sábado, 3 de outubro de 2026

O ANDAR QUE NÃO EXISTE

O ANDAR QUE NÃO EXISTE

Tadeu Everton Zamoiski 

Depois da meia-noite o prédio muda de cheiro.

Não é mofo. Não é cigarro velho de cinzeiro. É mais pesado. Como se alguém tivesse esfregado cinza na parede por décadas.

Eu só queria descer.

O elevador do Alvorada é antigo. Porta de ferro, botão amarelado. Doze andares. Sempre foi doze.

Entrei no térreo. Apertei o 1. A luzinha acendeu. A porta bateu.

No meio do caminho a luz piscou.

Quando voltou, o painel marcava 13.

A porta abriu sozinha.

O corredor estava ali. Carpete rasgado. Parede de um bege que já foi branco. Lâmpada zumbindo baixo. E o cheiro. Mofo, cigarro velho e por baixo, uma coisa doce, azeda. Quase humana.

No meio do corredor, uma cadeira de balanço.

Madeira escura. Braço gasto. Assento afundado.

Ela tava se movendo. Devagar. Sem vento.

Lembrei do porteiro. Anos atrás. Falou sem olhar: nunca aperta o 13 depois que o relógio vira.

Eu não apertei.

Passei pela cadeira. Ela girou um pouco na minha direção. Um rangido seco. Como se alguém se ajeitasse.

Um ar quente passou perto da minha orelha esquerda. O cheiro ficou mais perto.

No fundo do corredor havia uma porta entreaberta. Uma luz fraca por baixo. O tapete que saía dela era igual ao do meu apartamento. Mesma cor. Mesmo gasto no canto direito.

De dentro, alguém falou meu nome.

Não gritou. Só falou.

Corri pro elevador. A porta fechou assim que entrei. Desceu rápido demais. No painel: 12, 11, 10... 13 de novo... 9... depois nada.

Quando abriu, o segurança levantou o olho da revista.

— Subiu até onde?

O relógio da parede marcava 00:16.

Saí. Não respondi.

No dia seguinte o elevador tava normal. Doze andares. Sem botão 13. Sem cadeira.

Cheguei em casa. Enfiei a mão no bolso da calça.

Tinha uma lasca de madeira. Cheirando a cigarro velho. Lisa de um lado. Áspera do outro.

Passei o dedo pela parte áspera.

Reconheci a madeira.

Ainda tá aqui.

A LUZ FALOU

A LUZ FALOU
Tadeu Everton Zamoiski



Acordei com a boca cheia de areia.

O mar ia e voltava a poucos metros. Mais para dentro da mata, um pássaro gritava de vez em quando. Minha camisa estava encharcada e eu estava com um tênis só.

A lembrança do navio voltou aos poucos.

A amurada.

O vento.

As luzes do convés ficando para trás.

Depois, nada.

Levantei e caminhei pela praia. O sol já estava alto. A areia estava quente e a água, limpa. Encontrei uma pequena cachoeira entre as árvores e bebi com as duas mãos.

Não havia ninguém.

Peguei o celular.

A tela estava rachada e acendeu por alguns segundos. Não havia sinal. O relógio estava parado em 23h14.

Tentei ligar.

Nada.

Guardei o aparelho.

No fim da praia, acima das árvores, aparecia o Farol das Conchas.

Eu conhecia aquele farol.

Passei boa parte do dia procurando uma trilha que levasse de volta ao lugar onde o navio poderia me encontrar. Não encontrei. Quando a tarde começou a morrer, a neblina entrou pela mata.

O vento sumiu.

Os pássaros também.

Resolvi subir até o farol.

A trilha estava úmida. Uma cobra atravessou o caminho.

Parei.

Ela continuou imóvel.

Mais adiante havia outra. Depois outra.

Eram muitas.

Nenhuma tentou fugir.

Todas mantinham a cabeça voltada para o alto da ilha.

Para a luz.

Perto de uma curva encontrei uma placa velha presa entre duas estacas. A madeira estava tomada de musgo.

As letras quase tinham desaparecido.

NUNCA PU_E A_ MAR DE_OIS DAS 11

Fiquei alguns segundos tentando completar as palavras.

Não consegui pensar em outra frase.

Continuei.

A porta do farol estava aberta.

Entrei.

Cheirava a ferrugem, maresia e coisa fechada.

Subi a escada.

A luz automática funcionava.

A lente girava devagar, lançando o facho sobre a ilha e depois sobre o mar.

Quando a luz passava pela praia, eu conseguia enxergar tudo lá embaixo.

Quando desaparecia, a praia sumia na neblina.

Foi na terceira volta que vi as pegadas.

Começavam dentro do mar.

Subiam pela areia.

Passavam pelo lugar onde eu tinha acordado.

Depois entravam na trilha.

Não eram minhas.

Eu estava usando um tênis.

Aquelas marcas eram de pés descalços.

A luz voltou.

As pegadas estavam mais perto.

Girei o corpo.

Não havia ninguém.

A lente passou novamente pela praia.

Mais perto.

As marcas tinham avançado.

Não muito.

Uns cinco metros.

Esperei a próxima volta.

Quando o facho apareceu outra vez, as pegadas já estavam diante da porta do farol.

O rádio antigo no canto da sala estalou.

Eu nem tinha percebido que havia um rádio ali.

A caixa chiou.

Depois veio uma voz.

A voz da minha mãe.

"Você pulou depois das onze."

Meu corpo inteiro ficou frio.

Aproximei-me do rádio.

"Mãe?"

O aparelho chiou.

A voz voltou, mais baixa.

"Você não devia ter pulado."

Olhei pela janela.

O mar estava desaparecendo dentro da neblina.

"Quem está falando?"

Durante alguns segundos, ouvi apenas o ruído da estática.

Então:

"Você ainda não voltou."

Desci.

Não lembro de ter aberto a porta.

Só lembro da trilha passando depressa dos dois lados e das cobras desaparecendo entre as folhas.

Cheguei à praia.

O mar estava calmo.

Entrei na água.

A areia foi sumindo sob meus pés.

Continuei.

Quando a água chegou à cintura, ouvi o rádio.

Olhei para trás.

O farol estava muito longe.

Mesmo assim, a voz chegou clara.

Dessa vez não era a voz da minha mãe.

Era a minha.

"Agora pode voltar."

A luz apagou.

Entrei mais fundo.



FIM

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O Cemitério de Guaraqueçaba

O Cemitério de Guaraqueçaba 
Tadeu Everton Zamoiski 
Guaraqueçaba

O cemitério de Guaraqueçaba não tem muro. Não precisa. O mato faz o muro.

Atrás da igreja, onde a rua de paralelepípedo acaba e começa a trilha pro mangue, tem um portão de ferro que não fecha mais. Ferrugem comeu a dobradiça. Ninguém rouba de cemitério. O que tem pra roubar?

Meu nome é Nilo. Tenho 58 anos. Sou coveiro aqui há 23. Não sou coveiro porque gosto de defunto. Sou porque meu pai foi. Meu avô foi. Em Guaraqueçaba, coveiro não é profissão. É sobrenome.

Eu não acredito em assombração. Acredito em conta. Conta de luz. Conta de ter que abrir cova às cinco da manhã porque choveu a semana toda e o barro não deixa. Acredito em dor na coluna. E acredito que defunto não reclama. Vivo reclama muito mais.

Tem uma lápide no canto mais velho. Lápide de pedra preta, daquelas que não são daqui. Alguém trouxe de Paranaguá há muito tempo. Não tem cruz. Não tem foto. Só um nome entalhado torto, como se quem fez não soubesse escrever direito.

Quando eu comecei aqui, em 2003, o nome era ALMERINDA R.

Eu nunca apaguei. Deixei. Almerinda deve ter morrido antes de eu nascer. Deixa lá.

Só que em março desse ano, na terça depois do carnaval, eu cheguei cedo pra capinar. Orvalho no capim, cheiro de terra molhada com mangue. Olhei pra lápide.

Não tava mais ALMERINDA R.

Tava ELIAS R.

Elias Ribeiro. Dono da venda da esquina da praça.

Eu limpei o olho com a manga da camisa. Passei a enxada em cima, de leve, pra tirar o limo. A pedra continuou ELIAS R.

No outro dia, Elias morreu. Infarto na frente da venda. Caiu em cima do saco de arroz.

Na quinta, fui de novo. Não queria ir. Mas fui.

MARLENE C.

Marlene Cordeiro. Professora da creche. 39 anos.

Marlene passou por mim na rua no mesmo dia, com as apostilas na mão. Me deu bom-dia.

Na sexta, Marlene não deu bom-dia. Não voltou de Tagaçaba. Dizem que a moto falhou na curva. Guaraqueçaba diz essas coisas.

Comecei a anotar num caderninho de armazém que eu uso pra contar quantas covas abri no mês. Letra minha, feia, de quem escreve pouco:

Segunda: ELIAS R - morreu. Quinta: MARLENE C - morreu. Sexta: JOÃO P.

João Paulo. Meu sobrinho. 19 anos. Filho da minha irmã.

Eu larguei a enxada no meio do cemitério e corri. Corri descalço quase, pela trilha, até a casa dele.

Ele tava na rede, no celular, descalço, com o pé sujo de mangue.

— Tio Nilo tá suado.

— Não vai pro mangue amanhã. Não vai buscar siri. Fica em casa.

Ele riu. "Tio tá doido. Maré tá boa amanhã".

No sábado, maré baixa. Ele foi.

O mangue puxou. Quem é de Guaraqueçaba sabe. O mangue não é lama. É mão. Quando você afunda o pé, ele segura. João atolou até o joelho. A maré subiu por cima.

Quando acharam, só a cabeça tava pra fora. Como se o mangue tivesse plantado ele.

Enterrei meu sobrinho na cova que eu mesmo abri. Com a mesma enxada que eu capino a lápide. Minha irmã não falou comigo no enterro. Achou que eu roguei praga.

No domingo, não fui no cemitério. Fiquei em casa, com a porta trancada, cheiro de café requentado. Minha mulher perguntou o que eu tinha. Eu não soube explicar.

Na segunda, fui. Tinha que ir. O mato não espera.

A pedra tava limpa. Lavada com água de chuva.

NILO R.

Meu nome. Meu sobrenome torto, escrito do mesmo jeito torto de Almerinda.

Sentei no chão. O chão tava úmido. Minha coluna doeu. Olhei pro portão de ferro que não fecha. Olhei pro mangue. Guaraqueçaba inteira tava quieta.

Tinha um dia.

Pensei em fugir. Pegar o barco pra Paranaguá. Mas a pedra sempre me achava. Ia me achar de novo.

Pensei em quebrar. Peguei a marreta. Levantei. Quando encostei a marreta na pedra preta, a pedra tava quente. Quente por dentro, mesmo com o dia nublado, mesmo com o sereno. Quente como brasa abafada.

Larguei a marreta.

Aí fiz coisa de teimoso. Coisa de coveiro supersticioso.

Se a pedra não quer ficar em pé, então vai pro chão.

Comecei a cavar do lado dela. Um buraco fundo, do tamanho da pedra. Pra enterrar a lápide. Pra enterrar o nome.

Cavei até a camisa grudar nas costas. Até a mão abrir bolha e a bolha estourar e virar sangue com terra preta.

Joguei a pedra preta dentro do buraco. De bruços. Nome pra baixo, pra terra comer.

Tampei. Pisei em cima. Socando com o pé.

Pronto. Acabou.

Fui tomar água no galpão. Quando voltei, cinco minutos depois, a terra tava mexida.

A pedra tava de volta em pé. No mesmo lugar. Só que lisa. Sem nome. Como se nunca tivesse tido nome nenhum.

E do lado dela, a cova velha — aquela que tava fechada há 50 anos com grama por cima, que ninguém abre porque é de criança — tava aberta.

Aberta sozinha. Terra fofa em volta, cheirando a ferro e mangue. Fundo escuro. Do meu tamanho exato.

E dentro, água preta do mangue subindo devagar, borbulhando.

Eu tinha apagado meu nome. Mas Guaraqueçaba não apaga cova.

Fiquei ali olhando a água subir. Se eu corresse, o mangue ia me buscar na trilha mesmo. Se eu ficasse, ia me buscar aqui.

Então fiz a única coisa que um teimoso faz.

Deitei.

Deitei dentro da minha própria cova, com a roupa suja de terra, com a mão sangrando, com cheiro de Almerinda, de Elias, de Marlene, de João.

A água preta do mangue tava fria. Subiu no meu tornozelo. No meu joelho.

Fechei o olho.

A última coisa que ouvi não foi a pedra escrevendo.

Foi o mato crescendo por cima de mim, fazendo o muro.

RIVIERA

RIVIERA 

Tadeu Everton Zamoiski
Matinhos 

Riviera de dia é placa de vende-se. De noite é breu e grilo.

Fui caseiro temporário. Dona de Curitiba me pagou trezentos pra olhar casa três dias. Chave grande, portão de madeira que incha na chuva. Casa de dois andares, cerâmica gelada, cheiro de casa fechada que não sai nem abrindo janela.

Primeira noite luz da rua queimada. Só a minha acesa no meio do escuro. Na frente, outra casa igual, janelas pretas. No muro, placa desbotada: BALNEÁRIO RIVIERA.

Fiquei na varanda com Velho Barreiro. Mar barulho longe. Cachorro magro passou e não latiu.

Segunda noite, de madrugada, barulho de chinelo arrastando na rua. Levantei. Rua vazia, areia úmida. Pegada molhada indo da minha porta pra casa da frente. Molhada, mesmo sem chuva.

Voltei, tranquei.

No espelho do banheiro, marca de mão na porta de vidro por dentro. Pequena, criança. Eu tinha limpado de manhã.

Terceira noite dona não atendeu pra devolver chave. Fiquei.

Deitei e ouvi casa da frente abrir. Porta de correr. Sem luz. Vi da fresta da cortina: mulher de camisola branca na varanda da frente, cabelo preto molhado, parada olhando pra minha casa. Esmalte vermelho descascado.

Não acendi luz. Ela ficou lá meia hora. Imóvel. Depois entrou.

De manhã fui lá. Casa fechada, cadeado enferrujado por fora. Areia na porta sem pegada. No vidro da janela, por dentro, mesma mãozinha. E escrito com dedo: VOLTA.

Voltei pra Curitiba à tarde, deixei chave na imobiliária de Ipanema. Moça nem olhou: "Riviera, né? Sempre deixam antes."

Hoje, três meses depois, acordei de madrugada com chinelo arrastando no corredor da minha casa aqui em Riviera. Tava na rede, olhando o verde do quintal. Sem areia da praia, mas com o mesmo barulho de chinelo na casa.

No espelho do banheiro, marca de mão pequena. Por dentro.

No meu celular, foto que não tirei. Minha rede aqui em Riviera, de noite. O verde do quintal lá atrás. Na rua lá embaixo, mulher de camisola branca olhando pra cima. Esmalte vermelho.

Na legenda da foto, escrita com meu dedo mas não fui eu:

"Você trouxe a chave."

O LADO B

O LADO B
Tadeu Everton Zamoiski
Pontal do Paraná / Praia de Leste

Beira da estrada velha, chão batido
A canção que a criança aprende antes de nascer.

O carro morreu na subida de areia. Não foi dramático. Só fez nhoc e apagou.

Era um Corsa velho, 98, com o banco do carona quebrado pra trás. Eu tinha oito meses de barriga e trinta e sete reais no bolso. O celular sem sinal desde o balneário Shangri-lá. A estrada velha de Praia de Leste, aquela que ninguém usa mais depois que asfaltaram a outra.

O Beto me achou às cinco da tarde. Me deu dois tapas porque eu queimei o arroz. Na segunda ele jogou o prato na parede. Na terça disse que se eu fosse embora ia me achar. Na quarta eu fui.

Dirigi quatro horas com a calcinha molhada de medo e a bexiga apertando o bebê. Agora o carro não ligava. A chave virava e nada.

Na minha frente, uma luz amarela. Um bar.

Não tinha nome. Só um quadrado de madeira com telha de Brasilit, chão de terra batida mesmo, compactada de tanto pé. Uma lâmpada nua pendurada por um fio. Uma mesa de madeira crua com marca de cigarro. Um freezer velho desligado.

E uma jukebox.

Wurlitzer. Daquelas grandes, com plástico bolha na frente, luz que gira. Só que suja, cheia de barro seco na base. Não tava ligada na tomada. O fio atrás tava cortado, enrolado.

O velho atrás do balcão não perguntou nada. Devia ter uns oitenta anos, pele de couro. Me olhou de cima a baixo, olhou minha barriga, e só fez que sim com a cabeça.

— Tem água? — eu perguntei.

Ele me deu um copo de plástico com água morna. Cheirava a poço.

Eu sentei. O banco de madeira tava quente do sol do dia todo. Minhas pernas incharam. Minha calça legging grudava.

— Seu carro?

— Morreu.

— Amanhã o guincho passa. Se passar.

Eu comecei a chorar. Sem som. Só as lágrimas descendo.

Foi aí que a jukebox acendeu.

Sozinha.

Click. Uma luzinha fraca. O disco de dentro começou a girar. Não tinha ficha. Não tinha ninguém perto.

E tocou.

Não era sertanejo, não era rádio. Era uma valsa. Lenta. Piano velho e uma mulher cantando baixo, em português mas com sotaque esquisito, como se fosse de muito antigamente.

Dorme, meu bem, dorme no fundo...

Quando o primeiro acorde fez pam-pam-pam, o bebê chutou.

No tempo.

Eu levei a mão na barriga automaticamente.

— Ai.

O velho me olhou.

— Ela gostou.

— O que é isso?

— Lado B.

A música continuou. E o bebê continuou marcando. Cada nota grave do piano, um chute. A voz da mulher fazia um vibrato e o bebê virava dentro de mim.

Me deu ânsia. Aquela sensação de corpo invadido que você tem a gravidez inteira mas tenta não pensar. De que tem uma coisa viva usando seu corpo por dentro. Agora essa coisa tava ouvindo música antes de nascer e dançando.

— Desliga isso — eu falei.

— Não desliga.

Ele enxugou um copo com um pano sujo.

— De onde veio essa jukebox?

— Veio da praia.

Ele apontou pra estrada, pro lado do mar que a gente não via. Só isso.

— Tinha uma vila ali. O mar comeu.

A valsa repetia. Eu comecei a entender a letra, porque a mulher cantava bem arrastado, bem perto do microfone:

Dorme, meu bem, dorme no fundo Onde o mar não faz barulho Mamãe te leva pro profundo Onde nenhum homem te machuca

Minha espinha gelou. O bebê chutou mais forte.

O velho disse, sem eu perguntar:

— Cantavam pra dormir. Antes de levar.

Eu vomitei. Água morna e bile, no chão batido.

O bebê não parou.

— Por que tá tocando pra mim?

Ele olhou pra minha barriga.

— Ela sabe.

— Eu não vou fazer nada com meu filho!

Ele não respondeu. Só secou o mesmo copo de novo.

— Nenhuma delas ia.

A jukebox aumentou o volume sozinha. A lâmpada nua começou a piscar no ritmo. O chão batido vibrava.

Senti uma contração. Forte. Falsa, eu achei. Só que veio outra em cima. E água. Minha calça molhou de vez.

— Minha bolsa...

— Já vi isso antes — ele disse, baixo. E olhou pra estrada. Não disse mais nada.

A dor rasgou de um lado ao outro da minha barriga. Eu caí de joelhos no chão batido. Terra entrou na minha unha. A valsa tava no refrão de novo. E o bebê se mexia como se quisesse sair no tempo exato.

Dorme, meu bem, dorme no fundo...

Eu gritei. Não de dor de parto. De ódio. Peguei uma pedra do chão — terra dura — e taquei na jukebox.

O plástico quebrou. A luz faiscou. A música arranhou, ficou lenta, voz de mulher arrastada como disco molhado.

O bebê parou de chutar.

Silêncio.

Só minha respiração e o chiado da jukebox morrendo.

Aí a dor voltou, mas era minha agora. Era parto mesmo. Sem música. Sem ritmo.

— Me ajuda! — eu gritei pro velho.

Ele finalmente saiu de trás do balcão. Se ajoelhou com dificuldade. Tinha uma toalha imunda no ombro.

— Faz força.

Eu fiz. Na terra. No chão batido de um bar sem nome na estrada velha de Praia de Leste, com 37 reais no bolso e sem marido pra me bater nunca mais.

Empurrei. Gritei o nome da minha mãe que morreu quando eu tinha 12. Empurrei de novo.

O bebê saiu. Escorregou na terra. Vermelho, sujo de sangue e de barro. Chorou alto. Choro de pulmão bom.

O velho cortou o cordão com um canivete.

Eu peguei ele. Menino. Coloquei no peito. Ele cheirava a mar, mesmo o mar estando a dois quilômetros.

Fiquei ali deitada, sangrando no chão batido, com meu filho no colo.

A jukebox deu um último estalo. Uma faísca.

E tocou de novo. Baixinho. Só um pedaço.

Onde nenhum homem te machuca...

O menino, no meu colo, com menos de um minuto de nascido, parou de chorar.

E cantarolou.

Hmm. Hmm. Hmm.

Do lado de fora, mesmo sem vento, ouvi o mar.

Mesmo longe, ouvi a onda quebrando. E parecia que quebrava no ritmo.

Pam-pam-pam.

Ele respondeu.