domingo, 20 de setembro de 2026

A PEDRA NA MÃO

A PEDRA NA MÃO
Ela esperava. Eu também.

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Ela sempre estava ali.
Não importava a hora, o dia, o vento. Quando eu descia a rua de paralelepípedos que corta o bairro até a orla de Matinhos, lá estava: de pé junto ao muro baixo, olhando o mar. O vento bagunçava-lhe os cabelos escuros, e ela nunca se virava, nunca fazia um gesto sequer. Apenas esperava.
Usava sempre o mesmo casaco de lã marrom, calça escura, sapatos pesados. Não chamava atenção — exceto por estar sempre ali, na mesma postura, como se o tempo tivesse parado e ela esperasse algo que não chegava nunca.
Eu sou Luís. Trabalho com entregas entre Curitiba e o litoral. Faz quatro meses que me mudei para um apartamento pequeno nos fundos de uma casa, a poucos metros da praia. Separei-me há pouco. O silêncio da casa pesava, então acostumei-me a sair cedo, a caminhar antes de o sol nascer. Era nessas manhãs que a via.
— Bom dia — disse, certa vez.
Ela não respondeu. Não se mexeu. Fui-me embora sem saber se tinha ouvido. Gente estranha há em todo lugar. Principalmente numa praia fora de temporada, quando o ar é cinzento e as ruas parecem segurar a respiração.
Naquela semana, o mar bateu forte. Espuma branca cobria a areia. Quando passei, notei algo novo. Na mão, uma pedra lisa, escura. Passava-a de uma mão para a outra. Sem pressa. Sem parar.
No dia seguinte, a pedra continuava com ela. E no outro.
Comecei a prestar atenção. Sempre a mesma pedra. Sempre o mesmo gesto. Pensei em perguntar o que esperava. Algo me segurou. Havia nela uma quietude tão densa que parecia desrespeito interromper.
Numa manhã de garoa fina, ela estava ali sem se abrigar. A pedra brilhava úmida. Aproximei-me.
— Vai ficar doente assim — disse, baixinho.
Ela virou-se devagar. Os olhos castanho-claros, sem foco — como se olhasse através de mim.
— Ele vem.
— Quem?
Ela voltou o olhar para o mar. Não respondeu.
Naquela tarde, subi a Serra do Mar em direção a Curitiba. A neblina cobria a estrada; curvas que conheço de cor pareciam outras. Pensei nela o caminho inteiro. Quem seria? O que esperava? Alguém que partiu e não voltou?
Ao descer, já era noite. A orla estava vazia. Ela continuava ali.
Dois dias depois, não estava.
O muro estava vazio. Fui-me ao trabalho com um buraco no peito, como se algo tivesse sido retirado sem aviso.
Na volta, estacionei o carro. Vi algo no chão, perto da roda dianteira. Uma pedra lisa, escura.
A mesma pedra.
Peguei-a. Estava fria, úmida. Deixei-a no banco do passageiro. Quem sabe ela passara, deixara cair, voltaria para buscar.
Ninguém veio.
Coloquei-a sobre a mesa da cozinha. Parecia uma pedra comum. E, no entanto, havia nela um peso que não deveria ter.
Acordei de madrugada. A pedra não estava na mesa.
Estava na entrada. Fiquei parado. Não conseguia lembrar de ter saído com ela.
Revisei janelas, fechaduras. Tudo seguro. Ninguém. Fui dormir dizendo a mim mesmo que estava cansado, que a mente prega peças.
De manhã, não estava na entrada. Estava sobre o travesseiro.
Sentei-me na beira da cama. Não lembrava de tê-la colocado ali.
Saí, fui até o muro. Ninguém. Deixei a pedra sobre o muro, bem visível. Voltei para casa aliviado.
Quando abri a porta, ela estava no chão da sala.
Recuei. O ar pareceu mais denso. Peguei-a, guardei-a no bolso. Não havia ninguém. Não havia explicação.
Apareceu de novo no muro, três dias depois.
Aproximei-me devagar. Ela não segurava pedra.
— Encontrei isto — disse, estendendo a mão.
Ela olhou a pedra, depois para mim.
— Não é minha.
— Vi com você. Várias vezes.
Ela balançou a cabeça devagar.
— E você... também espera.
Fiquei sem saber o que dizer. Guardei a pedra.
Passou uma semana. Ela aparecia e sumia. A pedra mudava de lugar: na mesa, no chão, no banco do carro. Às vezes a deixava em casa e a encontrava na mão, sem lembrar de ter pegado. Comecei a não saber mais se a carregava ou se ela me acompanhava.
Passei os olhos pela estante. A foto continuava virada para a parede. Não tinha coragem de endireitá-la. O silêncio da casa pesava diferente — não era vazio. Era cheio de coisas não ditas.
Sentei-me ao lado de uma senhora num banco, perto da orla.
— A senhora conhece aquela mulher? — apontei.
Ela olhou, confusa.
— Que mulher?
— De pé, junto ao muro. Casaco marrom.
A senhora franziu a testa.
— Não há ninguém ali, filho. Faz tempo. Desde que ele parou de vir.
— Quem?
— O irmão. Vinha aqui, igual a ela. Depois sumiu. Nunca mais voltou.
Olhei para o muro. Vazio.
A pedra pesou no bolso.
Naquela noite, não dormi. Pensei na porta. No som que fez ao fechar. No silêncio que ficou do outro lado. Pensei em como é fácil ir embora e deixar alguém parado, esperando. Pensei em como dizemos “depois conversamos” e o depois nunca chega.
De manhã, fui até a orla. Ela estava lá.
— Eu sei — disse, sem chamar por ninguém. — Você não espera que ele chegue. Espera que alguém volte.
Ela virou-se. Pela primeira vez, pareceu me ver de verdade.
— E você? — perguntou baixinho. — O que carrega que não consegue devolver?
Abri a mão. A pedra estava ali.
— Não sei. Algo que deixei para trás. E não sei como buscar.
Ela estendeu a mão. Os dedos quase tocaram os meus.
— As pedras pesam quando ficam com quem não pode carregá-las. Deixe aqui. Quem tem de encontrar, encontra.
E então, não havia ninguém.
O muro estava vazio. O vento soprou no mesmo lugar. O mar batia igual. Só faltava ela.
Fiquei sozinho com a pedra. Coloquei-a sobre o muro. Voltei para casa.
Não havia pedra na manhã seguinte. Não havia ninguém.
Passaram-se dias. Comecei a dormir melhor. As coisas no trabalho fluíram. Pensei que tinha acabado.
Ontem, voltei de viagem tarde. Abri a porta do carro. Sobre o banco, uma pedra lisa, escura.
Fiquei olhando. Não a toquei. Não senti medo. Apenas reconheci: era a minha vez de soltar.
Peguei-a. Fui até a praia. A maré estava baixa. Coloquei-a na água, devagar. A onda levou.
Hoje passei pelo muro. Ninguém. Nenhuma pedra.
O vento trouxe cheiro de chuva e mar.
E senti: pela primeira vez, não estava sendo esperado.

O QUARTO QUE DAVA PARA A ESTRADA

O QUARTO QUE DAVA PARA A ESTRADA
Um conto de terror psicológico

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

— O senhor quer o mesmo quarto?
Mauro ainda estava dentro do carro quando ouviu a pergunta. O homem permanecia à porta da pousada, uma das mãos apoiada no batente, olhando primeiro para o veículo e depois para ele. A chuva fina cobria o para-brisa e deformava a luz amarela da placa pendurada sobre a entrada.
Mauro desligou o motor e ficou alguns segundos com a mão sobre o volante.
— Como?
O homem pareceu perceber o próprio erro.
— Nada. O quarto três está livre.
Mauro não respondeu imediatamente. Não conhecia aquela pousada. Nunca tinha estado ali. Pelo menos era o que lembrava.
A estrada entre Morretes e Antonina estava quase vazia naquela tarde. Chovia desde Curitiba, uma chuva miúda e persistente que escurecia os barrancos, encharcava o mato e fazia as poucas casas aparecerem atrás de cercas e árvores como coisas abandonadas. Mauro pegou a mochila no banco traseiro e entrou.
A recepção tinha cheiro de madeira úmida, café velho e produto de limpeza. Sobre o balcão havia um livro de hóspedes aberto. Mauro assinou o nome. A caneta estava morna. O homem pegou a chave e indicou o corredor.
— Quarto três.
O quarto ficava no fundo da pousada. Era simples, antigo, mas limpo, com cama de casal, guarda-roupa escuro, uma mesa pequena e uma janela voltada para os fundos da propriedade. Mauro deixou a mochila sobre a cadeira e, enquanto tirava o casaco, percebeu um papel dobrado sobre a mesa.
Era um recibo antigo.
A data fazia onze anos.
Duas diárias.
No espaço destinado ao hóspede havia apenas uma letra:
M.
Mauro ficou olhando. Pegou a caneta que trouxera da recepção e escreveu um M no verso. Comparou as duas letras. A dele era parecida. Não igual. Parecida demais.
Dobrou o recibo e o colocou novamente sobre a mesa, tentando não pensar naquilo.
* * *
À noite, jantou em um restaurante pequeno na estrada e voltou para a pousada pouco depois das dez. A recepção estava vazia. Subiu para o quarto, tomou banho e abriu o computador, mas não conseguiu trabalhar. A chuva havia aumentado e o som constante da água contra o telhado ocupava o quarto inteiro.
Pouco depois das onze e meia, ouviu duas batidas na janela.
Toc.
Toc.
Mauro levantou a cabeça e esperou. Nada. Foi até a janela. Os fundos da pousada desapareciam na chuva. Havia um terreno inclinado, algumas árvores baixas e, além delas, uma faixa escura que parecia uma estrada. Mauro franziu a testa. A janela deveria estar voltada para os fundos.
Abriu.
O ar frio entrou trazendo cheiro de terra molhada.
Então dois faróis apareceram.
Um carro vinha pela estrada atrás da pousada. Mauro ficou imóvel enquanto os faróis avançavam devagar, atravessavam a chuva e desapareciam atrás da construção.
Ele fechou a janela.
Por alguns segundos, o quarto pareceu encolher. A cama ocupava espaço demais e o guarda-roupa estava mais perto da janela do que deveria. Mauro permaneceu parado, sem saber exatamente o que esperava. Piscou e olhou outra vez. A cama estava onde sempre estivera. O guarda-roupa também.
Sobre a mesa, o recibo estava aberto.
Mauro se aproximou. Na linha das diárias havia uma anotação que ele não lembrava de ter visto antes:
DUAS NOITES.
Pegou o celular e fotografou. Depois tentou apagar a fotografia. O dedo ficou parado sobre a tela. Tentou novamente, mas não conseguiu. Guardou o aparelho no bolso.
Naquela noite, dormiu pouco.
* * *
Às sete e vinte da manhã, sua irmã ligou. Mauro atendeu ainda deitado.
— Você já esteve aí.
Ele se sentou.
— Onde?
— Nessa pousada.
Mauro olhou para a porta.
— Como você sabe onde estou?
— Você mandou a localização ontem.
Ele não lembrava.
— Eu nunca vim aqui.
— Veio.
— Quando?
— Onze anos atrás.
Mauro passou a mão pelo rosto.
— Com quem?
Houve um silêncio antes da resposta.
— Com o pai.
Ele ficou olhando para a parede.
— Não lembro.
— Eu sei.
— O que aconteceu?
— Eu já contei.
— O quê?
— Outras vezes.
Mauro não respondeu. A voz da irmã ficou mais baixa.
— Você sempre esquece essa parte.
A ligação caiu.
Ele tentou retornar, mas não havia sinal. Permaneceu sentado por alguns minutos, segurando o telefone, até sentir cheiro de cigarro. Era muito fraco, misturado ao cheiro de terra molhada.
A memória veio por menos de um segundo: o banco traseiro de um carro, chuva no vidro, uma lanterna, a mão do pai apoiada no encosto e uma voz dizendo:
— Não me deixa aqui.
Mauro levantou tão depressa que bateu o joelho na mesa. O quarto estava vazio.
Foi ao banheiro e lavou o rosto. Quando ergueu a cabeça, viu no espelho a porta do quarto aberta atrás dele. Virou-se. A porta estava fechada.
Ficou parado alguns segundos antes de voltar para o quarto.
* * *
O recepcionista estava atrás do balcão, limpando a madeira. Mauro se aproximou.
— Eu já estive aqui?
O homem continuou o movimento do pano.
— Já.
— Com meu pai?
O pano parou por um instante.
— O senhor estava acompanhado.
— O que aconteceu?
O homem retomou a limpeza.
— Choveu bastante.
— Eu estava procurando alguém?
— Estava.
Mauro sentiu uma pressão atrás dos olhos.
— Por que você perguntou ontem se eu queria o mesmo quarto?
O homem levantou os olhos.
— Eu não perguntei isso.
Mauro ficou olhando para ele.
— Perguntou.
O homem dobrou o pano.
— Quarto três está livre hoje à noite, se quiser ficar.
Mauro não respondeu e voltou para o quarto.
* * *
Passou a manhã tentando trabalhar. As palavras na tela começaram a perder sentido e, em determinado momento, percebeu que havia escrito três vezes a mesma frase. Apagou tudo e tentou ligar para a irmã, mas ela não atendeu.
No início da tarde, abriu a mochila. O recibo estava lá.
Pegou o papel e pensou em rasgá-lo. Os dedos apertaram a borda, mas ele parou e o guardou novamente.
Foi então que encontrou a fotografia.
Estava dentro de um envelope antigo, embora Mauro não se lembrasse de tê-la colocado ali. Na fotografia, ele era mais jovem e estava diante da mesma pousada, ao lado do pai. A parede de madeira aparecia atrás dos dois, assim como a janela do quarto três.
Mauro aproximou a fotografia do rosto e depois a virou. No verso havia uma frase escrita pela mãe:
Não deixe Mauro voltar sozinho.
Ele virou novamente.
Na janela havia uma figura pequena, parada atrás do vidro. Mauro aproximou a fotografia ainda mais. A camisa parecia a mesma que ele vestia naquele momento.
O pai não olhava para a câmera. Olhava para Mauro. Havia no rosto dele um cansaço que Mauro não lembrava de ter visto naquela época.
Mauro quis rasgar a fotografia. Os dedos apertaram a borda, mas ele parou e guardou-a na mochila.
A dor atrás dos olhos pulsou uma vez.
Depois passou.
* * *
No fim da tarde, decidiu ficar. A chuva havia engrossado, e sair pela estrada depois do escuro não parecia uma boa ideia. Na recepção, o homem não perguntou nada. Apenas entregou a chave.
Quarto três.
A segunda noite foi silenciosa. Não havia televisão nos outros quartos, conversa ou carro chegando. Mauro ficou deitado no escuro, olhando para o teto, até ouvir passos no corredor pouco depois da meia-noite.
Eram lentos.
Pararam diante da porta.
Duas batidas.
Toc.
Toc.
Mauro se levantou e chegou perto. Colocou a mão sobre a maçaneta. Por um instante, a dor atrás dos olhos cedeu, mas a mão permaneceu imóvel.
Do outro lado da porta, ninguém falou.
Os passos continuaram pelo corredor e desceram a escada.
Mauro não abriu.
Ficou acordado até amanhecer.
* * *
Às sete e cinquenta, tomou banho, fechou a mochila e saiu. A recepção estava vazia. Havia uma xícara sobre o balcão e o café ainda soltava um pouco de vapor. Mauro chamou pelo homem, mas ninguém respondeu. Deixou a chave e seguiu até o carro.
No caminho, viu marcas de barro perto da entrada lateral.
Parou.
Uma sequência de pegadas seguia até o quarto três. Ao lado dela havia outra marca, mais estreita, que terminava diante da mesma porta.
Mauro olhou para os próprios sapatos.
Depois entrou no carro.
O painel marcava 8h04.
Saiu.
Durante os primeiros quilômetros, não pensou em nada. A chuva havia diminuído e a estrada seguia entre morros baixos, árvores molhadas e pequenos trechos de neblina.
Então apareceu uma placa:
MORRETES
18 km
Mauro continuou.
Mais adiante, outra:
MORRETES
18 km
Reduziu e olhou pelo retrovisor.
Nada.
O celular continuava sem sinal.
Duas batidas vieram do vidro traseiro.
Toc.
Toc.
Mauro apertou o volante.
O cheiro voltou. Cigarro, terra molhada, papel velho.
A lembrança veio em pedaços: o banco traseiro, a chuva, a porta aberta, a mão do pai do lado de fora.
— Mauro, abre.
Ele olhou pelo retrovisor.
O banco traseiro estava vazio.
No banco do passageiro havia um papel.
O recibo.
Mauro pegou. Na parte inferior estava escrito:
SAÍDA: AMANHÃ.
Ficou olhando por alguns segundos. Depois amassou o papel e jogou pela janela.
Continuou dirigindo.
Alguns minutos depois, viu novamente:
MORRETES
18 km
Parou.
Desceu.
A placa estava voltada para o sentido contrário.
Mauro olhou para a estrada e depois para trás.
Entre a chuva e a neblina havia uma construção.
A pousada.
A mesma madeira escura.
A mesma placa.
A mesma janela.
O quarto três estava iluminado.
Mauro voltou para o carro e ficou sentado sem ligar o motor. Não sabia quanto tempo havia passado quando olhou para o banco do passageiro.
O recibo estava ali.
Inteiro.
Sem marcas de amassado.
Mauro não o tocou.
Leu.
VOCÊ NÃO ME DEIXOU AQUI.
Mauro leu.
A dor atrás dos olhos pulsou uma vez.
Olhou para o banco traseiro.
Vazio.
Quando voltou os olhos para o recibo:
VOCÊ FICOU.

sábado, 19 de setembro de 2026

O Andar de Cima

O Andar de Cima

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Há uma hora que sempre chega, não importa onde ele esteja. Duas e quatorze da madrugada. O mesmo frio, a mesma imagem: posto de gasolina na BR-277, capô levantado, uma mulher esperando. Davi não parou. E, desde então, não importa quantos quilômetros percorra — ele nunca consegue ir embora.
Todas as manhãs, ao sair para trabalhar, passava pelo cemitério do Alto da Glória. Uma figura de costas, cabelo castanho, colocando flores brancas perto do portão. Nunca via o rosto dela. Eram as mesmas flores que a mãe dele levava.
Apertava o volante até os nós dos dedos ficarem brancos. Não era culpa. Não era obrigação. Alguém mais teria parado. Desenvolveu rituais: verificava o retrovisor três vezes, evitava postos à noite, dormia com a luz acesa.
Na terceira noite no apartamento novo, ouviu o som.
Uma cadeira arrastando no piso frio. Três segundos. De cima. Às 2h14. Ficou imóvel. A garoa batia na janela. Um carro passou devagar lá embaixo. Depois, silêncio.
O prédio tinha oito andares. Sessenta e dois degraus entre cada um — o número do quilômetro. Oitavo andar, último. Seu Nelson, o síndico, tinha uma cicatriz no pulso que sempre cobria. Disse que o prédio tinha boa ossatura.
A estrada foi sempre o seu lugar — até deixar de ser. Doze anos fazendo a rota do litoral, conhecendo cada curva da serra. Tentou se reconstruir longe do que vira.
As coisas começaram a mudar. O relógio marcava sempre 2h14 quando olhava. A cadeira que empurrava para a parede aparecia no centro da sala. O cheiro de óleo e chuva não saía mais do ar.
Na sexta, o som voltou. Arrastou, parou, arrastou de novo. Vestiu o casaco de lã escura — comprado na semana da mudança — e subiu na cadeira do pai, que lhe dissera: “Não se envolva em problemas alheios.” Ouvido no teto: nada.
No sábado, não dormiu. Às 2h14, sentiu vibração. E uma voz — baixa, de mulher — falou algo que não distinguiu. Calma, paciente, com um tremor que segurava o choro há anos. O cheiro veio forte: chuva e óleo de motor.
Na segunda, bateu à porta de Seu Nelson. Na parede, uma foto antiga: ele jovem, ao lado de um carro com o capô aberto, estrada molhada.
— Alguém arrasta uma cadeira. Toda noite, às duas e quatorze.
— Não tem ninguém lá em cima. Só o telhado.
— Há quanto tempo moro aqui?
— Dois anos.
— Mudei em abril.
Seu Nelson baixou o olhar.
— Eu também não parei, em 1978. O som veio de cima por três anos. Depois, passou a vir de baixo. Ninguém sai sem resolver o que deixou para trás.
A porta fechou. Davi abriu o contrato. Assinado há dois anos. Uma nota à mão: “Evite janelas abertas após as 2h.” Leu e releu. A mão tremia.
À noite, a voz veio clara do teto:
— Você não parou.
A frase desceu gelada.
Na terça, o andar de cima estava vazio. O apartamento ao lado também. No armário, um recibo amarelado: posto na BR-277, km 62. Sem data. Jogou fora.
Na imobiliária:
— O inquilino antes de você se chamava Rodrigo. Ficou seis meses e foi embora. Também era representante, fazia a mesma rota.
Uma foto restante na rede: posto ao fundo, uma figura com colar de contas azuis. E ele usava um casaco de lã escura, igual ao de Davi.
Na quinta, outro recibo apareceu debaixo da porta. Nome: Davi Almeida. Data: dois anos atrás. À noite, a voz não veio do teto — estava dentro do quarto:
— Você voltou.
Não dormiu. De manhã, bateu à porta de Seu Nelson. O velho parecia ter envelhecido uma década.
— Não devia ter alugado para ninguém. O que carrega não sai com mudança.
Davi abriu uma gaveta esquecida. Um caderno que não lembrava ter. “2h14 — som de cadeira”, “ela chamou meu nome”, “fui ao cemitério, não achei nada”. Sua letra. Datas de dois anos atrás. Fechou devagar.
Dirigiu até o km 62. Ligou para um colega antigo.
— Posto no km 62? Fechou há dez anos. Pegou fogo. Nunca reconstruíram.
No local: terreno vazio, mato alto, restos de madeira apodrecida. Nada. Na volta, avistou um carro no acostamento, capô levantado, uma silhueta imóvel. O pé tocou o freio. Hesitou. Acelerou. Não parou. Mas olhou para trás.
Acordou no chão. A cadeira no centro da sala. Um recibo fresco sobre a mesa. Data: amanhã. Como se ainda não tivesse acontecido. Sua letra: “Ele não para. Toda noite. 2h14.” Abaixo, outra caligrafia, mais fina — a mesma frase. Rodrigo. O papel úmido.
Foi ao cemitério. A mulher não estava lá. Uma lápide simples, sem nome. Flores frescas. Ao lado, um colar de contas azuis. Faltava uma. O fio esticado, como se puxado com força. Tocou-o. Um calafrio percorreu a espinha.
No caminho de volta: carro parado, capô aberto. Ninguém. Ouviu choro, abafado pela garoa. Não parou. Olhou para trás.
Sentou-se na cadeira no centro da sala — a mesma onde o pai se sentava nas noites de chuva, dizendo que problema de estrada não era com eles. Esperou.
Às 2h14, bateram no teto. De baixo.
Uma voz, masculina, jovem, hesitante:
— Quem está aí? Por que arrasta a cadeira? Eu estou com medo.
Davi não respondeu. Fechou os olhos. Alguém precisa esperar, pensou. Agora é a minha vez.
Pela janela, a BR-277 cortava a noite. Um carro passou devagar. No acostamento, outro carro com o capô levantado. Alguém esperava. E alguém não ia parar.
— FIM —

Quem o Rio Quer

Quem o Rio Quer
Um conto do litoral paranaense

Tadeu Everton Zamoiski
Matinhos, meados de 2026

Heitor sabia que Matinhos, fora de temporada, era uma cidade que fingia estar morta. As casas de veraneio com placas de "aluga-se" desbotadas pelo sol, os quiosques fechados com tábuas cruzadas, o cheiro de maré baixa misturado ao esgoto que subia quando chovia forte. Entre junho e agosto, a cidade pertencia aos que ficavam: pescadores, aposentados, desempregados, gente que não tinha para onde ir.
Ele morava na Rua XV desde que nascera. Quarenta e três anos vendo a cidade encher e esvaziar como um pulmão cansado. Trabalhara na Sanepar, depois numa loja de materiais de construção que fechou, depois como vigia de um condomínio que nunca terminaram de construir. Agora pintava muros e consertava cercas. Era o bastante para pagar o aluguel de uma casa de dois quartos que cheirava a mofo e maresia. Só a irmã, Marlene, que morava em Curitiba, se lembrava dele com regularidade: ligava aos domingos à noite, e ele nem sempre atendia.
Naquela noite de terça-feira, em junho, a chuva parou por volta das três da manhã. Heitor voltava do Ponto Certo, o único bar aberto na Avenida Atlântica depois da meia-noite, com a camisa de flanela xadrez que usava desde o inverno passado — a única que ainda aguentava a madrugada. O remendo na manga direita, costurado por ele mesmo, era torto. Tinha bebido o suficiente para sentir o mundo um pouco mais devagar, mas não o suficiente para não perceber o som.
O orelhão da Rua Antonina estava tocando.
Ele parou. A rua estava deserta. O ar da madrugada saía da sua boca em vapor, e as mãos, dormentes de frio, já quase não sentiam os bolsos. O aparelho ficava num poste de concreto, com a cabine rachada em dois lugares e o fone pendurado pelo fio. Heitor conhecia aquele orelhão desde que fora instalado, no fim dos anos noventa, quando o celular ainda era coisa de rico. Conhecia também o dia em que a companhia removeu todos os de Matinhos, em 2016. Vira os caminhões, os homens desparafusando os aparelhos, deixando só os tocos de concreto e as marcas na parede.
Mas ali estava. A cabine amarelada, coberta por uma crosta de lodo seco, com cracas minúsculas grudadas no acrílico. Cheirava a fundo de rio. E estava tocando.
O som era estranho. Não o toque agudo dos telefones modernos, e sim algo grave e antigo, um sino abafado por panos. Heitor ficou parado talvez trinta segundos, ouvindo. Depois se aproximou. Não havia motivo para atender. Não havia linha naquele poste, pelo que sabia.
Ele atendeu. O fone estava gelado e úmido, como tudo o mais.
— Alô?
Silêncio. Depois, uma voz de mulher. Baixa, calma, como quem fala com uma criança para não assustá-la.
— Você já encontrou o homem que desapareceu no rio?
O couro cabeludo de Heitor repuxou. Não foi a pergunta, foi a voz. Havia nela um jeito de fechar as frases que ele quase reconhecia, e não conseguia localizar de onde.
Só então percebeu que o vapor da própria respiração tinha sumido. Não soube desde quando.
— Quem está falando?
— Você já encontrou?
— Olha, senhora, a senhora ligou errado. Aqui é um orelhão.
— Eu sei.
Ele esperou. A voz não disse mais nada. Ouviu um clique e a linha ficou muda.
Heitor colocou o fone de volta no gancho. O visor estava apagado. O acrílico da cabine estava frio, úmido da chuva. Mas o gancho, quando seus dedos o tocaram, estava seco. E quente. Um calor de mão, que subiu pelos dedos dormentes e doeu.
Ele não pensou nisso na hora. Só em casa, já deitado, a mão lembrou sozinha: o gancho seco, o gancho quente, como se alguém tivesse acabado de usá-lo.

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Tinha sete anos quando ouviu pela primeira vez.
Estava com a mãe na margem do Rio da Onça, num domingo de chuva. Ela segurava sua mão com força. As poças no chão de terra refletiam um céu cinza, e o rio corria alto, marrom e barulhento.
Foi então que ele ouviu. Um som que não era sapo, nem pássaro, nem carro. Um toque grave e abafado, como um sino debaixo d'água, vindo do outro lado, perto dos juncos. Heitor virou o rosto por um instante. Um instante só, e a mãe apertou sua mão com tanta força que doeu.
— Não olha.
Ela mesma olhava os próprios pés, a lama nos chinelos, como se o rio não estivesse ali.
À noite, na cama, perguntou o que era. Ela demorou a responder.
— É o rio chamando.
— Chamando quem?
— Quem ele quer.
Três semanas depois, a mãe morreu. Disseram a Heitor que ela tinha ido embora de repente, e ele cresceu com essa frase sem nunca examiná-la. O sino ficou num canto da memória, junto com as coisas de infância que a gente guarda sem saber por quê.

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Na manhã seguinte, ele foi à biblioteca municipal. Não porque acreditasse em alguma coisa, mas porque não conseguia parar de pensar na voz. No jeito como ela dissera eu sei.
A biblioteca era pequena, mal iluminada, cheirava a papel velho e umidade. Dona Cida, a funcionária, olhou-o com desconfiança quando ele entrou.
— Precisa de alguma coisa, Heitor?
— Quero ver se tem algo sobre o Rio da Onça. Coisa antiga.
Ela apontou para uma estante no fundo. Heitor passou a manhã entre pastas empoeiradas, recortes amarelados, anotações de algum historiador amador morto há décadas. Numa delas, achou uma folha de papel almaço com o título escrito à mão: A Lenda do Rio da Onça.
Dizem os antigos que, em noites de chuva forte, ouve-se um chamado nas margens do Rio da Onça. Já foi sino, já foi apito de barco; hoje dizem que é um telefone. O som muda com a época, mas o rio é sempre o mesmo. Quem ouve não deve olhar para onde ele vem. Alguns dizem que é o espírito de um homem que se afogou. Outros dizem que é uma dívida.
Não havia data. Grampeado atrás da folha, havia um recorte de jornal.
Gazeta do Litoral, julho de 1990. MULHER DESAPARECE NO RIO DA ONÇA. Neusa Moraes, 31 anos, saiu de casa na noite de domingo e não voltou. O filho, de sete anos, foi encontrado horas depois sozinho na margem, com a roupa seca apesar da chuva. Aos bombeiros, repetiu que a mãe "foi atender". Não havia telefone num raio de dois quilômetros.
Heitor leu três vezes. Roupa seca. Foi atender. Não se lembrava de nada daquilo.
Quando devolveu a pasta, Dona Cida olhou para o recorte grampeado e depois para outro lado. Não perguntou nada.

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Naquela noite, ele voltou ao orelhão.
Não era vontade. Os pés foram sozinhos. A chuva tinha voltado, forte e pesada. Ele caminhou pela Rua Antonina com a água batendo no rosto e a luz do poste piscando, amarelada.
O orelhão estava lá. E estava tocando.
Ele atendeu.
— Heitor.
A voz era a mesma. Mas agora dizia o nome dele.
Um gosto amargo subiu-lhe pela garganta, e ele teve que engolir.
— Quem é você?
— Você já encontrou o homem que desapareceu no rio?
— Que homem? Do que você está falando?
Silêncio. Depois:
— O rio não gosta de ficar devendo.
Heitor fechou os olhos. Aquele jeito de fechar as frases. Ele já o ouvira, muito tempo atrás, e tinha medo de descobrir onde.
— O que você quer de mim?
— Você já encontrou?
— Não sei o que você quer que eu encontre.
— Você sabe. Só esqueceu.
Ela desligou.
Ele ficou parado no meio da rua. Depois começou a andar. Não para casa. Para a casa de Dona Cida.

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Ela morava numa casa simples na Rua Guaratuba, a poucas quadras da praia. Abriu a porta de chinelos e robe florido, e não pareceu surpresa.
— Sabia que você ia aparecer. Entra.
A sala era pequena, cheia de santos e retratos de família. Dona Cida desligou o rádio que murmurava baixo na cozinha. Puxou a cortina da janela que dava para a rua, sem olhar para fora. Só depois serviu um café forte e sentou-se na poltrona, de costas para o vidro.
— Você atendeu o telefone.
Não era pergunta.
— A senhora sabe do que eu estou falando.
— Todo mundo aqui sabe. Só não fala.
— Por quê?
— Porque falar atrai.
Heitor esperou mais. Ela apertava a xícara com as duas mãos e olhava o fundo do café.
— Não atende mais, Heitor.
— Por quê?
— Porque já atenderam por você.
Ela ficou sentada. Não se levantou, não abriu a porta, não disse boa noite. Apenas parou de responder. Heitor esperou um pouco. Depois se levantou e saiu sozinho. Já na rua, ouviu o rádio ser ligado de novo, mais alto.

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Na terceira noite, ficou em casa, com todas as luzes acesas. Antes das dez, ligou para Marlene.
Ela atendeu no terceiro toque, assustada.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não. Quer dizer... a mãe. Como foi que ela morreu?
O silêncio do outro lado durou tanto que ele pensou que a ligação tinha caído.
— Por que agora?
— Marlene.
— Ela me fez jurar, Heitor. Você tinha sete anos, eu tinha treze. Disse que se a gente não falasse, o rio esquecia de você.
— O rio?
— Domingo eu ligo, como sempre. Vai dormir.
Ela desligou antes que ele pudesse insistir.
Às três da manhã, o telefone fixo da sala começou a tocar. Um aparelho que ele não usava havia anos e nunca se dera ao trabalho de mandar desligar. Não era o toque de sempre. Era o sino, o mesmo de quando ele tinha sete anos, subindo do aparelho como se viesse de muito fundo. A lâmpada da sala vacilou, e um cheiro de lodo e água parada encheu o cômodo.
Ele deixou tocar. Seis vezes. Sete. Oito. Depois parou.
Heitor olhou para o teto até o dia clarear.

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Na quarta noite, uma sexta-feira, voltou ao orelhão.
A chuva tinha parado. O céu estava limpo, cheio de estrelas que a cidade não conseguia ofuscar. O frio cortava. Ele caminhou pela Rua Antonina com as pernas pesadas.
O orelhão estava lá, com o lodo seco e as cracas. E estava tocando.
Ele atendeu.
— Heitor.
— Estou aqui.
— Ele espera desde 1990.
Heitor não respondeu. O fone pesava na sua mão.
— Basta olhar — disse a voz.
Devagar, ele devolveu o fone ao gancho. O orelhão ficou em silêncio. Deu um passo para trás. Depois outro. Depois percebeu que o telefone tocava de novo.
E que ele ainda segurava o fone.
Olhou para a própria mão. O fone estava ali, mudo. O cabo que ligava o aparelho à rede estava cortado havia muito tempo: as pontas enferrujadas, os fios desencapados. O gancho estava no lugar. Nada se movia.
Mas o toque continuava. Vinha de longe. Do outro lado do rio.
Heitor começou a andar. Não sabia para onde, só sabia que era para lá. Quando deu por si, estava na ponte. A água corria escura lá embaixo e, na outra margem, entre os juncos, havia uma luz fraca e vacilante. Um telefone antigo, com o fone brilhando no escuro.
Ao lado da luz, um homem. De costas, o fone colado ao ouvido. Camisa de flanela xadrez. E na manga direita, um remendo torto.
Heitor olhou para a própria manga. E lembrou.
Sete anos, a mão da mãe na sua. Ele virara o rosto por um segundo antes de ela lhe apertar a mão. E vira aquilo: os juncos, a luz, um homem de costas com um telefone no ouvido, e uma manga remendada. Vira, e a mãe percebera. Depois esquecera. Ou fora feito esquecer.
O homem começou a virar o rosto. Devagar: primeiro o ombro, depois a linha do queixo.
— Não olha.
A voz veio de trás, colada ao ouvido. Uma mão pequena fechou-se sobre a sua, com a mesma força de um domingo de chuva trinta e seis anos antes. Puxava para trás, para longe do parapeito, e tremia.
Heitor fechou os olhos.
No bolso, o celular acendeu e começou a tocar. Ele sabia o nome sem precisar ver. Marlene. Era madrugada de sábado. Marlene só ligava aos domingos.
O toque encheu a ponte. Ele não atendeu. Ficou de olhos fechados, sentindo o cheiro de lama e maré, e a mão da mãe apertando a sua. Seca e quente, como um gancho que alguém acabara de largar.

A ESTRADA QUE DEVOLVE

A ESTRADA QUE DEVOLVE


Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

A primeira vez que Marcelo viu a placa foi em 17 de setembro de 2025.
Chovia desde Curitiba. Uma chuva fina que engrossava na serra, deixava o asfalto escuro e trazia o cheiro de mato molhado misturado à névoa que subia do vale. Marcelo dirigia sozinho pela BR-277, sentido Morretes, pasta de documentos no banco do passageiro, rádio desligado. O contrato do dia seguinte.
Às 21h52, a primeira mensagem de Renata:
— Você vem me encontrar?
Leu no semáforo. Não respondeu.
Às 22h04:
— Estou na estrada.
Guardou o celular.
Às 22h17:
— Acho que errei a saída.
Respondeu:
— Estou indo.
Mentira.
Às 22h18, a placa.
MORRETES — 18 km


A curva longa, a ponte estreita, o posto fechado. Conhecia de cor.
Às 22h31, o caminhão no acostamento, pisca-alerta. Motorista fora da cabine, capa transparente, lanterna na mão esquerda, inclinado sobre o pneu.
Marcelo reduziu. Baixou o vidro.
— Problema?
— Pneu. Tem posto por aqui?
— Um antigo. Mais adiante. Não sei se funciona.
Aceno curto. Voltou à estrada.
O celular tocou quase um minuto depois.
— Onde você está?
Voz abafada pela chuva.
— Na estrada.
— Você vem?
22h32.
— Estou indo.
Silêncio.
— Não pega a estrada velha.
— Qual estrada velha?
A ligação caiu. Sem sinal.
Às 22h34, as luzes de emergência. O carro de Renata. Ela do lado de fora, mão levantada.
Tirou o pé do acelerador. Chegou a tocar o freio. Ela deu um passo.
Olhou a pasta. Pensou no contrato. Pensou na frase dela: “Você sempre esquece o guarda-chuva.”
Acelerou.
No retrovisor, ela ficou imóvel sob a água.
Não voltou.
No dia seguinte, respondeu:
— Em casa.
E repetiu durante quase um ano.
— ❖ —
Em 17 de setembro de 2026, acordou antes das seis. A chuva batia na janela com o mesmo ritmo. Um ano. Preparou café, abriu a planilha, leu a mesma linha três vezes.
À tarde, abriu a caixa.
Fotografias. Documentos. Chaves. O celular antigo.
Entre as fotos, um panfleto dobrado de um apartamento em Antonina — “vista para o mar, duas suítes”. E um par de alianças simples, ainda na caixinha.
Colocou o celular para carregar. Espalhou o resto.
Renata diante do mar, cabelo molhado. Os dois num restaurante, a mão dela sobre a dele. Uma estrada molhada fotografada de dentro do carro. Ao fundo, a placa.
MORRETES — 18 km


Largou a fotografia. O cheiro de menta e cigarro veio sem aviso.
O celular acendeu. Mensagens. 21h52. 22h04. 22h17. Sua resposta não estava mais lá. Apenas o espaço vazio. E, no final, uma mensagem que ele não lembrava de ter visto:
21h52 — Você vem me encontrar?
22h04 — Estou na estrada.
22h17 — Acho que errei a saída.
22h33 — Não devia ter voltado.


Fechou o aparelho. Ficou olhando a parede. Depois, às 19h50, pegou as chaves.
O cheiro de mato molhado outra vez. A névoa baixa. A serra.
Às 22h11, o sinal caiu.
Olhou o relógio. 22h17. A placa às 22h18. A mesma. O mesmo poste. A mesma deformação no canto.
Passou devagar. A curva. Depois a ponte. Entre um e outro, o tempo alongou-se, os minutos demorando a cair. 22h27 na ponte.
Às 22h31, o caminhão. O mesmo lugar. O motorista não estava trocando o pneu. Estava parado, capa transparente, lanterna apagada, olhando a estrada.
Não parou. Passou lento. No retrovisor, o homem o acompanhou com os olhos. A mão que segurava a lanterna era a direita.
Medo. Não do homem. Da correção.
Às 22h32, o telefone vibrou.
Chamada perdida: Renata.
Freou. A notificação sumiu. Sem sinal.
Ficou parado. Depois seguiu.
Às 22h34, as luzes. O carro dela. Porta aberta.
Parou alguns metros adiante. A chuva no para-brisa. Ela não se mexia.
Abriu a porta. Desceu. O asfalto tremeu sob os pés. Gosto metálico na boca. A pasta, atrás, pesava demais. Engoliu com dificuldade.
— Renata?
Só a chuva.
Caminhou até o carro. Ficou diante do interior molhado. A garrafa amassada no banco do passageiro. A marca que ela comprava. Tocou. Fria. No para-brisa, do lado do motorista, a marca antiga de batom. No volante, o lugar onde os polegares dela apertavam.
A memória veio inteira: o cheiro de menta e cigarro quando ela tinha pressa, o hábito de morder o lábio inferior antes de falar algo difícil, a voz baixa dizendo “Você sempre esquece o guarda-chuva.”
O motor pesado atrás. O caminhão parou. O motorista desceu. Limpou a lente da lanterna com o dedo. Ficou em silêncio, olhando o carro dela.
— O senhor voltou.
Marcelo não respondeu.
— Estava aqui no ano passado?
O homem continuou olhando o carro.
— Estava.
— Viu minha mulher?
— Vi.
Silêncio.
— Ela estava esperando.
— Por mim?
O homem ergueu os olhos. A lanterna iluminava metade do rosto.
— O senhor ainda está vindo.
Marcelo engoliu. O gosto voltou.
— Eu passei por ela.
O caminhoneiro não disse nada. Seguiu para a cabine. Marcelo chamou:
— Quando ela morreu?
Demora.
— Depois que o senhor foi embora.
O caminhão partiu.
Marcelo ficou só. A porta do carro dela ainda aberta.
Às 22h47, voltou ao próprio carro. A pasta no banco. A mesma. Abriu. Os documentos do contrato estavam lá, mas agora cada página trazia, no canto inferior, uma assinatura fina que ele reconheceu como a dela. Por baixo de tudo, a folha dobrada. Sua letra — só que mais trêmula, como de alguém mais velho.
NÃO PARE.


Uma pequena mancha de umidade no canto. Dobrou. Guardou. 22h49.
A pasta pesava.
Seguiu.
23h03 na ponte. 23h11 o sinal voltou. Nada no telefone.
No retrovisor, dois faróis. Carro antigo. Acelerou. O outro acelerou. Diminuiu. O outro acompanhou. Na curva, desapareceu.
À frente, a placa.
MORRETES — 17 km


Freou. Parou. 23h18. Tinha passado ali menos de uma hora antes.
Desceu. Passou os dedos pela deformação. Fria. Real. A estrada de terra atrás. Não entrou.
Voltou. Três batidas no vidro do passageiro. Uma. Duas. Três.
Não olhou.
O telefone tocou. Renata. Deixou tocar. Parou. Tocou de novo.
A voz de fora, baixa:
— Você sempre esquece o guarda-chuva.
Fechou os olhos. Não sabia de onde vinha. O telefone calou.
Abriu os olhos.
Mancha de água no banco. Ao lado, a fotografia. Agora, ao fundo, seu próprio carro parado. E ela ao lado.
No verso:
17/09/2025 — 22h34
Você passou por mim.


A fotografia caiu.
Ligou o motor. Engatou a primeira. Seguiu.
A fotografia virada para cima. A estrada para trás.
Alguns quilômetros adiante, as luzes de emergência.
Um carro no acostamento. Sem chuva.
Uma mulher de pé ao lado.
A mão esquerda.
A blusa.
O rosto.
Freou.
O painel marcava 22h34.
Ela não se mexia.
As mãos no volante.
A pasta ao lado.
A fotografia no chão.
O gosto metálico na boca.