Tadeu Everton Zamoiski
Paulo contou o dinheiro duas vezes antes de colocar as notas sobre a mesa. Não precisava contar de novo. O salário só entraria dali a alguns dias, e as contas já estavam separadas em pequenos montes. Luz, água, mercado, cartão. A geladeira fazia um ruído novo desde a semana anterior, um ronco curto que começava e parava sem aviso. Paulo tinha dito que ainda funcionava. A mulher não respondeu. Estava na pia, lavando duas xícaras, e demorou para fechar a torneira. Quando desligou a água, deixou as mãos molhadas sobre a borda da pia.
— Eu estou cansada de fazer conta.
Paulo continuou olhando para o dinheiro. Ela enxugou as mãos, pegou a bolsa e saiu da cozinha.
Zeus dormia perto da porta dos fundos. Quando ouviu o motor do caminhão, levantou a cabeça antes de Paulo. Conhecia aquele som. Começou a latir para o portão, correu até a calçada e voltou, excitado, enquanto o caminhão avançava devagar pela rua. Era segunda-feira, 21 de setembro. Dia de coleta orgânica. Paulo vestiu o uniforme e saiu.
Durante o trabalho, os movimentos eram sempre os mesmos. Recolher, levantar, separar, carregar. O que mudava eram as coisas encontradas no meio dos sacos. Brinquedos, documentos, fotografias, ferramentas, roupas quase novas. Paulo às vezes separava algum objeto para entregar a quem pudesse aproveitá-lo. Naquela manhã, encontrou uma panela sem cabo, três pratos, um rádio antigo e uma caixa de papelão cheia de fotografias. Devolveu tudo ao caminhão.
A casa ficava numa rua perto da praia. Durante o dia, era uma rua comum. Depois que escurecia, os sons se misturavam. Na mesma quadra havia uma casa de shows. Nos fins de semana, copos, guardanapos e embalagens de salgadinhos apareciam perto das calçadas. Ao lado funcionava um bar frequentado por motociclistas. A maioria chegava e saía sem chamar atenção, mas alguns aceleravam as motos antes de dobrar a esquina. Na diagonal havia um posto de combustível e um quiosque que vendia caldo de cana e pastel de carne, queijo e pizza. Duas quadras depois começava a avenida da praia, com a iluminação noturna alimentada pela energia armazenada durante o dia nos painéis solares. Paulo costumava caminhar até lá quando precisava esfriar a cabeça.
Naquela segunda-feira à noite, a mulher voltou a falar sobre dinheiro. Disse que não conseguia mais fazer o mercado usando o limite do cartão. Paulo disse que receberia na semana seguinte. Ela perguntou o que fariam até lá. Ele não soube responder. Abriu a gaveta da cozinha, retirou um envelope pardo e colocou-o sobre a mesa.
— São meus documentos.
Paulo olhou para o envelope.
— Você vai embora?
— Estou pensando.
Ela guardou os documentos.
A geladeira ligou na cozinha e começou a roncar. Os dois ficaram ouvindo. Depois, ela foi para o quarto e fechou a porta. Paulo saiu com Zeus. O cachorro ficou no portão enquanto ele seguia em direção à praia. Paulo caminhou até a avenida e sentou-se num banco. Ficou ali vendo as luzes refletidas no asfalto úmido. Pensou no dinheiro, na mulher, na filha e no trabalho. Durante o dia, recolhia aquilo que alguém havia decidido colocar para fora. À noite, voltava para casa com a impressão de que alguma coisa estava sendo colocada para fora também ali.
Quando voltou, a mulher já dormia.
Naquela mesma noite, pouco depois das dez, um homem caminhou pela rua carregando uma sacola escura. Não havia nada de especial nele. Passou pelo posto, atravessou diante do quiosque e parou diante do suporte de coleta seletiva instalado ao lado do poste em frente à casa de Paulo. A coleta seletiva não tinha dia fixo naquela rua. O homem abriu a tampa, colocou a sacola entre caixas de papelão e embalagens de salgadinhos e fechou. Uma motocicleta saiu do bar acelerando. Quando o barulho passou, ele já tinha virado a esquina.
Na terça-feira, 22, Paulo trabalhou na coleta orgânica de outro setor. Na quarta-feira, 23, voltou para a rota de coleta seletiva. Foi então que encontrou a sacola.
Estava entre papelão e embalagens deixadas pelos frequentadores da casa de shows. Dentro havia um diário de capa marrom, de tecido grosso, com os cantos gastos e uma mancha escura perto da lombada. Paulo abriu-o. Uma fotografia antiga estava dobrada entre as páginas. Viu apenas a borda amarelada da imagem e tornou a fechar o diário. Levou-o para casa.
A filha abriu o diário naquela tarde. O nome de Marta aparecia na primeira página escrita.
Marta, 14 de março de 2011.
Não havia sobrenome.
As primeiras anotações eram banais. Compras, contas, chuva, receitas, pequenos aborrecimentos. Marta reclamava que o marido deixara a toalha molhada sobre a cama. Na página seguinte, confessava que ela mesma tinha feito aquilo naquela manhã. Havia uma receita de arroz de forno com uma observação escrita no canto: "Menos queijo. O bolso agradece." Em outra página, contava que guardava moedas dentro de uma xícara lascada porque nunca lembrava onde colocava a carteira. Algumas páginas depois, anotava que precisava comprar outra xícara porque aquela já estava rachando mais.
A filha achou graça.
— Ela era meio esquecida.
Paulo leu algumas páginas por cima do ombro dela. Marta escrevia sobre o marido sem transformá-lo em vilão. Em um dia reclamava que ele chegara tarde. No outro, deixava anotado que tinha separado o pedaço maior de frango porque sabia que ele gostava. Às vezes dizia que não queria mais conversar. Na página seguinte, escrevia que tinha feito café para os dois.
No dia 18 de março de 2011, apareceu o nome do cachorro.
"Zeus latiu antes de o caminhão chegar. Preciso fechar o portão antes que ele se enfie debaixo das rodas."
Paulo parou.
A filha olhou para ele.
— Seu Zeus?
— É.
Ela voltou à página.
No dia seguinte, Marta escreveu que Zeus tinha passado a manhã deitado perto da porta dos fundos. Mais adiante, em abril, anotou que o cachorro esperava no portão quando o marido saía à noite.
Paulo fechou o diário.
Naquela noite, a mulher encontrou o objeto sobre a mesa. Pegou-o, leu algumas linhas e perguntou:
— Você trouxe isso do lixo?
— Da coleta seletiva.
Ela pousou o diário.
— Você está começando a trazer tudo para dentro de casa?
Paulo não respondeu.
Ela abriu a gaveta, tirou novamente o envelope pardo e colocou-o sobre a mesa.
— Eu não quero sair daqui brigando.
Paulo olhou para ela.
— Eu também não.
Ela guardou os documentos e foi dormir.
Na quinta-feira, 24, Paulo trabalhou na coleta orgânica. Na sexta, 25, estava de folga da rota da rua onde morava. Durante esses dois dias, o diário ficou na gaveta da sala. Paulo abriu-o algumas vezes à noite. Marta escrevia em intervalos irregulares. Às vezes passavam três ou quatro dias sem nenhuma anotação. Depois apareciam várias páginas de uma vez.
Em 22 de março de 2011, ela escreveu que o marido prometera consertar uma torneira.
Em 29 de março, reclamou que ele tinha esquecido.
Em 1º de abril, anotou que havia comprado pastel de queijo no quiosque antes de voltar para casa porque não queria cozinhar. O dono fazia um pastel de que gostava. Na linha seguinte, escreveu:
"Zeus ficou esperando no portão."
Paulo leu a página mais de uma vez.
Não era impossível. Muitas pessoas compravam pastel de queijo. Muitos cachorros esperavam no portão.
Ainda assim, começou a prestar atenção.
Na sexta-feira à tarde, passou pelo quiosque. O dono estava cortando cana. Paulo perguntou se ele se lembrava de uma mulher chamada Marta. O homem pensou, limpou as mãos no avental e balançou a cabeça.
— Nome eu não lembro.
— Ela comprava pastel de queijo.
O homem riu.
— Isso reduz pouco.
Paulo perguntou sobre uma mulher que frequentasse o quiosque muitos anos antes. O homem continuou sem lembrar. Quando Paulo perguntou sobre o homem que havia deixado uma sacola no suporte da coleta naquela segunda-feira, o dono do quiosque disse que tinha visto alguém parado perto do poste.
— Ele comprou pastel?
— Comprou.
— De queijo?
— Se não me engano.
— Você lembra da cara?
— Não.
O homem continuou cortando a cana.
— Ele ficou ali comendo e olhando para a rua. Depois colocou alguma coisa no lixo.
Paulo agradeceu e foi embora.
Em casa, abriu o diário.
A fotografia continuava dobrada.
Ele a tirou do lugar, segurou-a entre os dedos e quase a abriu. Ouviu a geladeira roncar na cozinha. Guardou a fotografia novamente.
A mulher estava sentada no sofá.
— Eu vou sair amanhã.
Paulo demorou a entender.
— Você já decidiu?
— Decidi.
— Por quanto tempo?
— Não sei.
Ela não parecia zangada.
— Vou dormir na casa da minha irmã.
Paulo sentou-se.
— Você quer que eu peça para você ficar?
Ela olhou para ele.
— Eu quero que você diga se quer.
Paulo demorou.
— Eu quero.
Ela baixou os olhos.
Ficaram em silêncio.
Naquela noite, depois que ela foi dormir, Paulo pegou o diário e saiu de casa. Caminhou até o suporte de coleta seletiva. A rua estava quase vazia. A casa de shows ainda estava fechada. Do bar veio o som distante de duas pessoas conversando. Paulo colocou o diário entre as caixas de papelão, fechou a tampa e voltou.
Uma motocicleta acelerou na esquina.
Zeus latiu quando Paulo abriu o portão.
Na manhã de sábado, 26 de setembro, o diário estava sobre a mesa da cozinha.
A mulher foi quem o encontrou.
Ficou olhando para ele. Depois olhou para a gaveta aberta.
Nenhum dos dois tocou no diário.
A mancha escura perto da lombada parecia maior. Paulo passou o dedo sobre ela. A capa estava seca.
Abriu-o.
A fotografia continuava dobrada.
A página do pastel estava aberta.
Paulo não lembrava de tê-la deixado assim.
A mulher fechou o diário.
— Guarda isso.
— Por quê?
— Porque eu não quero olhar.
Paulo colocou o diário numa gaveta da cozinha.
Ela pegou a mala.
— Vou mesmo assim.
Paulo assentiu.
Ela saiu.
Naquela tarde, Paulo não abriu o diário. Trabalhou em outra região e voltou no fim do dia. A casa estava silenciosa. A mala tinha desaparecido. A mulher realmente tinha ido para a casa da irmã.
Zeus ficou perto da porta, esperando.
Paulo fez café.
A geladeira ligou e voltou a roncar.
Ele abriu a gaveta.
O diário estava lá.
A fotografia continuava dobrada.
Paulo sentou-se à mesa e começou a ler Marta desde o começo.
Na página de 7 de abril de 2011, ela escrevera:
"Hoje pensei em ir embora. Fiz café para ele mesmo assim."
Na página seguinte:
"Ele pediu para eu ficar. Não sei se é suficiente. Amanhã vou decidir."
Paulo fechou o diário.
Não procurou mais nenhuma página.
Naquela noite, enviou uma mensagem para a mulher. Perguntou se ela estava bem.
Ela respondeu depois de alguns minutos.
— Estou.
Paulo escreveu:
— Eu queria que você voltasse.
Demorou para receber resposta.
— Eu sei.
Foi tudo.
No domingo, 27, Paulo ficou em casa com Zeus. Não houve coleta. Pela primeira vez desde que encontrara o diário, passou o dia inteiro sem abri-lo. À noite, a gaveta da cozinha estava aberta.
O diário estava sobre a mesa.
Aberto.
A fotografia continuava dobrada.
A página era outra.
8 de abril de 2011.
Marta havia escrito:
"Ele pediu para eu ficar. Não sei se é suficiente. Amanhã vou decidir."
Paulo fechou o diário.
Na segunda-feira, 28 de setembro, a mulher voltou para casa no fim da tarde. Não trouxe a mala para dentro imediatamente. Deixou-a no carro. Sentaram-se à mesa. Conversaram sobre as contas. Sobre a geladeira. Sobre a possibilidade de vender algumas coisas. Sobre o que fariam se o dinheiro continuasse curto.
Não resolveram tudo.
Quando a conversa terminou, a mulher perguntou pelo diário.
Paulo olhou para a gaveta.
— Eu vou devolver.
Ela não perguntou quando.
Na terça-feira, 29, Paulo não trabalharia naquela rua. Mesmo assim, antes de sair de casa, colocou o diário dentro de uma sacola e levou-o consigo. Não queria esperar.
Na rua, o suporte estava vazio.
Ele abriu a tampa e colocou o diário lá dentro.
Dessa vez, não ficou olhando.
Fechou e voltou para casa.
A mulher estava na cozinha.
— Foi?
— Foi.
Ela continuou fazendo café.
A geladeira ligou.
Paulo puxou uma cadeira.
— Depois a gente vê isso.
Ela colocou uma xícara diante dele.
— Depois.
Zeus entrou na cozinha, cheirou as pernas da mesa e deitou-se perto da porta.
Passaram alguns minutos sem conversar.
Na quarta-feira, 30, Paulo saiu cedo para trabalhar. O caminhão da coleta seletiva ainda não havia chegado à rua quando ele passou pelo bairro. Não parou no suporte. Continuou para o trabalho.
Durante a coleta, encontrou uma caixa com objetos antigos. Havia cartas, fotografias e uma pequena xícara rachada. Pegou a xícara, olhou por dentro e a colocou de volta na caixa.
Quando chegou em casa, a mulher estava na sala.
A mala continuava no quarto.
Ela ainda não havia desfeito as coisas.
Paulo não perguntou por quê.
Naquela noite, dormiram juntos.
Na manhã seguinte, 1º de outubro, Paulo acordou cedo e foi até a cozinha. A gaveta onde havia guardado o diário estava aberta.
Vazia.
A fotografia também não estava em lugar nenhum.
Paulo abriu outra gaveta.
Depois fechou.
Não procurou mais.
Na mesa havia uma folha com as contas do mês. A mulher tinha marcado a conta da geladeira e escrito ao lado o valor que conseguiriam pagar naquela semana.
Paulo pegou a caneta.
Acrescentou outro valor.
Ouviu o caminhão da coleta seletiva passar na rua. O som diminuiu na esquina e desapareceu.
Zeus continuou dormindo.