Tadeu Everton Zamoiski
Eu categorizo coisas. É o que eu sempre fiz. Planilha, padrão, desvio. Sempre achei que tudo tinha padrão.
Até a Helena ir embora e o apartamento ficar quieto de um jeito que não era silêncio.
Ela levou o que prestava. Ficou o sofá com o afundado do corpo dela, um colchão no chão e o Cinza.
Vira-lata cinzento, orelhas caídas. Ficou comigo porque ela disse, olhando para o lado, que não tinha tempo para ele. Eu olhei para o cachorro. Ele olhou para mim. Foi mais honesto que o resto da separação.
Trabalhava de casa, comia em pé na pia, deixava a louça virar torre, o detergente escorrer até o cotovelo enquanto olhava pela janela sem ver nada. Cinza dormia embaixo da mesa, me seguia no corredor, deitava no tapete do banheiro. Quando eu chorava, ele vinha lamber minha mão.
Na primeira noite, onze horas, ele rosnou para o canto. Aquele entre a estante e a janela da sala. Só parede, a poeira ali mais escura que no resto, quase úmida, com uma tomada que nunca funcionou, um buraco redondo e preto do tamanho de um dedo.
Eu fiquei com o copo parado na mão.
— Cinza.
Parou. Me olhou e deitou.
Na segunda noite, onze horas de novo. Onze era a hora em que eu fazia merda. Em que abria o celular para ver se a Helena tinha postado alguma coisa. Daquela vez veio um cheiro rápido de cloro com terra molhada, vindo do canto. Achei que era da pia. Ignorei.
Na terceira noite apareceu ela. Foto antiga, viagem, rindo com um cara cortado na borda. Fiquei olhando mais tempo do que devia.
Cinza levantou a cabeça, olhou para o canto e rosnou.
Fechei o aplicativo. O rosnado parou.
Abri de novo e continuei olhando para o rosto dela. Enquanto eu olhava, ele ficou encarando o canto e rosnou de novo.
No dia seguinte eu testei. É o que eu sei fazer.
Pensei na Helena de propósito. Nome, rosto, voz. Ele olhou para o canto e rosnou.
Parei de pensar. Parou.
Pensei no meu chefe. Nada.
Pensei numa vez na escola, quando roubei um compasso da mochila de um colega e deixei ele levar a culpa. Cinza olhou para o canto e rosnou.
Teve uma noite em que eu chorei e ele não veio lamber minha mão. Ficou no sofá, olhando para o canto.
Ele não me consolava mais. Ele me entregava.
Levei-o ao veterinário. Nove anos, coração forte. A veterinária escutou o peito dele e disse que não tinha nada errado.
Liguei para a Helena uma vez. Só para ouvir a voz.
Ela atendeu e disse:
— Você nunca contou nada que doeu de verdade.
Eu disse que o Cinza estava bem. Ela desligou.
A louça virou torre de novo. O colchão continuou no chão. Tem coisa que a gente aprende a não olhar. Eu aprendi cedo.
Até a noite do prato.
Eu estava lavando um prato e da água da pia subiu aquele cheiro de novo, cloro com terra molhada, mas agora forte. Quintal com poço.
E o nome veio.
Falei em voz alta, para o Cinza.
— Wesley Santos.
Verão. Eu tinha sete anos. Conheci um menino magro que ficou três dias na casa do fundo da rua. A gente passava a tarde num terreno baldio atrás das casas. Um pedaço de compensado cobria o poço. Nós dois arrastávamos a tampa para o lado e jogávamos pedras. Lá embaixo, só lama e escuridão. Ele ria de cabeça para trás, como se soubesse de alguma coisa que eu não sabia, e dizia que não tinha fundo. Aquela risada me irritava.
No segundo dia a mãe dele gritou do portão:
— Wesley Santos, pra dentro!
No terceiro dia eu levei a pedra maior. Tive que usar as duas mãos.
Ele estava na beira, curvado, olhando lá para baixo e rindo.
Eu falei:
— Então prova.
Empurrei. Com as duas mãos nas costas finas. Foi fácil.
Ele não gritou. Fez só um barulho curto, de ar saindo. Depois um barulho de saco caindo em lama.
Fiquei olhando. Lá embaixo não refletia nada. Só lama.
Voltei para casa e nunca contei. No outro dia a casa estava fechada, janelas escuras, como se nunca tivesse morado ninguém ali.
O prato ainda estava na minha mão, ensaboado. De costas para a sala, las mãos na pia.
Cinza não rosnou.
Levantou a cabeça devagar. Não olhou para o canto. Olhou para mim, com as orelhas erguidas e o focinho enrugado. Depois, olhou por cima do meu ombro.
— Cinza.
Ele não abanou. Não deitou.
Latiu. Curto, agudo. Para o que estava atrás de mim.
A água continuava correndo na pia e eu não escutava mais.
Senti frio entre as omoplatas. Duas mãos pequenas, as palmas abertas.
Decidi não virar.
Tentei categorizar. Reflexo, luz, cansaço. Sem padrão, só desvio.
Limpei o vidro com o antebraço. Nada de mim ali. Só o vão entre a estante e a janela da sala. O canto vazio. E a tomada preta, redonda, do tamanho de uma boca de poço.
O vidro não tinha fundo.
Empurraram. Com as duas mãos. Não gritei. Saiu só o ar.
Foi fácil.