Crônicas de uma internet ao vivo
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
“A câmera liga. O bom senso desliga.”
VOLUME 3
QUANDO TODO MUNDO SE ENCONTRA
A terceira parte começa onde a segunda terminou.
A pergunta não é mais:
“O que acontece numa live?”
A pergunta passa a ser:
“O que acontece quando as pessoas que vivem nessas lives começam a se reconhecer?”
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BLOCO I: O ALGORITMO APRESENTA
1. O Comentário Que Apareceu de Novo
Jéssica estava ao vivo.
Maquiagem impecável.
Filtro no máximo.
Luz circular.
Expressão de autoridade.
— Hoje vamos falar sobre inteligência emocional.
@renato_realista: «Você não disse isso no vídeo em que brigou com a entrega do aplicativo?»
Jéssica ignorou.
— Inteligência emocional é saber controlar as próprias reações.
@pedro_021: «Você chamou o entregador de incompetente.»
— Pedro, aquilo foi um exercício de assertividade.
@renato_realista: «Você também disse que ele tinha três minutos para aprender a trabalhar.»
— Renato, você está distorcendo.
@renato_realista: «Tenho print.»
Jéssica respirou fundo.
— Gente, vamos focar no conteúdo.
Outro comentário surgiu.
@carla_desafinada: «Oi, Jéssica.»
Jéssica parou.
— Carla?
@carla_desafinada: «Eu assisti à sua live ontem.»
— Você me assiste?
@carla_desafinada: «Às vezes.»
Jéssica sorriu.
— Então você sabe que eu falo de vários assuntos.
Carla respondeu:
@carla_desafinada: «Inclusive de canto.»
Silêncio.
@renato_realista: «Não façam isso.»
@carla_desafinada: «Só estou dizendo.»
Jéssica encerrou a transmissão.
No minuto seguinte, recebeu uma mensagem privada:
“Você conhece essas pessoas?”
Ela respondeu:
“Não.”
Ficou olhando para a tela. Depois acrescentou:
“Mas elas parecem me conhecer.”
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2. O Homem Que Estava em Todas
Roberto havia aprendido uma coisa importante: era possível acompanhar várias lives ao mesmo tempo.
Ele tinha quatro celulares.
Um para Larissa.
Um para Fernanda.
Um para Carla.
Um para “outras”.
A esposa descobriu os quatro aparelhos.
— Esposa: Roberto.
— Roberto: Oi.
— Esposa: Por que você precisa de quatro celulares?
— Roberto: Organização.
— Esposa: Organização de quê?
— Roberto: Conteúdo.
— Esposa: Você está assistindo a mulheres fazendo maquiagem?
— Roberto: Pesquisa.
— Esposa: Cantando?
— Roberto: Pesquisa.
— Esposa: Comendo pão de queijo?
Roberto ficou em silêncio.
— Roberto: Essa parte é gastronômica.
A esposa pegou um dos celulares. Na tela, Larissa estava ao vivo. Outro mostrava Fernanda. Outro mostrava Carla. No quarto, Patrícia.
A esposa olhou para ele.
— Esposa: Você tem mais conteúdo do que uma emissora de televisão.
— Roberto: Obrigado.
— Esposa: Não foi elogio.
Naquela noite, Roberto entrou na live de Larissa. Escreveu:
@roberto: «Princesa.»
Larissa respondeu:
— Roberto, sua esposa deixou?
O comentário seguinte apareceu:
@Esposa_Do_Roberto_Oficial: «Não.»
Roberto saiu.
@renato_realista: «Até amanhã, Roberto.»
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BLOCO II: AS PESSOAS COMEÇAM A SE ENCONTRAR
3. O Pão de Queijo Virou Patrimônio
Fernanda estava ao vivo. O pão de queijo estava sobre a mesa. A audiência reconheceu imediatamente.
@renato_realista: «Ele voltou.»
Fernanda respondeu:
— Ele nunca foi embora.
@pedro_021: «Quanto custa?»
— Dois reais.
@pedro_021: «Com esse preço, você não pode falar de investimentos.»
Camila entrou na live.
— Posso falar.
Fernanda riu.
— Você chegou na hora.
Camila começou:
— Primeiro, precisamos entender a relação entre consumo emocional e—
Fernanda mordeu o pão de queijo.
Camila parou.
— Você está comendo enquanto eu falo?
— Estou.
— Isso é falta de respeito.
— Você quer?
Camila pensou.
— Quero.
Fernanda entregou um. Em poucos minutos, estavam as duas comendo.
Depois entrou Jéssica. Depois Larissa. Depois Carla. Depois Bia. E então Pedro.
A live virou uma mesa de cozinha.
Ninguém falava sobre autoestima. Ninguém falava sobre produtividade. Ninguém falava sobre propósito. Falavam sobre queijo.
O número de espectadores chegou a vinte e três mil.
Fernanda olhou para a tela.
— Gente, talvez esse seja nosso nicho.
Camila assentiu.
— Alimentação afetiva.
Jéssica:
— Posicionamento gastronômico.
Pedro:
— Vocês estão com fome.
@renato_realista: «Finalmente alguém disse.»
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4. O Cachorro Que Conhecia Todo Mundo
Bia abriu a transmissão. O cachorro apareceu. A audiência o reconheceu.
@pedro_021: «Oi, chefe.»
@carla_desafinada: «Ele está lindo.»
@fernanda_pao_de_queijo: «Ele quer pão de queijo.»
Bia olhou para o cachorro.
— Como vocês sabem?
@renato_realista: «Porque ele sempre aparece quando a Fernanda está comendo.»
Fernanda entrou.
— Ele tem bom gosto.
Bia riu.
— Vocês estão falando como se conhecessem meu cachorro.
Pedro:
«Conhecemos.»
Bia ficou olhando para a tela. Era verdade. Eles conheciam o cachorro. Conheciam a voz dela. Conheciam o quarto. Conheciam a mesa. Sabiam a hora em que ela costumava entrar. Sabiam quando o cachorro estava inquieto. Sabiam quando ela estava cansada.
Bia ficou alguns segundos em silêncio.
— Isso é meio estranho.
@renato_realista: «É.»
Pausa.
@renato_realista: «Mas você também sabe quando eu estou aqui.»
Bia sorriu.
— É.
O cachorro latiu.
@pedro_021: «Ele concordou.»
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BLOCO III: O GRUPO
5. A Ideia Péssima
A ideia veio de Patrícia. Isso deveria ter sido suficiente para todos recusarem.
— Precisamos criar um grupo.
Jéssica perguntou:
— Para quê?
— Para organizar nossas lives.
Fernanda:
— Eu voto não.
Carla:
— Eu voto sim.
Bia:
— Para organizar o quê?
Patrícia:
— Tudo.
@renato_realista: «Isso vai dar errado.»
@pedro_021: «Posso entrar?»
Patrícia:
— Você é criança.
Pedro:
— Tenho público.
Silêncio.
Jéssica:
— Coloca ele.
Assim nasceu o grupo:
AS MENINAS DA LIVE OFICIAL
— Grupo de Mensagens
Primeira mensagem:
— Jéssica: Vamos manter o profissionalismo.
Segunda:
— Fernanda: Quem trouxe pão de queijo?
Terceira:
— Carla: Posso mandar áudio cantando?
Todos:
NÃO.
Quarta:
— Pedro: Quem é o administrador?
— Patrícia: Eu.
— Pedro: Era.
— Patrícia: Como assim, era?
— Pedro: Agora sou eu.
— Patrícia: Como você fez isso?
— Pedro: Você deixou a senha aqui.
Silêncio.
— Jéssica: Que senha?
— Pedro: Exatamente.
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6. A Primeira Reunião
Decidiram fazer uma reunião presencial. Foi um erro.
Jéssica chegou quinze minutos atrasada.
Larissa chegou maquiada.
Fernanda chegou com pão de queijo.
Carla trouxe um microfone.
Bia trouxe o cachorro.
Patrícia trouxe uma pasta.
Camila trouxe uma planilha.
Pedro chegou de bicicleta.
Renato apareceu por chamada de vídeo.
Patrícia abriu a pasta.
— Precisamos definir nossa estratégia.
Fernanda levantou o pão de queijo.
— Primeiro, estratégia alimentar.
Carla ligou o microfone.
— Eu preparei uma música.
Bia segurou o cachorro.
— Ele está nervoso.
Camila abriu a planilha.
— Fiz uma projeção financeira.
Pedro olhou.
— Está errada.
Camila fechou a planilha.
— Por quê?
— Você esqueceu o dinheiro que não existe.
Camila fechou a planilha novamente.
— Esse menino vai longe.
Pedro respondeu:
— Eu sei.
Foi a primeira vez que todos perceberam que já estavam conversando como velhos conhecidos. Mesmo sem terem se encontrado antes.
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BLOCO IV: A INTERNET COMEÇA A DEVOLVER
7. A Fama Que Ninguém Pediu
O grupo começou a ficar conhecido. Não oficialmente.
Primeiro apareceu um vídeo:
“AS MENINAS DA LIVE SE CONHECEM?”
Depois:
“QUEM É PEDRO_021?”
Depois:
“O CACHORRO DA LIVE TEM MAIS PERSONALIDADE QUE OS DONOS.”
Bia ficou indignada.
— Meu cachorro está famoso.
Patrícia respondeu:
— Eu tenho oito mil seguidores.
Pedro:
— Ele tem doze.
Patrícia:
— Doze mil?
— Doze.
— Isso não é possível.
— É.
@renato_realista: «Ele não posta nada.»
Pedro:
— Exatamente.
Patrícia ficou em silêncio.
Naquela noite, o cachorro apareceu ao vivo. Bia colocou o celular diante dele. A audiência chegou a quinze mil.
Bia olhou para a câmera.
— Vocês estão aqui por ele?
@renato_realista: «Sim.»
@pedro_021: «Infelizmente.»
@fernanda_pao_de_queijo: «Ele quer pão de queijo.»
O cachorro latiu. A audiência explodiu.
Bia encerrou a transmissão.
— Eu me recuso a trabalhar para o meu cachorro.
O cachorro olhou para ela.
No dia seguinte, recebeu uma proposta de publicidade. Para ração.
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8. O Dia Sem Filtro
A ideia de fazer uma live coletiva veio de Lúcia. Ela escreveu no grupo:
“Podemos fazer uma transmissão sem filtro?”
— Lúcia
Jéssica perguntou:
«“Sem filtro de imagem?”»
Lúcia:
«“Sem personagem.”»
Ninguém respondeu.
Lúcia escreveu:
«“Só por uma hora.”»
Aceitaram. Entraram todos. Sem filtro. Sem maquiagem. Sem música. Sem roteiro.
Carla foi a primeira.
— Eu sei que não canto bem.
A frase saiu depressa, quase ensaiada. Talvez ela a repetisse diante do espelho antes de ligar a câmera. Faltava apenas a parte que nunca dizia: cantaria mesmo assim. Talvez porque, se não cantasse, ninguém tivesse motivo para ficar.
Fernanda:
— Isso nós já sabemos.
Carla riu.
— Obrigada.
Jéssica:
— Eu não entendo de tudo.
@renato_realista: «Finalmente.»
Larissa:
— Eu gosto de me arrumar porque gosto de ser vista.
Patrícia:
— Eu tenho oito mil seguidores e ainda fico olhando para a porta quando entro num lugar, esperando alguém me reconhecer.
Camila:
— Eu ensino finanças e já tive medo de abrir meu próprio aplicativo bancário.
Bia:
— Às vezes, passo o dia inteiro sem conversar com ninguém.
O cachorro encostou a cabeça na perna dela.
Pedro:
— Eu fico entrando nas lives porque minha mãe manda eu desligar o celular.
Todos riram.
— Mas também porque gosto daqui.
A risada diminuiu.
Então Dona Maria entrou.
@Dona_Maria_72: «Boa noite, minha filha.»
Lúcia sorriu.
— Boa noite, Dona Maria.
@Dona_Maria_72: «Hoje trouxe meu jantar.»
Fernanda levantou um pão de queijo.
— Eu também.
Dona Maria mandou um coração.
Lúcia olhou para todos.
— Acho que essa é a melhor transmissão que já fizemos.
@renato_realista: «E ninguém ganhou presente.»
Camila respondeu:
— Ainda.
Todos riram. Até Dona Maria mandou uma carinha sorrindo.
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BLOCO V: LÚCIA
9. A Menina Que Esperava
Depois da live, Lúcia permaneceu conectada. O grupo já tinha ido embora. Ela continuava olhando para a tela.
— Jéssica: Vai dormir.
— Lúcia: Já vou.
— Larissa: Mentira.
— Lúcia: Como você sabe?
— Larissa: Porque eu também digo isso.
— Fernanda: Come um pão de queijo.
— Lúcia: Não tenho.
— Fernanda: Isso é uma emergência.
— Pedro: Você está sozinha?
Lúcia demorou.
— Lúcia: Estou.
— Pedro: Nós também estamos às vezes.
Ela ficou olhando. Depois escreveu:
— Lúcia: Obrigada por terem ficado naquela primeira noite.
@renato_realista: «Você lembra?»
— Lúcia: Lembro.
@renato_realista: «Por quê?»
Lúcia demorou alguns segundos.
— Lúcia: Porque ninguém falava comigo.
Pausa.
— Lúcia: Vocês ficaram.
Ninguém respondeu imediatamente.
Então Dona Maria escreveu:
@Dona_Maria_72: «Às vezes, ficar é a coisa mais importante.»
Lúcia sorriu.
Naquela noite, ninguém encerrou o grupo. Apenas deixaram as mensagens paradas. Como uma sala em que ninguém precisava conversar.
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BLOCO VI: A MESMA COISA
10. A Última Live
Foi ideia de Pedro.
— Vamos fazer uma live sem título.
Jéssica perguntou:
— Para quê?
— Para ver quem entra.
— E o que vamos fazer?
Pedro deu de ombros.
— Nada.
Era exatamente o tipo de ideia que nenhum adulto deveria aceitar. Aceitaram.
A transmissão começou como um copo vazio. Ninguém o enchia. Ninguém bebia. Apenas olhavam para o fundo.
Cinco espectadores.
Dez.
Cinquenta.
Duzentos.
Mil.
O número subia devagar, sem pressa, como água invadindo um quarto escuro. Ninguém falava.
Depois começaram a aparecer os nomes:
@renato_realista
@Dona_Maria_72
@Roberto_Silva_58
@carla_desafinada
@bia_home
@fernanda_pao_de_queijo
@pedro_021
@patricia_oficial
@jessica...
@larissa...
Um por um. Todos estavam ali.
Lúcia olhou para a câmera.
— Vocês se conhecem?
Pedro respondeu:
— Mais ou menos.
— São amigos?
@renato_realista: «Não sei.»
@fernanda_pao_de_queijo: «Já dividimos pão de queijo.»
@bia_home: «Já conhecem meu cachorro.»
@carla_desafinada: «Já me ouviram cantar.»
@patricia_oficial: «Alguns já me reconheceram.»
@pedro_021: «Na internet.»
@patricia_oficial: «Pedro.»
@pedro_021: «É diferente.»
Todos riram.
@Dona_Maria_72: «Eu conheço as vozes.»
Lúcia leu. Ficou quieta. Depois perguntou:
— E por que vocês vieram?
Ninguém respondeu.
Então apareceu um comentário:
@renato_realista: «Porque você abriu.»
Outro:
@pedro_021: «Porque alguém precisava ficar.»
Outro:
@Dona_Maria_72: «Porque hoje eu não queria jantar sozinha.»
Outro:
@bia_home: «Porque meu cachorro estava dormindo.»
Outro:
@fernanda_pao_de_queijo: «Porque eu tinha pão de queijo.»
Lúcia riu.
— Fernanda...
«O quê?»
— Você estragou o momento.
«Eu salvei o momento.»
Jéssica escreveu:
«Ela tem razão.»
A transmissão continuou. Sem assunto. Sem maquiagem. Sem anúncio. Sem promoção. Sem música. Sem meta.
Às 2h13, o contador marcava trinta e sete mil espectadores.
Lúcia encerrou a transmissão.
O número era impressionante. Mas, depois que a tela escureceu, o que restava? Não eram pessoas, segundo a plataforma. Eram dados: impressões, minutos assistidos, taxa de retenção, engajamento. O algoritmo já havia calculated tudo.
O que ele não calculava era que, naquela noite, trinta e sete mil pessoas tinham feito a mesma coisa: ficado em silêncio, juntas.
O algoritmo não sabia o que fazer com isso.
Pedro olhou para o número.
— A gente está fazendo nada.
@renato_realista: «E tem trinta mil pessoas olhando.»
Pedro:
— Estranho.
@renato_realista: «Bastante.»
Lúcia olhou para a câmera. Pela primeira vez, não parecia estar esperando alguém. Parecia ter encontrado.
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Fim do Volume 3