domingo, 1 de novembro de 2026

O VIZINHO DO 302

O VIZINHO DO 302
Tadeu Everton Zamoiski

No Edifício Atlântico, na Riviera de Matinhos, o apartamento 302 está fechado. Fechado desde 98.

Foi o que o Seu Milton me disse quando eu me mudei pro 301. Depois ele corrigiu.

— Fechado desde que você chegou. Quer dizer, desde 98.

Eu anotei a frase torta e deixei quieta.

O Atlântico tem dois cheiros que não se misturam. Lá fora é maresia aberta, sal queimando no concreto quente. Lá dentro é corredor abafado, cheiro de caixa d'água parada e inseticida. Meu quarto fica no meio dos dois. A parede que divide o 301 do 302 sua no verão. Uma umidade fria, com cheiro de pano esquecido no varal.

No começo eu ouvia o mar. Depois passei a ouvir o 302.

Foi numa terça, duas e pouca da manhã. Ventilador girando com barulho de helicóptero cansado, aquele cheiro de poeira quente. Ouvi uma tosse.

Seca. Da parede da cabeceira.

Eu tossi de volta sem pensar.

— Cof, cof.

O apartamento ficou em silêncio.

Do outro lado, no mesmo ponto:

— Cof, cof.

Fui até a cozinha. A água daqui deixa a língua áspera, gosto de ferrugem e cloro. Abri a torneira. A dele abriu junto. Fechei. A dele fechou meio segundo depois.

Era esse meio segundo que me pegava. Não era a cópia. Era o atraso. Como se alguém prestasse muita atenção pra não errar.

Passei a testar a parede sem perceber que já tinha virado mania.

Bati três vezes com o nó do dedo, perto da mancha de infiltração em forma de Austrália, na parede da cabeceira.

— Toc, toc, toc.

Deixei a palma encostada no tijolo frio. Senti a vibração voltar pro osso.

— Toc, toc, toc.

Liguei o chuveiro uma noite, só pra ver. Aquela água que vem primeiro gelada, com cheiro de lodo morno. O dele ligou junto.

Eu dormia com o lençol azul enrolado só na perna esquerda. De manhã, ouvia o lençol do outro lado sendo chutado do mesmo jeito.

O cheiro do 302 mudou. No início era cheiro de coisa morta e seca, de apartamento lacrado. Depois de uma semana ficou úmido. Quente. Cheiro de travesseiro que não seca. De suor azedo. Meu cheiro.

Fui falar com o Seu Milton. Ele estava com o copo de café frio, sem olhar pra mim.

— Seu Milton, o 302 tá fazendo barulho de novo.

— Tadeu, já te falei. Desde que... — ele se corrigiu rápido — desde que a Dona Elza morreu lá.

He disse isso olhando pro corredor, não pra mim.

Naquela noite a regra quebrou.

Eu tinha levado o colchão pra sala pra fugir da parede quente do quarto. Era umas três da manhã. Ouvi uma cadeira de madeira sendo arrastada no piso frio até o meio do quarto dele. Depois, o barulho seco de alguém ocupando a cadeira. Ficou ali no escuro, me ouvindo dormir.

Na noite seguinte, o choro.

Baixinho, abafado pelo tijolo. Meu choro. Aquele soluço feio, engasgado.

Eu fiquei deitado, de boca seca, ouvindo. Até que veio baixinho, com a minha voz de menino:

— Mãe?

Ninguém no prédio sabia que minha mãe me chamava assim.

Levantei. Fui até a porta do 302. O corredor cheirava a veneno de barata. Bati.

— Quem tá aí?

O lacre amarelo da porta tremeu.

Colei o ouvido na madeira. Ouvi passos vindo até mim, lá de dentro. Pararam na minha frente.

Pela fresta de baixo veio um bafo quente, úmido. E um fio de ar frio que tocou meu dedão descalço. Um frio cortante, como se do outro lado o chão fosse de pedra gelada.

Voltei pro 301. Tranquei. Encostei a testa na parede do quarto.

— Tlec.

O som de pele úmida encostando em parede fria. Do outro lado. Na mesma altura da minha testa. Senti o calor dele atravessar o reboco. Febril.

A respiração dele sincronizada com a minha.

E com a minha voz, numa calma que eu nunca tive, ele sussurrou:

— Agora você.

Continuei na sala, com a TV ligada. Barulho de gente. Mas na parede que ainda fazia divisa com o quarto dele, eu ouvia alguém dormindo. O ranger do colchão.

Saber é diferente de ouvir.

Ontem eu quebrei.

Peguei o martelo. Minha mão tremia tanto que na primeira martelada acertei meu dedão. A dor foi uma âncora, forte, real. O dedo ficou roxo, latejando. No ar ficou um cheiro de sangue e metal.

Continuei. Tijolo maciço do Atlântico. Cada porrada soltava um pó branco, fino, com cheiro de osso e maresia. Suor ardendo no olho, zumbido no ouvido.

Fiz um buraco do tamanho de um prato.

A poeira baixou.

Do outro lado tinha meu quarto. Mais exato que o meu. O mesmo colchão no chão, a mesma mancha da Austrália na parede da cabeceira, o mesmo ventilador.

E tinha mais. O amassado do colchão na sala, onde eu estava deitado do lado de cá, aparecia no chão do quarto dele. No mesmo lugar.

Depois eu vi o lençol.

O meu lençol azul, enrolado na perna esquerda de quem dormia de costas pra mim.

Depois a mancha.

Na parede dele, exatamente na altura da minha mancha da Austrália, havia uma gota vermelha. O sangue que espirrei ali ontem, quando acertei o dedo.

— Ei!

Meio segundo. Um atraso exato. Como na torneira.

Ele parou de roncar. Virou a cabeça devagar.

Era eu. Um eu mais magro, pele amarelada, cabelo úmido colado na testa. Cheiro de parede suada.

He sorriu com meus dentes tortos de baixo.

— Demorou.

Eu não tampei direito.

Não tinha massa suficiente. Passei o que achei no armário da área, com a mão. Ficou torto. Passei tinta branca por cima com o dedo. Até agora ela não secou. Continua brilhando, molhada.

Voltei a dormir no quarto. Porque na sala eu ouço ele acordado agora. Sentado na cadeira. Me assistindo.

Toda noite encosto o ouvido na parede nova. Ela esquenta.

A Guarita 7

A Guarita 7
Por Tadeu Everton Zamoiski

O vento não sopra. Ele rasteja. Desliza sobre a areia fria, carregando sal, algas úmidas e um aroma que demoro a reconhecer: madeira envelhecida, encharcada. A própria praia apodrece devagar, sem pressa, sob a chuva fina e o sal que tudo consome. Fora de temporada, a Praia Brava parece ter sido apagada do mapa. Nenhum riso ao longe, nenhuma música vinda de uma janela aberta, nenhum som além do mar batendo na areia. Apenas o cinza do mar se encontrando com o cinza do céu, e ali, sozinha no seu pequeno cais de tábuas escuras, a Guarita 7. Parece um osso esquecido, erguido sobre a água, observando o nada. Na guarita nunca houve rádio, mas sempre houve o espaço para um.

Eu vou até lá todas as manhãs. Sempre às seis e meia. Vinte e sete passos até a linha da maré. Cento e doze até os degraus. Sempre o mesmo casaco, desbotado nos cotovelos, um botão a menos no peito esquerdo. É o meu lugar. Onde o silêncio não pesa — ele apenas fica, quieto, como um cobertor que ainda guarda um pouco do nosso calor.

Até aquela terça-feira.

Contei vinte e seis passos. Errei. Voltei.

Quando levantei os olhos, havia alguém lá dentro.

Fiquei parado. A areia gelada escorregou entre os meus dedos. O coração bateu tão forte que doeu nas costelas. A silhueta estava sentada no meu lugar. Costas apoiadas, um cotovelo no parapeito.

Não consegui dar um passo adiante. Algo me segurou. Fiquei ali, parado, até que uma onda maior quebrou com um rugido surdo e, quando a espuma recuou, a guarita estava vazia. Subi os degraus depressa demais. A madeira rangia sob os meus pés. Ninguém. Nada. Apenas o cheiro de maresia e o meu cheiro — o sabão que uso no rosto, o café que tomo antes de sair. Como se eu tivesse estado ali o tempo todo.

No dia seguinte, cheguei antes de o sol nascer. O horizonte era uma mancha pálida entre o mar e o céu. E ele estava lá outra vez.

Costas apoiadas, um cotovelo no parapeito. A cabeça levemente inclinada para o lado esquerdo. Os dedos batendo devagar, no mesmo ritmo. Vestia o mesmo azul-marinho gasto nos cotovelos. Faltava um botão no peito esquerdo.

Desta vez fui. Um passo de cada vez. As pernas pesadas. Quando cheguei ao topo, a guarita estava vazia. Mas o livro estava ali. O Morro dos Ventos Uivantes. Aberto na página cento e quarenta e sete. Onde eu sempre paro.

Olhei para baixo.

Nenhuma pegada.

Voltei para casa tremendo dos joelhos. Tranquei a porta. Fechei as janelas. O silêncio dentro de casa parecia mais denso. Mais atento.

Perto da meia-noite, ouvi um som. Um chiado suave, vindo da mesa da cozinha. Um aparelho escuro, antigo, de madeira escurecida pelo tempo.

— Guarita 7, situação?

Respondi antes de pensar:

— Normal.

Reconheci a voz. Era a minha. Mas não era eu falando. Sem a minha hesitação. Completamente calma.

Corri para o quarto. Cobri os ouvidos com o travesseiro. E dormi. Ou perdi a consciência. Já não sei dizer.

Когда abri os olhos, o sol já estava alto. O vento trazia o sal direto ao meu rosto. E eu estava sentado na cadeira da Guarita 7.

Não lembro de ter saído de casa. Não lembro de ter andado pela praia. Não lembro de ter subido aqueles degraus. Mas aqui estou. O livro está aberto diante de mim. Uma caneta espera sobre a página.

Achei que ninguém passaria hoje. A praia continua vazia, como sempre foi. E eu não aceno para ninguém, porque não há ninguém para acenar. Fico observando o mar bater na areia, e uma estranheza cresce dentro de mim — os contornos do mundo parecem ligeiramente errados. Que eu não pertenço mais aqui. Já não sei ao certo quem sou.

O sol começa a descer, tingindo o mar de escuro. E então o vejo.

Um homem caminha na orla. Os ombros um pouco curvados, o passo devagar. Tem a minha altura. Quando ele levanta o rosto e nossos olhos se encontram, vejo o susto passar pelo seu rosto. Ele hesita. Para. Levanto a mão, bem devagar.

Ele não levanta a sua. Apenas abaixa o olhar, aperta o casaco contra o peito e segue adiante.

Abro o livro de registro. As páginas estão amareladas. Escrevo devagar:

31 de outubro — Substituído.

Fecho o livro. O som faz eco na guarita vazia. Olho para o vidro da janela e vejo o meu reflexo. Não pisco quando ele pisca.

O chiado volta, suave, vindo de algum lugar que não consigo localizar:

— Guarita 7, situação?

— Ocupada.

A porta range atrás de mim. Alguém começa a subir os degraus. Passo por passo. Exatamente os meus passos.

O ÚLTIMO ÔNIBUS

O ÚLTIMO ÔNIBUS
Tadeu Everton Zamoiski

Matinhos

O cheiro era sempre o mesmo. Diesel queimado, suor de gente que passava o dia trabalhando e mofo entranhado nos bancos de vinil. O ônibus que fazia a linha do Riviera tinha vinte e três lugares. O banco atrás da porta estava rasgado desde que João começara a trabalhar ali. Uma espuma amarelada aparecia pela abertura, e ninguém na garagem parecia interessado em consertá-lo. Na lateral, o número 317 estava pintado em branco.

João Alvarez tinha quarenta e três anos e dezessete de profissão. Conhecia aquele ônibus pelo barulho. A porta hidráulica demorava dois segundos a mais para fechar quando chovia. O freio traseiro esquerdo assobiava nas descidas. O rádio perdia a sintonia sempre no mesmo trecho, perto do retorno.

Acima da porta, um visor vermelho registrava a quantidade de passageiros.

Quando ficava nervoso, João passava o polegar pelo dedo anelar da mão esquerda, sem perceber.

Havia uma coisa que ele nunca entendeu: a contagem.

Sempre tinha um passageiro a mais. Três pessoas subiam, quatro desciam. Vinte e duas entravam, vinte e três saíam. Não importava quantas vezes conferisse. A diferença permanecia.

Naquela terça-feira, completavam cinco anos da morte de Cleide. João acordara lembrando da data, embora não tivesse contado a ninguém. Antes de sair, parou diante do avental dela, ainda pendurado atrás da porta da cozinha. Sentiu o cheiro de lavanda que permanecia no tecido e ficou alguns segundos olhando o bolso onde ela costumava guardar os sachês de açúcar. Depois pegou a jaqueta no gancho. A mão ainda estava suja de graxa do último turno. Limpou a palma na manga e saiu.

Chegou à Praça Central às onze e quarenta e sete. Três pessoas esperavam no ponto: uma senhora com sacola de feira, um rapaz de mochila e uma garota de uniforme.

— Boa noite — disse, abrindo a porta.

A senhora sentou na frente. O rapaz escolheu o banco do meio. A garota caminhou até o fundo e sentou perto do rasgo no estofado. João contou os três pelo espelho lateral antes de fechar a porta.

O visor vermelho marcou três.

Engatou a primeira e dirigiu até o trecho de estrada cercado por árvores. Ali, os postes ficavam distantes uns dos outros, e havia partes do caminho em que os faróis do ônibus eram a única iluminação. Mais adiante, a placa enferrujada do retorno do Riviera aparecia na beira da estrada.

A senhora da frente se benzeu. João olhou rapidamente pelo espelho lateral.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou.

— Nada, meu filho.

Ela voltou a olhar pela janela.

O rádio permaneceu em silêncio.

O ônibus avançou pelo trecho escuro. No fundo, alguém arrastou os pés.

O relógio do painel marcava meia-noite e três.

O visor mudou de três para quatro.

João olhou para o espelho lateral. Ninguém havia passado pela porta. Manteve os olhos na estrada e apertou o volante.

Não olhou para trás.

Chegou ao ponto final do Riviera. Abriu a porta e esperou. A senhora desceu primeiro. O rapaz veio logo atrás.

O visor vermelho marcou dois.

A garota foi a última dos três passageiros que haviam embarcado. Parou no primeiro degrau e olhou para o fundo do ônibus.

— Moço, quem é aquele homem lá atrás?

João manteve os olhos na rua.

— Não tem ninguém.

Ela hesitou, depois pisou na calçada.

O visor marcou um.

João fechou a porta. Antes que o mecanismo terminasse o movimento, ouviu passos no corredor. Eram lentos, pesados. Alguém caminhou do último banco até a porta.

O visor continuava marcando um.

Os passos chegaram ao degrau. A porta abriu sozinha. João olhou para a rua. Não viu ninguém.

Quando a porta fechou novamente, reparou na marca de areia molhada sobre a borracha escura, do tamanho de um pé descalço. A água escorria pela borda, formando uma pequena poça.

Os passos se afastaram. Subiram pelo corredor, um de cada vez, lentos, até chegarem ao último banco. O visor vermelho continuou aceso.

João engatou a primeira.

Precisava voltar para Matinhos e entregar o ônibus na garagem. Perto da placa enferrujada do retorno, o polegar procurou o dedo anelar da mão esquerda. A aliança tinha desaparecido no mar em 2003, num domingo de sol. Procurara na água rasa por quase uma hora, até desistir. Cleide nunca o perdoara completamente. Dizia que ele precisava aprender a cuidar das coisas.

Osório, o motorista anterior, deixara para João um bilhete escrito num guardanapo de padaria antes de morrer de infarto dentro do ônibus, aos sessenta e dois anos:

"Não olha pelo retrovisor, João. Conta os passageiros, mas não olha. O que sobe não é gente. É o que sobra da gente."

Em dezessete anos, nunca tinha olhado.

Na primeira semana, o visor marcou um a mais. João passou a obedecer.

Naquele mesmo trecho, perto do retorno, o rádio começou a chiar. João mexeu no botão da sintonia, mas a interferência continuou. Por baixo do ruído, surgiu uma única nota, sustentada por alguns segundos. Ele reconheceu a maneira como Cleide costumava cantarolar enquanto preparava o café. A melodia tinha quatro notas. Aquela era só a primeira.

Desligou o aparelho.

O chiado continuou.

Então ouviu as quatro notas completas. Vinham do último banco, cantaroladas com a voz de Cleide.

As mãos apertaram o volante.

Em dezessete anos, nunca tinha olhado.

João olhou pelo retrovisor.

Viu o homem sentado no último banco. Tinha cabelo curto e grisalho, camisa azul-clara e as mãos apoiadas nos joelhos. Na mão esquerda havia uma aliança.

João reconheceu o anel.

Era o dele.

Havia areia molhada presa entre a aliança e o dedo do homem. Alguns grãos escorriam lentamente pela mão e caíam sobre a calça.

Tentou desviar os olhos.

O motor morreu.

O painel apagou de uma vez. Os faróis se extinguiram, e o ônibus parou no meio da estrada. Durante alguns segundos, não houve nenhum ruído além do vento nas árvores.

A chave girou. Nada. João tentou novamente. O motor não respondeu.

No escuro, ouviu alguém mexendo no banco de trás.

— Vai embora — disse.

A voz saiu baixa.

— Por favor.

Um som veio do último banco. Parecia um riso, mas era cansado demais para ser debochado.

João girou a chave outra vez. O motor pegou. O painel acendeu, e os faróis iluminaram a estrada vazia.

Não olhou mais pelo retrovisor naquela noite.

Em casa, João deixou a chave do ônibus sobre a mesa da cozinha e foi direto ao banheiro. Lavou as mãos. A areia continuava ali. Havia dois grãos presos sob a unha do polegar esquerdo. Esfregou com sabonete, depois com uma escova. Quando terminou, a pele estava vermelha.

Ao tirar a jaqueta, sentiu algo no bolso. Era um sachê de açúcar rasgado. Estava vazio, com areia molhada grudada no papel. Levou-o até a cozinha e o guardou no bolso do avental de Cleide, atrás da porta.

Preparou café e sentou-se. O cheiro de lavanda que sentira pela manhã havia desaparecido. No lugar dele, havia um cheiro doce, parecido com o das flores que tinham ficado no quarto durante o velório.

Olhou para a cadeira vazia.

— Você não vem junto — murmurou.

Às três e dezessete, ouviu o ônibus. O motor estava ligado na rua.

Levantou e afastou a cortina da janela. O veículo estava parado em frente ao prédio. Os faróis iluminavam a entrada do edifício. O número 317, pintado na lateral, aparecia sob a luz de um poste.

No banco do motorista havia um homem. Usava a mesma camisa azul-clara, a calça jeans e os chinelos. Na jaqueta, João reconheceu a mancha de graxa que fizera ao limpar a mão na manga antes de sair.

O homem olhou para cima, sorriu e apontou para o fundo do ônibus.

João acompanhou o gesto.

No banco do meio estava um homem mais jovem, com o cabelo escuro e o rosto sem as marcas do tempo. Usava a roupa que João vestira na primeira noite em que dirigiu aquela linha. No último banco estava o homem grisalho, com a mesma camisa azul-clara e a aliança na mão esquerda.

Os três ocupantes faziam o mesmo movimento: o polegar girava lentamente o dedo anelar.

João olhou para o próprio polegar refletido no vidro. Também girava sobre o dedo anelar.

Depois olhou para o visor vermelho acima da porta.

Marcava quatro.

Às três e vinte e um, os faróis apagaram.

O ônibus desapareceu.

João permaneceu na janela até amanhecer.

Na manhã seguinte, ligou para Valdir, o chefe da garagem. Disse que estava doente e precisava se afastar. Não explicou o motivo. Valdir reclamou da falta de motoristas e perguntou se ele conseguiria pelo menos cumprir o turno daquela noite.

— Não volto mais, Valdir.

Houve um silêncio.

— Você está falando sério?

— Estou.

Valdir respirou fundo.

— Então vou colocar o Fábio no seu lugar. É o novato que entrou semana passada. Vai pegar o 317 hoje à noite.

João ficou olhando para a mesa.

— Qual é o nome dele?

— Fábio. Por quê?

— Preciso falar com ele. Você tem o telefone?

Valdir passou o número. João agradeceu e desligou.

Foi até a cozinha, pegou um guardanapo de padaria que estava na gaveta e uma caneta. Escreveu:

"Não olha pelo retrovisor. Se contar um passageiro a mais, não tente descobrir quem é. Não olhe."

Leu o bilhete duas vezes. Pegou o celular, abriu a conversa com o número de Fábio e fotografou o guardanapo. A imagem ficou na caixa de mensagem.

João não tocou na seta.

Dobrou o papel e guardou no bolso da calça.

À tarde, enquanto tomava café, viu o rosto na colher. Não era uma imagem rápida. O rosto estava ali, perfeitamente desenhado na superfície curva do metal.

Afastou a colher. O homem continuou olhando. Tinha as mesmas olheiras que vira no ônibus, a mesma boca apertada e o mesmo cabelo grisalho.

João deixou a colher cair dentro da xícara. O metal bateu na porcelana. Quando tornou a olhar, havia apenas o reflexo da cozinha.

Naquela noite, não conseguiu dormir. Ficou deitado, acompanhando o movimento do ventilador. Perto das três, o aparelho parou. As pás ficaram imóveis.

No teto, acima da cama, apareceu o rosto. João não se mexeu. A imagem não parecia uma sombra projetada. Era como se alguém estivesse deitado do outro lado do concreto, olhando para baixo.

A voz veio de trás do ouvido esquerdo.

— Ele vai achar que é vizinho.

João fechou os olhos. Levou a mão ao bolso da calça, onde ainda guardava o guardanapo. O papel estava úmido. Quando o retirou, viu pequenos grãos de areia presos às dobras.

Quando tornou a abrir os olhos, o teto estava vazio.

Às onze e quarenta e sete daquela noite, Fábio abriu a porta do ônibus na Praça Central. Tinha vinte e oito anos e estava contente com o emprego novo. Passara dois anos trabalhando com aplicativos e finalmente conseguiria um salário fixo. Na garagem, Valdir lhe entregara as chaves e explicara o funcionamento do veículo. Também comentou que João havia deixado o serviço por problemas de saúde.

Fábio não perguntou mais nada.

Três passageiros entraram na Praça Central. Uma senhora, um rapaz e uma garota de uniforme. Ele conferiu pelo espelho lateral e fechou a porta.

O visor vermelho marcou três.

O rádio estava sintonizado na Litoral FM. Quando o ônibus chegou ao trecho de estrada perto do retorno do Riviera, a propaganda terminou. Uma única nota ficou suspensa no rádio por alguns segundos.

Fábio diminuiu a velocidade.

No último banco, alguém arrastou os pés.

Olhou pelo retrovisor.

Havia um homem sentado. Camisa azul-clara desbotada, calça jeans e chinelo de dedo. Tinha o rosto cansado e uma aliança na mão esquerda.

O homem levantou a cabeça e ergueu a mão num cumprimento. Fábio respondeu com um movimento da cabeça, como quem retribui o cumprimento de um vizinho que encontra no corredor tarde da noite. Continuou dirigindo.

No ponto final, abriu a porta. A senhora desceu. Depois o rapaz. A garota foi a última. Fábio contou os três.

O visor vermelho marcava um.

O homem continuava sentado.

A porta fechou.

Fábio esperou alguns segundos, depois voltou para Matinhos. Quando chegou à garagem, Valdir estava perto do portão, conferindo a prancheta.

— Quantos passageiros você levou? — perguntou.

— Quatro.

Valdir anotou o número sem levantar os olhos.

— Tudo certo?

— Tudo certo.

Fábio entregue as chaves e foi para casa.

No banheiro, escovou os dentes, abriu a torneira e enxaguou a boca. O celular vibrou ao lado da pia. Uma vez. Fábio não olhou.

Когда começou a escovar novamente, percebeu que estava cantarolando.

Quatro notas.

Parou com a escova na boca. Não sabia de onde vinha aquela melodia.

Continuou escovando os dentes. No espelho, seu rosto estava normal.

Fábio passou o polegar pelo dedo anelar da mão esquerda. Sob a unha, encontrou algo áspero. Esfregou o polegar contra a palma e viu dois grãos de areia.

Fábio sorriu.

No espelho, o sorriso chegou um segundo depois.

A Padaria das Cinzas

A Padaria das Cinzas
Tadeu Everton Zamoiski 


A primeira fornada daquele dia estava pronta antes de o forno ser aceso.

O padeiro percebeu isso às quatro e quarenta da manhã. Ao entrar na padaria, encontrou seis pães redondos sobre a pá de madeira. Tinham a casca dourada, o miolo macio e ainda soltavam um pouco de vapor.

A porta estava trancada. As janelas também.

Conferiu o forno. O registro de gás permanecía fechado. Um dos pães tinha uma mancha escura na crosta, parecida com letras escritas às pressas.

Esfregou o polegar sobre ela. A mancha permaneceu.

O sino da porta tocou.

Um homem entrou. Usava um casaco escuro, apesar de a manhã não estar tão fria.

— Já tem pão?

O padeiro olhou para a pá.

— Tem. Mas ainda não abri.

O homem escolheu um pão, colocou uma moeda sobre o balcão e perguntou:

— Você lembra de mim?

O padeiro examinou seu rosto.

— Não.

— Eu também não.

O homem pegou o pão e saiu.

A moeda ficou sobre o balcão. Era antiga, de um valor que já não circulava havia muitos anos. O padeiro a segurou entre os dedos. Estava gelada.

Guardou-a no bolso do avental e começou a trabalhar.

A padaria ficava numa das ruas internas do Riviera, em Matinhos. Fora da temporada, o movimento diminuía bastante. Algumas casas permaneciam fechadas durante meses. Às cinco, ele levantava a porta de aço. Às seis, os primeiros clientes apareciam para comprar pão de sal, leite e alguma coisa para levar ao trabalho.

Conhecia os hábitos de todos. Sabia quem preferia pão mais escuro, quem comprava sempre a mesma quantidade e quem pedia para separar os pães ainda quentes.

Quando abriu o forno para preparar a segunda fornada, encontrou uma camada fina de cinzas no fundo. Não havia queimado nada. O forno estava frio, e o registro de gás continuava fechado.

Retirou o material com a pá e despejou tudo numa lata. No meio das cinzas havia pequenos fragmentos escuros, quase como restos de papel queimado.

Um dos pães da primeira fornada ainda estava sobre o balcão. A mancha na crosta tinha aumentado.

Agora era possível ler um nome.

ÁLVARO.

Ele conhecia aquele nome. A palavra trouxe a lembrança de uma conversa antiga, talvez na própria padaria, mas o rosto associado a ela não apareceu.

Jogou o pão no lixo.

Na parede atrás do balcão havia uma faixa de azulejos brancos que nunca lhe agradara. Desde a reforma, pensava em cobri-la com madeira. Naquela manhã, percebeu algumas letras perto da tomada.

Passou um pano úmido. O carvão se espalhou, mas as letras continuaram ali.

ÁLVARO.

Abaixo, outros nomes apareciam em traços finos, alguns quase apagados.

Pegou uma espátula e raspou a superfície. O carvão caiu sobre o balcão. Os nomes permaneceram.

Quando a vizinha entrou para comprar pão, ele ainda estava diante da parede.

— Bom dia, seu Álvaro.

O padeiro se virou.

— Não sou Álvaro.

A mulher pareceu confusa.

— Claro que é. Desculpe. Hoje estou com a cabeça longe.

He abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.

A mulher esperou alguns segundos.

— Está tudo bem?

O padeiro pegou um pão no cesto e colocou na sacola dela.

— Deve ser o cansaço.

Ela pagou e saiu. Antes de atravessar a porta, voltou-se uma última vez.

— Até amanhã, Álvaro.

Ele ficou com a mão sobre o balcão.

O homem de casaco escuro voltou na manhã seguinte.

Entrou às quatro e quarenta e cinco, quando o padeiro organizava as bandejas. Escolheu um pão redondo e colocou outra moeda sobre o balcão.

Era igual à primeira.

O padeiro pegou as duas e as colocou lado a lado. A recém-chegada parecia mais escura. Quando a tocou, sentiu o frio atravessar a ponta dos dedos.

— Você lembra de mim? — perguntou o homem.

— Já esteve aqui.

— Estive?

O homem sorriu discretamente.

— Eu também não.

Saiu com o pão debaixo do braço.

O padeiro guardou a segunda moeda junto da primeira.

Às oito, chegou o fornecedor de farinha. Fazia aquela entrega havia anos. Conhecia o acesso pelos fundos, a irregularidade do piso e o lugar onde costumavam deixar os sacos quando a porta do depósito estava fechada.

Naquela manhã, porém, não entrou.

— O senhor é o responsável aqui?

— Sou eu.

— Qual é o seu nome?

O padeiro hesitou.

— Por quê?

— Preciso confirmar no pedido.

Ele deu uma resposta qualquer. O fornecedor consultou a prancheta e franziu a testa.

— Não tem entrega registrada para este endereço.

— Você entrega aqui toda semana.

— Nunca entreguei.

— Está brincando?

O homem olhou para o salão vazio, depois para o balcão.

— Esta padaria estava fechada quando comecei a trabalhar nesta rota.

O padeiro apontou para os sacos empilhados no depósito.

— E aquilo veio de onde?

O fornecedor entrou, examinou um dos sacos e passou o dedo pela etiqueta.

— Essa marca saiu de linha faz mais de quinze anos.

Conferiu a data impressa no papel. Depois olhou novamente para o padeiro.

— O senhor devia chamar alguém.

Foi embora sem descarregar o restante.

O padeiro acompanhou o caminhão pela janela até desaparecer na esquina.

Quando voltou ao balcão, encontrou uma fina camada de farinha espalhada sobre a madeira. No meio dela havia uma marca de dedo, pequena demais para ser sua.

Lembrou-se de uma mão miúda apoiada ali, perto do caixa.

A cliente entrou perto do meio-dia. Morava numa das casas da rua e costumava comprar pão quando voltava do mercado.

Pediu dois pães de sal e perguntou:

— O senhor está trabalhando sozinho?

— Como sempre.

Ela olhou para o salão.

— E o menino?

O padeiro parou de fechar a sacola.

— Que menino?

— Seu filho. Aquele que ficava aqui depois da escola.

Ele sentiu a moeda antiga encostar na coxa, dentro do bolso do avental.

— Não tenho filho.

A mulher franziu a testa.

— Como não? Ele ficava sentado naquele banco, perto da janela. Às vezes saía com um pão antes de você terminar de trabalhar.

O padeiro olhou para o banco. Era baixo, de madeira escura.

— Deve estar confundindo com outra pessoa.

A mulher não insistiu. Pagou, guardou os pães e saiu devagar.

Ele fechou a porta por alguns minutos.

No depósito, encontrou uma caixa de papelão embaixo de uma prateleira, coberta por farinha e poeira. Dentro havia fotografias antigas, recibos e pequenos objetos.

Um uniforme escolar azul estava dobrado no fundo. O tecido tinha encolhido, os botões estavam gastos. No bolso, uma etiqueta trazia o nome CAIO e uma data de mais de vinte anos antes.

O padeiro passou os dedos pelo bordado.

A fotografia estava embaixo do uniforme.

Mostrava um homem sentado num banco de praça, segurando um menino pela cintura. O homem usava uma camisa azul de mangas dobradas. O menino tinha os cabelos claros e segurava um pão redondo com as duas mãos.

O padeiro aproximou a imagem do rosto.

O homem da fotografia usava um relógio de pulseira metálica. O vidro tinha uma pequena rachadura perto do número quatro.

O padeiro olhou para o próprio pulso.

Usava aquele relógio. A rachadura continuava no mesmo lugar.

Havia outra coisa. O homem segurava o menino com a mão esquerda apoiada na cintura e a direita sobre o ombro, protegendo-o de uma queda. O padeiro conhecia aquele gesto. Ao levantar os sacos de farinha, fazia exatamente a mesma coisa com o braço.

Virou a fotografia.

No verso, escrito com letra infantil, havia uma frase:

Para o pai, quando eu crescer.

Abaixo, um nome:

CAIO.

O padeiro sentou-se no chão.

A fotografia tremia entre seus dedos.

— Caio.

Uma lembrança surgiu inteira por alguns segundos.

O menino sentado no banco da padaria, com as pernas balançando sem alcançar o piso. O pão estava frio, mas ele soprava a casca antes de morder. O padeiro dizia que aquilo não adiantava nada. Caio ria e soprava outra vez.

Depois vinha a imagem de uma pequena mochila encostada à porta dos fundos.

O padeiro apertou a fotografia contra o peito.

Quando se levantou, os nomes na parede estavam mais fracos.

Todos, menos um.

ÁLVARO.

O homem de casaco escuro voltou no terceiro dia.

Dessa vez, entrou quando o padeiro estava diante do forno. Foi direto ao balcão e colocou uma moeda sobre a madeira.

O padeiro não precisou tocá-la para saber que estava fria.

— O senhor já veio aqui — disse.

O homem olhou para a moeda.

— Pode ser.

O padeiro segurou a borda do balcão.

— O que quer?

— Um pão.

— Tem outros lugares.

— Eu sei.

O homem escolheu um pão redondo e o colocou no bolso do casaco.

Antes de sair, olhou para o padeiro.

Não fez a pergunta.

O sino tocou quando a porta se fechou.

O padeiro correu até a rua, mas o homem já havia desaparecido entre as casas. No chão, perto da entrada, havia um pouco de areia úmida. Ele se abaixou e recolheu a moeda.

Guardou-a junto das outras.

Naquela tarde, voltou à fotografia. O rosto do menino estava mais nítido. Os olhos apertados pelo sol, a boca entreaberta, as mãos pequenas segurando o pão.

O padeiro levou a imagem até a parede e colocou-a ao lado do nome CAIO.

— Eu lembro de você.

O nome na parede perdeu um pouco da cor.

Ele voltou ao forno. No fundo havia uma camada nova de cinzas. Pegou uma pequena quantidade entre os dedos e esfregou. O pó escuro se espalhou pela pele, acumulando-se nas linhas da mão.

Na manhã seguinte, encontrou apenas uma mancha onde o nome de Caio estivera escrito.

A fotografia continuava no balcão.

Às quatro e quarenta, o padeiro entrou na padaria.

A porta estava trancada. As janelas também.

Sobre a pá de madeira havia um único pão redondo. A casca estava dourada, e uma mancha escura atravessava o centro.

Ele se aproximou.

ÁLVARO.

O nome que a vizinha usava. O nome que ele negara. O nome que permanecera na parede quando todos os outros desapareceram.

Foi até os azulejos.

Não havia mais nada escrito, exceto aquela palavra.

Passou a mão sobre o nome. O carvão sujou seus dedos.

Atrás dele, o forno estalou.

A fotografia estava sobre o balcão. O menino segurava o pão com as duas mãos, e o homem da camisa azul mantinha o braço em volta de sua cintura.

O padeiro pegou a imagem.

— Caio.

Dessa vez, a lembrança veio acompanhada de uma voz.

— Pai, sopra para mim.

Ele fechou os olhos.

Lembrou-se de soprar a casca do pão, de esperar o menino morder, de limpar com o polegar uma migalha presa no canto da boca. Lembrou-se também de uma pequena mão segurando a sua na travessia da rua.

Quando abriu os olhos, o rosto do menino começava a desaparecer.

O padeiro correu até a parede.

— Caio!

O nome já não estava escrito.

No forno, as cinzas se mexeram. Uma pequena nuvem subiu e se espalhou pelo salão. O pão sobre a pá soltou um cheiro quente, familiar, de massa recém-assada.

O padeiro olhou para la crosta.

O nome ÁLVARO estava desaparecendo.

Tentou segurá-lo com o polegar, mas a mancha escura se desfez. Restou apenas a casca dourada.

Ele procurou a fotografia. O menino já não estava nela. O homem da camisa azul permanecia sentado no banco, com o braço estendido sobre um espaço vazio.

O padeiro guardou a imagem no bolso.

Às cinco, levantou a porta de aço.

A rua estava vazia. A maresia deixava uma película úmida nos vidros, e a areia trazida pelo vento se acumulava junto ao meio-fio.

Não havia mais nenhum nome.

Fechou a padaria, tirou o avental e guardou as moedas no bolso. Antes de sair, voltou uma última vez ao forno. O pão continuava sobre a pá, agora completamente frio.

Do outro lado da rua havia uma padaria pequena, com uma porta de vidro e uma placa que ele nunca tinha observado. Entrou.

Um rapaz trabalhava atrás do balcão. Tinha farinha nos braços e um pano sobre o ombro. Separou um pão redondo, colocou-o num saco de papel e soprou a casca antes de entregá-lo.

O gesto fez o visitante parar.

O rapaz ergueu os olhos.

— Vai querer mais alguma coisa?

O homem colocou uma moeda antiga sobre o balcão.

O jovem examinou o dinheiro e depois o rosto do cliente.

— Você lembra de mim?

O homem procurou o nome do menino. Procurou a fotografia, a voz, a pequena mão que segurava a sua.

A lembrança não veio.

— Não.

O rapaz recolheu a moeda.

O visitante pegou o pão e saiu.

Do lado de fora, a manhã começava a clarear. Na rua, uma fina camada de areia cobria as marcas dos passos.

Na antiga padaria, o forno continuava apagado.

Sobre a pá de madeira, um pão redondo acabava de sair.

Na crosta, escrito em cinzas, estava o nome de Caio.

Eco

Eco
Tadeu Everton Zamoiski

O mirante do Morro do Boi é uma ferida aberta na paisagem. De dia, vira formigueiro de turistas gritando nomes que a montanha devolve com generosidade de eco barato. “JÚLIA!” Um segundo de silêncio. “JÚLIA!” E riem.

Eu era um deles. Não por vaidade, mas por tédio — um tédio que roía as entranhas como ácido. Subia, gritava o nome de alguém que já esqueci, ouvia a resposta e descia. Onofre, gordo e solitário, estava sempre lá, gritando o nome de uma mulher que nunca aparecia. Eu o via de longe, suando sob o sol, e pensava: que patético. Ele gritava “JÚLIA!” e o morro respondia “JÚLIA!”. E ele sorria como se ela tivesse respondido de verdade.

Numa terça-feira, subi sozinho, à noite.

O cheiro de protetor solar tinha sumido. Restava só o odor mineral da pedra. O vento não uivava: sussurrava. A cidade lá embaixo era um tapete de luzes que não aquecia nada.

Cheguei ao mirante. O mar era um poço de tinta preta. O silêncio pressionava os tímpanos. Senti uma necessidade idiota de quebrá-lo.

— Quem está aí? — gritei.

— Você.

Não foi eco. Tinha textura. Era minha voz, sim, mas havia uma inflexão a mais, uma espécie de prazer. O ar frio do mirante ficou mais gelado.

— Quem está aí? — repeti, mais alto.

— Você.

Mais nítido. Mais perto. Como se a montanha tivesse dado um passo na minha direção. O vento cessou. Desci o morro tropeçando em raízes que pareciam dedos, o coração martelando contra as costelas.

Na manhã seguinte tentei rir. Acústica de mirante, pensei. Vento entre as pedras. Algum turista escondido. Subi de dia, com o sol a pino, e gritei “bom dia”. O eco respondeu “bom dia”. Normal. Idiota. Voltei para casa me sentindo um tolo.

Mas à noite, no chuveiro, o som da água virou sussurro. “Você.” Desliguei o chuveiro. Silêncio. Abri a torneira de novo. “Quem está aí?” perguntou a água. Fechei o registro com força e fiquei parado, molhado, ouvindo o coração.

Parei de falar. Não foi exatamente uma decisão. A garganta simplesmente se fechou e não abriu mais. As palavras, antes fáceis, agora eram objetos cortantes, e eu tinha medo do que poderia sair se abrisse a boca. Em casa, com Elisa, a comunicação virou mímica e papéis.

— O que houve, Tadeu? — ela perguntou. Os olhos castanhos cheios de uma preocupação que eu já não sabia como processar.

Peguei um bloco de notas e escrevi: “Não é eco.”

Ela leu. Franziu a testa.

— Que bobagem é essa?

Escrevi: “O morro responde.”

Ela suspirou — aquele suspiro cansado e familiar.

— Você está trabalhando demais.

Elisa era uma mulher que preenchia silêncios. Falava pelo rádio, pelo telefone, pela janela. Nosso casamento tinha sido construído sobre a minha escuta e a voz dela. Agora eu era um vácuo.

Ela começou a dormir no quarto de hóspedes. Uma noite me acordou, ou tentou. Eu estava de pé no meio do quarto, olhando para a parede que dá para o morro.

— Tadeu? — a voz dela tremia. — Você está falando dormindo.

Eu não estava dormindo. Estava ouvindo. E respondendo. Ela contou depois que eu ria: uma risada baixa, gutural, que não era minha.

No escritório o ar-condicionado perguntava “Quem está aí?”. E eu, com a boca fechada, sentia a resposta subir pela garganta como bile. No zumbido da geladeira, a mesma voz: “Você.” Comecei a desligar os aparelhos. A casa ficou muda. Mas o silêncio também tinha voz.

Onofre me parou na rua. Eu não o via no mirante havia meses. Estava mais magro, os olhos fundos.

— Você subiu à noite — disse ele. Não era pergunta.

Eu não respondi. Ele não esperou.

— Eu também. No começo a gente acha que é eco. Depois acha que é a gente. — Ele sorriu, um sorriso que não era de alegria. — Não é. Ela nunca responde de verdade. A gente é que começa a responder por ela.

Foi embora sem dizer mais nada. Eu fiquei parado na calçada, sentindo o sol na pele, e por um segundo tive vontade de correr atrás dele. Perguntar o que ele tinha ouvido, o que tinha respondido, o que tinha acontecido com Júlia. Mas minha garganta estava fechada. E eu já sabia a resposta.

As semanas seguintes foram um afundamento lento.

Elisa ainda tentava. Escrevia bilhetes e deixava na mesa da cozinha: “Fala comigo.” “Vamos ao médico.” Uma noite a encontrei no corredor, de pé, segurando a maçaneta do nosso antigo quarto. Olhou para mim e perguntou, quase sem voz:

— Ainda sou eu que você ouve, Tadeu?

Não consegui responder. Apenas balancei a cabeça. Ela entrou no quarto de hóspedes e trancou a porta por dentro. Na manhã seguinte havia uma mala no corredor. Não a abri.

Em casa desliguei tudo o que fazia barulho. Mesmo assim, à noite, quando o silêncio apertava, a voz vinha de dentro da garganta, baixa, paciente: “Quem está aí?”. E outra, mais antiga, respondia: “Você.”

Perdi peso. Os espelhos começaram a me devolver um homem de olhos fundos, magro, que eu só reconhecia pelo cansaço. As pessoas na rua desviavam o olhar. Eu também.

Numa madrugada Elisa me encontrou no quintal. Eu estava de costas para a casa, descalço na terra fria, olhando para o morro. Ela me chamou. Eu não virei. Depois contou que eu estava sorrindo. Não lembro de ter sorrido. Ela me puxou pelo braço e eu obedeci.

No dia seguinte a mala sumiu do corredor. A porta do quarto de hóspedes estava aberta e o quarto, vazio.

Onofre morava na casa dos fundos. Era ele quem via tudo pela janela da cozinha. Foi ele quem chamou a polícia. Ele me viu no quintal, à noite, sob a lua. Eu estava no centro do gramado, imóvel, voltado para a silhueta negra do Morro do Boi. Ele me ouviu falando. Duas vozes. Não pareceu surpreso — apenas cansado.

— Quem está aí? — perguntava uma.

— Você — respondia a outra.

Era minha voz. As duas. Uma com o timbre de antes. A outra com um chiado de pedra, como se viesse de um poço.

Quando a viatura chegou eu estava sentado no chão de terra batida. O cheiro de grama pisada e orvalho era forte. O céu, um manto de estrelas frias.

Eu olhava para o morro. Calado. Sorrindo.

— Sr. Tadeu? — chamou o policial, a mão no coldre. — Tudo bem aí?

Eu não me movi. Meus olhos estavam fixos na montanha.

O policial se aproximou, cauteloso, e agachou-se ao meu lado.

— Ele está sorrindo — sussurrou para o colega. — E não pisca.

Foi quando eu abri a boca. Senti os maxilares se destravarem com um estalo seco. O ar frio entrou, e com ele um som. Uma voz que não era minha.

— Quem está aí? — perguntou a minha boca.

O policial recuou. O outro sacou a arma.

E então, do alto do Morro do Boi, veio a resposta. Um sussurro carregado de pedra e sal, que soprou diretamente nos nossos ouvidos, deixando um rastro de arrepio na pele.

— Você.

O policial olhou para o morro. Depois para mim. Depois para o morro de novo.

O sorriso no meu rosto se alargou. Um movimento que não era meu. A mesma curvatura vazia, a mesma ausência.

Minha boca se moveu outra vez. Sem som.

Só o sorriso permaneceu.