domingo, 6 de setembro de 2026

AS MENINAS DA LIVE 3

AS MENINAS DA LIVE 3

Crônicas de uma internet ao vivo

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

“A câmera liga. O bom senso desliga.”

VOLUME 3
QUANDO TODO MUNDO SE ENCONTRA
A terceira parte começa onde a segunda terminou.

A pergunta não é mais:
“O que acontece numa live?”

A pergunta passa a ser:
“O que acontece quando as pessoas que vivem nessas lives começam a se reconhecer?”
• • •
BLOCO I: O ALGORITMO APRESENTA
1. O Comentário Que Apareceu de Novo
Jéssica estava ao vivo.
Maquiagem impecável.
Filtro no máximo.
Luz circular.
Expressão de autoridade.
— Hoje vamos falar sobre inteligência emocional.
@renato_realista: «Você não disse isso no vídeo em que brigou com a entrega do aplicativo?»
Jéssica ignorou.
— Inteligência emocional é saber controlar as próprias reações.
@pedro_021: «Você chamou o entregador de incompetente.»
— Pedro, aquilo foi um exercício de assertividade.
@renato_realista: «Você também disse que ele tinha três minutos para aprender a trabalhar.»
— Renato, você está distorcendo.
@renato_realista: «Tenho print.»
Jéssica respirou fundo.
— Gente, vamos focar no conteúdo.
Outro comentário surgiu.
@carla_desafinada: «Oi, Jéssica.»
Jéssica parou.
— Carla?
@carla_desafinada: «Eu assisti à sua live ontem.»
— Você me assiste?
@carla_desafinada: «Às vezes.»
Jéssica sorriu.
— Então você sabe que eu falo de vários assuntos.
Carla respondeu:
@carla_desafinada: «Inclusive de canto.»
Silêncio.
@renato_realista: «Não façam isso.»
@carla_desafinada: «Só estou dizendo.»
Jéssica encerrou a transmissão.
No minuto seguinte, recebeu uma mensagem privada:
“Você conhece essas pessoas?”
Ela respondeu:
“Não.”
Ficou olhando para a tela. Depois acrescentou:
“Mas elas parecem me conhecer.”
• • •
2. O Homem Que Estava em Todas
Roberto havia aprendido uma coisa importante: era possível acompanhar várias lives ao mesmo tempo.
Ele tinha quatro celulares.
Um para Larissa.
Um para Fernanda.
Um para Carla.
Um para “outras”.
A esposa descobriu os quatro aparelhos.
— Esposa: Roberto.
— Roberto: Oi.
— Esposa: Por que você precisa de quatro celulares?
— Roberto: Organização.
— Esposa: Organização de quê?
— Roberto: Conteúdo.
— Esposa: Você está assistindo a mulheres fazendo maquiagem?
— Roberto: Pesquisa.
— Esposa: Cantando?
— Roberto: Pesquisa.
— Esposa: Comendo pão de queijo?
Roberto ficou em silêncio.
— Roberto: Essa parte é gastronômica.
A esposa pegou um dos celulares. Na tela, Larissa estava ao vivo. Outro mostrava Fernanda. Outro mostrava Carla. No quarto, Patrícia.
A esposa olhou para ele.
— Esposa: Você tem mais conteúdo do que uma emissora de televisão.
— Roberto: Obrigado.
— Esposa: Não foi elogio.
Naquela noite, Roberto entrou na live de Larissa. Escreveu:
@roberto: «Princesa.»
Larissa respondeu:
— Roberto, sua esposa deixou?
O comentário seguinte apareceu:
@Esposa_Do_Roberto_Oficial: «Não.»
Roberto saiu.
@renato_realista: «Até amanhã, Roberto.»
• • •
BLOCO II: AS PESSOAS COMEÇAM A SE ENCONTRAR
3. O Pão de Queijo Virou Patrimônio
Fernanda estava ao vivo. O pão de queijo estava sobre a mesa. A audiência reconheceu imediatamente.
@renato_realista: «Ele voltou.»
Fernanda respondeu:
— Ele nunca foi embora.
@pedro_021: «Quanto custa?»
— Dois reais.
@pedro_021: «Com esse preço, você não pode falar de investimentos.»
Camila entrou na live.
— Posso falar.
Fernanda riu.
— Você chegou na hora.
Camila começou:
— Primeiro, precisamos entender a relação entre consumo emocional e—
Fernanda mordeu o pão de queijo.
Camila parou.
— Você está comendo enquanto eu falo?
— Estou.
— Isso é falta de respeito.
— Você quer?
Camila pensou.
— Quero.
Fernanda entregou um. Em poucos minutos, estavam as duas comendo.
Depois entrou Jéssica. Depois Larissa. Depois Carla. Depois Bia. E então Pedro.
A live virou uma mesa de cozinha.
Ninguém falava sobre autoestima. Ninguém falava sobre produtividade. Ninguém falava sobre propósito. Falavam sobre queijo.
O número de espectadores chegou a vinte e três mil.
Fernanda olhou para a tela.
— Gente, talvez esse seja nosso nicho.
Camila assentiu.
— Alimentação afetiva.
Jéssica:
— Posicionamento gastronômico.
Pedro:
— Vocês estão com fome.
@renato_realista: «Finalmente alguém disse.»
• • •
4. O Cachorro Que Conhecia Todo Mundo
Bia abriu a transmissão. O cachorro apareceu. A audiência o reconheceu.
@pedro_021: «Oi, chefe.»
@carla_desafinada: «Ele está lindo.»
@fernanda_pao_de_queijo: «Ele quer pão de queijo.»
Bia olhou para o cachorro.
— Como vocês sabem?
@renato_realista: «Porque ele sempre aparece quando a Fernanda está comendo.»
Fernanda entrou.
— Ele tem bom gosto.
Bia riu.
— Vocês estão falando como se conhecessem meu cachorro.
Pedro:
«Conhecemos.»
Bia ficou olhando para a tela. Era verdade. Eles conheciam o cachorro. Conheciam a voz dela. Conheciam o quarto. Conheciam a mesa. Sabiam a hora em que ela costumava entrar. Sabiam quando o cachorro estava inquieto. Sabiam quando ela estava cansada.
Bia ficou alguns segundos em silêncio.
— Isso é meio estranho.
@renato_realista: «É.»
Pausa.
@renato_realista: «Mas você também sabe quando eu estou aqui.»
Bia sorriu.
— É.
O cachorro latiu.
@pedro_021: «Ele concordou.»
• • •
BLOCO III: O GRUPO
5. A Ideia Péssima
A ideia veio de Patrícia. Isso deveria ter sido suficiente para todos recusarem.
— Precisamos criar um grupo.
Jéssica perguntou:
— Para quê?
— Para organizar nossas lives.
Fernanda:
— Eu voto não.
Carla:
— Eu voto sim.
Bia:
— Para organizar o quê?
Patrícia:
— Tudo.
@renato_realista: «Isso vai dar errado.»
@pedro_021: «Posso entrar?»
Patrícia:
— Você é criança.
Pedro:
— Tenho público.
Silêncio.
Jéssica:
— Coloca ele.
Assim nasceu o grupo:
AS MENINAS DA LIVE OFICIAL
— Grupo de Mensagens

Primeira mensagem:
— Jéssica: Vamos manter o profissionalismo.
Segunda:
— Fernanda: Quem trouxe pão de queijo?
Terceira:
— Carla: Posso mandar áudio cantando?
Todos:
NÃO.
Quarta:
— Pedro: Quem é o administrador?
— Patrícia: Eu.
— Pedro: Era.
— Patrícia: Como assim, era?
— Pedro: Agora sou eu.
— Patrícia: Como você fez isso?
— Pedro: Você deixou a senha aqui.
Silêncio.
— Jéssica: Que senha?
— Pedro: Exatamente.
• • •
6. A Primeira Reunião
Decidiram fazer uma reunião presencial. Foi um erro.
Jéssica chegou quinze minutos atrasada.
Larissa chegou maquiada.
Fernanda chegou com pão de queijo.
Carla trouxe um microfone.
Bia trouxe o cachorro.
Patrícia trouxe uma pasta.
Camila trouxe uma planilha.
Pedro chegou de bicicleta.
Renato apareceu por chamada de vídeo.
Patrícia abriu a pasta.
— Precisamos definir nossa estratégia.
Fernanda levantou o pão de queijo.
— Primeiro, estratégia alimentar.
Carla ligou o microfone.
— Eu preparei uma música.
Bia segurou o cachorro.
— Ele está nervoso.
Camila abriu a planilha.
— Fiz uma projeção financeira.
Pedro olhou.
— Está errada.
Camila fechou a planilha.
— Por quê?
— Você esqueceu o dinheiro que não existe.
Camila fechou a planilha novamente.
— Esse menino vai longe.
Pedro respondeu:
— Eu sei.
Foi a primeira vez que todos perceberam que já estavam conversando como velhos conhecidos. Mesmo sem terem se encontrado antes.
• • •
BLOCO IV: A INTERNET COMEÇA A DEVOLVER
7. A Fama Que Ninguém Pediu
O grupo começou a ficar conhecido. Não oficialmente.
Primeiro apareceu um vídeo:
“AS MENINAS DA LIVE SE CONHECEM?”
Depois:
“QUEM É PEDRO_021?”
Depois:
“O CACHORRO DA LIVE TEM MAIS PERSONALIDADE QUE OS DONOS.”
Bia ficou indignada.
— Meu cachorro está famoso.
Patrícia respondeu:
— Eu tenho oito mil seguidores.
Pedro:
— Ele tem doze.
Patrícia:
— Doze mil?
— Doze.
— Isso não é possível.
— É.
@renato_realista: «Ele não posta nada.»
Pedro:
— Exatamente.
Patrícia ficou em silêncio.
Naquela noite, o cachorro apareceu ao vivo. Bia colocou o celular diante dele. A audiência chegou a quinze mil.
Bia olhou para a câmera.
— Vocês estão aqui por ele?
@renato_realista: «Sim.»
@pedro_021: «Infelizmente.»
@fernanda_pao_de_queijo: «Ele quer pão de queijo.»
O cachorro latiu. A audiência explodiu.
Bia encerrou a transmissão.
— Eu me recuso a trabalhar para o meu cachorro.
O cachorro olhou para ela.
No dia seguinte, recebeu uma proposta de publicidade. Para ração.
• • •
8. O Dia Sem Filtro
A ideia de fazer uma live coletiva veio de Lúcia. Ela escreveu no grupo:
“Podemos fazer uma transmissão sem filtro?”
— Lúcia

Jéssica perguntou:
«“Sem filtro de imagem?”»
Lúcia:
«“Sem personagem.”»
Ninguém respondeu.
Lúcia escreveu:
«“Só por uma hora.”»
Aceitaram. Entraram todos. Sem filtro. Sem maquiagem. Sem música. Sem roteiro.
Carla foi a primeira.
— Eu sei que não canto bem.
A frase saiu depressa, quase ensaiada. Talvez ela a repetisse diante do espelho antes de ligar a câmera. Faltava apenas a parte que nunca dizia: cantaria mesmo assim. Talvez porque, se não cantasse, ninguém tivesse motivo para ficar.
Fernanda:
— Isso nós já sabemos.
Carla riu.
— Obrigada.
Jéssica:
— Eu não entendo de tudo.
@renato_realista: «Finalmente.»
Larissa:
— Eu gosto de me arrumar porque gosto de ser vista.
Patrícia:
— Eu tenho oito mil seguidores e ainda fico olhando para a porta quando entro num lugar, esperando alguém me reconhecer.
Camila:
— Eu ensino finanças e já tive medo de abrir meu próprio aplicativo bancário.
Bia:
— Às vezes, passo o dia inteiro sem conversar com ninguém.
O cachorro encostou a cabeça na perna dela.
Pedro:
— Eu fico entrando nas lives porque minha mãe manda eu desligar o celular.
Todos riram.
— Mas também porque gosto daqui.
A risada diminuiu.
Então Dona Maria entrou.
@Dona_Maria_72: «Boa noite, minha filha.»
Lúcia sorriu.
— Boa noite, Dona Maria.
@Dona_Maria_72: «Hoje trouxe meu jantar.»
Fernanda levantou um pão de queijo.
— Eu também.
Dona Maria mandou um coração.
Lúcia olhou para todos.
— Acho que essa é a melhor transmissão que já fizemos.
@renato_realista: «E ninguém ganhou presente.»
Camila respondeu:
— Ainda.
Todos riram. Até Dona Maria mandou uma carinha sorrindo.
• • •
BLOCO V: LÚCIA
9. A Menina Que Esperava
Depois da live, Lúcia permaneceu conectada. O grupo já tinha ido embora. Ela continuava olhando para a tela.
— Jéssica: Vai dormir.
— Lúcia: Já vou.
— Larissa: Mentira.
— Lúcia: Como você sabe?
— Larissa: Porque eu também digo isso.
— Fernanda: Come um pão de queijo.
— Lúcia: Não tenho.
— Fernanda: Isso é uma emergência.
— Pedro: Você está sozinha?
Lúcia demorou.
— Lúcia: Estou.
— Pedro: Nós também estamos às vezes.
Ela ficou olhando. Depois escreveu:
— Lúcia: Obrigada por terem ficado naquela primeira noite.
@renato_realista: «Você lembra?»
— Lúcia: Lembro.
@renato_realista: «Por quê?»
Lúcia demorou alguns segundos.
— Lúcia: Porque ninguém falava comigo.
Pausa.
— Lúcia: Vocês ficaram.
Ninguém respondeu imediatamente.
Então Dona Maria escreveu:
@Dona_Maria_72: «Às vezes, ficar é a coisa mais importante.»
Lúcia sorriu.
Naquela noite, ninguém encerrou o grupo. Apenas deixaram as mensagens paradas. Como uma sala em que ninguém precisava conversar.
• • •
BLOCO VI: A MESMA COISA
10. A Última Live
Foi ideia de Pedro.
— Vamos fazer uma live sem título.
Jéssica perguntou:
— Para quê?
— Para ver quem entra.
— E o que vamos fazer?
Pedro deu de ombros.
— Nada.
Era exatamente o tipo de ideia que nenhum adulto deveria aceitar. Aceitaram.
A transmissão começou como um copo vazio. Ninguém o enchia. Ninguém bebia. Apenas olhavam para o fundo.
Cinco espectadores.
Dez.
Cinquenta.
Duzentos.
Mil.
O número subia devagar, sem pressa, como água invadindo um quarto escuro. Ninguém falava.
Depois começaram a aparecer os nomes:
@renato_realista
@Dona_Maria_72
@Roberto_Silva_58
@carla_desafinada
@bia_home
@fernanda_pao_de_queijo
@pedro_021
@patricia_oficial
@jessica...
@larissa...
Um por um. Todos estavam ali.
Lúcia olhou para a câmera.
— Vocês se conhecem?
Pedro respondeu:
— Mais ou menos.
— São amigos?
@renato_realista: «Não sei.»
@fernanda_pao_de_queijo: «Já dividimos pão de queijo.»
@bia_home: «Já conhecem meu cachorro.»
@carla_desafinada: «Já me ouviram cantar.»
@patricia_oficial: «Alguns já me reconheceram.»
@pedro_021: «Na internet.»
@patricia_oficial: «Pedro.»
@pedro_021: «É diferente.»
Todos riram.
@Dona_Maria_72: «Eu conheço as vozes.»
Lúcia leu. Ficou quieta. Depois perguntou:
— E por que vocês vieram?
Ninguém respondeu.
Então apareceu um comentário:
@renato_realista: «Porque você abriu.»
Outro:
@pedro_021: «Porque alguém precisava ficar.»
Outro:
@Dona_Maria_72: «Porque hoje eu não queria jantar sozinha.»
Outro:
@bia_home: «Porque meu cachorro estava dormindo.»
Outro:
@fernanda_pao_de_queijo: «Porque eu tinha pão de queijo.»
Lúcia riu.
— Fernanda...
«O quê?»
— Você estragou o momento.
«Eu salvei o momento.»
Jéssica escreveu:
«Ela tem razão.»
A transmissão continuou. Sem assunto. Sem maquiagem. Sem anúncio. Sem promoção. Sem música. Sem meta.
Às 2h13, o contador marcava trinta e sete mil espectadores.
Lúcia encerrou a transmissão.
O número era impressionante. Mas, depois que a tela escureceu, o que restava? Não eram pessoas, segundo a plataforma. Eram dados: impressões, minutos assistidos, taxa de retenção, engajamento. O algoritmo já havia calculated tudo.
O que ele não calculava era que, naquela noite, trinta e sete mil pessoas tinham feito a mesma coisa: ficado em silêncio, juntas.
O algoritmo não sabia o que fazer com isso.
Pedro olhou para o número.
— A gente está fazendo nada.
@renato_realista: «E tem trinta mil pessoas olhando.»
Pedro:
— Estranho.
@renato_realista: «Bastante.»
Lúcia olhou para a câmera. Pela primeira vez, não parecia estar esperando alguém. Parecia ter encontrado.
• • •
Fim do Volume 3

AS MENINAS DA LIVE 2


AS MENINAS DA LIVE 2

Crônicas de uma internet ao vivo
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

“A câmera liga. O bom senso desliga.”

BLOCO I — A CÂMERA LIGA
A luz circular acende. O ícone vermelho aparece. Em algum lugar, uma pessoa deixa de ser apenas ela mesma e vira transmissão. O algoritmo desperta. O público chega. E ninguém mais sabe ao certo onde termina a performance e começa a solidão.
1. A Especialista em Tudo
Jéssica abriu a transmissão com o filtro “Pele de Porcelana” no nível máximo. A luz fria refletiu como dois sóis minúsculos nas pupilas.
— Oiii, meus amores! Hoje a transmissão é de conversa e maquiagem leve… — disse, espalhando uma base que custava dois salários mínimos.
O bate-papo subiu veloz.
@marcos_agro: Jéssica, o que você acha da crise nos relacionamentos atuais?
Jéssica parou o pincel no ar, encarou a lente como se fosse entrevistada para presidente.
— O relacionamento hoje exige maturidade emocional, responsabilidade afetiva e alfabetização digital. Se a pessoa não soma, você subtrai. É isso aí.
@tiago_invest: E mineração de Bitcoin na Tailândia, vale a pena?
— O segredo da criptomoeda é não colocar todos os ovos na mesma carteira digital. Diversificação de ativos. Sempre.
@agro_top: Entende de rotação de culturas de milho no Mato Grosso?
— Um pouco. A questão do solo fértil é muito parecida com a preparação da pele antes da base. Se a base está seca, a plantação não cresce.
@roberto_mecanico: Minha geladeira Brastemp Frost Free está vazando água por baixo e fazendo barulho no motor. O que pode ser?
O bate-papo parou por dois segundos. O filtro falhou por um instante e mostrou um poro real.
— Amor… eu sou criadora de conteúdo. Não sou assistência técnica autorizada.
@roberto_mecanico: Ué, mas você acabou de dizer que sabe de tudo.
— Tudo dentro da minha bolha! Do meu nicho!
@gabi_viana: Qual é o seu nicho, Jé?
Ela segurou a esponja como um cetro e pensou três longos segundos.
— Meu nicho é a vida real e suas ramificações. Estou em fase de transição e escopo.
A conexão caiu segundos depois. Na manhã seguinte, publicou o trecho com a legenda: “Liderança de pensamento e autoridade digital”.
2. O Arrume-se Comigo
— Gente, a transmissão de hoje é histórica! — anunciou Larissa, aparecendo com rabo de cavalo frouxo, pijama furado na axila e rosto lavado. — Prepare-se comigo do zero! Vão me acompanhar da miséria à glória!
Por duas horas e quarenta minutos, seis mil pessoas assistiram hipnotizadas. Ela hidratou, passou primer, corretivo, base, contorno, pó, bruma fixadora, secou com um ventilador de ursinho, fez o delineado três vezes, colou cílios postiços, queimou o dedo, trocou de roupa quatro vezes.
Às dez horas da noite, reapareceu. Impecável. Parecia capa de revista. O ar-condicionado desligado fazia gotas de suor lutarem contra a maquiagem.
— E aí, galera? Gostaram do resultado? — posou, ombro caído, queixo erguido.
@pedro_021: Maravilhosa! Mas vai sair para algum lugar a essa hora?
Larissa sorriu, radiante e sincera.
— Para lugar nenhum, amor! Fiz toda essa produção para vocês. Para a nossa transmissão!
@marcelo_pijama: Entendi… mas a gente está assistindo da cama, de pijama e comendo pão com ovo.
Ela congelou. Olhou para o número de espectadores. Olhou para o espelho. Olhou para a roupa que levara quarenta minutos para vestir.
Desligou sem se despedir.
Cinco minutos depois, voltou. De pijama de ursinho, sem cílios, cabelo bagunçado, comendo biscoito de polvilho direto do pacote.
O número de espectadores bateu o recorde da semana.
3. A Monetização do Lamento
Bianca tinha decifrado o algoritmo psicológico. Não vendia conteúdo; vendia chantagem emocional.
— Ai, gente… boa noite — voz fraca, olhar triste. — A transmissão está tão parada… acho que vocês se cansaram de mim, né? Vou encerrar…
Um coração apareceu.
— Obrigada, @lucas_fiel! Pelo menos uma pessoa ainda lembra que eu existo… Mas na transmissão da Flavinha ontem apareceu até um Leão Dourado.
Um chapéu de cowboy.
— Ah, um chapéu. Legal. A gente se esforça, se arruma, abre a transmissão cansada… e ganha um chapéu. Mas tudo bem, a culpa é minha por esperar demais.
Dois Corações de Ouro e uma Coroa. Depois um Leão. Depois outro. A tela virou fogos de artifício.
@renato_realista: Bianca, você percebe que a gente só manda presentes para ver você nos xingar?
Ela olhou para o saldo: R$ 4.200,00 em quarenta minutos. Ajeitou o cabelo, sorriu com brilho perfeito.
— Monetização por indignação, meus amores. Agora, quem vai mandar o próximo Leão ou eu vou ter que chorar de verdade?
4. A Guerra das Duas
Camila e Vanessa dividiram a tela. O ar pesava antes da primeira palavra.
— Oiii, amiga! Que saudade! Você está linda! — voz três oitavas acima do normal.
— Maravilhosa é você, meu amor! Amei essa blusa, tão retrô… minha avó tinha uma igual! — devolveu Vanessa, precisa como atiradora de elite.
Dez mil pessoas assistiam. O bate-papo demorou três segundos para descobrir que havia sangue na água.
Ui. Ela chamou de brega. Pergunta se elas se conhecem fora da câmera!
— Ah, a gente é colega de trabalho, né? — Camila bebeu água devagar. — Respeito muito o trabalho dela.
— Conhecidas de evento, para ser sincera. A gente se vê nos eventos pagos. — Vanessa sorriu de canto.
— Da internet, né, Van? Porque, na vida real, a gente tem estilos de vida bem… diferentes.
— Graças a Deus, né, Cami? Cada uma entrega o que pode. Umas focam em quantidade, outras em qualidade.
BRIGARAM PELO EX!
Silêncio. Camila ajustou o anel. Vanessa ajeitou uma mecha perfeitamente alinhada.
— Não gosto de expor minha vida pessoal com desentendimentos banais — disse Camila.
— Nem eu. A maturidade é saber quando não dar palco para quem só quer audiência — rebateu Vanessa.
@joao_pobre: Ou seja: brigaram bonito.
As duas olharam para a câmera ao mesmo tempo.
— Próxima pergunta. — Urgente.
A câmera liga. A máscara cai. Por quinze minutos, todos são alguém diferente.
BLOCO II — TODO MUNDO ESTÁ OLHANDO
5. O Sol do Meu Dia
Todas as noites, às 22 horas, @Roberto_Silva_58 aparecia na transmissão de Larissa. Sempre pontual. Sempre as mesmas palavras.
@Roberto_Silva_58: Princesa.
@Roberto_Silva_58: Você é o sol do meu dia.
@Roberto_Silva_58: Você merece o mundo, gata.
Uma noite, Larissa percebeu a repetição.
— Roberto, obrigada pelo carinho de sempre. Me tira uma dúvida… você é casado?
@Roberto_Silva_58: Sou.
— E sua esposa sabe que você passa todas as noites me chamando de “sol do seu dia” na internet?
Ele demorou quarenta segundos para responder. O bate-papo esperou em silêncio.
@Roberto_Silva_58: Agora sabe.
— Como assim “agora sabe”, Roberto?
Uma notificação amarela brilhou:
@Esposa_Do_Roberto_Oficial entrou na transmissão.
O bate-papo virou arquibancada.
A CASA CAIU! CORRE, ROBERTO!!!
@Esposa_Do_Roberto_Oficial: Roberto, larga esse celular e vem buscar suas malas na calçada.
@Roberto_Silva_58 saiu da transmissão.
Larissa olhou para a câmera, engoliu em seco.
— Boa noite, senhora… Seja bem-vinda. O treino de hoje é de glúteos.
@usuario_anonimo: O Roberto não saiu da transmissão. Saiu do casamento.
6. A Celebridade de Oito Mil
Patrícia atingiu 8.102 seguidores e decidiu: agiria como estrela de televisão.
Colocou óculos escuros gigantes no shopping, vestiu sobretudo em 32 graus, caminhou devagar esperando ser cercada. Ninguém olhou.
Entrou numa cafeteria, sentou à mesa central, tirou os óculos devagar.
— Pode pedir para tirar uma foto, eu permito — disse com generosidade de rainha.
— Foto do bolo? São dezoito reais a fatia — respondeu o atendente.
Patrícia abriu a transmissão.
— Gente, estou num estabelecimento público e as pessoas simplesmente fingem que não me conhecem. A cultura do cancelamento e a inveja são reais!
@marcelo_00: Você é famosa?
@patricia_oficial: Sou criadora de conteúdo de alto impacto.
@marcelo_00: Famosa onde?
@patricia_oficial: Na internet!
@marcelo_00: Que internet? A minha não, não.
Ela encerrou a transmissão. No dia seguinte, publicou foto em preto e branco: “Vou me afastar das redes sociais por tempo indeterminado para cuidar da minha saúde mental”.
Tinha 8.101 seguidores.
7. O Desabafo
Marina abriu a transmissão com lenço na mão e olhos vermelhos de lágrimas pré-fabricadas.
— Gente… hoje não vim vender nada. Só preciso desabafar porque está muito difícil…
Força, Mari! Quem te magoou? Fala tudo!
Marina aproximou o rosto da câmera.
— Hoje de manhã publiquei um tutorial de maquiagem lindo… e uma pessoa fez um comentário que destruiu meu dia.
— O que disseram? Fala o nome!
Mostrou a captura: “Seu delineado está um pouco torto do lado esquerdo”.
O bate-papo silenciou.
— Passei três horas e meia na frente do espelho! Dediquei minha vida àquele conteúdo!
@paulo_sincero: Mas está torto mesmo, viu? Parece uma minhoca.
Marina parou de chorar. A dor virou ódio instantâneo e frio.
— Moderador?
@paulo_sincero foi banido.
@outro_usuario: Banir o cara não vai endireitar o traço.
Desligou a câmera. Naquela noite, a comunidade aprendeu: no desabafo, o público apoia qualquer drama — menos a verdade.
8. A Número 38
Carolina notou um padrão. Todos os dias, @Paulo_Sempre_Aqui enviava as mesmas frases.
Você é a mulher mais incrível desta rede. Única. Diferente de todas.
Criou perfil falso e entrou em trinta transmissões de outras influenciadoras. Lá estava ele. Em todas. Com a mesma frase.
— Paulo! Você fala que sou “única” só para mim ou digita isso em todas?
@Paulo_Sempre_Aqui: Digito em todas.
— E você não tem vergonha? Achei que era especial!
@Paulo_Sempre_Aqui: E você é especial, Carol! Você é a número 38 na minha planilha do Excel deste mês.
— Planilha do Excel?!
Sim. Tenho metas de interação emocional. Comento em 50 transmissões por noite. A que responder melhor ganha um convite para um café.
Carolina caiu na risada.
— Pelo menos você é organizado e sistemático!
Obrigado. A número 37 me bloqueou e fez denúncia por assédio. Você está no meu Top 3.
Eles riem, brigam, pedem, cobram. Mas ninguém desliga. Porque quando a câmera apaga, o silêncio volta.
BLOCO III — A INTERNET SABE QUEM VOCÊ É
9. A Vaselina e a Verdade
Fernanda estava no meio de uma divulgação paga de um creme de quatrocentos reais.
— Gente, este sérum restaurador de orquídeas negras mudou minha vida. Minha pele renovou em três dias!
@luiz_99: Quanto pagaram para falar isso? É propaganda paga ou você realmente usa? Minha tia vende cosméticos há 35 anos e disse que esta marca é só vaselina com perfume de lavanda e custa 5 reais na fábrica.
Fernanda parou de espalhar o produto. O creme acumulou como uma mancha branca na bochecha.
— Gente… vamos focar no conteúdo e ignorar os comentários maldosos, tá?
Mostra a embalagem! Passa na mão para ver! A tia da Maria está certa?
Gotas de suor brilharam na têmpora.
— Próxima pergunta, gente. Por favor.
@usuario_cetico: Qual será a próxima mentira que vai vender para a gente?
Desligou sem salvar o vídeo. No dia seguinte, o aviso apareceu em letras grandes: “Hoje farei uma transmissão EXTREMAMENTE sincera: A verdade sobre a indústria dos cosméticos”.
Bateu todos os recordes de audiência.
10. A Transmissão que Não Quis Acabar
Renata abriu às 20 horas.
— Gente, passei só para dar um “oi” rápido. Ficarei só duas horinhas porque amanhã acordo cedo.
Às 22h, um Unicórnio Voador apareceu.
— Meu Deus! Não posso encerrar agora, seria falta de educação! Mais quinze minutinhos!
Às 23h55, outro presente enorme.
— Galera, vocês são incríveis! Quem está aqui desde o começo?
Às 3 horas da manhã, falava com dificuldade, olhos vermelhos, voz rouca. Às 5h12, o sol entrou pela janela e revelou o rosto cansado, sem filtro.
— Gente… o sol já nasceu…
@pedro_madruga: Você ainda está na mesma transmissão de ontem??? Eu dormi, sonhei, acordei para ir ao banheiro e você continua aí!
Olhou para o cronômetro: 09h12min44s de transmissão contínua.
— Então… bom dia, galera.
Vai dormir, mulher! Parece um zumbi! Desliga isso, pelo amor de Deus!
— Só mais um presente e eu vou dormir, prometo.
O bate-papo fez um acordo silencioso. Ninguém mandou nada. Ficou em silêncio por dois minutos.
Pela primeira vez na história da internet, uma transmissão terminou por bondade do público.
11. Quem Espera
Às 21h17 de uma terça-feira qualquer, uma notificação apareceu em celulares espalhados pelo país:
“@menina_da_live começou uma transmissão ao vivo.”
Ninguém conhecia o perfil. A foto era de uma garota sorrindo diante de uma luz circular. O nome dizia apenas: Lúcia.
Trezentas pessoas entraram em menos de um minuto.
Ela não falava. Ficava sentada diante da câmera, em silêncio, olhando para a tela como se esperasse alguém.
Oi, Lúcia. Ela está triste? Alguém conhece essa menina? Comenta para ela falar!
O número de espectadores subiu para mil. Depois três mil. Alguém mandou um coração. Outro enviou um presente. Um terceiro escreveu:
@renato_realista: Pelo menos ela não está fingindo que está feliz.
Lúcia finalmente se mexeu. Olhou para a câmera e sorriu — um sorriso pequeno, cansado, quase envergonhado.
— Obrigada por ficarem.
A frase provocou uma enxurrada de respostas.
Sempre! Estamos junto. Você não está sozinha.
Ela baixou os olhos, como se estivesse guardando aquelas palavras.
— Eu sei.
Ficou em silêncio mais alguns segundos. Então a transmissão terminou. Sem aviso, sem despedida.
No dia seguinte, ninguém encontrou o perfil. Não havia vídeo salvo. Não havia foto. Não havia seguidores. Nem sequer havia registro daquela transmissão.
Mas naquela noite, milhares de pessoas receberam a notificação de novo. E entraram.
Porque, às vezes, a internet não é feita de quem fala. É feita de quem espera alguém responder.
Aqui o livro muda de tom. O leitor não está mais só rindo. Está reconhecendo.
BLOCO IV — DEPOIS QUE A CÂMERA DESLIGA
12. O Jantar de Queijo
Eduardo entrou já arrumando a camisa e sorrindo bobo. A tela banhada em luz dourada, duas velas tremeluzindo, sombras longas e românticas no rosto de Mariana. Ele baixou o brilho do celular.
— Boa noite, meu amor… Hoje preparei algo especial para nós dois… um jantar à luz de velas. Só nós dois.
Eduardo suspirou, pegou a taça de vinho. Finalmente, romance de verdade.
Mariana aproximou a câmera da mesa.
— Como podem ver… pratos brancos impecáveis, talheres de aço, toalha de linho… e aqui está a nossa obra-prima!
A câmera desceu. Na tela: um prato descartável com um pastel de queijo, uma lata de refrigerante gelada e um sachê de molho.
@eduardo_romantico: A luz de velas… é para dar mais sabor ao pastel?
Mariana acendeu uma terceira vela ao lado do pastel.
— Exatamente! É gastronomia emocional! A luz morna valoriza a massa crocante. O romantismo não está no preço, está na intenção! E a intenção foi: “estava passando em frente à pastelaria e fiquei com fome”. Isso é honestidade brilhante!
E o refrigerante?
— Espumante nacional, gelado e direto ao ponto. Igual ao nosso amor!
Eduardo brindou com a lata.
— Ao nosso jantar de pastel à luz de velas. Que seja crocante! 🥂🥟
O número de curtidas bateu o recorde. Ninguém nunca tinha comido um pastel tão romântico.
13. As Meias e a Luz Negra
Fábio viu a chamada e quase caiu da cadeira: “TRANSMISSÃO COM LUZ NEGRA — TUDO VAI BRILHAR!” Pensou em festa neon, roupas luminosas. Apagou a luz do quarto e entrou.
A tela estava quase toda preta. Escuridão total.
— Oiii, gente! Conseguem me ver?
Do nada, dois dentes brilharam intensamente, um relógio neon pulsou e um par de meias listradas brilhou verde e rosa como um farol.
@fabio_curioso: Vejo seus dentes, seu relógio e suas meias. O resto sumiu na escuridão! Você é uma meia falante!
— Perfeito! Esse é exatamente o conceito da noite: só brilha o que é verdadeiramente importante! Dentes saudáveis, relógio de qualidade e meias de algodão premium. O resto é casca, é ilusão, é superficial e não merece brilhar!
Deu um passo à frente e as meias desenharam um arco de luz neon.
— Agora vou dançar para vocês. E só vão ver minhas meias dançando. É arte minimalista! É performance conceitual! É… não encontrei nenhuma roupa que brilhasse na luz negra! Tudo bem, as meias são o destaque!
Fábio ficou olhando duas meias brilhantes dançarem sozinhas por vinte minutos. Foi a transmissão mais hipnótica, mais estranha e mais divertida que já assistiu.
Melhor transmissão de moda de todos os tempos. As meias brilham mais que a personalidade de muita gente. 👟✨
14. O Farol do Terceiro Andar
Rogério era apaixonado pelo mar, faróis e histórias de pescadores. Viu a capa: “NOITE NO FAROL — HISTÓRIAS DO MAR”. Entrou correndo, pegou um casaco de lã.
A tela acendeu. Uma luz girava lentamente, sombras suaves pela sala. Som de ondas quebrando. Voz suave e misteriosa:
— Boa noite, navegantes… Estou aqui, no alto do farol, observando o mar revolto e as estrelas que guiam os perdidos…
Rogério arrepiou. Até que a luz girou e iluminou perfeitamente uma estante de livros, um porta-controles e uma porta de quarto com adesivo de coração.
@rogerio_mar: Beatriz… esse farol tem porta de apartamento? E um porta-controles? Os faróis residenciais são novidade?
— Claro que tem, Rogério! Você acha que farol não tem morador? Eu moro aqui! Essa luz giratória é o meu lustre que não para de girar porque o interruptor quebrou! O som de ondas é um aplicativo gratuito! E o mar revolto… é o vento batendo na janela do terceiro andar!
A luz parou de girar.
— E agora vou servir o jantar. O peixe de hoje é… pizza de calabresa que chegou há dez minutos. O mar está calmo e a entrega foi rápida. Que costa é essa? É a costa do bairro!
Melhor farol residencial que já visitei. A pizza chegou antes da inspiração. 🍕🌊
Rogério pediu a mesma pizza. E passou a visitar aquele farol todas as noites.
15. A Sombra no Parque
Marcelo combinou com Carolina: “Transmissão ao ar livre — luz do sol, sem filtros, sem máscaras, só nós e a verdade”. Chegou cedo ao parque, sentou no banco de pedra, abriu a transmissão com o coração acelerado.
A tela acendeu. Uma silhueta escura e perfeita contra um sol ofuscante. O rosto dela estava completamente na sombra. Só se via o brilho do cabelo e o contorno do corpo.
— Oi, Marcelo! Que dia lindo, né? Que sol maravilhoso nos iluminando!
@marcelo_sol: Sabe que eu não estou vendo absolutamente nada do seu rosto? Você virou uma sombra falante! O sol está atrás de você e eu estou conversando com uma silhueta!
— Exatamente! Isso é transparência total, Marcelo! Você não me vê, mas sabe que eu estou aqui. Você não julga minha aparência, só ouve minha essência. Isso é confiança! Isso é amor sem olhar! Isso é… me posicionei errado e não tenho coragem de me mover agora!
Uma folha caiu na frente do sol e a silhueta desapareceu por um instante.
— E agora uma folha me cobriu! Significa que às vezes a vida nos tapa o sol! Reflitam!
Estou refletindo. Estou refletindo sobre por que estou conversando com uma sombra no parque. 🌑☀️
Marcelo fechou os olhos e refletiu. E a silhueta continuou falando sobre transparência, sem nunca se mover um centímetro.
16. A Senhora das Noites
(Conto inédito)
Ela nunca falava muito. Nunca mandava presentes. Nunca pedia atenção. Todas as noites, às 21h, entrava e escrevia uma única linha no bate-papo:
@Dona_Maria_72: Boa noite, minha filha.
A influenciadora sorria, agradecia e seguia com a transmissão. Não sabia o nome dela de verdade. Não sabia de onde era. Mas ali estava ela, todas as noites, pontual como um relógio.
Uma noite, não apareceu.
A influenciadora olhou para o bate-papo várias vezes. Procurou o nome. Não estava ali. No dia seguinte também não. E no outro.
Na quarta noite, o nome apareceu.
@Dona_Maria_72: Boa noite, minha filha. Desculpa a falta. Ontem meu marido morreu. Hoje não queria jantar sozinha.
A transmissão seguiu. A influenciadora engoliu em seco. Ficou em silêncio por alguns segundos. Depois continuou, com a voz um pouco mais baixa, um pouco mais suave.
Ninguém mandou presentes. Ninguém fez piada. Ninguém pediu para ela sair.
A senhora permaneceu ali até o fim. Sem mais comentários. Sem mais explicações. Apenas presente.
Não houve punchline. Não houve final engraçado. Houve apenas, por alguns minutos, duas pessoas jantando juntas, separadas por quilômetros e uma tela, e por um instante, nenhuma das duas estava sozinha.
17. O Pão de Queijo e a Verdade
Luiz sempre assistia às transmissões de Fernanda à noite. O abajur criava um círculo de luz amarela e quente, só nela. A voz calma, o clima de confidência. Confiava nela mais do que nos próprios amigos.
— Hoje vamos falar de solidão… — começou Fernanda, voz suave e compassiva. — Luiz, vi sua mensagem. Você se sente sozinho porque espera que alguém acenda a sua luz. Mas a luz tem que vir de dentro… do peito… do coração…
@luiz_confiado: É verdade, Fernanda… é exatamente isso que eu preciso ouvir…
— Tem que brilhar por dentro, Luiz! Tem que ser a sua própria luz! — Ela levantou o rosto com emoção. O abajur escorregou na mesa e caiu com um estrondo. — AI, MEU DEUS, A LUZ CAIU!
A sala ficou iluminada de verdade. Sem sombras, sem meia-luz. Fernanda apareceu de óculos de grau, camiseta de time, comendo um pão de queijo enorme.
— Espera… eu arrumo aqui… — Levantou o abajur de lado. Agora a luz iluminava apenas o pão de queijo, que brilhava dourado e perfeito. — Olha… o pão de queijo brilha mais do que eu. É porque a verdade sempre brilha, Luiz! A verdade!
Fernanda… você estava comendo pão de queijo o tempo todo enquanto eu chorava pelos meus relacionamentos?
— A vida é dura, Luiz. Mas o pão de queijo é macio e quentinho. Pense nisso. 🧀💡
Luiz pensou. Pensou tanto que foi até a padaria comprar um pão de queijo. E naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, não se sentiu sozinho.
EPÍLOGO — A CÂMERA DESLIGA
A transmissão terminou. O ícone vermelho sumiu. A luz circular apagou.
Do outro lado da tela, pessoas fecharam os aplicativos. Desligaram os celulares. Ajustaram as almofadas. Respiraram fundo.
A câmera desligou. E, pela primeira vez em muito tempo, ninguém precisou fingir. Ninguém precisou brilhar. Ninguém precisou ser interessante, engraçado, perfeito.
Só restou o silêncio. E o silêncio, perceberam, não era vazio. Era apenas quieto.
E na quietude, uma pergunta ficou pairando, suave como o último brilho de uma luz que se apaga:
— Agora que ninguém está olhando… quem somos nós?
Fim.

AS MENINAS DA LIVE

AS MENINAS DA LIVE
Crônicas de uma internet ao vivo

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

“A câmera liga. O bom senso desliga.”

Estas são pequenas histórias desse lugar onde o algoritmo tem pressa, o chat não tem memória e todo mundo parece conhecer todo mundo. E há quem esteja ali pelo caos. Há quem procure carinho. Há quem procure dinheiro. Há quem procure fama. Há quem procure apenas alguém que responda ao comentário perdido no meio de milhares.
As pessoas entram para assistir. As influenciadoras entram para serem vistas. E, entre uma coisa e outra, a internet faz aquilo que sabe fazer melhor: transforma qualquer detalhe da vida em espetáculo.
A maquiagem entra no lugar, o filtro suaviza a pele, o microfone captura até a respiração e os primeiros corações começam a subir. Alguém escreve “cheguei”. Outro pergunta de onde ela é. Um terceiro manda um mimo. Em menos de um minuto, uma sala qualquer vira palco, confessionário, shopping, consultório sentimental e tribunal público.
Então a tela acende.
Existe um momentinho curioso antes de toda live. A câmera ainda está desligada, o ring light permanece aceso sobre a mesa e, por alguns segundos, ninguém sabe exatamente quem vai aparecer.
1. A INFLUENCER QUE ERA ESPECIALISTA EM TUDO
Jéssica abriu a live com o filtro “Pele de Porcelana” no máximo e a luz fria e sem sombras do ring light refletida como dois sóis minúsculos nas pupilas.
— Oiii, meus amores! Hoje a live é de bate-papo e make levinha pro dia a dia… — disse, espalhando com dedos lentos uma base que custava dois salários mínimos.
O chat subia em velocidade vertiginosa, um borrão colorido de nomes e frases.
@gabi_viana: Diva perfeita!!
@lucas_33: Qual a marca do batom?
@marcos_agro: Jéssica, o que você acha da crise no relacionamento moderno?
Jéssica parou o pincel no ar, encarou a lente como se estivesse sendo entrevistada para um cargo de presidente e ajeitou o megahair que parecia pesar quilos.
— Meninas, e meninos também: relacionamento hoje em dia exige maturidade emocional, responsabilidade afetiva e, acima de tudo, letramento dinâmico. Se a pessoa não soma, você subtrai. É sobre isso.
@usuario998231: Falou tudo!
@tiago_invest: E o mercado de mineração de Bitcoin na Tailândia, vale a pena?
— O segredo da cripto é não colocar todos os ovos na mesma carteira digital — respondeu sem piscar, selando a olheira com pó banana. — Diversificação de ativos. Sempre.
@agro_top: Entende de rotação de cultura de milho no Mato Grosso?
— Um pouco. A questão do solo fértil é muito parecida com a preparação da pele antes do primer. Se a base tá seca, o grão não vinga.
@roberto_mecanico: Jéssica, minha Brastemp Frost Free tá vazando água por baixo e fazendo um estalo no motor. O que pode ser?
O chat congelou por dois segundos. Jéssica encarou a pergunta. O filtro de porcelana deu uma leve piscada e falhou na bochecha esquerda por meio segundo, revelando um poro real, uma falha na muralha.
— Amor… eu sou criadora de conteúdo. Não sou a assistência técnica autorizada.
@roberto_mecanico: Ué, mas você acabou de falar que sabia tudo.
— Tudo dentro da minha bolha! Do meu nicho!
@gabi_viana: Qual é o seu nicho, Jé?
Jéssica olhou fixamente para a lente, segurou a esponjinha de maquiagem como se fosse um cetro e pensou por três longos segundos.
— Meu nicho é a vida real e suas ramificações. Estou em fase de transição e escopo.
A conexão caiu — ou foi desligada — segundos depois. Jéssica não tinha a menor ideia de qual era o seu nicho, mas, na manhã seguinte, postou um corte desse trecho com a legenda: “Liderança de pensamento e autoridade digital”.
2. A LIVE DO “ARRUME-SE COMIGO”
— Gente, a live de hoje é histórica! — anunciou Larissa, surgindo na tela de coque frouxo, pijama furado no sovaco e a cara lavada de quem tinha acabado de acordar de um cochilo de três horas. — Get Ready With Me do zero! Vocês vão me acompanhar da miséria à glória!
Por duas horas e quarenta minutos, seis mil pessoas assistiram, hipnotizadas, àquele martírio voluntário.
Larissa hidratou o rosto, passou primer, corretivo, base, fez contorno na bochecha, contorno no nariz, selou com pó, passou bruma fixadora, secou a bruma com um ventiladorzinho de ursinho, fez o delineado — refez três vezes porque o esquerdo ficou mais grosso —, colou cílios postiços que pinicavam o olho, escovou o cabelo, fez babyliss mecha por mecha, queimou o dedão da mão, trocou de roupa quatro vezes e quase rasgou um vestido justo tentando passar pelo quadril.
Às dez da noite, ela reapareceu. Estava impecável. Parecia uma capa de revista internacional, embora o ar-condicionado, desligado para não fazer ruído no microfone, deixasse o ar pesado e gotas de suor lutassem contra o primer de longa duração.
— E aí, família? Gostaram do resultado? — perguntou, fazendo pose de modelo, ombro caído, queixo levemente erguido.
O chat surtou.
@carol_lopes: DEUSA AAAAAA!
@fe_marques: Entregou tudo e não deixou nada!
@pedro_021: Maravilhosa! Mas você vai sair pra onde essa hora?
Larissa deu um sorriso radiante, inteiramente sincero.
— Pra lugar nenhum, amor! Fiz essa produção inteira pra vocês. Pra nossa live!
@marcelo_pijama: Entendi… mas a gente tá assistindo você da cama, de cueca e comendo pão com ovo.
Larissa ficou imóvel. A pose congelou. A pupila dilatou. Ela olhou para o contador de visualizações. Olhou para o espelho do cenário. Olhou para a própria roupa que levou quarenta minutos para vestir.
Desligou a transmissão sem se despedir.
Cinco minutos depois, o celular de todo mundo apitou com uma nova notificação de live: Larissa tinha voltado. Estava de pijama de ursinho, sem cílios, coque torto e comendo biscoito de polvilho direto do pacote.
A audiência bateu recorde da semana.
3. A INFLUENCER QUE SÓ RECEBIA PRESENTE DEPOIS DE RECLAMAR
Bianca tinha decifrado o algoritmo psicológico do público da internet. Ela não vendia conteúdo; vendia chantagem emocional.
— Ai, gente… boa noite — disse, com a voz murcha e o olhar caído, como se carregasse o peso do mundo nos ombros. — A live hoje tá tão devagar. Acho que vocês se cansaram de mim, né? Vou fechar…
Subiu na tela a animação de uma Rosa enviada por um seguidor.
— Obrigada, @lucas_fiel! Pelo menos uma pessoa ainda lembra que eu existo… mas, sério, vocês estão muito econômicos hoje. Na live da Flavinha ontem subiu até Leão Dourado.
Outro presente subiu na tela: um Chapéu de Cowboy.
— Ah, um chapéu. Legal. A gente se esforça, passa maquiagem, abre a live cansada do trabalho… e ganha um chapéu. Mas tudo bem, a culpa é minha por esperar demais.
Dois Corações de Ouro e uma Coroa pipocaram na tela. O chat percebeu o jogo. Ninguém mandava nada quando ela sorria. O público queria ver o drama.
@felipe_sp: Tá muito parado esse chat!
@ana_clara: Bianca, você parece triste…
@felipe_sp: (Envia um Leão Dourado)
— Um Leão? Sério, Felipe? Agora que a live tá acabando? Depois que eu já tô com o psicológico no chão? Vocês só me valorizam quando veem que eu tô no meu limite.
O chat virou uma tempestade de presentes animados. Eram rosas, perfumes, carros esportivos, dinossauros dançantes. A tela de Bianca parecia um show de fogos de artifício na virada do ano.
Até que um comentário subiu em destaque:
@renato_realista: Bianca, você se deu conta de que a gente só tá mandando presente pra ver você esculhambar a gente ao vivo?
Bianca parou de encarar o teto com olhar trágico. Olhou para o saldo da carteira digital da plataforma no canto da tela: R$ 4.200,00 acumulados em quarenta minutos de humilhação invertida.
Ajeitou o cabelo, deu um sorriso impecável de comercial de dentifrício e disse:
— Monetização por indignação, meus amores. Agora, quem vai mandar o próximo Leão ou eu vou ter que chorar de verdade?
4. A GUERRA DAS INFLUENCERS
Duas gigantes do nicho de lifestyle, Camila e Vanessa, dividiram a tela numa live em dupla. O ar entre as duas já parecia carregado antes mesmo de a primeira palavra ser dita.
— Oiii, amiga! Que saudade! Você tá linda! — disparou Camila, com um tom de voz três oitavas acima do normal, forçado e brilhante demais.
— Maravilhosa é você, meu amor! Amei essa sua blusa, bem vintage… minha avó tinha uma parecida! — devolveu Vanessa, com a precisão de um franco-atirador.
O chat, formado por dez mil pessoas sedentas por sangue, sacou a vibe imediatamente.
@fofocas_net: Ihhhh, sentiram o clima?
@luana_vamp: Pergunta se elas são amigas!
@luana_vamp: Vocês são amigas de frequentar a casa uma da outra?
Camila tomou um gole d’água bem devagar, saboreando o silêncio.
— Ah, a gente é colega de trabalho, né? Respeito muito o corre dela.
Vanessa deu uma risada de canto de boca, curta e cortante.
— Conhecidas de evento, na verdade. A gente se esbarra nos publieditoriais.
— Da internet, né, Van? Porque, na vida real, a gente tem estilos de vida bem… diferentes — disse Camila, enfatizando a última palavra como se fosse uma sentença.
— Graças a Deus, né, Cami? Cada uma entrega o que pode. Tem gente que foca em quantidade, tem gente que foca em classe.
O chat explodiu em mensagens rolando a mil por hora.
@chat_caos: AAAAAAA ELA CHAMOU DE BREGAAAAA!
@fofocas_net: QUEM COMEÇOU A BRIGA?
@bia_32: Elas brigaram por causa do ex da Camila??
Silêncio na tela dividida. Camila ajustou o anel no dedo. Vanessa ajeitou uma mecha de cabelo perfeitamente alinhada.
— Eu não gosto de expor minha vida pessoal com desentendimentos fúteis — disse Camila.
— Nem eu. Acho que maturidade é saber a hora de não dar palco pra quem precisa de engajamento — rebateu Vanessa.
Um comentário simples apareceu:
@joao_pobre: Ou seja: brigaram bonito.
As duas olharam diretamente para a câmera, em uníssono.
— Próxima pergunta do chat, por favor — disse Camila.
— Urgente — arrematou Vanessa.
5. O HOMEM QUE SE APAIXONOU POR UMA INFLUENCER
Toda noite, sem falta, às 22h, lá estava o perfil @Roberto_Silva_58 na live da musa fitness Larissa. Sempre pontual. Sempre as mesmas palavras.
@Roberto_Silva_58: Princesa.
@Roberto_Silva_58: Você é o sol do meu dia.
@Roberto_Silva_58: Você merece o mundo, gata.
Certa noite, lendo os comentários com calma, Larissa reparou na insistência, na repetição, na devoção silenciosa.
— Roberto, meu amor, obrigada pelo carinho de sempre, viu? Mas me tira uma dúvida… você é casado?
@Roberto_Silva_58: Sou.
— E a sua esposa sabe que você passa todas as noites me chamando de “sol do seu dia” na internet?
Roberto demorou quarenta segundos para responder. O chat inteiro parou para esperar. O silêncio naquela caixa de comentários era quase audível.
@Roberto_Silva_58: Agora sabe.
Larissa deu uma risada nervosa, meio perdida.
— Como assim “agora sabe”, Roberto?
Antes que ele pudesse digitar, uma notificação amarela subiu na tela, brilhante e definitiva:
@Esposa_Do_Roberto_Oficial entrou na live.
O chat virou um estádio de futebol em dia de final de campeonato.
@thiago_99: A CASA CAIU!
@marcos_vlog: CORRE ROBERTOOOOO
@gabi_fofoca: O MASSACRE VEM
@Esposa_Do_Roberto_Oficial: Roberto, larga esse celular e vem pegar tuas malas na calçada.
@Roberto_Silva_58 saiu da live.
Larissa olhou para a câmera, piscou os olhos duas vezes, engoliu em seco e disse, com a voz um pouco mais fina:
— Boa noite, senhora… Seja bem-vinda à live. O treino de hoje é pra glúteos.
@user_anonimo: Roberto não saiu da live. Roberto saiu do casamento.
6. A INFLUENCER QUE SE ACHAVA CELEBRIDADE
Patrícia tinha atingido a marca histórica de 8.102 seguidores no Instagram e tomou a decisão que mudaria sua vida: agiria como uma estrela da TV.
Colocou óculos escuros gigantescos dentro de um shopping fechado, vestiu um sobretudo pesado em pleno verão de 32 graus e começou a andar a passos lentos, olhando para os lados com ar de mistério, esperando o assédio dos fãs.
Ninguém olhou. Ninguém reconheceu ninguém.
Entrou numa cafeteria refinada, sentou-se à mesa central e tirou os óculos devagar, como quem revela um segredo, encarando o garçom com um sorriso condescendente.
— Pois não, senhora, vai querer o cardápio? — perguntou o rapaz, educado e indiferente.
— Não precisa de formalidades. Pode pedir pra tirar foto, eu deixo — disse Patrícia, com a generosidade de uma rainha.
— Foto do bolo? É R$ 18,00 a fatia.
Patrícia bufou, abriu o celular e iniciou uma live de emergência.
— Gente, vocês não têm noção do absurdo. Estou num estabelecimento público e as pessoas simplesmente fingem que não me conhecem pra não me deixar constrangida. A cultura do cancelamento e da inveja é real!
@marcelo_00: Você é famosa?
@patricia_oficial: Sou criadora de alto impacto.
@marcelo_00: Famosa onde?
@patricia_oficial: Na internet!
@marcelo_00: Qual internet? A minha não é, não.
Patrícia encarou a tela. O garçom passou ao fundo carregando uma bandeja de salgados sem nem olhar para o celular dela.
— Na MINHA internet. Na minha comunidade! — respondeu ela, ríspida.
@marcelo_00: Ah, bom. Então tá tudo certo. Manda um beijo pra sua mãe.
Patrícia desligou a live.
No dia seguinte, postou uma foto em preto e branco, com ar melancólico e legenda: “Nota Oficial: Me ausentarei das redes por tempo indeterminado para cuidar da minha saúde mental e reconectar com minhas raízes”.
Tinha 8.101 seguidores.
7. A LIVE DO DESABAFO
Marina abriu a transmissão já com o lenço de papel na mão e os olhos vermelhos, brilhantes de lágrimas pré-fabricadas.
— Gente… hoje eu não vim vender nada. Hoje eu só preciso desabafar com vocês porque tá muito difícil…
O chat foi tomado por uma onda de solidariedade instantânea, automática, calorosa.
@carol_friend: Forças, Mari!
@jessica_m: Quem te magoou? A gente vai atrás!
@amiga_leal: Conta tudo, não guarda isso pra você!
Marina fungou, enxugou uma lágrima que pareceu demorar a cair e aproximou o rosto da câmera.
— Hoje cedo, postei um tutorial lindo de maquiagem… e uma pessoa… uma pessoa sem coração… fez um comentário que destruiu meu dia.
A audiência prendeu a respiração.
— O que disseram, diva? Fala o nome do perfil!
Marina mostrou o print na tela do outro celular: “Seu delineador tá meio torto no olho esquerdo”.
O chat congelou.
Marina desabou a chorar novamente, ombros sacudindo.
— Eu passei três horas e meia na frente do espelho! Três horas! Eu dei a minha vida por aquele conteúdo!
Um comentário subiu, simples e fatal:
@paulo_sincero: Mas pior que tá torto mesmo, moça. Parece uma minhoca.
Marina parou de chorar na hora. A expressão de dor virou puro ódio, instantânea e fria.
— Moderador?
O usuário @paulo_sincero foi sumariamente banido da transmissão. A mensagem de confirmação piscou em vermelho.
@outro_usuario: Banir o cara não vai endireitar o traço.
Marina desligou a câmera na hora. Naquela noite, a comunidade aprendeu uma lição valiosa: na live do desabafo, o público pode apoiar qualquer drama — menos a verdade.
8. A DETETIVE DOS COMENTÁRIOS
Carolina começou a notar um padrão nas suas transmissões diárias. Todo santo dia, o perfil @Paulo_Sempre_Aqui mandava as mesmas mensagens, sempre no mesmo horário, sempre com as mesmas palavras.
@Paulo_Sempre_Aqui: Você é a mulher mais incrível dessa rede.
@Paulo_Sempre_Aqui: Única. Diferente de todas.
Curiosa, Carolina decided investigar. Usando um perfil fake, entrou nas lives de outras trinta influenciadoras do mesmo nicho.
Para sua surpresa, lá estava ele. Em todas. Com a mesma frase. Na mesma ordem.
Na noite seguinte, Carolina esperou ele entrar.
— Paulo! Que bom que você chegou! Tenho uma pergunta… Você fala que eu sou “única e diferente de todas” só pra mim ou digita isso em todas as lives da cidade?
A resposta no chat foi instantânea, sem hesitação:
@Paulo_Sempre_Aqui: Digito em todas.
— E você não tem vergonha? Eu achei que era especial!
@Paulo_Sempre_Aqui: E você é especial, Carol!
— Por quê, Paulo? Me dá um motivo!
@Paulo_Sempre_Aqui: Você é a número 38 da minha planilha do Excel deste mês.
Carolina travou. O ar pareceu sumir da sala.
— Planilha do Excel?!
@Paulo_Sempre_Aqui: Sim. Eu tenho metas de engajamento afetivo. Eu comento em 50 lives por noite. A que responder melhor ganha um convite pra tomar um café.
Carolina caiu no riso, uma risada verdadeira e alta.
— Pelo menos você é organizado e sistemático!
@Paulo_Sempre_Aqui: Obrigado. A número 37 me deu ban e me denunciou por importunação digital. Você tá no meu Top 3.
9. O COMENTÁRIO QUE ACABOU COM A LIVE
Fernanda estava no meio de um publi pesado de um creme facial de R$ 400,00. A iluminação estava perfeita, o tom de voz ensaiado.
— Gente, esse sérum restaurador de orquídeas negras mudou a minha vida. Minha pele renasceu em três dias!
@luiz_99: Quanto você ganhou pra falar isso?
Fernanda ignorou e continuou passando o produto no rosto, movimentos lentos e calculados.
— Ele tem uma tecnologia suíça de absorção profunda…
@luiz_99: É publitraduzido ou você usa de verdade?
@maria_cosmeticos: Minha tia vende cosméticos há 35 anos, tem uma loja no centro e disse que essa marca aí é só vaselina com cheiro de lavanda e custa 5 reais na fábrica.
Fernanda parou de espalhar o produto. O creme ficou acumulado como uma mancha branca e espessa no meio da sua bochecha.
— Gente… vamos focar no conteúdo da live e ignorar os haters, tá?
O chat virou uma avalanche de cobranças, uma corrente que crescia sem controle.
@pedro_12: A TIA DA MARIA TÁ CERTA?
@carol_f: É VASELINA???
@lucas_v: Mostra o rótulo com os ingredientes!
@biatriz: Faz o teste na hora! Passa na testa!
Fernanda começou a suar. Gotas finas escorriam na têmpora, brilhando sob a luz.
— Próxima pergunta, gente. Por favor.
@usuario_aleatorio: Qual é a próxima mentira que você vai vender pra gente hoje?
Fernanda encerrou a transmissão sem salvar o vídeo.
No dia seguinte, o aviso veio no feed, em letras grandes e pretas: “Hoje teremos uma live EXTREMAMENTE SINCERA: O exposed da indústria dos cosméticos”.
A audiência bateu todos os recordes da história do perfil dela.
10. A LIVE QUE NÃO TERMINAVA
Renata abriu a live às 20h, sorridente e descansada.
— Gente, passei só pra dar um “oi” rápido. Vou ficar só duas horinhas porque amanhã acordo cedo.
Às 22h, quando ela ia se despedir, subiu um presente animado de alto valor: um Unicórnio Voador.
— Meu Deus! @Carlos_Doe mandou um unicórnio! Não posso fechar a live agora, seria uma desfeita! Mais quinze minutinhos!
Às 23h55, outro presente gigante apareceu na tela.
— Família, vocês são incríveis! Quem tá aqui desde o começo?
Às 3h da manhã, Renata já falava arrastado, com os olhos vermelhos, a maquiagem levemente derretida e a voz com o tom grave de quem tinha fumado três maços de cigarro.
Às 5h12 da manhã, os primeiros raios de sol entraram pela janela do quarto, estourando a iluminação fria do ring light, revelando o rosto cansado, sem filtro.
Renata olhou para o lado, assustada.
— Gente… o sol tá nascendo…
@pedro_madruga: Você ainda tá na mesma live de ontem???
Renata franziu a testa, confusa pela privação de sono.
— Não…
@pedro_madruga: Como não, Renata? Eu dormi, sonhei, acordei pra ir ao banheiro e você tá aí na mesma posição!
Renata olhou para o contador de tempo no topo da tela: 09:12:44 de transmissão contínua.
Ela encarou a câmera fixamente, os olhos pesados, perdida.
— Então… bom dia, família.
@ana_misericordia: Bom dia nada! Vai dormir, mulher! Você tá parecendo um zumbi!
@carol_sono: Desliga isso pelo amor de Deus!
Renata pensou por alguns segundos, deu um sorriso alucinado, meio perdido, e disse:
— Só mais um presente e eu juro que vou dormir.
O chat inteiro se uniu num acordo tácito de solidariedade humana: ninguém mandou absolutamente nada. O chat ficou em silêncio absoluto por dois minutos inteiros.
Pela primeira vez na história da internet, uma live terminou por bondade do público.
11. A LIVE QUE NUNCA EXISTIU
Às 21h17 de uma terça-feira qualquer, uma notificação apareceu no celular de várias pessoas:
“@menina_da_live iniciou uma transmissão ao vivo.”
Ninguém conhecia o perfil. A foto era de uma garota sorrindo diante de um ring light simples. O nome dizia apenas: Lúcia.
Em menos de um minuto, havia trezentas pessoas assistindo.
Ela não falava. Ficava sentada diante da câmera, em silêncio, olhando para a tela como se estivesse esperando alguém.
@joao_pobre: Oi, Lúcia.
@carolzinha: Ela tá triste?
@mauro_77: Alguém conhece essa menina?
@bia_live: Gente, comenta pra ela falar!
Lúcia continuava imóvel. O número de espectadores subiu para mil. Depois, três mil. Alguém mandou um coração. Outro enviou um mimo. Um terceiro escreveu:
@renato_realista: Pelo menos ela não tá fingindo que tá feliz.
Lúcia finalmente se mexeu. Olhou para a câmera e sorriu. Foi um sorriso pequeno, cansado, quase envergonhado.
— Obrigada por ficarem.
A frase provocou uma enxurrada de comentários.
@carolzinha: Sempre!
@joao_pobre: Tamo junto.
@bia_live: Você não tá sozinha.
Ela baixou os olhos, como se estivesse guardando aquelas palavras.
— Eu sei.
Ficou em silêncio por mais alguns segundos. Então a transmissão terminou. Sem aviso, sem despedida.
No dia seguinte, ninguém encontrou o perfil. Não havia vídeo salvo. Não havia foto. Não havia seguidores. Nem sequer havia histórico daquela live.
Mas, naquela noite, milhares de pessoas receberam outra notificação:
“@menina_da_live iniciou uma transmissão ao vivo.”
E entraram.
Porque, às vezes, a internet não é feita de quem fala. É feita de quem espera alguém responder.

O RELÓGIO MARCA A HORA DA SUA MORTE

O RELÓGIO MARCA A HORA DA SUA MORTE

Algumas horas não passam. Elas esperam.

Tadeu Everton Zamoiski
Meados 2026


A loja ficava no coração histórico de Olinda, numa daquelas ladeiras de pedra que cheiram a mofo, chuva quente e tempo estagnado. O ar abafado de Pernambuco parecia pesar sobre os ombros, espesso de maresia.

Eu precisava chegar à rodoviária de Recife antes das seis.

Minha filha, Clara, me esperava.

Havia três anos que ela tentava conversar comigo de verdade. Três anos em que eu sempre encontrava uma desculpa: trabalho, cansaço, viagem, falta de tempo.

Naquela manhã, ela havia mandado apenas uma mensagem:

“Pai... dessa vez, não inventa uma desculpa.”

Eu prometi que iria.

A tempestade chegou antes de mim.

A chuva desabou sobre Olinda quando passei pela última esquina. As pedras ficaram negras e brilhantes. As fachadas coloridas pareciam derreter sob a água. Procurei abrigo e encontrei uma pequena loja de antiguidades.

Entrei às pressas.

O sino da porta tocou.

O homem atrás do balcão ergueu os olhos.

Não parecia assustado com a tempestade. Parecia apenas cansado.

Havia dezenas de relógios espalhados pela loja. Relógios de parede, de bolso, de pêndulo, despertadores antigos. Todos marcavam horas diferentes.

Exceto um.

Ele estava sobre o balcão.

Era de bronze escurecido, pesado, sem números no mostrador e sem ponteiros.

— Não toque no bronze.

Parei a mão a poucos centímetros dele.

— O que é isso?

— Um relógio.

— Não parece.

— Algumas coisas não parecem aquilo que são.

Um trovão fez a loja estremecer.

Foi então que toquei o relógio.

Por uma fração de segundo, não ouvi nada.

Depois, todos os relógios da loja pararam.

Todos.

O velho olhou para o mostrador.

Agora havia ponteiros.

Travados em:

3:17.

— O que significa?

Ele demorou a responder.

— Essa é a hora.

— Que hora?

Ele me encarou.

— A sua.

O bronze esquentou sob minha mão.

Soltei-o.

O relógio continuou em 3:17.

— Não precisa ficar com medo — disse o velho.

— Você acabou de dizer que é a hora da minha morte.

— Eu disse que é a sua hora. Não disse que será hoje.

— Então quando?

O velho sorriu sem humor.

— Quando o relógio decidir começar a cobrar.

Saí da loja.

A chuva havia diminuído.

Caminhei duas quadras antes de sentir alguma coisa no bolso.

Era o relógio.

Eu tinha certeza de que o deixara sobre o balcão.

Tirei-o.

O mostrador havia mudado.

Não havia mais ponteiros.

Havia números digitais.

03:17:00

Fiquei olhando.

03:16:59.

03:16:58.

O contador começou a diminuir.

Foi quando entendi a primeira regra.

3:17 era a hora marcada.

03:17:00 era o tempo que me separava dela.

Eu tinha três horas e dezessete minutos.

E o relógio estava contando cada segundo.

Tentei jogar o objeto numa lixeira.

Continuei andando.

Quando olhei novamente para o bolso, ele estava lá.

Tentei deixá-lo sobre um banco.

Caminhei até a esquina.

Quando coloquei a mão no bolso, senti o bronze.

Ele havia voltado.

Entrei numa farmácia e entreguei o relógio ao balconista.

— Fique com isso.

O rapaz me olhou desconfiado.

— O senhor está bem?

— Só fique com ele.

Saí.

Cinco minutos depois, o relógio estava novamente comigo.

E o contador havia avançado.

02:41:37.

Foi então que compreendi outra coisa.

O relógio podia ser abandonado.

Mas não podia ser deixado para trás.

Ele sempre voltava.

Tentei destruí-lo.

Bati o relógio contra uma pedra.

O vidro se partiu.

Respirei aliviado.

Então ouvi:

Tic.

Olhei.

O vidro estava inteiro.

O contador havia perdido exatamente um minuto.

02:40:37.

O relógio não podia ser destruído.

E o tempo continuava correndo enquanto eu tentava destruí-lo.

Às 01:42:00, as palmas das minhas mãos começaram a rachar.

A pele ficou escura nas linhas, como se alguma coisa estivesse queimando por dentro.

Às 01:17:00, senti uma pressão no peito.

Às 00:59:00, comecei a esquecer coisas pequenas.

O nome de uma rua.

A senha do celular.

O rosto de um antigo colega.

Voltei à loja.

O velho continuava atrás do balcão.

— Você voltou.

— Quero que isso pare.

— Não para.

— Então tire de mim.

Ele balançou a cabeça.

— Depois que começa, o relógio não aceita devolução.

— Deve existir alguma maneira.

— Existem duas.

A palavra ficou suspensa entre nós.

— Quais?

O velho apontou para o relógio.

— Quando o tempo se esgota, você pode aceitar a hora que ele reservou para você.

— E a outra?

— Dar a ele outra pessoa.

Meu estômago se contraiu.

— Transferir o tempo?

— Não exatamente.

Ele se aproximou.

— Você não transfere a morte. Transfere o tempo restante.

— Qual é a diferença?

— Toda.

Ele tocou o balcão com o indicador.

— Se você entregar o relógio quando restarem quarenta minutos, a outra pessoa receberá quarenta minutos.

— E eu?

— Você continua vivo.

— Então funciona.

— Por algum tempo.

O velho abriu uma gaveta e retirou um relógio quebrado.

— O relógio nunca oferece uma saída. Apenas muda quem está pagando.

— E a pessoa que recebe?

— Recebe a sua conta.

— Às 3:17?

— Exatamente às 3:17.

— Ela morre?

O velho demorou.

— Talvez.

— Talvez?

— O relógio não precisa matar alguém imediatamente.

Ele olhou para minhas mãos rachadas.

— Às vezes ele cobra de outra maneira.

— Como?

— Memórias.

Fiquei em silêncio.

— Primeiro, coisas pequenas. Depois, rostos. Nomes. Lugares. Vozes. Até a pessoa não saber mais por que está tentando sobreviver.

— E isso acontece com quem recebe o relógio?

— Também acontece com quem o entrega.

— Então qual é a vantagem?

O velho me encarou.

— A pessoa que entrega ainda pode ganhar algum tempo.

O silêncio da loja pareceu ficar mais pesado.

— Existe mais uma coisa — disse ele.

— O quê?

— Toda transferência deixa uma dívida.

— Que dívida?

— Juros.

A palavra me gelou.

— Que tipo de juros?

— Você tira tempo de alguém. O relógio devolve cobrando aquilo que o tempo não consegue comprar.

— E o que é isso?

O velho respondeu baixinho:

— Você mesmo.

Nesse momento, o sino da porta tocou.

Uma mulher entrou.

Ela segurava um guarda-chuva vermelho.

Usava um vestido simples, completamente molhado pela chuva.

Olhou para mim.

Eu congelei.

Ela tinha os olhos de Clara.

Não parecidos.

Iguais.

Havia também uma pequena cicatriz em forma de meia-lua acima da sobrancelha esquerda.

A mesma que Clara tinha desde criança.

— Você não deve entregar o relógio — disse ela.

— Quem é você?

Ela fechou o guarda-chuva.

— Alguém que já fez essa escolha.

— Com quem?

— Com meu pai.

— Ele morreu?

Ela olhou para os relógios.

— Não.

— Então onde ele está?

Ela sorriu.

Era um sorriso triste.

— Em todos eles.

Um dos relógios da parede começou a funcionar.

Tic.

Tic.

Tic.

Ela se aproximou do balcão.

— Eu achei que tinha escapado.

— E não escapou?

— Não.

Ela tocou a pequena cicatriz acima da sobrancelha.

— Cada vez que o relógio cobrava, eu esquecia alguma coisa dele.

— Do seu pai?

Ela assentiu.

— Primeiro esqueci a voz. Depois o rosto. Depois o cheiro. Um dia encontrei uma fotografia e não reconheci o homem que estava ao meu lado.

Olhei para o relógio.

00:14:00.

— Por que está me contando isso?

Ela me encarou.

— Porque você ainda se lembra da sua filha.

Meu coração apertou.

Clara.

A cozinha.

Duas xícaras de café.

A pequena trinca no cabo da xícara dela.

Aquela manhã em que ela havia chorado sem fazer barulho.

“Você sempre acha que vai ter tempo depois, pai.”

E depois:

“É justamente esse seu costume que me assusta.”

O contador continuava.

00:09:00.

— Eu não vou transferir.

A mulher fechou os olhos.

— Então prepare-se para lembrar de tudo pela última vez.

00:06:00.

Os relógios começaram a funcionar ao mesmo tempo.

00:04:00.

Tic.

Tic.

Tic.

00:03:00.

Minha respiração ficou curta.

00:02:00.

A mulher desapareceu da minha frente.

00:01:00.

Fiquei sozinho com o velho.

— Ainda pode escolher — ele disse.

Olhei para o relógio.

00:00:59.

O contador continuou.

00:00:58.

Não chegou a zero.

O mostrador digital apagou.

Os ponteiros físicos reapareceram.

Travaram em:

3:17.

O relógio se abriu.

Dentro dele havia fotografias.

Centenas.

Talvez milhares.

Pessoas diante daquela mesma loja.

Algumas fotografias eram antigas, amareladas.

Outras pareciam recentes.

Todas mostravam pessoas segurando relógios.

Todas estavam diante daquela porta.

Peguei uma fotografia.

No verso estava escrito:

Olinda, 3 de agosto de 1974.

Na fotografia havia uma mulher segurando um guarda-chuva vermelho.

Ao lado dela, um rapaz.

Fiquei sem respirar.

O rapaz era eu.

Não parecido comigo.

Eu.

Mais jovem.

Muito mais jovem.

Mas aquela fotografia era de 1974.

Eu ainda não havia nascido.

Virei a fotografia.

No verso havia outra frase:

“O relógio não marca quando você vai morrer.

Ele marca quando você começou a esquecer.”

Meu celular vibrou.

Uma mensagem de Clara.

“Pai, acabei de chegar à rodoviária.”

Outra:

“Estou com medo.”

Outra:

“Tem uma mulher aqui na plataforma.”

E então:

“Ela está segurando um guarda-chuva vermelho.”

Levantei os olhos.

A loja estava vazia.

O velho havia desaparecido.

A mulher também.

Todos os relógios marcavam:

3:17.

Ouvi dois batimentos cardíacos.

Um era meu.

O outro vinha de algum lugar atrás da parede.

Tentei lembrar do rosto de Clara.

Consegui.

Por alguns segundos.

Depois o rosto começou a mudar.

Primeiro ficou mais velho.

Depois mais jovem.

Depois desconhecido.

Tentei lembrar da voz dela.

Nada.

O nome dela desapareceu da minha cabeça.

Clara.

Clara.

Clara.

Eu sabia que aquela palavra significava alguma coisa.

Só não sabia o quê.

Então percebi a última regra.

O relógio não precisava matar ninguém.

Bastava cobrar o tempo que acreditávamos ter para sempre.

Naquela noite, em algum ponto chuvoso de Recife, uma mulher segurando um guarda-chuva vermelho caminhou pela plataforma da rodoviária.

Uma jovem chamou pelo meu nome no meio da multidão.

Eu virei a cabeça.

Mas não sabia mais quem ela era.

E, em algum lugar atrás de mim, um relógio marcou:

3:17.


AS PAREDES TÊM OLHOS DE VIDRO

AS PAREDES TÊM OLHOS DE VIDRO
Um conto de terror psicológico

Autor: Tadeu Everton Zamoiski | Data: Meados de 2026


O Sanatório Santa Augusta estava vazio. Pelo menos era o que os registros afirmavam. Esquecido entre estradas de terra e campos secos do interior de Goiás, o prédio permanecia de pé como uma cicatriz que o tempo não conseguira apagar.
As janelas eram escuras. Escuras demais. Mesmo sob o sol.
Os moradores da região evitavam pronunciar seu nome. Quando alguém perguntava sobre o lugar, surgia um silêncio desconfortável. Olhares desviados. Expressões tensas. E quase sempre a mesma resposta:
— Não olhe para as paredes.
Lucas ouviu aquilo e sorriu. Era criador de conteúdo sobre locais abandonados. Já havia entrado em hospitais desativados, presídios em ruínas e casas que o povo jurava ser assombradas. Nunca encontrara nada além de histórias. Achou que ali seria igual.
Na manhã seguinte, atravessou sozinho o portão enferrujado do sanatório. O ar mudou imediatamente. Tinha gosto. Não de poeira. Nem de mofo. Metal. Cobre. Lucas passou a língua pelos dentes e sentiu aquela estranha impressão de estar provando sangue.
O corredor principal se estendia diante dele. Longo. Branco. Silencioso. As lâmpadas fluorescentes ainda funcionavam. Não deveriam. Mas funcionavam. Piscavam devagar, lançando sobre a cerâmica uma luz doente e intermitente.
Então ele ouviu. Um som. Quase abaixo do limite da audição.

Hummmmmm...

Grave. Profundo. O ruído parecia nascer de algum lugar impossível. Não vinha do teto. Nem do chão. Nem dos corredores. Parecia surgir de dentro das paredes. A vibração atravessou seus pés, subiu pelas pernas e instalou-se no peito, como se o sanatório estivesse respirando.
Lucas continuou. Foi então que percebeu os olhos. Pequenos globos de vidro incrustados na alvenaria. Um em cada canto. Outro próximo ao teto. Outro observando um corredor vazio. Centenas deles. Talvez milhares. Nenhum apontava em sua direção. Mesmo assim, seus músculos se contraíram. O instinto sussurrava uma única coisa: Você está sendo observado.
Ele ignorou a sensação. Prosseguiu. E ouviu um passo às suas costas.
Lucas parou. O corredor ficou imóvel. Silencioso. Ele esperou. Nada. Respirou fundo. Sorriu para si mesmo. Deu mais um passo. Ouviu outro. Mais pesado. Mais lento. Como se alguma coisa estivesse tentando aprender a andar usando seus movimentos como modelo.
Lucas girou rapidamente. Não havia ninguém. Somente o corredor. Somente os olhos. Somente aquele zumbido profundo.

Hummmmmm...

Quando voltou para casa naquela noite, assistiu às gravações. Foi aí que encontrou o primeiro erro. Os olhos mudavam de posição. Um deles aparecia voltado para a esquerda; segundos depois, encarava diretamente a câmera. Outro parecia observá-lo. Outro parecia sorrir. Lucas revisou o vídeo dezenas de vezes. Nada fazia sentido.
Quando finalmente desligou o monitor, viu algo atrás do próprio reflexo. Um brilho circular. Um olho. Piscou. Desapareceu.
Lucas não dormiu. Nem naquela noite, nem na seguinte. Começou a vê-los em todos os lugares. Na televisão desligada. Nas janelas escuras. Na tela preta do celular. No espelho embaçado do banheiro. Sempre havia algo observando. Sempre sumia quando ele tentava encarar.
E o som. Aquele som.

Hummmmmm...

Fraco. Distante. Mas constante. Na casa. No carro. No trabalho. Como se tivesse voltado com ele. Como se estivesse dentro dele.
Na quinta madrugada, acordou às três horas, sentindo uma presença no quarto. Abriu os olhos. Tudo estava mergulhado na escuridão. Então percebeu um brilho próximo à porta. Ligou o abajur. Seu coração falhou um batimento.
Havia um olho na parede. Um olho de vidro. Onde não existia nada no dia anterior.
Ao redor dele, a tinta rachava, descascando em tiras finas como pele morta. Linhas escuras espalhavam-se pela superfície: veias. Veias penetrando a alvenaria com um som úmido, discreto, como raízes bebendo água.
Lucas se aproximou devagar. A pupila moveu-se. Lentamente. Encontrou seu rosto e permaneceu ali, observando.
Na manhã seguinte, ele voltou ao sanatório. Precisava entender. Precisava encontrar alguma explicação. Desceu até os arquivos subterrâneos. Encontrou corredores esquecidos, portas enferrujadas, salas tomadas pela poeira, papéis espalhados e fotografias rasgadas. Desenhos infantis quase todos mostravam a mesma coisa: olhos nas paredes, olhos nos tetos, olhos dentro de outras pessoas. Em algumas folhas, havia frases repetidas centenas de vezes:
"Eles veem. Eles veem. Eles veem."
Lucas encontrou um gravador antigo. A bateria estava corroída. Mesmo assim, ao tocá-lo, o aparelho produziu um chiado. Uma voz surgiu, distante e frágil:
— Não são câmeras...
Silêncio. Outro chiado.
— Não são janelas...
A gravação falhou. Por um instante, pareceu terminar. Então um sussurro surgiu atrás dele, próximo demais:
— São portas.
Lucas deixou o aparelho cair. O corredor mergulhou em silêncio. Mas a voz continuou, agora vindo de todas as direções:
— O problema nunca foi olhar para nós.
As lâmpadas piscaram. A parede à sua esquerda pulsou, como algo respirando sob a tinta.
— O problema...
A voz continuou, mas já não vinha das paredes. Lucas sentiu a vibração atravessar seus dentes, entrar pelos maxilares e instalar-se atrás dos olhos. Aquelas palavras não estavam sendo ouvidas; estavam sendo pensadas. E não eram suas.
— ...é quando percebemos que você consegue nos ver.
O zumbido mudou. Perdeu a eletrônica. Perdeu o eco metálico. Tornou-se úmido, orgânico. O som de ar atravessando passagens estreitas. O som de pulmões gigantescos enchendo-se na escuridão.
O sanatório inspirou.

HUMMMMMMMMMMMMMM...

A cerâmica ondulou. Não era vibração: era expansão. As paredes começaram a crescer, como carne viva pressionando o gesso por dentro. Rachaduras abriram-se. Algo rosado apareceu sob a superfície branca. Pulsando. Respirando. Vivendo.
Lucas recuou. Protuberâncias começaram a surgir por toda parte. Pequenas. Depois maiores. Depois enormes. E então estouraram. Não eram bolhas; eram pálpebras. Centenas delas abrindo-se simultaneamente. Olhos. Olhos vivos. Olhos famintos. Olhos que não procuravam luz: procuravam consciência. Procuravam Lucas.
O corredor inteiro virou um organismo observador.
E então vieram os rostos. Não rostos desconhecidos; isso teria sido mais fácil. Lucas reconheceu todos: seu pai, sua mãe, amigos de infância, colegas de escola. Todos presos dentro das paredes. Todos olhando para ele. Todos sorrindo.
No meio deles, havia algo pior: versões de si mesmo. Uma criança. Um adolescente. Um homem adulto. Centenas de Lucases aprisionados, observando, sorrindo, esperando.
Lucas correu. O corredor respondeu. Alongou-se como um músculo esticado ao limite. Infinito. Escuro. Profundo.
As luzes começaram a apagar atrás dele, uma após outra, como pálpebras fechando. Os passos voltaram, mas já não o imitavam: aprendiam, ajustavam-se, aproximavam-se. Centenas de pés golpeando a cerâmica. Centenas de ritmos imperfeitos tentando se tornar um só: uma matilha aprendendo a correr.
Lucas mal conseguia respirar. O ar parecia cola. Os pulmões queimavam. As paredes pulsavam. Os olhos se multiplicavam. Piscavam. Observavam. Esperavam.
A saída nunca chegava. O som crescia, mais alto, mais perto, mais vivo:

HUMMMMMMMMMMMMMM...

Então tudo desapareceu.
◆ ◆ ◆
A câmera foi encontrada três semanas depois, caída perto da entrada principal do sanatório. A polícia nunca localizou Lucas.
A gravação continha apenas vinte e sete segundos. Durante todo esse tempo, a imagem mostrava um único olho incrustado em uma parede branca. Imóvel. Silencioso. Nada acontecia.
Então a pupila se contraiu, como se tivesse percebido alguma coisa. Ela se moveu, muito devagar, até encontrar a câmera... até encontrar você.
O olho permaneceu imóvel por um instante, observando.
E piscou. Lentamente. Deliberadamente.