quinta-feira, 5 de novembro de 2026

A Lista da Portaria

A Lista da Portaria
Tadeu Everton Zamoiski

O causo que eu vou te contar, seu moço, é dos que a gente não conta na frente de criança nem com a maré cheia. Aconteceu aqui nos nossos lados, no Riviera, quando o vento leste ainda trazia cheiro de sargaço e o centrinho vivia de porta aberta. Dizem que foi com um homem de fora. Tadeu. Só Tadeu, no começo. O resto do nome a gente chega lá.

Ele chegou num fim de tarde, o sol derretendo no horizonte feito gema de ovo quebrada na frigideira. Desceu do ônibus com uma mala pequena e cara de quem veio pra ficar. Alugou o 302 do Riviera, de frente pro mar, num desses prédios espelhados que parecem crescer da areia. Na portaria, seu Ananias — um velho de pele curtida, olho fundo de quem já viu coisa demais — entregou a chave sem muita conversa. Tadeu, homem metódico, quis conferir a lista de moradores no quadro de cortiça. Passou o dedo pelos nomes. 101, 102, 201... até o 302. Ali estava: "302 — Sra. Helena Zamoiski". O nome dele, não. Tadeu não estava em lugar nenhum.

— Seu Ananias, tem erro na lista. Eu sou o Tadeu, marido da dona Helena, do 302.

O velho nem levantou o olho do jornal.

— Eu só leio a lista, moço.

Tadeu insistiu. O velho não abriu a boca. Cansado, ele subiu.

A chave, de metal amarelado, girou na fechadura com um estalo seco. A porta abriu. O cheiro de dentro era familiar: lavanda, o perfume da Helena, um resto de café passado. Ela estava na cozinha, de costas, mexendo uma panela.

— Helena?

Ela se virou. Era ela. Os mesmos cabelos escuros, os mesmos olhos de mel. Mas o olhar era de quem olha um estranho.

— Pois não?

— Sou eu. O Tadeu.

Ele tentou abraçar. Ela recuou. E naquele recuo, por um segundo, o nariz dela se franziu — ele jurou que ela sentiu o cheiro dele, sal, sabonete barato, um resto de cigarro. A mão dela tremeu no cabo da panela. Depois, como quem fecha uma gaveta, o rosto voltou ao de quem atende um desconhecido.

— Olha, moço, não sei quem o senhor é. Se retire.

Hele tirou o celular do bolso, trêmulo, e mostrou a tela. A foto do casamento, na praia de Caiobá. Ele de terno, ela de branco. Ao lado deles, uma mulher de vestido vermelho.

— Olha só. É a gente.

Helena olhou a foto. Franziu a testa. Olhou de novo, mais demorado, e por um instante alguma coisa passou por trás daquele olho de mel — uma sombra, um quase. Ela devolveu o celular com a ponta dos dedos, como se o aparelho estivesse sujo.

— Essa mulher não sou eu.

Foi quando se ouviu a descarga. A porta do banheiro abriu. De lá saiu um homem. Secava as mãos do mesmo jeito que Tadeu secava, dobrando a toalha em três. Usava o mesmo sabonete. Tinha a mesma cicatriz na sobrancelha, feita na infância com a ponta de uma cerca. Baixou a toalha. Era ele. O rosto dele, o nariz dele, a boca dele.

— Amor, quem é esse? — perguntou o outro Tadeu, com a voz exata dele.

Helena caminhou até o impostor e o abraçou pela cintura.

— Não sei. Entrou aqui, tá falando umas coisas sem noção.

O outro Tadeu olhou pra ele. Um olhar de faca de cozinha.

— Meu nome é Tadeu. E acho melhor você cair fora do meu apartamento antes que eu chame a polícia.

O homem desceu as escadas com a chave ainda na mão, a palma tão suada que o metal escapou, bateu no degrau, rodou. Ele nem se abaixou pra pegar. Na portaria, seu Ananias continuava lendo o jornal.

— Seu Ananias, pelo amor de Deus, olha a lista de novo.

O velho suspirou, levantou com o esforço de quem carrega o mundo nas costas, e apontou o quadro. Ali estava, em letra preta: "204 — Tadeu Everton Zamoiski".

Ele quase chorou de alívio. 204. Ele morava no 204. Aquilo era engano. A chave do 302, de alguma forma, abrira a porta errada. Coisa de prédio velho. Subiu.

A porta do 204 abriu. Uma outra mulher, morena, cabelo cacheado, recebeu ele com um sorriso. Cheiro de peixe frito.

— Tadeuzinho! Tava esperando você pro jantar.

Ele não conhecia aquela mulher. A casa não era a dela. Os móveis, os quadros, tudo outro. Mas ele estava cansado. Confuso. Sentou à mesa. Comeu o peixe que ela preparou. Tentou sorrir. A mulher falava de coisas que ele não entendia, de uma conta de luz atrasada, de um primo que ia chegar no fim de semana. Ele assentia. Era mais fácil assentir.

A campainha tocou. A mulher foi atender. Lá estava ele de novo. O outro. O mesmo rosto, agora com barba por fazer.

— Oi, amor. Quem é esse cara?

A mulher deu de ombros.

— Sei lá. Apareceu aqui dizendo que era o Tadeu.

Ele se levantou num salto, derrubando a cadeira. Correu pra fora, desceu os quatro andares, irrompeu na portaria feito bicho acuado. Seu Ananias nem se abalou.

Na manhã seguinte, ele voltou. A lista tinha o nome dele no 402, mas escrito errado: "Tadeu Everto Zamoiski". Ele subiu assim mesmo, não sabe por quê. A porta abriu. Uma criança de uns sete anos, com a cicatriz na sobrancelha, olhou pra ele.

— Mãe, tem um homem aqui que diz que é meu pai.

Ele não entrou. Ficou parado no corredor, sentindo o cheiro de café e sabão de coco, ouvindo a voz da mulher lá dentro dizendo que não conhecia ninguém com esse nome. A criança continuou olhando pra ele, sem medo, com uma curiosidade mansa que doeu mais que qualquer grito. Ele desceu.

No outro dia, o nome na lista era outro. "T. E. Zamoiski", no 103. Ele nem subiu. Já sabia o que ia encontrar. Tentou escrever o nome completo na lista com uma caneta que achou no bolso. A tinta secou no meio do "Z". Tentou ligar pro próprio celular. Do outro lado, uma voz atendeu.

— Alô?

Era a voz dele. Ele desligou.

Tentou mostrar documentos. A certidão de nascimento. O CPF. Mas os papéis pareciam se desmanchar na mão, ou as pessoas simplesmente não os viam. Tentou a polícia. Mas o que diria? "Delegado, tem vários 'eus' morando num prédio e minha esposa não me reconhece." A polícia ia achar que era doente, mendigo com delírio. Ele começou a duvidar de si mesmo. Quem era ele? O que era memória, o que era loucura? Às vezes, de noite, na praça, ele repetia o próprio nome baixinho, feito reza, pra não esquecer. Tadeu. Tadeu Everton Zamoiski. Mas até o nome parecia perder o sentido depois da décima repetição, virar um som oco, uma palavra inventada.

Passou a dormir na praça do centrinho de Matinhos, num banco de madeira, coberto com jornal velho. O cheiro de urina e pipoca velha se misturava ao cheiro do mar. As muriçocas davam conta dele à noite. Todas as manhãs, ao raiar do dia, voltava ao Riviera. Era um ritual doentio. A lista era o oráculo dele. Todo dia, um nome novo. Sempre o dele. Sempre um apartamento diferente. Sempre alguém com o rosto dele morando lá. Sempre a pergunta. E ele nunca sabia a resposta.

Um dia, exausto, desistiu. Não subiu. Caminhou até a portaria com passo arrastado. Sentou no banco de espera, aquele onde os visitantes aguardam. Seu Ananias, pela primeira vez, não o mandou sair. Apenas continuou ali, na cadeira, lendo o jornal.

A tarde caiu. O céu se tingiu de roxo. Seu Ananias levantou, arrumou as coisas, apagou a luz da portaria e foi embora. O homem ficou sozinho. O silêncio do prédio era pesado, quebrado só pelo som das ondas e pelo zumbido da geladeira velha. Sentiu um sono profundo, pesado, feito pedra no peito. Fechou os olhos.

Na manhã seguinte, a luz do sol entrou pela porta de vidro. Na lista, na seção dos funcionários, abaixo do nome de Ananias, havia um nome novo. O novo porteiro. Tadeu Everton Zamoiski.

Ele olhou-se no reflexo da porta de vidro. Não viu o rosto de um homem perturbado. Viu um rosto cansado, pele curtida, olho fundo de quem já viu coisa demais. Sentou na cadeira do porteiro. O jornal estava em cima da mesa. Pegou, abriu.

Às sete da manhã, um homem chegou carregando uma mala. Olhou a lista, depois olhou ele.

— Bom dia. O senhor pode conferir? Meu nome não está aí.

Tadeu levantou o olho do jornal. Olhou o moço de aparência perdida. E respondeu, com voz calma e oca, que ryarecia vir de outro mundo:

— A lista é quem manda, moço. Eu só leio.

O homem saiu. O vento leste trouxe cheiro de sargaço. Tadeu virou a página.

Do Tamanho

Do Tamanho
Tadeu Everton Zamoiski
Reencontrei Álvaro numa tarde abafada de novembro, perto do Rio da Onça. Ele estava no portão da casa onde morava, com as mãos sujas de graxa. A gente tinha trabalhado no mesmo posto alguns anos antes. Às vezes tomávamos uma cerveja depois do expediente.
Eu esperava ao lado do carro, com o peso na perna esquerda. Zeus ia no banco de trás, com o focinho para fora da janela. Meu quintal, em Matinhos, é quase todo cimentado, com uma faixa estreita de terra junto ao muro. Comentei que precisava consertar uma rachadura no piso do quarto. Álvaro olhou para o chão, depois para mim.
— Você ainda mora naquele terreno?
— Moro.
O celular vibrou no meu bolso. Era minha filha. Fazia dois dias que ela perguntava se eu ia visitá-la no fim de semana, e eu ainda não tinha respondido. Vi o nome na tela e guardei o aparelho.
Álvaro demorou a falar. Tinha emagrecido. A barba crescida escondia metade do rosto.
— Encontrei uma coisa no quintal.
Não perguntei o quê. Ele olhou para a rua, como quem espera alguém passar.
— Um buraco. Mas não foi feito com pá.
Contou que tudo começou numa terça-feira, quando achou uma depressão comprida na areia, atrás da casa. As bordas eram bem definidas. O formato era o de alguém deitado. Pensou que um cachorro tivesse cavado ali. Jogou um galho dentro, cobriu tudo e voltou para casa.
Na manhã seguinte, o galho tinha sumido.
A areia estava nivelada, sem pegada nem marca de pata. Álvaro não deu importância. Só voltou a pensar no assunto quando encontrou areia no quarto, junto à cama. Havia grãos sobre o lençol e outros dentro dos sapatos.
Na quinta, o buraco estava aberto outra vez.
Dessa vez ele levou uma trena. Mediu o comprimento e a largura. Depois ficou olhando a depressão, com a sensação de que alguém o esperava ali.
— Deu um metro e setenta e seis — disse. — Do meu tamanho.
Naquela noite, Álvaro deitou na areia.
Disse que não foi por coragem nem por curiosidade. Queria acabar com aquilo. Se o buraco tinha o tamanho dele, bastava entrar, sentir o fundo e provar a si mesmo que não havia nada ali.
A areia estava fria. O corpo se acomodou sem esforço. Ele esticou os braços ao lado do corpo e olhou o céu entre os galhos da árvore.
— E aí? — perguntei.
Álvaro esfregou as mãos, como se ainda sentisse a areia.
— Eu me senti em casa.
Ficou ali alguns minutos. Não soube dizer quantos. A tranquilidade era tão grande que ele fechou os olhos.
Quando acordou, estava na cama.
O relógio marcava 18h42. Ele não lembrava de ter levantado nem de ter entrado em casa. O celular mostrava uma ligação perdida da filha, às 16h17. Havia areia no lençol, na dobra do colchão e entre os dedos dos pés.
Às 3h17 da madrugada, ouviu três batidas na porta dos fundos.
Foi até a cozinha. Ninguém. Abriu a porta e viu o quintal escuro, o buraco fechado, a areia lisa.
No sábado, a depressão apareceu junto à parede da casa.
Álvaro chamou um pedreiro que trabalhava na rua. O homem examinou o terreno e perguntou quem tinha cavado aquilo. Álvaro disse que ninguém. O pedreiro não insistiu. Aconselhou aterrar, antes que alguém caísse.
Álvaro levou uma cadeira para perto do buraco e passou a noite sentado ali, levantando de tempos em tempos para conferir a areia. O cachorro do vizinho latia para o fundo do quintal. Pouco antes de a areia se mexer, parou.
A depressão se desfez pelas bordas. A areia escorreu para dentro até o chão ficar plano. Não havia vento. O cachorro continuou calado, com o focinho apontado para o chão.
Álvaro esperou mais um pouco e entrou.
De manhã, a cadeira estava no mesmo lugar. Sobre o assento, a marca de uma cabeça.
Parou de falar. Eu não ri.
— Olha o seu quintal quando chegar em casa — disse ele.
Prometi que olharia. Olhei naquela mesma noite. A faixa de terra estava intacta.
Álvaro deixou a casa de Matinhos na semana seguinte. Passaram dois meses sem notícia. Tentei ligar algumas vezes, e o número não completava.
A carta chegou numa manhã de chuva, sem remetente. Reconheci a letra dele antes de abrir.
Ele escreveu que primeiro alugou uma casa mobiliada em Paranaguá. Levou pouca coisa e passou os primeiros dias tentando voltar à rotina. Achou areia no ralo do banheiro. Na semana seguinte, no bolso de uma calça pendurada no armário. Numa noite, ao voltar do mercado, viu grãos no banco do carro. Limpou tudo antes de entrar em casa.
Depois foi para Pontal do Paraná. Alugou uma kitnet com piso de cerâmica e um quintalzinho coberto de cimento. Achou que ali estaria protegido. Até ver uma rachadura perto da lavanderia.
Chamou um pedreiro. O homem quebrou um pedaço do cimento e encontrou areia por baixo. Quando terminou de tirar o material, havia um buraco estreito, fundo o bastante para receber um corpo.
Álvaro não esperou o homem voltar.
Passou a trocar de endereço a cada quinze dias. Onde havia terra, a depressão aparecia no quintal. Onde havia cimento, abria uma rachadura. Às vezes achava areia dentro do carro, mesmo depois de limpar os tapetes.
Escreveu também que dormiu uma noite no sofá de uma casa alugada, com a cabeça apoiada no próprio braço. Acordou com o contorno de um corpo no colchão do quarto, feito de areia fina. O desenho começava na altura dos ombros e terminava onde deviam estar os pés.
O chão em volta estava limpo.
No fim, escreveu que tinha encontrado outra casa em Pontal. Os fundos eram de terra batida. Na primeira noite, a depressão apareceu junto ao muro.
A última linha dizia:
Medi ontem. Passa de mim.
Liguei para o número que eu tinha salvo. Fora de serviço. Dois dias depois, fui até a casa de Pontal. O proprietário me recebeu no portão. Disse que Álvaro sumiu sem avisar. Deixou roupas no armário, comida na geladeira e os sapatos alinhados diante da porta dos fundos, virados para o quintal.
O homem me levou até o terreno.
Havia uma depressão comprida junto ao muro. A areia estava úmida, e não tinha chovido. O proprietário contou que já mandou cobrir duas vezes.
— Na terceira, deixei quieto — disse. — Não quero mais mexer nisso.
Voltei para Matinhos no fim da tarde.
Dormi no carro, com a janela entreaberta e Zeus no banco de trás. Não quis entrar em casa. Zeus passou a noite acordado, de olho no banco do passageiro. Quando amanheceu, havia areia no assento, na costura do encosto e no tapete. Estava fria e úmida.
Entrei em casa com ele colado nas minhas pernas.
O quintal continuava quase todo cimentado. A faixa de terra junto ao muro estava intacta. Passei a dormir com a luz do corredor acesa e a porta dos fundos trancada.
Zeus começou a latir de madrugada. Primeiro para o muro, depois para o chão do quarto. Eu chamava, e ele não vinha. Ficava de patas dianteiras afastadas, olhando um ponto que eu não conseguia ver.
Numa tarde, encontrei areia junto à parede do fundo. Não havia buraco. Só um círculo mais claro, onde o cimento tinha perdido a umidade.
Peguei a pá no depósito e cobri o círculo com terra da faixa. Quando enfiei a lâmina, o ombro esquerdo puxou. Parei algumas vezes, com o peso na perna esquerda, até recuperar o fôlego. Voltei a jogar terra, inclinando o corpo para alcançar o centro.
Trabalhei até escurecer. Quando terminei, sentei na cadeira de plástico que fica perto do muro.
O chão estava nivelado.
Na manhã seguinte, havia uma depressão no lugar do círculo.
Dessa vez levei a pá e a trena. Agachei e examinei as bordas. Encostei o cabo da pá numa ponta e marquei a distância até a outra. Depois medi.
Um metro e oitenta e dois.
A depressão era mais larga na altura dos ombros. Na parte de cima, a areia formava uma cavidade rasa, a marca de uma cabeça.
Do meu tamanho.
Cobri o buraco. Sentei na cadeira. Não queria entrar em casa e não conseguia ficar ali. Zeus esperava perto da porta dos fundos. Quando me levantei, ele entrou na casa sem que eu chamasse.
À noite, tranquei tudo. Já na cozinha, o celular vibrou. Eu não tinha ouvido chamada nenhuma durante a tarde. Na tela, uma ligação perdida da minha filha. O registro marcava 16h17.
Meu dedo parou sobre o nome dela, como no portão do Álvaro. Não retornei.
Às 3h17, acordei com Zeus rosnando.
Ele estava no pé da cama, de cabeça baixa. Não olhava a porta nem a janela. Olhava o chão.
Três batidas vieram de baixo do quarto.
Sentei. O som seguinte era outro. Um arrasto comprido, interrompido, de pá raspando terra dura.
Fui até a janela.
No quintal, alguém trabalhava junto ao muro.
A figura estava de pé, com uma pá. Enterrava a lâmina na areia e jogava a terra para trás. A cada golpe, o corpo se inclinava para o lado, num esforço que eu conhecia. Depois de algumas pás, largou a ferramenta e sentou na cadeira de plástico. Ficou ali alguns segundos, olhando o chão à frente.
A luz da cozinha mal chegava ao quintal. Não vi o rosto. Reconheci o jeito de apoiar o peso na perna esquerda e a inclinação dos ombros. Era o meu jeito de ficar em pé.
A figura levantou e voltou a cavar.
Fechei a cortina.
O arrasto durou mais alguns instantes. Parou. Ouvi areia caindo e depois um silêncio tão completo que escutei a respiração de Zeus.
Quando abri a cortina outra vez, o quintal estava intacto. A faixa de terra lisa, sem buraco e sem terra amontoada. A cadeira continuava junto ao muro. A pá estava deitada no chão.
Afastei-me da janela. No piso do quarto, uma linha de areia úmida ia da rachadura, junto ao rodapé, até a lateral da cama. Toquei com a ponta dos dedos. Estava fria.
O barulho voltou.
Não vinha mais do quintal. Vinha de baixo do quarto.
Olhei para o chão. A areia se moveu junto ao rodapé. Um monte pequeno subiu ao lado do meu pé, empurrado por alguma coisa que trabalhava sob o piso.
A pá estava no quintal. Eu tinha acabado de ver.
A pá arrastou mais uma vez.
De dentro.

domingo, 1 de novembro de 2026

O VIZINHO DO 302

O VIZINHO DO 302
Tadeu Everton Zamoiski

No Edifício Atlântico, na Riviera de Matinhos, o apartamento 302 está fechado. Fechado desde 98.

Foi o que o Seu Milton me disse quando eu me mudei pro 301. Depois ele corrigiu.

— Fechado desde que você chegou. Quer dizer, desde 98.

Eu anotei a frase torta e deixei quieta.

O Atlântico tem dois cheiros que não se misturam. Lá fora é maresia aberta, sal queimando no concreto quente. Lá dentro é corredor abafado, cheiro de caixa d'água parada e inseticida. Meu quarto fica no meio dos dois. A parede que divide o 301 do 302 sua no verão. Uma umidade fria, com cheiro de pano esquecido no varal.

No começo eu ouvia o mar. Depois passei a ouvir o 302.

Foi numa terça, duas e pouca da manhã. Ventilador girando com barulho de helicóptero cansado, aquele cheiro de poeira quente. Ouvi uma tosse.

Seca. Da parede da cabeceira.

Eu tossi de volta sem pensar.

— Cof, cof.

O apartamento ficou em silêncio.

Do outro lado, no mesmo ponto:

— Cof, cof.

Fui até a cozinha. A água daqui deixa a língua áspera, gosto de ferrugem e cloro. Abri a torneira. A dele abriu junto. Fechei. A dele fechou meio segundo depois.

Era esse meio segundo que me pegava. Não era a cópia. Era o atraso. Como se alguém prestasse muita atenção pra não errar.

Passei a testar a parede sem perceber que já tinha virado mania.

Bati três vezes com o nó do dedo, perto da mancha de infiltração em forma de Austrália, na parede da cabeceira.

— Toc, toc, toc.

Deixei a palma encostada no tijolo frio. Senti a vibração voltar pro osso.

— Toc, toc, toc.

Liguei o chuveiro uma noite, só pra ver. Aquela água que vem primeiro gelada, com cheiro de lodo morno. O dele ligou junto.

Eu dormia com o lençol azul enrolado só na perna esquerda. De manhã, ouvia o lençol do outro lado sendo chutado do mesmo jeito.

O cheiro do 302 mudou. No início era cheiro de coisa morta e seca, de apartamento lacrado. Depois de uma semana ficou úmido. Quente. Cheiro de travesseiro que não seca. De suor azedo. Meu cheiro.

Fui falar com o Seu Milton. Ele estava com o copo de café frio, sem olhar pra mim.

— Seu Milton, o 302 tá fazendo barulho de novo.

— Tadeu, já te falei. Desde que... — ele se corrigiu rápido — desde que a Dona Elza morreu lá.

He disse isso olhando pro corredor, não pra mim.

Naquela noite a regra quebrou.

Eu tinha levado o colchão pra sala pra fugir da parede quente do quarto. Era umas três da manhã. Ouvi uma cadeira de madeira sendo arrastada no piso frio até o meio do quarto dele. Depois, o barulho seco de alguém ocupando a cadeira. Ficou ali no escuro, me ouvindo dormir.

Na noite seguinte, o choro.

Baixinho, abafado pelo tijolo. Meu choro. Aquele soluço feio, engasgado.

Eu fiquei deitado, de boca seca, ouvindo. Até que veio baixinho, com a minha voz de menino:

— Mãe?

Ninguém no prédio sabia que minha mãe me chamava assim.

Levantei. Fui até a porta do 302. O corredor cheirava a veneno de barata. Bati.

— Quem tá aí?

O lacre amarelo da porta tremeu.

Colei o ouvido na madeira. Ouvi passos vindo até mim, lá de dentro. Pararam na minha frente.

Pela fresta de baixo veio um bafo quente, úmido. E um fio de ar frio que tocou meu dedão descalço. Um frio cortante, como se do outro lado o chão fosse de pedra gelada.

Voltei pro 301. Tranquei. Encostei a testa na parede do quarto.

— Tlec.

O som de pele úmida encostando em parede fria. Do outro lado. Na mesma altura da minha testa. Senti o calor dele atravessar o reboco. Febril.

A respiração dele sincronizada com a minha.

E com a minha voz, numa calma que eu nunca tive, ele sussurrou:

— Agora você.

Continuei na sala, com a TV ligada. Barulho de gente. Mas na parede que ainda fazia divisa com o quarto dele, eu ouvia alguém dormindo. O ranger do colchão.

Saber é diferente de ouvir.

Ontem eu quebrei.

Peguei o martelo. Minha mão tremia tanto que na primeira martelada acertei meu dedão. A dor foi uma âncora, forte, real. O dedo ficou roxo, latejando. No ar ficou um cheiro de sangue e metal.

Continuei. Tijolo maciço do Atlântico. Cada porrada soltava um pó branco, fino, com cheiro de osso e maresia. Suor ardendo no olho, zumbido no ouvido.

Fiz um buraco do tamanho de um prato.

A poeira baixou.

Do outro lado tinha meu quarto. Mais exato que o meu. O mesmo colchão no chão, a mesma mancha da Austrália na parede da cabeceira, o mesmo ventilador.

E tinha mais. O amassado do colchão na sala, onde eu estava deitado do lado de cá, aparecia no chão do quarto dele. No mesmo lugar.

Depois eu vi o lençol.

O meu lençol azul, enrolado na perna esquerda de quem dormia de costas pra mim.

Depois a mancha.

Na parede dele, exatamente na altura da minha mancha da Austrália, havia uma gota vermelha. O sangue que espirrei ali ontem, quando acertei o dedo.

— Ei!

Meio segundo. Um atraso exato. Como na torneira.

Ele parou de roncar. Virou a cabeça devagar.

Era eu. Um eu mais magro, pele amarelada, cabelo úmido colado na testa. Cheiro de parede suada.

He sorriu com meus dentes tortos de baixo.

— Demorou.

Eu não tampei direito.

Não tinha massa suficiente. Passei o que achei no armário da área, com a mão. Ficou torto. Passei tinta branca por cima com o dedo. Até agora ela não secou. Continua brilhando, molhada.

Voltei a dormir no quarto. Porque na sala eu ouço ele acordado agora. Sentado na cadeira. Me assistindo.

Toda noite encosto o ouvido na parede nova. Ela esquenta.

A Guarita 7

A Guarita 7
Por Tadeu Everton Zamoiski

O vento não sopra. Ele rasteja. Desliza sobre a areia fria, carregando sal, algas úmidas e um aroma que demoro a reconhecer: madeira envelhecida, encharcada. A própria praia apodrece devagar, sem pressa, sob a chuva fina e o sal que tudo consome. Fora de temporada, a Praia Brava parece ter sido apagada do mapa. Nenhum riso ao longe, nenhuma música vinda de uma janela aberta, nenhum som além do mar batendo na areia. Apenas o cinza do mar se encontrando com o cinza do céu, e ali, sozinha no seu pequeno cais de tábuas escuras, a Guarita 7. Parece um osso esquecido, erguido sobre a água, observando o nada. Na guarita nunca houve rádio, mas sempre houve o espaço para um.

Eu vou até lá todas as manhãs. Sempre às seis e meia. Vinte e sete passos até a linha da maré. Cento e doze até os degraus. Sempre o mesmo casaco, desbotado nos cotovelos, um botão a menos no peito esquerdo. É o meu lugar. Onde o silêncio não pesa — ele apenas fica, quieto, como um cobertor que ainda guarda um pouco do nosso calor.

Até aquela terça-feira.

Contei vinte e seis passos. Errei. Voltei.

Quando levantei os olhos, havia alguém lá dentro.

Fiquei parado. A areia gelada escorregou entre os meus dedos. O coração bateu tão forte que doeu nas costelas. A silhueta estava sentada no meu lugar. Costas apoiadas, um cotovelo no parapeito.

Não consegui dar um passo adiante. Algo me segurou. Fiquei ali, parado, até que uma onda maior quebrou com um rugido surdo e, quando a espuma recuou, a guarita estava vazia. Subi os degraus depressa demais. A madeira rangia sob os meus pés. Ninguém. Nada. Apenas o cheiro de maresia e o meu cheiro — o sabão que uso no rosto, o café que tomo antes de sair. Como se eu tivesse estado ali o tempo todo.

No dia seguinte, cheguei antes de o sol nascer. O horizonte era uma mancha pálida entre o mar e o céu. E ele estava lá outra vez.

Costas apoiadas, um cotovelo no parapeito. A cabeça levemente inclinada para o lado esquerdo. Os dedos batendo devagar, no mesmo ritmo. Vestia o mesmo azul-marinho gasto nos cotovelos. Faltava um botão no peito esquerdo.

Desta vez fui. Um passo de cada vez. As pernas pesadas. Quando cheguei ao topo, a guarita estava vazia. Mas o livro estava ali. O Morro dos Ventos Uivantes. Aberto na página cento e quarenta e sete. Onde eu sempre paro.

Olhei para baixo.

Nenhuma pegada.

Voltei para casa tremendo dos joelhos. Tranquei a porta. Fechei as janelas. O silêncio dentro de casa parecia mais denso. Mais atento.

Perto da meia-noite, ouvi um som. Um chiado suave, vindo da mesa da cozinha. Um aparelho escuro, antigo, de madeira escurecida pelo tempo.

— Guarita 7, situação?

Respondi antes de pensar:

— Normal.

Reconheci a voz. Era a minha. Mas não era eu falando. Sem a minha hesitação. Completamente calma.

Corri para o quarto. Cobri os ouvidos com o travesseiro. E dormi. Ou perdi a consciência. Já não sei dizer.

Когда abri os olhos, o sol já estava alto. O vento trazia o sal direto ao meu rosto. E eu estava sentado na cadeira da Guarita 7.

Não lembro de ter saído de casa. Não lembro de ter andado pela praia. Não lembro de ter subido aqueles degraus. Mas aqui estou. O livro está aberto diante de mim. Uma caneta espera sobre a página.

Achei que ninguém passaria hoje. A praia continua vazia, como sempre foi. E eu não aceno para ninguém, porque não há ninguém para acenar. Fico observando o mar bater na areia, e uma estranheza cresce dentro de mim — os contornos do mundo parecem ligeiramente errados. Que eu não pertenço mais aqui. Já não sei ao certo quem sou.

O sol começa a descer, tingindo o mar de escuro. E então o vejo.

Um homem caminha na orla. Os ombros um pouco curvados, o passo devagar. Tem a minha altura. Quando ele levanta o rosto e nossos olhos se encontram, vejo o susto passar pelo seu rosto. Ele hesita. Para. Levanto a mão, bem devagar.

Ele não levanta a sua. Apenas abaixa o olhar, aperta o casaco contra o peito e segue adiante.

Abro o livro de registro. As páginas estão amareladas. Escrevo devagar:

31 de outubro — Substituído.

Fecho o livro. O som faz eco na guarita vazia. Olho para o vidro da janela e vejo o meu reflexo. Não pisco quando ele pisca.

O chiado volta, suave, vindo de algum lugar que não consigo localizar:

— Guarita 7, situação?

— Ocupada.

A porta range atrás de mim. Alguém começa a subir os degraus. Passo por passo. Exatamente os meus passos.

O ÚLTIMO ÔNIBUS

O ÚLTIMO ÔNIBUS
Tadeu Everton Zamoiski

Matinhos

O cheiro era sempre o mesmo. Diesel queimado, suor de gente que passava o dia trabalhando e mofo entranhado nos bancos de vinil. O ônibus que fazia a linha do Riviera tinha vinte e três lugares. O banco atrás da porta estava rasgado desde que João começara a trabalhar ali. Uma espuma amarelada aparecia pela abertura, e ninguém na garagem parecia interessado em consertá-lo. Na lateral, o número 317 estava pintado em branco.

João Alvarez tinha quarenta e três anos e dezessete de profissão. Conhecia aquele ônibus pelo barulho. A porta hidráulica demorava dois segundos a mais para fechar quando chovia. O freio traseiro esquerdo assobiava nas descidas. O rádio perdia a sintonia sempre no mesmo trecho, perto do retorno.

Acima da porta, um visor vermelho registrava a quantidade de passageiros.

Quando ficava nervoso, João passava o polegar pelo dedo anelar da mão esquerda, sem perceber.

Havia uma coisa que ele nunca entendeu: a contagem.

Sempre tinha um passageiro a mais. Três pessoas subiam, quatro desciam. Vinte e duas entravam, vinte e três saíam. Não importava quantas vezes conferisse. A diferença permanecia.

Naquela terça-feira, completavam cinco anos da morte de Cleide. João acordara lembrando da data, embora não tivesse contado a ninguém. Antes de sair, parou diante do avental dela, ainda pendurado atrás da porta da cozinha. Sentiu o cheiro de lavanda que permanecia no tecido e ficou alguns segundos olhando o bolso onde ela costumava guardar os sachês de açúcar. Depois pegou a jaqueta no gancho. A mão ainda estava suja de graxa do último turno. Limpou a palma na manga e saiu.

Chegou à Praça Central às onze e quarenta e sete. Três pessoas esperavam no ponto: uma senhora com sacola de feira, um rapaz de mochila e uma garota de uniforme.

— Boa noite — disse, abrindo a porta.

A senhora sentou na frente. O rapaz escolheu o banco do meio. A garota caminhou até o fundo e sentou perto do rasgo no estofado. João contou os três pelo espelho lateral antes de fechar a porta.

O visor vermelho marcou três.

Engatou a primeira e dirigiu até o trecho de estrada cercado por árvores. Ali, os postes ficavam distantes uns dos outros, e havia partes do caminho em que os faróis do ônibus eram a única iluminação. Mais adiante, a placa enferrujada do retorno do Riviera aparecia na beira da estrada.

A senhora da frente se benzeu. João olhou rapidamente pelo espelho lateral.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou.

— Nada, meu filho.

Ela voltou a olhar pela janela.

O rádio permaneceu em silêncio.

O ônibus avançou pelo trecho escuro. No fundo, alguém arrastou os pés.

O relógio do painel marcava meia-noite e três.

O visor mudou de três para quatro.

João olhou para o espelho lateral. Ninguém havia passado pela porta. Manteve os olhos na estrada e apertou o volante.

Não olhou para trás.

Chegou ao ponto final do Riviera. Abriu a porta e esperou. A senhora desceu primeiro. O rapaz veio logo atrás.

O visor vermelho marcou dois.

A garota foi a última dos três passageiros que haviam embarcado. Parou no primeiro degrau e olhou para o fundo do ônibus.

— Moço, quem é aquele homem lá atrás?

João manteve os olhos na rua.

— Não tem ninguém.

Ela hesitou, depois pisou na calçada.

O visor marcou um.

João fechou a porta. Antes que o mecanismo terminasse o movimento, ouviu passos no corredor. Eram lentos, pesados. Alguém caminhou do último banco até a porta.

O visor continuava marcando um.

Os passos chegaram ao degrau. A porta abriu sozinha. João olhou para a rua. Não viu ninguém.

Quando a porta fechou novamente, reparou na marca de areia molhada sobre a borracha escura, do tamanho de um pé descalço. A água escorria pela borda, formando uma pequena poça.

Os passos se afastaram. Subiram pelo corredor, um de cada vez, lentos, até chegarem ao último banco. O visor vermelho continuou aceso.

João engatou a primeira.

Precisava voltar para Matinhos e entregar o ônibus na garagem. Perto da placa enferrujada do retorno, o polegar procurou o dedo anelar da mão esquerda. A aliança tinha desaparecido no mar em 2003, num domingo de sol. Procurara na água rasa por quase uma hora, até desistir. Cleide nunca o perdoara completamente. Dizia que ele precisava aprender a cuidar das coisas.

Osório, o motorista anterior, deixara para João um bilhete escrito num guardanapo de padaria antes de morrer de infarto dentro do ônibus, aos sessenta e dois anos:

"Não olha pelo retrovisor, João. Conta os passageiros, mas não olha. O que sobe não é gente. É o que sobra da gente."

Em dezessete anos, nunca tinha olhado.

Na primeira semana, o visor marcou um a mais. João passou a obedecer.

Naquele mesmo trecho, perto do retorno, o rádio começou a chiar. João mexeu no botão da sintonia, mas a interferência continuou. Por baixo do ruído, surgiu uma única nota, sustentada por alguns segundos. Ele reconheceu a maneira como Cleide costumava cantarolar enquanto preparava o café. A melodia tinha quatro notas. Aquela era só a primeira.

Desligou o aparelho.

O chiado continuou.

Então ouviu as quatro notas completas. Vinham do último banco, cantaroladas com a voz de Cleide.

As mãos apertaram o volante.

Em dezessete anos, nunca tinha olhado.

João olhou pelo retrovisor.

Viu o homem sentado no último banco. Tinha cabelo curto e grisalho, camisa azul-clara e as mãos apoiadas nos joelhos. Na mão esquerda havia uma aliança.

João reconheceu o anel.

Era o dele.

Havia areia molhada presa entre a aliança e o dedo do homem. Alguns grãos escorriam lentamente pela mão e caíam sobre a calça.

Tentou desviar os olhos.

O motor morreu.

O painel apagou de uma vez. Os faróis se extinguiram, e o ônibus parou no meio da estrada. Durante alguns segundos, não houve nenhum ruído além do vento nas árvores.

A chave girou. Nada. João tentou novamente. O motor não respondeu.

No escuro, ouviu alguém mexendo no banco de trás.

— Vai embora — disse.

A voz saiu baixa.

— Por favor.

Um som veio do último banco. Parecia um riso, mas era cansado demais para ser debochado.

João girou a chave outra vez. O motor pegou. O painel acendeu, e os faróis iluminaram a estrada vazia.

Não olhou mais pelo retrovisor naquela noite.

Em casa, João deixou a chave do ônibus sobre a mesa da cozinha e foi direto ao banheiro. Lavou as mãos. A areia continuava ali. Havia dois grãos presos sob a unha do polegar esquerdo. Esfregou com sabonete, depois com uma escova. Quando terminou, a pele estava vermelha.

Ao tirar a jaqueta, sentiu algo no bolso. Era um sachê de açúcar rasgado. Estava vazio, com areia molhada grudada no papel. Levou-o até a cozinha e o guardou no bolso do avental de Cleide, atrás da porta.

Preparou café e sentou-se. O cheiro de lavanda que sentira pela manhã havia desaparecido. No lugar dele, havia um cheiro doce, parecido com o das flores que tinham ficado no quarto durante o velório.

Olhou para a cadeira vazia.

— Você não vem junto — murmurou.

Às três e dezessete, ouviu o ônibus. O motor estava ligado na rua.

Levantou e afastou a cortina da janela. O veículo estava parado em frente ao prédio. Os faróis iluminavam a entrada do edifício. O número 317, pintado na lateral, aparecia sob a luz de um poste.

No banco do motorista havia um homem. Usava a mesma camisa azul-clara, a calça jeans e os chinelos. Na jaqueta, João reconheceu a mancha de graxa que fizera ao limpar a mão na manga antes de sair.

O homem olhou para cima, sorriu e apontou para o fundo do ônibus.

João acompanhou o gesto.

No banco do meio estava um homem mais jovem, com o cabelo escuro e o rosto sem as marcas do tempo. Usava a roupa que João vestira na primeira noite em que dirigiu aquela linha. No último banco estava o homem grisalho, com a mesma camisa azul-clara e a aliança na mão esquerda.

Os três ocupantes faziam o mesmo movimento: o polegar girava lentamente o dedo anelar.

João olhou para o próprio polegar refletido no vidro. Também girava sobre o dedo anelar.

Depois olhou para o visor vermelho acima da porta.

Marcava quatro.

Às três e vinte e um, os faróis apagaram.

O ônibus desapareceu.

João permaneceu na janela até amanhecer.

Na manhã seguinte, ligou para Valdir, o chefe da garagem. Disse que estava doente e precisava se afastar. Não explicou o motivo. Valdir reclamou da falta de motoristas e perguntou se ele conseguiria pelo menos cumprir o turno daquela noite.

— Não volto mais, Valdir.

Houve um silêncio.

— Você está falando sério?

— Estou.

Valdir respirou fundo.

— Então vou colocar o Fábio no seu lugar. É o novato que entrou semana passada. Vai pegar o 317 hoje à noite.

João ficou olhando para a mesa.

— Qual é o nome dele?

— Fábio. Por quê?

— Preciso falar com ele. Você tem o telefone?

Valdir passou o número. João agradeceu e desligou.

Foi até a cozinha, pegou um guardanapo de padaria que estava na gaveta e uma caneta. Escreveu:

"Não olha pelo retrovisor. Se contar um passageiro a mais, não tente descobrir quem é. Não olhe."

Leu o bilhete duas vezes. Pegou o celular, abriu a conversa com o número de Fábio e fotografou o guardanapo. A imagem ficou na caixa de mensagem.

João não tocou na seta.

Dobrou o papel e guardou no bolso da calça.

À tarde, enquanto tomava café, viu o rosto na colher. Não era uma imagem rápida. O rosto estava ali, perfeitamente desenhado na superfície curva do metal.

Afastou a colher. O homem continuou olhando. Tinha as mesmas olheiras que vira no ônibus, a mesma boca apertada e o mesmo cabelo grisalho.

João deixou a colher cair dentro da xícara. O metal bateu na porcelana. Quando tornou a olhar, havia apenas o reflexo da cozinha.

Naquela noite, não conseguiu dormir. Ficou deitado, acompanhando o movimento do ventilador. Perto das três, o aparelho parou. As pás ficaram imóveis.

No teto, acima da cama, apareceu o rosto. João não se mexeu. A imagem não parecia uma sombra projetada. Era como se alguém estivesse deitado do outro lado do concreto, olhando para baixo.

A voz veio de trás do ouvido esquerdo.

— Ele vai achar que é vizinho.

João fechou os olhos. Levou a mão ao bolso da calça, onde ainda guardava o guardanapo. O papel estava úmido. Quando o retirou, viu pequenos grãos de areia presos às dobras.

Quando tornou a abrir os olhos, o teto estava vazio.

Às onze e quarenta e sete daquela noite, Fábio abriu a porta do ônibus na Praça Central. Tinha vinte e oito anos e estava contente com o emprego novo. Passara dois anos trabalhando com aplicativos e finalmente conseguiria um salário fixo. Na garagem, Valdir lhe entregara as chaves e explicara o funcionamento do veículo. Também comentou que João havia deixado o serviço por problemas de saúde.

Fábio não perguntou mais nada.

Três passageiros entraram na Praça Central. Uma senhora, um rapaz e uma garota de uniforme. Ele conferiu pelo espelho lateral e fechou a porta.

O visor vermelho marcou três.

O rádio estava sintonizado na Litoral FM. Quando o ônibus chegou ao trecho de estrada perto do retorno do Riviera, a propaganda terminou. Uma única nota ficou suspensa no rádio por alguns segundos.

Fábio diminuiu a velocidade.

No último banco, alguém arrastou os pés.

Olhou pelo retrovisor.

Havia um homem sentado. Camisa azul-clara desbotada, calça jeans e chinelo de dedo. Tinha o rosto cansado e uma aliança na mão esquerda.

O homem levantou a cabeça e ergueu a mão num cumprimento. Fábio respondeu com um movimento da cabeça, como quem retribui o cumprimento de um vizinho que encontra no corredor tarde da noite. Continuou dirigindo.

No ponto final, abriu a porta. A senhora desceu. Depois o rapaz. A garota foi a última. Fábio contou os três.

O visor vermelho marcava um.

O homem continuava sentado.

A porta fechou.

Fábio esperou alguns segundos, depois voltou para Matinhos. Quando chegou à garagem, Valdir estava perto do portão, conferindo a prancheta.

— Quantos passageiros você levou? — perguntou.

— Quatro.

Valdir anotou o número sem levantar os olhos.

— Tudo certo?

— Tudo certo.

Fábio entregue as chaves e foi para casa.

No banheiro, escovou os dentes, abriu a torneira e enxaguou a boca. O celular vibrou ao lado da pia. Uma vez. Fábio não olhou.

Когда começou a escovar novamente, percebeu que estava cantarolando.

Quatro notas.

Parou com a escova na boca. Não sabia de onde vinha aquela melodia.

Continuou escovando os dentes. No espelho, seu rosto estava normal.

Fábio passou o polegar pelo dedo anelar da mão esquerda. Sob a unha, encontrou algo áspero. Esfregou o polegar contra a palma e viu dois grãos de areia.

Fábio sorriu.

No espelho, o sorriso chegou um segundo depois.