Ela esperava. Eu também.
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
Ela sempre estava ali.
Não importava a hora, o dia, o vento. Quando eu descia a rua de paralelepípedos que corta o bairro até a orla de Matinhos, lá estava: de pé junto ao muro baixo, olhando o mar. O vento bagunçava-lhe os cabelos escuros, e ela nunca se virava, nunca fazia um gesto sequer. Apenas esperava.
Usava sempre o mesmo casaco de lã marrom, calça escura, sapatos pesados. Não chamava atenção — exceto por estar sempre ali, na mesma postura, como se o tempo tivesse parado e ela esperasse algo que não chegava nunca.
Eu sou Luís. Trabalho com entregas entre Curitiba e o litoral. Faz quatro meses que me mudei para um apartamento pequeno nos fundos de uma casa, a poucos metros da praia. Separei-me há pouco. O silêncio da casa pesava, então acostumei-me a sair cedo, a caminhar antes de o sol nascer. Era nessas manhãs que a via.
— Bom dia — disse, certa vez.
Ela não respondeu. Não se mexeu. Fui-me embora sem saber se tinha ouvido. Gente estranha há em todo lugar. Principalmente numa praia fora de temporada, quando o ar é cinzento e as ruas parecem segurar a respiração.
Naquela semana, o mar bateu forte. Espuma branca cobria a areia. Quando passei, notei algo novo. Na mão, uma pedra lisa, escura. Passava-a de uma mão para a outra. Sem pressa. Sem parar.
No dia seguinte, a pedra continuava com ela. E no outro.
Comecei a prestar atenção. Sempre a mesma pedra. Sempre o mesmo gesto. Pensei em perguntar o que esperava. Algo me segurou. Havia nela uma quietude tão densa que parecia desrespeito interromper.
Numa manhã de garoa fina, ela estava ali sem se abrigar. A pedra brilhava úmida. Aproximei-me.
— Vai ficar doente assim — disse, baixinho.
Ela virou-se devagar. Os olhos castanho-claros, sem foco — como se olhasse através de mim.
— Ele vem.
— Quem?
Ela voltou o olhar para o mar. Não respondeu.
Naquela tarde, subi a Serra do Mar em direção a Curitiba. A neblina cobria a estrada; curvas que conheço de cor pareciam outras. Pensei nela o caminho inteiro. Quem seria? O que esperava? Alguém que partiu e não voltou?
Ao descer, já era noite. A orla estava vazia. Ela continuava ali.
Dois dias depois, não estava.
O muro estava vazio. Fui-me ao trabalho com um buraco no peito, como se algo tivesse sido retirado sem aviso.
Na volta, estacionei o carro. Vi algo no chão, perto da roda dianteira. Uma pedra lisa, escura.
A mesma pedra.
Peguei-a. Estava fria, úmida. Deixei-a no banco do passageiro. Quem sabe ela passara, deixara cair, voltaria para buscar.
Ninguém veio.
Coloquei-a sobre a mesa da cozinha. Parecia uma pedra comum. E, no entanto, havia nela um peso que não deveria ter.
Acordei de madrugada. A pedra não estava na mesa.
Estava na entrada. Fiquei parado. Não conseguia lembrar de ter saído com ela.
Revisei janelas, fechaduras. Tudo seguro. Ninguém. Fui dormir dizendo a mim mesmo que estava cansado, que a mente prega peças.
De manhã, não estava na entrada. Estava sobre o travesseiro.
Sentei-me na beira da cama. Não lembrava de tê-la colocado ali.
Saí, fui até o muro. Ninguém. Deixei a pedra sobre o muro, bem visível. Voltei para casa aliviado.
Quando abri a porta, ela estava no chão da sala.
Recuei. O ar pareceu mais denso. Peguei-a, guardei-a no bolso. Não havia ninguém. Não havia explicação.
Apareceu de novo no muro, três dias depois.
Aproximei-me devagar. Ela não segurava pedra.
— Encontrei isto — disse, estendendo a mão.
Ela olhou a pedra, depois para mim.
— Não é minha.
— Vi com você. Várias vezes.
Ela balançou a cabeça devagar.
— E você... também espera.
Fiquei sem saber o que dizer. Guardei a pedra.
Passou uma semana. Ela aparecia e sumia. A pedra mudava de lugar: na mesa, no chão, no banco do carro. Às vezes a deixava em casa e a encontrava na mão, sem lembrar de ter pegado. Comecei a não saber mais se a carregava ou se ela me acompanhava.
Passei os olhos pela estante. A foto continuava virada para a parede. Não tinha coragem de endireitá-la. O silêncio da casa pesava diferente — não era vazio. Era cheio de coisas não ditas.
Sentei-me ao lado de uma senhora num banco, perto da orla.
— A senhora conhece aquela mulher? — apontei.
Ela olhou, confusa.
— Que mulher?
— De pé, junto ao muro. Casaco marrom.
A senhora franziu a testa.
— Não há ninguém ali, filho. Faz tempo. Desde que ele parou de vir.
— Quem?
— O irmão. Vinha aqui, igual a ela. Depois sumiu. Nunca mais voltou.
Olhei para o muro. Vazio.
A pedra pesou no bolso.
Naquela noite, não dormi. Pensei na porta. No som que fez ao fechar. No silêncio que ficou do outro lado. Pensei em como é fácil ir embora e deixar alguém parado, esperando. Pensei em como dizemos “depois conversamos” e o depois nunca chega.
De manhã, fui até a orla. Ela estava lá.
— Eu sei — disse, sem chamar por ninguém. — Você não espera que ele chegue. Espera que alguém volte.
Ela virou-se. Pela primeira vez, pareceu me ver de verdade.
— E você? — perguntou baixinho. — O que carrega que não consegue devolver?
Abri a mão. A pedra estava ali.
— Não sei. Algo que deixei para trás. E não sei como buscar.
Ela estendeu a mão. Os dedos quase tocaram os meus.
— As pedras pesam quando ficam com quem não pode carregá-las. Deixe aqui. Quem tem de encontrar, encontra.
E então, não havia ninguém.
O muro estava vazio. O vento soprou no mesmo lugar. O mar batia igual. Só faltava ela.
Fiquei sozinho com a pedra. Coloquei-a sobre o muro. Voltei para casa.
Não havia pedra na manhã seguinte. Não havia ninguém.
Passaram-se dias. Comecei a dormir melhor. As coisas no trabalho fluíram. Pensei que tinha acabado.
Ontem, voltei de viagem tarde. Abri a porta do carro. Sobre o banco, uma pedra lisa, escura.
Fiquei olhando. Não a toquei. Não senti medo. Apenas reconheci: era a minha vez de soltar.
Peguei-a. Fui até a praia. A maré estava baixa. Coloquei-a na água, devagar. A onda levou.
Hoje passei pelo muro. Ninguém. Nenhuma pedra.
O vento trouxe cheiro de chuva e mar.
E senti: pela primeira vez, não estava sendo esperado.