sexta-feira, 9 de outubro de 2026

A Dobradiça na Paraná

A Dobradiça na Paraná
Tadeu Everton Zamoiski 
Caiobá

Meu avô jurava que foi ele quem abriu o canal da Avenida Paraná. Falava cuspindo o fumo de corda, com aquela empáfia de quem meteu o facão no mato e achou que virou dono da terra. Dizia que antes dali não tinha nada: nem rua, nem calçada, nem casa com laje batida. Só lama, maré cheia e um silêncio grosso de mangue. Primeiro o canal, ele repetia. Só depois a cidade veio em cima.

E que “não mexe onde já está mexido”, ele resmungava de cara amarrada quando a gente era moleque e tentava cavar buraco fundo na beirada da vala. Na época, a gente achava que era manha de velho. Hoje eu sei que ele não era o pioneiro de porra nenhuma. Ele era o carcereiro. O velho sabia perfeitamente o que a gente pisava em cima; só preferiu inventar a história da fundação para ninguém ter a curiosidade de olhar para baixo.

Eu mergulho naquele trecho desde os doze anos. Conheço cada palmo daquele fundo como se fosse a palma da minha mão calejada. Sei onde tem linguado entocado, onde o toco de bracatinga está preso no lodo, onde a pedra de contenção cedeu. Todo mês de junho, na ressaca de sul, quando a prefeitura chama a turma para a limpeza de rotina antes das chuvas, sou eu quem desce. É trabalho braçal, sujo, na água barrenta e gelada.

Até o dia em que a lâmina da minha espátula bateu em seco.

Não era pedra. Não era o concreto cinzento e remendado da última engorda de praia. Era madeira.

Passei a mão enluvada pelo limo grosso, limpando a craca com cuidado. Meus dedos tatearam as ranhuras de uma porta. Uma porta de verdade, com uma maçaneta de ferro pesado, gasta e redonda como uma castanha grossa, e dobradiças fundidas que o tempo tentou comer, mas não conseguiu. Estava embutida ali na alvenaria submersa, a uns dois metros de profundidade.

Segurei firme na maçaneta. Ela girou com um rangido abafado pela pressão. Puxei.

Na mesma hora, a água barrenta do canal deu um puxão, rodopiando num vácuo rápido. Mas o que apareceu do outro lado não foi o breu do fundo. Era ar.

Aproximei o visor de vidro, apertei o rosto contra o batente e respirei fundo pelo regulador. Vi um corredor de tijolos aparentes, secos, iluminados por uma claridade suja, que não vinha de sol nenhum. Tirei o bocal por um segundo, engoli aquele ar velho, cheirando a mofo e madeira antiga, e empurrei o corpo para dentro.

Fiquei de pé. O chão sob minhas botas era de terra batida, totalmente seca. Olhei para trás: a porta estava aberta para o verde escuro e barrento do canal de Matinhos, mas a água não caía para o corredor. Ficava presa ali na soleira, como uma respiração presa.

Dei três passos e saí na margem da Riviera de Baixo.

O canal estava ali. Era o mesmo. A mesma largura exata, a mesma curva suave buscando a maré. Mas a ponte que cruzava a água não era de concreto cinzento com nome de político e pichação de torcida. Era de toras grossas de madeira preta, encharcadas de chuva antiga.

Olhei para as margens. Não tinha sobrado, não tinha placa de aluguel de temporada. Eram casebres de tábua tosca, com rede estendida na varanda e lampiões amarelos acesos nas janelas, bem no meio do dia. As árvores... figueiras bravas gigantescas, guabirobas imensas que ninguém na Riviera de hoje viu em pé.

Mais à frente, na penumbra de uma das varandas, ouvi o arrastar abafado de um pé descalço na terra batida. Um assobio curto, antigo, que cortou o silêncio.

Uma tontura funda me pegou pelo estômago. Dei meia-volta, corri pelo corredor, atravessei a porta e me joguei de volta na água turva. Fechei a folha com toda a minha força até ouvir o baque abafado e subi à tona, cuspindo o gosto amargo de lodo e ferro, puxando o ar do mundo real com desespero.

Joguei o casco na lancha, tirei a máscara e fiquei ali, sentado no banco de alumínio, tremendo que nem vara verde. Em casa, tentei lavar o rosto com água quente e sabão azul. Não adiantou. O cheiro de lodo seco ficou grudado no meu nariz a noite inteira. E, no meu ouvido esquerdo, a água continuava batendo — um eco grosso, como se o mar de lá debaixo estivesse tentando subir pelo meu pescoço.

No dia seguinte, voltei cedo, com a maré bem baixa.

A porta estava entreaberta. Exatos dez centímetros.

Mergulhei com o corpo tenso, o suor frio misturado com o sal. Olhei para a régua de medição de cheia fincada perto do molhe, aquela que a prefeitura usa todo ano. O nível da água no canal de cima tinha baixado dois centímetros exatos da véspera para hoje. Como se a nossa vala estivesse esvaziando por dentro, pingando devagarzinho para alimentar o mundo que ficou embaixo.

Dois centímetros a menos hoje. Quinze centímetros a mais de abertura na porta. A Riviera de cima está secando, esvaziando ralo abaixo, e a conta não vai demorar a fechar.

Olhei para as camadas da parede do canal à minha volta. O concreto novo da engorda de praia. Mais abaixo, a alvenaria batida nos anos 70 pelo meu avô. E, cortando o fundo, atravessando os tijolos antigos, o topo de um tronco queimado de uma cerca que nunca esteve nos mapas.

A Riviera nunca foi a primeira Riviera.

Meu avô não foi o primeiro a cavar. Ele foi só o que encontrou a maçaneta da vez, fechou a cara e mentiu para a gente dormir em paz.

Mas em junho do ano que vem tem limpeza de novo. E não vai ser eu quem vai descer. Vai ser outro guri de doze anos. E a porta vai estar esperando por ele, dez centímetros mais aberta.

O Loteador

O Loteador
Tadeu Everton Zamoiski
Pontal do Paraná

Em Pontal do Paraná, ninguém pergunta de onde vem o nome das ruas.

Rua das Gaivotas. Rua das Palmeiras. Rua dos Coqueiros. Rua dos Ipês. Nomes de postal. Eu morei na Rua das Gaivotas, casa 47. Vinte anos. Nunca vi uma gaivota ali. Meu marido dizia que era porque gaivota não lê placa. Eu ria.

Shangri-lá parece nome de lugar inventado. Mas tem placa. Tem CEP. Tem gente morando.

Sempre achei isso normal. Até o dia em que fui na prefeitura resolver uma coisa de IPTU e a moça do balcão me disse que a minha rua não existe.

— Como assim não existe?

— Não está no cadastro, dona. A senhora tem certeza que é essa rua?

Mostrei a escritura. Mostrei o carnê. Mostrei a conta de luz. Ela olhou tudo. Chamou outra moça. Chamou o supervisor. O supervisor pegou os papéis, conferiu o endereço, conferiu de novo. Depois olhou pra moça. Depois olhou pra mim. Ninguém disse nada.

— A senhora não é a primeira que vem com esse problema — falou a moça, baixinho, quando o supervisor saiu.

— E o que aconteceu com as outras?

Ela começou a arrumar umas pastas em cima do balcão. Não me olhou mais.

Fui pro cartório. Mesma coisa. Fui na imobiliária. O corretor riu.

— Rua das Gaivotas? Aqui não tem Rua das Gaivotas, dona.

— Tem sim. Fica entre a das Palmeiras e a dos Coqueiros.

Ele abriu um mapa no computador. Não tinha.

Fui pro Google. Digitei. Nada. Digitei casa 47, Shangri-lá. Nada. Olhei pela janela. A rua estava lá. A calçada, os vizinhos, o cachorro do seu Nilton latindo como sempre. Estava tudo lá. Mas não estava em lugar nenhum.

Fiquei uns dias sem falar disso. A gente faz isso, né. Acha que é cansaço, que é a idade. Toca a vida. Lava a louça. Vai no mercado.

Fui na casa do seu Nilton. Ele mora hier desde os anos 80. Perguntei se ele sabia quem tinha loteado a rua.

— Isso aqui era tudo areia, dona. Quando eu cheguei, não tinha nem poste.

— Mas quem dividiu os terrenos?

— Vieram uns homens de Curitiba. Venderam. Foram embora.

— E como era?

Ele ficou olhando o mato. A gente olha o mato quando tá procurando memória.

— Tinha um. Magro. De terno. Andava com uma pasta de papelão. Dizem que ele desenhava as ruas no papel. E depois a rua aparecia.

— Como assim aparecia?

— Sei lá, dona. Foi o que me falaram.

Dona Marlene, da casa ao lado, contou outra versão. Disse que o homem não andava com pasta. Andava com um caderno. E que ele não vendia terreno, doava. Dizia que a cidade ia ser dele depois, de qualquer jeito. Que ele só tava esperando o papel terminar.

— A senhora lembra o nome dele?

— Não. Só as iniciais. A. L.

Procurei A. L. em tudo. Registro de imóvel, arquivo de jornal, ata de prefeitura. Nada. Como se o homem nunca tivesse existido. Como se as ruas tivessem aparecido sozinhas, com nome e tudo.

Uma tarde, voltando do mercado, peguei um caminho diferente. A Rua das Palmeiras termina num descampado, depois tem um matagal, depois tem uma casa. Casa velha, sem número, sem caixa de correio, sem luz acesa. Nunca tinha reparado. Naquela tarde, reparei.

Bati.

Abriu um velho. Muito velho. Magro. De terno. Terno cinza, gasto, mas passado.

— Pois não?

— Boa tarde. Eu tô procurando uma pessoa. Não sei o nome, só as iniciais. A. L.

Ele me olhou por um tempo. Não com surpresa. Com paciência. Como quem já esperava.

— Entra.

A casa por dentro era só uma sala. Sem sofá, sem mesa de jantar, sem nada. Só uma mesa grande, de madeira, no meio. Em cima da mesa, papel. Muito papel. Mapas, plantas, desenhos. E um caderno grosso, capa preta, aberto, com uma caneta do lado.

A madeira da mesa tinha marcas. Não riscos de uso. Marcas de lápis. Uma linha atravessava a mesa de uma borda à outra e continuava pela quina, descendo pela lateral.

— A senhora mora onde?

— Rua das Gaivotas, 47.

Ele assentiu. Folheou o caderno. Cada página era um balneário. Vi Shangri-lá. Vi Ipanema. Vi Atami. Vi Riviera. Ruas desenhadas a lápis, com nome, com número, com quadra, com lote. E em cada rua, em algum lugar, em letras pequenas, ele tinha escrito um nome.

— Isso aqui é a senhora.

Ele apontou. Rua das Gaivotas, número 47. Ao lado do número, escrito a lápis, estava o meu nome. Ana. Não o nome da rua. O meu.

Olhei pro mapa. A rua desenhada no papel fazia uma curva. A linha da mesa fazia a mesma curva, no mesmo lugar.

— Eu não escolhi morar aqui.

— Ninguém escolhe. Eu escrevo, e depois alguém mora.

Fiquei olhando o caderno. Virei umas páginas pra trás.

Rua das Gaivotas, casa 47. Ao lado do meu nome, o nome do meu marido. Sebastião. Embaixo do nome, em letras menores, uma observação. Gosta de pescar de madrugada. Só volta quando o sol nasce.

Ninguém sabia disso. Nem a minha filha. Era uma coisa nossa. Ele saía às três, voltava às sete, com o balde cheio ou vazio, tanto faz. Eu esperava com café pronto. Ele morreu há oito anos. No primeiro ano, eu continuei fazendo café pra dois. Depois parei.

Quando eu levantei os olhos do caderno, o velho estava olhando pra página. Não pra mim. Pra página. Especificamente pro nome do Sebastião. Passou o polegar por cima do nome. Devagar. Como quem confere se a escrita ainda está ali.

Ficou um tempo. Eu não disse nada. Ele não disse nada. A sala ficou quieta. Só o barulho do mato lá fora. Depois ele pousou os olhos em mim de novo, como se nada tivesse acontecido.

A caneta dele continuava na mesa. Do lado do caderno. Em cima de uma folha em branco.

— Por que a senhora tá aqui?

— Porque a minha rua não existe.

— Existe. No papel.

— E fora do papel?

Ele não respondeu. Pegou a caneta. Ficou olhando a página. A ponta da caneta ficou suspensa a um dedo do papel. Ele não apagou nada. Passou uns segundos assim. Depois pousou a caneta de novo. Alinhada com a borda do caderno.

— Ainda faltam três balneários.

— O quê?

— A cidade só vai existir de verdade quando eu terminar. Ainda faltam três. Depois disso, eu paro.

— E aí?

— E aí vocês existem sem mim.

Saí dali sem saber o que pensar. Voltei pra casa pela Rua das Gaivotas. Cumprimentei o seu Nilton. Passei a mão no cachorro dele. Entrei em casa. Fiz o jantar. Lavei a louça. Sentei na varanda.

No dia seguinte, a Rua das Palmeiras não terminava mais no mesmo lugar. Terminava um pouco antes. O matagal tinha mudado de tamanho. A casa sem número não estava mais lá. Ou estava, e eu não vi.

Fui de novo. Não achei. Fui de novo. Não achei.

Perguntei pro seu Nilton se ele lembrava da casa no fim da rua.

— Que casa?

Perg perguntou pra dona Marlene se ela lembrava do homem do caderno.

— Que homem?

Fui até o quintal. Procurei o pé de limão que o Sebastião tinha plantado no ano em que a gente se mudou. A gente esfregava as folhas entre os dedos só pra sentir o cheiro. Não tinha mais. No lugar, tinha uma garagem. Cinza, de bloco, com portão de ferro. Nova. Nunca tinha visto aquela garagem na vida.

Voltei pra dentro. Abri a gaveta da cômoda. O papel amassado com a letra dele ainda estava lá. Não tinha rua. Não tinha número. Tinha só meu nome. Ana. E embaixo, escrito a lápis, com aquela caligrafia antiga: Ainda não terminei.

Fiquei um tempo com o papel na mão. Depois fui ver a escritura.

Rua das Orquídeas, casa 12.

Fui ver as fotos. Todas na Rua das Orquídeas, casa 12.

Olhei pela janela. A rua não era mais das Gaivotas. Nunca tinha sido. Sempre foi das Orquídeas.

Liguei pra minha filha.

— Filha, você lembra da casa antiga? Da Rua das Gaivotas?

— Que Rua das Gaivotas, mãe?

— Aquela rua. Onde você cresceu. Onde o seu pai pescava.

— A gente sempre morou na Rua das Orquídeas. Casa 12. Tem foto.

— Você lembra do seu pai saindo de madrugada?

— Ele pescava, mãe. Saía de manhã, voltava de tarde.

Fiquei um tempo com o telefone no ouvido. Ela perguntou se eu tava bem. Eu disse que sim. Desliguei.

Fui até a cozinha. Abri o armário. Peguei o coador. Fiz café.

Um café só.

Apoiei as costas no balcão, do jeito que eu sempre ficava. O lugar onde o Sebastião encostava pra tomar o café dele de manhã. A marca do copo dele na pedra. A mancha redonda, de tanto ele apoiar o copo no mesmo lugar. Eu esfregava e não saía.

Não tinha mais.



Em Pontal do Paraná, ninguém pergunta de onde vem o nome das ruas. As ruas vão aparecendo. A gente vai morando.

Eu moro na Rua das Orquídeas, casa 12.

Só que às vezes, quando ninguém tá olhando, eu vejo uma gaivota na esquina. Uma só. Parada. Me olhando.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

O Filho do Verão

O Filho do Verão

Tadeu Everton Zamoiski 

Antes do cheiro, o rangido.

Minha avó dizia que era o espírito da casa reclamando visita. Eu ria. Naquela manhã de julho, com a chave ainda na mão e o pé no batente, não ri.

O cheiro veio depois. Maresia com cera de móvel. Um resto de fritura que nunca sai das paredes. Fechei os olhos ali, parada, sem saber se entrava ou se voltava para o carro. Vim para vender. Vim para encerrar. Mas a casa não sabia disso.

Matinhos em julho é uma cidade que parece ter sido abandonada às pressas. As casas fechadas, os toldos recolhidos, as cadeiras de praia empilhadas atrás dos portões. O calçadão intacto, esperando uma multidão que só chega em december. Caminhei até a praia na primeira manhã. O mar estava cinza. A areia, dura. Nenhuma pegada. Nenhuma criança com balde na mão.

Voltei pela Rua das Acácias, a mesma rua de todos os verões da minha infância. Casa 112, 114, 116. Todas fechadas. Na casa 118 — a dos Ribeiro, portão azul, pé de pitanga no quintal — tinha uma menina sentada na calçada.

Uns sete anos. Cabelo molhado. Pés descalços. Um vestido amarelo.

Ela desenhava no chão com giz branco. Não olhou para mim. Continuei andando, devagar, e quando olhei para trás, não estava mais lá.

Passei o dia na casa. Abri armários, separei coisas para doar, coisas para jogar fora. Encontrei fotos. Muitas. Minha mãe, meu pai, meus tios, todos na praia, todos sorrindo. Em uma delas, eu tinha uns oito anos. Vestido amarelo. Ao meu lado, outra menina. Mesmo vestido. Mesmo cabelo. Eu não lembrava dela. Nunca tinha visto aquela foto.

Liguei para minha mãe.

— Mãe, quem é a menina da foto? A que está do meu lado, na praia, na foto de 1998?

Silêncio.

— Que menina, Helena?

— A de vestido amarelo. Igual ao meu.

— Você estava sozinha nessa foto.

Pesquisei no celular. Crianças desaparecidas Matinhos. Matinhos verão desaparecimento. Nada. Nenhuma notícia, nenhum registro, nenhum boletim de ocorrência. Liguei para o corretor, perguntei se ele conhecia a rua, se sabia de alguma coisa estranha na região. Ele riu.

— Matinhos é tranquilo no inverno, dona Helena. Não tem ninguém. É até bom.

Naquela noite, ouvi vozes.

Finas, agudas, de criança brincando. Vinham de fora. Abri a janela do quarto. A rua, vazia. Mas as vozes continuavam. Vinham da casa 118. Do portão azul trancado, do quintal murado, do escuro.

Fechei a janela. Tranquei. Deitei. Fiquei acordada até o sol nascer.

No dia seguinte, fui ao mercado. Quase vazio. Só uma senhora idosa, escolhendo tomates. Ela me olhou de um jeito estranho.

— Você é filha de quem? — perguntou.

— Sou neta da Dona Cida. Da casa 114.

Ela assentiu devagar. Pegou um tomate, pesou na mão, devolveu.

— A Cida era boa gente. Sentiu muito quando a menina foi embora.

— Que menina?

— A sua mãe. A que tinha uma pinta na perna igual a sua. Quando ela foi embora daqui, a Cida nunca mais foi a mesma.

Minha mãe nasceu em Curitiba. Nunca morou em Matinhos. Nunca teve pinta na perna. Eu tenho. Desde criança. Ninguém além da minha família sabia disso.

Abri a boca para corrigir a senhora. Ela já tinha virado as costas.

Na volta, vi mais crianças. Duas meninas pulando amarelinha na calçada em frente à casa 122. Um menino de bicicleta, dando voltas na esquina. Um grupo pequeno na mureta do calçadão, olhando o mar. Todas com o cabelo pingando. Em julho. Sem um arrepio.

Corri para casa. Tranquei a porta. Sentei no chão da sala, com as costas na parede. As fotos na parede tinham mudado.

Não todas. Algumas. Em uma delas, eu estava na praia, com uns seis anos, segurando um balde. Ao meu lado, a menina de vestido amarelo. Ela sorria. Eu não. Eu olhava para a câmera com uma expressão que não reconhecia.

Fui até o quarto. Abri o armário. Numa sacola plástica, dobrado, o vestido amarelo. O meu. Guardado há vinte anos. Peguei na mão. O tecido estava frio. Mas não frio de armário fechado. Frio de mar.

Desci ao porão com a lanterna do celular. Encontrei o baú. Madeira, ferrugem nas dobradiças. Abri.

Dentro, um caderno. Capa preta, páginas amareladas. Letra miúda. Comecei a ler. Nomes. Só nomes. "Maria." "João." "Ana." "Pedro." "Luísa." Sem idade, sem data. Só nomes, uns embaixo dos outros, em letras diferentes. Algumas páginas rasgadas. Outras com contas de barracas de milho, anotações de compras, um desenho de sol. No meio, uma lista de compras: "arroz, feijão, açúcar, giz."

Virei a página. No alto, uma data: 15 de janeiro de 1952. Embaixo, um nome. Maria. Virei. 15 de janeiro de 1953. João. Virei. 15 de janeiro de 1954. Ana. Sempre 15 de janeiro. Sempre uma criança. Sempre em Matinhos.

As últimas páginas estavam em branco. Ao lado do caderno, uma caneta esferográfica azul, dessas baratas. Peguei na mão. Estava quente.

Fechei o baú. Subi as escadas. Sentei na cama. Olhei para a caneta. Pensei em fechar o baú, pegar as chaves e ir embora.

Mas as vozes voltaram. Desta vez, vinham de dentro de casa. Do corredor. Do quarto da minha avó. Do espelho.

Olhei para o espelho.

Ela estava atrás de mim.

Cabelo molhado. Pés descalços. E, no rosto, a mesma expressão da foto. A que eu não reconhecia.

Não vim para vender a casa. Vim para preencher a última página.

Não sei explicar como sabia. Mas sabia. Como se a informação sempre tivesse estado ali, guardada em algum lugar dentro de mim. Eu era uma daquelas crianças. Uma das que não voltaram. Uma das que ficaram.

Lembrei. Não de tudo. Mas de pedaços. Do cheiro de bronzeador Cenoura & Bronze. Do gosto de sacolé de milho. Do som de risada na areia. E da sensação de correr na direção do mar, cada vez mais fundo, cada vez mais longe, enquanto alguém chamava meu nome atrás de mim — e eu não parava.

Não por rebeldia. Por alegria. Porque o verão nunca acaba quando você é criança. Você acredita que vai durar para serpre. Que a praia é sua. Que o mar é seu. Que aquele momento não vai terminar.

E, para mim, não terminou.

Eu fiquei ali. Na beira da água. No som do mar. No calor do sol. Enquanto todos os outros voltavam para casa, para a escola, para a vida. Eu fiquei. E a cidade, sem saber o que fazer com uma criança que não voltou, esqueceu. Apagou meu nome dos registros. Disse que eu tinha ido embora mais cedo. Que não vim naquele ano. Que nunca existi.

Mas eu existi.

Eu existo.

E agora eu sei.

A caneta na minha mão era um convite. Uma permissão. Eu podia escrever meu nome. Podia me contar. Podia voltar a ser lembrada. Podia deixar de ser um vazio entre duas páginas e me tornar uma linha, uma data, uma história.

Olhei pela janela. As crianças estavam todas ali, na rua, paradas, olhando para a minha casa. Dezenas delas. Todas as que ficaram. Todas as que ninguém contou. Esperando.

Esperando que eu fosse a primeira.

Abri o caderno. Peguei a caneta. E escrevi.

"Eu, Helena, 8 anos, no ano em que a casa 114 ficou vazia. Voltei."

Quando terminei, o ar da casa mudou. Ficou mais leve. Mais quente. Cheirava a bronzeador Cenoura & Bronze.

Lá fora, as crianças começaram a sorrir. Uma a uma. E depois, uma a uma, começaram a desaparecer.

Fiquei sozinha. Olhei o caderno. Minha linha estava lá, escrita com a minha letra. E, embaixo dela, outras linhas começaram a aparecer. Nomes. Idades. Datas. Todas as crianças que eu tinha visto. Todas as que não tinha visto. Todas as que ainda esperavam.

O caderno estava se preenchendo sozinho.



Na cidade, ninguém nunca soube explicar por que, a partir daquele ano, o verão em Matinhos começou a durar mais. Não nos calendários. Nos registros. Nas fotografias. Nas memórias. As crianças que voltavam em dezembro e partiam em março começaram a aparecer nas fotos de julho. Nas praias vazias. Nos calçadões desertos. De vestido de verão, cabelo molhado, pés descalços. Ninguém sabia dizer de quem eram. Ninguém sabia dizer seus nomes.

Uns chamam de Filho do Verão. Os antigos chamam de Os Que Ficaram.

Em Matinhos, no dia 15, não se deixa balde na areia. As mães chamam as crianças para dentro às 17h. Ninguém aluga casa na Rua das Acácias.

Até hoje, na casa 118, tem giz branco no chão. Mesmo quando chove.

E, a cada 15 de janeiro, Matinhos tem uma criança a mais.

Sereia da Ilha do Mel

Sereia da Ilha do Mel
Tadeu Everton Zamoiski
Ilha do Mel

Eu não vim por causa da lenda. Vim fugir dela.

Ilha do Mel é fortaleza velha, pousada de quatrocentos reais a diária e turista de Curitiba pisando em pedra com chinelo. E no meio tem a Gruta. Todo caiçara conta: mulher bonita canta, homem entra e some.

Eu sou biólogo. Trinta e quatro anos. Doutorado atrasado em dois anos, bolsa cortada, mulher me largou em Pontal falando que eu só sei contar boto. Vim pra cá com um Tascam emprestado e um hidrofone chinês. Cético não. Fudido.

Do tipo que limpa o gravador com a camisa pra parecer profissional. Inventei "pesquisa de campo na Ilha" pra não ouvir o áudio da minha orientadora falando que eu sou "um menino muito esforçado, mas sem rigor". Eu tinha nojo de mim ali, agachado, com a barraca de setenta reais e o gravador que não era meu.

Acampei a quarenta metros da Gruta. Lua cheia. Branca que nem lâmpada de banheiro público.

Biólogo aprende uma coisa: todo som que você não entende, seu cérebro inventa que é canto.

22h47. Liguei o gravador.

Não veio canto.

Veio um zumbido. Grave. Não no ouvido. Na canela. Subiu pela areia molhada, entrou pela sola da bota e grudou atrás dos dentes. Gosto de ferro, de moeda chupada. Cheiro de areia úmida com suor preso.

Meu estômago embrulhou. Não de medo. De alívio.

Falei alto pra me ouvir: "É vento na fenda". Minha voz saiu fina. Eu sabia que era mentira.

Levantei. Fui.

A boca da Gruta de dia é pra foto. De noite ela respira. A água bate lá dentro e volta com um segundo de atraso, batendo no limo.

Entrei. O zumbido ficou mais alto. Dentro da cabeça. Atrás dos olhos. O gosto não saiu.

E vi eles.

Trinta e poucos. Sentados em círculo.

Não tinha sereia. Tinha um cara de bermuda de tactel e Rider arrebentada, com a unha do polegar crescida por baixo da tira. Pele oleosa, crosta de lágrima seca. Do lado, um fardado da Marinha com o quepe no colo, de 1940. Do lado, um menino de dezesseis de uniforme do Estadual.

Todos vivos. Peito subindo e descendo. Fedendo a gente fechada. Tinha gente com a barba crescida por baixo da camisa.

Olhos abertos. Fixos numa mancha de limo na parede.

Gritei: "Ei!"

Ninguém piscou.

Encostei no de bermuda. Bati no ombro. Quente. Úmido. O olho tava seco por fora, fosco. Por dentro cheio d'água. Um filete fino escorria sem ele piscar, misturando com a baba seca no canto da boca.

Aí entendi.

Eles não foram levados. Eles sentaram.

A pedra não canta. Ela desliga. Ela espera.

O de bermuda chorava. Sem parar. Sem barulho. O corpo esqueceu de parar de chorar.

Senti inveja. Não atração. Uma inveja nojenta. Tesão sujo por desistir.

A mancha de limo na minha frente ficou nítida.

Vi minha ex imitando minha voz fina. Todo mundo rindo. Vi a tese com o título idiota.

E pela primeira vez não doeu.

Pensei: é só dobrar o joelho.

Meu joelho dobrou sozinho. O peso saiu. O ar desceu.

Sentei no círculo. Entre o de bermuda e o menino. A pedra tava quente. Quente de gente.

Ficou morno. Quieto.

Lá fora meu gravador ficou ligado. Uma hora de vento. O único registro que sobrou de mim.

Não tem sereia na Ilha do Mel. Tem uma boca na pedra que aprendeu a imitar silêncio. Ela não te come. Ela te guarda. Guardar é armazenar.

Não vim por causa da lenda.

Tô aqui. Com eles. De olho aberto.

Se você vier em lua cheia e sentir gosto de ferro atrás dos dentes, não entra. Se entrar e ver o círculo com um lugar vazio... Não olha pra mancha.

Ciúme meu.

O Último Trem para Morretes

O Último Trem para Morretes
Tadeu Everton Zamoiski Morretes

Eu não acredito em assombração. Eu acredito em gente que finge que não viu.

41 anos nessa merda de serra. Maquinista, foguista, manobreiro, o que precisasse. Comecei limpando trilho e terminei com a coluna toda fodida e quase surdo do ouvido esquerdo.

Achei que essa seria só mais uma.

Hoje a Marli nem fez marmita. Largou um pão duro na mesa. A mesma mulher que em 92 me esperava na estação de Alexandra com o nosso guri no colo, hoje só falou: "vê se morre logo nessa última". Eu achei que ela tava falando da viagem.

Eu pedi o extra. Ninguém queria. Uma composição extra, Paranaguá-Morretes, 02:17 da madrugada, fora da grade. Consegui porque sou o único velho idiota que ainda sabe fazer essa curva no escuro. Naquela serra, maquinista velho aprende uma coisa: depois que você entra, sempre tem que chegar do outro lado.

Entrei na serra e a serra me trancou.

Não era neblina. Era úmido. Gelado. Entrou pela fresta da janela e grudou na minha pele. O farol não cortava. O vidro suava por dentro. O rádio chiou e falou com a voz da menina.

... por que você não parou, moço? ...

No painel, o relógio travou. 03:00.

A luz amarela: RIO SAGRADO.

Morta desde 97. Eu vi o mato comer. Mas tava acesa.

A porta lá atrás rangeu. Abriu sozinha.

Dona Cícera entrou. Bala de banana. Atropelada em 78. Eu achei o corpo. No bolso dela tinha três balas. Eu peguei. Ela sentou na primeira poltrona. Me olhando.

O trem andou. Tac-tac.

Dez minutos. A mesma luz amarela na curva. Rio Sagrado de novo. Só que agora o relógio piscava. 03:00.

Meu pai entrou. Uniforme da RFFSA com o rasgo no bolso. Morreu me chamando em 91. Eu tava no bar.

Depois, Alexandra. O relógio já não piscava mais. Estava fixo. Queimado em 03:00.

Jorge entrou. Pingando. Água preta do rio escorrendo do boné, do casaco, formando uma poça no corredor. Cheiro de lodo. Aí ele falou: "vem me buscar". Eu falei "se fode sozinho".

Curva 12.

O relógio apagou. Ficou só o :00 aceso.

Ela entrou. Lúcia. 9 anos. Vestidinho azul.

Eu vi ela na beira do trilho muito antes. Podia ter apitado. Podia ter diminuído. Eu tava atrasado. Com ódio.

Eu não puxei o freio. Essa é a verdade que eu nunca contei.

Eu acelerei pra assustar.

Não assustou.

Parou.

Ela sentou na minha frente. Descalça. Me olhou com a cabeça torta.

"Tio, por que você acelerou?"

O vagão lotou. Ninguém falou mais nada. Todos só ficaram me olhando. Em silêncio.

Não era culpa. Era vergonha de ser visto.

MORRETES - 1KM - FIM DA LINHA.

O trem parou num tranco seco.

A porta da cabine, que só abre por dentro, abriu pra fora.

Ele tava lá na plataforma. Na neblina.

Eu. 22 anos. Boné novo. Lindo. Burro.

Ele me olhou e não me reconheceu. Olhou pra locomotiva, pro meu boné sujo, pro meu rosto. Depois olhou pros meus olhos. Aí reconheceu. Pelo jeito de segurar o manete. Igualzinho.

Ele ficou pálido.

"Seu Alceu?"

He subiu, ainda sem entender, sentou no banco auxiliar. Cheirava a sabonete barato.

Olhou pro vagão lotado em silêncio. Olhou pra Lúcia.

"Agora é a sua vez de descer. Sai da minha cabine."

Olhei pra plataforma de Morretes. Vazia. Molhada.

Era a chegada. Era o descanso.

E eu não soube descer.

Levantei. Não empurrei. Só abri a porta e falei, baixo:

"Você vai ser eu."

Ele entendeu. Começou a chorar como menino. Desceu sozinho. O boné novo caiu no barro e rodou.

Bati a porta. Tranquei.

Acelerei de volta pra serra.

Porque maquinista velho aprende uma coisa: depois que você entra, sempre tem que chegar do outro lado. Eu só não tinha entendido de que lado era.

No espelho, o vagão tava vazio.

No painel, o relógio finalmente andou.

03:01.

Se você subir a serra depois das três e ver um trem velho descendo na contramão, com um velho de boné na cabine te olhando...

Não acena.

Porque ele acelerou uma vez.

E ele gostou.