O Lugar Onde Ninguém Chega Sozinho
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
Vilmar conhecia cada curva da Graciosa tão bem quanto conhecia as próprias mãos. E as mãos, ultimamente, tremiam mais do que deviam.
Tinha cinquenta e nove anos e trinta e dois de estrada, subindo e descendo a serra transportando banana, farinha, madeira, palmito, caixas de fruta — o que aparecesse. Aprendera a dirigir ali antes mesmo de aprender a desconfiar da estrada. Reconhecia as curvas pelo tempo que levava para vencê-las, os trechos onde a água escorria sobre o paralelepípedo, as árvores inclinadas sobre o asfalto e até o cheiro da mata quando começava a chover.
O caminhão era um Mercedes 710 azul, antigo, desbotado pelo sol e pela maresia. Vilmar o chamava de Fiel.
Nunca o deixara na mão.
Nem naquela noite de 1998, em que a neblina desceu tão espessa que ele dirigiu durante quatro horas sem enxergar mais do que alguns metros à frente. Naquela vez, guiou-se pela memória. Os pneus pareciam conhecer o caminho melhor do que os olhos.
No retrovisor pendia um terço de contas de madeira.
Iracema o pendurara ali numa manhã de sol, quando o caminhão ainda tinha pintura nova e os dois ainda faziam planos para quando ele parasse de trabalhar.
— Se você morrer, quero que seja com isso balançando diante dos olhos — dissera ela.
Vilmar rira.
— Belo incentivo.
— É para você lembrar de que tem alguém esperando.
Iracema morreu numa terça-feira de agosto.
Aneurisma.
Foi o que disseram.
Rápido demais para despedidas, rápido demais para perguntas.
Vilmar não estava em casa; estava na estrada. Quando chegou a Morretes, havia sete chamadas perdidas no celular.
O terço continuou pendurado no retrovisor.
Dezenove anos depois, ainda não tivera coragem de tirá-lo.
♦ ♦ ♦
Naquela quarta-feira, 14 de junho, a neblina se formou antes das dez da noite.
Vilmar saiu de Morretes com o Fiel carregado de banana com destino a Matinhos. O rádio funcionou por alguns minutos, depois começou a chiar. Ele o desligou.
A estrada estava vazia.
A mata parecia mais próxima do que de costume.
No quilômetro 12, havia um homem no acostamento.
Magro. Casaco escuro. Uma das mãos no bolso; a outra levantada, com o polegar para cima.
Vilmar reduziu a velocidade.
Não pensou.
Durante trinta e dois anos aprendera que certas coisas se faziam sem pensar. Parar para alguém na estrada era uma delas.
O homem abriu a porta e entrou.
— Boa noite.
— Boa noite.
Vilmar voltou a acelerar.
— Vai até onde?
— Matinhos.
— Suba então.
O homem fechou a porta.
Durante alguns minutos, só se ouvia o motor e o ruído dos pneus sobre a estrada úmida.
Vilmar olhou de relance para o passageiro.
Rosto comum. Cabelo escuro. Olhos claros.
Não parecia jovem nem velho. Era o tipo de rosto que a memória guardaria mal.
— O senhor faz essa rota há muito tempo? — perguntou o homem.
— Trinta e dois anos.
— Muito tempo.
— É.
O homem olhou para a frente.
— Deve conhecer cada curva.
— Conheço.
— Mesmo no escuro?
Vilmar sorriu de lado.
— Principalmente no escuro.
Passaram por uma curva fechada. Depois outra.
Havia algo naquela conversa que lhe parecia antiga. Não exatamente familiar, mas antiga — como uma frase ouvida muitos anos antes e depois esquecida.
— Já deu muitas caronas? — perguntou o homem.
— Bastantes.
— E todos chegam ao destino?
Vilmar tirou os olhos da estrada por um instante.
— A maioria.
O homem assentiu.
— A maioria.
No retrovisor, o terço balançava.
Vilmar tornou a olhar para a estrada.
As contas de madeira brilhavam.
Franziu a testa. O terço estava úmido. Não muito — apenas uma película de água sobre as contas, como se alguém tivesse soprado sobre elas.
Passou a mão pelo rosto. A cabine estava quente. Os vidros estavam fechados.
— Está sentindo frio? — perguntou o homem.
— Não.
— Eu estou.
Vilmar apertou o volante.
— Falta muito para Matinhos?
O passageiro sorriu.
— Depende.
— De quê?
— De onde o senhor decidir parar.
♦ ♦ ♦
No quilômetro 23, Vilmar perguntou:
— Será que já nos conhecemos?
O homem demorou a responder.
— O senhor acha que não?
Vilmar olhou para ele. Dessa vez, o passageiro virou o rosto; os olhos claros pareciam quase sem cor.
— Sua esposa ainda o espera? — perguntou.
Vilmar sentiu um aperto no peito.
— Minha esposa morreu.
— Eu sei.
— Como sabe?
O homem olhou para o retrovisor, para o terço.
— Foi ela que deixou isso aqui.
Vilmar ficou alguns segundos sem responder.
— Faz quanto tempo?
— Dezenove anos.
— Dezenove?
— É.
O homem passou o dedo pelo vidro da janela, sem deixar marca.
— Tem certeza?
Vilmar apertou o volante com força.
— Tenho.
— Então está quase na hora.
— Hora de quê?
Nenhuma resposta.
O motor continuou a trabalhar. A neblina adensou-se.
Vilmar percebeu que já deveria ter passado por um ponto que conhecia bem: ali, à esquerda, ficava uma árvore enorme com o tronco dividido em dois. Esperou. A árvore não apareceu. Continuou dirigindo. Esperou mais. Nada.
No retrovisor, o terço começou a pingar. Uma gota caiu. Depois outra.
Olhou para o assoalho da cabine. Havia uma pequena mancha escura ao lado do banco do passageiro.
— Seu casaco está molhado?
O homem olhou para baixo.
— Não.
— Então de onde vem essa água?
O passageiro ergueu os olhos.
— O senhor sabe.
Vilmar pisou no freio com força. O caminhão parou.
A neblina envolveu a cabine. Por alguns instantes, não havia estrada, árvores nem céu — só branco.
Tentou abrir a porta. A maçaneta não se moveu. Tentou de novo. Nada.
— Abra a porta.
O homem permaneceu imóvel.
— Quero descer.
— Ainda não.
— Abra a porta!
— O senhor sempre pede isso.
Vilmar virou-se para ele.
— Como?
— Sempre.
O motor engasgou. Uma vez. Duas.
No assoalho, a mancha de água crescia. Vilmar olhou para os próprios pés: a água já cobria os sapatos.
— Não...
O homem não parecia assustado.
— O senhor nunca gostou desta parte.
— De que parte?
O passageiro não respondeu.
A água subiu até os tornozelos e depois até as pernas. Vilmar tentou alcançar a janela; o vidro não se moveu. Tentou gritar, mas a água já chegava à cintura.
No retrovisor, o terço balançava. As contas batiam umas nas outras num som pequeno e regular — como dentes batendo de frio.
Respirou fundo. A água chegou ao peito. E, antes de cobrir-lhe a boca, ouviu uma voz. Não era a do passageiro. Era a de Iracema, bem perto:
— Você demorou.
Vilmar abriu a boca para responder. A água entrou.
♦ ♦ ♦
Abriu os olhos.
Estava dirigindo. A estrada estava seca. O sol começava a despontar atrás das montanhas, tingindo de laranja o céu entre as árvores. O rádio tocava Evidências.
Conhecia aquela música. Não lembrava de a ter ligado.
Olhou para o banco ao lado: vazio.
Parou o caminhão. Ficou alguns minutos com as mãos sobre o volante. Depois olhou para o retrovisor: o terço estava seco.
Respirou fundo, pegou o celular e viu nove chamadas perdidas — todas do mesmo número desconhecido. Ligou de volta. Chamou três vezes. Uma mulher atendeu:
— Alô?
Vilmar não respondeu.
— Alô?
— Foi você que me ligou.
— O senhor é o Vilmar?
— Sou.
Houve um breve silêncio.
— Meu pai falava muito no senhor.
O estômago de Vilmar se contraiu.
— Quem é seu pai?
— Ele morreu há dez anos.
— E por que falava de mim?
— Dizia que o senhor o levou pela Graciosa.
Vilmar olhou pela janela.
— Quando foi isso?
— Na noite em que ele desapareceu.
— Ele morreu?
— O corpo foi encontrado três dias depois.
Vilmar calou-se.
— Minha mãe nunca acreditou que tivesse sido acidente — prosseguiu a mulher.
— E sua mãe...?
— Faleceu no ano passado.
— E o que isso tem a ver comigo?
A mulher respirou fundo.
— Antes de morrer, me pediu que nunca ligasse para o senhor.
Vilmar fechou os olhos.
— Então por que está ligando?
— Porque ontem encontrei uma fotografia.
O coração acelerou.
— Que fotografia?
— Meu pai, sentado no banco do seu caminhão.
Vilmar emudeceu.
— No verso havia uma data.
— Qual?
— 1987.
A ligação caiu.
Ficou olhando para o telefone. O número desconhecido continuava na tela. Não ligou de volta.
♦ ♦ ♦
Chegando em casa, não conseguiu dormir. A cozinha parecia maior do que lembrava. Iracema fora uma mulher barulhenta: ria alto, falava alto, batia portas, cantava enquanto lavava a louça. Depois que ela se foi, a casa se encheu de um silêncio que ele nunca aprendera a preencher.
Preparou café e esqueceu a xícara sobre a mesa. Abriu um armário e encontrou uma caixa de sapatos cheia de fotografias: o casamento, viagens, Iracema diante da casa, o caminhão novo. No fundo, uma imagem que não reconhecia.
Aproximou da luz: era ele, muito jovem, ao volante do Fiel. Ao lado, o homem do casaco escuro, de olhos claros — o mesmo rosto.
Virou a foto. No verso, a data: 1987. E, abaixo, uma frase com a letra de Iracema:
Não pare no 47.
Sentou-se. Leu de novo. A frase parecia absurda — ainda mais porque conhecia aquela letra tão bem quanto a própria voz. Então notou algo: uma segunda linha, quase apagada. Aproximou da janela e conseguiu decifrar apenas três palavras:
...se ele entrar...
O restante fora arrancado.
Passou o polegar sobre o papel. Uma lembrança tentou vir à tona: Iracema na cozinha, uma mala no chão, o rádio ligado, uma discussão... ele saindo pela porta e a voz dela:
— Não vá pela Graciosa!
E a memória se desfez.
Ficou sentado por muito tempo. Ao se levantar, já não sabia se aquela recordação era verdadeira ou se a fotografia a havia plantado ali.
♦ ♦ ♦
Na quinta-feira seguinte, o dinheiro acabou. Não teve escolha. Saiu de Morretes às dez da noite. A neblina estava lá — densa, leitosa, pousada sobre a estrada como se esperasse.
No quilômetro 12, viu o homem. Não reduziu. Passou direto. O homem não levantou o polegar, não fez nenhum gesto; apenas o acompanhou com o olhar.
Continuou. Quilômetro 17... 19... 23... A estrada parecia normal. Então ouviu:
— Boa noite.
Congelou. O banco ao lado estava ocupado. O homem olhava para a frente.
— Como entrou?
— O senhor sabe.
— Eu não parei!
— Eu sei.
Apertou o volante.
— O que quer?
— Chegar.
— Aonde?
O homem virou-se devagar.
— O senhor ainda não se lembra.
Uma dor atravessou-lhe a cabeça. Imagens vieram: a cozinha, Iracema, o relógio marcando onze e pouca coisa, a porta batendo, o caminhão saindo... e depois algo que não deveria existir: Iracema correndo pela beira da estrada.
Piscou e a imagem sumiu.
— Minha esposa morreu de aneurisma — disse, quase sussurrando.
— Foi o que disseram?
— Eu estava trabalhando! Recebi as ligações ao chegar a Morretes.
— E antes disso? Onde estava antes?
— Na estrada.
— Qual estrada?
A pergunta pareceu tola — até deixar de parecer. No assoalho, a mancha reapareceu.
— Eu matei alguém? — perguntou, com a garganta seca. — Matei a Iracema?
Silêncio.
— Foi isso?
O homem virou o rosto.
— O senhor continua fazendo a pergunta errada.
A água cobriu-lhe os sapatos. Vilmar não gritou.
— Então qual é a pergunta certa?
O homem inclinou-se um pouco.
— Por que o senhor nunca chegou em casa?
Algo dentro dele se partiu. A memória veio, nítida: a discussão, o terço, o homem parado no acostamento... o aviso: Não pare no 47. Depois, Iracema no banco ao lado, molhada, pálida, dizendo:
— Você demorou.
A água subiu. Fechou os olhos.
♦ ♦ ♦
Quando abriu, estava dirigindo. O sol nascia. O rádio tocava Evidências. O banco estava vazio. O terço, seco.
Não parou. Seguiu adiante. No quilômetro 47, reduziu a velocidade. O acostamento estava deserto — nenhuma figura, nenhuma casa, só a neblina subindo do vale.
Olhou pelo retrovisor. Por um instante, viu Iracema ao seu lado. Não parecia morta — parecia cansada. Não o olhou; apenas apontou para a estrada adiante.
Acelerou.
♦ ♦ ♦
Na manhã seguinte, outro caminhoneiro encontrou o Mercedes 710 parado no acostamento, no quilômetro 47. O motor estava desligado; a porta do motorista, aberta. Ninguém dentro. No banco do passageiro, uma pequena poça de água.
O homem olhou, sem entender de onde viera. No retrovisor, um terço de contas de madeira — não notara ao aproximar-se. Tocou as contas; estavam geladas.
O celular vibrou. Mensagem de número desconhecido:
NÃO PARE.
Guardou o aparelho e olhou para a estrada. A neblina começava a subir. Então ouviu:
— Moço?
Virou-se. Uma mulher jovem, de cabelos escuros e roupas claras, estava no acostamento. Parecia perdida.
Olhou o celular de novo. NÃO PARE.
Deveria ter ido embora. Em vez disso, perguntou:
— Precisa de carona?
Ela sorriu.
— Vou para Matinhos.
Abriu a porta. Ela entrou. Fechou-se a porta. O caminhão retomou a marcha.
Durante minutos, nenhum falou. Então a mulher perguntou:
— O senhor faz essa rota há muito tempo?
Ele sorriu.
— Tempo demais.
Ela olhou para o retrovisor. O terço balançava. Uma gota caiu sobre o painel.
— Muito tempo — repetiu ela.
O rádio começou a chiar. Antes de encontrar o botão, ela perguntou:
— Conhece o quilômetro 47?
— Conheço.
Virou-se para a janela.
— Eu também.
A neblina fechou a estrada. O caminhão seguiu adiante.
♦ ♦ ♦
Em algum ponto da serra, um homem de casaco escuro caminhava pelo acostamento. Não parecia perdido; parecia esperar. Ao ouvir um motor aproximar-se, levantou o polegar. O motorista reduziu.
Dentro da cabine, a mulher olhou pelo retrovisor. O terço embaçou. Tocou as contas e sussurrou, como para si mesma:
— Você demorou.
O homem entrou. A porta fechou. A estrada desapareceu na névoa. Por alguns minutos, silêncio. Então ele perguntou:
— O senhor faz essa rota há muito tempo?
A mulher sorriu.
— Trinta e dois anos.
O caminhão continuou subindo. Na curva seguinte, não havia mais estrada — só neblina. E, bem no fundo, algo que esperava apenas mudar de lugar.
Na Graciosa, certas viagens não terminam. Apenas trocam de motorista.