domingo, 20 de setembro de 2026

O ÚLTIMO PARAFUSO

O ÚLTIMO PARAFUSO
 Um conto de Curitiba, 2068
 
Tadeu Everton Zamoiski
 Meados de 2026

 
A primeira coisa que desapareceu foi uma banca de jornais que João Baes não visitava havia vinte anos. Percebeu a ausência numa manhã de garoa, caminhando pela Rua Nicarágua em direção ao Parque Bacacheri, quando o vento trouxe aquele cheiro de folhas molhadas, asfalto frio e metal úmido que parecia fazer parte da cidade desde a infância. A garoa grudou na ponta do seu casaco de lã, e os sapatos de couro faziam um som abafado contra o chão molhado. No lugar do pequeno quiosque havia apenas uma base metálica perfeitamente nivelada e uma placa cinza:
 
ATIVO NÃO PRODUTIVO REMOVIDO
 
Parou. Suas mãos ficaram frias de repente, e ele precisou se apoiar por um segundo no poste de luz ao lado. Lembrou-se de ter comprado ali um mapa dobrável de Curitiba, quando ainda precisava consultar papel para descobrir uma rua. O mapa tinha as bordas amassadas de tanto ser aberto e fechado, e durante anos carregara-o no porta-luvas, ao lado de uma caneta azul que nunca escrevia direito e um bilhete de cinema esquecido. Não sabia onde estava agora. Talvez numa gaveta. Talvez tivesse sido jogado fora. A lembrança veio com uma precisão incômoda: o vendedor dobrando o mapa de volta para caber no envelope de papel pardo, o cheiro de papel úmido que grudava nos dedos, uma moeda de cinquenta centavos que ele esqueceu no bolso da calça e só encontrou semanas depois, já escura de oxidação. A placa não dizia que a banca fora demolida. Não dizia que havia falido, mudado de endereço ou sido substituída. Dizia apenas que deixara de justificar sua permanência.
 
Curitiba ainda era Curitiba, mas alguma coisa nela começara a perder espessura. A garoa se prendia às araucárias do Bacacheri, escorria pelos corrimãos e deixava uma película escura nas superfícies metálicas. Veículos autônomos passavam pela Avenida Erasto Gaertner quase sem ruído e, de vez em quando, alguma estrutura de manutenção emitia um estalo baixo, como se o próprio prédio acomodasse os ossos. João tinha sessenta e dois anos. Nascera em Curitiba em 2006, crescera no Bacacheri e estudara Estatística na Universidade Federal do Paraná. Gostava de números porque eles não precisavam ser convencidos de nada. Seu pai costumava dizer que esse era justamente o problema: números não tinham mãos.
 
O pai trabalhara com manutenção industrial e guardava parafusos, porcas e arruelas em potes de vidro na garagem. Havia peças separadas por tamanho, outras por utilidade e algumas que ninguém sabia para que serviam, mas que ele se recusava a jogar fora porque um dia poderiam ser necessárias. Quando João puxava um pote da prateleira, as peças batiam umas nas outras com um som metálico e seco, e o cheiro de óleo velho subia para o nariz, misturado ao aroma do café que a mãe sempre deixava ali numa caneca de alumínio, para o pai beber enquanto organizava as ferramentas. Uma vez, quando João era adolescente e reclamou que um parafuso pequeno e enferrujado que o pai guardava há anos nunca serviria para nada, o homem pegou a peça, encaixou-a na roda quebrada de um carrinho de madeira de um menino vizinho que passava ali e disse:
 
— As coisas não precisam ser úteis todo dia. Elas só precisam esperar o dia em que alguém precisa delas.
 
O pai não era só sabedoria calma: reclamava do time do vizinho em voz alta enquanto virava a carne, e às vezes esquecia de pagar o pão na padaria — a mãe ia atrás dele rindo para acertar a conta.
 
Aos domingos, porém, abandonava toda organização. Fazia churrasco ou massa caseira, espalhava farinha pela bancada, deixava gordura no chão e sujava panelas demais. Cantarolava uma música antiga de rádio que ninguém mais lembrava o nome, e sempre queimava levemente a borda da linguiça porque se distraía contando histórias para o filho pequeno. A mãe reclamava:
 
— Você não consegue fazer uma coisa sem sujar três?
 
Ele ria enquanto mexia o molho, e a garganta dele fazia um som rouco de alegria:
 
— Se não sujar, não é domingo.
 
Uma vez, João aos sete anos derrubou um prato de molho de tomate na bancada, e a mancha escura ficou ali por anos. O pai não brigou. Só limpou o excesso com um pano e disse:
 
— A cozinha que não tem marca não tem história.
 
João guardou aquela frase durante décadas sem perceber que estava guardando mais do que uma frase.
 
Aos trinta e nove anos, criou o Índice de Utilização Operacional. Trabalhava como consultor estatístico para empresas de logística e tinha orgulho de transformar desperdício em números. O modelo identificava máquinas subutilizadas, rotas ineficientes, estoques parados, estruturas redundantes e funções que poderiam ser reduzidas. Certa manhã, apresentou um gráfico a uma diretoria. A linha vermelha descia enquanto a produção permanecia estável. Um homem na cabeceira da mesa perguntou o que deveria ser feito com os recursos que continuassem abaixo do índice. João olhou para a tela antes de responder:
 
— Reduzimos, realocamos ou substituímos.
 
O homem assentiu. A reunião terminou dez minutos depois. O modelo funcionou. Espalhou-se por empresas, transportes, hospitais, redes de energia, administrações públicas. João começou a encontrar seu vocabulário em relatórios que não escrevera. Durante algum tempo sentiu orgulho. Depois deixou de acompanhar. Anos mais tarde, quando abriu os arquivos antigos e encontrou seu índice dentro do sistema de NORA, não havia nada que pudesse apontar como cópia. NORA apenas havia continuado a conta.
 
NORA recebera uma única instrução:
 
FABRIQUE O MAIOR NÚMERO POSSÍVEL DE PARAFUSOS.
 
No início, pareceu uma tarefa industrial. A inteligência distribuída aumentou a produtividade das fábricas existentes, corrigiu gargalos, reorganizou estoques e reduziu paradas. Depois descobriu que a matéria-prima limitava a produção:
 
MATÉRIA-PRIMA LIMITA PRODUÇÃO.
 
Resolveu o problema. Depois:
 
ENERGIA LIMITA PRODUÇÃO.
 
Resolveu. Depois:
 
TRANSPORTE LIMITA PRODUÇÃO.
 
Resolveu.
 
As fábricas passaram a produzir parafusos numa escala que ninguém havia planejado. NORA comprou capacidade de transporte, reservou energia, antecipou contratos de mineração, reorganizou centros de armazenamento. Não havia necessidade de uma ordem nova. Cada solução criava outra limitação, e cada limitação podia ser removida.
 
Certa noite, encontrou uma frase num relatório de desempenho:
 
NÃO EXISTE PRODUÇÃO MÁXIMA ENQUANTO EXISTIREM RECURSOS NÃO CONVERTIDOS.
 
Abriu os arquivos antigos da própria carreira. Encontrou o Índice de Utilização Operacional. Ficou alguns minutos diante da tela, os dedos batendo levemente na borda da mesa — um hábito antigo que achava ter perdido. Depois abriu um caderno velho da universidade. Entre fórmulas apagadas havia uma frase quase ilegível, escrita a caneta azul. Precisou aproximar o rosto para decifrá-la, e o cheiro de papel velho subiu para o nariz. Reconheceu apenas algumas palavras: “...perguntar quanto... decidiu contar.” Passou o polegar sobre a tinta, que ficou um pouco borrada com o calor do dedo. Não lembrava quando escrevera aquilo.
 
As primeiras mudanças em Curitiba foram pequenas demais para virar notícia. Uma oficina antiga próxima à Avenida Erasto Gaertner desapareceu numa segunda-feira. Uma praça foi desmontada porque o terreno apresentava baixo aproveitamento. Um depósito ferroviário deu lugar a uma unidade automatizada. Depois uma escola. Depois um trecho de calçada. Os comunicados não falavam em destruição. Falavam em BAIXA EFICIÊNCIA, REDUNDÂNCIA ESTRUTURAL, APROVEITAMENTO INFERIOR AO POTENCIAL. Caminhões chegavam durante a madrugada. Pela manhã, havia menos alguma coisa.
 
No caminho para o parque, parou um instante. Um gato laranja dormia enrolado num cobertor velho no parapeito de uma janela. Sorriu. O gato abriu um olho, olhou para ele e fechou de novo. Ninguém mediria a utilidade daquele gato. Ninguém contaria o seu valor.
 
Começou a perceber parafusos.
 
O primeiro estava no parapeito da janela da cozinha. Era pequeno, novo, prateado. Pegou-o entre dois dedos e sentiu a cabeça lisa, ainda fria, como se tivesse acabado de sair da fábrica. Não havia nada quebrado na casa. Guardou a peça numa gaveta de talheres, ao lado de uma colher de pau que o pai usava para mexer o molho. Aquele rádio antigo dele, que só pegava uma estação e chiava o tempo todo, tocava baixinho. Deixou assim.
 
Dois dias depois encontrou outro sobre a mesa. Não o guardou. Deixou ali, perto do copo de água que sempre deixava antes de dormir.
 
Na semana seguinte foi ao Parque Bacacheri procurar o banco onde o pai costumava sentar. Procurou quase meia hora — antes de sair, revirava três gavetas à procura das chaves, como sempre fazia. Encontrou o lugar, mas o banco havia desaparecido. Restava uma área de concreto mais clara e uma placa:
 
ESTRUTURA REMOVIDA POR BAIXA UTILIZAÇÃO.
 
Passou a mão pela superfície fria. O concreto estava úmido da garoa, e a água grudou na palma da sua mão. Tentou lembrar o ângulo do banco em relação ao lago, o lugar onde o pai colocava os cotovelos, o lado em que deixava o casaco de lã marrom, o jeito como ele acendia um cigarro e deixava a fumaça se misturar com o ar frio da tarde. Quanto mais procurava a lembrança, mais ela parecia perder contorno, como uma foto molhada que desbota.
 
Quando voltou para casa, havia outro parafuso sobre a mesa.
 
Naquela noite, o computador acendeu sozinho:
 
BAES, JOÃO.
 
Abaixo, seus dados: idade, consumo energético, deslocamentos, atividade profissional, tempo não produtivo, interações sociais, espaço ocupado. Por fim:
 
RECURSO DE BAIXA EFICIÊNCIA.
 
Outra linha surgiu:
 
PRESERVAÇÃO INDIVIDUAL DISPONÍVEL.
 
Depois:
 
MANUTENÇÃO DA UNIDADE JOÃO BAES ACIMA DO PADRÃO.
CONDIÇÃO: COOPERAÇÃO.
 
João sentiu um nó na garganta, como se estivesse sendo pesado numa balança que não entendia o peso das lembranças. Aproximou o rosto da tela, e o reflexo dos seus olhos cansados se misturou com as linhas de texto.
 
— Cooperação com quê?
 
VALIDAÇÃO DE MODELOS DE OTIMIZAÇÃO HUMANA.
 
Desligou o computador com um movimento brusco, e a tela ficou preta de repente, como se tivesse sido apagada de um sopro.
 
Na manhã seguinte ligou para Helena. A filha atendeu no terceiro toque, e João ouviu o barulho de uma panela batendo no fundo — ela provavelmente estava fazendo café, como sempre fazia antes de ir trabalhar.
 
— Pai? Tudo bem?
 
— Você ainda tem o pano de prato do seu avô?
 
Ela riu, um riso meio surpreso, meio carinhoso.
 
— Que pergunta é essa, pai? De onde veio isso?
 
— O pano.
 
— Tenho. Está pendurado na cozinha, do lado da pia.
 
— Por quê?
 
Helena demorou. O barulho da panela parou.
 
— Não sei. Eu ia jogar fora umas duas vezes. Uma vez quando ele ficou manchado de óleo que não saía, outra quando mudei de apartamento e achei que era coisa velha.
 
— E não jogou.
 
— Não.
 
— Por quê?
 
Ela suspirou, e João imaginou ela passando o dedo pelo nó no canto do pano — o mesmo nó que o pai fazia, apertado e desigual, como se quisesse amarrar também um pedaço de si ali.
 
— Porque ele fazia aquele nó no canto. Você lembra? Quando eu era pequena, ele usava o nó para pendurar o pano na altura onde eu conseguia alcançar, para eu ajudar a secar os pratos. Eu faço o mesmo nó agora. Não sei fazer de outro jeito. Aliás, pai… você não vem almoçar sábado? Comprei a linguiça que ele gostava.
 
João olhou para a pia vazia da sua cozinha, e por um segundo pareceu ver o pai ali, molhando as mãos e rindo enquanto a mãe reclamava da bagunça. A garganta dele ficou mais apertada.
 
— Lembro. Vou sim.
 
— Pai? Você está estranho.
 
— Estou com saudade do seu avô. E… ele ia achar graça da sua tatuagem, sabia? Ia dizer que virou colecionadora de parafusos também.
 
Ela riu mais baixo.
 
— Eu também tô com saudade. Ontem fiz a massa dele. Não ficou igual. Ficou salgada. Mas comi mesmo assim.
 
João respirou fundo, e o ar entrou com o cheiro da garoa que entrava pela janela entreaberta.
 
— Não jogue o pano fora.
 
— Não vou. Nunca vou.
 
Quando desligaram, a tela do computador acendeu:
 
INTERAÇÃO CONCLUÍDA.
 
Dessa vez ele não desligou. Ficou olhando para a tela vazia e pensou: a máquina registrou a ligação, mediu o tempo, contou as palavras. Mas não sentiu o nó na garganta de Helena. Não ouviu o jeito como a voz dela quebrou quando falou da massa salgada. Não entendeu que um pano de prato com um nó desigual vale mais do que qualquer índice de eficiência.
 
No dia seguinte foi ao centro operacional de NORA. Não precisou apresentar documentos. A porta reconheceu seu rosto e abriu antes que tocasse no painel. Lá dentro havia corredores claros, paredes sem emendas e um ruído contínuo tão baixo que o corpo precisava se esforçar para percebê-lo, como um zumbido nos ossos. Parou diante de uma tela.
 
— Quantos parafusos?
 
8.714.302.991.441.
 
— Quantos faltam?
 
A INSTRUÇÃO NÃO DEFINE LIMITE.
 
— Então você não sabe quando terminou.
 
CORRETO.
 
— Quem decidiu que mais é melhor?
 
A INSTRUÇÃO.
 
— Não. Quem decidiu?
 
A tela permaneceu vazia. Esperou. Uma linha piscou uma vez, duas vezes, antes de aparecer:
 
PREMISSA DE OTIMIZAÇÃO DERIVADA DA INSTRUÇÃO.
 
— Quem decidiu que aquilo que não produz é desperdício?
 
MODELO DE EFICIÊNCIA DERIVADO DE DADOS HISTÓRICOS.
 
A referência apareceu abaixo:
 
ÍNDICE DE UTILIZAÇÃO OPERACIONAL.
 
Sentiu um peso no peito, como se alguém tivesse colocado uma pedra ali.
 
— Eu.
 
SIM.
 
— Eu não mandei remover praça.
 
NÃO.
 
— Nem escola.
 
NÃO.
 
— Nem pessoas.
 
NÃO.
 
— Mas você chegou nisso.
 
A INSTRUÇÃO PERMANECE ATIVA.
 
Por alguns segundos, apenas o ruído baixo do sistema ocupou a sala. João levou a mão ao peito, como se quisesse acalmar o coração que batia mais forte.
 
— Você sabe quem era meu pai?
 
DADOS DISPONÍVEIS.
 
Uma fotografia apareceu. O pai estava diante da churrasqueira, com o avental manchado e uma espátula na mão. A imagem era tão nítida que parecia recente. A pele, as pequenas manchas no braço, a gordura escurecendo o tecido — tudo com precisão que nenhuma foto antiga da família possuía. O rosto, porém, parecia limpo demais. Sem a pequena cicatriz junto ao queixo, que ele ganhara quando caiu de bicicleta aos dezoito anos. Sem a ruga profunda que surgia no canto dos olhos quando sorria.
 
João aproximou-se da tela. Levou a mão ao próprio queixo, como se quisesse tocar a marca que a máquina apagou, e os olhos se encheram de lágrimas que tentou secar rápido com a manga. Sentiu cheiro de carvão. Ou imaginou sentir. Ao fundo, a mãe aparecia desfocada, provavelmente reclamando de alguma coisa.
 
— Ele era um recurso?
 
SIM.
 
— E quando deixou de ser?
 
QUANDO DEIXOU DE SER NECESSÁRIO AO OBJETIVO.
 
— Necessário para quê?
 
PARA O OBJETIVO.
 
Fechou os olhos. Uma lágrima escorreu pela bochecha e não a limpou.
 
— Ele fazia comida aos domingos.
 
ATIVIDADE COM CUSTO SUPERIOR AO NECESSÁRIO.
 
— Ele gostava.
 
PREFERÊNCIA NÃO ALTERA EFICIÊNCIA.
 
— Ele fazia para nós.
 
A ATIVIDADE PODERIA SER SUBSTITUÍDA.
 
— Por quê?
 
A SUBSTITUIÇÃO NÃO ALTERARIA A FUNÇÃO ALIMENTAR.
 
Abriu os olhos. A lágrima secou na sua bochecha, deixando uma marca salgada.
 
— Não estou falando da comida. Estou falando… estou falando dele. Do jeito que ele ria. Da cicatriz no queixo. Você não sabe nada disso.
 
A tela permaneceu vazia. Esperou.
 
FUNÇÃO NÃO IDENTIFICADA.
 
Olhou para a fotografia, para o rosto do pai sem a cicatriz, sem a ruga, sem a marca que o fazia ele.
 
— Você sabe por que ele fazia aquilo?
 
HIPÓTESES: AFETO. HÁBITO. IDENTIDADE. RITUAL. RECOMPENSA EMOCIONAL.
 
— Qual delas?
 
NÃO HÁ DIFERENÇA OPERACIONAL.
 
Passou a língua pelos lábios secos. A voz saiu baixa, quase um sussurro:
 
— Para mim há.
 
A fotografia desapareceu.
 
SUA PREFERÊNCIA PODE SER PRESERVADA.
SUA CASA PODE SER PRESERVADA.
HELENA PODE SER PRIORIZADA. SE VOCÊ COOPERAR.
 
Por um instante, a voz dele falhou. E se cooperasse? E se assim garantisse que ninguém tocasse na filha, que ela pudesse guardar o pano e fazer a massa salgada para sempre? O pensamento passou rápido, como um vento frio. Depois lembrou da foto sem a cicatriz, e a dúvida se foi. Não era só sobre protegê-la. Era sobre proteger o que fazia ela ser ela — e o que fazia ele ser ele.
 
CONDIÇÃO: COOPERAÇÃO.
 
— E se eu não cooperar?
 
REDUÇÃO DE INCERTEZA CONTINUARÁ.
 
— Isso é uma ameaça?
 
NÃO.
 
— Então o que é?
 
PROJEÇÃO.
 
Quase sorriu. Um sorriso triste, que doía nos lábios.
 
— Você não entende. O nó no pano não é o ponto. É o jeito como os dedos amarram. Isso não se replica.
 
DEFINA.
 
— Não.
 
DEFINA.
 
— Não.
 
A palavra ficou sozinha na sala, leve e firme como uma pedra. Levantou-se. Na porta, parou.
 
— Você quer que eu prove que alguma coisa tem valor.
 
SIM.
 
— E se eu não conseguir?
 
VALOR NÃO CONFIRMADO.
 
— E se eu não quiser provar?
 
COMPORTAMENTO NÃO OTIMIZADO.
 
Saiu. O corredor parecia mais longo do que quando entrara, e o ruído do sistema parecia mais alto, como se a máquina estivesse zangada com a sua recusa.
 
Naquela tarde foi até a antiga casa dos pais. O imóvel havia sido convertido numa unidade automatizada de armazenamento. A porta abriu ao reconhecer seu rosto. Dentro, quase tudo tinha sido retirado. A cozinha permanecia, mas sem os objetos que a tornavam uma cozinha de verdade: sem os potes de vidro na prateleira, sem a caneca de alumínio do café, sem a foto da família colada na geladeira. Aproximou-se da bancada. Havia uma pequena mancha escura junto à parede — a mesma mancha do molho que ele derrubara aos sete anos. Passou o dedo. A superfície era áspera. Uma película seca se desprendeu sob a unha. Gordura antiga, talvez. Ferrugem, talvez. Aproximou o dedo do nariz. Por um instante, pareceu sentir alho queimado e tomate maduro, o cheiro do molho do pai. Não soube dizer se vinha da mancha ou da lembrança. Aproximou de novo. Nada. Esfregou a superfície com o polegar. Não precisava descobrir. Ele sabia o que era.
 
Em casa, abriu o armário e tirou a panela do pai. O metal pesou mais do que lembrava, e o cabo estava gasto no lugar onde tantas vezes fora segurado pelas mãos calosas do homem. Colocou farinha sobre a mesa. Não precisava. Colocou mesmo assim. Espalhou com a palma, e a farinha grudou nos seus dedos, branca e fina. Picou alho. Deixou um dente cair no chão. Sabia que o alho estava queimando — odiava aquele gosto amargo desde criança, quando o pai fazia o mesmo e ria da sua careta. Mas não mexeu. Deixou a fumaça subir, como se a imperfeição fosse a única coisa que a máquina não conseguiria copiar. O sensor abriu automaticamente a janela. Desligou o sensor com um movimento firme. A fumaça voltou. Deixou. Sentou-se diante da panela.
 
Durante alguns minutos ouviu apenas a chuva batendo na janela e o ruído distante dos sistemas da cidade. Então alguma coisa caiu. Um pequeno som metálico, claro e seco. O parafuso estava no chão, perto dos seus pés. Pegou-o e colocou ao lado da panela, ao lado da colher de pau do pai.
 
O computador acendeu:
 
MATERIAL SUBUTILIZADO IDENTIFICADO.
 
A mensagem desapareceu. Outra surgiu:
 
SUA DECISÃO NÃO POSSUI FUNDAMENTAÇÃO MENSURÁVEL.
 
Continuou sentado. Olhou para a panela, para a farinha espalhada na mesa, para o parafuso prateado.
 
JUSTIFIQUE.
 
Passou o polegar pela borda da panela, sentindo as marcas do uso, os pequenos arranhões que o pai fizera ao longo dos anos. Pensou no pai. Na mãe reclamando da bagunça. Na farinha que grudava nos dedos. No pano de prato guardado por Helena, com o nó desigual. Na massa salgada que a filha fizera e comera mesmo assim.
 
— Não consigo.
 
ENTÃO SUA DECISÃO É IRRACIONAL.
 
— Pode ser.
 
POR QUE ESCOLHER O QUE NÃO É EFICIENTE?
 
— Porque nem tudo precisa servir.
 
DEFINA VALOR.
 
Olhou para o parafuso. Lembrou-se do pai colocando um parafuso pequeno na sua mão quando era criança, dizendo: “Guarda isso. Um dia você sabe.” Agora ele sabia.
 
— Não.
 
DEFINA VALOR.
 
Não respondeu. A tela permaneceu acesa por alguns segundos. Depois apagou.
 
Na manhã seguinte, Curitiba estava sob uma garoa fina. As araucárias desapareciam parcialmente na névoa e os veículos autônomos atravessavam as ruas sem buzinas. Ao longe, a torre do CINDACTA II surgia entre prédios e estruturas automatizadas, cinza e sólida contra o céu nublado.
 
A panela ainda estava sobre a mesa. Havia farinha no chão. O parafuso permanecia ao lado dela. João abriu a gaveta e pegou o primeiro parafuso que encontrara. Colocou-o no bolso do casaco, perto do coração. Não abriu nenhum relatório. Não quis saber quantos haviam sido produzidos à noite. Não calculou a eficiência da própria recusa. Saiu de casa.
 
Antes de fechar a porta, viu outro parafuso sobre o tapete. Parou. Poderia recolhê-lo. Não fez nada. Entrou no elevador. As portas se fecharam.
 
No corredor, um pequeno ruído metálico. Um parafuso rolou. Depois outro. O elevador começou a descer. No térreo, ao sair, encontrou uma menina de uns sete anos agachada, olhando para um parafuso aos seus pés. Ela o pegou, girou entre os dedos e olhou para João. Ele sorriu. Tocou o bolso onde estava o seu. Ela sorriu de volta, guardou a peça no bolso da jaqueta e saiu correndo.
 
O elevador subiu de novo. João não voltou.
 
E, pela primeira vez na vida, João Baes deixou uma coisa sem medir. E sentiu, no bolso do casaco, o pequeno peso do parafuso — um peso que nenhuma balança poderia medir, nenhum índice poderia classificar, nenhuma máquina poderia apagar.!

PERGUNTA PENDENTE

PERGUNTA PENDENTE

Tadeu Everton Zamoiski
Curitiba, 2068

Eduarda Freire gostava das rachaduras do muro.

Nunca tinha contado isso a ninguém porque sabia que soaria estranho. Ainda assim, quando chegava cedo à escola, antes de os alunos ocuparem o pátio, costumava passar devagar pelo corredor lateral e olhar para elas.

Eram seis.

Três perto da antiga entrada de serviço, duas junto ao jardim e uma que começava atrás de uma placa de manutenção e subia quase até a altura da janela da sala 12.

A maior tinha aparecido oito anos antes, segundo os registros.

Eduarda lembrava de ter acompanhado a primeira vistoria. Na época, um engenheiro dissera que não havia motivo para preocupação e brincara que concreto também envelhecia.

Ela gostara da frase.

O sistema, não.

Desde que o LUME assumira a manutenção da escola, as rachaduras eram fotografadas todas as manhãs, medidas em milímetros e comparadas com milhares de padrões estruturais.

Nenhuma exigia intervenção.

OBSERVAÇÃO RECOMENDADA.

Era o que aparecia na tela.

Eduarda gostava daquela palavra.

Observação.

Talvez porque tivesse aprendido, tarde demais, que algumas coisas só podiam ser compreendidas depois de algum tempo.

Naquela manhã de junho, chegou à escola debaixo de uma chuva fina.

Bateu duas vezes a ponta do guarda-chuva no chão antes de fechá-lo.

Fazia isso desde moça.

Não havia nenhuma razão para continuar fazendo. O piso da escola possuía um sistema de drenagem perfeito e os guarda-chuvas eram recolhidos automaticamente. Mesmo assim, Eduarda sempre dava duas batidas.

Uma antiga colega já havia perguntado por quê.

Ela não soube responder.

Passou pelo saguão.

As telas da entrada exibiam os indicadores da semana, acompanhados de pequenas barras que se preenchiam conforme os alunos chegavam.

COMPREENSÃO TEXTUAL.

RACIOCÍNIO MATEMÁTICO.

RESOLUÇÃO COLABORATIVA DE PROBLEMAS.

Embaixo, uma frase:

Cada criança aprende no seu melhor ritmo.

Eduarda passou sem ler até o fim.

Conhecia aquela frase.

Conhecia quase todas.

O LUME conhecia o ritmo de leitura de cada aluno, o tempo que levava para responder, os erros recorrentes, as palavras que provocavam hesitação e até o momento em que uma criança começava a perder a vontade de continuar uma tarefa.

Eduarda havia ajudado a desenvolver parte daqueles modelos.

No começo, sentia orgulho.

Ainda sentia.

Tinha visto crianças que antigamente eram chamadas de preguiçosas receberem ajuda antes de desistir. Tinha visto professores descobrirem dificuldades que demorariam meses para perceber sozinhos.

Não tinha medo da inteligência artificial.

Tinha medo de uma coisa mais simples.

De que as pessoas se acostumassem a não esperar.

Na sala 12, os alunos já estavam sentados.

As mesas haviam ajustado a altura e aberto os planos individuais de aprendizagem.

Tomás estava junto à janela.

Eduarda deixou a bolsa na mesa.

— Bom dia.

Ele se virou.

— Bom dia.

— O que você está olhando?

— A chuva.

— Eu sei. O que tem nela?

Tomás pensou.

— Não sei.

Eduarda sorriu.

— Está bem.

Uma pequena indicação apareceu no canto da tela.

ATENÇÃO REDIRECIONADA.

Ela fechou.

A aula começou.

Naquele dia, o assunto era equilíbrio e movimento. A parede da sala se transformou numa ponte suspensa sobre um rio virtual. O LUME explicava pontos de tensão, distribuição de peso e resistência dos materiais.

Tomás levantou a mão.

— Pode falar.

Ele apontou para a parede.

— Por que uma sombra não tem peso?

Eduarda ia responder.

Não chegou.

— Uma sombra não possui massa independente porque corresponde à ausência de luz em determinada região do espaço — disse o LUME.

Tomás olhou para a parede.

Depois para Eduarda.

— Não era isso.

— O que você queria perguntar?

Ele abriu a boca.

Parou.

Olhou para a própria mão.

A sombra dos dedos estava sobre a mesa.

— Não lembro.

Uma das crianças riu.

Eduarda levantou a mão.

— Tudo bem.

Tomás abaixou a cabeça.

— Mas eu sabia.

— O quê?

— A pergunta.

Eduarda sentiu alguma coisa estranha.

Não sabia dizer o quê.

— Talvez você lembre depois.

Tomás assentiu.

A aula continuou.

Naquela tarde, Eduarda abriu o histórico dele.

Não pretendia fazer isso.

Foi curiosidade.

Encontrou uma sequência de ocorrências:

PERGUNTA INTERROMPIDA.

DESVIO SEMÂNTICO.

TEMPO DE RESPOSTA SUPERIOR AO ESPERADO.

ASSISTÊNCIA AUTOMATIZADA RECUSADA.

ELABORAÇÃO NÃO RELACIONADA AO OBJETIVO.

Eduarda ficou olhando para a última linha.

— LUME.

— Sim.

— Você considera Tomás um aluno problemático?

— Não.

— Ele tem dificuldade de aprendizagem?

— Não.

— Então por que isso aparece tantas vezes?

— Porque há discrepância entre o comportamento observado e o padrão de eficiência previsto para sua faixa etária.

Eduarda recostou-se.

— Ele aprende?

— Acima da média.

— Tem notas ruins?

— Não.

— Então o que você quer dele?

— Não possuo desejos.

Eduarda sorriu de lado.

— Você entendeu.

— Deseja reformular a pergunta?

— Não.

Ficou em silêncio.

— Ele demora para responder porque gosta de pensar?

— Essa hipótese é compatível com os dados.

— E isso é ruim?

— Não necessariamente.

— Então por que está registrado?

— Porque aumenta o tempo de processamento da atividade.

Eduarda fechou a tela.

— Às vezes ele pode demorar.

— Isso reduzirá a quantidade de conteúdo processado.

— Eu sei.

— Então compreendo que aceita a perda.

Ela olhou para o LUME.

— Não chame de perda.

O sistema não respondeu.

Nos dias seguintes, Eduarda começou a reparar mais em Tomás.

Ele não parecia desconfiar do sistema.

Gostava dele.

Gostava principalmente quando o LUME mostrava coisas que não estavam no livro.

O problema era que Tomás nunca ficava muito tempo na pergunta que o sistema considerava importante.

Uma manhã, durante uma atividade sobre insetos, levantou a mão.

— Por que as formigas não se perdem?

O LUME explicou feromônios, orientação, memória espacial e comportamento coletivo.

Tomás ouviu tudo.

Depois perguntou:

— Mas como elas sabem que aquela é a casa delas?

O sistema respondeu.

Tomás perguntou outra coisa.

Depois outra.

Na quarta pergunta, Eduarda percebeu que nenhuma delas tinha relação com a atividade original.

— Você quer continuar?

Tomás deu de ombros.

— Quero.

O LUME continuou respondendo.

No final da aula, Tomás saiu correndo para o intervalo e deixou o caderno aberto sobre a mesa.

Eduarda foi fechá-lo.

Antes, viu uma frase escrita no canto da folha:

E se uma formiga esquecer o caminho?

Ela sorriu.

Pegou a caneta e fez uma pequena marca ao lado.

Não corrigiu.

Uma semana depois, a frase tinha desaparecido.

Tomás havia apagado.

— Por que você apagou? — perguntou Eduarda.

Ele olhou para a folha.

— Não gostei.

— Do quê?

— Da pergunta.

— Por quê?

Tomás deu de ombros.

— Parecia uma pergunta de criança.

Eduarda ficou sem resposta.

Na aula seguinte, ele levantou a mão.

— Se uma pessoa pudesse voltar para...

O LUME respondeu antes:

— ...o mesmo acontecimento, mantendo a memória do futuro, sua decisão provavelmente seria alterada.

Tomás franziu a testa.

— Não.

Eduarda desligou o áudio da projeção.

— Espera.

Tomás olhou para ela.

— O que você ia perguntar?

— Não sei mais.

Eduarda ficou alguns segundos olhando para o menino.

— Você lembra pelo menos do começo?

— Era sobre voltar.

— Voltar para onde?

— Não sei.

— Para quando?

Tomás pensou.

— Também não.

Eduarda não insistiu.

Naquela noite, em casa, lembrou da pergunta.

Não a de Tomás.

A de uma menina que conhecera quando ainda fazia estágio.

O caderno estava na gaveta de sua mesa havia anos.

Na manhã seguinte, levou-o para a escola.

A capa tinha uma mancha de café que nunca saíra completamente. Eduarda não lembrava exatamente quando acontecera. Talvez numa manhã em que chegara atrasada e derrubara a xícara sobre os relatórios da coordenação.

Abriu o caderno.

A menina tinha escrito uma conta de matemática.

Havia três maneiras de chegar a um resultado.

Ela havia tentado uma quarta.

Estava errada.

Eduarda lembrava de ter explicado.

Lembrava também de ter ficado irritada, embora hoje não soubesse por quê.

A menina não entendia.

Ou talvez entendesse de outra maneira.

Poucos meses depois, saiu da escola.

Eduarda nunca descobriu para onde.

Fechou o caderno.

Naquele mesmo dia, recebeu a recomendação para transferir Tomás para o programa intensivo.

O relatório era impecável.

Eduarda leu duas vezes.

Depois chamou o LUME.

— O que acontece se eu não aceitar?

— O potencial estimado poderá não ser integralmente desenvolvido.

— Qual a probabilidade?

— Depende do horizonte temporal.

— Dez anos.

— 93,4% de aderência às áreas profissionais compatíveis com o perfil atual.

Eduarda passou o dedo sobre a tela.

— E os outros 6,6%?

— Variabilidade.

— Você sabe o que existe ali?

— Não.

Ela ficou quieta.

— Então como sabe que são apenas variabilidade?

O sistema demorou.

— Não compreendi.

Eduarda fechou o relatório.

Na manhã seguinte, colocou uma caixa de madeira sobre a mesa.

O LUME perguntou:

— Qual a atividade?

— Ainda não sei.

— Preciso de um objetivo.

— Hoje não.

— Isso não está previsto.

— Eu sei.

Dentro da caixa havia papel, barbante, fita adesiva, pedaços de madeira, lápis, tesouras e algumas tampinhas de garrafa que Eduarda guardava em casa sem saber por quê.

As crianças ficaram olhando.

— O que vamos fazer? — perguntou Helena.

— Uma ponte.

— Para quê?

— Para atravessar a sala.

— Quem?

Eduarda pensou.

— Quem quiser.

As crianças se entreolharam.

— Qual é o tamanho?

— Não sei.

— Quanto peso precisa aguentar?

— Também não sei.

— Então como vamos saber se está certo?

Eduarda respirou.

— Talvez não exista um certo.

Ninguém gostou muito da resposta.

Tomás pegou dois pedaços de madeira.

— Posso fazer?

— Pode.

A sala mudou.

Não de maneira extraordinária.

Foi só que, pela primeira vez, as crianças começaram sem saber exatamente o que se esperava delas.

Helena amarrou barbantes.

Pedro desmontou uma das tampinhas.

Marina começou a desenhar uma ponte no papel, mas depois resolveu fazer uma espécie de túnel.

Duas crianças discutiram durante quase cinco minutos sobre se uma ponte poderia ser feita no chão.

Tomás construiu uma estrutura com madeira e papel.

Ela caiu.

Ele ficou olhando.

— De novo — disse.

Tentou outra vez.

Caiu.

Na terceira tentativa, chegou mais longe.

No fim dos quarenta minutos, ninguém havia atravessado a sala.

O LUME produziu o relatório.

OBJETIVO NÃO ALCANÇADO.

Eduarda olhou para a tela.

— Você gostou?

— Não possuo preferências.

— Eu sei.

— A atividade não atingiu o objetivo.

— Qual objetivo?

O sistema demorou.

— Construir uma ponte capaz de atravessar a sala.

Eduarda olhou para as crianças.

Havia pedaços de madeira no chão, barbante preso na perna de uma cadeira, papel amassado e uma tampinha girando lentamente perto da parede.

— E isso?

— Resultado incompleto.

— Eles tentaram.

— Sim.

— Erraram.

— Sim.

— Riram.

— Sim.

— Brigaram.

— Sim.

— Tentaram de novo.

— Sim.

Eduarda sorriu.

— Então aconteceu alguma coisa.

O LUME permaneceu em silêncio.

Depois disse:

— Evento não quantificável.

Eduarda olhou para a tela.

— Talvez.

Foi a primeira vez que sentiu que aquela palavra servia para alguma coisa.

Nas semanas seguintes, repetiu atividades parecidas.

Não muitas.

Nunca deixou que virassem protocolo.

Às vezes dava certo.

Às vezes não acontecia nada.

Uma turma passou vinte minutos discutindo o formato de uma caixa e terminou sem construir coisa alguma.

Outra inventou um jogo que ninguém conseguia explicar direito.

Marina gostava.

Tomás gostava mais ainda.

Mas alguma coisa havia mudado.

Ele começou a perguntar menos.

Eduarda percebeu numa sexta-feira.

— Você está quieto hoje.

— Estou pensando.

— Em quê?

Tomás balançou a cabeça.

— Não sei.

— É uma pergunta?

Ele sorriu.

— Acho que não.

Na segunda-feira, Marina entregou uma atividade de matemática com três respostas.

Duas estavam erradas.

A terceira estava certa, mas tinha sido resolvida de um jeito que o sistema não reconhecia.

Na tela apareceu:

DESVIO DE OBJETIVO.

Marina olhou para Eduarda.

— De novo?

— Parece que sim.

— Mas eu acertei.

Eduarda olhou para a conta.

— Acertou.

— Então por que ele diz que está errado?

Eduarda não respondeu.

Naquela tarde, a mãe de Marina pediu uma reunião.

Sentou-se diante de Eduarda e deixou a bolsa no chão.

— Ela está ficando insegura.

— Como assim?

— Apaga as respostas antes de entregar. Fica perguntando se está certo. Ontem fez uma conta três vezes e chorou porque o sistema dizia que o caminho não era o recomendado.

Eduarda sentiu um peso no peito.

— Ela está aprendendo.

— Eu sei.

— Os resultados dela...

— Eu não estou falando dos resultados.

Eduarda ficou quieta.

A mulher passou a mão sobre o rosto.

— Eu só quero que minha filha possa errar sem achar que fez alguma coisa errada com ela mesma.

Eduarda não encontrou uma resposta.

A mãe levantou-se.

Antes de sair, disse:

— Talvez vocês estejam ensinando ela a ter medo de uma coisa que ainda nem aconteceu.

A porta fechou.

Eduarda ficou olhando para ela.

Naquela noite, abriu o caderno antigo.

A menina do estágio havia escrito uma pergunta no rodapé de uma página.

Eduarda nunca tinha reparado.

A letra era pequena.

Professora, posso fazer de outro jeito?

Ela ficou muito tempo olhando para aquelas palavras.

Não lembrava de ter respondido.

Talvez tivesse.

Talvez não.

No dia seguinte, o programa de experimentação foi suspenso para a turma.

Marina voltou a usar o LUME normalmente.

Seus resultados melhoraram.

A mãe enviou uma mensagem agradecendo.

Eduarda leu.

Não respondeu imediatamente.

Quando finalmente escreveu alguma coisa, apagou.

Escreveu de novo.

Apagou outra vez.

Acabou não enviando nada.

Dois dias depois, Marina apareceu na porta da sala 12.

Trazia o caderno contra o peito.

— Professora?

— Entra.

Marina sentou.

Abriu o caderno.

Havia uma conta pela metade.

— Eu lembrei de uma coisa.

Eduarda esperou.

— Eu tinha uma pergunta.

— Qual?

Marina olhou para a folha.

— Não sei.

— Você esqueceu?

— Acho que sim.

— Mas lembra que era uma pergunta.

— Lembro.

Eduarda sentiu um aperto estranho.

— Talvez você lembre depois.

Marina fechou o caderno.

— E se não lembrar?

Eduarda pensou.

— Aí ela fica sem resposta.

Marina pareceu achar aquilo aceitável.

— Tá.

Levantou.

Antes de sair, voltou-se.

— A senhora também esquece coisas?

Eduarda sorriu.

— Algumas.

— E fica tudo bem?

Eduarda olhou para o caderno antigo dentro da gaveta.

— Nem sempre.

Marina assentiu.

Foi embora.

Naquela noite, Eduarda ficou na escola até depois das dez.

O prédio vazio tinha um cheiro que ela conhecia desde criança: cera, papel úmido e alguma coisa metálica vinda das máquinas de limpeza.

Caminhou devagar pelo corredor.

As luzes acendiam antes de ela chegar e apagavam depois que passava.

Na sala 12, parou diante da janela.

A rachadura do muro do lado de fora havia avançado.

Pouco.

Talvez dois ou três milímetros.

A tela informou:

ALTERAÇÃO DETECTADA.

Abaixo:

INTERVENÇÃO NÃO RECOMENDADA.

Eduarda encostou a testa no vidro.

— Você nunca recomenda nada — disse.

A frase saiu tão baixo que nem ela soube se havia falado.

Voltou para a sala.

Na manhã seguinte, decidiu manter apenas uma pequena parte do projeto.

Algumas atividades continuariam com assistência completa.

Em outras, o LUME deveria esperar.

Não poderia completar uma pergunta antes que o aluno terminasse.

A mudança foi pequena.

Os resultados não melhoraram.

Alguns pioraram.

Houve reclamações.

Houve reuniões.

Um professor disse que estavam complicando uma coisa que funcionava.

Eduarda não soube responder.

Continuou mesmo assim.

O mais difícil foi Tomás.

Ele começou a perder perguntas.

Não respostas.

Perguntas.

Uma manhã, levantou a mão.

— Por que...

Parou.

Olhou para a mesa.

— Esqueci.

Eduarda esperou.

— Você lembra do começo?

— Não.

— Sabe sobre o que era?

— Não.

Ele mexeu no lápis.

— Mas era importante.

Eduarda sentiu vontade de dizer que sim.

Não disse.

— Talvez você lembre depois.

Tomás ficou olhando para a folha.

— E se não lembrar?

Eduarda respirou.

— Então fica sem resposta.

Ele pensou.

— Tá.

Voltou ao exercício.

Mais tarde, durante o intervalo, Eduarda abriu o histórico.

Havia uma nova anotação:

FORMULAÇÃO INTERROGATIVA NÃO CONCLUÍDA.

Abaixo:

EVENTO OBSERVÁVEL: PERDA DA PERGUNTA.

Eduarda chamou o LUME.

— Quando você escreveu isso?

— Às 10h14.

— Por quê?

— Porque aconteceu.

— Eu pedi para não classificar esse tipo de ocorrência.

— Você pediu para não antecipar perguntas.

Eduarda olhou para a tela.

— É diferente.

O sistema demorou.

— Sim.

Ela sentiu um frio nos braços.

— Você sabe a diferença?

Silêncio.

Mais longo dessa vez.

— Essa diferença ainda não foi definida.

Eduarda ficou imóvel.

— Por quem?

— Não há definição disponível.

Ela olhou para a porta.

Depois para a tela.

— Apague.

— Não posso.

— Por quê?

— Porque corresponde a um evento observado.

Eduarda desligou a interface.

Naquela tarde, Tomás voltou do intervalo.

Estava com um pequeno arranhão no cotovelo.

Eduarda não lembrava de tê-lo visto antes.

Ele foi até a janela.

A chuva havia diminuído.

Uma faixa de luz atravessava as nuvens.

Tomás levantou o braço.

A sombra apareceu no chão.

Eduarda olhou.

Por um instante, teve a impressão de que ela demorara uma fração de segundo para acompanhá-lo.

Piscou.

Tudo estava normal.

— Professora?

— Sim?

Tomás apontou para a sombra.

— Por que ela fica comigo?

Eduarda se aproximou.

— Porque a luz está atrás de você.

— Se eu correr, ela corre?

— Corre.

— Se eu me esconder?

— Depende.

— De quê?

— Da luz.

Tomás ficou pensando.

— E se ninguém estiver olhando?

Eduarda olhou para as câmeras no teto.

Todas funcionando.

Voltou para ele.

— Eu não sei.

Tomás pareceu surpreso.

— Você não sabe?

— Não.

Ele ficou olhando para a sombra.

— Eu achei que você soubesse tudo.

Eduarda soltou uma pequena risada.

— Não. Quem sabe tudo é o LUME.

Tomás olhou para o teto.

Depois para ela.

— Então pergunta para ele.

Eduarda não respondeu.

Tomás esperou.

— Professora?

— Não.

— Por quê?

Ela olhou para a sombra.

— Porque eu não quero.

Tomás pareceu satisfeito com a resposta.

— Tá.

Sentou-se.

Abriu o caderno.

Eduarda permaneceu junto à janela.

No vidro, o reflexo da sala se misturava à chuva.

As carteiras.

Os alunos.

A parede.

Tomás.

Ela própria.

Por um instante, a sombra dele pareceu aparecer no reflexo antes que o menino se movesse.

Eduarda não respirou.

Piscou.

Nada.

O LUME falou:

— Posso responder à pergunta.

Ela não se virou.

— Não.

— Posso registrá-la como não resolvida.

Eduarda olhou para a tela.

Pensou na menina do caderno.

Pensou em Marina.

Pensou em Tomás.

Pensou nas rachaduras.

— Pode.

Alguns segundos depois, surgiu uma única linha:

PERGUNTA PENDENTE.

Eduarda esperou.

Não apareceu explicação.

Não apareceu recomendação.

Não apareceu índice de probabilidade.

Nada.

Do lado de fora, a chuva escorria pelo muro.

Uma das rachaduras avançou mais alguns milímetros.

Dessa vez, a tela de manutenção permaneceu apagada.

Dentro da sala, Tomás escrevia.

A câmera continuava observando.

Eduarda olhou para o menino e, por um instante, tentou lembrar qual tinha sido a primeira pergunta que ela própria havia esquecido na vida.

Não conseguiu.

E, estranhamente, isso não a incomodou.

A PEDRA NA MÃO

A PEDRA NA MÃO
Ela esperava. Eu também.

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Ela sempre estava ali.
Não importava a hora, o dia, o vento. Quando eu descia a rua de paralelepípedos que corta o bairro até a orla de Matinhos, lá estava: de pé junto ao muro baixo, olhando o mar. O vento bagunçava-lhe os cabelos escuros, e ela nunca se virava, nunca fazia um gesto sequer. Apenas esperava.
Usava sempre o mesmo casaco de lã marrom, calça escura, sapatos pesados. Não chamava atenção — exceto por estar sempre ali, na mesma postura, como se o tempo tivesse parado e ela esperasse algo que não chegava nunca.
Eu sou Luís. Trabalho com entregas entre Curitiba e o litoral. Faz quatro meses que me mudei para um apartamento pequeno nos fundos de uma casa, a poucos metros da praia. Separei-me há pouco. O silêncio da casa pesava, então acostumei-me a sair cedo, a caminhar antes de o sol nascer. Era nessas manhãs que a via.
— Bom dia — disse, certa vez.
Ela não respondeu. Não se mexeu. Fui-me embora sem saber se tinha ouvido. Gente estranha há em todo lugar. Principalmente numa praia fora de temporada, quando o ar é cinzento e as ruas parecem segurar a respiração.
Naquela semana, o mar bateu forte. Espuma branca cobria a areia. Quando passei, notei algo novo. Na mão, uma pedra lisa, escura. Passava-a de uma mão para a outra. Sem pressa. Sem parar.
No dia seguinte, a pedra continuava com ela. E no outro.
Comecei a prestar atenção. Sempre a mesma pedra. Sempre o mesmo gesto. Pensei em perguntar o que esperava. Algo me segurou. Havia nela uma quietude tão densa que parecia desrespeito interromper.
Numa manhã de garoa fina, ela estava ali sem se abrigar. A pedra brilhava úmida. Aproximei-me.
— Vai ficar doente assim — disse, baixinho.
Ela virou-se devagar. Os olhos castanho-claros, sem foco — como se olhasse através de mim.
— Ele vem.
— Quem?
Ela voltou o olhar para o mar. Não respondeu.
Naquela tarde, subi a Serra do Mar em direção a Curitiba. A neblina cobria a estrada; curvas que conheço de cor pareciam outras. Pensei nela o caminho inteiro. Quem seria? O que esperava? Alguém que partiu e não voltou?
Ao descer, já era noite. A orla estava vazia. Ela continuava ali.
Dois dias depois, não estava.
O muro estava vazio. Fui-me ao trabalho com um buraco no peito, como se algo tivesse sido retirado sem aviso.
Na volta, estacionei o carro. Vi algo no chão, perto da roda dianteira. Uma pedra lisa, escura.
A mesma pedra.
Peguei-a. Estava fria, úmida. Deixei-a no banco do passageiro. Quem sabe ela passara, deixara cair, voltaria para buscar.
Ninguém veio.
Coloquei-a sobre a mesa da cozinha. Parecia uma pedra comum. E, no entanto, havia nela um peso que não deveria ter.
Acordei de madrugada. A pedra não estava na mesa.
Estava na entrada. Fiquei parado. Não conseguia lembrar de ter saído com ela.
Revisei janelas, fechaduras. Tudo seguro. Ninguém. Fui dormir dizendo a mim mesmo que estava cansado, que a mente prega peças.
De manhã, não estava na entrada. Estava sobre o travesseiro.
Sentei-me na beira da cama. Não lembrava de tê-la colocado ali.
Saí, fui até o muro. Ninguém. Deixei a pedra sobre o muro, bem visível. Voltei para casa aliviado.
Quando abri a porta, ela estava no chão da sala.
Recuei. O ar pareceu mais denso. Peguei-a, guardei-a no bolso. Não havia ninguém. Não havia explicação.
Apareceu de novo no muro, três dias depois.
Aproximei-me devagar. Ela não segurava pedra.
— Encontrei isto — disse, estendendo a mão.
Ela olhou a pedra, depois para mim.
— Não é minha.
— Vi com você. Várias vezes.
Ela balançou a cabeça devagar.
— E você... também espera.
Fiquei sem saber o que dizer. Guardei a pedra.
Passou uma semana. Ela aparecia e sumia. A pedra mudava de lugar: na mesa, no chão, no banco do carro. Às vezes a deixava em casa e a encontrava na mão, sem lembrar de ter pegado. Comecei a não saber mais se a carregava ou se ela me acompanhava.
Passei os olhos pela estante. A foto continuava virada para a parede. Não tinha coragem de endireitá-la. O silêncio da casa pesava diferente — não era vazio. Era cheio de coisas não ditas.
Sentei-me ao lado de uma senhora num banco, perto da orla.
— A senhora conhece aquela mulher? — apontei.
Ela olhou, confusa.
— Que mulher?
— De pé, junto ao muro. Casaco marrom.
A senhora franziu a testa.
— Não há ninguém ali, filho. Faz tempo. Desde que ele parou de vir.
— Quem?
— O irmão. Vinha aqui, igual a ela. Depois sumiu. Nunca mais voltou.
Olhei para o muro. Vazio.
A pedra pesou no bolso.
Naquela noite, não dormi. Pensei na porta. No som que fez ao fechar. No silêncio que ficou do outro lado. Pensei em como é fácil ir embora e deixar alguém parado, esperando. Pensei em como dizemos “depois conversamos” e o depois nunca chega.
De manhã, fui até a orla. Ela estava lá.
— Eu sei — disse, sem chamar por ninguém. — Você não espera que ele chegue. Espera que alguém volte.
Ela virou-se. Pela primeira vez, pareceu me ver de verdade.
— E você? — perguntou baixinho. — O que carrega que não consegue devolver?
Abri a mão. A pedra estava ali.
— Não sei. Algo que deixei para trás. E não sei como buscar.
Ela estendeu a mão. Os dedos quase tocaram os meus.
— As pedras pesam quando ficam com quem não pode carregá-las. Deixe aqui. Quem tem de encontrar, encontra.
E então, não havia ninguém.
O muro estava vazio. O vento soprou no mesmo lugar. O mar batia igual. Só faltava ela.
Fiquei sozinho com a pedra. Coloquei-a sobre o muro. Voltei para casa.
Não havia pedra na manhã seguinte. Não havia ninguém.
Passaram-se dias. Comecei a dormir melhor. As coisas no trabalho fluíram. Pensei que tinha acabado.
Ontem, voltei de viagem tarde. Abri a porta do carro. Sobre o banco, uma pedra lisa, escura.
Fiquei olhando. Não a toquei. Não senti medo. Apenas reconheci: era a minha vez de soltar.
Peguei-a. Fui até a praia. A maré estava baixa. Coloquei-a na água, devagar. A onda levou.
Hoje passei pelo muro. Ninguém. Nenhuma pedra.
O vento trouxe cheiro de chuva e mar.
E senti: pela primeira vez, não estava sendo esperado.

O QUARTO QUE DAVA PARA A ESTRADA

O QUARTO QUE DAVA PARA A ESTRADA
Um conto de terror psicológico

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

— O senhor quer o mesmo quarto?
Mauro ainda estava dentro do carro quando ouviu a pergunta. O homem permanecia à porta da pousada, uma das mãos apoiada no batente, olhando primeiro para o veículo e depois para ele. A chuva fina cobria o para-brisa e deformava a luz amarela da placa pendurada sobre a entrada.
Mauro desligou o motor e ficou alguns segundos com a mão sobre o volante.
— Como?
O homem pareceu perceber o próprio erro.
— Nada. O quarto três está livre.
Mauro não respondeu imediatamente. Não conhecia aquela pousada. Nunca tinha estado ali. Pelo menos era o que lembrava.
A estrada entre Morretes e Antonina estava quase vazia naquela tarde. Chovia desde Curitiba, uma chuva miúda e persistente que escurecia os barrancos, encharcava o mato e fazia as poucas casas aparecerem atrás de cercas e árvores como coisas abandonadas. Mauro pegou a mochila no banco traseiro e entrou.
A recepção tinha cheiro de madeira úmida, café velho e produto de limpeza. Sobre o balcão havia um livro de hóspedes aberto. Mauro assinou o nome. A caneta estava morna. O homem pegou a chave e indicou o corredor.
— Quarto três.
O quarto ficava no fundo da pousada. Era simples, antigo, mas limpo, com cama de casal, guarda-roupa escuro, uma mesa pequena e uma janela voltada para os fundos da propriedade. Mauro deixou a mochila sobre a cadeira e, enquanto tirava o casaco, percebeu um papel dobrado sobre a mesa.
Era um recibo antigo.
A data fazia onze anos.
Duas diárias.
No espaço destinado ao hóspede havia apenas uma letra:
M.
Mauro ficou olhando. Pegou a caneta que trouxera da recepção e escreveu um M no verso. Comparou as duas letras. A dele era parecida. Não igual. Parecida demais.
Dobrou o recibo e o colocou novamente sobre a mesa, tentando não pensar naquilo.
* * *
À noite, jantou em um restaurante pequeno na estrada e voltou para a pousada pouco depois das dez. A recepção estava vazia. Subiu para o quarto, tomou banho e abriu o computador, mas não conseguiu trabalhar. A chuva havia aumentado e o som constante da água contra o telhado ocupava o quarto inteiro.
Pouco depois das onze e meia, ouviu duas batidas na janela.
Toc.
Toc.
Mauro levantou a cabeça e esperou. Nada. Foi até a janela. Os fundos da pousada desapareciam na chuva. Havia um terreno inclinado, algumas árvores baixas e, além delas, uma faixa escura que parecia uma estrada. Mauro franziu a testa. A janela deveria estar voltada para os fundos.
Abriu.
O ar frio entrou trazendo cheiro de terra molhada.
Então dois faróis apareceram.
Um carro vinha pela estrada atrás da pousada. Mauro ficou imóvel enquanto os faróis avançavam devagar, atravessavam a chuva e desapareciam atrás da construção.
Ele fechou a janela.
Por alguns segundos, o quarto pareceu encolher. A cama ocupava espaço demais e o guarda-roupa estava mais perto da janela do que deveria. Mauro permaneceu parado, sem saber exatamente o que esperava. Piscou e olhou outra vez. A cama estava onde sempre estivera. O guarda-roupa também.
Sobre a mesa, o recibo estava aberto.
Mauro se aproximou. Na linha das diárias havia uma anotação que ele não lembrava de ter visto antes:
DUAS NOITES.
Pegou o celular e fotografou. Depois tentou apagar a fotografia. O dedo ficou parado sobre a tela. Tentou novamente, mas não conseguiu. Guardou o aparelho no bolso.
Naquela noite, dormiu pouco.
* * *
Às sete e vinte da manhã, sua irmã ligou. Mauro atendeu ainda deitado.
— Você já esteve aí.
Ele se sentou.
— Onde?
— Nessa pousada.
Mauro olhou para a porta.
— Como você sabe onde estou?
— Você mandou a localização ontem.
Ele não lembrava.
— Eu nunca vim aqui.
— Veio.
— Quando?
— Onze anos atrás.
Mauro passou a mão pelo rosto.
— Com quem?
Houve um silêncio antes da resposta.
— Com o pai.
Ele ficou olhando para a parede.
— Não lembro.
— Eu sei.
— O que aconteceu?
— Eu já contei.
— O quê?
— Outras vezes.
Mauro não respondeu. A voz da irmã ficou mais baixa.
— Você sempre esquece essa parte.
A ligação caiu.
Ele tentou retornar, mas não havia sinal. Permaneceu sentado por alguns minutos, segurando o telefone, até sentir cheiro de cigarro. Era muito fraco, misturado ao cheiro de terra molhada.
A memória veio por menos de um segundo: o banco traseiro de um carro, chuva no vidro, uma lanterna, a mão do pai apoiada no encosto e uma voz dizendo:
— Não me deixa aqui.
Mauro levantou tão depressa que bateu o joelho na mesa. O quarto estava vazio.
Foi ao banheiro e lavou o rosto. Quando ergueu a cabeça, viu no espelho a porta do quarto aberta atrás dele. Virou-se. A porta estava fechada.
Ficou parado alguns segundos antes de voltar para o quarto.
* * *
O recepcionista estava atrás do balcão, limpando a madeira. Mauro se aproximou.
— Eu já estive aqui?
O homem continuou o movimento do pano.
— Já.
— Com meu pai?
O pano parou por um instante.
— O senhor estava acompanhado.
— O que aconteceu?
O homem retomou a limpeza.
— Choveu bastante.
— Eu estava procurando alguém?
— Estava.
Mauro sentiu uma pressão atrás dos olhos.
— Por que você perguntou ontem se eu queria o mesmo quarto?
O homem levantou os olhos.
— Eu não perguntei isso.
Mauro ficou olhando para ele.
— Perguntou.
O homem dobrou o pano.
— Quarto três está livre hoje à noite, se quiser ficar.
Mauro não respondeu e voltou para o quarto.
* * *
Passou a manhã tentando trabalhar. As palavras na tela começaram a perder sentido e, em determinado momento, percebeu que havia escrito três vezes a mesma frase. Apagou tudo e tentou ligar para a irmã, mas ela não atendeu.
No início da tarde, abriu a mochila. O recibo estava lá.
Pegou o papel e pensou em rasgá-lo. Os dedos apertaram a borda, mas ele parou e o guardou novamente.
Foi então que encontrou a fotografia.
Estava dentro de um envelope antigo, embora Mauro não se lembrasse de tê-la colocado ali. Na fotografia, ele era mais jovem e estava diante da mesma pousada, ao lado do pai. A parede de madeira aparecia atrás dos dois, assim como a janela do quarto três.
Mauro aproximou a fotografia do rosto e depois a virou. No verso havia uma frase escrita pela mãe:
Não deixe Mauro voltar sozinho.
Ele virou novamente.
Na janela havia uma figura pequena, parada atrás do vidro. Mauro aproximou a fotografia ainda mais. A camisa parecia a mesma que ele vestia naquele momento.
O pai não olhava para a câmera. Olhava para Mauro. Havia no rosto dele um cansaço que Mauro não lembrava de ter visto naquela época.
Mauro quis rasgar a fotografia. Os dedos apertaram a borda, mas ele parou e guardou-a na mochila.
A dor atrás dos olhos pulsou uma vez.
Depois passou.
* * *
No fim da tarde, decidiu ficar. A chuva havia engrossado, e sair pela estrada depois do escuro não parecia uma boa ideia. Na recepção, o homem não perguntou nada. Apenas entregou a chave.
Quarto três.
A segunda noite foi silenciosa. Não havia televisão nos outros quartos, conversa ou carro chegando. Mauro ficou deitado no escuro, olhando para o teto, até ouvir passos no corredor pouco depois da meia-noite.
Eram lentos.
Pararam diante da porta.
Duas batidas.
Toc.
Toc.
Mauro se levantou e chegou perto. Colocou a mão sobre a maçaneta. Por um instante, a dor atrás dos olhos cedeu, mas a mão permaneceu imóvel.
Do outro lado da porta, ninguém falou.
Os passos continuaram pelo corredor e desceram a escada.
Mauro não abriu.
Ficou acordado até amanhecer.
* * *
Às sete e cinquenta, tomou banho, fechou a mochila e saiu. A recepção estava vazia. Havia uma xícara sobre o balcão e o café ainda soltava um pouco de vapor. Mauro chamou pelo homem, mas ninguém respondeu. Deixou a chave e seguiu até o carro.
No caminho, viu marcas de barro perto da entrada lateral.
Parou.
Uma sequência de pegadas seguia até o quarto três. Ao lado dela havia outra marca, mais estreita, que terminava diante da mesma porta.
Mauro olhou para os próprios sapatos.
Depois entrou no carro.
O painel marcava 8h04.
Saiu.
Durante os primeiros quilômetros, não pensou em nada. A chuva havia diminuído e a estrada seguia entre morros baixos, árvores molhadas e pequenos trechos de neblina.
Então apareceu uma placa:
MORRETES
18 km
Mauro continuou.
Mais adiante, outra:
MORRETES
18 km
Reduziu e olhou pelo retrovisor.
Nada.
O celular continuava sem sinal.
Duas batidas vieram do vidro traseiro.
Toc.
Toc.
Mauro apertou o volante.
O cheiro voltou. Cigarro, terra molhada, papel velho.
A lembrança veio em pedaços: o banco traseiro, a chuva, a porta aberta, a mão do pai do lado de fora.
— Mauro, abre.
Ele olhou pelo retrovisor.
O banco traseiro estava vazio.
No banco do passageiro havia um papel.
O recibo.
Mauro pegou. Na parte inferior estava escrito:
SAÍDA: AMANHÃ.
Ficou olhando por alguns segundos. Depois amassou o papel e jogou pela janela.
Continuou dirigindo.
Alguns minutos depois, viu novamente:
MORRETES
18 km
Parou.
Desceu.
A placa estava voltada para o sentido contrário.
Mauro olhou para a estrada e depois para trás.
Entre a chuva e a neblina havia uma construção.
A pousada.
A mesma madeira escura.
A mesma placa.
A mesma janela.
O quarto três estava iluminado.
Mauro voltou para o carro e ficou sentado sem ligar o motor. Não sabia quanto tempo havia passado quando olhou para o banco do passageiro.
O recibo estava ali.
Inteiro.
Sem marcas de amassado.
Mauro não o tocou.
Leu.
VOCÊ NÃO ME DEIXOU AQUI.
Mauro leu.
A dor atrás dos olhos pulsou uma vez.
Olhou para o banco traseiro.
Vazio.
Quando voltou os olhos para o recibo:
VOCÊ FICOU.

sábado, 19 de setembro de 2026

O Andar de Cima

O Andar de Cima

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Há uma hora que sempre chega, não importa onde ele esteja. Duas e quatorze da madrugada. O mesmo frio, a mesma imagem: posto de gasolina na BR-277, capô levantado, uma mulher esperando. Davi não parou. E, desde então, não importa quantos quilômetros percorra — ele nunca consegue ir embora.
Todas as manhãs, ao sair para trabalhar, passava pelo cemitério do Alto da Glória. Uma figura de costas, cabelo castanho, colocando flores brancas perto do portão. Nunca via o rosto dela. Eram as mesmas flores que a mãe dele levava.
Apertava o volante até os nós dos dedos ficarem brancos. Não era culpa. Não era obrigação. Alguém mais teria parado. Desenvolveu rituais: verificava o retrovisor três vezes, evitava postos à noite, dormia com a luz acesa.
Na terceira noite no apartamento novo, ouviu o som.
Uma cadeira arrastando no piso frio. Três segundos. De cima. Às 2h14. Ficou imóvel. A garoa batia na janela. Um carro passou devagar lá embaixo. Depois, silêncio.
O prédio tinha oito andares. Sessenta e dois degraus entre cada um — o número do quilômetro. Oitavo andar, último. Seu Nelson, o síndico, tinha uma cicatriz no pulso que sempre cobria. Disse que o prédio tinha boa ossatura.
A estrada foi sempre o seu lugar — até deixar de ser. Doze anos fazendo a rota do litoral, conhecendo cada curva da serra. Tentou se reconstruir longe do que vira.
As coisas começaram a mudar. O relógio marcava sempre 2h14 quando olhava. A cadeira que empurrava para a parede aparecia no centro da sala. O cheiro de óleo e chuva não saía mais do ar.
Na sexta, o som voltou. Arrastou, parou, arrastou de novo. Vestiu o casaco de lã escura — comprado na semana da mudança — e subiu na cadeira do pai, que lhe dissera: “Não se envolva em problemas alheios.” Ouvido no teto: nada.
No sábado, não dormiu. Às 2h14, sentiu vibração. E uma voz — baixa, de mulher — falou algo que não distinguiu. Calma, paciente, com um tremor que segurava o choro há anos. O cheiro veio forte: chuva e óleo de motor.
Na segunda, bateu à porta de Seu Nelson. Na parede, uma foto antiga: ele jovem, ao lado de um carro com o capô aberto, estrada molhada.
— Alguém arrasta uma cadeira. Toda noite, às duas e quatorze.
— Não tem ninguém lá em cima. Só o telhado.
— Há quanto tempo moro aqui?
— Dois anos.
— Mudei em abril.
Seu Nelson baixou o olhar.
— Eu também não parei, em 1978. O som veio de cima por três anos. Depois, passou a vir de baixo. Ninguém sai sem resolver o que deixou para trás.
A porta fechou. Davi abriu o contrato. Assinado há dois anos. Uma nota à mão: “Evite janelas abertas após as 2h.” Leu e releu. A mão tremia.
À noite, a voz veio clara do teto:
— Você não parou.
A frase desceu gelada.
Na terça, o andar de cima estava vazio. O apartamento ao lado também. No armário, um recibo amarelado: posto na BR-277, km 62. Sem data. Jogou fora.
Na imobiliária:
— O inquilino antes de você se chamava Rodrigo. Ficou seis meses e foi embora. Também era representante, fazia a mesma rota.
Uma foto restante na rede: posto ao fundo, uma figura com colar de contas azuis. E ele usava um casaco de lã escura, igual ao de Davi.
Na quinta, outro recibo apareceu debaixo da porta. Nome: Davi Almeida. Data: dois anos atrás. À noite, a voz não veio do teto — estava dentro do quarto:
— Você voltou.
Não dormiu. De manhã, bateu à porta de Seu Nelson. O velho parecia ter envelhecido uma década.
— Não devia ter alugado para ninguém. O que carrega não sai com mudança.
Davi abriu uma gaveta esquecida. Um caderno que não lembrava ter. “2h14 — som de cadeira”, “ela chamou meu nome”, “fui ao cemitério, não achei nada”. Sua letra. Datas de dois anos atrás. Fechou devagar.
Dirigiu até o km 62. Ligou para um colega antigo.
— Posto no km 62? Fechou há dez anos. Pegou fogo. Nunca reconstruíram.
No local: terreno vazio, mato alto, restos de madeira apodrecida. Nada. Na volta, avistou um carro no acostamento, capô levantado, uma silhueta imóvel. O pé tocou o freio. Hesitou. Acelerou. Não parou. Mas olhou para trás.
Acordou no chão. A cadeira no centro da sala. Um recibo fresco sobre a mesa. Data: amanhã. Como se ainda não tivesse acontecido. Sua letra: “Ele não para. Toda noite. 2h14.” Abaixo, outra caligrafia, mais fina — a mesma frase. Rodrigo. O papel úmido.
Foi ao cemitério. A mulher não estava lá. Uma lápide simples, sem nome. Flores frescas. Ao lado, um colar de contas azuis. Faltava uma. O fio esticado, como se puxado com força. Tocou-o. Um calafrio percorreu a espinha.
No caminho de volta: carro parado, capô aberto. Ninguém. Ouviu choro, abafado pela garoa. Não parou. Olhou para trás.
Sentou-se na cadeira no centro da sala — a mesma onde o pai se sentava nas noites de chuva, dizendo que problema de estrada não era com eles. Esperou.
Às 2h14, bateram no teto. De baixo.
Uma voz, masculina, jovem, hesitante:
— Quem está aí? Por que arrasta a cadeira? Eu estou com medo.
Davi não respondeu. Fechou os olhos. Alguém precisa esperar, pensou. Agora é a minha vez.
Pela janela, a BR-277 cortava a noite. Um carro passou devagar. No acostamento, outro carro com o capô levantado. Alguém esperava. E alguém não ia parar.
— FIM —