sábado, 12 de setembro de 2026

A ROTA DO NUNCA

A ROTA DO NUNCA
O Lugar Onde Ninguém Chega Sozinho

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

 Vilmar conhecia cada curva da Graciosa tão bem quanto conhecia as próprias mãos. E as mãos, ultimamente, tremiam mais do que deviam.
Tinha cinquenta e nove anos e trinta e dois de estrada, subindo e descendo a serra transportando banana, farinha, madeira, palmito, caixas de fruta — o que aparecesse. Aprendera a dirigir ali antes mesmo de aprender a desconfiar da estrada. Reconhecia as curvas pelo tempo que levava para vencê-las, os trechos onde a água escorria sobre o paralelepípedo, as árvores inclinadas sobre o asfalto e até o cheiro da mata quando começava a chover.
O caminhão era um Mercedes 710 azul, antigo, desbotado pelo sol e pela maresia. Vilmar o chamava de Fiel.
Nunca o deixara na mão.
Nem naquela noite de 1998, em que a neblina desceu tão espessa que ele dirigiu durante quatro horas sem enxergar mais do que alguns metros à frente. Naquela vez, guiou-se pela memória. Os pneus pareciam conhecer o caminho melhor do que os olhos.
No retrovisor pendia um terço de contas de madeira.
Iracema o pendurara ali numa manhã de sol, quando o caminhão ainda tinha pintura nova e os dois ainda faziam planos para quando ele parasse de trabalhar.
— Se você morrer, quero que seja com isso balançando diante dos olhos — dissera ela.
Vilmar rira.
— Belo incentivo.
— É para você lembrar de que tem alguém esperando.
Iracema morreu numa terça-feira de agosto.
Aneurisma.
Foi o que disseram.
Rápido demais para despedidas, rápido demais para perguntas.
Vilmar não estava em casa; estava na estrada. Quando chegou a Morretes, havia sete chamadas perdidas no celular.
O terço continuou pendurado no retrovisor.
Dezenove anos depois, ainda não tivera coragem de tirá-lo.
♦ ♦ ♦
Naquela quarta-feira, 14 de junho, a neblina se formou antes das dez da noite.
Vilmar saiu de Morretes com o Fiel carregado de banana com destino a Matinhos. O rádio funcionou por alguns minutos, depois começou a chiar. Ele o desligou.
A estrada estava vazia.
A mata parecia mais próxima do que de costume.
No quilômetro 12, havia um homem no acostamento.
Magro. Casaco escuro. Uma das mãos no bolso; a outra levantada, com o polegar para cima.
Vilmar reduziu a velocidade.
Não pensou.
Durante trinta e dois anos aprendera que certas coisas se faziam sem pensar. Parar para alguém na estrada era uma delas.
O homem abriu a porta e entrou.
— Boa noite.
— Boa noite.
Vilmar voltou a acelerar.
— Vai até onde?
— Matinhos.
— Suba então.
O homem fechou a porta.
Durante alguns minutos, só se ouvia o motor e o ruído dos pneus sobre a estrada úmida.
Vilmar olhou de relance para o passageiro.
Rosto comum. Cabelo escuro. Olhos claros.
Não parecia jovem nem velho. Era o tipo de rosto que a memória guardaria mal.
— O senhor faz essa rota há muito tempo? — perguntou o homem.
— Trinta e dois anos.
— Muito tempo.
— É.
O homem olhou para a frente.
— Deve conhecer cada curva.
— Conheço.
— Mesmo no escuro?
Vilmar sorriu de lado.
— Principalmente no escuro.
Passaram por uma curva fechada. Depois outra.
Havia algo naquela conversa que lhe parecia antiga. Não exatamente familiar, mas antiga — como uma frase ouvida muitos anos antes e depois esquecida.
— Já deu muitas caronas? — perguntou o homem.
— Bastantes.
— E todos chegam ao destino?
Vilmar tirou os olhos da estrada por um instante.
— A maioria.
O homem assentiu.
— A maioria.
No retrovisor, o terço balançava.
Vilmar tornou a olhar para a estrada.
As contas de madeira brilhavam.
Franziu a testa. O terço estava úmido. Não muito — apenas uma película de água sobre as contas, como se alguém tivesse soprado sobre elas.
Passou a mão pelo rosto. A cabine estava quente. Os vidros estavam fechados.
— Está sentindo frio? — perguntou o homem.
— Não.
— Eu estou.
Vilmar apertou o volante.
— Falta muito para Matinhos?
O passageiro sorriu.
— Depende.
— De quê?
— De onde o senhor decidir parar.
♦ ♦ ♦
No quilômetro 23, Vilmar perguntou:
— Será que já nos conhecemos?
O homem demorou a responder.
— O senhor acha que não?
Vilmar olhou para ele. Dessa vez, o passageiro virou o rosto; os olhos claros pareciam quase sem cor.
— Sua esposa ainda o espera? — perguntou.
Vilmar sentiu um aperto no peito.
— Minha esposa morreu.
— Eu sei.
— Como sabe?
O homem olhou para o retrovisor, para o terço.
— Foi ela que deixou isso aqui.
Vilmar ficou alguns segundos sem responder.
— Faz quanto tempo?
— Dezenove anos.
— Dezenove?
— É.
O homem passou o dedo pelo vidro da janela, sem deixar marca.
— Tem certeza?
Vilmar apertou o volante com força.
— Tenho.
— Então está quase na hora.
— Hora de quê?
Nenhuma resposta.
O motor continuou a trabalhar. A neblina adensou-se.
Vilmar percebeu que já deveria ter passado por um ponto que conhecia bem: ali, à esquerda, ficava uma árvore enorme com o tronco dividido em dois. Esperou. A árvore não apareceu. Continuou dirigindo. Esperou mais. Nada.
No retrovisor, o terço começou a pingar. Uma gota caiu. Depois outra.
Olhou para o assoalho da cabine. Havia uma pequena mancha escura ao lado do banco do passageiro.
— Seu casaco está molhado?
O homem olhou para baixo.
— Não.
— Então de onde vem essa água?
O passageiro ergueu os olhos.
— O senhor sabe.
Vilmar pisou no freio com força. O caminhão parou.
A neblina envolveu a cabine. Por alguns instantes, não havia estrada, árvores nem céu — só branco.
Tentou abrir a porta. A maçaneta não se moveu. Tentou de novo. Nada.
— Abra a porta.
O homem permaneceu imóvel.
— Quero descer.
— Ainda não.
— Abra a porta!
— O senhor sempre pede isso.
Vilmar virou-se para ele.
— Como?
— Sempre.
O motor engasgou. Uma vez. Duas.
No assoalho, a mancha de água crescia. Vilmar olhou para os próprios pés: a água já cobria os sapatos.
— Não...
O homem não parecia assustado.
— O senhor nunca gostou desta parte.
— De que parte?
O passageiro não respondeu.
A água subiu até os tornozelos e depois até as pernas. Vilmar tentou alcançar a janela; o vidro não se moveu. Tentou gritar, mas a água já chegava à cintura.
No retrovisor, o terço balançava. As contas batiam umas nas outras num som pequeno e regular — como dentes batendo de frio.
Respirou fundo. A água chegou ao peito. E, antes de cobrir-lhe a boca, ouviu uma voz. Não era a do passageiro. Era a de Iracema, bem perto:
— Você demorou.
Vilmar abriu a boca para responder. A água entrou.
♦ ♦ ♦
Abriu os olhos.
Estava dirigindo. A estrada estava seca. O sol começava a despontar atrás das montanhas, tingindo de laranja o céu entre as árvores. O rádio tocava Evidências.
Conhecia aquela música. Não lembrava de a ter ligado.
Olhou para o banco ao lado: vazio.
Parou o caminhão. Ficou alguns minutos com as mãos sobre o volante. Depois olhou para o retrovisor: o terço estava seco.
Respirou fundo, pegou o celular e viu nove chamadas perdidas — todas do mesmo número desconhecido. Ligou de volta. Chamou três vezes. Uma mulher atendeu:
— Alô?
Vilmar não respondeu.
— Alô?
— Foi você que me ligou.
— O senhor é o Vilmar?
— Sou.
Houve um breve silêncio.
— Meu pai falava muito no senhor.
O estômago de Vilmar se contraiu.
— Quem é seu pai?
— Ele morreu há dez anos.
— E por que falava de mim?
— Dizia que o senhor o levou pela Graciosa.
Vilmar olhou pela janela.
— Quando foi isso?
— Na noite em que ele desapareceu.
— Ele morreu?
— O corpo foi encontrado três dias depois.
Vilmar calou-se.
— Minha mãe nunca acreditou que tivesse sido acidente — prosseguiu a mulher.
— E sua mãe...?
— Faleceu no ano passado.
— E o que isso tem a ver comigo?
A mulher respirou fundo.
— Antes de morrer, me pediu que nunca ligasse para o senhor.
Vilmar fechou os olhos.
— Então por que está ligando?
— Porque ontem encontrei uma fotografia.
O coração acelerou.
— Que fotografia?
— Meu pai, sentado no banco do seu caminhão.
Vilmar emudeceu.
— No verso havia uma data.
— Qual?
— 1987.
A ligação caiu.
Ficou olhando para o telefone. O número desconhecido continuava na tela. Não ligou de volta.
♦ ♦ ♦
Chegando em casa, não conseguiu dormir. A cozinha parecia maior do que lembrava. Iracema fora uma mulher barulhenta: ria alto, falava alto, batia portas, cantava enquanto lavava a louça. Depois que ela se foi, a casa se encheu de um silêncio que ele nunca aprendera a preencher.
Preparou café e esqueceu a xícara sobre a mesa. Abriu um armário e encontrou uma caixa de sapatos cheia de fotografias: o casamento, viagens, Iracema diante da casa, o caminhão novo. No fundo, uma imagem que não reconhecia.
Aproximou da luz: era ele, muito jovem, ao volante do Fiel. Ao lado, o homem do casaco escuro, de olhos claros — o mesmo rosto.
Virou a foto. No verso, a data: 1987. E, abaixo, uma frase com a letra de Iracema:
Não pare no 47.
Sentou-se. Leu de novo. A frase parecia absurda — ainda mais porque conhecia aquela letra tão bem quanto a própria voz. Então notou algo: uma segunda linha, quase apagada. Aproximou da janela e conseguiu decifrar apenas três palavras:
...se ele entrar...
O restante fora arrancado.
Passou o polegar sobre o papel. Uma lembrança tentou vir à tona: Iracema na cozinha, uma mala no chão, o rádio ligado, uma discussão... ele saindo pela porta e a voz dela:
— Não vá pela Graciosa!
E a memória se desfez.
Ficou sentado por muito tempo. Ao se levantar, já não sabia se aquela recordação era verdadeira ou se a fotografia a havia plantado ali.
♦ ♦ ♦
Na quinta-feira seguinte, o dinheiro acabou. Não teve escolha. Saiu de Morretes às dez da noite. A neblina estava lá — densa, leitosa, pousada sobre a estrada como se esperasse.
No quilômetro 12, viu o homem. Não reduziu. Passou direto. O homem não levantou o polegar, não fez nenhum gesto; apenas o acompanhou com o olhar.
Continuou. Quilômetro 17... 19... 23... A estrada parecia normal. Então ouviu:
— Boa noite.
Congelou. O banco ao lado estava ocupado. O homem olhava para a frente.
— Como entrou?
— O senhor sabe.
— Eu não parei!
— Eu sei.
Apertou o volante.
— O que quer?
— Chegar.
— Aonde?
O homem virou-se devagar.
— O senhor ainda não se lembra.
Uma dor atravessou-lhe a cabeça. Imagens vieram: a cozinha, Iracema, o relógio marcando onze e pouca coisa, a porta batendo, o caminhão saindo... e depois algo que não deveria existir: Iracema correndo pela beira da estrada.
Piscou e a imagem sumiu.
— Minha esposa morreu de aneurisma — disse, quase sussurrando.
— Foi o que disseram?
— Eu estava trabalhando! Recebi as ligações ao chegar a Morretes.
— E antes disso? Onde estava antes?
— Na estrada.
— Qual estrada?
A pergunta pareceu tola — até deixar de parecer. No assoalho, a mancha reapareceu.
— Eu matei alguém? — perguntou, com a garganta seca. — Matei a Iracema?
Silêncio.
— Foi isso?
O homem virou o rosto.
— O senhor continua fazendo a pergunta errada.
A água cobriu-lhe os sapatos. Vilmar não gritou.
— Então qual é a pergunta certa?
O homem inclinou-se um pouco.
— Por que o senhor nunca chegou em casa?
Algo dentro dele se partiu. A memória veio, nítida: a discussão, o terço, o homem parado no acostamento... o aviso: Não pare no 47. Depois, Iracema no banco ao lado, molhada, pálida, dizendo:
— Você demorou.
A água subiu. Fechou os olhos.
♦ ♦ ♦
Quando abriu, estava dirigindo. O sol nascia. O rádio tocava Evidências. O banco estava vazio. O terço, seco.
Não parou. Seguiu adiante. No quilômetro 47, reduziu a velocidade. O acostamento estava deserto — nenhuma figura, nenhuma casa, só a neblina subindo do vale.
Olhou pelo retrovisor. Por um instante, viu Iracema ao seu lado. Não parecia morta — parecia cansada. Não o olhou; apenas apontou para a estrada adiante.
Acelerou.
♦ ♦ ♦
Na manhã seguinte, outro caminhoneiro encontrou o Mercedes 710 parado no acostamento, no quilômetro 47. O motor estava desligado; a porta do motorista, aberta. Ninguém dentro. No banco do passageiro, uma pequena poça de água.
O homem olhou, sem entender de onde viera. No retrovisor, um terço de contas de madeira — não notara ao aproximar-se. Tocou as contas; estavam geladas.
O celular vibrou. Mensagem de número desconhecido:
NÃO PARE.
Guardou o aparelho e olhou para a estrada. A neblina começava a subir. Então ouviu:
— Moço?
Virou-se. Uma mulher jovem, de cabelos escuros e roupas claras, estava no acostamento. Parecia perdida.
Olhou o celular de novo. NÃO PARE.
Deveria ter ido embora. Em vez disso, perguntou:
— Precisa de carona?
Ela sorriu.
— Vou para Matinhos.
Abriu a porta. Ela entrou. Fechou-se a porta. O caminhão retomou a marcha.
Durante minutos, nenhum falou. Então a mulher perguntou:
— O senhor faz essa rota há muito tempo?
Ele sorriu.
— Tempo demais.
Ela olhou para o retrovisor. O terço balançava. Uma gota caiu sobre o painel.
— Muito tempo — repetiu ela.
O rádio começou a chiar. Antes de encontrar o botão, ela perguntou:
— Conhece o quilômetro 47?
— Conheço.
Virou-se para a janela.
— Eu também.
A neblina fechou a estrada. O caminhão seguiu adiante.
♦ ♦ ♦
Em algum ponto da serra, um homem de casaco escuro caminhava pelo acostamento. Não parecia perdido; parecia esperar. Ao ouvir um motor aproximar-se, levantou o polegar. O motorista reduziu.
Dentro da cabine, a mulher olhou pelo retrovisor. O terço embaçou. Tocou as contas e sussurrou, como para si mesma:
— Você demorou.
O homem entrou. A porta fechou. A estrada desapareceu na névoa. Por alguns minutos, silêncio. Então ele perguntou:
— O senhor faz essa rota há muito tempo?
A mulher sorriu.
— Trinta e dois anos.
O caminhão continuou subindo. Na curva seguinte, não havia mais estrada — só neblina. E, bem no fundo, algo que esperava apenas mudar de lugar.
Na Graciosa, certas viagens não terminam. Apenas trocam de motorista.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O CADERNO DE MARIANA

O CADERNO DE MARIANA
Conto de Suspense e Mistério


Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Dona Regina sabia que era terça-feira antes de abrir os olhos.
Não pelo despertador. Ela não usava despertador desde a aposentadoria. Sabia pelo silêncio, um silêncio específico de terça-feira, diferente do de domingo e mais profundo que o de segunda. Era o dia em que a feira da Água Verde não acontecia, em que os vizinhos do 302 raramente brigavam e em que o telefone costumava tocar.
Ela permaneceu deitada, olhando para o teto manchado do quarto.
Havia uma mancha perto do lustre. Durante anos, Regina enxergara nela um pássaro com as asas abertas. Em certas manhãs, quando a luz entrava pela janela de determinado ângulo, parecia uma mão.
Naquela manhã, era uma mão.
O telefone tocou às 6h47.
Regina não se mexeu.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
O telefone parou.
O silêncio que voltou não era o mesmo.
Regina ficou alguns segundos olhando para a porta do quarto, convencida de que havia alguém do outro lado.
Não havia.
Levantou-se às 7h15, fez café, passou manteiga em duas fatias de pão e sentou-se à mesa da cozinha.
O telefone ficava na sala, sobre um móvel baixo, ao lado de uma fotografia antiga da turma de 2004.
Era um aparelho preto, pesado, dos anos noventa, que ela nunca substituíra. Funcionava. As pessoas ligavam. Algumas pessoas ainda ligavam.
Às 8h03, ele tocou novamente.
Regina não levantou.
O visor mostrava um número.
Ela o conhecia de cor.
Mesmo assim, olhou.
41 9987-3241.
Por alguns segundos, Regina não respirou.
O número estava desconectado havia vinte anos.
Ela sabia porque ligara para ele todos os dias durante seis meses depois da morte de Mariana. Às vezes de manhã, às vezes à noite. Primeiro ouvira a gravação:
— O número que você discou não existe.
Meses depois:
— Este número está temporariamente indisponível.
Então a linha desaparecera.
Mariana também.
Regina permaneceu sentada enquanto o telefone tocava.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Cinco.
Seis.
Sete.
Na oitava chamada, a linha caiu.
Ela não tocou no aparelho.
Passou o resto da manhã organizando os cadernos.
— 2 —
O armário da sala ocupava quase uma parede inteira.
Era o coração do apartamento.
Trinta e sete anos de magistério estavam ali, guardados em caixas de papelão etiquetadas por ano. Regina conhecia cada uma. Sabia onde estavam as redações sobre férias de 1983, os desenhos de árvores de 1991, os exercícios de matemática de 1998, as primeiras tentativas de assinatura de crianças que hoje provavelmente tinham filhos.
Durante a vida inteira, ensinara crianças a escrever.
E durante a vida inteira guardara aquilo que elas escreviam.
Era seu vício mais inocente.
Abriu a caixa de 2004.
Os cadernos estavam em ordem alfabética.
Almeida, Ana.
Barbosa, Carlos.
Cardoso, Juliana.
Costa, Mariana.
Regina parou.
O espaço estava vazio.
Havia apenas um retângulo de poeira no fundo da caixa, preservando o lugar onde o caderno permanecera durante anos.
Ela passou o dedo pela marca.
A poeira se acumulou na ponta da unha.
Regina fechou os olhos.
Lembrou-se da menina.
Nove anos.
Duas tranças.
Olheiras que pareciam grandes demais para um rosto tão pequeno.
Mariana sentava sempre no fundo da sala, perto da janela, e desenhava nas margens dos cadernos. Não gostava de copiar textos. Não gostava de ler em voz alta. Quando Regina fazia perguntas, Mariana olhava para o chão antes de responder, como se procurasse a resposta entre os próprios sapatos.
Mas desenhava. Sempre desenhava.
E havia alguma coisa naqueles desenhos que Regina nunca conseguira entender.
Não eram desenhos de criança. Eram corredores. Portas. Círculos. Uma sala vazia vista de cima.
Regina lembrava-se do cheiro de lápis de cor. Da borracha mastigada. Da unha suja de grafite.
Lembrava-se também do último dia. Ou pensava lembrar.
Mariana não apareceu numa segunda-feira. Na terça também não. Na quarta, a mãe telefonou.
A voz do outro lado estava quebrada:
— Ela não acordou, professora.
Regina se lembrava de ter ficado sentada diante do telefone depois da ligação, sem conseguir chorar.
Lembrava-se do velório. Do rosto da mãe. De ter tocado o caixão.
Lembrava-se de tudo. Quase tudo.
Fechou a caixa.
Quando abriu novamente os olhos, percebeu que estava segurando uma folha de chamada que não lembrava ter retirado de dentro dela.
Era uma lista de 2004. Os nomes estavam escritos em sua própria letra.
Almeida.
Barbosa.
Cardoso.
Costa, Mariana.
Ao lado do nome havia uma pequena marca de lápis.
Regina franziu a testa. Não se lembrava daquela marca.
Virou a folha.
No verso, alguém havia escrito uma frase com letra infantil:
Professora, você volta?
Regina largou o papel.
— 3 —
O telefone tocou às 14h22.
Ela não atendeu.
— 4 —
Na quarta-feira, Regina foi ao Mercado Municipal.
Era seu hábito. Segundas, quartas e sextas. Frutas, verduras, pão.
Seu Joaquim sempre separava as maçãs menores porque sabia que ela morava sozinha.
Naquela quarta, porém, o homem não estava na banca. Havia um rapaz em seu lugar.
Regina parou diante das frutas.
— O Seu Joaquim?
O rapaz levantou os olhos.
— Quem?
— Joaquim. O dono daqui.
O rapaz olhou para a banca. Depois para Regina.
— Acho que é outra banca, senhora.
Regina ficou alguns segundos em silêncio.
— Eu compro aqui há vinte anos.
O rapaz deu de ombros.
Ela pegou três maçãs.
Na banca de jornais, o jornaleiro também não a reconheceu.
— Bom dia, dona...
Ele parou. Procurou alguma coisa no rosto dela.
— A senhora vai querer o jornal?
— Como sempre.
Ele entregou o jornal. Não disse o nome dela.
Na saída do mercado, Regina sentiu uma inquietação que não conseguia transformar em pensamento.
No elevador do prédio, apertou o botão do sexto andar.
Quando as portas se abriram, encontrou a fechadura do apartamento arranhada.
Não parecia tentativa de arrombamento. Eram riscos finos e precisos, quase delicados. Formavam uma espiral.
Regina tocou o metal. Estava frio.
Abriu a porta. Trancou.
Ficou alguns minutos encostada na parede.
Então ouviu o telefone. 16h11.
Regina foi até a sala. O aparelho tocava.
O visor mostrava: 41 9987-3241.
Ela levantou o fone. Não disse nada.
Do outro lado havia respiração. Muito baixa. Muito distante.
Regina fechou os olhos. Por um instante, teve a impressão de sentir cheiro de lápis de cor.
— Mariana?
A respiração parou. Uma voz veio do outro lado, tão baixa que poderia ter sido uma interferência:
— Cinco minutos.
A ligação caiu.
Regina permaneceu com o fone no ouvido.
Cinco minutos. Ela conhecia aquelas palavras. Não sabia de onde.
— 5 —
Naquela noite, procurou a antiga caixa de fotografias.
Espalhou as imagens sobre a mesa. Turmas. Formaturas. Passeios. Natal. Festas juninas. Crianças diante de árvores, quadras, murais.
Encontrou a turma de 2004. Dezessete alunos.
Regina passou o dedo pelos rostos.
Um. Dois. Três.
Chegou a Mariana.
A fotografia estava rasgada exatamente naquele ponto. Não era um rasgo antigo. As fibras brancas ainda estavam expostas.
Regina aproximou a fotografia da lâmpada.
O espaço onde Mariana deveria estar parecia maior que o próprio corpo. Atrás dela havia apenas o fundo da sala. Uma janela. Uma porta. Uma sombra.
Regina virou a fotografia. No verso, sua letra:
17 de agosto.
Mariana ficou depois da aula.
Regina sentiu uma pontada no peito. Não se lembrava disso.
Então outra lembrança veio. Mariana em pé junto à carteira. As outras crianças saindo. A sala ficando vazia. A menina segurando o caderno contra o peito.
E Regina dizendo:
— Espere aqui. Vou chamar a coordenadora. Cinco minutos. Só cinco.
Então alguém a chamou no corredor.
A lembrança terminou ali.
Regina ficou olhando para a fotografia. Não conseguiu lembrar se voltara.
— 6 —
Na sexta-feira, o telefone tocou duas vezes. Regina não atendeu.
No sábado, tocou às 3h14 da manhã. Ela acordou antes do primeiro toque terminar.
Ficou deitada no escuro. O aparelho continuou chamando.
Regina levantou-se. Caminhou até a sala. O visor iluminava o ambiente: 41 9987-3241.
Ela não tocou no telefone.
Então viu o caderno.
Estava sobre a mesa. Verde. Pequeno. As bordas gastas.
O nome escrito no canto superior: Mariana Costa.
Regina parou. Não se aproximou imediatamente. Ficou olhando. O caderno parecia tão banal que isso era o pior.
Ela tocou a capa. Estava fria. Abriu.
Na primeira página:
Mariana Costa — 4ª série B — 2004
A letra era infantil. Abaixo, havia um desenho: uma porta.
Regina virou a página. Outra porta. Na seguinte, um corredor. Na seguinte, uma sala. Na quinta, apenas uma palavra:
Volta.
Regina virou mais uma: Volta. Outra: Volta.
Ela parou. No fundo da sala desenhada havia uma pequena figura: uma menina.
Regina aproximou o rosto. Havia uma porta atrás dela. E alguém do lado de fora.
A figura adulta estava riscada com tanta força que o papel quase se rompera.
Regina sentiu o estômago revirar. Virou a página. Nada. Outra. Nada.
Até chegar à última. Havia apenas uma frase:
Você disse cinco minutos.
O telefone tocou. Regina levantou o fone.
— O que você quer?
Silêncio. Depois:
— Professora.
A palavra atravessou Regina como uma agulha.
— Mariana?
— Você lembra?
Regina segurou o telefone com as duas mãos.
— Onde você está?
Uma pausa.
— No lugar onde você me deixou.
Regina olhou para o caderno.
— Eu fui ao seu velório.
— Eu sei.
— Sua mãe me disse que você morreu em casa.
Silêncio.
— Sua mãe acreditava nisso.
Regina sentiu um frio subir pelos braços.
— O que você está dizendo?
A respiração do outro lado ficou mais próxima.
— Você disse que voltava.
Regina fechou os olhos. E lembrou-se. Não de tudo. De um pedaço.
O corredor. O relógio. A porta. Uma batida pequena. Depois outra.
Mariana chamando: — Professora?
Regina abriu os olhos.
— Não.
— Você ouviu.
— Não.
— Você estava do outro lado.
Regina levou a mão à cabeça.
— Pare.
— Você disse cinco minutos.
— Eu voltei.
Silêncio.
— Quando?
Regina não respondeu. Porque não sabia.
— 7 —
Ela passou o restante da madrugada na cozinha. O caderno estava aberto sobre a mesa. O telefone, ao lado.
Às 5h20, Regina pegou uma folha e escreveu:
Eu voltei.
Ficou olhando para a frase. Depois riscou. Escreveu novamente:
Eu tentei voltar.
Riscou. Por fim:
Eu não lembro.
A palavra 'lembro' parecia errada.
Ela virou a folha. No verso, havia uma frase que não escrevera:
Agora lembra.
Regina largou a caneta.
— 8 —
Na manhã de domingo, levou o caderno para o quintal do prédio.
Havia uma velha lata de metal onde os moradores queimavam papéis e folhas secas.
Regina abriu a tampa. O metal rangeu. Segurou o caderno sobre a abertura.
Sentiu cheiro de papel velho. E, por baixo dele, algo familiar: lápis de cor.
Regina tentou soltá-lo. Não conseguiu. Os dedos estavam rígidos. Tentou novamente. Nada.
— Você não pode.
Regina virou-se. Mariana estava junto ao muro. Tranças. Uniforme azul e branco. As mãos cruzadas na frente do corpo.
Regina sentiu o coração bater uma vez, forte.
— Mariana.
A menina não respondeu. O sol atravessava o quintal. A sombra dela estava no chão, mas não estava exatamente onde deveria.
Regina olhou para os pés da menina. Depois para a sombra. A sombra parecia alguns centímetros afastada.
— Você morreu — disse Regina.
— Foi o que disseram.
— Sua mãe me disse.
— Sua mãe também disse coisas sobre você?
Regina ficou imóvel. Mariana inclinou a cabeça.
— Você guardou todos os cadernos.
Regina olhou para o objeto em suas mãos.
— Eu guardei.
— Por quê?
— Porque eram lembranças.
— E o meu?
— Eu procurei.
— Não o suficiente.
Regina sentiu a garganta fechar.
— Eu procurei durante anos.
Mariana deu um passo.
— Não. Você procurou o caderno.
Outro passo.
— Eu queria que você procurasse a mim.
Regina não conseguiu responder. Mariana estava perto agora.
— Eu estava com medo — disse.
Regina apertou o caderno contra o peito.
— Eu não sabia.
— Sabia.
— Não.
— Você ouviu.
Regina sentiu uma dor súbita atrás dos olhos. E lembrou-se.
O corredor. O relógio. A porta. Mariana batendo. Uma vez. Duas. Depois muitas.
Regina saiu da sala. A porta fechou. E ela continuou andando.
Regina levou a mão à boca. — Não.
Mariana observava: — Você voltou?
Regina fechou os olhos: — Eu...
A menina esperou. Regina tentou encontrar a lembrança. Não encontrou.
— Eu não sei.
Mariana sorriu. Regina abriu os olhos.
— O que aconteceu naquela sala?
A menina olhou para o caderno.
— Eu esperei.
— E depois?
— Continuei esperando.
— Mariana...
— Até a sala ficar escura.
Regina começou a chorar.
— Eu não sabia.
A menina ficou olhando para ela. O caderno caiu das mãos de Regina. As páginas se abriram sozinhas. Uma. Duas. Três.
O vento não soprava. Mesmo assim, as folhas começaram a virar. Até parar numa página em branco.
No centro havia apenas uma frase:
QUEM SAI PRECISA DE ALGUÉM PARA FICAR.
Regina levantou os olhos.
— O que significa?
Mariana olhou para ela.
— Você passou vinte anos tentando me encontrar.
— Sim.
— Encontrou.
Regina olhou para a lata. Depois para a menina.
— Se eu deixar você sair...
Mariana ficou em silêncio.
— O que acontece comigo?
Nada.
— Mariana. O que acontece comigo?
Mariana aproximou o rosto.
— Você já sabe.
Regina olhou para o caderno. Uma linha começava a aparecer na margem. Um círculo incompleto.
Regina compreendeu.
— Você não quer sair.
Mariana sorriu.
— Quero.
— Você quer entrar.
Por um instante, a menina pareceu novamente ter nove anos. Cansada. Assustada. Quase humana.
Então Regina viu alguma coisa por trás daqueles olhos. Não eram corredores. Não eram salas. Eram apenas portas. Muitas portas. E, atrás de cada uma, uma criança esperando.
Regina recuou.
— O que você é?
Mariana inclinou a cabeça.
— Eu sou a parte que você esqueceu.
— Não.
— Sou a parte que ninguém consegue levar consigo.
Regina sentiu os dedos se fecharem.
— Todas aquelas crianças...
Mariana não respondeu.
O telefone começou a tocar dentro do prédio. Uma vez. Duas. Três.
Regina olhou para as janelas. Mariana estendeu a mão.
— Cinco minutos, professora.
Regina olhou para a mão. Depois para o caderno.
— Eu voltei.
A menina sorriu.
— Dessa vez.
Regina segurou sua mão. Estava gelada. O círculo na página terminou de se fechar.
— 9 —
Na segunda-feira, ninguém atendeu ao telefone do apartamento 604.
Na terça, também não.
Na quarta-feira, às 6h47, o telefone tocou.
Uma vizinha que passava pelo corredor parou diante da porta. Ouviu o aparelho. Depois ouviu uma voz. Uma voz de criança:
— Professora?
A vizinha ficou imóvel. A voz voltou:
— Professora, você está aí?
Ela pensou em bater. Pensou em chamar alguém. Então ouviu uma segunda voz. Mais velha. Muito baixa:
— Estou.
A vizinha foi embora.
— 10 —
O apartamento estava silencioso.
Regina estava sentada à mesa da cozinha. O telefone repousava diante dela. O caderno estava aberto.
Todas as páginas estavam em branco. Exceto a primeira:
Mariana Costa — 4ª série B — 2004
Regina passou o dedo pela margem. Começou a desenhar um círculo. Parou antes de fechá-lo.
Pegou o telefone. Discou um número. Esperou.
— Alô?
Uma mulher atendeu. Regina sorriu. Por um instante, sua voz pareceu a mesma de sempre:
— Professora?
Silêncio.
— Sou eu. Mariana. Você lembra de mim?
Do outro lado, ninguém respondeu.
Regina olhou para o caderno. Uma pequena linha apareceu na margem.
— Eu preciso da sua ajuda — disse.
A mulher respirou fundo.
— Quem está falando?
Regina sorriu.
— Tem uma menina presa aqui.
Fez uma pausa.
— Ela está esperando há muito tempo.
A ligação caiu. Regina continuou segurando o telefone. Depois colocou o fone no lugar.
O caderno permaneceu aberto. Na margem da página, o círculo terminou de se fechar.
— 11 —
Em algum lugar de Curitiba, numa sala de aula que já não existia, uma menina de nove anos continuava sentada junto à porta.
O corredor estava escuro. Às vezes, ela levantava a cabeça quando ouvia passos.
Ainda esperava. A porta permanecia fechada.
Até que alguém parou do outro lado.
A menina apertou o caderno contra o peito.
— Professora?
A maçaneta começou a girar.
FIM

A ÁGUA NÃO ESCOLHE


A ÁGUA NÃO ESCOLHE
O que entra por uma porta que nunca foi trancada

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

 Há uma coisa que aprendi em quinze anos limpando o que os outros sujam: todo lugar guarda o cheiro de quem já viveu ali. Não é metáfora. É química. Suor cristalizado no reboco, óleo de cozinha entranhado no rejunte, unha cortada que escorrega pelo ralo e fica. O corpo deixa rastro mesmo quando vai embora. Mesmo quando morre.
Estou escrevendo isso porque não durmo há nove dias.
Não é insônia.
É que, quando fecho os olhos, sinto a água subindo pelo colchão.
• • •
O Balneário Flórida fora de temporada é um lugar que ninguém fotografa. As placas dos edifícios estão descascadas, os nomes dos condomínios perderam vogais. Edifício Mar Azul virou Edi. Mar Az, como se a cidade também estivesse esquecendo de falar.
Adilson conhecia cada sílaba desse esquecimento.
Era zelador do Residencial Costa Verde desde 2009, quando ainda tinha cabelo preto e Neusa ainda respirava.
Agora era só ele, uma bicicleta Caloi com o selim rasgado e trezentas e quarenta e duas chaves penduradas em ganchos de latão na sala da zeladoria.
Conhecia cada uma.
Apartamento 101.
102.
103.
Bloco A. Bloco B.
Portão. Casa de máquinas. Caixa de correio. Salão de festas.
Nunca precisava olhar as etiquetas.
— Nunca perdi uma — dizia.
Ninguém perguntava.
Ele dizia mesmo assim, para as paredes, para o ventilador de teto que girava devagar como um pensamento cansado, para a fotografia de Neusa na parede, sorrindo com aquele dente torto que ele amava.
Uma vez, anos atrás, ela perguntara:
— Você confere essas chaves todo dia?
— Todo dia.
— Por quê?
Ele levantara o molho diante dos olhos.
— Porque alguma porta sempre fica aberta.
Ela rira.
Adilson também.
Na época ainda era possível rir daquela frase.
O inverno em Matinhos não é frio como em Curitiba. É úmido. Uma umidade que entra nos ossos e fica, que faz as juntas estalarem às cinco da manhã, quando ele levantava para verificar as bombas de água.
Adilson gostava dessa hora.
A cidade toda parecia pertencer a ele.
As ruas vazias. Os postes piscando. O mar batendo longe como um coração que nunca aprendera a parar.
Foi numa terça-feira de junho que encontrou a primeira.
• • •
Apartamento 302.
Fechado desde março, quando a família de São Paulo fora embora depois do carnaval.
Adilson subiu para verificar um vazamento na laje. O síndico do bloco B ligara reclamando de uma mancha no teto do 202.
A chave girou macia na fechadura.
Ele tinha orgulho disso.
Óleo de máquina nas engrenagens uma vez por mês, chave por chave.
O apartamento cheirava a fechado. Poeira, plástico de móvel coberto, madeira guardando o cheiro de uma família que já não estava ali.
Acendeu a lanterna.
A luz do corredor não chegava até a cozinha.
Foi quando viu.
Uma pegada molhada.
Descalça.
No porcelanato branco, entre a porta e a geladeira desligada.
Adilson ficou parado.
A marca era perfeita.
Calcanhar.
Arco.
Dedos.
Uma unha ligeiramente mais escura no segundo dedo.
Ele olhou para os próprios pés.
Chinelo de borracha.
Número 44.
O dedo mindinho do pé direito era torto desde criança, desde uma bicicleta que caíra em cima dele.
Voltou a olhar.
A mesma deformação.
Adilson se abaixou.
Passou o dedo na água.
Gelada.
Ainda fresca.
Não cheirava a nada.
Olhou para a torneira.
Seca.
Banheiro seco.
Registro fechado.
As janelas, trancadas.
Não chovia havia quatro dias.
Por alguns segundos, pensou em chamar Nivaldo.
Depois desistiu.
Era só água.
E água sempre vinha de algum lugar.
Pegou o pano de chão que carregava no bolso traseiro, secou a marca e passou álcool.
Antes de sair, olhou novamente para o piso.
Havia ficado uma pequena mancha úmida onde estivera o calcanhar.
Adilson fechou a porta.
Desceu contando os degraus.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Contava desde criança quando queria afastar pensamentos ruins.
Na zeladoria, conferiu os ganchos.
Uma, duas, três fileiras.
Parou.
Contou novamente.
Trezentas e quarenta e duas.
Todas ali.
Nunca faltava nenhuma.
• • •
A segunda apareceu três dias depois.
Apartamento 105.
Fechado desde janeiro.
Adilson entrou para trocar uma lâmpada do corredor interno. O síndico achava que ele não percebia quando as lâmpadas queimavam sozinhas nos apartamentos vazios.
Adilson percebia tudo.
Trocava.
Ninguém agradecia.
Trocava de novo.
A pegada estava no banheiro.
Dentro do box.
Uma única marca de pé no piso seco.
Ao redor dela, nenhum respingo.
Nenhuma gota.
Nada.
Adilson se agachou.
Reconheceu antes de querer reconhecer.
A pequena torção no dedo mínimo.
Ele não tinha entrado no box.
Nunca entrava.
Desde que Neusa morreu, não entrava.
Era uma regra que nunca explicara a ninguém.
Talvez nem a si mesmo.
Fechou a porta do banheiro.
Depois a do apartamento.
Sentou no chão do corredor, encostado à parede.
Havia uma infiltração antiga no teto. A mancha escura lembrava o mapa da Itália.
Ele nunca consertara.
Gostava dela.
— É o encanamento — disse.
A voz saiu baixa.
— É só o encanamento.
Olhou para a mancha no teto.
Por um instante, teve a impressão de que ela havia mudado de forma.
Parecia uma mão.
Piscou.
Era apenas infiltração.
• • •
Naquela noite, sonhou com Neusa.
Ela estava na cozinha do apartamento 101.
De costas.
Lavava pratos.
A água corria da torneira.
Corria.
Corria.
Corria.
— Neusa.
Ela não respondeu.
— A água tá transbordando.
Nada.
Adilson percebeu que a água já cobria o chão.
Subia pelos tornozelos.
Pelos joelhos.
Pela cintura.
— Neusa.
Ela continuava de costas.
Ele tentou chegar até ela, mas a cozinha ficava cada vez maior.
A torneira continuava aberta.
A água chegava ao peito.
— Neusa!
Ela parou.
Virou devagar.
O rosto era dela.
Mas os olhos...
Adilson acordou antes de conseguir compreender.
O travesseiro estava molhado.
Não de suor.
Água.
Ele sentou na cama.
O quarto estava escuro.
Passou a mão pelo colchão.
Seco.
Olhou para o chão.
Uma pequena poça.
No centro dela, uma marca de pé.
Ele não se aproximou.
Ficou sentado até amanhecer.
• • •
Às seis e vinte da manhã, pegou o pano.
Depois o balde.
Depois o desinfetante.
Antes de limpar, percebeu uma coisa.
A pegada estava virada para a cama.
Como se alguém tivesse ficado parado ali durante a noite.
Adilson limpou.
Não contou para ninguém.
• • •
A terceira apareceu no corredor do bloco A.
Em frente à porta do 401.
O 401 era o único apartamento que nunca fora alugado.
Estava vazio desde a construção, em 1998.
O proprietário, segundo Nivaldo, morava na Europa.
Ou na Alemanha.
Ou na Itália.
Nivaldo nunca lembrava.
Adilson nunca tinha visto o homem.
Mas a chave estava no gancho.
Como todas as outras.
Naquela manhã, a pegada estava no corredor.
Virada para a porta.
Adilson parou.
Não havia outras marcas.
Nenhuma pegada vindo das escadas.
Nenhuma saindo.
Apenas aquela.
Diante do 401.
Esperando.
Adilson olhou para a porta.
Depois para o molho de chaves que trazia preso à cintura.
Sentiu um frio no estômago.
Tirou a chave do 401.
Nunca a havia usado.
O metal estava frio demais.
Encostou a chave na fechadura.
Antes de girá-la, ouviu um ruído do outro lado.
Não uma voz.
Não exatamente.
Parecia água escorrendo por dentro de uma parede.
Adilson ficou imóvel.
Depois girou.
A porta abriu.
O cheiro que saiu não era de apartamento fechado.
Era de maré baixa.
Madeira molhada.
Alguma coisa antiga deixada tempo demais debaixo d'água.
Adilson permaneceu na soleira.
A lanterna iluminou a sala vazia.
Piso de taco.
Paredes descascadas.
Nenhum móvel.
Nenhuma janela aberta.
No centro da sala havia uma pegada.
Molhada.
Virada para ele.
Adilson não entrou.
A luz da lanterna tremeu.
Por um instante, teve certeza de que havia alguém parado no fundo da sala.
Quando apontou a luz para lá, não havia ninguém.
Ele fechou a porta.
Dessa vez não contou os degraus.
Correu.
• • •
Na zeladoria, trancou a porta.
Depois a janela.
Depois o armário.
Depois a gaveta.
Por último, conferiu as chaves.
Uma.
Duas.
Três.
Todas.
Trezentas e quarenta e duas.
Ficou olhando para elas.
Alguma coisa parecia errada.
Não sabia o quê.
A fotografia de Neusa estava na parede.
Ele se aproximou.
Ela sorria.
O dente torto.
O cabelo preso.
Os olhos vivos.
Adilson tocou o vidro da moldura.
— Você tá me vendo?
A fotografia não respondeu.
O telefone tocou.
Adilson quase derrubou a moldura.
O telefone fixo não tocava desde 2019.
Atendeu.
— Alô?
Era Nivaldo.
— Adilson?
— Sim.
— Apareceu uma infiltração no 302 de novo.
Adilson fechou os olhos.
— Eu verifiquei aquele apartamento.
— Pois é. O pessoal de São Paulo ligou. Tem água escorrendo pela parede.
Silêncio.
— Nivaldo...
— E tem uma coisa estranha.
Adilson não respondeu.
— O vizinho do 202 disse que a mancha tá crescendo.
— Tá.
— Disse que parece uma pegada.
Adilson sentiu os dedos apertarem o telefone.
— Uma pegada?
— É.
Nivaldo respirou do outro lado.
— Ele disse que parece um pé.
A ligação caiu.
• • •
Na manhã seguinte, havia uma pegada na porta da zeladoria.
Adilson encontrou quando saiu para buscar o jornal.
A água já começava a secar nas bordas.
No centro, permanecia úmida.
Virada para dentro.
Ele não se mexeu.
O sol nascia atrás dos prédios, pintando tudo de um laranja doente.
Uma vizinha passava com o cachorro.
Um ônibus dobrou na avenida.
Alguém ligou uma televisão.
O mundo continuava.
Adilson olhou para os próprios pés.
Estavam molhados.
Ele estava de chinelos.
Não havia água em lugar nenhum.
• • •
Naquela noite, ficou sentado na cama.
A lanterna sobre o criado-mudo.
O relógio marcava 3h47.
O prédio estava silencioso.
Nem o mar se ouvia.
Foi quando percebeu que alguma coisa estava andando no corredor.
Não eram passos comuns.
Eram passos molhados.
Ploc.
Pausa.
Ploc.
Pausa.
Ploc.
Adilson não respirava.
Os passos pararam diante da porta.
Silêncio.
Então a maçaneta girou.
Devagar.
Para um lado.
Depois para o outro.
A porta estava trancada.
Ele tinha conferido duas vezes.
A maçaneta continuou girando.
Não havia pressa do outro lado.
Apenas uma paciência absoluta.
Depois parou.
Adilson esperou.
Um minuto.
Dois.
Cinco.
Levantou.
Foi até a porta.
Encostou o ouvido.
Havia respiração do outro lado.
Lenta.
Profunda.
Quase sonolenta.
— Quem é?
A respiração cessou.
Adilson ficou esperando.
Então ouviu:
— Você não trancou.
A voz era baixa.
Rouca.
Familiar.
Adilson recuou.
Era a voz dele.
• • •
A lanterna caiu.
A luz girou pelo teto.
Pela parede.
Pela fotografia de Neusa.
Por um segundo, Adilson viu alguma coisa diferente nos olhos dela.
Não sabia dizer o quê.
Molhados.
Talvez.
Ou apenas o reflexo da lanterna.
A voz voltou.
— Você nunca tranca.
A água começou a entrar pela fresta da porta.
Primeiro uma linha fina.
Depois outra.
Adilson ficou olhando.
A água avançava pelo piso.
Sem pressa.
No reflexo escuro da poça havia uma forma.
Ele se aproximou.
Era um pé.
Descalço.
O contorno familiar.
Adilson não abriu a porta.
A maçaneta girou novamente.
E, dessa vez, a porta abriu sozinha.
• • •
Ele não lembra de ter gritado.
Não lembra de ter corrido.
Só lembra da água.
O corredor estava alagado.
A água vinha de baixo das portas, das paredes, dos tetos.
O prédio inteiro parecia ter começado a vazar ao mesmo tempo.
Adilson correu para a escada.
Escorregou.
Caiu.
O joelho bateu no degrau.
Levantou.
A água chegava aos tornozelos.
Depois aos joelhos.
Depois à cintura.
Ele tentou voltar para a zeladoria.
A água já cobria a porta.
— Neusa!
Não sabia por que gritara o nome.
A água chegou ao peito.
— Neusa!
A porta do 401 estava aberta.
Havia luz lá dentro.
Adilson parou.
A água batia no queixo.
No interior do apartamento havia uma mulher sentada no chão.
De costas.
Vestido azul.
Adilson reconheceu o vestido antes de reconhecer a pessoa.
Era o vestido que Neusa usava naquela manhã.
Aquela manhã.
Antes de tudo.
Antes da ambulância.
Antes do hospital.
Antes de ele aprender a não entrar mais em boxes.
A mulher levantou a cabeça.
— Você demorou.
Adilson ficou imóvel.
— Neusa?
Ela se virou.
O rosto era o dela.
Só os olhos estavam diferentes.
Pareciam cheios de água.
— Você ainda guarda todas as chaves? — perguntou.
Adilson não respondeu.
— Todas?
— Sim.
Ela sorriu.
O mesmo sorriso.
O mesmo dente torto.
— Então por que não conseguiu abrir aquela porta?
Adilson sentiu a água subir.
— Eu tentei.
Neusa inclinou a cabeça.
— Tentou?
Ele fechou os olhos.
A lembrança veio sem pedir licença.
Uma porta.
Água no chão.
A voz dela.
O barulho do corpo caindo.
E depois a mão dele segurando a maçaneta.
Paralisado.
Por alguns segundos.
Só alguns.
Mas alguns segundos podem durar uma vida inteira.
Quando abriu os olhos, Neusa estava diante dele.
— Você fechou todas as outras — disse ela.
Tocou o rosto dele.
A mão estava gelada.
Molhada.
Cheirava a mar.
— Só deixou uma aberta.
• • •
Adilson acordou na cama.
O sol entrava pela janela.
O relógio marcava 8h12.
O quarto estava seco.
Ele ficou algum tempo sem se mexer.
Depois tocou o colchão.
Seco.
Foi até a cozinha.
Fez café.
O cheiro familiar encheu a zeladoria.
Pela primeira vez em muitos dias, pareceu normal.
Olhou para a fotografia.
Neusa sorria.
O dente torto.
Os olhos vivos.
Adilson pegou o uniforme.
Prendeu o molho de chaves à cintura.
Abriu a porta.
Parou.
Na soleira havia uma pegada molhada.
Virada para dentro.
Não olhou para os próprios pés.
Não precisava.
Fechou a porta.
Depois abriu novamente.
A pegada continuava ali.
Ele respirou fundo.
Pegou o pano.
Ajoelhou-se.
Antes de tocar na água, percebeu uma coisa.
A marca não era do tamanho do seu pé.
Era menor.
Muito menor.
Como o pé de uma criança.
• • •
Hoje faz nove dias.
A água não para de subir.
Não no prédio.
O prédio está seco.
Mas em mim.
Sinto os pulmões pesados.
Sinto os olhos molhados.
Sinto os pés descalços mesmo quando uso botas.
As pegadas aparecem em lugares onde não deveriam existir.
Dentro da cama.
No travesseiro.
Na pia.
No espelho.
Não como reflexos.
Como marcas.
Como se alguém estivesse caminhando do outro lado do vidro.
E elas estão diminuindo.
A cada dia.
Ontem eram do tamanho dos meus pés aos oito anos.
Hoje são menores.
Eu me lembro de ter cinco.
Lembro de uma bicicleta caída.
Lembro de água no chão.
Lembro de uma porta.
Não lembro de quem estava do outro lado.
Talvez seja essa a parte que a água quer levar.
Ou devolver.
À noite, escuto Neusa no 401.
Às vezes ela chama meu nome.
Às vezes não diz nada.
Às vezes escuto apenas passos.
Ploc.
Ploc.
Ploc.
E eu respondo.
— Eu sei.
Porque agora sei.
Passei quinze anos cuidando de portas que não eram minhas.
Passei quinze anos conferindo chaves.
Fechando registros.
Secando corredores.
Consertando vazamentos.
A água nunca precisou de uma chave.
Nunca precisou de força.
Nunca precisou escolher.
Bastava uma fresta.
Uma rachadura.
Um descuido.
Uma porta que não fechasse direito.
A água não escolhe.
A água só entra.
Estou escrevendo isso porque talvez alguém encontre estas páginas.
Se encontrar uma pegada molhada na sua casa, não limpe.
Não pergunte de quem é.
Não tente descobrir de onde veio.
E, principalmente, não confie na fechadura.
Porque algumas portas não foram feitas para impedir que alguma coisa entre.
Foram feitas para impedir que alguma coisa saia.
• • •
[Fim do relato encontrado na antiga zeladoria do Residencial Costa Verde, em Matinhos, datado de 14 de julho de 2024.]
Adilson Ferreira dos Santos, 52 anos, zelador do condomínio desde 2009, foi encontrado morto no apartamento 401 na manhã seguinte.
Havia vinte centímetros de água no cômodo.
O laudo registrou afogamento.
O piso, porém, estava seco.
Não havia água nos demais apartamentos.
Não havia sinais de arrombamento.
Não havia explicação para a chave do 401 estar dentro da fechadura, pelo lado de fora.
Também não havia explicação para o molho encontrado sobre a mesa da zeladoria.
O inventário do condomínio registrava 342 chaves.
Foram encontradas 343.
A última não tinha etiqueta.
Era pequena.
Muito pequena.
Segundo o funcionário responsável pelo inventário, parecia antiga demais para pertencer ao edifício.
Ninguém descobriu qual porta ela abria.
O Residencial Costa Verde foi demolido em 2026.
Durante a demolição, os operários encontraram água sob o piso do antigo apartamento 401.
Água salgada.
A alguns metros da praia.
Na areia, naquela mesma noite, apareceu uma sequência de pegadas.
Começava junto às ruínas.
Terminava no mar.
Os pescadores dizem que, quando a maré recua e a neblina baixa, ainda é possível vê-las.
Às vezes são grandes.
Às vezes pequenas.
E, algumas noites, há apenas uma.
Sempre diante de uma porta.
Esperando que alguém a abra.

O TIGRE, O MORANGOE O WHATSAPP

O TIGRE, O MORANGO
E O WHATSAPP
Sobre aquilo que ainda conseguimos ver

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Paulo acordou atrasado numa terça-feira que talvez fosse quarta.
O despertador tocou às 6h47. Ele já estava atrasado às 6h47. Isso acontece com quem dorme pensando no trabalho e acorda pensando no trabalho e, entre uma coisa e outra, sonha com uma planilha.
O primeiro e-mail chegou às 7h03.
Paulo não respondeu.
Às 7h11, chegou outro.
Às 7h18, outro.
Às 7h26, o celular vibrou sobre a pia enquanto ele fazia a barba. Paulo olhou para a tela e, por um instante, teve a impressão de ouvir um rosnado.
Era só a vibração.
Mas ele ficou olhando para o aparelho como se esperasse que alguma coisa saísse de dentro.
Na frente dele, o penhasco.
Atrás, o prazo.
Entrou no carro.
O WhatsApp tinha setenta e três mensagens não lidas. O grupo da família. O grupo do trabalho. O grupo do condomínio. O grupo em que ele não sabia por que estava. Havia também três mensagens da filha, todas sem resposta.
Paulo não abriu.
Ainda.
08:12 — Você viu o que mandaram no grupo?
08:19 — Bom dia! Só passando para lembrar da reunião.
08:43 — URGENTE.
08:44 — Na verdade, não é urgente. Esquece.
No semáforo, Paulo leu a última mensagem duas vezes.
O sinal abriu.
Buzinaram atrás.
Ele guardou o celular.
Chegou ao escritório às 8h58.
Sentou.
Abriu o computador.
O relatório que vencia às seis esperava no fundo do penhasco.
A primeira coisa que Paulo fez foi abrir o e-mail errado.
Depois o certo.
Depois outro.
Às 9h17, estava respondendo a uma mensagem sobre uma reunião marcada para as 10h.
Às 9h21, alguém perguntou se a reunião das 10h continuava de pé.
Às 9h23, avisaram que ela havia sido antecipada para as 9h30.
Às 9h24, desmarcaram.
Às 9h25, remarcaram para as 11h.
Paulo ficou olhando para a tela.
Começou a trabalhar.
Os ratinhos também.
Roíam o cipó em silêncio, embora, de vez em quando, um deles fizesse o celular vibrar.
Paulo leu e-mails. Respondeu e-mails. Marcou reuniões. Desmarcou reuniões. Reagendou reuniões. Pediu para o colega repetir o que tinha acabado de dizer porque, na hora em que o colega disse, Paulo estava lendo um e-mail.
Escreveu três frases do relatório.
Apagou as três.
Escreveu outras três.
Apagou duas.
Às 10h36, tomou café frio.
Às 10h52, encontrou no bolso da calça um papel dobrado.
Era uma lista de coisas que precisava fazer no sábado.
• Trocar a lâmpada da cozinha.
• Levar o carro para lavar.
• Comprar tinta para o quarto.
• Levar a filha ao cinema.
A última linha estava riscada.
Paulo reconheceu a própria letra, inclinada para a direita, mas não lembrava quando havia feito aquele risco.
Dobrou o papel novamente e guardou no bolso.
11h47.
A manhã tinha passado.
Foi então que percebeu uma notificação diferente.
Não havia som.
Apenas uma pequena fotografia na tela.
Era a filha.
Ou melhor, era o desenho dela.
Um sol amarelo ocupava quase metade da folha. Havia uma casa torta, uma árvore menor que a casa e um cachorro comprido demais, com quatro pernas de comprimentos diferentes.
O cachorro tinha dentes.
Muitos dentes.
Paulo sorriu.
Embaixo, escrito com letra torta:
“eu amo meu pai”
Ele ampliou a fotografia.
Não precisava.
Ampliou mesmo assim.
O papel aparecia granulado na tela. Dava para ver a marca do lápis amarelo passando duas vezes sobre o sol. Num canto havia uma mancha azul, provavelmente de tinta.
Paulo conhecia aquela mancha.
A filha costumava apoiar a mão sobre o desenho antes de a tinta secar.
Um e-mail chegou.
Paulo não abriu.
O celular vibrou outra vez.
Ele não olhou.
Ficou olhando para o desenho.
A mensagem tinha chegado às 9h02.
Ele a abriu às 11h47.
Duas horas e quarenta e cinco minutos.
Lembrou-se de quando ela era pequena e desenhava pessoas sem mãos.
Perguntava:
— “Cadê a mão?”
Ela respondia:
— “Depois eu faço.”
Nunca fazia.
Agora os desenhos tinham mãos.
Paulo percebeu isso.
Ficou algum tempo olhando para os dedos tortos do personagem que talvez fosse ele.
Depois salvou a foto.
Levantou.
Foi até a janela.
A janela ficava no fim do corredor, entre a copa e o banheiro. Ninguém ia até lá para olhar. As pessoas iam para o banheiro ou para o café.
Paulo foi para olhar.
Lá embaixo, os carros passavam pequenos entre os prédios.
Um ônibus parou no ponto.
Duas pessoas atravessaram a rua.
Uma delas corria.
A outra não.
O céu estava cinza.
Havia uma faixa mais clara perto dos prédios, onde talvez o sol estivesse tentando aparecer.
O vidro da janela devolvia o reflexo de Paulo sobre a cidade.
Camisa azul.
Mangas dobradas.
Uma mão no bolso.
O celular vibrando.
Ele não tirou o aparelho do bolso.
Ficou ali.
Uma risada veio da copa.
Depois, alguém passou pelo corredor falando ao telefone.
Um carro buzinou na rua.
Paulo continuou olhando.
Não aconteceu nada.
Quando voltou para a mesa, o escritório parecia um pouco mais barulhento.
O ar-condicionado.
Os teclados.
As cadeiras arrastando.
Uma impressora trabalhando em algum lugar.
O celular parecia vibrar mais longe do que antes.
Paulo abriu o e-mail.
Respondeu com uma frase.
Abriu o relatório.
Escreveu duas linhas.
Às 14h17, o relatório ainda estava incompleto.
O chefe mandou uma mensagem:
— “Consegue entregar até as 18h?”
Paulo olhou para a tela.
Depois olhou para o desenho.
Tinha impresso a fotografia em algum momento entre a janela e o relatório.
Não lembrava de ter feito isso.
Prendeu o papel ao lado do monitor.
O cachorro continuava parecendo um jacaré.
Paulo sorriu.
Respondeu:
— “Consigo.”
Ficou olhando para a caixa de mensagem.
Digitou outra coisa.
Apagou.
Digitou novamente:
— “Você viu o desenho que ela mandou?”
O chefe demorou.
— “Que cachorro é esse?”
Paulo olhou para o desenho.
— “É um jacaré.”
Alguns segundos.
— “Ah.”
Outra mensagem:
— “Faz sentido.”
Paulo ficou olhando para a tela.
Depois para o desenho.
O chefe mandou mais uma:
— “Minha filha desenhava umas coisas assim.”
Paulo não respondeu imediatamente.
— “Ainda desenha?”
A resposta demorou.
— “Não.”
Depois:
— “Ela tem 26.”
Paulo ficou com o dedo parado sobre o teclado.
— “Entendi.”
O chefe não respondeu.
Nem precisava.
Paulo voltou ao relatório.
― ◈ ―
Às 18h03, entregou o arquivo.
Estava incompleto.
Ninguém percebeu.
Os tigres continuaram ali, em cima e embaixo.
Os ratinhos continuaram roendo.
No caminho para casa, Paulo passou pelo mercado.
Parou diante da seção de frutas.
Pegou um morango.
Ficou olhando para ele.
Não comprou.
Ainda não.
Em casa, a televisão estava ligada.
A filha tinha chegado antes dele.
Dormia no sofá.
Paulo desligou a televisão sem acordá-la.
Ela tinha deixado o desenho sobre a mesa da cozinha.
O mesmo sol.
A mesma casa.
O mesmo cachorro-jacaré.
Paulo aproximou a cadeira.
Sentou.
Ficou olhando.
Não mexeu no desenho.
Não o guardou.
Não tirou outra fotografia.
Deixou ali.
Antes de dormir, apagou a luz da cozinha.
O desenho ficou sobre a mesa.
Para ver de novo amanhã.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O Restaurador de Livros

O Restaurador de Livros
Aquilo que foi escrito antes de mim

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Eu não queria escrever isto.

Preciso que você entenda antes de qualquer coisa, antes de julgar, antes de duvidar, antes de fechar o livro e dormir tranquilo. Escrevo porque a alternativa é pior. A alternativa é deixar que continue sem testemunha.

Toda noite, quando fecho os olhos, sinto o cheiro. Papel envelhecido. Cola de osso. Tinta ferrogálica que penetrou na fibra há séculos e nunca mais saiu. É o cheiro do meu ofício.

Minhas mãos tremem sobre o teclado. Há uma parte de mim que cresce a cada dia e que sabe que isto não é um testemunho.

É uma confissão.

PRIMEIRA PARTE: O LIVRO

O Largo da Ordem em uma terça-feira de julho é um lugar que existe entre o mundo dos vivos e algo mais antigo. As pedras do calçamento guardam o frio da noite mesmo quando o sol insiste em aparecer por entre as nuvens baixas. O cheiro de pipoca doce e pastel de feira se mistura ao mofo úmido que sobe das galerias subterrâneas, canais que ninguém sabe exatamente para onde levam.

Otávio conhecia cada centímetro daquele lugar. Trinta e quatro anos, quase duas décadas entre estantes e lombadas, entre fólios e incunábulos. Seu ateliê ficava no segundo andar de um sobrado azul desbotado, acima de uma loja de antiguidades que nunca parecia aberta e nunca parecia fechada. Ele subia a escada de madeira rangente todas as manhãs às sete e trinta, invariavelmente, com um café na mão esquerda e a chave na direita.

O hábito começou como uma brincadeira. Cheirar as páginas antes de trabalhar nelas. Um colega de faculdade dizia que cada livro tinha sua própria assinatura olfativa: o século XVIII cheirava a rapé e cera de vela, o XIX a carvão e suor de tipógrafo, o início do XX a fumaça de cigarro e tinta de jornal. Otávio riu na época. Depois experimentou. Depois não conseguiu mais parar.

Era íntimo de um jeito que ele não sabia explicar. Como cheirar o pescoço de alguém adormecido. Você está próximo de algo que não foi feito para ser seu.

Naquela terça-feira, o livreiro do sebo na Rua São Francisco, um homem chamado Valdomiro que tinha a pele tão enrugada que parecia ter sido prensada entre dois volumes, ligou para o ateliê.

“Otávio, apareceu uma coisa aqui. Um lote que veio de um leilão em Porto Alegre. Tem um exemplar que... bom, você precisa ver.”

“Que tipo de exemplar?”

Uma pausa. O som de páginas sendo folheadas do outro lado da linha.

“Não sei dizer. É português. Mas não é brasileiro. A encadernação é estranha. E tem uma dedicatória na primeira página.”

“Dedicação de quem?”

“É isso. Não sei de quem. A letra é... você vai entender quando ver.”

Otávio desceu a escada às onze e quarenta. Lá embaixo, um casal de turistas fotografava a fachada da Igreja da Ordem. Uma vendedora fechava sua banca de artesanato com movimentos lentos, arrastando a lona sobre as peças de madeira. Um ônibus passou na Rua Claudino dos Santos, o motor chiando na subida. Tudo normal. Tudo exatamente como deveria ser numa terça-feira fria de julho.

Foi isso que ele lembraria depois. O quanto tudo estava normal.

O sebo do Valdomiro era um buraco na parede com cheiro de cachorro molhado e história apodrecida. O velho estava atrás do balcão, com óculos de leitura que pareciam ter sido consertados com fita isolante, e um sorriso que não chegava aos olhos.

“Está ali”, disse, apontando com o queixo.

O livro estava sobre um pano de veludo vermelho que o próprio Valdomiro havia colocado, como se a coisa merecesse reverência. Capa de couro escuro, quase preto, com ferragens de latão nos cantos. Sem título na lombada. Sem título na capa. Apenas uma textura que parecia ter sido trabalhada à mão, não por um artesão, mas por alguém que não tinha as ferramentas adequadas, mas tinha a necessidade.

Otávio se aproximou. O cheiro chegou antes que ele pudesse se conter.

Não era papel. Não era couro. Não era cola.

Era algo úmido e doce, como fruta deixada fechada em um armário por tempo demais. Algo que tinha uma nota de metal, ferro, talvez sangue, e uma nota de terra molhada.

Ele abriu o livro.

A primeira página tinha quase todo o branco intacto, exceto pela dedicatória escrita no centro, em tinta que havia escurecido para um marrom quase preto:

Para Otávio, que encontrará isto quando for a hora.

Curitiba, 1983.

Ele ficou olhando para as palavras por um longo momento. Depois riu.

“Valdomiro, isso é brincadeira?”

“Não sei do que você está falando.”

“Tem meu nome aqui. Meu nome exato. E a data é de quarenta anos atrás.”

O velho se aproximou, os óculos escorregando pelo nariz. Leu a dedicatória duas vezes. Três vezes.

“Isso não estava aí”, disse, finalmente. “Quando eu folheei, tinha outra coisa.”

“Outra coisa como?”

“Não sei. Não sei mais.” Ele esfregou os olhos com os nós dos dedos. “Não sei mais o que estava escrito.”

Otávio levou o livro para o ateliê. Disse a si mesmo que era por curiosidade profissional, uma dedicatória anômala em um volume não catalogado, um mistério bibliográfico que merecia investigação. Disse a si mesmo que era o tipo de quebra-cabeça que ele adorava, que encontraria uma explicação racional antes do fim da semana.

Mas havia algo no cheiro daquele livro. Algo que ele não conseguia deixar de buscar. A cada hora, ele abria a capa e aproximava o rosto das páginas, inalando. O cheiro mudava. Às vezes era o dulçor de fruta podre. Às vezes era ferro puro. Às vezes era algo mais antigo, o odor de papel que ainda está sendo feito, polpa úmida prensada em tela, tinta que ainda não secou.

Ele começou a restauração naquela tarde. O trabalho era simples: reforçar a lombada, tratar as manchas de umidade, remover a poeira acumulada nas últimas páginas. Coisas que suas mãos faziam antes mesmo de ele pensar nelas.

Mas quando abriu o livro na página 47, encontrou uma anotação na margem.

Ele ainda não sabe o que está fazendo.

Otávio piscou. A letra era a mesma da dedicatória. E era a dele.

Não apenas parecida. Não apenas familiar. Era a sua letra. A inclinação do “E”, a curva do “n”, a forma como o “s” final se arrastava ligeiramente para a esquerda. Anos examinando manuscritos haviam lhe ensinado a reconhecer uma letra. E aquela era sua.

Fechou o livro. Respirou. Abriu de novo.

A anotação estava diferente.

Ele está começando a entender.

SEGUNDA PARTE: O QUE ESTÁ ESCRITO

Na manhã seguinte, Otávio começou a folhear o livro página por página. As páginas ímpares estavam em branco, completamente, absolutamente em branco, sem sequer as manchas de umidade que ele tinha visto na primeira inspeção. As páginas pares continham texto.

Não um texto contínuo. Fragmentos. Frases soltas, escritas na mesma letra que era a dele, na mesma tinta que escurecia para marrom.

Página 2: A casa tinha um porão que não estava na planta.

Página 4: Ela ouvia passos acima do teto quando não havia andar de cima.

Página 6: O espelho mostrava o quarto vazio, mas ela sentia alguém respirando atrás dela.

Página 8: Ele encontrou os cadernos da mãe e leu todos em uma noite. Na manhã seguinte, não lembrava de nada.

Otávio parou. Os cadernos da mãe. Ele nunca os tinha lido. Nunca tinha sequer aberto a caixa. Mas a página 8 sabia. A página 8 sabia algo que ele nem tinha feito ainda.

Ele fechou o livro. As ferragens de latão pareciam ter mudado de posição, não muito, apenas alguns milímetros, mas o suficiente para que ele notasse.

Ele pegou o telefone. Ligou para o pai.

“Pai, tudo bem?”

“Tudo. Você está bem? Faz tempo que não liga.”

A voz dele. Normal. A televisão ao fundo. O cachorro latindo em algum lugar da casa.

“Pai, aquela caixa de cadernos da mãe. Onde está?”

“Que caixa?”

“A caixa com os cadernos que ela escrevia antes de morrer. Você guardou no armário.”

Uma pausa. Curta. Não longa o suficiente para ser suspeita.

“Ah, aquela. Acho que ainda está aqui. Por quê?”

“Eu queria ver. Você pode procurar?”

“Posso. Mas por que agora, depois de tanto tempo?”

“Só queria.”

O pai riu do outro lado. Um riso normal. Um riso de pai.

“Você sempre foi esquisito com as coisas dela. Desde criança.” Outra pausa. “Espera, deixa eu ver se...”

O som de um armário abrindo. O som de caixas sendo movidas. O som de algo pesado sendo arrastado pelo chão de madeira.

“Está aqui”, disse o pai. “Está aqui. Mas...”

“Mas o quê?”

“Está vazia, Otávio.” A voz dele mudou. Não era mais aguda. Era mais lenta. Mais cuidadosa. Como se estivesse escolhendo cada palavra. “Sempre esteve vazia.”

“Não. Eu me lembro dela escrevendo. Passava horas...”

“Você era criança.”

“Eu vi os cadernos.”

“Você viu uma caixa.”

“Pai, ela morreu de câncer. Eu estava no hospital. Eu tinha doze anos.”

Silêncio. Longo o suficiente para Otávio ouvir a própria respiração.

“Você nunca esteve naquele hospital, Otávio.”

“Eu estava lá.”

“Não. Eu estava.”

A ligação caiu.

Otávio ficou com o telefone na mão, ouvindo o silêncio. O silêncio que vinha do aparelho era diferente do silêncio normal, denso, como se alguém estivesse do outro lado, respirando, esperando que ele desligasse.

Ele desligou.

Sua mãe tinha dezoito anos em 1983. Ele pensou nisso sem querer, como se a informação tivesse sido colocada em sua cabeça por outra pessoa. Dezoito anos, estudando Letras na Federal, morando em uma pensão perto da Reitoria. Ele nunca tinha visto fotos daquele período. Nunca tinha perguntado. Era um buraco na história dela, um espaço em branco entre a infância no interior e o casamento, entre a menina e a mãe.

Um espaço que agora tinha uma data.

O livro estava aberto na página 12.

Ele vai ligar para o pai. O pai vai mentir. O pai sempre mente. O pai sabe o que aconteceu em 1983.

Otávio leu a frase duas vezes. Depois, na terceira, percebeu algo que não tinha visto antes: a tinta estava mais fresca que as outras. Ainda brilhava. Ainda cheirava.

Ele aproximou o rosto da página.

Era o cheiro de tinta que ainda não secou.

Otávio passou os três dias seguintes trancado no ateliê. Não atendeu o telefone. Não saiu para comer. A cada noite, o livro mudava. As páginas pares acumulavam mais texto, mais fragmentos, mais pedaços de uma história que parecia ser sobre ele e não ser sobre ele ao mesmo tempo. Havia passagens sobre uma mulher chamada Vera que tinha um filho chamado Otávio. Havia passagens sobre um homem chamado Otávio que restaurava livros e que começou a perder a memória. Havia passagens sobre um porão em Curitiba, um porão que não estava em nenhuma planta, um porão onde as pessoas escreviam coisas que depois esqueciam.

E havia a dedicatória, que mudava a cada vez que ele a relia:

Para Otávio, que encontrará isto quando for a hora. Curitiba, 1983. Não confie nas páginas pares.

Para Otávio, que escreveu isto sem saber. Curitiba, 1983. Não confie em si mesmo.

Para Otávio, que é a página ímpar. Curitiba, 1983. Confie apenas no que está em branco.

Para Otávio, que não existe. Curitiba, 1983. Nada disto está acontecendo.

TERCEIRA PARTE: O QUE ESTÁ EM BRANCO

Foi na quarta noite que Otávio começou a desconfiar das páginas ímpares.

Ele estava sentado à mesa do ateliê, com o livro aberto na página 46, quando percebeu que a página 47, que ele tinha visto completamente em branco na véspera, agora tinha uma mancha. Pequena. Quase imperceptível. Um borrão de umidade no canto superior, como se alguém tivesse encostado um dedo molhado ali.

Ele virou a página. Página 48, texto. Página 49, branca. Página 50, texto. Página 51, branca.

Voltou para a 47. A mancha estava maior. Não muito. Mas maior.

Ele fechou o livro. Esperou uma hora. Abriu de novo.

A mancha tinha forma agora. Era uma impressão de pressão, como se alguém tivesse escrito sobre a página com força, deixando um sulco no papel, mas sem tinta. Uma escrita invisível.

Otávio levou o livro até a janela. Inclinou a página contra a luz cinzenta da manhã curitibana.

E leu.

Otávio desceu ao porão.

Ele olhou para a página 46. A frase na página 46 era:

Otávio nunca desceu ao porão.

Ele ficou imóvel. As duas frases estavam na mesma caligrafia. A dele. A mesma inclinação do “E”, a mesma curva do “n”, o mesmo “s” arrastado para a esquerda.

Qual página estava mentindo?

Ele passou os dedos sobre a página 47. O sulco era real. A pressão da caneta era real. Alguém tinha escrito aquilo. Alguém tinha escrito aquilo com força suficiente para marcar o papel, mas sem tinta.

Ou talvez a tinta tivesse sido removida.

Restaurada.

Otávio pensou em seu ofício. Pensou nas vezes em que tinha removido manchas de páginas antigas, apagado marcas de umidade, apagado nomes escritos por crianças em margens, apagado dedicatórias que ninguém deveria ler.

Ele passou a vida apagando coisas para que os livros parecessem novos.

E agora alguém estava restaurando coisas nele.

Nas noites seguintes, Otávio começou a examinar as páginas ímpares uma por uma. Primeiro a mancha. Depois a pressão. Depois uma frase quase invisível, tinta tão diluída que só aparecia quando ele inclinava a página contra a luz.

Página 33: Ele acreditou que era o pai quem mentia.

Página 51: Ele acreditou que era a mãe quem escrevia.

Página 79: Ele acreditou que era ele quem lembrava.

Página 103: Nenhuma dessas coisas é verdadeira.

Página 147: Ele está sendo restaurado.

Otávio leu a última frase cinco vezes. Seis. Sete. Cada vez, a tinta parecia ficar mais escura. Cada vez, o cheiro da página parecia mais forte, não mais o cheiro de livro antigo, mas o cheiro de algo que está sendo feito, polpa úmida, tinta fresca, cola ainda quente.

Ele fechou o livro. Olhou para as próprias mãos.

As mãos que tinham restaurado centenas de livros. As mãos que sabiam tratar papel, sabiam reforçar lombadas, sabiam remover manchas, sabiam apagar nomes, sabiam devolver aos livros uma aparência que eles nunca tinham tido.

As mãos que agora tremiam.

Ele abriu o livro de novo. Página 148. Texto.

Ele vai descer ao porão. É o que sempre acontece.

Página 149. Ímpar.

Em branco.

Mas quando Otávio inclinou a página contra a luz, leu:

Ele nunca desceu ao porão.

Página 150. Texto.

Ele vai descer ao porão.

Página 151. Ímpar.

Ele nunca desceu ao porão.

Página 152. Texto.

Ele vai descer.

Página 153. Ímpar.

Ele nunca.

Página 154. Texto.

Ele.

Página 155. Ímpar.

Otávio fechou o livro. Não queria ler a página 155.

Mas já tinha lido.

A página 155 estava em branco. Completamente. Absolutamente. Sem mancha, sem pressão, sem frase invisível.

Mas Otávio sabia o que estava escrito ali.

Ele sabia porque tinha ouvido a frase em sua própria cabeça enquanto fechava o livro. Uma frase que não era dele. Uma frase que vinha de algum lugar profundo, algum lugar antigo, algum lugar que existia antes dele.

Ele está começando a lembrar.

QUARTA PARTE: O RESTAURADOR

Naquela noite, Otávio sonhou.

No sonho, ele estava em um porão. O porão era úmido e escuro, com paredes de pedra que pareciam ter sido colocadas ali antes de a cidade existir. Havia uma mesa no centro, e sobre a mesa havia cadernos. Dezenas. Centenas. Empilhados uns sobre os outros, formando torres que chegavam quase ao teto.

Ele se aproximou. Abriu o primeiro caderno.

A letra era de sua mãe.

Hoje descobri que estou grávida. O médico disse que é um menino.

Ele abriu o segundo caderno.

Otávio tem três anos hoje. Ele encontrou meus cadernos e perguntou o que eram.

Terceiro caderno.

Otávio tem sete anos. Ele diz que não é ele quem escreve.

Quarto caderno.

Descobri o porão hoje.

Quinto caderno.

Otávio tem doze anos. Ele não sabe que está doente.

Sexto caderno.

Ele vai encontrar o livro quando for a hora.

Sétimo caderno. A letra era diferente. Era a letra dele.

Eu sou Otávio. Eu estou escrevendo isto agora, neste porão, e não me lembro de ter descido até aqui.

Otávio acordou com o gosto de terra na boca.

Ele estava no porão.

A mesa estava à sua frente. Os cadernos estavam empilhados sobre ela, exatamente como no sonho. A luz vinha de algum lugar acima, uma fresta, talvez, na pedra do teto.

Ele não lembrava de ter descido. Não lembrava de ter saído do ateliê. Não lembrava de ter atravessado o Largo da Ordem, de ter entrado na Igreja, de ter encontrado a passagem escondida atrás do altar.

Mas estava ali.

O livro sem título estava aberto na mesa. A dedicatória agora dizia:

Para Otávio, que finalmente voltou para casa.

Curitiba, 1983.

Ele ouviu passos atrás de si.

Não se virou. Não conseguia se virar.

Os passos pararam.

Uma voz falou. Era a voz que Otávio lembrava como sendo a de sua mãe.

Não era a voz de sua mãe. Era a voz que ele lembrava como sendo a de sua mãe.

“Você demorou.”

Otávio abriu a boca para responder, mas as palavras que saíram não eram as que ele queria dizer.

“Eu sei”, disse a voz que não era dele. “Eu sempre soube.”

A mão tocou seu ombro. Estava fria. Estava úmida. Cheirava a papel envelhecido e cola de osso.

“Você precisa escrever”, disse a voz. “É a sua vez.”

Otávio olhou para a mesa. Havia um caderno em branco aberto à sua frente. Havia uma caneta ao lado. A tinta era escura, quase preta, e brilhava levemente sob a luz que vinha de cima.

Ele não queria pegar a caneta.

Ele não queria escrever.

Mas sua mão já estava se movendo. Sua mão sempre soube o que fazer. Sua mão tinha quase duas décadas de prática. Sua mão tinha restaurado livros que não eram dela. Sua mão tinha apagado nomes que não eram dela. Sua mão tinha devolvido a livros uma aparência que eles nunca tinham tido.

A ponta da caneta tocou o papel.

E Otávio começou a escrever.

Para quem encontrar isto: eu me chamo Otávio.

Ele parou.

Olhou para a frase.

Havia outra frase abaixo. Ele não tinha escrito aquela frase. A tinta ainda estava fresca. Ainda brilhava. Ainda cheirava.

Eu também me chamo Otávio.

Ele virou a página.

Página 2.

Já havia uma frase escrita ali.

Ele ainda não sabe que não é o primeiro.

Atrás dele, a voz que ele lembrava como sendo a de sua mãe não disse nada.

Acima deles, Curitiba continuou de pé.

Em algum lugar, uma página foi virada.

[Nota do arquivista]

O caderno foi encontrado em março de 2024, dentro de uma caixa de livros doados ao sebo da Rua São Francisco.

O livreiro não se recorda de ter recebido a caixa.

Não foi possível identificar o autor.

A primeira página estava em branco durante a catalogação.

Na manhã seguinte, havia uma frase escrita.

Não confie nas páginas pares.