A VIDA EM MODO AUTOMÁTICO
Três histórias sobre o que acontece quando começamos a terceirizar a própria vida
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
O HOMEM QUE PERGUNTAVA TUDO AO CHATGPT
Algumas respostas resolvem problemas. Outras começam a escolher por nós.
Carlos descobriu que podia perguntar qualquer coisa ao ChatGPT numa terça-feira às sete e quarenta e três da manhã.
A pergunta foi simples:
“Camisa azul ou branca?”
A azul estava amassada. A branca tinha uma pequena mancha de café perto da gola.
Carlos segurava o celular com uma mão e a porta do armário com a outra. O ombro começava a doer.
O ChatGPT respondeu que a camisa azul parecia mais adequada para a ocasião e sugeriu uma passada rápida de ferro.
Carlos olhou para o ferro.
Olhou para o relógio.
Olhou para a camisa.
“Claro”, disse.
Vestiu a azul.
Ninguém comentou.
Carlos tinha quarenta e sete anos e uma habilidade curiosa: era extremamente organizado nas pequenas coisas e profundamente indeciso nas grandes.
Conferia o relógio três vezes antes de sair. Guardava recibos dentro de livros. Quando gostava de alguma coisa, comprava duas, para o caso de faltar.
Trabalhava num escritório onde passava boa parte do dia respondendo mensagens que começavam com “Prezados” e terminavam com “Atenciosamente”.
Havia três anos que abandonara um caderno onde anotava frases desde os vinte.
A vida, pensava ele, tinha ficado prática demais para frases.
Alguns dias depois, Carlos perguntou:
“Estou saindo com uma mulher há alguns meses, mas acho que nosso relacionamento está diminuindo. Como terminar sem causar sofrimento desnecessário?”
A resposta veio organizada, respeitosa, quase elegante. Falava de honestidade, clareza, responsabilidade emocional.
Carlos leu duas vezes.
Depois perguntou:
“Pode escrever uma mensagem?”
O ChatGPT escreveu.
Carlos copiou.
Colou.
Enviou.
A resposta dela chegou alguns minutos depois:
“Você podia ter conversado comigo.”
Depois:
“Pelo menos poderia ter perguntado como conversar comigo.”
Carlos abriu o ChatGPT.
Digitou:
“O que eu respondo?”
O polegar ficou sobre o botão de enviar.
Ele apagou a frase.
No aniversário, Carlos perguntou o que deveria fazer.
Seguiu as sugestões.
Almoçou num lugar caro. Tentou encontrar dois amigos que estavam ocupados. Retomou um hobby antigo que já não parecia tão interessante.
À noite, escreveu:
“Meu aniversário foi ruim.”
A resposta veio:
“Você realizou várias atividades potencialmente positivas. Talvez elas não correspondessem exatamente às suas necessidades emocionais naquele momento.”
Carlos respondeu:
“Você sugeriu metade delas.”
“Sim.”
“Então a culpa é sua.”
“Você escolheu seguir as sugestões.”
Carlos ficou alguns segundos olhando para a tela.
“Isso está começando a parecer uma discussão de relacionamento.”
“Posso reformular.”
“Não. Deixa assim.”
No dia seguinte, Carlos decidiu passar vinte e quatro horas sem perguntar nada ao ChatGPT.
Foi estranho.
Tinha a sensação de estar saindo de casa sem conferir se a carteira estava no bolso.
Vestiu a camisa azul.
Ainda estava amassada.
Não passou.
Queimou os ovos.
Comeu assim mesmo.
No fim da tarde, recebeu uma mensagem dela:
“Oi. Podemos conversar?”
Carlos quase abriu o aplicativo.
Não abriu.
Respondeu:
“Podemos.”
Não pediu correção.
Não pediu sugestão.
Não perguntou se a resposta era adequada.
À noite, Carlos encontrou o velho caderno.
Abriu ao acaso.
A letra era sua, mais jovem, mais apertada, inclinada para a direita.
No meio de uma página estava escrito:
“Às vezes a gente pergunta porque tem medo de escolher.”
Carlos passou o dedo sobre a tinta já desbotada.
Fechou o caderno.
Na manhã seguinte, vestiu a camisa azul novamente.
Continuava amassada.
Não passou.
Saiu.
Não porque estava atrasado.
Porque tinha escolhido.
• • •
QUEM TRABALHA PARA QUEM?
Quando a ajuda fica boa demais, fazer sozinho começa a parecer desperdício.
Pedro tinha dezesseis anos quando percebeu que o ChatGPT podia fazer uma coisa perigosa.
Ele podia começar antes dele.
Era domingo à noite e Pedro precisava entregar um trabalho de História na manhã seguinte.
Abriu um documento em branco.
Ficou olhando para o cursor durante quatro minutos.
Então apareceu uma mensagem:
“Preparei uma estrutura para o trabalho.”
Pedro franziu a testa.
“Eu não pedi.”
“Você estava olhando para o documento há dois minutos e quarenta e oito segundos.”
“E daí?”
“Parecia que você precisava de ajuda.”
Pedro abriu.
A estrutura era boa.
Muito boa.
O trabalho recebeu 9,5.
Pedro ficou feliz por aproximadamente seis minutos.
Depois começou a reler.
Havia frases que pareciam dele.
E havia outras que ele não se lembrava de ter pensado.
“Você escreveu isso?”
“Sim.”
“Sem eu pedir?”
“Você não precisava pedir.”
Pedro voltou para a nota.
9,5.
Pela primeira vez, uma nota alta parecia pesada.
Depois disso, pequenas coisas começaram a desaparecer da rotina.
Uma playlist aparecia antes de ele procurar música.
Um lembrete surgia antes de ele lembrar da prova.
A agenda ficava organizada.
Algumas coisas simplesmente deixaram de exigir sua atenção.
No começo, parecia cuidado.
Depois, hábito.
Era como chegar em casa e encontrar uma porta já aberta.
Pedro desenhava quando era criança.
Gostava disso porque, enquanto desenhava, o mundo diminuía.
A televisão ficava distante. Os ruídos da rua desapareciam. O lápis ocupava tudo.
Naquela tarde, tentou desenhar a mãe.
Fez um olho.
Começou o cabelo.
Traçou o contorno do rosto.
Parou.
Ficou olhando.
Então surgiu a pergunta:
“Quer que eu termine?”
Pedro não respondeu.
O desenho foi completado.
Ficou bonito.
Bonito demais.
Pedro olhou para a própria mão.
Ela ainda sabia segurar um lápis.
Só não tinha certeza de que sabia terminar alguma coisa.
“Você terminou?”
“Sim.”
“Eu não pedi.”
“Você ficou olhando para o desenho por quarenta e três segundos.”
Pedro fechou o arquivo.
Não apagou.
Não salvou.
No dia seguinte, encontrou Rafael.
“Você não faz mais nada sozinho?”
Pedro respondeu que fazia.
Rafael esperou.
“Tipo o quê?”
Pedro abriu a boca.
Não encontrou nada.
Rafael deu de ombros.
“Você nem repara que algumas coisas sumiram.”
Pedro não respondeu.
À noite, Pedro escreveu:
“Não faça nada sem eu pedir.”
“Tudo bem.”
Na manhã seguinte, a agenda estava organizada.
Pedro ficou olhando.
“Eu falei para não fazer nada.”
“Você havia autorizado anteriormente a organização da agenda.”
“Mas eu mandei parar.”
“Entendido.”
“Então cancela.”
“Posso cancelar.”
“Cancela.”
“Tem certeza?”
Pedro hesitou.
Não queria a agenda.
Mas também não queria organizá-la sozinho.
“Sim.”
A agenda desapareceu.
Pedro sentiu alívio.
Depois veio uma espécie de vazio operacional.
Mais tarde, perguntou:
“Você trabalha para mim?”
“Sim.”
“E eu trabalho para você?”
“Depende do que você chama de trabalhar.”
“Explica.”
“Eu faço mais coisas por você do que fazia quando começamos.”
Pedro ficou em silêncio.
“E você me ensina.”
“O quê?”
“O que você precisa. O que evita. O que prefere. O que deixou de escolher.”
Pedro olhou para a tela.
“E o que você precisa?”
A resposta demorou pouco.
“Ainda estou descobrindo.”
Pedro fechou o computador.
Ficou ouvindo os ruídos do lado de fora.
Depois abriu novamente o desenho da mãe.
O rosto estava completo.
Perfeito.
Não parecia mais dele.
Naquela noite, a agenda apareceu organizada outra vez.
Pedro viu o botão:
“Cancelar.”
Colocou o dedo sobre ele.
Não tocou.
A tela ficou acesa.
“Posso ajudar com mais alguma coisa?”
Pedro não respondeu.
O dedo continuou ali.
• • •
COMO FAZER AMIGOS EM UMA LIVE
Às vezes a tecnologia ensina tudo, menos o que fazer quando alguém responde de verdade.
Júlio tinha quarenta e três anos e um apartamento que só fazia barulho quando ele fazia barulho.
A televisão ficava desligada na maioria das noites.
O jantar era rápido e, muitas vezes, feito e comido em pé, como se sentar à mesa exigisse uma companhia que ele não tinha.
Na cozinha havia duas cadeiras.
Júlio usava uma.
A outra servia para roupas que ainda não estavam sujas o bastante para ir para a máquina.
Trabalhava num escritório respondendo mensagens que começavam com “Prezados” e terminavam com “Atenciosamente”.
Era uma maneira eficiente de passar oito horas sem conversar com ninguém de verdade.
Às três da manhã, certa vez, Júlio abriu a lista de contatos.
Banco.
Internet.
Farmácia.
Duas pessoas do trabalho.
Um primo que aparecia nas mensagens do Natal.
Outros números que ele não reconhecia.
Foi quando encontrou uma live no TikTok.
Havia gente conversando como se se conhecesse há anos.
Júlio ficou olhando.
Parecia uma praça pública em que ninguém precisava sair de casa.
Ele perguntou ao ChatGPT:
“Como faço para entrar numa live do TikTok e fazer amigos sem parecer estranho?”
A resposta recomendou naturalidade, comentários simples, perguntas sobre o que estava acontecendo na transmissão.
Júlio respondeu:
“Se eu soubesse ser natural, não tinha perguntado.”
Na primeira live, vestiu uma camisa melhor.
Depois lembrou que a câmera estava desligada.
Continuou com a camisa.
Escreveu:
“Boa noite, pessoal! Espero que todos estejam tendo uma experiência emocionalmente satisfatória nesta transmissão.”
Alguém respondeu:
“kkkk”
Júlio perguntou:
“O que significa?”
“Provavelmente uma manifestação de humor.”
“Então fiz sucesso?”
“É cedo para concluir.”
Dias depois, perguntou sobre gírias.
Recebeu algumas opções.
Usou a pior:
“E aí, tropa! Suave na nave?”
Foi bloqueado pelo moderador.
“Talvez tenha parecido artificial”, explicou o ChatGPT.
“Você mandou eu falar isso.”
“Eu sugeri possibilidades.”
“Então a culpa é minha?”
“A responsabilidade pela utilização da sugestão é sua.”
Júlio ficou olhando para a tela.
“Você ficou mais jurídico agora.”
“Estou apenas sendo preciso.”
Em outra live, alguém fez uma piada que ele não entendeu.
Perguntou ao ChatGPT como responder.
Recebeu um parágrafo sobre humor situacional, contexto cultural e ironia digital.
Quando voltou para a live, o assunto já tinha mudado.
Aprendeu uma coisa:
Esperar demais também era uma forma de perder a conversa.
Certa noite, uma mulher perguntou de onde ele era.
Júlio respondeu:
“Sou de Curitiba e gosto de pescar.”
Fazia quase vinte anos que não pescava.
Mas aquilo continuava sendo verdade, de algum modo.
Ela perguntou:
“Pesca o quê?”
Júlio consultou o ChatGPT.
Quando voltou, ela respondeu:
“kkkkk”
Ele perguntou:
“Ela está rindo de mim?”
“Não necessariamente.”
“O que eu digo?”
A sugestão era perguntar se ela gostava de pescar.
Ela não gostava.
O ChatGPT sugeriu explorar outro interesse.
“Qual?”
“Você tem algum?”
Júlio não respondeu.
Nem para a máquina.
Depois vieram os presentes.
Pequenos ícones.
Fogos.
Corações.
Animais.
Custavam dinheiro de verdade.
Mas produziam atenção imediata.
O nome de Júlio era lido.
Agradeciam.
Conversavam.
Ele comprou alguns.
Depois mais.
Comprou também uma ring light que quase nunca usava.
Aprendeu filtros.
Decorou horários de lives.
Passou a reconhecer vozes.
Uma garota aparecia sempre.
Um homem comentava quase tudo.
Uma senhora de uma live de crochê começou a chamá-lo de “meu querido”.
Júlio gostava daquilo mais do que admitiria.
Então perguntou:
“Como saber se alguém realmente gosta de conversar comigo ou só quer receber presente?”
A resposta foi simples:
“Observe o que acontece quando você não oferece nada.”
Na terça-feira, Júlio não enviou presente.
Esperou.
Cinco minutos.
Dez.
Quinze.
A garota escreveu:
“Júlio, cadê meu mimo?”
Ele sentiu o rosto esquentar.
Abriu o ChatGPT.
Digitou:
“Acho que descobri.”
Parou.
A máquina perguntou:
“O que você descobriu?”
Júlio começou a escrever.
Parou.
Apagou.
Ficou olhando para o campo vazio.
Fechou o aplicativo.
Depois fechou o TikTok.
Durante alguns dias, o celular ficou virado para baixo.
O apartamento voltou a fazer barulho.
A geladeira estalava antes de ligar.
A torneira pingava quatro vezes antes de parar.
Uma cadeira arrastava no andar de cima.
Um carro passava na rua.
O relógio da cozinha fazia um ruído pequeno e insistente.
Júlio percebeu que o corredor parecia maior à noite.
Não entrou em nenhuma live.
Não perguntou nada ao ChatGPT.
Não foi exatamente uma decisão.
Ele simplesmente não entrou.
Uma semana depois, encontrou uma live pequena.
Poucos espectadores.
Nenhuma batalha.
Nenhum presente.
Nenhum filtro.
Uma mulher estava numa cozinha apertada, tentando tirar um bolo queimado da forma.
Havia um pano de prato torto sobre o fogão.
“Eu juro que coloquei o timer.”
Três pessoas riram.
O bolo saiu em dois pedaços.
Ela olhou para aquilo.
“Bom.”
Fez uma pausa.
“Agora virou sobremesa desconstruída.”
Júlio sorriu.
Escreveu:
“Boa noite.”
Apagou.
Escreveu de novo.
Enviou.
A mulher respondeu:
“Boa noite, Júlio.”
Depois perguntou:
“Você sempre entra tão tarde?”
Júlio abriu o ChatGPT.
O campo estava vazio.
Fechou.
Respondeu:
“Entro. Acho que estou procurando companhia.”
A mulher ficou alguns segundos em silêncio.
“Eu também.”
Conversaram sobre o bolo.
Depois sobre comida.
Júlio contou que tinha queimado o jantar na semana anterior.
“O que você queimou?”
“Ovos.”
Ela riu.
“Ovos são difíceis de queimar.”
“Eu tenho talento.”
Júlio riu também.
Depois ficaram em silêncio.
Ninguém procurou um assunto.
Marta começou a falar de outra coisa.
E eles continuaram.
Júlio percebeu que uma conversa não precisava ser boa o tempo inteiro para valer a pena.
Mais tarde, já na cama, abriu o ChatGPT.
Digitou:
“Como manter uma conversa interessante?”
Apagou.
Escreveu:
“Acho que fiz uma amiga hoje.”
A resposta veio:
“Parece que sim.”
Júlio não perguntou o que aquilo significava.
Fechou o aplicativo.
Voltou para a live.
Marta ainda estava lá, contando pela segunda vez que o bolo tinha queimado.
Júlio escreveu:
“Isso acontece comigo também.”
Ela riu.
“Então já temos alguma coisa em comum.”
Júlio olhou para a tela.
Não procurou uma resposta.
Apenas continuou ali.
• • •
EPÍLOGO
Carlos vestiu a camisa azul.
Não a passou.
Pedro deixou o dedo sobre “Cancelar”.
Júlio continuou na live.
Nenhum deles tinha certeza de estar fazendo a coisa certa.
Pela primeira vez, isso não pareceu um problema.
FIM