Tadeu Everton Zamoiski
Antonina
O ônibus parou na beira da estrada e o motorista nem olhou pra trás quando Raul desceu. Eram quatro da tarde e já chovia aquela chuva de Antonina, que não molha — infiltra. Ele ficou ali com a pasta debaixo do braço, certidão de óbito e os papéis da venda, e a estrada de terra sumia dentro da mata como uma coisa viva.
Fazia vinte e quatro anos.
O caseiro tinha dito meia hora a pé. Foram quarenta minutos. O tênis que comprara novo em Curitiba já era cinza. Quando o curral apareceu entre as árvores, parou e cuspiu no chão. A boca tinha um gosto que ele demorou a identificar. Ferrugem. Achou que era a chuva.
A casa estava igual. Pior, talvez. No quarto do fundo ainda tinha um calendário de 1998, mês de abril, com a foto de uma praia. O colchão era amarelo de tanto tempo. O cheiro era o de sempre: madeira molhada e banha velha. Abriu a janela. O cheiro de fora entrou e era pior. Fechou de novo.
Seu Tião apareceu na porta sem bater. Oitenta anos, uma bengala de goiabeira.
— O homem da compra já veio — disse. — Olhou tudo. Disse que a terra presta. Perguntou é por que o curral tem aquela ladeira de pedra subindo o morro. Duro pra subir gado.
Raul não olhou pra ele.
— Meu pai levava as ovelhas por lá.
— É. — Seu Tião cuspiu um fio de fumo. — O senhor lembra, pois.
Só isso. Saiu.
À noite fez café, comeu um pão amanhecido, deitou. A luz apagou. O silêncio era tão grande que dava pra ouvir o Rio do Nunes lá longe. Dormiu.
E sonhou.
Sonhou com um lugar que não tinha nome. Um campo cinza, o céu tão baixo que ele tinha impressão de tocar com a mão. Não tinha vento. O ar era grosso, e respirar doía um pouco no peito. O chão era uma lama cinzenta, pesada, que a cada passo engolia o tornozelo. Tentou sair e não conseguiu. As pernas respondiam devagar, como se a lama quisesse ele ali.
No meio do campo tinha o cão.
Sabia, no sonho, que aquilo era um cão. Mas não era. Era magro, os ossos saltando sob a pele, e em volta do corpo uma massa vermelha e brilhante, amarrada com tiras de pano. Por onde passava, deixava um rastro brilhante na lama. O cheiro subia: poeira velha e banha rançosa. Os olhos do cão eram olhos de gente — fundos, vermelhos. O mais terrível era que não tinham raiva nenhuma. Tinham vazio. O cão abriu a boca e não latiu. Saiu um gemido, baixo e estrangulado, igual ferro enferrujado raspando em osso.
As ovelhas estavam na frente.
Eram magras, a lã pesada de lama seca, costelas saltando. Apertadas umas nas outras, tentavam andar em círculo mas não conseguiam. O cão ia atrás. Estalava os dentes. Mordia os jarretes. E as levava pra cima, numa ladeira de pedra pontuda. Sem pasto no alto. Sem abrigo. Sem nada. Só subida.
Elas tropeçavam. A pele rasgava na pedra. Ofegavam, a boca aberta, os olhos arregalados. Quando uma caía e não se levantava mais, o cão pulava em cima. Não mordia pra matar. Mordia pra arrancar pedaços, e a ovelha ainda tentava se arrastar.
Raul estava em cima de um barranco.
Estava ali, e não conseguia se mexer. Queria gritar. Queria descer. As pernas estavam pesadas, enterradas. O pior não era o medo. Era estar ali em cima, imóvel, enquanto as ovelhas subiam. Sentia o gosto na boca. Ferrugem. Sentia a queimação nas pernas das ovelhas. Sentiu vergonha, quente, no rosto.
Aí o cão parou.
Virou a cabeça. Olhou pra ele, direto. E não tinha expressão nenhuma. Só indiferença. Como se dissesse: isso aqui não acaba nunca. Não tem porquê. E você já está sujo igual a lama.
Raul acordou sentado na cama, ofegante.
O gemido continuou.
Ficou imóvel. Vinha do quintal. Baixo, estrangulado. Igualzinho do sonho. Acendeu a vela devagar, a chama tremendo na mão. Foi até a janela. Abriu um palmo.
O cão estava no meio do pátio, debaixo da chuva. Magro. A pelagem era cor de ferrugem, grudada no osso. À luz da vela, ergueu o focinho. A garganta se moveu. Não latiu. O cheiro de banha rançosa atravessou a fresta. O lombo brilhava levemente, como se estivesse untado. Depois virou e foi andando na chuva. Sumiu no escuro. O gemido parou.
Raul não tinha visto os olhos. Mas sabia. Fechou a janela. Trancou. Sentou na cama o resto da noite.
De manhã foi até o curral.
A ladeira continuava lá, pedra pontuda subindo o morro. O barranco também. Não lembrava do caminho. O corpo lembrou.
Seu Tião estava encostado na porteira, mascando fumo.
— O senhor tá pálido.
— Meu pai levava as ovelhas por aqui?
— Levava. Dizia que era pra limpar o casco na pedra. — Cuspiu. — Nenhuma voltava. Mas todo mundo da feira conhecia a linguiça dele.
Raul ficou em silêncio.
Seu Tião encolheu os ombros e saiu.
Raul desceu e entrou no barracão dos fundos. A porta rangeu. O cheiro o bateu na cara, forte. Ganchos de ferro no teto. Um barril de banha no canto. Uma caixa de lata. Na parede, uma faca cravada na madeira. Ele a usou para forçar a tampa.
Dentro, o avental do pai. Couro, duro, manchado de um marrom escuro. E embaixo dele, um avental pequeno. De criança. Com as mesmas manchas.
Largou a tampa. A memória veio devagar, como a lama. Veio como sensação no corpo: os pés no barranco, o frio na barriga. Lembrou do pai gritando: "Para com isso, menino, isso aqui é trabalho." Depois, ficava ali. De pé. Olhando. Sem chorar.
À noite não dormiu. Vestiu a jaqueta. Subiu até o barranco. Sentou na beira, as pernas pendendo.
E lá embaixo tinha vultos subindo a ladeira.
Não conseguiu distinguir direito. A figura atrás deles era magra, de avental. Parou. Virou a cabeça. Olhou pra cima.
Os olhos eram humanos.
Raul levou a mão à boca. Estava mastigando alguma coisa. Engoliu sem querer. O gosto era de ferrugem. Tentou se levantar. Não conseguiu. A terra parecia puxá-lo devagar.
O gemido começou de novo.
Aí ele percebeu que vinha de dentro.
Ficou ali sentado até o sol nascer. O comprador não apareceu naquela manhã. Raul não assinaria os papéis. Não por bondade. Simplesmente, não conseguia ir embora.
O Rio do Nunes continua lá, água límpida sobre os pedregulhos. Nas noites de chuva fina, quem mora perto ouve um gemido vindo da direção do curral. Dizem que é o vento passando pelas pedras. Ninguém sobe para conferir.