.
Correu.
• • •
Na zeladoria, trancou a porta.
Depois a janela.
Depois o armário.
Depois a gaveta.
Por último, conferiu as chaves.
Uma.
Duas.
Três.
Todas.
Trezentas e quarenta e duas.
Ficou olhando para elas.
Alguma coisa parecia errada.
Não sabia o quê.
A fotografia de Neusa estava na parede.
Ele se aproximou.
Ela sorria.
O dente torto.
O cabelo preso.
Os olhos vivos.
Adilson tocou o vidro da moldura.
— Você tá me vendo?
A fotografia não respondeu.
O telefone tocou.
Adilson quase derrubou a moldura.
O telefone fixo não tocava desde 2019.
Atendeu.
— Alô?
Era Nivaldo.
— Adilson?
— Sim.
— Apareceu uma infiltração no 302 de novo.
Adilson fechou os olhos.
— Eu verifiquei aquele apartamento.
— Pois é. O pessoal de São Paulo ligou. Tem água escorrendo pela parede.
Silêncio.
— Nivaldo...
— E tem uma coisa estranha.
Adilson não respondeu.
— O vizinho do 202 disse que a mancha tá crescendo.
— Tá.
— Disse que parece uma pegada.
Adilson sentiu os dedos apertarem o telefone.
— Uma pegada?
— É.
Nivaldo respirou do outro lado.
— Ele disse que parece um pé.
A ligação caiu.
• • •
Na manhã seguinte, havia uma pegada na porta da zeladoria.
Adilson encontrou quando saiu para buscar o jornal.
A água já começava a secar nas bordas.
No centro, permanecia úmida.
Virada para dentro.
Ele não se mexeu.
O sol nascia atrás dos prédios, pintando tudo de um laranja doente.
Uma vizinha passava com o cachorro.
Um ônibus dobrou na avenida.
Alguém ligou uma televisão.
O mundo continuava.
Adilson olhou para os próprios pés.
Estavam molhados.
Ele estava de chinelos.
Não havia água em lugar nenhum.
• • •
Naquela noite, ficou sentado na cama.
A lanterna sobre o criado-mudo.
O relógio marcava 3h47.
O prédio estava silencioso.
Nem o mar se ouvia.
Foi quando percebeu que alguma coisa estava andando no corredor.
Não eram passos comuns.
Eram passos molhados.
Ploc.
Pausa.
Ploc.
Pausa.
Ploc.
Adilson não respirava.
Os passos pararam diante da porta.
Silêncio.
Então a maçaneta girou.
Devagar.
Para um lado.
Depois para o outro.
A porta estava trancada.
Ele tinha conferido duas vezes.
A maçaneta continuou girando.
Não havia pressa do outro lado.
Apenas uma paciência absoluta.
Depois parou.
Adilson esperou.
Um minuto.
Dois.
Cinco.
Levantou.
Foi até a porta.
Encostou o ouvido.
Havia respiração do outro lado.
Lenta.
Profunda.
Quase sonolenta.
— Quem é?
A respiração cessou.
Adilson ficou esperando.
Então ouviu:
— Você não trancou.
A voz era baixa.
Rouca.
Familiar.
Adilson recuou.
Era a voz dele.
• • •
A lanterna caiu.
A luz girou pelo teto.
Pela parede.
Pela fotografia de Neusa.
Por um segundo, Adilson viu alguma coisa diferente nos olhos dela.
Não sabia dizer o quê.
Molhados.
Talvez.
Ou apenas o reflexo da lanterna.
A voz voltou.
— Você nunca tranca.
A água começou a entrar pela fresta da porta.
Primeiro uma linha fina.
Depois outra.
Adilson ficou olhando.
A água avançava pelo piso.
Sem pressa.
No reflexo escuro da poça havia uma forma.
Ele se aproximou.
Era um pé.
Descalço.
O contorno familiar.
Adilson não abriu a porta.
A maçaneta girou novamente.
E, dessa vez, a porta abriu sozinha.
• • •
Ele não lembra de ter gritado.
Não lembra de ter corrido.
Só lembra da água.
O corredor estava alagado.
A água vinha de baixo das portas, das paredes, dos tetos.
O prédio inteiro parecia ter começado a vazar ao mesmo tempo.
Adilson correu para a escada.
Escorregou.
Caiu.
O joelho bateu no degrau.
Levantou.
A água chegava aos tornozelos.
Depois aos joelhos.
Depois à cintura.
Ele tentou voltar para a zeladoria.
A água já cobria a porta.
— Neusa!
Não sabia por que gritara o nome.
A água chegou ao peito.
— Neusa!
A porta do 401 estava aberta.
Havia luz lá dentro.
Adilson parou.
A água batia no queixo.
No interior do apartamento havia uma mulher sentada no chão.
De costas.
Vestido azul.
Adilson reconheceu o vestido antes de reconhecer a pessoa.
Era o vestido que Neusa usava naquela manhã.
Aquela manhã.
Antes de tudo.
Antes da ambulância.
Antes do hospital.
Antes de ele aprender a não entrar mais em boxes.
A mulher levantou a cabeça.
— Você demorou.
Adilson ficou imóvel.
— Neusa?
Ela se virou.
O rosto era o dela.
Só os olhos estavam diferentes.
Pareciam cheios de água.
— Você ainda guarda todas as chaves? — perguntou.
Adilson não respondeu.
— Todas?
— Sim.
Ela sorriu.
O mesmo sorriso.
O mesmo dente torto.
— Então por que não conseguiu abrir aquela porta?
Adilson sentiu a água subir.
— Eu tentei.
Neusa inclinou a cabeça.
— Tentou?
Ele fechou os olhos.
A lembrança veio sem pedir licença.
Uma porta.
Água no chão.
A voz dela.
O barulho do corpo caindo.
E depois a mão dele segurando a maçaneta.
Paralisado.
Por alguns segundos.
Só alguns.
Mas alguns segundos podem durar uma vida inteira.
Quando abriu os olhos, Neusa estava diante dele.
— Você fechou todas as outras — disse ela.
Tocou o rosto dele.
A mão estava gelada.
Molhada.
Cheirava a mar.
— Só deixou uma aberta.
• • •
Adilson acordou na cama.
O sol entrava pela janela.
O relógio marcava 8h12.
O quarto estava seco.
Ele ficou algum tempo sem se mexer.
Depois tocou o colchão.
Seco.
Foi até a cozinha.
Fez café.
O cheiro familiar encheu a zeladoria.
Pela primeira vez em muitos dias, pareceu normal.
Olhou para a fotografia.
Neusa sorria.
O dente torto.
Os olhos vivos.
Adilson pegou o uniforme.
Prendeu o molho de chaves à cintura.
Abriu a porta.
Parou.
Na soleira havia uma pegada molhada.
Virada para dentro.
Não olhou para os próprios pés.
Não precisava.
Fechou a porta.
Depois abriu novamente.
A pegada continuava ali.
Ele respirou fundo.
Pegou o pano.
Ajoelhou-se.
Antes de tocar na água, percebeu uma coisa.
A marca não era do tamanho do seu pé.
Era menor.
Muito menor.
Como o pé de uma criança.
• • •
Hoje faz nove dias.
A água não para de subir.
Não no prédio.
O prédio está seco.
Mas em mim.
Sinto os pulmões pesados.
Sinto os olhos molhados.
Sinto os pés descalços mesmo quando uso botas.
As pegadas aparecem em lugares onde não deveriam existir.
Dentro da cama.
No travesseiro.
Na pia.
No espelho.
Não como reflexos.
Como marcas.
Como se alguém estivesse caminhando do outro lado do vidro.
E elas estão diminuindo.
A cada dia.
Ontem eram do tamanho dos meus pés aos oito anos.
Hoje são menores.
Eu me lembro de ter cinco.
Lembro de uma bicicleta caída.
Lembro de água no chão.
Lembro de uma porta.
Não lembro de quem estava do outro lado.
Talvez seja essa a parte que a água quer levar.
Ou devolver.
À noite, escuto Neusa no 401.
Às vezes ela chama meu nome.
Às vezes não diz nada.
Às vezes escuto apenas passos.
Ploc.
Ploc.
Ploc.
E eu respondo.
— Eu sei.
Porque agora sei.
Passei quinze anos cuidando de portas que não eram minhas.
Passei quinze anos conferindo chaves.
Fechando registros.
Secando corredores.
Consertando vazamentos.
A água nunca precisou de uma chave.
Nunca precisou de força.
Nunca precisou escolher.
Bastava uma fresta.
Uma rachadura.
Um descuido.
Uma porta que não fechasse direito.
A água não escolhe.
A água só entra.
Estou escrevendo isso porque talvez alguém encontre estas páginas.
Se encontrar uma pegada molhada na sua casa, não limpe.
Não pergunte de quem é.
Não tente descobrir de onde veio.
E, principalmente, não confie na fechadura.
Porque algumas portas não foram feitas para impedir que alguma coisa entre.
Foram feitas para impedir que alguma coisa saia.
• • •
[Fim do relato encontrado na antiga zeladoria do Residencial Costa Verde, em Matinhos, datado de 14 de julho de 2024.]
Adilson Ferreira dos Santos, 52 anos, zelador do condomínio desde 2009, foi encontrado morto no apartamento 401 na manhã seguinte.
Havia vinte centímetros de água no cômodo.
O laudo registrou afogamento.
O piso, porém, estava seco.
Não havia água nos demais apartamentos.
Não havia sinais de arrombamento.
Não havia explicação para a chave do 401 estar dentro da fechadura, pelo lado de fora.
Também não havia explicação para o molho encontrado sobre a mesa da zeladoria.
O inventário do condomínio registrava 342 chaves.
Foram encontradas 343.
A última não tinha etiqueta.
Era pequena.
Muito pequena.
Segundo o funcionário responsável pelo inventário, parecia antiga demais para pertencer ao edifício.
Ninguém descobriu qual porta ela abria.
O Residencial Costa Verde foi demolido em 2026.
Durante a demolição, os operários encontraram água sob o piso do antigo apartamento 401.
Água salgada.
A alguns metros da praia.
Na areia, naquela mesma noite, apareceu uma sequência de pegadas.
Começava junto às ruínas.
Terminava no mar.
Os pescadores dizem que, quando a maré recua e a neblina baixa, ainda é possível vê-las.
Às vezes são grandes.
Às vezes pequenas.
E, algumas noites, há apenas uma.
Sempre diante de uma porta.
Esperando que alguém a abra.

O TIGRE, O MORANGOE O WHATSAPP

O TIGRE, O MORANGO
E O WHATSAPP
Sobre aquilo que ainda conseguimos ver

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Paulo acordou atrasado numa terça-feira que talvez fosse quarta.
O despertador tocou às 6h47. Ele já estava atrasado às 6h47. Isso acontece com quem dorme pensando no trabalho e acorda pensando no trabalho e, entre uma coisa e outra, sonha com uma planilha.
O primeiro e-mail chegou às 7h03.
Paulo não respondeu.
Às 7h11, chegou outro.
Às 7h18, outro.
Às 7h26, o celular vibrou sobre a pia enquanto ele fazia a barba. Paulo olhou para a tela e, por um instante, teve a impressão de ouvir um rosnado.
Era só a vibração.
Mas ele ficou olhando para o aparelho como se esperasse que alguma coisa saísse de dentro.
Na frente dele, o penhasco.
Atrás, o prazo.
Entrou no carro.
O WhatsApp tinha setenta e três mensagens não lidas. O grupo da família. O grupo do trabalho. O grupo do condomínio. O grupo em que ele não sabia por que estava. Havia também três mensagens da filha, todas sem resposta.
Paulo não abriu.
Ainda.
08:12 — Você viu o que mandaram no grupo?
08:19 — Bom dia! Só passando para lembrar da reunião.
08:43 — URGENTE.
08:44 — Na verdade, não é urgente. Esquece.
No semáforo, Paulo leu a última mensagem duas vezes.
O sinal abriu.
Buzinaram atrás.
Ele guardou o celular.
Chegou ao escritório às 8h58.
Sentou.
Abriu o computador.
O relatório que vencia às seis esperava no fundo do penhasco.
A primeira coisa que Paulo fez foi abrir o e-mail errado.
Depois o certo.
Depois outro.
Às 9h17, estava respondendo a uma mensagem sobre uma reunião marcada para as 10h.
Às 9h21, alguém perguntou se a reunião das 10h continuava de pé.
Às 9h23, avisaram que ela havia sido antecipada para as 9h30.
Às 9h24, desmarcaram.
Às 9h25, remarcaram para as 11h.
Paulo ficou olhando para a tela.
Começou a trabalhar.
Os ratinhos também.
Roíam o cipó em silêncio, embora, de vez em quando, um deles fizesse o celular vibrar.
Paulo leu e-mails. Respondeu e-mails. Marcou reuniões. Desmarcou reuniões. Reagendou reuniões. Pediu para o colega repetir o que tinha acabado de dizer porque, na hora em que o colega disse, Paulo estava lendo um e-mail.
Escreveu três frases do relatório.
Apagou as três.
Escreveu outras três.
Apagou duas.
Às 10h36, tomou café frio.
Às 10h52, encontrou no bolso da calça um papel dobrado.
Era uma lista de coisas que precisava fazer no sábado.
• Trocar a lâmpada da cozinha.
• Levar o carro para lavar.
• Comprar tinta para o quarto.
• Levar a filha ao cinema.
A última linha estava riscada.
Paulo reconheceu a própria letra, inclinada para a direita, mas não lembrava quando havia feito aquele risco.
Dobrou o papel novamente e guardou no bolso.
11h47.
A manhã tinha passado.
Foi então que percebeu uma notificação diferente.
Não havia som.
Apenas uma pequena fotografia na tela.
Era a filha.
Ou melhor, era o desenho dela.
Um sol amarelo ocupava quase metade da folha. Havia uma casa torta, uma árvore menor que a casa e um cachorro comprido demais, com quatro pernas de comprimentos diferentes.
O cachorro tinha dentes.
Muitos dentes.
Paulo sorriu.
Embaixo, escrito com letra torta:
“eu amo meu pai”
Ele ampliou a fotografia.
Não precisava.
Ampliou mesmo assim.
O papel aparecia granulado na tela. Dava para ver a marca do lápis amarelo passando duas vezes sobre o sol. Num canto havia uma mancha azul, provavelmente de tinta.
Paulo conhecia aquela mancha.
A filha costumava apoiar a mão sobre o desenho antes de a tinta secar.
Um e-mail chegou.
Paulo não abriu.
O celular vibrou outra vez.
Ele não olhou.
Ficou olhando para o desenho.
A mensagem tinha chegado às 9h02.
Ele a abriu às 11h47.
Duas horas e quarenta e cinco minutos.
Lembrou-se de quando ela era pequena e desenhava pessoas sem mãos.
Perguntava:
— “Cadê a mão?”
Ela respondia:
— “Depois eu faço.”
Nunca fazia.
Agora os desenhos tinham mãos.
Paulo percebeu isso.
Ficou algum tempo olhando para os dedos tortos do personagem que talvez fosse ele.
Depois salvou a foto.
Levantou.
Foi até a janela.
A janela ficava no fim do corredor, entre a copa e o banheiro. Ninguém ia até lá para olhar. As pessoas iam para o banheiro ou para o café.
Paulo foi para olhar.
Lá embaixo, os carros passavam pequenos entre os prédios.
Um ônibus parou no ponto.
Duas pessoas atravessaram a rua.
Uma delas corria.
A outra não.
O céu estava cinza.
Havia uma faixa mais clara perto dos prédios, onde talvez o sol estivesse tentando aparecer.
O vidro da janela devolvia o reflexo de Paulo sobre a cidade.
Camisa azul.
Mangas dobradas.
Uma mão no bolso.
O celular vibrando.
Ele não tirou o aparelho do bolso.
Ficou ali.
Uma risada veio da copa.
Depois, alguém passou pelo corredor falando ao telefone.
Um carro buzinou na rua.
Paulo continuou olhando.
Não aconteceu nada.
Quando voltou para a mesa, o escritório parecia um pouco mais barulhento.
O ar-condicionado.
Os teclados.
As cadeiras arrastando.
Uma impressora trabalhando em algum lugar.
O celular parecia vibrar mais longe do que antes.
Paulo abriu o e-mail.
Respondeu com uma frase.
Abriu o relatório.
Escreveu duas linhas.
Às 14h17, o relatório ainda estava incompleto.
O chefe mandou uma mensagem:
— “Consegue entregar até as 18h?”
Paulo olhou para a tela.
Depois olhou para o desenho.
Tinha impresso a fotografia em algum momento entre a janela e o relatório.
Não lembrava de ter feito isso.
Prendeu o papel ao lado do monitor.
O cachorro continuava parecendo um jacaré.
Paulo sorriu.
Respondeu:
— “Consigo.”
Ficou olhando para a caixa de mensagem.
Digitou outra coisa.
Apagou.
Digitou novamente:
— “Você viu o desenho que ela mandou?”
O chefe demorou.
— “Que cachorro é esse?”
Paulo olhou para o desenho.
— “É um jacaré.”
Alguns segundos.
— “Ah.”
Outra mensagem:
— “Faz sentido.”
Paulo ficou olhando para a tela.
Depois para o desenho.
O chefe mandou mais uma:
— “Minha filha desenhava umas coisas assim.”
Paulo não respondeu imediatamente.
— “Ainda desenha?”
A resposta demorou.
— “Não.”
Depois:
— “Ela tem 26.”
Paulo ficou com o dedo parado sobre o teclado.
— “Entendi.”
O chefe não respondeu.
Nem precisava.
Paulo voltou ao relatório.
― ◈ ―
Às 18h03, entregou o arquivo.
Estava incompleto.
Ninguém percebeu.
Os tigres continuaram ali, em cima e embaixo.
Os ratinhos continuaram roendo.
No caminho para casa, Paulo passou pelo mercado.
Parou diante da seção de frutas.
Pegou um morango.
Ficou olhando para ele.
Não comprou.
Ainda não.
Em casa, a televisão estava ligada.
A filha tinha chegado antes dele.
Dormia no sofá.
Paulo desligou a televisão sem acordá-la.
Ela tinha deixado o desenho sobre a mesa da cozinha.
O mesmo sol.
A mesma casa.
O mesmo cachorro-jacaré.
Paulo aproximou a cadeira.
Sentou.
Ficou olhando.
Não mexeu no desenho.
Não o guardou.
Não tirou outra fotografia.
Deixou ali.
Antes de dormir, apagou a luz da cozinha.
O desenho ficou sobre a mesa.
Para ver de novo amanhã.