quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Pontal do Sul, Última Chamada

Pontal do Sul, Última Chamada
Tadeu Everton Zamoiski

O telhado do terminal é de zinco. Mesmo sem chuva, pinga. Valdir conta os pingos do zinco para não contar outra coisa. Vinte e três. Vinte e quatro.

Guichê 2. Cinco e meia da manhã e a chave prende de novo. O vidro está suado por dentro e alguém riscou com canetão preto no canto, torto: 29/05. Cheiro de diesel da ABALINE com pastel frio da barraca da frente. Lá fora a neblina apagou a Ilha do Mel.

O alto-falante chia. O zinco responde.

A máquina tosse sozinha.

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Cai um bilhete quente na bandeja de metal. Queima o dedo.

MARIA DAS DORES CORREA - 29/05 - 17:45
DESTINO: ÚLTIMA CHAMADA - P-0

Sem poltrona. Só P-0 escrito à mão no canto.

Valdir conhece todas as poltronas. P-0 não existe na planilha.

Do lado do teclado, o carimbo. Cabo de madeira lascado, borracha seca, sem tinta no estojo há anos. Mesmo assim, quando bate na madeira, deixa roxo. Quente. Valdir tenta pegar o bilhete rápido e o carimbo pega de raspão no antebraço. Fica roxo na pele.

Ele esfrega. Não sai.

Marta chega com o coque molhado e a sacola de bala de banana. Guichê 1.

— De novo essa velha cuspindo papel?

Deixa a garrafa térmica no balcão dele. Lê por cima do ombro, como sempre faz. Encosta sem querer no carimbo.

— Ai.

No dedo indicador dela fica um ponto roxo. Ela esfrega no avental. O ponto clareia. Ela não repara. Valdir repara.

— P-0? Isso não existe.

Valdir amassa o papel e joga na lixeira debaixo do guichê. O zinco pinga mais forte.

No fim do turno da manhã, ele abre o armário de ferro do mezanino. Pasta preta com cheiro de barata. Manual da Lóide Paranaense, 1961.

Página 14, grifada de Bic, letra do avô:

P-0 (Última Chamada) não se retém. Usa Formulário 7. Quem emite e não carimba responde pelo bilhete. Se o cessionário não aceita, volta para quem emitiu.

Embaixo, outra letra, do pai:

Toninho, 71. Voltou. Doeu mais.

Atrás do manual, grampeado, o Formulário 7. Folha fina, amarela. Dois campos: CEDENTE e CESSIONÁRIO. Um quadrado vazio para o carimbo.

No bolso da camisa, sem ter pedido, um bilhete quente que não estava lá antes:

VALDIR MOREIRA - 01/06 - 18:00

Valdir passa a mão no antebraço. O roxo não sai. Na cabeça, água até o joelho. Areia. Uma voz pequena.

À tarde, Valdir evita olhar o relógio. Olha o zinco. Olha a rua. O vento traz maresia com óleo diesel e roupa úmida do varal do terminal.

29/05, 17h43.

Uma capa amarela na fila. Mulher rindo alto, ajeitando a alça da bolsa. Compra água. O pix da Marta apita: Maria das Dores Correa.

— Dona, ali escorrega — fala alto demais.

Ela ri.

— Que nada, filho.

17h45 cravado. O chinelo dela prende no meio-fio. Nem chega na rampa. O corpo amolece de uma vez. Nuca na quina do banco de concreto. Barulho oco. A garrafa d'água estoura no chão. Só o zinco, alto.

No bolso da capa, o bilhete amassado. Seco.

A máquina tosse de madrugada e o zinco para. Quando Valdir chega, o bilhete já está quente na bandeja.

LUCAS MATHEUS DOS SANTOS - 30/05 - 14:20 - P-0

Mochila da Copel desbotada na fila. Âncora tatuada no braço. O rapaz chega cedo, deixa cair uma laranja do bolso. Pega do chão, limpa na camiseta, oferece.

— Quer? Peguei da árvore da minha avó em Morretes.

Valdir não entrega bilhete nenhum. O P-0 com o nome do rapaz já está na bandeja, quente.

— O barco das 14:20 quebrou. Fica aqui dentro.

— Mas no aplicativo ainda está lá?

— Quebrou agora. Fica.

14h19. O rapaz sentado, perna tremendo. 14h20. Levanta para fumar na calçada. Uma bicicleta elétrica amarela desce os paralelepípedos e sobe na calçada. Pega ele de costas na pilastra. A laranja rola até o meio-fio.

No bolso, o papel reimprime mais quente.

VALDIR MOREIRA - 01/06 - 17:08

O roxo subiu para o cotovelo.

31/05, manhã. O bilhete quente cheira a concha podre.

ANA LUIZA - 31/05 - 11:05

Menina de vestido com abacaxi, boca verde de picolé que manchou o vidro quando encostou. Valdir se abaixa e esconde a bandeja com o corpo, para Marta não ver.

— Não corre no estacionamento hoje, tá?

A menina faz que sim e sai correndo, rindo. No cascalho, para de repente. Leva a mão ao peito. O picolé cai e derrete no pó. Valdir fica atrás do vidro, com a mão no carimbo, sem conseguir abrir a portinha.

A mãe carrega ela até a rua. Lá fora uma sirene longe. Dona Nair, com a marmita na mão, vê da calçada.

Só quando a sirene some é que o balcão muda.

VALDIR MOREIRA - 01/06 - 16:03

Roxo no ombro. Quase no peito. Frio agora.

31/05, quase meio-dia. Marta sobe com outra pasta. Joga na mesa sem falar. Põe um copo d'água do lado do carimbo, como faz quando ele fica pálido.

Livro de ocorrência. Uma linha isolada, no meio da página:

29/05/62 - 17:45 - Falecimento funcionário Valdir Moreira (guichê).

Colado com durex, um bilhete em carbono igual aos de agora. Nome: Valdir Moreira. Cessionário: Elias Moreira, escrito à mão, sem carimbo em cima. O avô, Valdir, escreveu o nome do filho. O nome de Elias ficou sem carimbo. Herdou o posto e o silêncio.

Valdir nasceu em 74. Tinha nove anos em 83, quando o Lico, de sete, de mochila azul da Copel desbotada, rindo com o dente da frente faltando, disse "me espera, Valdir" na Praia de Fora e entrou na água enquanto a mãe gritava da areia para voltar. Ele ficou na areia contando concha. Um, dois, três.

Tranca a máquina no depósito, com cadeado. A mão hesita um segundo antes de encostar no ferro. Está quente. Guarda a chave. O zinco volta, fraco.

01/06, 15h25. O cadeado está quente.

Lá dentro:

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VALDIR MOREIRA - 01/06 - 15:30
DEIXE OUTRO EMBARCAR

Embaixo, um quadrado vazio esperando carimbo. O roxo queimando no peito dele, por baixo da camisa.

O terminal esvazia de som. A luz fluorescente fica acesa, amarela, cheia de mosquitinho morto. O alto-falante não chia mais.

Marta entra correndo. Na mão, um bilhete em branco, frio, sem nome.

— Saiu para mim agora. Está gelado, Valdir.

Valdir segura o pulso dela. O ponto roxo no dedo dela está do tamanho de uma lentilha. Marta afrouxa a mão e enfia uma bala de banana no bolso da camisa dele, por cima da Bic.

Na fila, sozinho, um menino descalço. Mochila azul desbotada. Dente da frente faltando.

Valdir olha para o menino. O menino segura um bilhete em branco e olha para o vidro. No vidro, vê Valdir. Depois olha para o carimbo na mão dele.

O alto-falante chama, limpo:

— Passageiro Valdir Moreira, última chamada.

O barco está na rampa. Casco preto, sem nome. Água lisa, preta, sem reflexo.

Valdir levanta o carimbo. A mão treme tanto que o suor cai no papel e chia.

Procura o Formulário 7. Não está.

Olha para o quadrado vazio. Pega a Bic. A ponta paira um segundo sobre o papel, o pulso trava. Desce.

CEDENTE: VALDIR MOREIRA
CESSIONÁRIO: LICO

Escreve com a letra do pai. Devagar.

Vira o carimbo para o próprio peito. O impacto é seco. O som volta pelo osso.

PÁ.

O zinco para de vez.

— Eu espero.

O roxo some do peito, do ombro, do braço.

O bilhete em branco do menino cai no cimento. Agora diz LICO, roxo.

Na mão de Valdir, o bilhete muda, sem queimar:

VALDIR MOREIRA - ILHA DO MEL - 02/06

O barco apita. Uma vez. Quando olha de novo, continua preto, sem reflexo. Lá fora a neblina rasga e a Ilha aparece, cinza-esverdeada.

O menino sobe sozinho pela rampa. Descalço. No topo, olha para trás.

— Me espera?

Valdir olha a rampa vazia. Não sobe. Fica. Aperta o bilhete de 02/06 no bolso. Acha, junto da Bic, a bala de banana que Marta deixou.

Marta fecha os dedos sobre o bilhete em branco. Um nome aparece, roxo, bem fraco: M...

O zinco volta a pingar.

O QUE A ÁGUA COBRA

O QUE A ÁGUA COBRA
Tadeu Everton Zamoiski Guaratuba — Morro do Cristo



O Cristo não olha pro mar. Olha pra baía. De noite, de baixo, a estátua some e só ficam os braços abertos, meio no escuro, como quem espera alguém que não chegou. E a baía, de noite, parece que cobra.

Foi ali que os cinco subiram.

Duda levou o papel. Arrancou a última página do caderno onde o pai anotava as coisas da Receita Federal, aquela página úmida do fundo, com cheiro de mofo. Léo levou o isqueiro Bic amarelo, meio morto, do porta-luvas. Kelly levou a faca de cozinha, de cortar cebola, cabo de plástico branco. Rafa levou o nome. E a culpa. Porque foi ele quem parou de olhar. Bia levou a chave da casa do Rafa, que ela tinha desde os quinze.

O nome era Téo. Irmão do Rafa. Dez anos. Morreu em janeiro de 2021, na praia de Guaratuba, quase na altura do morro.

Rafa tava beijando a Bia quando o Téo sumiu. Um minuto de olho fechado. Quando abriu, o Téo não tava mais. Acharam o corpo à noite, boiando perto do quebra-mar. A água tava calma. Depois daquele dia, Rafa nunca mais beijou a Bia de olho fechado. Duda continuava perguntando pelo Téo quando todo mundo já tinha parado de falar dele. Foi ela que apareceu com o livro.

Duda achou o livro na casa da avó. Embaixo das toalhas de mesa. Capa preta, sem título. Uma página do meio úmida, com a dobra no canto marcada de tanto abrir no mesmo lugar.

— Era isso que tava escrito — ela falou.

Escreveram o nome do Téo no papel. Escreveram a data.

Queimaram o papel com o Bic amarelo. A fumaça subiu. O vento levou.

Duda leu a frase do livro, meio sem jeito:

— Volta com a gente. A gente paga.

Os cinco repetiram. Dormiram no chão de pedra, embaixo do Cristo.

Bia acordou de madrugada com um pingo. Água pingando em pedra, embaixo deles, onde não devia ter água.

De manhã, o morro, o Cristo, a baía. Tudo igual.

Desceram. Pegaram o Corsa prata do Rafa.

No caminho, Léo parou no posto pra comprar cigarro. O frentista era um velho de bigode.

— Filho do Seu Antônio?

Léo disse que não.

O velho passou a maquininha.

— É a cara dele.

— Não tenho pai.

Léo voltou. Bateu a porta. Ficou com as duas mãos no volante, olhando pra bomba. Saiu com o rádio no máximo.

No retrovisor, Bia esperou ele rir da história.

Não veio.

— Léo. Seu Antônio é teu pai.

Léo repetiu baixinho, testando a boca:

— Que pai?

Naquela noite, em casa, Bia sonhou com a fenda. Água preta. Uma voz pensada com a cabeça dela disse:

um.

Acordou e tentou lembrar o cheiro do cabelo do Rafa naquela manhã. Não veio. Lembrava que tinha cheiro. Não lembrava qual.



No dia seguinte, na casa do Rafa, a cozinha tava diferente. Duas canecas na pia. Uma com desenho de dinossauro, a borda lascada. A mãe do Rafa de costas, fazendo pão na chapa. A porta do quarto do Téo entreaberta, coisa que ficava trancada desde 2021.

— Téo, vem comer — ela gritou pro corredor.

Um menino apareceu correndo, bermuda, cabelo ainda molhado pingando no chão, pés descalços. Sentou e puxou a caneca de dinossauro pra ele.

Rafa ficou em pé na porta, com a mão na maçaneta.

— Téo?

— Que foi? Tô indo pra praia. Vai lá?

Bia ficou atrás, olhando a caneca. Tentou sentir o cheiro do cabelo molhado do menino. Não veio também. Olhou pro Corsa lá fora e percebeu que a senha do portão que ela e o Rafa usavam desde sempre não vinha mais.

Na segunda madrugada, o pingo tinha virado correnteza embaixo da pedra.



Na segunda vez, subiram de novo.

Rafa chamou. Léo foi porque o Rafa chamou. Kelly foi porque o Léo foi. Duda foi porque tinha achado o livro. Bia foi porque não deixava o Rafa sozinho.

No morro, Bia viu a fenda de perto pela primeira vez. Seca. Do tamanho de uma mão aberta.

Duda abriu o livro na página úmida. Léo pegou o Bic amarelo. Riscou uma vez. Não acendeu. Riscou de novo. A chama saiu fraca e queimou o canto do papel. Kelly segurou a faca e a mão não abriu.

Queimaram. Repetiram. Dormiram.

De manhã, o morro, o Cristo, a baía. Tudo igual.

No carro, Kelly olhou pra Duda no banco de trás.

— Bia, quem é ela?

— É a Duda.

— Desculpa. Eu não lembro.

Naquela noite, em casa, Bia sonhou.

dois.



Na terceira vez, subiram de novo.

Léo com as duas mãos no volante. Kelly olhando pela janela. Duda com o livro. Rafa pra frente. Bia pro Rafa.

No topo, Duda abriu o livro. Léo acendeu o Bic. Kelly segurou a faca e, pela primeira vez, não levantou.

— Isso não tá certo — ela falou, baixo.

Ninguém respondeu. O vento levou a voz dela.

Kelly cortou o ar, como se precisasse terminar.

Rafa escreveu o nome. Quando Duda foi soltar o papel, os dedos não abriram.

Queimaram. Dormiram.

Na terceira madrugada, não houve pingo nenhum. Bia acordou em casa com a fronha molhada, encharcada, como se alguém tivesse torcido uma toalha em cima do travesseiro.

De manhã, o morro, o Cristo, a baía. Quase tudo igual.

Chegaram em casa. Rafa foi pro quarto.

— Rafa. Cê me ama?

Ele olhou pra ela de olho aberto. Procurou alguma coisa ali e não achou nada.

— Desculpa. Eu sei que a gente tá junto. Eu sei que cê é a Bia. Mais eu não sinto nada.

Naquela noite, em casa, Bia sonhou.

três.



Na quarta vez, o Corsa foi com três lugares ocupados.

Foram Duda, Rafa e Bia. O chão de pedra onde dormiam tava molhado. A água preta já encostava no joelho de quem deitava. Deitada ali, Bia não via mais a baía. Só o céu recortado pelos braços do Cristo, que parecia mais baixo que na primeira vez.

Dormiram.

Na quarta madrugada, não houve pingo nenhum.

De manhã, o morro, o Cristo. Sem baía.

Na sala, só Duda e Bia.

— Duda... acho que já foi.

Duda olhou.

— Que água?

— A fenda.

— Que fenda?

— O livro.

— Que livro?

Naquela noite, em casa, Bia sonhou.

quatro.



Na quinta vez, quando percebeu, já estava na estrada do morro.

No bolso, a chave da casa do Rafa. Ela olhou pra chave na mão e não lembrou por que tinha pego. No porta-luvas do Corsa, o Bic amarelo. Na pia da cozinha da Kelly, a faca de cabo branco. Na mesa da Duda, o papel úmido e o livro.

No morro, a fenda tava na borda. Água lisa encostando na sola do tênis. O Cristo virado um pouco pro mar.

Ela acendeu. Queimou. Falou a frase. No meio da ladeira percebeu que não tava com medo. Tentou sentir. Nada.

Dormiu ali, com a água na borda.

Sonhou, no morro.

cinco.

Acordou. O tênis molhado. O morro diferente. A chave ainda na mão, apertada.

Desceu. Voltou pra casa. Pegou o celular. Abriu a câmera. A mão tremia.

— Rafa? Léo? Sou eu. A Bia. A gente foi no morro. A gente achou que ia trazer o Téo de volta e... eu não sei mais quem é quem. Se alguém achar isso, não deixa a Duda abrir o livro. Pelo amor de Deus. A página molhada. Não deixa ela abrir. Não...

A tela ficou preta por um segundo. Voltou.

— Não sobe. A água...

A tela ficou preta de novo.

Salvou. Mandou. Para quatro contatos. Três nem existiam mais na agenda.

Deitou e olhou pro teto.

Tentou lembrar do rosto do Rafa.

Não veio.

Tentou lembrar do nome dela.

Não veio.

A última coisa foi a fenda. Preta. Lisa. Como quem espera alguém que não chegou.

E depois não lembrou mais nada.



No dia seguinte, Duda acordou. No celular, uma notificação não lida de madrugada. Vídeo de uma menina que ela não conhecia.

"Rafa? Léo? Sou eu..."

Assistiu até a tela ficar preta no "A água...". Levantou. Foi pra cozinha. Em cima da toalha de mesa, o livro de capa preta. Ela não lembrava de ter deixado ali.

Olhou pro celular. Olhou pro livro.

A mão dela foi sozinha até a página úmida. Dobra no canto.

Na casa do Rafa, a pia tava vazia.

O celular do Rafa vibrou na mesa. Mensagem nova, com data antiga.

Téo — 16/01/2021 14:32 Rafa, tô indo pra praia. Vai lá?

Rafa olhou pra tela. Olhou pra pia vazia. Por um segundo, achou que via a borda lascada de uma caneca de dinossauro que não tava lá.

— Mãe, cadê o Téo?

A mãe parou de mexer o café.

— Que Téo?

QUANDO ENTRA ÁGUA NO OUVIDO

QUANDO ENTRA ÁGUA NO OUVIDO
Reserva Rio da Onça
Tadeu Everton Zamoiski
Matinhos — Balneário Riviera

Lina morava na Riviera numa kitnet em cima de uma garagem. No verão alugava por três mil. No inverno não alugava por nada. Por isso o dono aceitou a bióloga da prefeitura por quatrocentos.

Ela gostava do silêncio de lá no começo. Só varal batendo, caixa-d'água estalando no sol e, por cima das casas, o verde escuro da Reserva. O Parque Estadual do Rio da Onça. Entrada gratuita, placa de madeira comida de cupim que o povo de lá finge que não vê.

Tinha passado no concurso e ainda se sentia intrusa. Quando falava que era bióloga da prefeitura, o povo da Riviera respondia "ah".

Na segunda o rio amanheceu coberto de lambari morto. De barriga pra cima, preso na raiz do mangue. Na terça dobrou. Na quarta não tinha mais peixe. Nem vivo nem morto. A água ficou lisa. Sem reflexo. Quente. Cheirava mais que o normal. Folha podre fervida.

Os cachorros da mureta não latiam mais. Ficavam deitados, com a cabeça baixa, coçando o ouvido na terra até sangrar. Dona Cida ainda jogava pão e eles não levantavam.

Ainda na quarta Lina calçou a galocha com o furo no calcanhar e entrou. O furo já tava lá há meses, ela botava um saco plástico por dentro. Naquela manhã esqueceu o saco.

A água tava morna. Em julho. Deixou um gosto de moeda na boca quando respingou.

Encheu três potes de palmito que guardava pra isso. Guardou dois em casa e levou um. No que levou tinha uma linha. Fina como cabelo branco, com uma pontinha preta que não parava. Se mexia contra a corrente. Quando ela encostou o pote na linha, a linha nadou pra dentro. Sozinha.

Fotografou o fio no pote antes de sair.

Levou pro Centro de Estudos do Mar, da UFPR, em Pontal. O técnico olhou no microscópio e tirou a mão como se tivesse levado choque. Limpou a mão na calça. Chamou outro sem encostar no pote.

— Onde você pegou isso no Onça?
— Na curva do trapiche. Perto da Riviera.
— Isso procura hospedeiro, Lina. Entra por ferida, por ouvido, por mucosa. Não encosta mais nisso sem luva.

No caminho de volta o ouvido esquerdo começou a coçar por dentro. Uma coceira que não passava com o dedo. Depois veio a dor de cabeça atrás do olho.

Voltou no fim da tarde. Dona Cida tava sentada na mureta da ponte que divide a Riviera da entrada do Parque. De chinelo de dedo, pé sujo de barro.

— Você tá escutando também, né? — falou sem olhar.

Lina travou. A dor atrás do olho pulsou.

— Escutando o quê?

— O que eles pensam. Não é alto. É aqui dentro — bateu na cabeça. — Meu neto me abraçou ontem. Eu ouvi na hora, com a vozinha dele, aqui dentro: "Tomara que a vó morra logo pra gente ficar com a casa". Ele tem nove anos, Lina.

Lina tentou rir e a garganta não respondeu.

— Dona Cida, a senhora dormiu?

— Pergunta pro Josué.

Seu Josué do pastel, da barraca de lona azul que todo mundo da Riviera conhece, tava com a cabeça entre as mãos. A gordura da fritadeira já fria.

— Não consigo mais fritar — disse. — Fecho o olho e ouço minha mulher fazendo café e pensando que sou um traste. Que devia ter morrido no lugar do irmão dela.

Na quinta Lina fez o que bióloga faz. Escreveu o laudo. Botou foto do fio, escreveu "possível nematoide exótico com comportamento de busca ativa por via hídrica - ouvido/lesão", "sugiro interdição imediata e análise da SANEPAR". Mandou pro chefe no WhatsApp com os dois potes que ficaram na pia.

Ele visualizou às 21h47. Respondeu às 22h03.

Chefe: Lina, não cria pânico. É baixa de oxigênio. Todo ano é isso. Deixa o pessoal do parque resolver. E tira essas fotos da pia, parece amadora.

Ela ficou olhando pra mensagem. E o ouvido coçou de novo, fundo. E entrou.

Dentro da cabeça dela, com a voz dele, mas com o ranço que ele nunca teria coragem de escrever:

"Essa menina passou porque a banca foi boazinha. Tem gente com mestrado esperando vaga e me mandam essa que mora em cima de garagem na Riviera. Fica inventando parasita pra aparecer no jornal de Matinhos."

Ela jogou o celular contra a parede. Não quebrou. Só amassou a capinha.

Na sexta, três e doze da manhã, acordou com a torneira pingando e um gosto metálico na boca. O céu da Riviera tava verde de tempestade, aquele verde de antes de cair o mundo. Abafado.

E ouviu a vizinha de baixo. Marlene, da camisola amarela que cheira a amaciante barato e fica o dia todo estendendo e recolhendo a mesma roupa no varal.

Claro, dentro da cabeça dela:

"Essa bióloga da prefeitura vai dizer que fomos nós que sujamos o rio. Vão fechar a Reserva. Vão tirar a gente da Riviera."

Lina ficou um tempo no escuro ouvindo o pingo. Não respondeu. O silêncio depois do pensamento da Marlene pesou mais que o pensamento.

De manhã a prefeitura botou a placa na entrada gratuita:

PARQUE ESTADUAL RIO DA ONÇA - FECHADO PARA VISITAÇÃO
CONTAMINAÇÃO - RISCO BIOLÓGICO

Só que quem mora na Riviera colado na Reserva não tem pra onde ir.

Às nove Lina abriu a janela da kitnet. O varal da Marlene, que nunca ficava vazio, tava vazio.

Ligou pro técnico do laboratório. O cara atendeu abafado.

— Lina? Mandou mais amostra?

— Não mandei. Mas...

— Não manda. Tô ouvindo minha filha. Ela tá no quarto e tô ouvindo ela pensar que sou um fracassado. Isso é o seu bicho, Lina? Isso é o seu bicho?

Desligou.

Lina ficou com o celular na mão, olhando pro mangue por cima das casas. Não ligou pra ninguém. O ouvido coçava.

Ainda na sexta voltou na mureta. Dona Cida não tava mais sentada. Tava em pé, dentro da água até o tornozelo, com a galocha na mão. Barro até o joelho. Tinha entrado por vontade.

— Dona Cida?

Virou. Calma demais.

— Ele não me abraçou hoje. Ficou na porta. Pensou alto pra eu ouvir. Que tô fedendo a rio.

— Sai daí, Dona Cida.

— Tarde — sorriu. — Agora escuto menos. Quando entra água no ouvido, abafa.

Na barraca do Josué a lona tava rasgada. A mulher dele tava no chão, descalça na lama.

Ela levantou a cabeça quando viu a Lina e, por um segundo, Lina ouviu outra coisa, sem crueldade nenhuma, com a voz cansada dela:

"Tomara que ele descanse. Ele trabalha desde as quatro."

Ela piscou e falou em voz alta, como quem repete recado:

— Ele foi limpar. Falou que vai batizar. Que nem padre. Que se o rio ficar quieto, as vozes ficam quietas.

No sábado Lina pulou a cerca da Reserva. Com a mesma galocha.

O rio tava baixo. Lama exposta. A água, que antes era só lisa, agora tava escura de tanto fio se mexendo. Milhares.

No meio, de joelhos, Josué tava com os dois braços enfiados até o cotovelo naquela água, puxando os fios. Subindo pelo braço, entrando na pele, saindo pelo pescoço.

Ele não gritava. Sorria. Se ajoelhou mais fundo na lama e fez o sinal da cruz com a mão suja de barro antes de puxar a primeira.

Na frente dele, de joelhos também, com a cabeça segurada por ele como se batiza criança na igreja, tava Dona Cida. E do lado, Marlene, de camisola amarela.

Josué botava a mão na nuca de cada uma, afundava a cabeça e ficava segurando. Uma, duas, três vezes. Como quem tira o pensamento com água.

Quando soltou, das duas ficaram boiando de bruços. Sem briga. De olhos abertos, cheios de barro. Quietas.

— Tá ouvindo agora? — disse pra Lina. — Tá todo mundo quieto agora. Limpei.

Atrás dele já tinha mais um. O neto da Dona Cida, de nove anos, sentado na lama, esperando a vez.

Lina não entrou. A lama cedeu sob a galocha e a água entrou pelo furo do calcanhar. Morna.

O menino levantou a cabeça. Olhou pra ela. Ficou olhando. Uns três segundos que não acabavam.

Aí Lina ouviu, com a vozinha dele, sem ele abrir a boca:

"Agora a vó não fede mais."

E ali, na beira, com a voz dela, mais honesta do que nunca tinha sido, Lina ouviu a si mesma:

"Deixa ele limpar todo mundo. Aí você finalmente dorme sem ouvir ninguém."

Ficou ali.

O calcanhar começou a coçar.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

O VERÃO QUE NÃO TERMINOU

O VERÃO QUE NÃO TERMINOU
Tadeu Everton Zamoiski
Matinhos

Nilo se aposentou numa terça de março. Guardou o boné vermelho numa caixa de papelão em cima da geladeira e foi pra casa a pé pela Praia Grande. 62 anos, 31 verões contando bandeira. Tinha salvado 47. Perdido 3. Os 3 nunca entraram na conta.

Nos primeiros meses acordava antes do sol e descia até o posto 3 só pra ver se o mar ainda tava lá.

Em dezembro Caiobá enche e fica burra de calor. O ar não corre entre os prédios. Cheira a óleo de fritura, protetor barato e a valeta que transborda quando chove forte. Todo dia, quando a sombra dos prédios cobre a areia, a luz muda e todo mundo acha que o mar acalmou. Os antigos chamam de boca da noite. É a hora que mais mata.

Foi nessa hora que ele viu o menino de novo.

Boné azul. Camiseta amarela. Dez anos. De costas pro mar, parado onde a espuma morre. Em volta, a Praia Grande lotada. Guarda-sol, caixa de som com funk no talo, moleque correndo com bola. As pessoas passavam por dentro dele. Desviavam sem desviar.

Sentou na mureta. As mãos tremiam, ele fechou o punho pra parar. O resto da praia era só pegada pisoteada, mas embaixo do menino a areia era lisa, sem marca.

Levantou.

— Ei, piá. Sai daí.

O menino virou. Sorriu sem pressa, como quem já sabe a resposta. Abriu a boca e saiu um som abafado, cheio d'água.

Depois apontou pro mar e começou a andar pra dentro. A água batia no joelho dele e não molhava.

Nilo foi atrás de bermuda e tudo. Quando chegou onde o menino estava, só voltava espuma. Voltou encharcado pra mureta. Uma ambulante passou, olhou pra cara dele, pro mar vazio e seguiu vendendo.

No dia seguinte foi mais cedo. O menino apareceu no mesmo ponto. Ficou dez minutos ali, sem mexer. Depois apontou o queixo pro mar.

Nilo entrou. Água na cintura, turva, cheia de areia rodando. Mergulhou a cabeça e abriu o olho. No meio da areia, dois pés pequenos parados na frente dele, sem afundar.

Subiu tossindo. O menino já tava na areia de novo, seco.

No terceiro dia o menino chegou perto demais. Cheirava a roupa guardada. Quando chegou a um metro, o cheiro virou outra coisa, mais forte, peixe de fundo de caixa.

— Tio, tem bala?

Nilo engoliu e a língua raspou no céu da boca.

— Você pegou só a camiseta.

O braço não veio.

O menino estendeu a mão. A palma toda enrugada de água.

— Agora segura direito.

Nilo esticou a mão. Quando encostou, a palma tava gelada e lisa. Escorregou entre os dedos dele e não deu pra fechar. Recuou um passo.

Ficou de mãos vazias na frente do menino. Sem apito. Sem boné.

— Cinco e meia — disse o menino. — Todo dia.

O menino estava ali. Depois não estava.

Janeiro lotou de um jeito que não dava pra respirar. Nilo ia todo dia.

No dia 21 saiu pra comprar pão e o menino tava na esquina do posto, de camiseta amarela, seco, de manhã, longe do mar, na rua. Na calçada suja não tinha pegada pra chegar até ele. Uma mulher passou com carrinho de bebê por dentro dele.

Nilo atravessou a rua e o menino atravessou junto, do outro lado.

Naquela noite, quando voltou pra casa, a porta tava escancarada. Ele tinha fechado.

No sofá, dobrada com cuidado, a camiseta amarela molhada, pingando no chão de madeira que ele tinha acabado de limpar. Ele pegou e jogou no lixo da rua. De manhã ela estava no sofá de novo, molhada.

Em cima da geladeira, a caixa de papelão estava aberta. O boné vermelho dele, cheio de areia.

Na janela da sala, dedos pequenos marcados por dentro, com areia, na altura de uma criança. Contou cinco. Tinha seis.

Trancou a porta. Não foi mais na mureta. Mas todo fim de tarde, às cinco e meia, ouvia lá fora o vendedor de milho, o funk, criança chorando e, no meio, o apito novo do posto 3.

Hoje faz calor em Caiobá. A camiseta no sofá continua molhada. Nunca seca. O cheiro de mar podre impregnou a casa toda, não sai nem abrindo tudo.

Agora há pouco, às cinco e trinta e oito, bateram na porta. Três batidas leves, como criança bate.

Nilo não atendeu. A maçaneta girou sozinha, devagar, e voltou.

Do lado de fora, pés descalços parados na areia que ele varreu de manhã. Uma linha fina de água escura entrava por baixo da porta.

E uma voz abafada pela madeira.

— Tio, tá na hora.

O ESPELHO DO SOBRADO

O ESPELHO DO SOBRADO
por Tadeu Zamoiski

O sobrado não queria ser consertado. Queria ser deixado quieto. Eu aceitei.

Rafael Lins. É o que tá no carimbo. Restaurador de patrimônio. Na prática sou o cara que a prefeitura chama quando ninguém mais quer se enfiar no mofo.

No meu celular, foto do Miguel de papel de parede. Tela toda trincada. Seis anos. Está em Matinhos com a Ana. Eu prometi buscar no sábado. Fazia três sábados que eu prometia.

O dono me ligou. Médico aposentado.

Dr. Almir = Sr. Rafael, herdei o imóvel da família na Rua da Praia. Segundo andar, sala íntima, umidade crônica. Que volta sempre. O engenheiro falou em infiltração, mas para mim parece outra coisa. Uma ferida que não cicatriza. Quero que o senhor raspe até achar o que presta.

Eu = Doutor, isso aí é sete demão de cal por cima de reboco podre. É igual dente cariado, o senhor pinta por cima e continua podre por dentro. Tenho que vir na espátula até o tijolo aparecer.

Dr. Almir = Faça. Eu não entro lá. Minha mãe faleceu nessa sala. Eu não consigo.

Pagou metade no pix e sumiu.

No décimo dia, raspando a saleta, a cal caiu em placa. Oca. Atrás tinha um nicho. E dentro, um espelho.

De corpo inteiro, moldura de jacarandá, pesada que só a porra. Sem um risco. Numa casa onde tudo tinha um dedo de pó, ele estava limpo. Dava pra ver meu bafo nele.

Me olhei. 38 anos, camiseta encardida, suor escorrendo pela costela e grudando nas costas.

O reflexo demorou. E quando mexeu, mexeu primeiro. Antes de mim.

Reflexo = Demorou. Não eu.

Travei com a espátula na mão.

Eu = Quem está aí?

Reflexo = Você. Só que sem o resto.

Ele falava igual eu falo em obra. Sem vírgula.

Sentei no taco gelado. Levei a cachaça que uso para limpar pincel.

Reflexo = Por que não foi no enterro do seu pai?

Eu = Estava com trampo em Morretes. Tinha que entregar o forro, senão não recebia.

Reflexo = Mentira. Você teve nojo. Nojo dele largado na cama, com a perna preta. Justo você, que vive de coisa podre.

Doeu porque era verdade.

O Dr. Almir apareceu no dia seguinte, de máscara PFF2, ofegante, com um oxímetro na mão.

Dr. Almir = Rafael, o senhor está pálido. Está se alimentando? Aqui tem fungo, Stachybotrys, pode fechar seu pulmão.

Eu = Estou bem, doutor. Olha o que achei. Era da sua mãe, né?

Ele ficou branco.

Dr. Almir = Minha mãe dizia que esse espelho pesava. Ela morreu aqui. Eu estava de plantão no Regional. Uma apendicectomia. Eu escolhi ficar no centro cirúrgico. Escolhi um estranho no lugar da minha mãe. Quando cheguei ela já estava fria. Em rigor. A cuidadora disse que ela ficou me chamando, olhando para esse vidro.

Respirou fundo. A voz quebrou.

Dr. Almir = Troquei minha mãe por um apêndice. E perdi os dois.

Foi embora quase correndo.

De noite o reflexo estava mais nítido. Mais bonito que eu.

Reflexo = Viu? O doutor também guarda um morto num canto que ninguém limpa. Me alimenta de novo. Cancela o Miguel. Você está acabado, vai chegar lá fedendo a verniz. O menino não precisa ver o pai assim.

Fez sentido. O sentido que eu queria ouvir.

Eu = Alô, Ana... ó, não vou conseguir buscar o Miguel amanhã. Deu um problema feio na laje aqui, vai cair tudo.

Ana = De novo, Rafael? Você é igualzinho ao teu pai. Só foge.

Desliguei. Mão tremendo.

Voltei para a saleta. O reflexo estava com a minha carteira no bolso. Sorrindo com um dente que eu não tenho mais.

Reflexo = Mais leve, né? Agora liga para ela. Fala que nunca amou ela de verdade. Fala de uma vez.

Eu liguei. Falei tudo que ele mandou. Minha ex chorou e me chamou de lixo. Derrubei a garrafa no chão.

Quando levantei a cabeça, a sala tinha mudado de cheiro. Cheiro de tinta nova. Cheiro de casa que nunca apodreceu. Parede branca, taco brilhando. Eu não tinha pintado nada.

Olhei para o vidro. Vazio.

Atrás de mim, barulho de mão lisa na parede. Devagar.

Me virei. Ele estava ali. De costas. De terno claro, cheiroso pra caralho. Passando a mão no meu serviço.

Rafael limpo = Serviço de primeira, hein, mestre? Quanto o doutor está te pagando? Está te explorando.

Eu = Sai da minha parede.

He se virou. Mudou a voz. Ficou frio, igual médico dando notícia.

Rafael limpo = Rafael, quadro compatível com delírio por inalação de solvente. Sudorese, taquicardia, confusão. Sugiro afastamento imediato.

Peguei a marreta.

Eu = Volta para o vidro agora.

Bati com tudo. A marreta entrou como se o vidro fosse água. Uma mão quente me puxou pelo pulso. De repente eu era o vidro. Ele era a sala.

Caí sentado do lado de dentro. Gelado.

Lá embaixo, campainha.

Dr. Almir = Sr. Rafael? Trouxe um oxímetro. O senhor não estava bem ontem, fiquei preocupado. Estou ouvindo sua respiração daqui de baixo, está taquipneica.

O outro eu desceu as escadas sorrindo. Leve.

Rafael limpo = Doutor! Que bom que veio. Terminei o restauro. Ficou curado. Pode entrar? A sala íntima ficou perfeita. Parece que nunca morreu ninguém aqui dentro.

Ele sorriu. A casa estava perfeita. Sem uma marca.

E eu fiquei do lado de dentro, vendo a minha vida seguir sem mim.