sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O Cemitério de Guaraqueçaba

O Cemitério de Guaraqueçaba 
Tadeu Everton Zamoiski 
Guaraqueçaba

O cemitério de Guaraqueçaba não tem muro. Não precisa. O mato faz o muro.

Atrás da igreja, onde a rua de paralelepípedo acaba e começa a trilha pro mangue, tem um portão de ferro que não fecha mais. Ferrugem comeu a dobradiça. Ninguém rouba de cemitério. O que tem pra roubar?

Meu nome é Nilo. Tenho 58 anos. Sou coveiro aqui há 23. Não sou coveiro porque gosto de defunto. Sou porque meu pai foi. Meu avô foi. Em Guaraqueçaba, coveiro não é profissão. É sobrenome.

Eu não acredito em assombração. Acredito em conta. Conta de luz. Conta de ter que abrir cova às cinco da manhã porque choveu a semana toda e o barro não deixa. Acredito em dor na coluna. E acredito que defunto não reclama. Vivo reclama muito mais.

Tem uma lápide no canto mais velho. Lápide de pedra preta, daquelas que não são daqui. Alguém trouxe de Paranaguá há muito tempo. Não tem cruz. Não tem foto. Só um nome entalhado torto, como se quem fez não soubesse escrever direito.

Quando eu comecei aqui, em 2003, o nome era ALMERINDA R.

Eu nunca apaguei. Deixei. Almerinda deve ter morrido antes de eu nascer. Deixa lá.

Só que em março desse ano, na terça depois do carnaval, eu cheguei cedo pra capinar. Orvalho no capim, cheiro de terra molhada com mangue. Olhei pra lápide.

Não tava mais ALMERINDA R.

Tava ELIAS R.

Elias Ribeiro. Dono da venda da esquina da praça.

Eu limpei o olho com a manga da camisa. Passei a enxada em cima, de leve, pra tirar o limo. A pedra continuou ELIAS R.

No outro dia, Elias morreu. Infarto na frente da venda. Caiu em cima do saco de arroz.

Na quinta, fui de novo. Não queria ir. Mas fui.

MARLENE C.

Marlene Cordeiro. Professora da creche. 39 anos.

Marlene passou por mim na rua no mesmo dia, com as apostilas na mão. Me deu bom-dia.

Na sexta, Marlene não deu bom-dia. Não voltou de Tagaçaba. Dizem que a moto falhou na curva. Guaraqueçaba diz essas coisas.

Comecei a anotar num caderninho de armazém que eu uso pra contar quantas covas abri no mês. Letra minha, feia, de quem escreve pouco:

Segunda: ELIAS R - morreu. Quinta: MARLENE C - morreu. Sexta: JOÃO P.

João Paulo. Meu sobrinho. 19 anos. Filho da minha irmã.

Eu larguei a enxada no meio do cemitério e corri. Corri descalço quase, pela trilha, até a casa dele.

Ele tava na rede, no celular, descalço, com o pé sujo de mangue.

— Tio Nilo tá suado.

— Não vai pro mangue amanhã. Não vai buscar siri. Fica em casa.

Ele riu. "Tio tá doido. Maré tá boa amanhã".

No sábado, maré baixa. Ele foi.

O mangue puxou. Quem é de Guaraqueçaba sabe. O mangue não é lama. É mão. Quando você afunda o pé, ele segura. João atolou até o joelho. A maré subiu por cima.

Quando acharam, só a cabeça tava pra fora. Como se o mangue tivesse plantado ele.

Enterrei meu sobrinho na cova que eu mesmo abri. Com a mesma enxada que eu capino a lápide. Minha irmã não falou comigo no enterro. Achou que eu roguei praga.

No domingo, não fui no cemitério. Fiquei em casa, com a porta trancada, cheiro de café requentado. Minha mulher perguntou o que eu tinha. Eu não soube explicar.

Na segunda, fui. Tinha que ir. O mato não espera.

A pedra tava limpa. Lavada com água de chuva.

NILO R.

Meu nome. Meu sobrenome torto, escrito do mesmo jeito torto de Almerinda.

Sentei no chão. O chão tava úmido. Minha coluna doeu. Olhei pro portão de ferro que não fecha. Olhei pro mangue. Guaraqueçaba inteira tava quieta.

Tinha um dia.

Pensei em fugir. Pegar o barco pra Paranaguá. Mas a pedra sempre me achava. Ia me achar de novo.

Pensei em quebrar. Peguei a marreta. Levantei. Quando encostei a marreta na pedra preta, a pedra tava quente. Quente por dentro, mesmo com o dia nublado, mesmo com o sereno. Quente como brasa abafada.

Larguei a marreta.

Aí fiz coisa de teimoso. Coisa de coveiro supersticioso.

Se a pedra não quer ficar em pé, então vai pro chão.

Comecei a cavar do lado dela. Um buraco fundo, do tamanho da pedra. Pra enterrar a lápide. Pra enterrar o nome.

Cavei até a camisa grudar nas costas. Até a mão abrir bolha e a bolha estourar e virar sangue com terra preta.

Joguei a pedra preta dentro do buraco. De bruços. Nome pra baixo, pra terra comer.

Tampei. Pisei em cima. Socando com o pé.

Pronto. Acabou.

Fui tomar água no galpão. Quando voltei, cinco minutos depois, a terra tava mexida.

A pedra tava de volta em pé. No mesmo lugar. Só que lisa. Sem nome. Como se nunca tivesse tido nome nenhum.

E do lado dela, a cova velha — aquela que tava fechada há 50 anos com grama por cima, que ninguém abre porque é de criança — tava aberta.

Aberta sozinha. Terra fofa em volta, cheirando a ferro e mangue. Fundo escuro. Do meu tamanho exato.

E dentro, água preta do mangue subindo devagar, borbulhando.

Eu tinha apagado meu nome. Mas Guaraqueçaba não apaga cova.

Fiquei ali olhando a água subir. Se eu corresse, o mangue ia me buscar na trilha mesmo. Se eu ficasse, ia me buscar aqui.

Então fiz a única coisa que um teimoso faz.

Deitei.

Deitei dentro da minha própria cova, com a roupa suja de terra, com a mão sangrando, com cheiro de Almerinda, de Elias, de Marlene, de João.

A água preta do mangue tava fria. Subiu no meu tornozelo. No meu joelho.

Fechei o olho.

A última coisa que ouvi não foi a pedra escrevendo.

Foi o mato crescendo por cima de mim, fazendo o muro.

RIVIERA

RIVIERA 

Tadeu Everton Zamoiski
Matinhos 

Riviera de dia é placa de vende-se. De noite é breu e grilo.

Fui caseiro temporário. Dona de Curitiba me pagou trezentos pra olhar casa três dias. Chave grande, portão de madeira que incha na chuva. Casa de dois andares, cerâmica gelada, cheiro de casa fechada que não sai nem abrindo janela.

Primeira noite luz da rua queimada. Só a minha acesa no meio do escuro. Na frente, outra casa igual, janelas pretas. No muro, placa desbotada: BALNEÁRIO RIVIERA.

Fiquei na varanda com Velho Barreiro. Mar barulho longe. Cachorro magro passou e não latiu.

Segunda noite, de madrugada, barulho de chinelo arrastando na rua. Levantei. Rua vazia, areia úmida. Pegada molhada indo da minha porta pra casa da frente. Molhada, mesmo sem chuva.

Voltei, tranquei.

No espelho do banheiro, marca de mão na porta de vidro por dentro. Pequena, criança. Eu tinha limpado de manhã.

Terceira noite dona não atendeu pra devolver chave. Fiquei.

Deitei e ouvi casa da frente abrir. Porta de correr. Sem luz. Vi da fresta da cortina: mulher de camisola branca na varanda da frente, cabelo preto molhado, parada olhando pra minha casa. Esmalte vermelho descascado.

Não acendi luz. Ela ficou lá meia hora. Imóvel. Depois entrou.

De manhã fui lá. Casa fechada, cadeado enferrujado por fora. Areia na porta sem pegada. No vidro da janela, por dentro, mesma mãozinha. E escrito com dedo: VOLTA.

Voltei pra Curitiba à tarde, deixei chave na imobiliária de Ipanema. Moça nem olhou: "Riviera, né? Sempre deixam antes."

Hoje, três meses depois, acordei de madrugada com chinelo arrastando no corredor da minha casa aqui em Riviera. Tava na rede, olhando o verde do quintal. Sem areia da praia, mas com o mesmo barulho de chinelo na casa.

No espelho do banheiro, marca de mão pequena. Por dentro.

No meu celular, foto que não tirei. Minha rede aqui em Riviera, de noite. O verde do quintal lá atrás. Na rua lá embaixo, mulher de camisola branca olhando pra cima. Esmalte vermelho.

Na legenda da foto, escrita com meu dedo mas não fui eu:

"Você trouxe a chave."

O LADO B

O LADO B
Tadeu Everton Zamoiski
Pontal do Paraná / Praia de Leste

Beira da estrada velha, chão batido
A canção que a criança aprende antes de nascer.

O carro morreu na subida de areia. Não foi dramático. Só fez nhoc e apagou.

Era um Corsa velho, 98, com o banco do carona quebrado pra trás. Eu tinha oito meses de barriga e trinta e sete reais no bolso. O celular sem sinal desde o balneário Shangri-lá. A estrada velha de Praia de Leste, aquela que ninguém usa mais depois que asfaltaram a outra.

O Beto me achou às cinco da tarde. Me deu dois tapas porque eu queimei o arroz. Na segunda ele jogou o prato na parede. Na terça disse que se eu fosse embora ia me achar. Na quarta eu fui.

Dirigi quatro horas com a calcinha molhada de medo e a bexiga apertando o bebê. Agora o carro não ligava. A chave virava e nada.

Na minha frente, uma luz amarela. Um bar.

Não tinha nome. Só um quadrado de madeira com telha de Brasilit, chão de terra batida mesmo, compactada de tanto pé. Uma lâmpada nua pendurada por um fio. Uma mesa de madeira crua com marca de cigarro. Um freezer velho desligado.

E uma jukebox.

Wurlitzer. Daquelas grandes, com plástico bolha na frente, luz que gira. Só que suja, cheia de barro seco na base. Não tava ligada na tomada. O fio atrás tava cortado, enrolado.

O velho atrás do balcão não perguntou nada. Devia ter uns oitenta anos, pele de couro. Me olhou de cima a baixo, olhou minha barriga, e só fez que sim com a cabeça.

— Tem água? — eu perguntei.

Ele me deu um copo de plástico com água morna. Cheirava a poço.

Eu sentei. O banco de madeira tava quente do sol do dia todo. Minhas pernas incharam. Minha calça legging grudava.

— Seu carro?

— Morreu.

— Amanhã o guincho passa. Se passar.

Eu comecei a chorar. Sem som. Só as lágrimas descendo.

Foi aí que a jukebox acendeu.

Sozinha.

Click. Uma luzinha fraca. O disco de dentro começou a girar. Não tinha ficha. Não tinha ninguém perto.

E tocou.

Não era sertanejo, não era rádio. Era uma valsa. Lenta. Piano velho e uma mulher cantando baixo, em português mas com sotaque esquisito, como se fosse de muito antigamente.

Dorme, meu bem, dorme no fundo...

Quando o primeiro acorde fez pam-pam-pam, o bebê chutou.

No tempo.

Eu levei a mão na barriga automaticamente.

— Ai.

O velho me olhou.

— Ela gostou.

— O que é isso?

— Lado B.

A música continuou. E o bebê continuou marcando. Cada nota grave do piano, um chute. A voz da mulher fazia um vibrato e o bebê virava dentro de mim.

Me deu ânsia. Aquela sensação de corpo invadido que você tem a gravidez inteira mas tenta não pensar. De que tem uma coisa viva usando seu corpo por dentro. Agora essa coisa tava ouvindo música antes de nascer e dançando.

— Desliga isso — eu falei.

— Não desliga.

Ele enxugou um copo com um pano sujo.

— De onde veio essa jukebox?

— Veio da praia.

Ele apontou pra estrada, pro lado do mar que a gente não via. Só isso.

— Tinha uma vila ali. O mar comeu.

A valsa repetia. Eu comecei a entender a letra, porque a mulher cantava bem arrastado, bem perto do microfone:

Dorme, meu bem, dorme no fundo Onde o mar não faz barulho Mamãe te leva pro profundo Onde nenhum homem te machuca

Minha espinha gelou. O bebê chutou mais forte.

O velho disse, sem eu perguntar:

— Cantavam pra dormir. Antes de levar.

Eu vomitei. Água morna e bile, no chão batido.

O bebê não parou.

— Por que tá tocando pra mim?

Ele olhou pra minha barriga.

— Ela sabe.

— Eu não vou fazer nada com meu filho!

Ele não respondeu. Só secou o mesmo copo de novo.

— Nenhuma delas ia.

A jukebox aumentou o volume sozinha. A lâmpada nua começou a piscar no ritmo. O chão batido vibrava.

Senti uma contração. Forte. Falsa, eu achei. Só que veio outra em cima. E água. Minha calça molhou de vez.

— Minha bolsa...

— Já vi isso antes — ele disse, baixo. E olhou pra estrada. Não disse mais nada.

A dor rasgou de um lado ao outro da minha barriga. Eu caí de joelhos no chão batido. Terra entrou na minha unha. A valsa tava no refrão de novo. E o bebê se mexia como se quisesse sair no tempo exato.

Dorme, meu bem, dorme no fundo...

Eu gritei. Não de dor de parto. De ódio. Peguei uma pedra do chão — terra dura — e taquei na jukebox.

O plástico quebrou. A luz faiscou. A música arranhou, ficou lenta, voz de mulher arrastada como disco molhado.

O bebê parou de chutar.

Silêncio.

Só minha respiração e o chiado da jukebox morrendo.

Aí a dor voltou, mas era minha agora. Era parto mesmo. Sem música. Sem ritmo.

— Me ajuda! — eu gritei pro velho.

Ele finalmente saiu de trás do balcão. Se ajoelhou com dificuldade. Tinha uma toalha imunda no ombro.

— Faz força.

Eu fiz. Na terra. No chão batido de um bar sem nome na estrada velha de Praia de Leste, com 37 reais no bolso e sem marido pra me bater nunca mais.

Empurrei. Gritei o nome da minha mãe que morreu quando eu tinha 12. Empurrei de novo.

O bebê saiu. Escorregou na terra. Vermelho, sujo de sangue e de barro. Chorou alto. Choro de pulmão bom.

O velho cortou o cordão com um canivete.

Eu peguei ele. Menino. Coloquei no peito. Ele cheirava a mar, mesmo o mar estando a dois quilômetros.

Fiquei ali deitada, sangrando no chão batido, com meu filho no colo.

A jukebox deu um último estalo. Uma faísca.

E tocou de novo. Baixinho. Só um pedaço.

Onde nenhum homem te machuca...

O menino, no meu colo, com menos de um minuto de nascido, parou de chorar.

E cantarolou.

Hmm. Hmm. Hmm.

Do lado de fora, mesmo sem vento, ouvi o mar.

Mesmo longe, ouvi a onda quebrando. E parecia que quebrava no ritmo.

Pam-pam-pam.

Ele respondeu.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O JARDIM DE MATINHOS

O JARDIM DE MATINHOS
Tadeu Everton Zamoiski Riviera



Eu não acredito em planta que sente dor. Planta sofre com praga, com sol demais, com raiz entupindo cano. Dor é coisa de gente.

Foi o que eu falei pro velho do chapéu no primeiro dia. Meu nome é Cleuza. 54 anos, dois joelhos ruins e uma Kombi branca que só pega na segunda tentativa. Faço jardinagem na Riviera há vinte anos.

Me chamaram pra limpar a casa da Rua das Palmeiras, 47, antes de vender. A dona morreu. Casa antiga. Madeira comida de maresia. Terreno enorme nos fundos.

No meio do mato, um retângulo capinado. Diferente do resto. Como se alguém tivesse cuidado daquilo até semana passada.

— Isso aqui quem plantou?

— Dona Lúcia. A mãe da moça. Vinha todo mês só pra mexer ali.

No primeiro palmo, a enxada bateu em terra fofa. Um saco plástico preto.

Dentro, fotos de um homem magro, de bigode, com uma criança no colo. Reconheci a criança pela pintinha no queixo. Era a filha que me contratou, mais nova. No mesmo saco, enrolado num guardanapo, um anel de noivado. E atrás da foto: "Guaratuba, 78 -"

Só isso. O resto apagado de tanto dedo.

No dia seguinte, brotou uma flor ali. Tipo copo-de-leite, torta. Com uma mancha que parecia bigode. O homem da foto.

— Que praga é essa, Cleuza?

— É fungo.

Continuei cavando. Mais fundo, começou um som curto, abafado, vindo da terra. Como choro abafado por terra. Achei que era bicho. Mas bicho não chora assim.

No palmo seguinte, uma caixinha de remédio vazia. Receita amarelada. "Maria da Glória - parteira. Pra secar o leite. 1971. Tomar 2 por dia."

Quando tirei a caixinha, as flores mudaram. Não era mais só o homem de bigode. Tinha outras agora, espalhadas pelo canteiro. Umas tinham cara de menina, outras a boca torta. Todas viradas pra casa. É fungo, eu pensei já sem acreditar.

No meio da semana, a filha me ligou.

— Dona Cleuza, deu muito trabalho aí no terreno?

— Só mato.

No fundo, quase um metro abaixo da caixinha da parteira, a enxada bateu numa caixa de madeira, do tamanho de uma de sapato. Pesada.

Dentro, ossos pequenos. E uma pulseirinha de hospital. Nome: Lúcia. Data: 12/03/1971. E embaixo, com a mesma letra do verso da foto:

"Lúcia, como eu. Que"

Só isso.

Levei pra filha, na Caiobá.

Ela pegou a pulseirinha e ficou olhando a letra.

— É a letra dela. Reconheço de cor. Era assim que escrevia as listas de mercado. Ela dizia que tinha perdido um bebê antes de eu nascer.

Ela ficou olhando pra pulseirinha como se tivesse achado uma foto dela que nunca existiu.

Voltamos juntas pra Riviera. Ela queria arrancar tudo.

O jardim já tinha saído do canteiro.

Em duas semanas, tava na grama, na fresta da calçada, subindo pela parede de madeira.

O mais bonito da Riviera.

A corretora passava e elogiava. Algumas pessoas comentavam baixinho e iam embora.

No meio de tudo, no centro do canteiro original, tinha uma flor enorme, vermelha. Com o rosto da Dona Lúcia mais nova. A de 1971.

Quando cheguei com a enxada, a pétala se fechou um pouco. A seiva subiu escura pelo cabo. Quente. Cheirava a leite azedo e talco de bebê. Daquele Johnson rosa antigo. Minha mão tremeu no cabo. Larguei.

A filha ficou em pé, na frente da flor vermelha.

— Ela sorria assim nas fotos antigas — ela disse. — Antes de eu nascer.

No dia seguinte a placa de VENDE-SE sumiu.

— Deixa — ela me disse no telefone. — Se ela quis guardar, deixa guardado lá.

Disse "guardado". Não "enterrado".

Hoje eu passo na frente às vezes. A casa fechada. O jardim lindo.

Cheio de flores com rostos. Todas viradas pro sol.

Menos a vermelha. A vermelha tá sempre virada pra rua. Mesmo quando o sol tá nas costas.

Ontem o velho do chapéu me parou no portão.

— Voltou a ouvir?

Eu não respondi.

Na saída, fui dar partida na Kombi. Pegou de primeira.

Isso nunca aconteceu.

Quando olhei no retrovisor pra sair, vi terra fofa, preta, de canteiro, no banco do passageiro.

Eu não acredito em planta que sente dor.

Mas comecei a achar que tem planta que não esquece.

O Cinema de Ipanema

O Cinema de Ipanema
Pontal do Paraná / Ipanema Tadeu Everton Zamoiski

Ipanema fora de temporada não existe. É só vento e placa de vende-se. E cachorro magro.

Me chamaram porque o Seu Olavo morreu no banheiro do cinema. Afogado. Três dias lá até o filho sentir o cheiro. O banheiro de homem fede a mijo seco e desinfetante barato. Porta riscada com letra caprichada: "Sentado na privada sinto uma emoção profunda: a bosta bate na água e a água bate na bunda."

O projetor ficou sem ninguém que soubesse fazer ele não mastigar o filme.

Aceitei porque estava devendo na farmácia. Fazia três meses que eu tinha largado o Rivotril. Não parei. Só diminuí. Misturava com Velho Barreiro. Dois goles para cada meio comprimido. Ficava no ponto. Nem bêbado, nem acordado. Só menos eu.

O Cine Mar é de madeira. Azul que já foi azul. Na sala, cheiro de pipoca velha requentada e aquele aromatizador de tomada, cheiro de talco de bebê, doce que enjoa e gruda na língua. Na cabine, tapete molhado, óleo de máquina, poeira, filme grudando no dedo. A lâmpada esquenta a mão.

Na porta, cartaz torto de pincel atômico: HOJE 20H - A LAGOA AZUL.

— Seu Olavo passava isso direto — falou o filho, e me entregou uma chave pequena, enferrujada. — Ele guardava dentro da lata. Dizia que era para ninguém roubar a projeção. A chave do cadeado da porta. Tranca quando sair.

— Ninguém vem ver isso.

— Vem. Sempre vem uns dois, três. Gente esquisita.

Na cabine, três latas. Uma estava rodando no projetor, outra já estava preparada para a troca e uma terceira encostada no canto, cheia de pó. Na lata de cima, etiqueta trêmula do Seu Olavo: NÃO PASSAR DE NOVO. JÁ COBROU. Na emenda da fita, esmalte vermelho seco. Tec-tec-tec-tec.

Veio a Dona Célia, de boina mesmo com o abafado, e um piá de uns dez anos com um boné do Banestado desbotado, aquele B bordado torto, de banco que nem existe mais.

Apaguei a luz. Quando a luz bateu na tela, subiu aquele cheiro de mar preso em lata. Sal e lodo. Mais forte que o talco.

Na cena da jangada, a imagem queimou um segundo. Quando voltou, por um frame, não era Brooke Shields. Era um velho de rosto na água suja do vaso. Depois, no frame seguinte, uma senhora de boina dentro da banheira. Água no nariz.

A Dona Célia levantou no meio do filme. Sem falar nada. Deixou a bolsa na cadeira. Saiu.

Continuei passando o filme. Tec-tec-tec-tec. Fingi que não tinha visto.

De manhã o João da farmácia me cutucou no balcão.

— Soube da Célia? Afogada na banheira ontem de noite. Sozinha.

Fui para a cabine. Rebobinei o rolo na mão. A fita estava úmida. Lá estava. O banheiro, a Dona Célia. Antes dela, o Seu Olavo, de rosto na água.

Abri a bolsa dela, que tinha ficado na sala. Dentro, um ingresso antigo do Cine Mar, de 1987. Todo molhado, pingando. No verso, a caneta: Célia + Olavo - 12/07/87.

Na segunda noite botei TUBARÃO porque era o que estava na lata já montada. Vieram o mesmo piá e um casal de Curitiba de Havaianas. A mulher com a toalha molhada no ombro, reclamando do preço da pipoca que nem tinha.

— Tem pipoca?

— Não.

— Achei que tinha.

Na cena do piá da boia amarela, o projetor engasgou e a imagem queimou, a tela ficou branca e doeu no olho, depois voltou manchada. Tec... tec...... tec.

O que boiava de costas não era o ator. Era o piá da plateia. De boné. Na mesma boia amarela. Olho aberto. Boca cheia d'água suja.

Gritei lá de cima que a lâmpada tinha queimado.

O piá ficou sentado. Virou a cara para a cabine. Apertou a borda da cadeira com as duas mãos. Unha branca.

De manhã a mãe dele gritava na Rua das Sereias. Acharam ele na valeta da frente da igreja. Trinta centímetros de água suja.

Fiquei sentado na escada da farmácia até o meio-dia. Boca seca. Fiquei repetindo: eu deixei ele sentado. Quando varreram a sala, peguei o boné dele que tinha ficado na cadeira e enfiei na mochila. Não sei por quê.

Só de tarde abri todas as latas na bancada. Mão suada escorregando no metal. Em cada filme, um frame colado com aquele mesmo esmalte vermelho. No Tubarão, o piá. Na Lagoa Azul, a Célia e o Seu Olavo. Na terceira lata, CONTA COMIGO, um frame do casal de Curitiba. Os dois deitados na areia. Boca cheia de areia.

Na terceira noite voltei para a cabine. No balcão da entrada, quebrei meio Rivotril no dente e empurrei com um gole de Velho Barreiro.

A mão tremia tanto que não achava o plugue. Liguei só para testar.

A luz vazou pela fresta. Foi vista da rua.

Bateram 19h50.

O casal de Curitiba.

— Vai ter?

— Não vai. Fechou.

— Mas está passando. A gente viu da rua, está passando.

Na tela estava eu no chão da cabine, de rosto no chão, com água preta saindo da boca.

Arranquei o plugue com as duas mãos. O cheiro de mar fechado voltou, mais forte que o talco, que o mijo.

O projetor continuou rodando no escuro.

Tec-tec-tec-tec.

Abri a lata de A LAGOA AZUL ainda na cabine, soltei a chave do cadeado lá dentro e larguei tudo girando. Ouvi o metal bater no fundo da lata. Saí e deixei a porta só encostada.

Fui embora a pé pela PR. Não olhei para trás.

Uma semana depois o filho do Seu Olavo me ligou.

— Ô, você fechou direito? O vizinho disse que está com luz acesa de madrugada.

— Vendi.

— Para quem?

Desliguei. Tirei o chip.

Ontem estava no terminal de Paranaguá, esperando o circular para Matinhos que só saía às 20h15. Na fila, duas cadeiras na frente, o casal de Curitiba. Com areia grudada na canela, olhando fixo para a banca de pastel. O piá não estava. Só o boné em cima da cadeira vazia. Pingando.

O mesmo boné que eu tinha enfiado na mochila.

Na banca, cartaz novo colado com durex.

CINE MAR - NOVA DIREÇÃO - IPANEMA - HOJE 20H - A HISTÓRIA SEM FIM - ENTRADA FRANCA.

Embaixo, com a mesma letra trêmula da etiqueta, mas com a minha pressa:

HOJE TEM PROJEÇÃO ESPECIAL PARA VOCÊ.