sábado, 7 de novembro de 2026

A Rede do Pescador

A Rede do Pescador
Tadeu Everton Zamoiski

Norberto conhecia o cheiro daquela hora melhor do que qualquer coisa na vida: lama de mangue morna, salmoura de maré baixa. Toda manhã, antes do sol furar o horizonte por cima do Superagui, ele encostava o casco da canoa no trapiche, tocava a mão na lama fria e dizia baixinho: "Bom dia, Dona Maré". Era o único deus que ele ainda tinha.

Descia a ladeira de terra. Ouvia o ritual inteiro antes de ver: a frigideira batendo na boca do fogão, o cheiro de café torrado na hora, o chiado baixo da panela de barro. Iracema, na cozinha, não falava. Cozinhava. É assim que ela fala com ele há quarenta anos — e há quarenta anos ele entende.

Café com rapadura. Pão de farinha com banana amassada. Queijo coalho espetado no garfo. Ele come. Levanta. Beija a testa dela, seca e morna. Sai.

Na mesa, Iracema sempre deixava duas xícaras. Sempre. Mesmo quando era só ele em casa. Norberto nunca perguntou por quê. Ela nunca explicou.

O trapiche cede sob o pé. A canoa boia no bouro raso, onde a água é cor de chá escuro. A rede voa — bola macia e faminta estufando no ar — e abre em flor sobre a água.

E toda manhã volta cheia.

Tainha. Robalo. Caranguejo, quando tinha sorte. O canto da boca de Norberto torce num sorriso de dor de dente antiga. Rema pra casa satisfeito. Isso é paz.

Antes de remar, ele sempre gira a aliança no dedo. É costume. A dele, com o nome de Iracema gravado por dentro. Ele gira, gira, até ela voltar pro lugar.

Na porta, ele deixa o chinelo de borracha azul-marinho. Sempre deixa. Pra não sujar a canoa.



Foi numa terça, de céu limpo, com uma neblina baixa grudada no morro, que a rede trouxe o tênis.

Nike branco. Amarrado em dezoito nós, do jeito dele. Barro fresco no solado, nas costuras, barro de fundo, barro que só existe onde o sol nunca chegou.

O coração dele bateu forte como sino enferrujado na torre da capelinha velha.

Era o tênis dele. Perdido no naufrágio da voadeira do Zé Antônio, dez anos atrás. Ele lembra da onda virando a voadeira e arrancando o tênis do pé dele, lembra do pé nu batendo na madeira, lembra do Zé gritando, lembra do Luizinho — o afilhado, doze anos, que tinha ido só pra ver a maré — com a mão agarrada na borda, pedindo pra não soltar. Norberto tentou segurá-lo. A água arrancou o menino das mãos dele. Dez anos depois, ainda sentia os dedos escorregando.

Nunca mais.

Norberto ficou um tempo comprido olhando. Sentiu a mão arriar — não de cansaço, não. Arriar de defunto. Pegou o tênis. Jogou de volta.

A onda engoliu. E no silêncio que ficou, pareceu-lhe ouvir, bem lá dentro da água, uma risadinha pequenina, quase de menina.

Remou pra casa sem falar com ninguém.

Aquela noite, o quarto cheirou a mangue. E veio o sonho: a rede no chão, feita bola, se desenrolando devagarzinho como cobra subindo do banquinho. E do lado de dentro, algo respirava. Era a respiração dele.

No dia seguinte, a rede puxou a camisa.

Xadrez verde-clara, com as mangas dobradas três vezes. Mancha de molho de peixe no cotovelo direito.

A camisa que ele mesmo queimou no fogão de lenha, duas semanas depois do naufrágio, porque ele não suportava mais o cheiro dela — a maresia velha, a água escura. Ele tinha visto ela virar cinza. Tinha sentido o cheiro de pano queimado.

Ela subiu da água inteira. Limpa. À espera dele.

Era a camisa que ele vestia na tarde do naufrágio. A mesma que o Luizinho tinha puxado quando pediu pra ir junto. "Deixa eu ir, padrinho, eu fico quieto." Norberto ainda sentia os dedos pequenos fechados na manga.

Norberto vomitou no bouro. Depois, tremendo, jogou a camisa de volta. Não olhou onde caiu.

O relógio veio no terceiro dia.

Casio de pulseira de couro já rachada, vidro riscado em três surcos. O que he ofereceu ao menino Luizinho na festa de São João, semanas antes do naufrágio. O menino vivia perguntando: "Padrinho, que horas são? Padrinho, que horas são?" Norberto deu. Porque já não queria mais olhar pra ele.

Marcava 15h47. A hora do naufrágio. Dez anos parado naquele minuto.

Norberto não gritou — queria, não conseguiu. Amarrou a rede num nó de seis laços no moitão do trapiche e se benzeu três vezes com o polegar, do jeito que a avó dele fazia.

Depois, jogou o relógio de volta. Ficou olhando a rede esperneando no ar, cheia de água e de nada, até virar uma coisa só com a tarde caindo.

Naquela noite a maré desceu diferente. Mais baixa. Mais lenta. Como se a água estivesse segurando alguma coisa.



Doze dias sem pescar.

No primeiro dia ele tentou colher cambuci no mato. Chegou lá e não conseguiu lembrar como se faz. Ficou parado no meio do pé, com a mão estendida pra um fruto que não sabia mais colher, até o joelho doer de vez.

No segundo dia, Iracema percebeu. Ela nunca perguntou nada diretamente. Só colocou na mesa uma garrafa de borrachudo — a pinga ruim que só serve pra num doer — e ficou olhando ele de longe, com aqueles olhos cor de caldo de peixe que sabiam tudo antes da boca dizer.

No quarto dia, ele tentou consertar a porta do galinheiro e martelou o próprio dedo. Ficou olhando o sangue como se fosse de outro. No sétimo, pegou a rede pra remendar um rasgo e não lembrou como se faz o nó. O nó que ele sabia desde menino. Ficou com a linha na mão, parado, até a linha cair.

Depois, o silêncio da casa engoliu os dois. Norberto dormia sentado no banco do fogão. Iracema deixava a comida pronta e não acordava.

Mesmo assim, toda manhã, ela continuava pondo duas xícaras na mesa. Norberto reparou num dia em que nem sentou pra comer. Comeu de pé, encostado na pia. As duas xícaras ficaram lá, cheias, esfriando juntas. Ele não disse nada. Ela também não.



Na manhã do décimo segundo dia, Norberto estava na varanda da casa, com a garganta fechada. Lá fora, no quintal de barro vermelho, a rede estava — a mesma que ele tinha amarrado no trapiche, do outro lado do mangue. Encharcada. Escorrendo. Estufada de algo que devia pesar o mundo.

A rede respirava.

Norberto avançou descalço pela lama gelada. A cada passo ao redor da rede, o cheiro aumentava: maré de fundo, rio depois de três dias de chuva no despenhadeiro.

Norberto desfez o nó de laço. Abriu a rede.

Havia um homem.

Afogado. Inchado. Escorrendo. Tingido de violeta e verde-escuro, os olhos brancos de quem está morto há dias. Blusa branca de linho esfarrapada — a que ele usava por baixo da xadrez na tarde do naufrágio. E no dedo anular, uma aliança, igualzinha à dele.

Norberto olhou para a própria mão. A aliança continuava no dedo. O morto usava outra, com o mesmo nome gravado.

E o rosto.

O rosto dele.

Sem a cicatriz do queixo — aquela que ele ganhou meses depois do naufrágio, quando a lâmina do facão escapou e rasgou o queixo — mas com a mesma covinha estranha, a mesma pálpebra direita mais pesada, a mesma dentadura ruim aparecendo quando os lábios se erguiam.

A mão de Norberto subiu sozinha até o queixo. Tocou a cicatriz. Tocou de novo. Como se precisasse confirmar que ela ainda estava ali.

Um Norberto de antes da cicatriz. De antes do naufrágio.

Aí, o homem abriu os olhos.

Não olhos de defunto. Olhos de água. Olhos que eram os olhos dele, e olhavam sem espanto nem raiva, só com uma paciência que não era de gente.

O homem respirou. O bafo saiu salgado, morno, com um fundo de peixe podre. E a boca se abriu, e o que ela disse não veio por voz mas por dentro da cabeça de Norberto, fundo e oco como a matinta-perera assobiando atrás do curral às três da manhã:

"Joga de volta."

E Norberto, sem escolha no corpo, largou o homem na rede.

E jogou.

A rede abriu no ar com um som que não era de tecido, era de ovo estalando. Caiu no barro vermelho — não havia água ali, água nenhuma — mas a rede afundou, afundou, afundou, como se o barro fosse água do fundo, e desapareceu. Só ficou um círculo de lama escurecida e três bolhas que estouraram devagar, cada uma soltando um suspiro velho e fétido.



Em casa, Iracema estava encostada na porta, de avental estampado.

— O que houve?

— Pesquei.

— Pesquei o quê?

— Nada.

Iracema olhou. Para as mãos dele.

Molhadas, frias. Sujas de areia preta, areia de fundo, com fiapos de capim seco e uma carapaça fininha e mole de algum camarão que só existe no escuro.

Ela pegou a xícara. Despejou café. Não disse mais palavra.



Na manhã seguinte, a rede estava na porta. Cheia. Gotejando no piso de taipa.

Norberto não abriu.

A rede se mexeu. Ele não olhou.

Ficou um silêncio comprido. Depois, um barulho de talher. Uma cadeira arrastando no chão de taipa. O cheiro de café passado na hora.

Когда ergueu os olhos, já era tarde: o homem estava sentado à mesa.

Seco. O cabelo grumoso e negro grudado na testa. O chinelo de borracha azul-marinho nos pés — o chinelo que Norberto sempre deixava na porta. Comendo, primeiro com a mandíbula direita, depois com a esquerda. O mesmo jeito de mastigar. E o cheiro dele não era cheiro de defunto nem de mar. Era o cheiro do Norberto de antes: suor e brisa de manga em flor e cigarro de palha. O cheiro que a pele dele tinha dez anos atrás, quando a vida era simples e cheia de gente.

Mais jovem. Mais magro, mais vivo.

Iracema saiu da penumbra com a frigideira. Puxou a cadeira dele, ajeitou, como se já soubesse onde ele sentava. Serviu ovos mexidos. Bobó de camarão numa travessa de barro. Farinha de mandioca esfarelada. Não perguntou nada.

Na mesa, as duas xícaras já estavam postas. Como sempre.

— Quem é você? — perguntou Norberto, e a voz saiu fraca, cor de leite talhado.

O homem engoliu. Enxugou a boca no pano listrado que a avó de Iracema fizera há meio século. Olhou para ele.

E disse:

— Sou o que você jogou fora.

Iracema ergueu a cabeça da panela. Sorriu. Olhou para Norberto e disse, dócil, com aquela dignidade de quem serve comida há quarenta anos e jamais falou alto:

— Senta, amor. O café tá esfriando.

E Norberto sentou. Puxou a cadeira. Ajeitou o guardanapo. Serviu café para o outro homem, sem pensar, como quem serve para si mesmo.

O outro homem girou a aliança no dedo. Gira, gira, até ela voltar pro lugar. O mesmo gesto. A mesma demora.

Norberto comeu.

Amanhã, bem cedo, ele ia pescar de novo.

E a rede vai voltar.

Sempre volta.

A Duna que Anda

A Duna que Anda
Tadeu Everton Zamoiski
Ivan era o curitibano da casa azul atrás da duna. No bar, o Seu Nestor dizia só: "o da casa azul". Bastava.

Ele alugou em março, quando o verão já tinha ido embora levando os turistas, o cheiro de protetor solar e o som de caixa de som no talo. Só restou o vento. O mar continuou batendo em Caiobá, como um bicho cansado. E a casa azul, de madeira, com o telhado de zinco que rangia de noite, e a duna atrás dela.

Veio para Matinhos porque o apartamento em Curitiba tinha ficado silencioso demais. Tinha um quartinho lá que ele mantinha com a porta fechada. Não trouxe nada dele. Só a trena, o caderninho e uma mala.

Na primeira tarde, ele fez o que todo homem da cidade grande faz quando chega no litoral: mediu.

Do portão de madeira lascada até a base da duna: trinta metros. Trinta metros exatos. Riscou com um prego uma marquinha no cimento do portão, para nunca mudar o ponto de partida. Anotou num caderninho de espiral, com a letra caprichada de quem acha que anotar é controlar.

1º dia, 14h32. Portão até a duna: 30m.

Na manhã seguinte, saiu descalço, a areia fria grudando na sola do pé, encostou a ponta da trena na mesma marquinha e mediu de novo.

Vinte e nove.

Riu sozinho, aquele riso curto de quem não quer acreditar.

— Errei ontem. Devia estar com a trena torta.

Mediu de novo. Duas vezes. Três. Pela mesma linha. Pela mesma marquinha. Vinte e nove metros.

No terceiro dia: vinte e oito.

Ivan começou a cavar.

Pegou a pá emprestada do Seu Nestor, o vizinho que vendia camarão na beira da estrada e tinha a pele curtida de sol como couro de tainha. O velho entregou a pá e ficou olhando para a casa azul um tempo a mais do que precisava.

— A casa azul já teve outro curitibano — disse, sem olhar para Ivan. — Também gostava de medir as coisas.

Ivan olhou para a trena no chão. Ficou olhando um instante a mais. Depois pegou a pá e continuou cavando.

Cavou o dia inteiro. O sol do litoral queima diferente. Não é o sol de Curitiba, que arde e vai embora. É um sol úmido, que gruda. Entra pelo nariz com cheiro de maresia e de mato. O suor dele descia salgado e misturava com a areia. A areia grudava no suor. Entrava nas unhas. Rangia entre os dentes.

De vez em quando, sem notar, enfiava a mão no bolso esquerdo da calça. Procurava alguma coisa. Tirava a mão vazia, irritado consigo mesmo, e voltava a cavar.

No fim da tarde, tinha feito uma vala. Uma trincheira. Jogou a areia para trás, para longe. Para cima da duna, como quem cospe de volta.

— Volta para o teu lugar, desgraça — ele disse.

De noite, dormiu com a janela aberta. O vento trouxe o cheiro de chuva que não caiu. Trouxe o som das ondas. Trouxe um outro som, por baixo de tudo. Um som que ele só foi perceber depois: shhhhhh... shhhhhh... Alguém arrastava um saco de areia no chão da cozinha. Devagar. Ritmicamente.

De manhã, a vala tinha sumido. Não estava cheia. Estava sumida. A superfície estava perfeitamente nivelada, como se nunca tivesse existido. Nem os montes de areia que ele tinha tirado estavam lá. Só a pá, encostada na parede, ainda suja de uma areia úmida, mais escura que a areia da superfície da duna.

E a duna estava a vinte e sete metros.

Anotou no caderninho. Agora já não anotava só a distância. Anotava o horário.

4º dia, 06h15. 27m. A vala sumiu.

Ligou para a prefeitura de Matinhos.

— Bom dia, eu queria registrar... a duna atrás da minha casa está avançando. Um metro por dia.

Do outro lado, uma mulher mastigando alguma coisa.

— É casa própria ou alugada, senhor?

— Alugada. Casa azul, na rua...

— Tem risco de atingir a construção? O senhor tem foto?

— Eu tenho medida. Eu medi. Trinta, vinte e nove, vinte e oito...

— Olha, senhor, isso aí é vento. É normal nessa época. É a ressaca. Se começar a entrar areia na casa, o senhor liga para a Defesa Civil.

— O vento não anda em linha reta! — ele gritou. A voz saiu rachada.

Ela fez uma pausa. Dava para ouvir o ventilador.

— O senhor quer que eu abra um protocolo?

Ivan ficou em silêncio. Um protocolo. Um número. Uma prova de que ele tinha ligado, de que não era loucura. Quase disse sim.

— Não. Obrigado.

Desligou. Mediu de novo. No dia seguinte, anotou: 5º dia. 26m. No outro: 6º dia. 24m. Depois: 7º dia, 05h48. 20m.

Vinte metros em uma semana. A duna estava com pressa.

Ele não foi embora. O aluguel estava pago até o fim do mês e o dinheiro estava curto. E tinha outra coisa: se saísse agora, ia parecer louco. Ia parecer o curitibano que fugiu do vento. Ficou para provar que estava certo.

Começou a dormir no sofá. Arrastou o sofá de dois lugares, aquele sofá velho de tecido florido que veio com a casa, e colocou-o de frente para a janela da sala. De frente para a duna. Dormir de frente para o inimigo.

Não dormia. Ficava olhando.

Porque agora ele via. Não era imaginação. Não era cansaço. A duna se movia. Devagar. Tão devagar que, se você piscasse, perdia. Mas, se ficasse olhando sem piscar, com os olhos ardendo de tanto olhar, você via.

A areia subia. Descia. Subia. Descia.

Na primeira noite no sofá, o som voltou. Shhhhhh... shhhhhh... Mais perto. Como se estivesse no corredor. Ele acendeu a luz. Não tinha ninguém. Só a areia fina no rodapé, onde não deveria ter.

Na segunda noite, o copo de água na mesa vibrou. Um pouquinho. Depois parou. Depois vibrou de novo. De manhã, tinha uma camada fina de areia em cima da mesa, mesmo com as janelas fechadas.

Abriu o caderninho para anotar. Tinha areia fina em cima da primeira página. Exatamente sobre o 30m. O caderno estava guardado na gaveta fechada.

Anotou, por cima da areia: 8º dia, 04h12. 15m. Não dormi.

O cheiro também mudou. Não era mais só maresia. Era um cheiro de fundo. De coisa guardada durante muito tempo em lugar úmido e escuro. Sentiu esse cheiro na roupa no varal. Na fronha do travesseiro. Quando foi escovar os dentes, a água tinha gosto de ferro.

Na tarde do oitavo dia, o Seu Nestor parou no portão. Não entrou. Olhou para a marquinha no cimento, depois para Ivan.

— Não cava mais, curitibano — disse. E foi embora, sem esperar resposta.

Naquela noite, Ivan mediu de novo. Conferiu a trena, depois o caderno. Pela primeira vez, não anotou imediatamente.

Dez metros.

A duna tinha ficado ali a noite inteira, como se estivesse esperando ele sair. Ele não aguentou. Pegou a lanterna e saiu.

A noite no litoral fora de temporada é uma noite preta. Preta de verdade. Sem poste. Sem lua. Só o farol de Caiobá piscando lá longe, como um olho cansado.

Apontou a lanterna para a duna.

E a duna não era só areia.

Tinha uma aliança, meio torta, com um brilho apagado. E tinha uma sandália de criança. Uma só. Rosa, com uma fivela de plástico. Roída nas bordas.

Ficou olhando para a sandália. O polegar dele procurou, sozinho, o jeito de abrir a fivela. A mão sabia. Sabia onde o plástico estava mais liso de tanto uso. Não sabia de onde sabia.

A outra mão foi para o bolso esquerdo. Vazio. Como sempre.

Desviou a lanterna. Baixou os olhos. A mão tremia.

Correu para dentro. Trancou a porta. Trancou a janela. Colocou a cômoda na frente da porta. Colocou a geladeira na frente da janela.

Deitou no sofá. Ficou olhando para o teto. O teto de madeira tinha manchas de umidade que pareciam mapas. Mapas de ilhas. Mapas de lugares que não existem mais.

Acordou com areia na boca. Areia com gosto de ferro.

A duna estava na porta.

Mas não tinha entrado por ali. A areia estava vindo de dentro.

Antes de dormir, ele já tinha encontrado areia dentro do sapato fechado, no armário. Areia sobre a camisa limpa, dentro do guarda-roupa. Areia na fronha, mesmo depois de sacudir. Agora estava na gaveta da cozinha, fechada, por cima dos talheres. Estava embaixo do tapete, levantando o piso de madeira, fazendo o chão ranger sob os móveis.

E estava saindo da tomada do quarto. Fina. Devagar. Um filete de areia escorrendo da tomada, caindo no rodapé, sem fazer barulho. Ficou olhando para aquilo. Uma tomada não tem buraco para areia.

Janela coberta. Por dentro. Telhado coberto. Por dentro. Paredes cheias de areia.

Subiu na cadeira. Empurrou a telha de zinco com o ombro. A telha não se moveu. Empurrou de novo, com o corpo todo. Ela cedeu um palmo. A areia desceu. Peso nos ombros. Areia nos olhos. Areia na boca. Sem ar. Sem cima. Sem porta.

Tossiu areia.

Sentou no sofá. O sofá florido. O sofá que veio com a casa.

A areia subiu até os joelhos. Fria. Depois morna. Depois quente.

Até a cintura. Pressão por todos os lados. Sem espaço para se mexer. A areia conhecia o formato dele. Sabia onde o ombro terminava e onde o joelho dobrava.

Tentou levantar o braço para alcançar o caderninho no chão. A areia segurou. Tentou gritar. A boca encheu de areia.

O zinco rangeu em cima dele, e o cheiro de madeira úmida estava na boca நிலe, e a mancha do teto estava na frente dos olhos dele, mesmo com os olhos fechados, e ele já não sabia onde terminava a casa e onde começava ele.

Até o peito. Não lutou mais.

Olhou para o caderninho caído no chão, aberto na primeira página. 30m.

Lembrou da marquinha que fez com o prego.

Respirou fundo, pela última vez, e o ar tinha cheiro de chuva e de camarão frito na feira e do café da primeira manhã na casa azul, quando ele chegou, olhou para o mar e pensou que tinha finalmente encontrado tranquilidade.

Amanhã, o Seu Nestor vai sair para vender camarão e vai ver a casa azul sumida. Vai ver só um morro novo de areia, lisinho, sem pegada nenhuma.

Amanhã, alguém vai alugar a casa da frente. Um curitibano. Vai medir do portão até a base da duna, no fim da tarde.

Trinta metros.

Vai ver que já existe uma marquinha no cimento. Vai ficar olhando para ela um instante. Depois vai riscar outra, bem ao lado, com um prego.

Vai ver um caderninho de espiral meio enterrado, bem em cima da marquinha do portão. Vai abrir. Vai ler a primeira anotação, ainda legível.

E a duna vai andar.

Devagar.

Como se respirasse.

O de Sempre

O de Sempre
Tadeu Everton Zamoiski

A Praia Brava, em Matinhos, é o fim do mundo para quem vem de fora. Areia grossa, cor de ferrugem, que gruda na pele e não sai nem com chuveiro. O vento sul traz cheiro de maresia misturado com óleo de peixe frito e protetor solar vencido. As ondas batem com raiva, como se quisessem arrancar a costa. Eu conhecia cada grão daquele chão. Cada concha quebrada. Cada bituca que os turistas deixavam na temporada.

Mas isso era o que se via de fora.

O quiosque do Seu Nelsinho ficava depois da última curva de pedra, onde nem os pescadores iam. Estrutura de madeira escurecida pelo sal, telhado de sapé que nunca apodrecia, um balcão comprido onde cabiam uns cinco cotovelos. O letreiro, pintado à mão com tinta que não descascava: Quiosque do Nelsinho — Desde Sempre.

A primeira vez que sentei ali, lembro do cheiro de limão fresco. Do som do gelo batendo no copo. Da brisa que entrava por baixo do telhado e fazia o calor ir embora. Era bom. Era o único lugar daquela praia onde eu conseguia ficar sem sentir que o mar me observava.

Passei a ir toda tarde. Três horas em ponto, quando o sol começava a cansar e a maré virava. Pedia o de sempre — caipirinha de cachaça artesanal, sem açúcar, muito gelo. Sentava na terceira cadeira da ponta. E ficava ali até o céu ficar roxo.

Seu Nelsinho não falava. Só servia. Só limpava o balcão com aquele pano amarelado que nunca ficava sujo. Só esperava.

Era um véio magro, pele de couro curtido, olhos que não piscavam. Usava sempre o mesmo avental branco, impecável, e um boné de time que eu nunca conseguia identificar. Não tinha rugas. Não tinha idade. Não tinha pressa.

Na segunda semana, notei que o gelo não derretia. Fiquei mexendo com o canudinho, vendo aqueles cubos perfeitos flutuando na cachaça, e eles não derretiam. O sol batia forte, o copo suava por fora, mas por dentro... nada.

— Seu Nelsinho, esse gelo é de quê? — perguntei. — Não derrete nem a pau.

Ele não respondeu. Passou o pano no balcão. Shhh-shhh. E apontou com o queixo pro mar.

Eu bebi. A caipirinha tinha o mesmo gosto de sempre. Cachaça, limão, gelo que não derretia. E um fundo de algo mais, algo metálico que eu nunca conseguia identificar. Mas era bom. Era sempre bom.

Naquela noite, quando voltei pra casa, tentei lembrar o que tinha feito antes de chegar à praia. Não consegui. Lembrei do quiosque, do drink, do mar. Mas do resto... nada. Nem o nome da minha mãe. Nem o endereço onde eu morava. Nem por que eu tinha vindo parar em Matinhos.

Pensei que era cansaço. Que era estresse. Que no dia seguinte eu lembraria.

Não lembrei.



O tempo passou. Não sei dizer quanto. Eu ainda ia ao quiosque todo fim de semana — mas não lembrava mais como chegava lá. Pegava um ônibus, depois outro, depois caminhava pela areia. Mas o rosto do motorista, a cor do ônibus, a placa da rua... tudo escorria. O que eu lembrava era do balcão. Do gelo. Do cheiro de limão.

Numa tarde de janeiro, um turista sentou na cadeira ao lado da minha. Pediu uma cerveja. Seu Nelsinho serviu. O homem bebeu, olhou o mar, e começou a conversar comigo. Falou da esposa, dos filhos, de uma dívida que não conseguia pagar. Falou por uma hora. Depois se levantou, pagou a conta, e foi embora.

No dia seguinte, a cadeira ao lado da minha estava vazia.

Perguntei ao Seu Nelsinho se o homem tinha voltado.

— Que homem? — ele disse.

E voltou a limpar o balcão.

Pensei que ele estivesse brincando. Mas na semana seguinte, a mesma coisa. Outro cliente. Outra conversa. Outro desaparecimento. Perguntei de novo. Seu Nelsinho me olhou com aqueles olhos que não piscavam e disse:

— Não tinha ninguém aí.

Olhei pra cadeira. O plástico branco estava gasto. No formato de alguém. De quem tinha sentado ali por muito tempo.

Não perguntei mais nada.



Foi numa quinta-feira de março, quando o mar estava revoltado e o céu tinha aquela cor de chumbo que antecede a tempestade, que eu olhei pro balcão e vi. Onde meus cotovelos descansavam, a madeira estava afundada. Duas covas rasas, do tamanho exato dos meus braços. O verniz tinha sumido ali, deixando a madeira crua, lixada pelo atrito de décadas — séculos? — de cotovelos.

Olhei pra baixo. Havia um caminho. Uma trilha desgastada no assoalho de madeira, indo da minha cadeira até a beira do quiosque, onde eu ficava olhando o mar. O chão estava gasto no formato dos meus pés.

— Seu Nelsinho — minha voz saiu fina, quebrada. — Há quanto tempo eu venho aqui?

Ele parou. O pano ficou suspenso no ar.

— Desde a primeira vez.

— E quando foi a primeira vez?

Ele não respondeu com palavras. Só apontou. O dedo comprido, unha encardida, apontando pra cadeira onde eu estava sentado.

Eu olhei pra baixo. A cadeira de plástico branco não era mais branca. Era bege, amarelada, e tinha um formato. Um formato de bunda. De pernas. De costas. A cadeira estava gasta no meu formato. Como se eu tivesse sentado ali por mil anos. Como se o plástico tivesse se moldado ao meu corpo, célula por célula.

— Seu Nelsinho... o que é isso?

Ele não respondeu. Virou as costas, foi até a geladeira antiga, aquela com o motor barulhento que nunca quebrava, e pegou uma garrafa de cachaça. Serviu o drink. O mesmo drink. O copo era o mesmo — eu reconheceria aquela lasca na borda em qualquer lugar. O gelo caiu dentro, os cubos perfeitos, e não derreteram.

Colocou o copo na minha frente.

— Último.

— Último? Último o quê?

Seu Nelsinho tirou o avental. Dobrou com cuidado, colocou sobre o balcão. O boné veio em seguida. Sem o boné, a cabeça dela era lisa, careca, brilhante como uma pedra polida pelo mar.

— Agora é você.

— Eu não... eu não quero.

— Não é questão de querer.

Eu olhei pra trás, pro fundo do quiosque, e vi a porta. A porta de madeira escura, com a placa enferrujada: Depósito. O som de dentro continuava. Cadeiras sendo arrastadas. Como se alguém estivesse organizando fileiras e fileiras delas.

— O que tem aí dentro? — perguntei.

Seu Nelsinho não respondeu. Só sorriu. Foi o primeiro sorriso que vi naquele rosto. E era um sorriso triste. Um sorriso de quem finalmente ia descansar.

Ele se virou, caminhou até a beira do quiosque, e olhou o mar. Ficou ali, parado, a brisa mexendo no pouco cabelo que restava. E então começou a desbotar. Como uma foto velha deixada no sol. As cores sumiram. A pele ficou transparente. E ele virou vento. Virou sal. Virou nada.

Só sobrou o boné no balcão.

Peguei o boné. Peguei o avental. Serviram perfeitamente.

E então ouvi passos na areia.

Um homem se aproximou. Jovem, cansado, olhos vermelhos de quem chorou muito. Ele olhou pro letreiro. Olhou pro balcão. Olhou pra mim.

— Boa tarde — ele disse. — O que tem pra beber?

Minha boca se abriu. As palavras saíram sozinhas. Como se alguém estivesse lendo um roteiro que eu não escrevi.

— O de sempre.

Ele sentou na cadeira. A terceira da ponta. E eu peguei a cachaça, o limão, o gelo que não derrete. Fiz o drink. Coloquei o copo na frente dele. O copo com a lasca na borda. O mesmo copo.

Ele bebeu. Fez uma careta. Depois sorriu.

— Bom — disse. — Muito bom. Quanto é?

— Três e cinquenta.

Ele pagou. Três e cinquenta. As mesmas moedas que eu pagava. Sempre as mesmas.

Eu peguei o pano. Limpei o balcão. Shhh-shhh. O som de sempre.

E esperei.



O tempo passou. Não sei quanto. O sol nascia, o sol se punha, a maré subia, a maré descia. E eu ali, atrás do balcão, limpando, servindo, esperando.

O homem voltou no dia seguinte. E no outro. E no outro. Sempre no mesmo horário. Sempre pedindo o de sempre. Sempre sentando na mesma cadeira. E eu via a cadeira se moldando ao corpo dele. Via o balcão se afundando sob os cotovelos dele. Via o chão sendo gasto pelos pés dele.

E eu sabia o que ia acontecer. Sabia que um dia ele ia perguntar. Sabia que um dia eu ia entregar o avental. Sabia que ele ia ficar.

Mas havia algo que eu não sabia. Algo que só descobri quando o homem perguntou:

— Seu Nelsinho, há quanto tempo eu venho aqui?

E eu respondi, com a voz rouca de quem não fala há décadas:

— Desde a primeira vez.

Ele perguntou quando foi a primeira vez. Eu apontei pra cadeira. Ele olhou. Viu o formato dele no plástico.

E então ele fez a pergunta que eu não esperava:

— E antes de mim? Quem estava aqui?

Abri a boca pra responder. Mas as palavras não vieram. Porque eu não lembrava. Eu não lembrava de nada antes dele. Não lembrava do meu próprio nome. Não lembrava da minha vida antes do quiosque. Só lembrava do drink. Do gelo que não derrete. Do mar. E do nome que eu agora carregava sem saber de onde vinha: Nelsinho. Como se eu sempre tivesse sido ele.

— Não importa — eu disse. — Agora é você.

Tirei o avental. Dobrei. Coloquei no balcão. Tirei o boné. Coloquei em cima do avental.

O homem me olhou, confuso, assustado.

— Eu não quero isso.

— Não é questão de querer.

E então eu me virei. Caminhei até a beira do quiosque. Olhou o mar. Senti a brisa no rosto. E comecei a desbotar.

Foi um alívio. Um alívio tão grande que eu quase chorei. Finalmente, o fim. Finalmente, o descanso.

Mas quando eu estava quase sumindo, quase virando vento, quase virando nada, eu olhou pra trás. E vi o homem vestindo o avental. Vi ele colocando o boné. Vi ele pegando o pano e limpando o balcão.

E vi a porta do depósito se abrir sozinha.

Só isso. A porta. O som de uma cadeira sendo arrastada pra fora.

— Não se preocupe — disse a voz. — Você volta. Todo mundo volta. É só esperar.

E então eu virei vento. Virou sal. Virou nada.



Naquela noite, quando o sol se pôs e a lua surgiu sobre a Praia Brava, um novo homem chegou ao quiosque.

Seu Nelsinho — o novo Seu Nelsinho, o que tinha acabado de vestir o avental — levantou os olhos. E sorriu.

— Boa noite. O de sempre?

O homem sentou na cadeira. A terceira da ponta.

E o gelo caiu no copo.

E não derreteu.

E o quiosque nunca fecha.



Fim

O Guarda-Volumes

O Guarda-Volumes
Tadeu Everton Zamoiski

O terminal de ônibus de Matinhos, de madrugada, tem um fedor que gruda. Não é só maresia. É maresia com pipoca velha, diesel queimado e aquele ranço de concreto que nunca seca direito. Umidade do litoral, sabe como é. O vento vem do mar e traz sal, mas traz também o cheiro das algas apodrecidas na areia. Eu estava com a mochila nas costas, as alças marcando o ombro. Olho ardendo de tanto ficar acordado. A cabeça latejando junto com o letreiro da lanchonete ali perto, aquele estalo elétrico que cortava o silêncio.

Foi aí que eu vi. Os guarda-volumes. Uma fileira de armários de metal verde, encostados na parede dos fundos, perto dos banheiros onde o desinfetante não dava conta do cheiro de urina e mofo. Pareciam dentes velhos. Eram antigos, desses com portinha e chaveiro. O 27 estava na minha frente. Porta amassada, tinta descascando, ferro enferrujado embaixo. Não sei por que, mas me senti atraído. A mochila estava me matando. Só por essa noite, pensei. Deixo aqui, pego amanhã cedo.

O velho do balcão parecia mais morto que vivo. Pele de papel de cigarro, olhos fundos, sem brilho nenhum. Os dedos compridos mexiam sozinhos em cima dos tickets. He pegou meu dinheiro e me entregou um ticket de papelão fino, daqueles que desmancham no suor do bolso. O ticket tinha o 27 carimbado em tinta vermelha, borrada. Parecia uma ferida.

— Se precisar de algo, é só chamar — ele disse, com uma voz que parecia vir de dentro de um caixão. Sotaque carregado, de quem viveu a vida toda na beira da praia, comendo peixe, lidando com maresia.

Deixei a mochila. A porta rangeu quando fechou. Um som de osso quebrando. Senti um calafrio subir pela espinha. Mas eu estava cansado demais para ligar. Guardei o ticket no bolso da calça e fui embora, pisando no chão de tacos gastos do terminal, cada passo ecoando como um tiro.

A noite foi um borrão. Cheguei em casa, no apartamento alugado perto da praia, e capotei no sofá. Sonhei com o mar. Mas o mar estava escuro, oleoso. As ondas faziam um som de gente engasgando. Acordei com o coração disparado, suor frio colando a camiseta no corpo. O sol já estava raiando, pintando o céu de um jeito doentio, cinza e roxo.

Voltei ao terminal no meio da manhã. Sol batendo forte, calor de rachar, mas ali dentro, perto dos guarda-volumes, o ar era pesado, frio. O velho não estava no balcão. O terminal estava quase vazio, só um ou outro freguês esperando o ônibus para Paranaguá.

Encontrei o 27. Encaixei o ticket. A porta abriu com um estalo seco. A mochila estava lá. Peguei, senti o peso familiar. Mas tinha algo mais. Um caderno de capa preta, surrado, que eu nunca tinha visto na vida. Em cima da mochila. Meu estômago embrulhou.

Peguei o caderno. Cheiro de papel velho, mas por baixo tinha um odor de terra molhada, de cova rasa. Abri. A letra na primeira página era a minha. Não tinha dúvida. Aquele “S” torto, o jeito de fazer o “o” com um rabisco no final, o “r” que eu sempre começava pelo pé. Era minha letra. E estava escrito, em tinta preta, grossa, parecia que tinha sido feita com o dedo:

“Você vai voltar amanhã.”

Ri, um riso nervoso, que ecoou estranho naquele lugar. Alguma brincadeira de mau gosto. Guardei o caderno na mochila e fui embora. Joguei-o no lixo do primeiro poste que encontrei, enfiado entre uma garrafa pet e uma sacola de mercado.

No dia seguinte, passei pelo mesmo poste. O lixo estava vazio. Limpo. Nem a garrafa, nem a sacola. Nem o caderno. Fingi que não vi. Segui andando, sol queimando a nuca, mas um frio me subindo pela espinha.

Naquele dia, não voltei ao terminal. Fiquei em casa, de portas trancadas, sentindo a maresia que entrava pela janela e me dava náusea. Mas o ticket... o ticket estava no meu bolso. Eu não lembrava de ter colocado ele lá de novo. Eu tinha deixado em cima da mesa. Juro que sim. Mas na hora de dormir, quando fui tirar a calça, lá estava ele. O 27 em vermelho, como uma ferida.

No outro dia, o ticket estava no bolso da camisa que eu usei. Não lembrava de ter vestido aquela camisa. E no outro, estava no bolso do casaco, pendurado no cabideiro. Eu não usava aquele casaco. Estava quente demais. Comecei a suar frio. O ticket me perseguia. E o pior: eu sentia uma atração doentia pelo terminal. Uma corda invisível amarrada no meu umbigo, puxando.

Cedi. Voltei naquela noite. O terminal estava ainda mais vazio, as luzes fluorescentes piscando, zumbindo como moscas. O velho estava no balcão. Não olhou para mim. Os dedos compridos trabalhavam os tickets, devagar, como se contassem alguma coisa que só ele via. Depois, ele passou um pano sujo no mármore, num movimento circular, lento, como se limpasse uma mancha que nunca saía. Passei por ele. Senti o olhar dele nas minhas costas, mas quando virei, ele estava de cabeça baixa, o pano ainda se movendo.

O guarda-volumes 27 estava aberto. Não precisei de ticket. A porta estava entreaberta, um convite. Lá dentro, um casaco. Um casaco de lã xadrez, marrom e bege. O meu casaco. Aquele que estava pendurado no meu armário em casa. Senti um tremor tão forte que meus dentes tremeram.

Olhei para o meu braço. Eu estava de camiseta. O casaco estava dentro do guarda-volumes. Fechei a porta. O metal frio sob meus dedos. Saí correndo, coração batendo na garganta, gosto de ferrugem na boca. O velho continuava lá, passando o pano.

— Hoje não trouxe nada? — ele disse, sem levantar a cabeça.

Não respondi. Continuei correndo.

Na noite seguinte, tentei não ir. Fiquei sentado no sofá, TV ligada num canal qualquer, som alto para abafar o zumbido que já morava dentro da minha cabeça. Mas o ticket estava no bolso. Eu sentia ele ali, um papelão fino que queimava como brasa. Tentei assistir. Tentei ler. Tentei dormir. Mas a corda puxava. Levantei às duas da manhã, calcei o sapato sem perceber, e quando dei por mim, estava na frente do 27.

Dentro, uma chave. A chave do apartamento de Curitiba, aquele que eu tinha vendido depois da separação. A chave estava lá, com o chaveiro de couro que minha ex-esposa tinha me dado. Peguei-a. O metal estava quente, como se tivesse sido tocado há pouco.

E então lembrei. A cozinha com a parede de azulejos, cheiro de miojo no ar. Ela tinha o costume de deixar uma xícara virada sobre a pia. Depois que foi embora, continuei encontrando a xícara daquele jeito, mesmo quando lavava a louça. O silêncio que ficou na casa quando ela foi embora e levou até o barulho da geladeira. Segurei a chave com mais força do que devia, como se pudesse voltar por ela.

Na noite seguinte, um bilhete. Dobrado em quatro. A letra era minha. Mas eu ainda não tinha escrito aquilo. Dizia: “Não adianta trancar a porta. A porta é você.” Joguei o bilhete no chão. Ele sumiu antes de tocar o piso.

Na noite seguinte, não tinha nada. Abri o 27 e o armário estava vazio. Só o cheiro. O da cozinha antiga, misturado a outro que eu conhecia, mas não conseguia localizar. Um cheiro de coisa guardada havia muito tempo. Não dava para pegar. Não dava para levar. Fechei a porta devagar, com as mãos tremendo, e o cheiro ficou preso na minha roupa até de manhã.

Depois, o carregador do celular. Aquele que estava na tomada em casa, conectado à parede. Eu tinha certeza porque tinha usado ele naquela manhã. Estava dentro do 27, o fio enrolado com cuidado, como se alguém tivesse feito questão de arrumar.

Na noite seguinte, o relógio do meu pai. Pulseira de couro rachada, mostrador trincado no canto. Estava dentro do 27, em cima de um pedaço de flanela. O vidro estava morno. Senti o cheiro de fumo e loção que era dele. Peguei-o. Quando fechei a porta, o relógio estava no meu pulso. A pulseira apertava. Eu não tinha colocado.

E então lembrei. Meu pai na varanda, no fim da tarde, com o relógio no pulso, esperando o jantar esfriar. O tique-taque atravessando a parede fina da casa, marcando um tempo que eu achava que nunca ia acabar. O tique-taque estava de volta. No meu pulso. Como se ele nunca tivesse parado.

Aí veio o dente. Um molar, amarelado, com uma obturação de prata. O meu dente. Eu conhecia aquela obturação. Tinha rachado esse dente num tombo de bicicleta quando era moleque, mas nunca tinha sido extraído. O dente estava dentro do guarda-volumes, em cima de um lenço branco. Passei a língua nos dentes. Todos no lugar. O molar estava lá. A obturação estava lá. Corri para o dentista, um velho caiçara que atendia num consultório apertado no centro. Ele olhou, remexeu, fez raio-x.

— Está tudo certo, seu moço. Nunca foi extraído. Está firme e forte.

Olhei no espelho do consultório. O dente estava lá. Voltei para o terminal. Abri o 27. Dentro, um espelho. Um espelho oval, com moldura de madeira escura. No espelho, eu estava dentro do guarda-volumes, olhando para fora. Meu reflexo permanecia lá dentro, com os olhos arregalados, olhando diretamente para mim. Levantei a mão. Ele não se mexeu. Fechei a porta com força. O espelho sumiu. Eu estava do lado de fora. Respirei. O ar tinha gosto de terra. O velho não estava mais no balcão.

Cheguei em casa arrasado. O tempo começou a se dobrar. Eu não sabia mais se estava acordado ou sonhando. As noites se misturavam com os dias. A maresia impregnou a casa toda. Eu via o guarda-volumes em todo lugar. No reflexo da TV, na vitrine da padaria, na poça d’água da calçada. O 27. Aberto. Esperando.

Uma noite, o 27 estava aberto, vazio. Só o ticket. Peguei-o. O nome no ticket era o meu. Não o número. Meu nome completo, escrito com os erros que minha mãe cometia nas cartas e nos envelopes. Reconheci até o jeito dela de apertar as letras no fim da linha. Guardei-o no bolso. Voltei para casa. No espelho do banheiro, enquanto escovava os dentes, vi. Atrás de mim. O guarda-volumes. O 27. Aberto. Vazio. Esperando. A imagem tremia, como se o espelho estivesse suando.

Não me virei. Sabia que se virasse, ia entrar. Sabia que o ticket no bolso era a chave. Sabia que amanhã ia voltar. Sabia que já tinha voltado.

Fiquei ali, parado, sentindo o cheiro de ferro, de tempo. Em algum lugar da minha memória, o letreiro da lanchonete continuava estalando. Não sabia mais se aquele som vinha do terminal ou de dentro da minha cabeça.

Agora, toda noite, quando o terminal esvazia e o vento do mar traz o cheiro das algas apodrecidas, lembro do velho atrás do balcão. Nunca vi seu sorriso. Mas sei que ele sabe. E o 27 espera.

A Igreja do Riviera

A Igreja do Riviera
Tadeu Everton Zamoiski

A serração desceu da serra às nove da noite e não foi mais embora. Cheiro de sal parado, de mangue podre. Grudava na roupa do Joaquim como pano molhado. Ele voltava a pé do bar do Ernesto, quatro quadras de rua de areia, o guarda-chuva debaixo do braço e as marombas estourando lá na restinga.

Queria chegar em casa, tomar uma pinga e deitar.

O caminho passava pela igreja.

Ninguém sabia por que chamavam de Igreja do Riviera. O loteamento nunca saiu do papel, o padre foi embora fazia mais de dez anos e o mato tinha tomado o adro de cimento rachado. As duas torres não tinham janela nenhuma.

Naquela noite a igreja estava cantando.

Joaquim parou no meio da rua. Era coral. Vozes de homem, muitas, afinadas demais, soltando um hino em latim torto com um arrastar de água por baixo. Ex profundis clamo ad te. Ele entendia uma palavra em cada três e mesmo assim a melodia entrava como se ele já soubesse o caminho.

Empurrou a porta lateral. A madeira inchada gemeu. Lá dentro, os bancos cobertos por lençóis brancos. Cheiro de cera velha e mofo adocicado. O canto vinha do altar. Joaquim subiu os três degraus, um de cada vez, e o som foi crescendo até ficar dentro do peito.

Parou diante do crucifixo torto. Não havia ninguém. Só poeira girando no clarão da lua que entrava pelo vitral quebrado.

O coral calou de uma vez. O silêncio zumbiu nos ouvidos dele. Joaquim largou o guarda-chuva onde estava e saiu quase correndo.

· · ·

Em casa, ficou um tempão debaixo do chuveiro quente. A água descia pelo rosto e ele nem percebeu que abriu a boca.

— Ex profundis, clamo ad te...

A voz saiu limpa, grave, redonda. Joaquim nunca tinha cantado assim.

Cida abriu a porta do banheiro com a cara lambuzada de creme.

— Quim, onde você aprendeu isso?

— Não aprendi. Ouvi num rádio, acho.

— Que rádio? Faz anos que a gente não tem rádio. — Ela encostou no batente. — Você canta isso desde que a gente alugou a casa. Dormindo, no quintal, lavando louça. Só que você nunca foi afinado, Quim. Cantava parabéns como quem arrasta sofá. Esse hino, não. Esse você canta afinado até de olho fechado.

Joaquim fechou a torneira. O pingo caindo no ladrilho contou os segundos.

Na manhã seguinte, Cida olhou para a porta.

— Quim, esqueceu o guarda-chuva.

Ele demorou um segundo a mais para responder. Sentiu a garganta seca.

— Deixei no bar, acho.

Ele sabia que não tinha deixado. Sabia onde tinha deixado. Mas a palavra saiu sozinha, rápida, como se outra coisa tivesse respondido por ele. Cida não disse nada. Só olhou para a mão dele, que tremia um pouco segurando a xícara.

· · ·

Na noite seguinte ele acordou às 02h14, sem despertador. Cida roncava de leve. Ele já não sentia o cheiro dela. Sentia o da igreja.

Ficou sentado na beirada da cama, pés no chão frio. Pensou: fica. Fica aqui.

A garganta coçou por dentro.

Levantou. Abriu a porta sem acender a luz, sem calçar nada, sem nem lembrar de ter levantado. Quando deu por si, já estava na rua, descalço, com a areia fria grudando nos pés. Os pés conheciam o caminho entre as raízes. A porta lateral estava aberta.

O coral também. Só que agora eram muitas vozes, mais do que ele conseguia contar, e todas tinham a rouquidão dele. Barítonos, baixos, tenores. A voz de Joaquim em todos os tamanhos. Ele entrou, subiu no altar, abriu a boca e cantou.

A voz encaixou como chave na fechadura. Ele sabia a letra sem nunca ter aprendido. Na terceira estrofe o tom virava para o menor e a música passava a falar de afogados e de luz no fundo do escuro. Cantou até o céu clarear de roxo por cima da baía. Voltou, dormiu, acordou rouco.

De tarde, Cida estendia roupa quando ouviu ele no quintal. Baixinho, com a boca quase fechada. Ficou parada com o lençol molhado no braço, olhando para as costas dele.

— Quim.

Ele virou devagar.

— Você estava cantando de novo.

— Estava?

À noite, ela fingiu dormir. Sentiu ele levantar. Sentiu o colchão parar de vibrar quando ele saiu. Ficou de olho aberto no escura, escutando o pé dele que não fez barulho nenhum na areia. Quando ele voltou, já era quase manhã. Deitou do lado dela, frio, cheirando a mofo. Ela não teve coragem de tocar nele.

De manhã, o travesseiro dele ainda cheirava a mofo. Ela abriu a janela, deixou o sol entrar, mas o cheiro não saiu. Ficou na fronha. Ficou na camisa dele pendurada na cadeira. Ficou no banheiro também, depois que ele tomou banho, sei lá como. Não era suor. Era mofo e ferrugem, como se a casa estivesse começando a cheirar a igreja.

Ela esfregou a fronha com água sanitária até a mão arder. O cheiro continuou. Trocou a roupa de cama, lavou a camisa duas vezes, deixou o banheiro de porta aberta o dia inteiro. Nada adiantou. A casa foi ficando inabitável aos poucos, sem quebrar nada, sem sujar nada. Só o cheiro. Ela passou a comer de pé na cozinha, a dormir com a janela aberta mesmo com frio, a não conseguir mais ficar na sala depois que ele saía. A rotina dela foi junto. Foi junto e pronto.

No dia seguinte, ligou para a imobiliária.

— A senhora lembra do moço que morava aqui antes?

— Lembro. Um quieto. Cantava muito. A mulher dele foi embora antes dele.

A linha ficou em silêncio. Ela ouviu a própria respiração no telefone. A frase da imobiliária ecoou na cozinha vazia, idêntica à que ela mesma diria dali a alguns meses para outra mulher.

Era o roteiro.

— Cida? Alô?

Ela desligou e ficou com o telefone na mão, olhando para a cozinha vazia. O cheiro de mofo estava ali também.

· · ·

Nos dias seguintes, o apetite sumiu. A pele foi ficando cor de vela. No café, Cida disse que ele estava com cara de quem engoliu uma. Ele riu e não comeu. Dormindo, cantava com a boca fechada. Cida sentia o colchão vibrar.

Na quarta noite ele tentou ficar. Deitou, apertou os olhos, contou até cem. Chegou no sessenta e a garganta começou a coçar de novo. Levantou, olhou para o chinelo e não calçou. Saiu descalço, como se os pés já soubessem, sem ele precisar mandar.

Seu Ernesto reparou na quinta noite, no bar. Pôs o copo na frente do Joaquim e não soltou.

— Você anda passando na igreja.

— É caminho.

Ernesto limpou a mão no pano. Olhou para o chão.

— Meu avô chamava aquilo de boca do mar de dentro.

Joaquim pagou e foi embora sem terminar a pinga. No caminho, passou em frente à igreja e não olhou. Quando ele não olhava, a música vinha mais alta.

Na sexta noite, Cida não dormiu. Ficou sentada na cozinha, com a luz apagada, esperando ele levantar. Quando ele levantou, ela segurou o braço dele.

— Quim, fica. Fica hoje.

Ele olhou para ela. Cansado, com olheira, com medo.

— Cida, eu preciso ir. Se eu não for, canta aqui dentro.

Ele soltou o braço dela com cuidado e saiu.

Ela ficou na porta, vendo ele sumir na serração. A casa, atrás dela, cheirava a mofo.

· · ·

Na sétima noite, Cida acordou com a cama fria e cheiro de mofo e ferrugem entrando pela janela. Calçou o chinelo, mudou de ideia, tirou. Foi descalça pela areia fofa da restinga.

A noite estava em silêncio. Sem grilo. Sem maromba. Só o barulho do pé dela afundando na areia e o capim roçando na canela. O coração apertado. A serração grudava na pele, fria, molhada. Ela andou devagar, com medo de fazer barulho, com medo de não chegar a tempo, com medo de chegar.

A igreja foi saindo da neblina aos poucos. Primeiro as torres sem janela. Depois o telhado. Depois a porta escancarada, preta por dentro.

Lá dentro, os lençóis dos bancos tremiam. Ela correu pelo corredor, tropeçou num guarda-chuva caído e gritou o nome do marido. Era o dele. Estava ali desde a primeira noite. Ninguém respondeu. Subiu os degraus do altar.

Joaquim estava de pé, braços abertos, cabeça jogada para trás. Boca aberta. Escorria sangue pelo queixo, preto na luz da lua. Cida tocou o ombro dele. A carne estava fria e dura, madeira que ficou na maré.

Ele baixou a cabeça devagar. Os olhos eram leitosos, parados, olhos de peixe morto na arrebentação. Ele abriu a boca e cantou.

Não havia coral nenhum. A igreja estava vazia e o canto saía de um só lugar. O pescoço do marido se mexia por dentro. A pele esticava. As cartilagens estalavam e mudavam de posição, como tubos de um órgão sendo afinado. A garganta inchava e afundava, inchava e afundava.

Era uma voz só. Rouca, rachada, sem o menor pingo de música, batendo nas paredes de pedra. A voz do homem que ela conhecia, que nunca soube cantar, fazendo um barulho que nenhuma garganta deveria fazer.

No meio do barulho, por baixo de tudo, ela jurou que ouviu a voz dele de verdade. Baixinha, lá no fundo, abafada, como alguém gritando de dentro de um quarto fechado. Um resto de Joaquim, pequeno, com medo, pedindo para ela ir embora. Ou talvez fosse só ela querendo ouvir. O resto do som era mecânico, vazio, sem ninguém dentro. Só a igreja usando a garganta dele para afinar.

Ela cobriu os ouvidos, recuou e corrreu para a noite, para dentro da serração, sem olhar para trás.

Quando ela já estava no corredor, o canto se fragmentou. Quebrou no meio, como se alguma coisa lá dentro tivesse falhado por um segundo. E nesse segundo ela ouviu, nítida, a voz dele. Não a do coral. A dele. Rouca de tanto cantar, cansada, chamando o nome dela.

Correu com o nome dele entalado na garganta. Sabia que o tinha deixado lá. Inteiro por dentro, mas trancado. E as pernas... as pernas a empurrar para fora, para a vida, ao preço do resto do mundo.

Joaquim não a viu sair. Ficou no altar, regendo o vazio.

Quem passa de barco pela baía, quando a serração desce da serra e o sal pesa no ar, ainda escuta. Seu Ernesto faz o sinal da cruz e puxa o motor mais rápido. Da água, the canto chega bonito. Muitas vozes, todas certas, todas iguais. Um coral que nunca para.

É uma voz só.