Tadeu Everton Zamoiski
Guaraqueçaba
O cemitério de Guaraqueçaba não tem muro. Não precisa. O mato faz o muro.
Atrás da igreja, onde a rua de paralelepípedo acaba e começa a trilha pro mangue, tem um portão de ferro que não fecha mais. Ferrugem comeu a dobradiça. Ninguém rouba de cemitério. O que tem pra roubar?
Meu nome é Nilo. Tenho 58 anos. Sou coveiro aqui há 23. Não sou coveiro porque gosto de defunto. Sou porque meu pai foi. Meu avô foi. Em Guaraqueçaba, coveiro não é profissão. É sobrenome.
Eu não acredito em assombração. Acredito em conta. Conta de luz. Conta de ter que abrir cova às cinco da manhã porque choveu a semana toda e o barro não deixa. Acredito em dor na coluna. E acredito que defunto não reclama. Vivo reclama muito mais.
Tem uma lápide no canto mais velho. Lápide de pedra preta, daquelas que não são daqui. Alguém trouxe de Paranaguá há muito tempo. Não tem cruz. Não tem foto. Só um nome entalhado torto, como se quem fez não soubesse escrever direito.
Quando eu comecei aqui, em 2003, o nome era ALMERINDA R.
Eu nunca apaguei. Deixei. Almerinda deve ter morrido antes de eu nascer. Deixa lá.
Só que em março desse ano, na terça depois do carnaval, eu cheguei cedo pra capinar. Orvalho no capim, cheiro de terra molhada com mangue. Olhei pra lápide.
Não tava mais ALMERINDA R.
Tava ELIAS R.
Elias Ribeiro. Dono da venda da esquina da praça.
Eu limpei o olho com a manga da camisa. Passei a enxada em cima, de leve, pra tirar o limo. A pedra continuou ELIAS R.
No outro dia, Elias morreu. Infarto na frente da venda. Caiu em cima do saco de arroz.
Na quinta, fui de novo. Não queria ir. Mas fui.
MARLENE C.
Marlene Cordeiro. Professora da creche. 39 anos.
Marlene passou por mim na rua no mesmo dia, com as apostilas na mão. Me deu bom-dia.
Na sexta, Marlene não deu bom-dia. Não voltou de Tagaçaba. Dizem que a moto falhou na curva. Guaraqueçaba diz essas coisas.
Comecei a anotar num caderninho de armazém que eu uso pra contar quantas covas abri no mês. Letra minha, feia, de quem escreve pouco:
Segunda: ELIAS R - morreu. Quinta: MARLENE C - morreu. Sexta: JOÃO P.
João Paulo. Meu sobrinho. 19 anos. Filho da minha irmã.
Eu larguei a enxada no meio do cemitério e corri. Corri descalço quase, pela trilha, até a casa dele.
Ele tava na rede, no celular, descalço, com o pé sujo de mangue.
— Tio Nilo tá suado.
— Não vai pro mangue amanhã. Não vai buscar siri. Fica em casa.
Ele riu. "Tio tá doido. Maré tá boa amanhã".
No sábado, maré baixa. Ele foi.
O mangue puxou. Quem é de Guaraqueçaba sabe. O mangue não é lama. É mão. Quando você afunda o pé, ele segura. João atolou até o joelho. A maré subiu por cima.
Quando acharam, só a cabeça tava pra fora. Como se o mangue tivesse plantado ele.
Enterrei meu sobrinho na cova que eu mesmo abri. Com a mesma enxada que eu capino a lápide. Minha irmã não falou comigo no enterro. Achou que eu roguei praga.
No domingo, não fui no cemitério. Fiquei em casa, com a porta trancada, cheiro de café requentado. Minha mulher perguntou o que eu tinha. Eu não soube explicar.
Na segunda, fui. Tinha que ir. O mato não espera.
A pedra tava limpa. Lavada com água de chuva.
NILO R.
Meu nome. Meu sobrenome torto, escrito do mesmo jeito torto de Almerinda.
Sentei no chão. O chão tava úmido. Minha coluna doeu. Olhei pro portão de ferro que não fecha. Olhei pro mangue. Guaraqueçaba inteira tava quieta.
Tinha um dia.
Pensei em fugir. Pegar o barco pra Paranaguá. Mas a pedra sempre me achava. Ia me achar de novo.
Pensei em quebrar. Peguei a marreta. Levantei. Quando encostei a marreta na pedra preta, a pedra tava quente. Quente por dentro, mesmo com o dia nublado, mesmo com o sereno. Quente como brasa abafada.
Larguei a marreta.
Aí fiz coisa de teimoso. Coisa de coveiro supersticioso.
Se a pedra não quer ficar em pé, então vai pro chão.
Comecei a cavar do lado dela. Um buraco fundo, do tamanho da pedra. Pra enterrar a lápide. Pra enterrar o nome.
Cavei até a camisa grudar nas costas. Até a mão abrir bolha e a bolha estourar e virar sangue com terra preta.
Joguei a pedra preta dentro do buraco. De bruços. Nome pra baixo, pra terra comer.
Tampei. Pisei em cima. Socando com o pé.
Pronto. Acabou.
Fui tomar água no galpão. Quando voltei, cinco minutos depois, a terra tava mexida.
A pedra tava de volta em pé. No mesmo lugar. Só que lisa. Sem nome. Como se nunca tivesse tido nome nenhum.
E do lado dela, a cova velha — aquela que tava fechada há 50 anos com grama por cima, que ninguém abre porque é de criança — tava aberta.
Aberta sozinha. Terra fofa em volta, cheirando a ferro e mangue. Fundo escuro. Do meu tamanho exato.
E dentro, água preta do mangue subindo devagar, borbulhando.
Eu tinha apagado meu nome. Mas Guaraqueçaba não apaga cova.
Fiquei ali olhando a água subir. Se eu corresse, o mangue ia me buscar na trilha mesmo. Se eu ficasse, ia me buscar aqui.
Então fiz a única coisa que um teimoso faz.
Deitei.
Deitei dentro da minha própria cova, com a roupa suja de terra, com a mão sangrando, com cheiro de Almerinda, de Elias, de Marlene, de João.
A água preta do mangue tava fria. Subiu no meu tornozelo. No meu joelho.
Fechei o olho.
A última coisa que ouvi não foi a pedra escrevendo.
Foi o mato crescendo por cima de mim, fazendo o muro.