quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A Caneca

 A Caneca 

Que dia era?


Tadeu Everton Zamoiski

Meados de 2026


Nelson passou pelo 67 e esperou pelo 68. Não veio. O 69 passou e desapareceu antes que ele pudesse piscar. Reduziu a marcha. Olhou pelo retrovisor: a estrada tinha sido engolida. Não havia mais faixas, nem mato, nem céu. Só neblina. Branca, densa, viva. Seguiu.

Vinte e três anos rodando entre Curitiba e Paranaguá ensinam isso: quando a serra decide esconder alguma coisa, você não discute. O Scania cortava a garoa com os faróis baixos. A mão direita no volante, a esquerda no câmbio, o corpo fazendo o que já não precisava de pensamento. O café na garrafa térmica esfriava devagar. Ele não bebeu.

Naquele horário, a PR-277 costumava ter uma carreta a cada dois minutos. Agora, só o motor. Só a chuva batendo no teto. Só o chiado lento do limpador. Olhou para o relógio: 4h17. Saíra de Paranaguá às duas e meia. Já devia estar entrando no contorno do Atuba. Mas a estrada continuava, e não se lembrava de ter passado por Morretes, nem pela ponte sobre o Rio Sagrado, nem pelo posto onde sempre parava.

Lembrou-se do pai. Não sabia por quê. As mãos do pai cheiravam a peixe e fumo. Nas férias, subiam juntos para pescar. Na volta, paravam numa casa de madeira à beira do caminho. Uma mulher servia café. O pai sentava-se à mesa; ela ficava de pé, ao lado do fogão, olhando pela janela. O pai dizia alguma coisa — ela não respondia. Continuava olhando. Nelson lembrava-se da caneca branca com listra azul, do vapor subindo, da mão do pai envolvendo-a. Lembrava-se da casa. Lembrava-se da mulher. Não do rosto, não da voz. Só dos pés — descalços no assoalho, como quem não tem mais pressa de ir a lugar nenhum.

O pai partira assim, doze anos atrás: estrada molhada, curva cerrada, neblina igual a esta. O caminhão nunca foi encontrado. Nem ele.

Foi quando o asfalto acabou.

Não de repente. Terminou como termina uma frase: sem aviso, sem cerimônia. À frente, terra batida, mato alto dos dois lados e uma casa.

Pequena, de madeira, telhado de duas águas, varanda voltada para o caminho. Uma luz acesa na janela da frente — amarela, fraca, de lâmpada incandescente. Nelson ficou olhando. Conhecia aquele lugar. Não daquela forma, mas de outra. A casa da mulher do café.

Abaixou o olhar para as mãos no volante. Anéis de umidade. E, por um instante, jurou ver uma faixa azul riscando o plástico escuro do painel, fina, como traçada com caneta. Piscou: sumiu.

Desligou o motor.

O silêncio caiu pesado. A chuva passou. Desceu. O barro grudou nas botas. Ficou parado diante da gradeira.

A porta abriu-se.

Uma mulher apareceu. Cabelo preso, vestido de algodão, pés descalços no chão de tábuas. Olhou para ele como se estivesse esperando há muito — e não tivesse dúvida de quem chegava.

— Você voltou — disse.

Ele não respondeu.

— Entra. O café está pronto.

Olhou para o caminhão. Depois, para a estrada de terra que sumia no brejo. Depois, para ela.

— Só um café — disse.

A cozinha era estreita, com fogão a lenha, mesa tosca, janela voltada para a mata. Cheirava a café passado e madeira úmida. A mesa estava posta para dois. Sentou-se. Ela ficou ao lado do fogo e serviu. A caneca veio branca, com uma listra azul. Exatamente como lembrava.

— O açúcar está na lata — disse.

Ele não tocou. Olhou pela janela: mato denso, sem fim. Nenhuma saída do outro lado. Nada.

— A senhora mora aqui sozinha?

— Agora.

— E antes?

Ela virou o rosto para a vidraça. Ficou assim.

O silêncio cresceu, enchendo o espaço entre os dois. A outra cadeira permanecia vazia. Depois, ele pegou a caneca e bebeu. Quente, forte, do jeito que o pai gostava. Do jeito que ele também gostava.

— Que dia é hoje?

— Outubro.

— Que dia?

— O tempo não corre.

Pousou a caneca. A listra parecia mais grossa.

— Preciso ir. Tenho carga para entregar em Curitiba.

— Sempre esteve aqui.

— Como assim?

— Às vezes levam aonde se deve estar.

Levantou-se. A cadeira raspou no assoalho. Olhou para a porta, depois para ela, depois para a caneca. A listra estava torta.

— Vou embora.

Ela não se moveu.

— O caminho não sai. Só fica.

Saiu. A chuva havia parado, mas a neblina era mais densa, colada ao chão como algodão molhado. O caminhão não estava onde o deixara.

Andou em círculos. Terra batida, sem rastro. Uma poça refletia o branco do nevoeiro. Voltou à porta: fechada, escura. Bateu — ninguém respondeu. Contornou a casa. Nos fundos, um poço e uma araucária. Embaixo da árvore, uma cadeira de balanço vazia, movendo-se lentamente, como se alguém tivesse acabado de se levantar.

Voltou para a frente.

No lugar do caminhão, uma placa. Verde, letras brancas, torta. No canto, uma marca azul.

Km 68

Só ele. Nada mais.

Tirou o celular. Sem sinal. A tela marcava 4h17. O número não mudava. Guardou. Olhou de novo depois de um minuto: 4h17. O tempo havia parado mesmo.

A luz da janela acendeu-se de novo. Ela apareceu na varanda.

— Você esqueceu a caneca — disse.

Ele olhou para a mão direita. Lá estava ela: branca, listra azul fina e nítida.

Bebeu.

Baixou a caneca. A listra não estava mais lá. E na superfície lisa, por um instante — não era ele. Era o pai. Jovem. Olhando.

Piscou. Sumiu.

Entrou. A porta estava entreaberta. Nunca tivera tranca.

A cozinha estava vazia. O fogo, apagado. A mesa, ainda posta para dois. Do outro lado, uma caneca idêntica — branca, sem listra. Vazia.

Sentou-se. Ficou olhando a mata engolir a estrada. Depois, ouviu o som de um motor lá fora. Um caminhão subindo. Mesmo ronco, mesma cadência, mesmo chiado de limpador. Tinha uma mancha escura no para-lama. Igual à dele. Talvez fosse ele. Talvez fosse sempre ele. Passou devagar; sentiu o cheiro de diesel entrar pela janela aberta. Os faróis varreram a parede de madeira. Depois, o som foi minguando, sumindo no nevoeiro.

O silêncio voltou.

Olhou para a mão. A caneca. Branca, sem marca.

Levou-a aos lábios.

Faltou uma listra.

Sempre faltaria.

Lá fora, a neblina se mexeu. Alguém viria. Um dia.

Ele ficaria de pé, ao lado do fogão. Esperando.

Do jeito que ela fazia.

Do jeito que o pai fazia.

O QUARTO QUE NINGUÉM ALUGAVA

O QUARTO QUE NINGUÉM ALUGAVA
O lugar onde algumas pessoas continuam esperando

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Na terceira noite, o homem do apartamento ao lado bateu na minha porta para perguntar por que eu estava deixando a televisão ligada enquanto dormia.
Eu não tinha televisão.
Abri a porta e encontrei o vizinho no corredor, segurando uma sacola de mercado. Era um homem magro, de cabelos brancos, usando uma camiseta velha e chinelos. A lâmpada fluorescente acima dele piscava em intervalos irregulares e, cada vez que apagava, seu rosto parecia desaparecer por um instante.
— Desculpe incomodar — disse. — O som está passando pela parede.
— Que som?
— Televisão.
Olhei para dentro do apartamento.
A sala estava escura. Na cozinha, a luz permanecia acesa sobre a pia, iluminando o prato que eu havia deixado de molho.
— Eu não tenho televisão.
Ele não respondeu imediatamente. Olhou para o corredor atrás de mim.
— Está ouvindo agora?
Escutei.
Nada além do motor distante de um carro e da água correndo em algum encanamento do prédio.
— Não.
Ele apertou a sacola contra o corpo.
— Então talvez seja melhor deixar a porta do quarto fechada.
— Qual quarto?
A pergunta fez o homem piscar.
— O do fundo.
Ele voltou para o apartamento.
Antes de entrar, parou com a mão na maçaneta.
— É o mesmo carro?
— O quê?
Ele olhou para a rua.
Meu carro estava estacionado junto ao meio-fio.
— Nada.
Entrou e fechou a porta.
Fiquei algum tempo no corredor, sem saber por que aquela pergunta tinha ficado comigo.
O apartamento ficava no térreo de um prédio antigo em Matinhos, a poucas quadras da praia. Eu o alugara por dois meses para terminar um trabalho de revisão documental. Setembro deixava a cidade quase vazia. Havia prédios com todas as janelas fechadas, lojas que funcionavam somente pela manhã e ruas onde o vento espalhava areia contra as fachadas.
Eu gostava daquele tipo de silêncio.
Depois da separação, tinha aprendido a gostar de coisas que antes me incomodavam: comer sozinho, dirigir sem destino, não precisar avisar ninguém quando mudava de ideia.
Minha ex-mulher dizia que eu sempre havia confundido liberdade com ausência.
Na época, eu achava exagero.
Agora, às vezes, não tinha certeza.
O trabalho consistia em revisar documentos de imóveis antigos antes que fossem colocados à venda. Escrituras, recibos, contratos, fotografias, registros de pagamento. Eu passava horas conferindo datas e nomes.
Talvez por isso tenha reparado imediatamente quando encontrei um nome que não reconhecia.
Helena.
Estava escrito na margem de uma escritura.
Risquei.
Alguns minutos depois, escrevi de novo sem perceber.
Risquei com mais força, até quase rasgar o papel.
• • •
O apartamento tinha dois quartos. O primeiro ficava junto à sala e era onde eu dormia. O segundo ficava no fim de um corredor estreito.
A imobiliária avisara que havia infiltração.
Eu mantinha a porta fechada.
Na manhã seguinte à visita do vizinho, encontrei-a aberta.
Poucos centímetros.
Aproximei-me com a caneca de café na mão.
O cheiro veio antes de eu entrar. Parede molhada, madeira antiga, alguma coisa parecida com roupa guardada por muito tempo.
O quarto estava vazio.
Uma cama sem colchão.
Uma cadeira.
Uma janela emperrada.
No chão, junto à porta, havia uma moeda de um real.
Peguei.
A borda estava úmida.
Passei o polegar sobre a superfície e senti uma pequena aspereza.
Coloquei a moeda no bolso.
Durante o trabalho, encontrei outra coisa.
Uma fotografia antiga do meu irmão.
Não estava entre os documentos.
Estava dentro da minha própria carteira.
Fiquei olhando para ela sem lembrar quando a havia colocado ali.
Meu irmão sorria para a câmera.
Atrás dele aparecia um trecho de mar.
A fotografia tinha sido dobrada tantas vezes que começava a se desfazer no vinco.
Virei.
Não havia data.
Naquele momento, ouvi um barulho vindo do quarto.
A cadeira havia caído.
Fui até lá.
A cadeira estava de pé.
Não entrei.
• • •
Naquela noite, comprei uma televisão.
Disse a mim mesmo que precisava de algum ruído no apartamento.
Deixei o aparelho ligado enquanto preparava café.
Às duas e quinze da manhã, acordei.
A televisão estava desligada.
O som vinha do quarto.
Uma voz feminina falava baixo, como se conversasse com alguém que estava muito perto.
— Você esqueceu de levar a moeda.
Abri os olhos.
Fiquei imóvel.
A voz continuou:
— Ele vai perceber.
Então ouvi uma voz masculina.
A minha.
— Eu volto amanhã.
Levantei.
A porta do quarto estava fechada.
Acendi a luz do corredor.
Quando abri, não havia ninguém.
A televisão continuava desligada.
A moeda estava sobre a mesa da cozinha.
Eu tinha certeza de tê-la colocado no bolso.
Passei a mão pela calça.
O bolso estava vazio.
• • •
Na manhã seguinte, liguei para a imobiliária.
Perguntei sobre a antiga moradora.
— Helena? — disse a corretora.
— Sim.
Ela demorou.
— Como o senhor sabe o nome?
— Está em alguns documentos.
— Ah.
A resposta veio acompanhada de um silêncio curto.
— Ela ficou pouco tempo — continuou.
— Quanto?
— Não lembro.
— E depois?
— O apartamento ficou fechado.
— Por quê?
A mulher respirou.
— Motivo particular.
— Que motivo?
— Não sei.
Antes de desligar, ouvi a corretora perguntar:
— O senhor encontrou alguma coisa?
— O quê?
Ela não respondeu.
A ligação terminou.
• • •
Naquela tarde, encontrei cinquenta centavos dentro do bolso da camisa azul que eu usara na viagem.
A camisa estava na mala.
Eu ainda não a tinha usado.
A mancha perto da gola era antiga. Pequena, escura, quase imperceptível.
Passei o dedo sobre ela.
Cheirava a ferrugem.
Apertei o tecido entre os dedos.
Por alguns segundos, senti uma coisa quente e úmida contra a palma, como se a camisa tivesse acabado de sair da chuva.
Soltei.
O quarto pareceu menor.
Então veio o cheiro de xampu infantil.
Muito fraco.
Doce.
E uma lembrança que não chegou inteira.
Dentro do carro, meu irmão dirigia com as duas mãos no volante. O para-brisa não conseguia limpar a água suficientemente rápido. Havia uma criança chorando no banco traseiro.
Um cheiro de cabelo molhado ocupava o carro.
— Não para aqui — meu irmão dizia.
— Precisamos voltar.
— Não.
— Ela ficou lá.
Meu irmão bateu a mão no volante.
— Você prometeu que não ia deixá-la.
A criança parou de chorar.
Por um instante, ouvi uma mulher dizer alguma coisa no banco de trás.
Não consegui entender.
A lembrança acabou.
Minha mão continuava fechada sobre a camisa.
Os dedos estavam marcados pela costura.
Não sabia quem era a criança.
Não sabia quem era ela.
Não sabia onde tínhamos parado.
Só sabia que meu irmão não gostava de chuva.
Ele morreu dois anos atrás.
Pelo menos era isso que eu lembrava.
• • •
Naquela noite, a televisão ligou sozinha.
Não olhei.
Fiquei trabalhando na mesa da cozinha.
Às duas e quinze, a voz feminina voltou.
— Você não voltou amanhã.
Dessa vez, a voz masculina respondeu:
— Eu esqueci.
A televisão desligou.
Meu celular tocou.
Era minha ex-mulher.
— Você está em Matinhos?
— Estou.
Ela ficou em silêncio.
— Você encontrou o quarto?
Não respondi.
— Tadeu?
— Como você sabe?
— Você me disse.
— Quando?
Ela respirou devagar.
— Naquela noite.
— Que noite?
— A noite em que você voltou sem ele.
Minha mão apertou o celular até a borda entrar na pele.
— Meu irmão morreu.
— Eu sei.
— Então por que você fala como se ele estivesse comigo?
— Porque estava.
A ligação ficou muda.
— Você ligou para mim da estrada — continuou ela. — Disse que estava na BR-277. Chovia. Você não sabia onde estava.
— Eu não lembro.
— Você disse isso também.
— O quê?
— Que não lembrava.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
— Você perguntou três vezes onde tinha deixado a criança.
Fechei os olhos.
— Que criança?
Ela não respondeu.
— O que eu deixei para trás?
Ela demorou.
— Você nunca me contou.
A ligação caiu.
• • •
Fiquei sentado durante alguns minutos.
Não conseguia sentir os dedos da mão direita.
Depois abri a gaveta da mesa e encontrei um recibo.
Não lembrava de tê-lo colocado ali.
Era de um posto na BR-277.
Data: 17 de setembro de 2021.
Horário: 02h18.
Combustível.
Pagamento em dinheiro.
No campo da placa estava a placa do meu carro.
Meu carro havia sido comprado em 2023.
Passei o polegar sobre os números.
A tinta da placa estava descascando exatamente no mesmo ponto que aparecia no recibo.
Levantei e fui até a janela.
O carro estava lá.
Toquei na placa.
Estava fria e molhada.
Voltei para dentro.
Peguei a fotografia que encontrara na carteira.
Havia alguma coisa atrás dela.
Uma anotação.
02h15. Não deixe ele dormir.
A tinta estava borrada nas últimas duas palavras.
A letra parecia minha.
Não parecia apenas.
Era a minha letra.
Reconheci o jeito de fazer o número 2, com a curva quase fechada.
Virei a fotografia.
Meu irmão continuava sorrindo.
Por algum motivo, comecei a raspar a unha sobre a borda do papel.
Uma vez.
Duas.
Até sentir a unha doer.
O prédio estava completamente silencioso.
Nenhuma televisão.
Nenhuma descarga.
Nenhum carro passando.
Só a chuva começando do lado de fora.
• • •
Então ouvi a cadeira arrastar no quarto.
Dessa vez entrei.
A janela estava aberta.
A cama continuava sem colchão.
Sobre a cadeira havia três moedas.
Um real.
Cinquenta centavos.
Vinte e cinco centavos.
E a chave do meu carro.
Aproximei-me.
A chave estava molhada.
Peguei.
O cheiro de terra subiu da palma da minha mão até a garganta.
Meu joelho cedeu.
Apoiei-me na cama vazia.
A chuva batia na janela aberta.
E então eu estava do lado de fora do carro.
Meu irmão estava diante de mim.
Não dentro.
Do lado de fora.
Chovia.
Ele segurava uma chave.
— Se eu voltar, você abre.
— E se não voltar?
Ele não respondeu.
Atrás dele havia uma porta.
Não era a porta de um posto.
Não era a porta de uma casa.
Era a porta daquele quarto.
A mesma cadeira.
A mesma janela.
A mesma parede úmida.
Meu irmão estava do outro lado.
Eu estava entrando.
A criança chorava.
O choro vinha cada vez mais baixo.
Alguém segurava meu braço.
Uma mulher.
Senti o cheiro de xampu infantil outra vez.
Ela disse:
— Não fecha.
Eu fechei.
Depois fui embora.
Abri os olhos.
A palma da mão estava enterrada no carpete.
O tecido havia deixado marcas nos dedos.
A chuva continuava.
O relógio do celular marcava 02h15.
Levantei.
Arrumei a mala.
Não levei a televisão.
Não levei a fotografia.
Peguei apenas o recibo e a camisa azul.
As moedas permaneceram na cadeira.
Antes de sair, olhei uma última vez para o quarto.
A janela estava fechada.
A cadeira estava vazia.
Fechei a porta.
• • •
No corredor, o vizinho estava parado diante do próprio apartamento.
— Vai embora?
— Vou.
Ele olhou para minha mala.
Depois para a porta do quarto.
— Desta vez você vai levá-lo?
Não respondi.
— Eu não tenho ninguém comigo.
O homem franziu a testa.
— Tem certeza?
Entrei no carro.
Saí de Matinhos pouco depois das oito.
Na BR-277, a chuva começou antes da Serra do Mar.
Não era forte.
Era aquela chuva fina que parece não molhar o vidro até você perceber que não enxerga mais a estrada.
Parei no primeiro posto.
Abasteci.
Quando entrei novamente no carro, havia uma moeda sobre o banco do passageiro.
Vinte e cinco centavos.
Não toquei.
Liguei o motor.
O relógio marcava 02h15.
Fiquei olhando.
Os números piscaram.
02h15.
02h15.
02h15.
Peguei o celular.
Havia uma mensagem da minha ex-mulher.
Você chegou em Curitiba?
Antes que pudesse responder, outra mensagem apareceu.
Era uma fotografia.
Meu carro estava estacionado naquele mesmo posto.
Eu estava no banco do motorista.
O banco do passageiro estava vazio.
Ampliei a imagem.
No reflexo do vidro aparecia o homem do apartamento ao lado.
Ele estava do lado de fora, segurando uma sacola de mercado.
Atrás dele havia uma porta.
A porta do quarto.
No verso da fotografia havia uma frase escrita à mão:
Você já deixou ele aqui três vezes.
Reconheci a letra.
A minha.
Olhei para o banco ao meu lado.
A moeda tinha desaparecido.
A porta do passageiro se abriu.
Ninguém entrou.
Mas o banco ficou molhado.
Fiquei olhando para a água escorrendo lentamente pelo tecido.
O vidro permanecia abaixado.
A chuva caía sobre o estacionamento.
Nenhum carro passava.
Por alguns segundos, não houve nada.
Então o banco começou a afundar devagar, como se alguém estivesse se sentando.
O tecido úmido cedeu sob um peso que eu não conseguia ver.
O cheiro de cabelo molhado tomou o carro.
Meu telefone vibrou.
Uma terceira fotografia.
Dessa vez, tirada de dentro do carro.
Eu estava ao volante.
Meu irmão estava no banco do passageiro.
Ele usava a camisa azul.
A mancha perto da gola estava ali.
E, entre nós dois, sobre o console, havia uma moeda de um real.
No canto inferior da fotografia, aparecia a data.
17 de setembro de 2026.
Olhei para o painel.
02h15.
Depois olhei para a estrada.
Do lado de fora, um homem atravessava lentamente o estacionamento.
Era meu vizinho.
Ele parou junto à porta do passageiro e bateu duas vezes no vidro.
Quando abaixei o vidro, ele perguntou:
— Por que você deixou seu irmão dormindo no quarto?
Olhei para o banco ao meu lado.
Estava vazio.
A marca de um corpo permanecia no tecido molhado.
O vizinho continuava olhando para mim.
Não parecia assustado.
Parecia cansado.
Como alguém que já tinha feito aquela pergunta muitas vezes.
Então ele olhou para o banco traseiro.
Eu não quis olhar.
Foi o silêncio dele que me fez virar.
O banco estava vazio.
Mas havia uma pequena marca de mão no vidro.
Cinco dedos.
Pequenos demais para serem de um adulto.
Fiquei olhando.
O vizinho abaixou os olhos.
— Desta vez ela veio junto — disse.
Não perguntei quem.
Não consegui.
Atrás de mim, alguma coisa respirou.
Depois veio um choro baixo.
Infantil.
Tão próximo que senti o ar quente tocar minha nuca.
O relógio do painel continuava marcando 02h15.
E, no banco do passageiro, uma moeda de um real começou a rolar sozinha em direção ao meu joelho.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O RELÓGIO MARCA A HORA DA SUA MORTE

O RELÓGIO MARCA A HORA DA SUA MORTE

Algumas horas não passam. Elas esperam.


Tadeu Everton Zamoiski

Meados de 2026


A chuva começou antes do amanhecer e, quando saí de casa, Olinda parecia ter sido lavada sem que ninguém tivesse conseguido enxugá-la. A água escorria pelas paredes antigas, escurecia as pedras das calçadas e se acumulava nas partes mais baixas das ruas. Passei a mão pelo cabelo molhado e conferi o telefone.

A mensagem de Clara ainda estava na tela:

— Pai, dessa vez não inventa uma desculpa.

Eu havia recebido aquilo pouco depois das cinco.

Clara aprendera a escrever mensagens curtas depois de alguns anos tentando conversar comigo. No começo eram textos compridos, fotografias, perguntas sobre coisas que eu nem lembrava de ter prometido fazer. Depois vieram as ligações que eu deixava tocar até parar. Por fim, restavam aquelas frases que pareciam não esperar resposta.

Naquela manhã, eu tinha decidido ir.

Precisava chegar à rodoviária antes das seis para encontrá-la.

Escrevi:

— Eu vou.

Ela respondeu quase imediatamente:

— Vou esperar.

Guardei o telefone.

Dei alguns passos e parei.

Havia uma fotografia de Clara sobre a estante da sala, uma daquelas que ficam anos no mesmo lugar até deixarem de ser percebidas. Eu conseguia lembrar do vestido que ela usava, do cabelo preso de qualquer jeito, da mão segurando uma boneca. O rosto, porém, não veio à minha mente.

Voltei até a fotografia.

Toquei o vidro.

A menina continuou sorrindo.

Meu peito apertou.

Não consegui entender por quê.

Guardei a sensação e saí.

A chuva engrossou perto da Rua do Amparo. Procurei abrigo numa marquise e vi a placa antiga de uma relojoaria. A porta estava entreaberta.

Entrei mais para fugir da água do que por qualquer outro motivo.

O homem atrás do balcão levantou os olhos.

Era magro, muito velho, e tinha o hábito de passar um pano branco sobre o vidro dos relógios mesmo quando o vidro já estava limpo. Fazia aquilo com cuidado, sempre começando pelo canto inferior direito e terminando no centro, como se obedecesse a uma ordem que só ele conhecia.

— Pode esperar a chuva passar — disse.

A loja era estreita e profunda. Havia relógios nas paredes, sobre as prateleiras e dentro de vitrines antigas. Alguns tinham ponteiros; outros estavam desmontados. O cheiro de óleo de máquina misturava-se ao de madeira úmida.

— Quanto tempo até a rodoviária?

— Depende da chuva.

— Preciso estar lá antes das seis.

Ele continuou limpando o vidro.

— É importante?

— Minha filha está esperando.

O pano parou por um instante.

— Então não demore.

Foi a primeira coisa que ele disse que me pareceu estranha.

Eu já estava me afastando quando vi o relógio de bronze sobre uma mesa baixa.

Não tinha números.

Não tinha ponteiros.

Parecia incompleto.

Aproximei-me.

— Esse não funciona?

O velho colocou o pano sobre o balcão.

— Funciona.

— Como?

Ele olhou para o relógio.

— Ele não mostra a hora.

Passei o dedo pela borda da caixa.

— Então o que mostra?

— Você.

Sorri, esperando que fosse uma brincadeira.

Não era.

O bronze estava frio.

Toquei o mostrador.

Os relógios da parede permaneceram imóveis por alguns segundos. Depois, um deles voltou a funcionar. Outro também. O velho, porém, não se mexeu.

— Já pode ir — disse.

— Só isso?

— Por enquanto.

Saí.

Na calçada, a chuva havia diminuído.

Quando tirei o telefone do bolso, a tela estava apagada.

Esperei.

Ela voltou.

3h17.

Fiquei olhando por alguns segundos.

O horário não fazia sentido.

Guardei o aparelho e segui para a rodoviária.

Não cheguei a tempo.

Quando entrei no saguão, havia pessoas carregando malas, crianças dormindo sobre bancos, vendedores oferecendo café e o cheiro forte de chuva trazido pelas roupas molhadas. Procurei Clara entre os passageiros.

Não a encontrei.

Telefonei.

Chamou até cair.

Depois veio uma mensagem:

— Você não veio.

Respondi:

— Cheguei.

Demorou alguns minutos.

— Não chegou.

Fiquei parado diante do painel de horários.

Então senti alguma coisa contra a palma da mão.

Era uma fotografia.

Não sabia de onde tinha vindo.

Mostrava uma menina sentada num banco de praça. Tinha aproximadamente oito anos e usava um vestido amarelo. O cabelo estava preso com uma fita torta.

Virei a fotografia.

No verso havia uma escrita infantil:

Para o papai.

Não havia nome.

Conhecia aquela menina.

Eu sabia.

Ou achava que sabia.

Passei o resto do dia tentando encontrar Clara.

Não consegui.

Naquela noite, coloquei a fotografia sobre a mesa.

Fiquei algum tempo diante dela.

A menina sorria.

Eu reconhecia o sorriso.

Também reconhecia o vestido.

Havia uma lembrança escondida atrás daquela imagem e, por mais que tentasse alcançá-la, ela recuava.

Então veio o cheiro.

Clara costumava sair do banho com o cabelo ainda molhado, enrolado numa toalha, e o cheiro do sabonete permanecia no quarto. Eu conseguia senti-lo com uma precisão absurda.

O rosto continuava ausente.

Na manhã seguinte, já não lembrava qual era o sabonete.

O relógio apareceu na cozinha.

Estava ao lado da cafeteira.

Não havia como ter chegado ali.

Peguei-o.

Dessa vez senti raiva.

Levei o objeto até a janela e o joguei no quintal.

Ele caiu sobre a terra molhada.

Fiquei esperando alguma coisa.

Nada.

Voltei para dentro.

Naquela tarde, telefonei para a relojoaria.

Uma mulher atendeu.

Perguntei pelo proprietário.

Ela disse que não havia nenhum funcionário com aquela descrição.

— É uma relojoaria antiga, na Rua do Amparo.

Houve uma pausa.

— Conheço a rua. A loja está fechada há muitos anos.

Desliguei.

Voltei ao endereço no fim da tarde.

A porta estava fechada.

As vitrines tinham uma camada grossa de poeira.

Não havia relógios.

No chão, atrás do vidro, permanecia a marca retangular mais clara onde algum móvel ficara durante muito tempo. O ar tinha cheiro de madeira velha e, por algum motivo, ainda havia um leve odor de óleo de máquina.

Uma fotografia estava presa no lado de dentro da vitrine.

Aproximei o rosto.

Era a mesma rua.

A mesma loja.

A fotografia tinha uma data escrita no canto: 1974.

Havia cinco pessoas diante da porta.

Um homem segurava uma menina pela mão.

O rosto dele estava parcialmente escondido pela sombra.

Reconheci a camisa.

Era a que eu usava naquela manhã.

Dei um passo para trás.

A fotografia caiu.

Quando me abaixei para pegá-la, vi outra imagem atrás dela.

Uma mulher segurava um guarda-chuva vermelho.

Seu rosto estava virado para o lado.

Havia uma pequena cicatriz em forma de meia-lua perto da sobrancelha.

Clara tinha uma igual.

Eu sabia.

A lembrança veio inteira.

Uma queda.

Sangue.

Uma menina chorando.

Minha mão apertando um pano contra a testa dela.

Depois, a lembrança se desfez antes que eu conseguisse ver seu rosto.

Naquela noite, Clara mandou uma mensagem:

— Pai, você está bem?

Comecei a responder.

Parei.

Não sabia mais como chamá-la.

Escrevi:

— Filha.

Apaguei.

Tentei novamente:

— Clara.

O nome parecia correto, mas já não pertencia a ninguém dentro da minha cabeça.

Telefonei.

Ela atendeu.

— Pai?

A voz era adulta.

Isso me surpreendeu.

Eu esperava a voz de uma menina.

— Clara?

— Sim.

Fechei os olhos.

Havia alguma coisa naquela voz que eu conhecia.

Não era o timbre.

Era a maneira como ela dizia meu nome.

— Você está na rodoviária?

— Estou.

— Eu vou.

Ela ficou quieta.

Depois perguntou:

— Você sabe quem eu sou?

Minha garganta fechou.

— Sei.

Era mentira.

— Pai?

A ligação caiu.

Peguei um táxi antes do amanhecer.

Durante o trajeto, tentei lembrar da infância de Clara.

Veio primeiro a imagem de uma bicicleta encostada num muro.

Depois uma mão pequena segurando meu dedo.

A mão permaneceu.

O resto se apagou.

Eu não sabia mais de quem era aquela mão.

O motorista olhou pelo retrovisor.

— O senhor está indo para a rodoviária?

— Sim.

— De novo?

— De novo?

Ele franziu a testa.

— Peguei o senhor ontem.

Não respondi.

Continuou dirigindo.

Depois de alguns minutos, disse:

— A pessoa que o senhor procurava estava esperando.

— Minha filha.

Ele fez que sim.

— Ela parecia conhecer o senhor.

— Ela estava com um guarda-chuva vermelho?

O motorista olhou novamente pelo retrovisor.

— Estava.

— Você viu o rosto dela?

— Não.

O táxi parou diante da rodoviária.

Paguei.

Antes de fechar a porta, ele disse:

— Ela ficou esperando bastante.

Clara estava perto da entrada.

Eu soube antes de vê-la.

Havia pessoas passando, ônibus chegando, anúncios pelos alto-falantes, malas arrastando pelo chão. Ainda assim, alguma coisa me puxou naquela direção.

Então encontrei o guarda-chuva vermelho.

A mulher estava de costas.

Aproximei-me.

Ela se virou.

Era Clara.

Ou parecia Clara.

A cicatriz estava no mesmo lugar.

O rosto era diferente do que eu lembrava, mas eu já não sabia se a diferença estava nela ou em mim.

— Pai.

A palavra atravessou meu corpo.

A visão embaçou.

Ela aproximou-se.

— Você veio.

Tentei responder.

Minha voz não saiu.

Clara segurou minha mão.

A pele estava quente.

A lembrança veio antes do pensamento.

Uma menina correndo.

Uma mochila vermelha.

Minha mão fechando sobre a dela.

“Pai!”

Depois a imagem desapareceu.

Clara continuava diante de mim.

Eu sabia que ela era importante.

Só não sabia mais por quê.

— Eu conheço você?

Ela apertou minha mão.

— Conhece.

— De onde?

Ela baixou os olhos.

— Você costumava me buscar na escola.

Alguma coisa voltou.

Uma tarde de sol.

A mochila vermelha.

O banco do carro.

A voz dela dizendo meu nome.

Tentei segurar a lembrança.

Ela se desfez.

Clara encostou a testa no meu ombro.

— Eu sabia que você viria.

— Eu também.

Ela levantou o rosto.

— Não sabia.

Fiquei olhando para ela.

Havia tristeza em seus olhos.

Não havia surpresa.

Foi então que senti o peso frio no bolso.

Não tirei o relógio.

Não queria olhar para ele.

Clara tocou meu casaco exatamente onde o objeto estava.

— Você ainda está com ele.

Minha mão cobriu a dela.

— Eu não lembro de ter colocado.

Ela não respondeu.

Olhei para além de seu ombro.

Do outro lado do saguão, uma mulher abriu um guarda-chuva vermelho.

Clara não percebeu.

A mulher ficou imóvel.

A água escorria pelas pontas do tecido e formava uma pequena poça aos seus pés.

Ela olhava diretamente para mim.

Então sorriu.

Foi um sorriso discreto.

Familiar.

Meu peito doeu.

Apertei a mão de Clara.

A dor veio antes da lembrança.

Começamos a caminhar.

O relógio permanecia no meu bolso.

Eu não precisava vê-lo para saber a hora.

3h17.

Não era a hora da minha morte.

Era outra coisa.

Alguma coisa que eu já conhecia, embora não conseguisse lembrar quando tinha acontecido pela primeira vez.

Clara apertou minha mão.

Apertei de volta.

Enquanto atravessávamos a rodoviária, percebi que talvez aquela fosse a única lembrança que ainda me pertencia: a necessidade de não soltá-la.

Mesmo sem saber quem ela era.

Mesmo sem saber quantas vezes eu já a havia perdido.

Mesmo sem saber quantas vezes ainda teria de encontrá-la.

A CONTA

A CONTA
“Algumas dívidas continuam cobrando depois que ninguém mais se lembra delas.”

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Helena começou a fazer vídeos por acaso. Num domingo qualquer, tentou ensinar a receita de pão da mãe. Errou o fermento, a massa subiu demais e saiu do forno uma coisa disforme. Riu, gravou de novo e publicou. No dia seguinte, havia milhares de visualizações. As pessoas diziam que ela parecia verdadeira. Na internet, isso bastava.
Passou a filmar o que já fazia: o mercado, o almoço dos meninos, a cozinha sendo arrumada. Miguel e Davi entravam no quadro quase sempre contrariados. O marido reclamava que o celular ocupava mais espaço na mesa do que o prato dele, mas acabava aparecendo quando ela insistia.
Havia partes da vida que nunca entravam nos vídeos.
O primeiro casamento era uma delas.
Renato sabia falar de dinheiro. Transformava dívida em oportunidade e juros em favor. Helena aprendeu a ouvi-lo como quem aprende uma língua. Acreditou, por algum tempo, que ele sabia para onde iam.
Depois vieram os envelopes escondidos, os recibos com valores diferentes, os cartões que chegavam e sumiam.
Uma noite, no primeiro apartamento, encontrou uma folha dobrada dentro do livro de receitas. Na frente, em letras grandes: NÃO MEXER.
Abriu.
Números, lojas, parcelas. No final, uma palavra sozinha: Tempo.
Quando perguntou, Renato tirou o papel da mão dela.
— Algumas coisas não são da sua conta.
Foi a primeira vez que pensou que talvez não conhecesse o homem com quem dormia.
Quinze anos depois, quase não pensava mais nele.
Até o comentário.
Era um vídeo de pão queimado. Entre centenas de mensagens, uma dizia:
Você ainda está pagando.
O perfil não tinha rosto nem nome. Só números.
Apagou.
Minutos depois, veio outro:
Você não sabe fazer nada direito.
Reconheceu a frase pela maneira como estava escrita.
Bloqueou. Desligou o celular. No reflexo da tela preta, a cozinha parecia maior.
Na manhã seguinte, o cheiro de café antigo subiu ao mesmo tempo em que encontrou o pão atrás da geladeira. Estava mordido. A marca dos dentes era funda demais. No miolo, uma mancha escura.
O celular vibrou enquanto ela ainda segurava o pão.
Lembra da cozinha?
Bloqueou.
Da outra casa.
A fotografia chegou no mesmo instante.
Ela. Mais jovem. Sentada à mesa da cozinha antiga com um bebê no colo. Renato ao fundo, segurando uma folha.
A chuva na janela. A panela esquecida. A roupa molhada perto da porta.
Na folha que ele segurava, estava escrito, com a letra dela:
DEVEDOR.
Jogou o pão no lixo. Lavou as mãos duas vezes. Foi buscar a caixa de documentos.
Encontrou a lista. No final: Tempo.
No verso:
Você ainda não pagou o que tirou de mim.
Rasgou até não sobrar pedaço grande o bastante para formar uma palavra.
Naquela noite, a cozinha antiga voltou. A água escorrendo pelo vidro. O pano de prato no chão. O bebê chorando em outro cômodo. Renato segurando a folha.
— Você acha que eu não sei?
A voz dela não saía.
— Você sabe que não é meu.
Acordou às 3h17.
A cozinha estava escura. Acendeu a luz.
Havia uma xícara sobre a mesa. Branca, rachada na borda. Da casa antiga. Quente.
Recuou.
Só então viu as outras três. Quatro xícaras.
Na manhã seguinte, contou os pratos. Quatro.
No jantar, colocou cinco sem perceber. Miguel perguntou, sem malícia:
— Mãe, quem é o homem que você chama dormindo?
Guardou o quinto. O rosto ficou quente.
Naquele dia, encontrou a consulta médica. Seu nome. Data de quinze anos atrás. Endereço em outra cidade.
Na margem, com a letra dela: não contar a ninguém.
Um recibo de hotel. Um calendário com onze meses riscados.
O corpo lembrou primeiro.
Um quarto branco. Cheiro de desinfetante misturado com chuva. Uma cortina. Uma mulher dizendo:
— Você precisa decidir.
Helena olhou para o bebê. A caneta estava na mão. Apagou o sobrenome de outro homem da certidão com a borracha até restar só a mancha cinza do grafite. O papel quase rasgou. Escondeu o documento.
Renato parado diante de uma porta. E a frase que ela mesma dissera, baixa, para o bebê:
— Ele nunca vai saber. E você também não.
À noite, no jantar, olhou para Davi. A curva do queixo. A maneira como segurava o garfo.
O marido percebeu.
Mais tarde, encontrou-o na cozinha, mexendo nos papéis.
— Você fala o nome dele dormindo. Desde que o Davi nasceu.
Pegou o celular.
— Vou procurar ajuda.
— Não.
Ele a encarou. Havia medo nele.
— Então descubra antes que eu descubra sozinho.
Saiu.
Naquela noite, tentou gravar.
Sentou diante do celular. Respirou.
— Tem coisas que a gente passa tanto tempo tentando esquecer…
A voz falhou.
Quando abriu os olhos, o celular mostrava que ela estava ao vivo.
Não havia iniciado a transmissão.
A tela mostrou a cozinha. Por alguns segundos, a imagem tremeu e a cozinha antiga se sobrepôs à atual: a mesma mesa, a mesma chuva, Renato ao fundo.
Uma mão pálida apareceu sobre a mesa. Aliança no dedo.
Helena deixou o celular cair. A transmissão continuou.
A voz que saiu do alto-falante era quase a dela, só que mais velha, mais cansada, dizendo as mesmas palavras que ela tentara gravar, distorcidas:
— Tem coisas que a gente decide esquecer… e depois elas cobram.
Os comentários subiam.
Você sabe de quem é.
A conta continua aberta.
Na transmissão, alguém estava sentado na quinta cadeira. De costas.
Davi apareceu na porta. Olhou para o celular.
— Ele quer saber.
— Eu não devo nada.
Davi segurou o olhar dela.
— Deve.
A cadeira rangeu sozinha.
O marido parou no corredor. Olhou para a cadeira vazia. Depois, sem dizer nada, puxou-a e sentou.
Helena sentiu o gosto de metal na boca.
A voz veio da cozinha. Não do telefone. Era quase a dela.
— Você nunca pagou.
O marido não se moveu. Apenas ocupou o lugar da verdade que ela se recusava a nomear.
A lembrança veio inteira.
O quarto branco. O cheiro de desinfetante e chuva. A borracha raspando até a mancha cinza. O sobrenome desaparecendo. A frase dita baixa para o bebê.
A transmissão terminou. A tela ficou preta.
Apareceu uma última frase:
A CONTA ESTÁ NO SEU NOME.
A chuva diminuiu.
Miguel e Davi estavam no corredor. O marido continuava sentado. Ninguém falava.
Helena olhou para a mesa.
Quatro pratos.
Ouviu a cadeira.
Quando olhou de novo, eram cinco.
O quinto estava sujo e quente.
Ela não o tirou.
Olhou para Davi.
Davi não desviou.
Ao lado do quinto prato, a marca de uma xícara ainda úmida.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

CAFÉ COM SAL

CAFÉ COM SAL
Onde algumas promessas continuam sendo feitas

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

A chave girou com resistência, e Ademir empurrou a porta com o ombro. Antes de entrar, sentiu cheiro de café recém-passado, embora fizesse quarenta e um dias que Dona Iracema morrera num quarto de hospital em Ponta Grossa e doze anos que ele não dormia naquela casa.
Voltara para esvaziá-la, separar documentos, vender os móveis e fechar a porta pela última vez. Não pretendia levar quase nada, talvez algumas fotografias e o caderno de receitas. O restante poderia desaparecer junto com a casa, uma construção pequena de madeira pintada de azul-claro, numa rua de paralelepípedos irregulares que Ademir ainda reconhecia pelo barulho. Os pneus dos carros produziam um estalo seco ao passar diante da janela, e sua mãe costumava reclamar daquele ruído todas as manhãs, como se o mundo inteiro estivesse passando dentro do quarto dela.
Doze anos desde a briga que nenhum dos dois soube terminar. Às vezes Ademir pensava que fora embora porque a mãe o culpava pela morte do pai; em outras, suspeitava de que precisava acreditar nisso para justificar o tempo que passara longe. Iracema tinha o dom de transformar silêncios em acusações. Ou talvez Ademir tivesse passado doze anos fazendo isso sozinho.
Largou a mala no sofá e ficou olhando para a colcha de crochê dobrada sobre o encosto. Iracema dobrava tudo daquele jeito, toalhas, lençóis, camisetas, como se a desordem do mundo pudesse ser vencida com dobras perfeitas.
Na cozinha, a pia estava seca, o pano de prato pendia do gancho, alinhado com a borda do armário, e a louça estava guardada. Abriu a geladeira por reflexo e encontrou apenas o cheiro de plástico frio das coisas que ficaram sem uso. Fechou a porta e viu que o ímã continuava no mesmo lugar.
Deus proverá.
As letras douradas estavam tortas porque uma das pontas havia perdido a força. Ademir pensou em endireitá-lo, mas deixou como estava.
Foi no quarto que percebeu a primeira coisa que não podia estar ali.
A cama estava esticada, mas não arrumada. Havia uma depressão leve no travesseiro e uma dobra no lençol junto ao lado direito, como se alguém tivesse acabado de se levantar.
Ademir permaneceu na porta. Sua mãe morrera no hospital e, depois da queda, nunca mais voltara para casa.
Ligou para Dona Zilda.
“A senhora entrou aqui depois que minha mãe morreu?”
“Não, filho. Só entrei para regar as plantas durante a internação.”
“A cama está mexida.”
Dona Zilda não respondeu imediatamente. Quando falou, sua voz havia mudado.
“Você lembra daquele aniversário?”
Ademir continuou olhando para a cama.
“Qual?”
“Quando você tinha sete anos.”
“Por quê?”
Ela respirou fundo.
“Você gostava de bolo de morango.”
Ademir sentiu alguma coisa apertar dentro do peito.
“Minha mãe não fazia bolo de morango.”
“Fazia quando você era pequeno.”
“Depois não fez mais.”
“Depois daquele aniversário, não.”
Ademir não perguntou o que ela queria dizer. Dona Zilda também não explicou.
Naquela noite, dormiu no sofá. Às três e dez da manhã, acordou com um clique metálico vindo da cozinha e reconheceu o som antes mesmo de abrir os olhos: o botão do fogão, a boca direita, justamente aquela que sua mãe sempre usava porque dizia que a esquerda demorava a pegar.
Levantou-se e foi até a cozinha. O fogão estava desligado, mas a boca direita ainda estava morna, não quente, apenas morna, como se tivesse sido usada havia pouco.
Na manhã seguinte, a cozinha estava limpa e a colcha dobrada sobre o sofá, embora Ademir tivesse deixado tudo como estava na noite anterior.
Passou o dia inteiro fora.
Quando voltou, havia uma xícara sobre a mesa, com café fumegante dentro.
Ficou olhando até a fumaça desaparecer. Depois pegou a xícara e a lançou contra o ladrilho. Ela se partiu, e Ademir varreu os cacos, colocou tudo num saco de lixo e saiu.
Dormiu num hotel perto da rodoviária.
Na manhã seguinte, voltou à casa e encontrou a xícara sobre a mesa, inteira e fria, sem uma gota de café.
Naquela tarde, desmontou o fogão. Fechou o registro, retirou os botões, soltou as peças e deixou tudo espalhado pelo chão. Antes de sair, pegou o botão da boca direita e o colocou no bolso.
Voltou pouco antes das dez.
O fogão estava montado.
O botão da boca direita estava no lugar.
Ademir levou a mão ao bolso.
O botão ainda estava ali.
Não conseguiu decidir qual dos dois o assustava mais.
A xícara estava sobre a mesa, com café dentro.
Dessa vez, bebeu.
O café estava forte e sem açúcar. Havia, porém, alguma coisa estranha no gosto, uma lembrança que parecia escondida dentro da outra.
Foi até o armário e encontrou uma lata antiga de café. No fundo havia uma pequena mancha branca, endurecida junto ao metal. Tocou com a ponta do dedo e provou.
Sal.
A lembrança veio sem aviso.
A bancada era alta demais, a colher escorregava dos dedos pequenos e a xícara parecia pesada demais para as duas mãos. O pote de açúcar estava ao lado do sal, e Iracema permanecia sentada à mesa, chorando em silêncio.
Ademir tinha sete anos e queria ajudá-la.
Vira o pai preparar café tantas vezes que achou que sabia fazer. Colocou açúcar, depois acrescentou sal sem perceber e empurrou a xícara pela mesa com as duas mãos.
Iracema bebeu.
Ele esperou uma careta, mas ela apenas engoliu. A mão que segurava a xícara tremeu uma única vez, e seus olhos permaneceram baixos.
“Ficou bom.”
Foi só então que outra lembrança apareceu.
A porta da cozinha fechando, o pai dizendo que no domingo os dois iriam pescar, a caixa vermelha de apetrechos encostada perto da porta e a voz dele dizendo para não mexer no anzol.
Ademir lembrava da camiseta do pai, da caixa, da voz e do cheiro de café. Quando tentou lembrar do rosto, encontrou apenas um espaço vazio.
Foi até a mesa e abriu a pasta onde guardara os documentos.
Encontrou a fotografia.
Ele estava sentado à mesa, usando uma camiseta grande demais, enquanto Iracema aparecia atrás dele, com uma das mãos sobre seu ombro.
No verso, havia uma anotação na letra dela:
“Ademir, sete anos. O último aniversário antes de tudo mudar.”
Abaixo da fotografia estava o atestado de óbito do pai.
Acidente de trabalho.
Ademir leu a data.
A mão apertou a fotografia até dobrar uma das pontas.
Leu novamente.
O pai morrera no dia seguinte ao aniversário.
O joelho perdeu força, e ele se sentou no chão.
Vieram o telefone, os adultos falando baixo, a mãe sentada à mesa e a pergunta que ele fizera sobre quando o pai voltaria. Depois, a mão dela apertando o pano de prato.
Só isso.
Ademir olhou para a fotografia.
“Você nunca disse.”
A casa permaneceu quieta.
Passou o dedo pelo rosto jovem da mãe.
“Eu também nunca perguntei.”
O fogão fez um clique.
A boca direita acendeu.
A chama azul tremulou diante dele.
Ademir não recuou. Aproximou-se e disse:
“Desculpa.”
A chama continuou acesa.
Ele ficou esperando, mas a cozinha permaneceu imóvel.
“Eu devia ter perguntado.”
Desligou o fogão.
A chama desapareceu.
No quarto, o colchão rangeu duas vezes, como quando alguém se sentava na beirada da cama.
Ademir não foi até lá.
Permaneceu na cozinha, com a fotografia nas mãos.
Naquela noite, dormiu no quarto.
Não sonhou.
De manhã, a cama estava feita. Desfez os lençóis e arrumou tudo novamente.
Passou os dias seguintes esvaziando a casa. Doou roupas, móveis e livros, separou documentos e guardou fotografias, algumas cartas e o caderno de receitas.
No fundo do caderno encontrou uma página dobrada.
Havia uma anotação antiga:
Domingo: bolo de morango.
Abaixo, uma linha riscada com força.
Não havia outra palavra.
Na última manhã, parou diante da geladeira. O ímã continuava torto.
Dessa vez, endireitou-o.
Deus proverá.
Pegou a mala e voltou uma última vez à cozinha. A xícara estava no escorredor, lavada e vazia.
Ademir não a levou.
Fechou a porta e desceu a rua sem olhar para trás. Os pneus dos carros ainda produziam o mesmo estalo nos paralelepípedos.
Na praça, entrou numa padaria.
“Um bolo de morango.”
A atendente apontou para a vitrine.
“Inteiro?”
Ademir ficou alguns segundos olhando o bolo. O cheiro doce da cobertura trouxe, por um instante, o cheiro de café da casa.
“Metade.”
Sentou-se num banco e comeu uma parte devagar. Antes de guardar o restante, passou os dedos pela tampa da caixa.
Guardou a outra metade no banco do passageiro.
Só dentro do carro percebeu o que havia feito.
Ficou olhando para a caixa e depois para a fotografia no porta-luvas.
Ademir, sete anos.
O último aniversário antes de tudo mudar.
Encostou os dedos na tampa da caixa mais uma vez e ligou o carro.
Na estrada, depois do pedágio de Ponta Grossa, começou a chover. Ligou o rádio, mas o desligou quase imediatamente. Abriu um pouco a janela, e o vento frio entrou no carro.
Foi então que sentiu o cheiro.
Café forte, recém-passado.
Ademir olhou para o banco do passageiro.
Estava vazio.
Olhou para o retrovisor, onde a estrada desaparecia sob a chuva.
O cheiro continuava.
Segurou o volante com as duas mãos.
Os dedos cheiravam a café.
Ademir não parou.