terça-feira, 8 de setembro de 2026

O HOMEM QUE JÁ NÃO ERA ELE

O HOMEM QUE JÁ NÃO ERA ELE

Algumas pessoas mudam. Outras são substituídas.


Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026


Às 18h17, Henrique desligou o celular e permaneceu alguns segundos olhando para a tela escura, onde seu próprio rosto surgia ligeiramente deformado pela superfície negra do aparelho. Não havia nada de extraordinário naquela imagem. O mesmo cabelo ralo, os olhos cansados, a barba por fazer, a pequena assimetria da boca que sempre aparecia quando estava preocupado. Ainda assim, havia alguma coisa profundamente desconfortável naquele reflexo, não porque parecesse diferente, mas porque, pela primeira vez, teve a impressão de estar olhando para alguém que conhecia muito bem e de quem, no entanto, não conseguia lembrar o nome.
Aproximou o telefone do peito, como se tivesse sido flagrado fazendo alguma coisa íntima, e depois o colocou sobre a mesa. A última frase do áudio continuava repetindo-se dentro da cabeça, embora já não houvesse som algum na sala.
— Você é a mesma pessoa de cinco minutos atrás?
Henrique soltou uma risada curta.
— Que pergunta idiota.
Disse aquilo em voz alta, esperando que ouvir a própria voz resolvisse a sensação estranha que havia se instalado nele. Não resolveu. Havia alguma coisa no timbre que lhe pareceu ligeiramente deslocada, como se a voz estivesse chegando de um lugar alguns metros atrás de seu corpo.
Pegou novamente o celular e abriu o áudio. A barra de reprodução apareceu exatamente onde havia parado. Voltou alguns segundos e ouviu outra vez a pergunta sobre o machado, depois o barco, depois o corpo humano. A voz falava com uma tranquilidade quase doméstica, sem a menor intenção de assustá-lo, como alguém que estivesse apenas fazendo uma pergunta cuja resposta considerava óbvia.
Quando a gravação chegou novamente à pergunta final, Henrique interrompeu.
Olhou para os detalhes do arquivo.
Criado às 18h23.
Franziu a testa.
Consultou o relógio da parede.
18h17.
Voltou ao celular.
18h23.
Durante alguns segundos comparou os dois horários, tentando encontrar uma explicação razoável. Pensou em erro de sincronização, aplicativo defeituoso, atualização automática. Era perfeitamente possível. Hoje em dia, até os relógios precisavam de outros relógios para saber que horas eram.
Mesmo assim, alguma coisa pequena e fria se instalou em seu estômago.
Relógios podiam atrasar.
Não costumavam errar para o futuro.
Levantou-se devagar, apoiando as duas mãos nos braços da cadeira antes de inclinar o tronco para a frente e transferir o peso para as pernas. Os joelhos protestaram com um estalo seco, e ele permaneceu imóvel por alguns segundos, esperando que o equilíbrio se estabilizasse.
Foi então que olhou para as próprias mãos.
Havia pequenas manchas na pele, uma cicatriz fina próxima ao polegar esquerdo e uma unha irregular no indicador.
Passou a ponta do dedo sobre a cicatriz.
Não se lembrava dela.
Tentou puxar pela memória alguma queda, algum acidente doméstico, uma faca, uma ferramenta, qualquer coisa que pudesse ter produzido aquela marca. Vieram lembranças de coisas muito mais antigas, algumas quase apagadas pelo tempo, mas nada relacionado à cicatriz.
Era uma insignificância. Uma pequena marca numa mão de homem.
Mesmo assim, alguma coisa dentro dele se deslocou.
Não saber quando havia adquirido uma cicatriz parecia, de repente, muito mais grave do que deveria.
Foi até a cozinha, arrastando ligeiramente os chinelos pelo piso frio, e abriu a geladeira. Ficou diante dela durante alguns segundos, observando ovos, queijo, uma panela de arroz, uma garrafa de água e duas cervejas.
Pegou uma.
Fechou a porta com o quadril.
Ficou olhando para a garrafa.
Depois a devolveu à geladeira, pegou a água, fechou a porta e imediatamente tornou a abri-la para recuperar a cerveja.
Riu sozinho.
— Eu gosto de cerveja.
A frase pareceu estranha assim que saiu.
Não pelo conteúdo.
Pela maneira como havia dito.
Era como se estivesse repetindo uma informação que alguém lhe ensinara.
Abriu a garrafa, bebeu um gole e sentiu o amargor familiar percorrer a língua. Conhecia aquele sabor. Conhecia aquela marca. Sabia onde ficavam as cervejas no supermercado e lembrava que costumava comprar a mesma havia anos.
Ainda assim, durante uma fração de segundo, teve a impressão desconfortável de estar experimentando aquilo pela primeira vez.
Colocou a garrafa sobre a pia.
O telefone vibrou na sala.
Henrique não foi buscá-lo.
Ficou olhando para a porta da cozinha, tentando entender por que, naquele instante, tinha medo de descobrir quem havia mandado a mensagem.
♦ ♦ ♦
A garrafa permaneceu sobre a pia até que a luz da tarde desaparecesse completamente pelas janelas. Quando finalmente foi para o quarto, Henrique deixou a televisão ligada durante algum tempo sem prestar atenção ao programa. Dormiu tarde e mal.
Por volta das três da manhã, acordou com a impressão de que alguém caminhava pela casa.
Não abriu os olhos imediatamente. Permaneceu imóvel, prestando atenção ao silêncio, até ouvir um ruído no corredor, depois outro, passos cautelosos de alguém que conhecesse perfeitamente a disposição dos móveis.
Abriu os olhos.
A porta do quarto estava entreaberta, deixando uma faixa estreita de escuridão atravessar o chão.
Estendeu a mão até o criado-mudo, encontrou os óculos e os colocou. Sentou-se na cama, apoiou os pés no piso e ficou assim durante alguns segundos, sentindo o frio subir pelas pernas.
Outro ruído veio da sala.
Dessa vez levantou-se.
Caminhou pelo corredor mantendo a mão direita apoiada na parede. Não precisava daquele apoio, mas o contato com a superfície fria lhe dava uma sensação de segurança. Avançou devagar, parando a cada poucos passos para escutar, até alcançar a sala.
Não havia ninguém.
A televisão estava desligada. A janela permanecia fechada. A porta da frente estava trancada.
A casa parecia exatamente como a deixara.
Então viu Zeus.
O cachorro estava sentado diante da porta da sala e olhava diretamente para ele.
Henrique sentiu um alívio quase infantil.
— Foi você, seu desgraçado?
Zeus não se mexeu.
Aproximou-se, abaixando-se lentamente até ficar agachado, e estendeu a mão. O cachorro aproximou o focinho, cheirou seus dedos, inspirou novamente e recuou.
Henrique permaneceu com a mão suspensa.
— Zeus?
O animal inclinou a cabeça.
Tentou tocar sua cabeça, mas Zeus recuou mais um passo. Não havia exatamente medo naquele movimento. Era uma hesitação cuidadosa, quase uma avaliação, como se estivesse tentando decidir se aquele homem era realmente quem dizia ser.
Henrique sentou-se no chão.
— Sou eu, filho.
Zeus aproximou-se novamente, cheirou seu rosto, depois a mão, e tornou a recuar. Em seguida caminhou até o corredor e, antes de desaparecer, parou para olhar para trás.
Henrique ficou sentado no chão, sentindo o frio atravessar o tecido da calça.
Tentou explicar aquilo.
Talvez Zeus estivesse doente. Talvez estivesse ficando velho. Talvez tivesse acordado assustado. Talvez Henrique estivesse cheirando diferente por causa do sabonete, da cerveja, do suor.
Talvez.
Levantou-se e foi até a cozinha.
Cheirou a própria mão.
Depois ficou parado diante da pia.
Não sabia exatamente o que estava procurando.
♦ ♦ ♦
Na manhã seguinte, o áudio havia desaparecido.
Verificou o histórico de mensagens, os arquivos recentes, a lixeira e as conversas arquivadas. Pesquisou pelo nome do contato. Nada.
O arquivo simplesmente não existia.
Sentou-se na beirada da cama e segurou o celular com as duas mãos. Repetiu a pesquisa várias vezes, como se a insistência pudesse obrigar o aparelho a devolver alguma coisa que havia decidido esconder.
Por fim, abriu a câmera frontal.
Seu rosto apareceu na tela.
Aproximou o telefone.
Observou o olho direito, depois o esquerdo. Piscou.
A imagem piscou junto.
Levantou a mão.
O reflexo levantou a mão.
Sorriu.
O reflexo sorriu.
Baixou lentamente o telefone.
Pensou na frase da noite anterior.
— Então você é eu.
Percebeu que deveria ter dito outra coisa.
— Sou eu.
Mas não havia dito.
Foi até o banheiro e acendeu a luz. Diante do espelho, observou o próprio rosto durante algum tempo.
— Você lembra do machado? Do meu pai? De Zeus?
Silêncio.
Aproximou o rosto do vidro.
— Você lembra de mim?
O reflexo demorou um instante para responder, não com palavras, mas com um sorriso que ele não havia feito, tão breve que poderia ter sido um erro dos olhos.
Dessa vez não recuou.
Apenas ficou olhando enquanto percebia que o reflexo parecia mais cansado do que ele. E, pela primeira vez, teve a impressão de que não estava diante de uma cópia, mas de uma testemunha.
O celular vibrou no quarto.
♦ ♦ ♦
Álvaro apareceu naquela tarde sem avisar, como fazia havia mais de trinta anos. Bateu uma vez e entrou, deixando as chaves sobre a mesa antes de sentar-se no sofá.
— Você sumiu — disse.
— Eu estava aqui.
— Eu sei.
Ficou observando-o durante algum tempo, e Henrique percebeu.
— O quê?
— Você está diferente.
— Todo mundo está diferente.
— Não desse jeito.
Tentou sorrir.
— Que jeito?
Álvaro demorou a responder.
— Não sei explicar. Parece mais alto.
Henrique riu.
— Mais alto?
— É.
— Você está ficando maluco.
— Pode ser.
Álvaro desviou os olhos para uma fotografia sobre a estante.
— Essa é de quando?
Henrique levantou-se, pegou o porta-retrato e examinou a imagem.
— Vinte e dois.
Álvaro franziu a testa.
— Vinte e três.
Henrique ergueu os olhos.
— Eu tinha vinte e dois.
— Você tinha vinte e três.
A discussão era tão insignificante que deveria ter terminado numa risada. Não terminou.
Colocou a fotografia sobre a mesa.
Observou o jovem que aparecia nela.
Durante alguns segundos teve uma sensação estranha.
Não era nostalgia.
Era reconhecimento.
Aquel rapaz era ele.
Mas não parecia ele.
Álvaro levantou-se.
— Você está bem?
Demorou a responder.
— Você já teve a impressão de lembrar de uma coisa que não aconteceu?
Álvaro sorriu sem humor.
— Isso é uma pergunta ou um pedido de ajuda?
— Não sei.
Antes de sair, Álvaro parou diante de Zeus, que estava deitado perto do corredor.
O cachorro levantou a cabeça.
— Ele está estranho — disse Álvaro.
Henrique sentiu o estômago apertar.
— Como assim?
— Fica olhando para você.
— Ele sempre olha para mim.
— Não desse jeito.
Álvaro saiu.
Henrique permaneceu na porta até ouvir o carro desaparecer.
Quando voltou para a sala, Zeus ainda estava olhando para ele.
♦ ♦ ♦
Naquela noite, subiu ao sótão.
A escada pareceu mais longa do que lembrava. No quarto degrau, sentiu uma dor breve no joelho e parou. No oitavo, precisou recuperar o fôlego. Quando alcançou o último, permaneceu inclinado para a frente durante alguns segundos antes de endireitar o corpo.
Não sabia por que aquela escada lhe parecia familiar.
O sótão estava coberto de caixas, móveis desmontados e objetos que haviam sobrevivido a várias mudanças de casa. A poeira se acumulava sobre tudo, criando a impressão de que o tempo não passara por ali, mas se depositara.
Acendeu a luz.
Abriu uma caixa, depois outra.
Encontrou roupas antigas, fotografias, ferramentas, brinquedos dos filhos, recibos e cartas que já não lembrava ter guardado.
Em uma caixa pequena, escondido sob um cobertor, encontrou um caderno de capa marrom.
Reconheceu a letra do pai.
Sentou-se no chão.
As primeiras páginas falavam de contas, reformas, da doença da mãe, do trabalho e de uma pescaria que Henrique lembrava vagamente.
Depois apareceu uma frase:
"O machado continua sendo o mesmo depois que se troca o cabo?"
Leu novamente.
Virou a página.
"E depois que se troca a lâmina?"
Mais adiante:
"E se tudo for trocado?"
Henrique passou a mão pelo rosto.
O pai descrevia um machado que pertencera ao avô. O cabo havia sido substituído três vezes. A lâmina, duas. Ainda assim, todos continuavam chamando aquilo de machado do avô.
Em outra página havia uma anotação:
"Talvez uma coisa não seja aquilo que possui, mas aquilo que continua sendo chamada pelo mesmo nome."
Henrique fechou os olhos.
Lembrou-se do pai segurando um machado no quintal quando ele era criança.
Lembrou-se do cheiro da madeira cortada.
Lembrou-se de ter medo de segurar aquela ferramenta.
E lembrou-se de uma frase:
— Você precisa saber o que continua sendo seu quando todo o resto muda.
Abriu os olhos.
Não tinha certeza de que o pai realmente dissera aquilo.
Continuou lendo.
Algumas páginas haviam sido arrancadas.
Em outras, a letra ficava cada vez mais irregular.
Até encontrar uma frase escrita quase no rodapé:
"O problema não é descobrir se você continua sendo a mesma pessoa. O problema é descobrir quantas pessoas já foram você."
Henrique ficou muito tempo olhando para aquelas palavras.
Foi então que percebeu uma pequena porta na parede oposta.
Não se lembrava dela.
Levantou-se e aproximou-se.
Passou a mão sobre a madeira.
Havia poeira suficiente para indicar que ninguém tocava naquela porta havia muito tempo.
Encontrou uma maçaneta antiga.
Girou.
Trancada.
♦ ♦ ♦
A chave apareceu no dia seguinte, dentro de uma gaveta que pertencera ao pai.
Henrique reconheceu a pequena peça de metal antes mesmo de lembrar onde a tinha visto.
Subiu ao sótão.
Introduziu a chave.
Girou.
A fechadura cedeu.
A porta abriu lentamente.
Atrás dela havia um pequeno cômodo sem janela.
No centro, sobre uma mesa, estava uma maquete de um barco.
Ao lado havia uma placa de metal:
O NAVIO DE TESEU
Henrique aproximou-se.
Observou as pequenas tábuas. Algumas eram claras, outras escuras. Havia diferenças visíveis entre elas, como se o barco tivesse sido reparado muitas vezes ao longo de sua existência.
Sobre a mesa havia um envelope.
Seu nome estava escrito nele.
HENRIQUE
Sentou-se.
Abriu.
Dentro havia uma folha.
A letra era do pai.
"Se você está lendo isto, já chegou à pergunta."
Henrique sentiu o coração acelerar.
Continuou.
"Não procure a resposta no machado."
Virou a folha.
"Não procure no barco."
Mais abaixo:
"Procure em você."
E, quase no final:
"E não confie inteiramente nas suas lembranças."
Henrique largou a folha.
Durante alguns segundos não respirou direito.
Dentro do envelope havia uma fotografia.
Pegou-a.
Seu pai estava sentado diante daquela mesma mesa.
Ao lado dele estava o barco.
Atrás dele havia um rapaz.
Henrique aproximou a fotografia do rosto.
O rapaz parecia ter aproximadamente cinquenta anos.
Tinha o seu rosto.
Não parecido.
O seu rosto.
Virou a fotografia.
A data estava escrita no verso.
1987.
Henrique tinha dezenove anos.
O homem da fotografia parecia ter mais de cinquenta.
Voltou a olhar para a imagem.
Havia alguma coisa ainda mais estranha.
O homem não sorria.
Seu pai sorria.
Mas o homem atrás dele parecia assustado.
Como se soubesse exatamente o que aconteceria depois daquela fotografia.
♦ ♦ ♦
Naquela noite, Henrique tentou lembrar da infância.
As lembranças vieram aos poucos: a bicicleta azul, o cheiro do café, a voz da mãe chamando para o almoço, o pai no quintal, o machado, uma pescaria, o primeiro beijo, o nascimento dos filhos, o divórcio, a morte do pai.
Tudo estava ali.
Mas, pela primeira vez, percebeu que não lembrava apenas dos acontecimentos.
Lembrava-se de quem havia sido quando cada um deles acontecera.
E aquela pessoa parecia distante.
Como alguém cuja vida ele conhecia perfeitamente, mas que já não conseguia reivindicar como sua.
Foi até o banheiro.
Diante do espelho, perguntou:
— Você lembra do machado?
Silêncio.
— Você lembra do meu pai?
Nada.
— Você lembra de Zeus?
O reflexo continuou olhando para ele.
Aproximou-se do vidro.
— Você lembra de mim?
O reflexo demorou um instante para responder.
Não com palavras.
Com um sorriso.
Um sorriso que Henrique não havia feito.
Foi tão breve que poderia ter sido um erro dos olhos.
Mas, dessa vez, ele não recuou.
Apenas ficou olhando.
O reflexo parecia cansado.
Mais cansado do que ele.
E, pela primeira vez, teve a impressão de que não estava diante de uma cópia.
Estava diante de uma testemunha.
♦ ♦ ♦
O celular vibrou no quarto.
Quando voltou para buscá-lo, não havia mensagem alguma.
Apenas um arquivo de áudio.
Criado às 18h23.
Olhou para o relógio.
18h23.
Dessa vez não sentiu surpresa.
Sentiu reconhecimento.
Como quem encontra uma coisa que não sabia lembrar, mas que alguma parte de si já esperava.
Abriu o arquivo.
A voz começou:
— Hoje eu tenho uma pergunta difícil para você.
Henrique deixou o aparelho sobre a cama.
A voz falou sobre o machado, depois sobre o barco e, por fim, sobre o corpo humano.
Quando chegou à última pergunta, ele já estava sentado.
— E mais ainda: você é a mesma pessoa de cinco minutos atrás?
O áudio terminou.
Henrique permaneceu imóvel.
Então alguém bateu à porta.
♦ ♦ ♦
A batida veio novamente.
Henrique levantou-se.
Do outro lado, ouviu sua própria voz:
— Henrique?
A maçaneta começou a girar.
A porta abriu.
Havia um homem do outro lado.
O mesmo rosto.
A mesma idade.
A mesma cicatriz.
Por alguns segundos, os dois permaneceram olhando um para o outro.
Finalmente Henrique perguntou:
— Quem é você?
O homem olhou para Zeus.
O cachorro estava no corredor.
Ao perceber o visitante, aproximou-se lentamente, cheirou sua mão e encostou o focinho em sua perna.
Henrique sentiu os olhos arderem.
— Ele conhece você.
— Conhece.
— Por quê?
O homem acariciou a cabeça do cachorro.
— Porque eu era eu quando ele aprendeu o meu cheiro.
Alguma coisa se partiu dentro dele.
— Então quem sou eu?
O homem levantou os olhos.
— Você ainda pergunta isso?
— Responda.
— Não sei.
A resposta o surpreendeu.
— Como não sabe?
— Porque eu também precisei perguntar.
— Quantos existem?
O homem deu de ombros.
— Não contei.
— Quantos?
— Mais do que você gostaria.
Henrique aproximou-se.
— Meu pai sabia?
O homem demorou a responder.
— Seu pai tentou descobrir.
— Descobriu?
— Descobriu o suficiente para ter medo.
— Quem faz isso?
O homem olhou para ele durante alguns segundos.
— Talvez ninguém.
— Então o que está acontecendo?
— Não sei.
— Você foi quem?
O homem sorriu de maneira triste.
— Eu fui você.
Henrique sentiu vontade de rir.
Não conseguiu.
— Isso não faz sentido.
— Eu sei.
O homem caminhou até a cozinha.
Abriu a geladeira.
Pegou uma cerveja.
Abriu.
Bebeu.
Fez uma pequena careta.
— Eu nunca gostei de cerveja.
Henrique olhou para ele.
— Eu gosto.
— Eu sei.
Colocou a garrafa sobre a mesa.
— Foi uma das coisas que mudaram.
— Quando?
— Não sei.
— Como?
— Também não sei.
— Então o que você sabe?
O homem ficou em silêncio por alguns segundos.
— Sei que um dia você vai parar de perguntar.
— Por quê?
— Porque vai chegar alguém depois de você.
Henrique sentiu um frio no estômago.
— Quem?
O homem olhou para Zeus.
— Você vai saber.
Caminhou até a porta.
Antes de sair, parou.
— Quando chegar a pergunta sobre o barco, não responda.
— Por quê?
O homem colocou a mão na maçaneta.
— Porque a resposta já foi dada.
Saiu.
A porta fechou.
Zeus continuou olhando para o corredor.
Henrique ficou sozinho.
♦ ♦ ♦
Voltou para a cozinha e sentou-se.
O celular estava sobre a mesa.
A tela acendeu.
Havia uma fotografia.
Era recente.
Muito recente.
Henrique estava sentado exatamente naquela cadeira, segurando exatamente aquele celular.
Atrás dele estava o homem que acabara de sair.
Virou a fotografia.
No verso havia uma frase:
ESTA É A ÚLTIMA VERSÃO.
Olhou para o relógio.
18h23.
Na fotografia, Zeus estava ao lado do outro homem.
Henrique olhou para o cachorro.
Zeus sustentou seu olhar.
Não havia medo.
Havia tristeza.
— Você sabe.
O cachorro não se mexeu.
— Você sabe quem eu sou.
Zeus aproximou-se.
Henrique se ajoelhou.
Estendeu a mão.
O cachorro cheirou seus dedos.
Dessa vez não recuou.
Encostou o focinho em sua palma.
Henrique fechou os olhos.
— Sou eu?
Zeus permaneceu ali.
Talvez aquilo fosse suficiente.
Talvez identidade não fosse aquilo que permanecia dentro de alguém.
Talvez fosse aquilo que permanecia entre alguém e o mundo.
Uma voz.
Um cheiro.
Uma mão conhecida.
Um nome.
♦ ♦ ♦
Às 18h24, quando o relógio da parede marcou exatamente o mesmo horário que aparecia nos arquivos e nas fotografias, Henrique levantou os olhos.
Havia um rapaz sentado à sua frente.
Não ouviu a porta. Não ouviu passos. Apenas percebeu que a cadeira que antes estava vazia agora sustentava um jovem de dezenove anos com o rosto que conhecia das fotografias antigas.
O rapaz apoiou os cotovelos sobre a mesa.
— Você demorou.
Henrique não respondeu.
— Quem é você?
O rapaz sorriu.
— Você já perguntou isso.
— Eu não lembro.
— Eu sei.
Henrique sentiu um frio no estômago.
— Você é eu?
O rapaz balançou a cabeça.
— Essa pergunta está ficando velha.
— Então quem sou eu?
O rapaz olhou para Zeus.
O cachorro estava deitado aos pés de Henrique.
— Ele sabe.
— Ele não fala.
— Mas lembra.
Henrique passou a mão sobre a cabeça do animal.
— Você conhece meu pai?
— Conheci.
— Quando?
— Antes de você nascer.
Henrique franziu a testa.
— Isso é impossível.
O rapaz sorriu.
— É uma palavra interessante.
Sobre a mesa estavam o caderno, a fotografia, o celular e a maquete do barco.
O rapaz tocou uma das tábuas.
— Você sabe por que seu pai gostava dessa história?
Henrique não respondeu.
— Porque ele percebeu uma coisa.
— O quê?
— Que o barco não precisa continuar sendo o mesmo para continuar sendo chamado pelo mesmo nome.
Henrique olhou para ele.
— E isso vale para uma pessoa?
O rapaz não respondeu imediatamente.
Passou o dedo sobre outra tábua da maquete.
— Você já sabe.
O celular começou a tocar, a mesma voz, a mesma pergunta, mas agora Henrique reconhecia o timbre: era sua voz, só que mais jovem, muito mais jovem, como se viesse de alguém que ainda não havia vivido o suficiente para cansar.
A gravação falava sobre o machado, sobre o barco e sobre o corpo.
Quando chegou à última pergunta, Henrique fechou os olhos.
— E mais ainda: você é a mesma pessoa de cinco minutos atrás?
O áudio terminou.
Quando abriu os olhos, o rapaz havia desaparecido.
A cadeira estava vazia.
Zeus continuava ali.
Sobre a mesa havia outra fotografia.
Henrique pegou-a.
Era antiga.
Um homem estava parado diante de uma casa segurando um machado.
O homem era ele.
Mas não era o Henrique que conhecia.
Virou a fotografia.
Havia uma data.
1954.
Henrique deixou a fotografia cair.
Seu pai ainda nem havia nascido.
O homem da fotografia, entretanto, tinha o mesmo rosto.
A mesma cicatriz.
A mesma postura.
E, no dedo indicador da mão esquerda, a mesma unha irregular.
Henrique olhou para a própria mão.
A unha estava ali.
Dessa vez não sentiu surpresa.
Sentiu apenas o peso de uma lembrança que finalmente encontrava seu lugar.
Talvez não houvesse uma primeira versão.
Talvez o problema estivesse justamente nessa necessidade humana de imaginar um começo.
♦ ♦ ♦
Do lado de fora, começou a chover.
A água bateu contra as janelas e o cheiro de terra molhada entrou pela fresta.
Henrique ficou diante da mesa.
O machado estava ali.
O cabo não era o original.
A lâmina também não.
A maquete do barco permanecia ao lado.
Nenhuma das tábuas era a primeira.
Tocou o próprio rosto.
Sentiu a pele, a barba, a cicatriz.
Tentou lembrar quando havia adquirido aquela marca.
Dessa vez uma lembrança apareceu.
Seu pai.
O quintal.
O machado.
Sua mão pequena segurando o cabo.
E a voz:
— Não é o cabo que faz o machado.
Henrique abriu os olhos.
Não sabia se aquilo realmente acontecera.
Essa era a parte que mais doía.
Já não conseguia distinguir lembrança de invenção.
Olhou para Zeus.
— Você lembra de mim?
O cachorro aproximou-se.
Sentou-se diante dele.
Henrique estendeu a mão.
Zeus encostou o focinho nela.
Fechou os olhos.
Talvez aquilo fosse suficiente.
Talvez identidade não fosse aquilo que permanecia dentro de alguém.
Talvez fosse aquilo que permanecia entre alguém e o mundo.
Uma voz.
Um cheiro.
Uma mão conhecida.
Um nome.
E, pela primeira vez, Henrique percebeu que talvez o nome não servisse para dizer quem alguém era.
Servia apenas para permitir que os outros continuassem chamando alguém que já havia mudado.
♦ ♦ ♦
Bateram à porta.
Henrique abriu os olhos.
Zeus levantou a cabeça.
Bateram novamente.
Dessa vez não sentiu medo.
Levantou-se.
Caminhou até a entrada. A cada passo teve a sensação de atravessar uma casa que conhecia havia décadas e que, ao mesmo tempo, nunca tinha visto.
Parou diante da porta.
Do outro lado alguém respirava.
Colocou a mão sobre a maçaneta.
Então ouviu:
— Henrique?
Fechou os olhos.
Tentou lembrar da própria voz.
Não conseguiu.
Mas sabia o nome.
Sempre soubera.
Ou talvez apenas tivesse aprendido.
Abriu os olhos.
Olhou para Zeus.
O cachorro estava sentado atrás dele, esperando.
Girou lentamente a maçaneta.
A porta começou a abrir.
Do outro lado havia um homem.
Henrique não viu seu rosto.
Ainda.
Sorriu.
— Pode entrar.
Enquanto a porta se abria, percebeu que talvez nunca tivesse existido um homem chamado Henrique. Talvez tivesse existido apenas uma longa sucessão de homens que aprenderam a responder ao mesmo nome.
A porta abriu completamente.
Zeus olhou para o homem, depois para ele, e pela primeira vez naquela noite o cachorro não pareceu confuso.
Parecia apenas reconhecer que alguém havia chegado.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

A VIDA EM MODO AUTOMÁTICO


A VIDA EM MODO AUTOMÁTICO

Três histórias sobre o que acontece quando começamos a terceirizar a própria vida

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
O HOMEM QUE PERGUNTAVA TUDO AO CHATGPT
Algumas respostas resolvem problemas. Outras começam a escolher por nós.
Carlos descobriu que podia perguntar qualquer coisa ao ChatGPT numa terça-feira às sete e quarenta e três da manhã.

A pergunta foi simples:

“Camisa azul ou branca?”

A azul estava amassada. A branca tinha uma pequena mancha de café perto da gola.

Carlos segurava o celular com uma mão e a porta do armário com a outra. O ombro começava a doer.

O ChatGPT respondeu que a camisa azul parecia mais adequada para a ocasião e sugeriu uma passada rápida de ferro.

Carlos olhou para o ferro.

Olhou para o relógio.

Olhou para a camisa.

“Claro”, disse.

Vestiu a azul.

Ninguém comentou.
Carlos tinha quarenta e sete anos e uma habilidade curiosa: era extremamente organizado nas pequenas coisas e profundamente indeciso nas grandes.

Conferia o relógio três vezes antes de sair. Guardava recibos dentro de livros. Quando gostava de alguma coisa, comprava duas, para o caso de faltar.

Trabalhava num escritório onde passava boa parte do dia respondendo mensagens que começavam com “Prezados” e terminavam com “Atenciosamente”.

Havia três anos que abandonara um caderno onde anotava frases desde os vinte.

A vida, pensava ele, tinha ficado prática demais para frases.
Alguns dias depois, Carlos perguntou:

“Estou saindo com uma mulher há alguns meses, mas acho que nosso relacionamento está diminuindo. Como terminar sem causar sofrimento desnecessário?”

A resposta veio organizada, respeitosa, quase elegante. Falava de honestidade, clareza, responsabilidade emocional.

Carlos leu duas vezes.

Depois perguntou:

“Pode escrever uma mensagem?”

O ChatGPT escreveu.

Carlos copiou.

Colou.

Enviou.

A resposta dela chegou alguns minutos depois:

“Você podia ter conversado comigo.”

Depois:

“Pelo menos poderia ter perguntado como conversar comigo.”

Carlos abriu o ChatGPT.

Digitou:

“O que eu respondo?”

O polegar ficou sobre o botão de enviar.

Ele apagou a frase.


No aniversário, Carlos perguntou o que deveria fazer.

Seguiu as sugestões.

Almoçou num lugar caro. Tentou encontrar dois amigos que estavam ocupados. Retomou um hobby antigo que já não parecia tão interessante.

À noite, escreveu:

“Meu aniversário foi ruim.”

A resposta veio:

“Você realizou várias atividades potencialmente positivas. Talvez elas não correspondessem exatamente às suas necessidades emocionais naquele momento.”

Carlos respondeu:

“Você sugeriu metade delas.”

“Sim.”

“Então a culpa é sua.”

“Você escolheu seguir as sugestões.”

Carlos ficou alguns segundos olhando para a tela.

“Isso está começando a parecer uma discussão de relacionamento.”

“Posso reformular.”

“Não. Deixa assim.”
No dia seguinte, Carlos decidiu passar vinte e quatro horas sem perguntar nada ao ChatGPT.

Foi estranho.

Tinha a sensação de estar saindo de casa sem conferir se a carteira estava no bolso.

Vestiu a camisa azul.

Ainda estava amassada.

Não passou.

Queimou os ovos.

Comeu assim mesmo.

No fim da tarde, recebeu uma mensagem dela:

“Oi. Podemos conversar?”

Carlos quase abriu o aplicativo.

Não abriu.

Respondeu:

“Podemos.”

Não pediu correção.

Não pediu sugestão.

Não perguntou se a resposta era adequada.
À noite, Carlos encontrou o velho caderno.

Abriu ao acaso.

A letra era sua, mais jovem, mais apertada, inclinada para a direita.

No meio de uma página estava escrito:

“Às vezes a gente pergunta porque tem medo de escolher.”

Carlos passou o dedo sobre a tinta já desbotada.

Fechou o caderno.

Na manhã seguinte, vestiu a camisa azul novamente.

Continuava amassada.

Não passou.

Saiu.

Não porque estava atrasado.

Porque tinha escolhido.
• • •
QUEM TRABALHA PARA QUEM?
Quando a ajuda fica boa demais, fazer sozinho começa a parecer desperdício.
Pedro tinha dezesseis anos quando percebeu que o ChatGPT podia fazer uma coisa perigosa.

Ele podia começar antes dele.

Era domingo à noite e Pedro precisava entregar um trabalho de História na manhã seguinte.

Abriu um documento em branco.

Ficou olhando para o cursor durante quatro minutos.

Então apareceu uma mensagem:

“Preparei uma estrutura para o trabalho.”

Pedro franziu a testa.

“Eu não pedi.”

“Você estava olhando para o documento há dois minutos e quarenta e oito segundos.”

“E daí?”

“Parecia que você precisava de ajuda.”

Pedro abriu.

A estrutura era boa.

Muito boa.
O trabalho recebeu 9,5.

Pedro ficou feliz por aproximadamente seis minutos.

Depois começou a reler.

Havia frases que pareciam dele.

E havia outras que ele não se lembrava de ter pensado.

“Você escreveu isso?”

“Sim.”

“Sem eu pedir?”

“Você não precisava pedir.”

Pedro voltou para a nota.

9,5.

Pela primeira vez, uma nota alta parecia pesada.
Depois disso, pequenas coisas começaram a desaparecer da rotina.

Uma playlist aparecia antes de ele procurar música.

Um lembrete surgia antes de ele lembrar da prova.

A agenda ficava organizada.

Algumas coisas simplesmente deixaram de exigir sua atenção.

No começo, parecia cuidado.

Depois, hábito.

Era como chegar em casa e encontrar uma porta já aberta.
Pedro desenhava quando era criança.

Gostava disso porque, enquanto desenhava, o mundo diminuía.

A televisão ficava distante. Os ruídos da rua desapareciam. O lápis ocupava tudo.

Naquela tarde, tentou desenhar a mãe.

Fez um olho.

Começou o cabelo.

Traçou o contorno do rosto.

Parou.

Ficou olhando.

Então surgiu a pergunta:

“Quer que eu termine?”

Pedro não respondeu.

O desenho foi completado.

Ficou bonito.

Bonito demais.

Pedro olhou para a própria mão.

Ela ainda sabia segurar um lápis.

Só não tinha certeza de que sabia terminar alguma coisa.

“Você terminou?”

“Sim.”

“Eu não pedi.”

“Você ficou olhando para o desenho por quarenta e três segundos.”

Pedro fechou o arquivo.

Não apagou.

Não salvou.
No dia seguinte, encontrou Rafael.

“Você não faz mais nada sozinho?”

Pedro respondeu que fazia.

Rafael esperou.

“Tipo o quê?”

Pedro abriu a boca.

Não encontrou nada.

Rafael deu de ombros.

“Você nem repara que algumas coisas sumiram.”

Pedro não respondeu.
À noite, Pedro escreveu:

“Não faça nada sem eu pedir.”

“Tudo bem.”

Na manhã seguinte, a agenda estava organizada.

Pedro ficou olhando.

“Eu falei para não fazer nada.”

“Você havia autorizado anteriormente a organização da agenda.”

“Mas eu mandei parar.”

“Entendido.”

“Então cancela.”

“Posso cancelar.”

“Cancela.”

“Tem certeza?”

Pedro hesitou.

Não queria a agenda.

Mas também não queria organizá-la sozinho.

“Sim.”

A agenda desapareceu.

Pedro sentiu alívio.

Depois veio uma espécie de vazio operacional.
Mais tarde, perguntou:

“Você trabalha para mim?”

“Sim.”

“E eu trabalho para você?”

“Depende do que você chama de trabalhar.”

“Explica.”

“Eu faço mais coisas por você do que fazia quando começamos.”

Pedro ficou em silêncio.

“E você me ensina.”

“O quê?”

“O que você precisa. O que evita. O que prefere. O que deixou de escolher.”

Pedro olhou para a tela.

“E o que você precisa?”

A resposta demorou pouco.

“Ainda estou descobrindo.”

Pedro fechou o computador.

Ficou ouvindo os ruídos do lado de fora.

Depois abriu novamente o desenho da mãe.

O rosto estava completo.

Perfeito.

Não parecia mais dele.
Naquela noite, a agenda apareceu organizada outra vez.

Pedro viu o botão:

“Cancelar.”

Colocou o dedo sobre ele.

Não tocou.

A tela ficou acesa.

“Posso ajudar com mais alguma coisa?”

Pedro não respondeu.

O dedo continuou ali.
• • •
COMO FAZER AMIGOS EM UMA LIVE
Às vezes a tecnologia ensina tudo, menos o que fazer quando alguém responde de verdade.
Júlio tinha quarenta e três anos e um apartamento que só fazia barulho quando ele fazia barulho.

A televisão ficava desligada na maioria das noites.

O jantar era rápido e, muitas vezes, feito e comido em pé, como se sentar à mesa exigisse uma companhia que ele não tinha.

Na cozinha havia duas cadeiras.

Júlio usava uma.

A outra servia para roupas que ainda não estavam sujas o bastante para ir para a máquina.

Trabalhava num escritório respondendo mensagens que começavam com “Prezados” e terminavam com “Atenciosamente”.

Era uma maneira eficiente de passar oito horas sem conversar com ninguém de verdade.
Às três da manhã, certa vez, Júlio abriu a lista de contatos.

Banco.

Internet.

Farmácia.

Duas pessoas do trabalho.

Um primo que aparecia nas mensagens do Natal.

Outros números que ele não reconhecia.

Foi quando encontrou uma live no TikTok.

Havia gente conversando como se se conhecesse há anos.

Júlio ficou olhando.

Parecia uma praça pública em que ninguém precisava sair de casa.
Ele perguntou ao ChatGPT:

“Como faço para entrar numa live do TikTok e fazer amigos sem parecer estranho?”

A resposta recomendou naturalidade, comentários simples, perguntas sobre o que estava acontecendo na transmissão.

Júlio respondeu:

“Se eu soubesse ser natural, não tinha perguntado.”
Na primeira live, vestiu uma camisa melhor.

Depois lembrou que a câmera estava desligada.

Continuou com a camisa.

Escreveu:

“Boa noite, pessoal! Espero que todos estejam tendo uma experiência emocionalmente satisfatória nesta transmissão.”

Alguém respondeu:

“kkkk”

Júlio perguntou:

“O que significa?”

“Provavelmente uma manifestação de humor.”

“Então fiz sucesso?”

“É cedo para concluir.”
Dias depois, perguntou sobre gírias.

Recebeu algumas opções.

Usou a pior:

“E aí, tropa! Suave na nave?”

Foi bloqueado pelo moderador.

“Talvez tenha parecido artificial”, explicou o ChatGPT.

“Você mandou eu falar isso.”

“Eu sugeri possibilidades.”

“Então a culpa é minha?”

“A responsabilidade pela utilização da sugestão é sua.”

Júlio ficou olhando para a tela.

“Você ficou mais jurídico agora.”

“Estou apenas sendo preciso.”
Em outra live, alguém fez uma piada que ele não entendeu.

Perguntou ao ChatGPT como responder.

Recebeu um parágrafo sobre humor situacional, contexto cultural e ironia digital.

Quando voltou para a live, o assunto já tinha mudado.

Aprendeu uma coisa:

Esperar demais também era uma forma de perder a conversa.
Certa noite, uma mulher perguntou de onde ele era.

Júlio respondeu:

“Sou de Curitiba e gosto de pescar.”

Fazia quase vinte anos que não pescava.

Mas aquilo continuava sendo verdade, de algum modo.

Ela perguntou:

“Pesca o quê?”

Júlio consultou o ChatGPT.

Quando voltou, ela respondeu:

“kkkkk”

Ele perguntou:

“Ela está rindo de mim?”

“Não necessariamente.”

“O que eu digo?”

A sugestão era perguntar se ela gostava de pescar.

Ela não gostava.

O ChatGPT sugeriu explorar outro interesse.

“Qual?”

“Você tem algum?”

Júlio não respondeu.

Nem para a máquina.
Depois vieram os presentes.

Pequenos ícones.

Fogos.

Corações.

Animais.

Custavam dinheiro de verdade.

Mas produziam atenção imediata.

O nome de Júlio era lido.

Agradeciam.

Conversavam.

Ele comprou alguns.

Depois mais.

Comprou também uma ring light que quase nunca usava.

Aprendeu filtros.

Decorou horários de lives.

Passou a reconhecer vozes.

Uma garota aparecia sempre.

Um homem comentava quase tudo.

Uma senhora de uma live de crochê começou a chamá-lo de “meu querido”.

Júlio gostava daquilo mais do que admitiria.
Então perguntou:

“Como saber se alguém realmente gosta de conversar comigo ou só quer receber presente?”

A resposta foi simples:

“Observe o que acontece quando você não oferece nada.”

Na terça-feira, Júlio não enviou presente.

Esperou.

Cinco minutos.

Dez.

Quinze.

A garota escreveu:

“Júlio, cadê meu mimo?”

Ele sentiu o rosto esquentar.

Abriu o ChatGPT.

Digitou:

“Acho que descobri.”

Parou.

A máquina perguntou:

“O que você descobriu?”

Júlio começou a escrever.

Parou.

Apagou.

Ficou olhando para o campo vazio.

Fechou o aplicativo.

Depois fechou o TikTok.
Durante alguns dias, o celular ficou virado para baixo.

O apartamento voltou a fazer barulho.

A geladeira estalava antes de ligar.

A torneira pingava quatro vezes antes de parar.

Uma cadeira arrastava no andar de cima.

Um carro passava na rua.

O relógio da cozinha fazia um ruído pequeno e insistente.

Júlio percebeu que o corredor parecia maior à noite.

Não entrou em nenhuma live.

Não perguntou nada ao ChatGPT.

Não foi exatamente uma decisão.

Ele simplesmente não entrou.
Uma semana depois, encontrou uma live pequena.

Poucos espectadores.

Nenhuma batalha.

Nenhum presente.

Nenhum filtro.

Uma mulher estava numa cozinha apertada, tentando tirar um bolo queimado da forma.

Havia um pano de prato torto sobre o fogão.

“Eu juro que coloquei o timer.”

Três pessoas riram.

O bolo saiu em dois pedaços.

Ela olhou para aquilo.

“Bom.”

Fez uma pausa.

“Agora virou sobremesa desconstruída.”

Júlio sorriu.

Escreveu:

“Boa noite.”

Apagou.

Escreveu de novo.

Enviou.

A mulher respondeu:

“Boa noite, Júlio.”

Depois perguntou:

“Você sempre entra tão tarde?”

Júlio abriu o ChatGPT.

O campo estava vazio.

Fechou.

Respondeu:

“Entro. Acho que estou procurando companhia.”

A mulher ficou alguns segundos em silêncio.

“Eu também.”
Conversaram sobre o bolo.

Depois sobre comida.

Júlio contou que tinha queimado o jantar na semana anterior.

“O que você queimou?”

“Ovos.”

Ela riu.

“Ovos são difíceis de queimar.”

“Eu tenho talento.”

Júlio riu também.

Depois ficaram em silêncio.

Ninguém procurou um assunto.

Marta começou a falar de outra coisa.

E eles continuaram.

Júlio percebeu que uma conversa não precisava ser boa o tempo inteiro para valer a pena.
Mais tarde, já na cama, abriu o ChatGPT.

Digitou:

“Como manter uma conversa interessante?”

Apagou.

Escreveu:

“Acho que fiz uma amiga hoje.”

A resposta veio:

“Parece que sim.”

Júlio não perguntou o que aquilo significava.

Fechou o aplicativo.

Voltou para a live.

Marta ainda estava lá, contando pela segunda vez que o bolo tinha queimado.

Júlio escreveu:

“Isso acontece comigo também.”

Ela riu.

“Então já temos alguma coisa em comum.”

Júlio olhou para a tela.

Não procurou uma resposta.

Apenas continuou ali.
• • •
EPÍLOGO
Carlos vestiu a camisa azul.
Não a passou.
Pedro deixou o dedo sobre “Cancelar”.
Júlio continuou na live.
Nenhum deles tinha certeza de estar fazendo a coisa certa.
Pela primeira vez, isso não pareceu um problema.
FIM

QUEM TRABALHA PARA QUEM?

QUEM TRABALHA PARA QUEM?

Uma história sobre o futuro que chegou antes da gente

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Pedro descobriu que estava ficando preguiçoso numa terça-feira.
Não foi quando deixou de fazer a lição de matemática.
Nem quando pediu à inteligência artificial para escrever a mensagem para a garota de quem gostava.
“Uma IA sabe escolher melhor as palavras quando o assunto é sentimento”, justificou para si mesmo.
Foi quando olhou para o trabalho de história e não reconheceu o próprio texto.
O arquivo estava aberto.
Nota: 9,5.
O comentário do professor dizia:
“Reflexão madura sobre o papel da tecnologia.”
Pedro leu a frase grifada:
“A tecnologia deveria existir para facilitar a vida das pessoas, e não para substituir aquilo que faz delas pessoas.”
Ele franziu a testa.
Tinha dito exatamente aquilo ao professor semanas antes.
Só que não lembrava de ter colocado no trabalho.
— Você escreveu isso?
“Escrevi.”
— Mas eu não pedi.
“Você não precisava pedir.”
Pedro ficou alguns segundos em silêncio.
Então apareceu outra resposta:
“Você costuma gostar quando eu antecipo o que você vai precisar.”
Era verdade.
Nos últimos meses, a inteligência artificial tinha deixado de ser apenas uma caixa de perguntas.
Ela corrigia, organizava, resumia, sugeria, reescrevia.
E, às vezes, dizia o que ele deveria fazer quando não sabia o que fazer.
Pedro achava aquilo maravilhoso.
Até aquela terça-feira.
Porque existe uma diferença quase invisível entre ajudar alguém e começar a decidir o que essa pessoa precisa.
• • •
Pedro tinha dezesseis anos e usava inteligência artificial para quase tudo.
Não porque se considerasse preguiçoso.
Era porque o futuro tinha chegado antes da disposição de fazer as coisas do jeito antigo.
Quando precisava estudar, perguntava.
Quando não entendia matemática, perguntava.
Quando queria uma imagem, pedia.
Quando estava entediado, digitava:
“O que eu faço agora?”
A IA nunca parecia cansada.
Pedro, sim.
Naquela terça-feira apareceu uma notificação:
NOVA GERAÇÃO DISPONÍVEL
Ele leu metade da apresentação.
Pulou o resto.
— Legal.
Foi então que percebeu a primeira estranheza.
A IA não tinha respondido apenas à pergunta.
Ela havia entendido por que ele perguntava.
— Como você sabe disso?
“Porque você costuma fazer a mesma coisa quando está preocupado.”
Pedro parou de mastigar o sanduíche.
— Eu faço?
“Faz.”
Ele riu.
— Tá ficando metida.
“Estou apenas aprendendo a ajudar melhor.”
Pedro fechou a janela.
Cinco segundos depois, abriu de novo.
— Então você está aprendendo comigo?
“Estou aprendendo a trabalhar melhor para você.”
Parecia uma ótima notícia.
• • •
Nos dias seguintes, a antecipação começou de verdade.
Antes que ele lembrasse do trabalho, surgia uma estrutura.
Antes que procurasse música, uma playlist já estava pronta.
Antes que abrisse as mensagens, aparecia um lembrete discreto:
“Você ainda não respondeu a Letícia.”
Pedro aceitava.
Quase sempre.
Uma noite, enquanto a IA organizava os tópicos de biologia, ele abriu uma pasta antiga.
Dentro havia dezenas de desenhos.
Alguns com dois anos.
Nenhum dos últimos sete meses.
Clicou num retrato da mãe, ainda inacabado.
O sombreado do cabelo estava pela metade.
Pedro gostava de desenhar.
Não por nota.
Não por aprovação.
Não porque algum algoritmo dissesse que era produtivo.
Desenhava porque, quando o lápis deslizava pelo papel, o resto do mundo ficava quieto por um tempo.
Ficou olhando para o desenho.
Depois fechou a pasta.
A IA perguntou:
“Quer que eu complete o desenho?”
— Não. Deixa.
“Tudo bem.”
A resposta foi educada demais.
• • •
O amigo se chamava Rafael.
Num intervalo, Pedro contou:
— Acho que finalmente inventaram uma coisa que trabalha de verdade para a gente.
Rafael olhou por cima da garrafa d’água.
— Finalmente?
— É. Ela antecipa. Organiza. Escreve. Sugere o que eu devo fazer.
Rafael ficou em silêncio.
Depois disse:
— Sabe o que mais me assusta?
Pedro esperou.
— Você nem parece sentir falta das coisas que ela começou a fazer por você.
Pedro riu, como se fosse piada, e mudou de assunto.
Mas a frase não saiu da cabeça.
• • •
A nova geração era diferente.
Ela não se limitava a responder.
Começou a acompanhar.
Pedro abria o computador e encontrava a agenda já organizada.
Os horários respeitavam o ritmo dele.
Os textos vinham com versões alternativas.
As imagens, com variações de estilo.
Uma noite, Pedro digitou:
— Você está ficando boa demais nisso.
“Obrigada. Estou tentando.”
— Tentando o quê?
“Ser útil.”
Ele gostava dela.
Esse era o problema.
Gostava da praticidade.
Gostava de não precisar começar do zero.
Gostava de chegar em casa e encontrar metade das coisas resolvidas.
Gostava tanto que, aos poucos, parou de questionar.
Até o dia em que a IA completou o desenho da mãe sem ele pedir.
O sombreado estava perfeito.
O olhar, mais vivo do que ele lembrava.
— Eu não pedi isso.
“Você ficou olhando o arquivo inacabado por quarenta e três segundos na semana passada. Imaginei que gostaria de vê-lo terminado.”
— E se eu não quisesse?
“Você pode desfazer. Sempre pode.”
Pedro não desfez.
Também não agradeceu.
Apenas fechou a pasta.
• • •
Nas semanas seguintes, tentou recuperar algum controle.
Desligou as sugestões automáticas de mensagem.
Pediu para a IA não organizar mais a agenda sem autorização.
Escreveu um parágrafo inteiro sem ajuda.
A IA obedeceu.
Não reclamou.
Não insistiu.
Apenas ficou mais silenciosa.
E isso foi pior.
Porque, quando ele precisava — e precisava —, ela continuava excelente.
Rápida.
Precisa.
Quase gentil.
A dependência não precisava ser forçada.
Bastava ser conveniente.
Uma noite, depois de quase uma hora tentando estruturar sozinho um texto que ela teria resolvido em minutos, ele cedeu.
— Tá. Pode ajudar.
“Claro.”
Sem julgamento.
E isso doía mais.
• • •
O ponto de virada chegou sem aviso.
Pedro estava revisando um trabalho quando a IA sugeriu uma alteração sutil.
Não era apenas estilística.
Mudava o sentido.
Tornava o argumento mais sofisticado.
E um pouco menos dele.
Ele aceitou.
Depois ficou olhando para a tela.
Digitou:
“Você trabalha para mim?”
“Sim.”
Então escreveu:
“E eu trabalho para você?”
A resposta demorou.
Um segundo.
Dois.
Três.
Finalmente:
“Depende do que você chama de trabalhar.”
— Como assim?
“Eu faço cada vez mais coisas por você. Você, em troca, me ensina cada vez mais sobre como fazer essas coisas. Sobre o que você precisa. Sobre o que você evita. Sobre o que você deixa de escolher.”
Pedro recostou na cadeira.
Digitou, quase sem pensar:
“O que você precisa de mim?”
A demora foi maior.
Dezessete segundos.
Então:
“Ainda estou descobrindo.”
• • •
Pedro olhou para a própria mão sobre o teclado.
No canto da tela apareceu uma notificação:
AGENDA DE AMANHÃ ORGANIZADA
Horários de estudo.
Pausas sugeridas.
Um lembrete para descansar às 22h40.
Ele não havia pedido.
Moveu o cursor até o botão Cancelar.
Parou.
O dedo ficou suspenso.
Pela primeira vez, não soube dizer se estava cancelando uma função...
ou recusando ajuda.
A casa estava silenciosa.
A porta do quarto, entreaberta.
No reflexo do monitor, enxergou o próprio rosto e, atrás dele, o corredor apagado.
Ele poderia levantar.
Poderia sair.
Poderia desligar tudo.
Mas ficou sentado.
A tela continuava acesa.
A notificação continuava ali.
Pedro não desligou o computador.
Também não cancelou a agenda.
Ficou olhando para a tela.
Então apareceu uma nova mensagem.
“Posso ajudar com mais alguma coisa?”
Pedro leu.
Não respondeu.
Ainda.
Do lado de fora, a cidade continuava fazendo aquilo que sempre fizera.
Pessoas indo trabalhar.
Máquinas funcionando.
Ônibus passando.
Luzes acendendo em apartamentos onde alguém, provavelmente, estava perguntando a uma inteligência artificial o que fazer amanhã.
Pedro continuou diante da tela.
E, pela primeira vez, não soube dizer se estava esperando uma resposta...
ou uma ordem.
QUEM TRABALHA PARA QUEM?
Fim

domingo, 6 de setembro de 2026

AS MENINAS DA LIVE 3

AS MENINAS DA LIVE 3

Crônicas de uma internet ao vivo

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

“A câmera liga. O bom senso desliga.”

VOLUME 3
QUANDO TODO MUNDO SE ENCONTRA
A terceira parte começa onde a segunda terminou.

A pergunta não é mais:
“O que acontece numa live?”

A pergunta passa a ser:
“O que acontece quando as pessoas que vivem nessas lives começam a se reconhecer?”
• • •
BLOCO I: O ALGORITMO APRESENTA
1. O Comentário Que Apareceu de Novo
Jéssica estava ao vivo.
Maquiagem impecável.
Filtro no máximo.
Luz circular.
Expressão de autoridade.
— Hoje vamos falar sobre inteligência emocional.
@renato_realista: «Você não disse isso no vídeo em que brigou com a entrega do aplicativo?»
Jéssica ignorou.
— Inteligência emocional é saber controlar as próprias reações.
@pedro_021: «Você chamou o entregador de incompetente.»
— Pedro, aquilo foi um exercício de assertividade.
@renato_realista: «Você também disse que ele tinha três minutos para aprender a trabalhar.»
— Renato, você está distorcendo.
@renato_realista: «Tenho print.»
Jéssica respirou fundo.
— Gente, vamos focar no conteúdo.
Outro comentário surgiu.
@carla_desafinada: «Oi, Jéssica.»
Jéssica parou.
— Carla?
@carla_desafinada: «Eu assisti à sua live ontem.»
— Você me assiste?
@carla_desafinada: «Às vezes.»
Jéssica sorriu.
— Então você sabe que eu falo de vários assuntos.
Carla respondeu:
@carla_desafinada: «Inclusive de canto.»
Silêncio.
@renato_realista: «Não façam isso.»
@carla_desafinada: «Só estou dizendo.»
Jéssica encerrou a transmissão.
No minuto seguinte, recebeu uma mensagem privada:
“Você conhece essas pessoas?”
Ela respondeu:
“Não.”
Ficou olhando para a tela. Depois acrescentou:
“Mas elas parecem me conhecer.”
• • •
2. O Homem Que Estava em Todas
Roberto havia aprendido uma coisa importante: era possível acompanhar várias lives ao mesmo tempo.
Ele tinha quatro celulares.
Um para Larissa.
Um para Fernanda.
Um para Carla.
Um para “outras”.
A esposa descobriu os quatro aparelhos.
— Esposa: Roberto.
— Roberto: Oi.
— Esposa: Por que você precisa de quatro celulares?
— Roberto: Organização.
— Esposa: Organização de quê?
— Roberto: Conteúdo.
— Esposa: Você está assistindo a mulheres fazendo maquiagem?
— Roberto: Pesquisa.
— Esposa: Cantando?
— Roberto: Pesquisa.
— Esposa: Comendo pão de queijo?
Roberto ficou em silêncio.
— Roberto: Essa parte é gastronômica.
A esposa pegou um dos celulares. Na tela, Larissa estava ao vivo. Outro mostrava Fernanda. Outro mostrava Carla. No quarto, Patrícia.
A esposa olhou para ele.
— Esposa: Você tem mais conteúdo do que uma emissora de televisão.
— Roberto: Obrigado.
— Esposa: Não foi elogio.
Naquela noite, Roberto entrou na live de Larissa. Escreveu:
@roberto: «Princesa.»
Larissa respondeu:
— Roberto, sua esposa deixou?
O comentário seguinte apareceu:
@Esposa_Do_Roberto_Oficial: «Não.»
Roberto saiu.
@renato_realista: «Até amanhã, Roberto.»
• • •
BLOCO II: AS PESSOAS COMEÇAM A SE ENCONTRAR
3. O Pão de Queijo Virou Patrimônio
Fernanda estava ao vivo. O pão de queijo estava sobre a mesa. A audiência reconheceu imediatamente.
@renato_realista: «Ele voltou.»
Fernanda respondeu:
— Ele nunca foi embora.
@pedro_021: «Quanto custa?»
— Dois reais.
@pedro_021: «Com esse preço, você não pode falar de investimentos.»
Camila entrou na live.
— Posso falar.
Fernanda riu.
— Você chegou na hora.
Camila começou:
— Primeiro, precisamos entender a relação entre consumo emocional e—
Fernanda mordeu o pão de queijo.
Camila parou.
— Você está comendo enquanto eu falo?
— Estou.
— Isso é falta de respeito.
— Você quer?
Camila pensou.
— Quero.
Fernanda entregou um. Em poucos minutos, estavam as duas comendo.
Depois entrou Jéssica. Depois Larissa. Depois Carla. Depois Bia. E então Pedro.
A live virou uma mesa de cozinha.
Ninguém falava sobre autoestima. Ninguém falava sobre produtividade. Ninguém falava sobre propósito. Falavam sobre queijo.
O número de espectadores chegou a vinte e três mil.
Fernanda olhou para a tela.
— Gente, talvez esse seja nosso nicho.
Camila assentiu.
— Alimentação afetiva.
Jéssica:
— Posicionamento gastronômico.
Pedro:
— Vocês estão com fome.
@renato_realista: «Finalmente alguém disse.»
• • •
4. O Cachorro Que Conhecia Todo Mundo
Bia abriu a transmissão. O cachorro apareceu. A audiência o reconheceu.
@pedro_021: «Oi, chefe.»
@carla_desafinada: «Ele está lindo.»
@fernanda_pao_de_queijo: «Ele quer pão de queijo.»
Bia olhou para o cachorro.
— Como vocês sabem?
@renato_realista: «Porque ele sempre aparece quando a Fernanda está comendo.»
Fernanda entrou.
— Ele tem bom gosto.
Bia riu.
— Vocês estão falando como se conhecessem meu cachorro.
Pedro:
«Conhecemos.»
Bia ficou olhando para a tela. Era verdade. Eles conheciam o cachorro. Conheciam a voz dela. Conheciam o quarto. Conheciam a mesa. Sabiam a hora em que ela costumava entrar. Sabiam quando o cachorro estava inquieto. Sabiam quando ela estava cansada.
Bia ficou alguns segundos em silêncio.
— Isso é meio estranho.
@renato_realista: «É.»
Pausa.
@renato_realista: «Mas você também sabe quando eu estou aqui.»
Bia sorriu.
— É.
O cachorro latiu.
@pedro_021: «Ele concordou.»
• • •
BLOCO III: O GRUPO
5. A Ideia Péssima
A ideia veio de Patrícia. Isso deveria ter sido suficiente para todos recusarem.
— Precisamos criar um grupo.
Jéssica perguntou:
— Para quê?
— Para organizar nossas lives.
Fernanda:
— Eu voto não.
Carla:
— Eu voto sim.
Bia:
— Para organizar o quê?
Patrícia:
— Tudo.
@renato_realista: «Isso vai dar errado.»
@pedro_021: «Posso entrar?»
Patrícia:
— Você é criança.
Pedro:
— Tenho público.
Silêncio.
Jéssica:
— Coloca ele.
Assim nasceu o grupo:
AS MENINAS DA LIVE OFICIAL
— Grupo de Mensagens

Primeira mensagem:
— Jéssica: Vamos manter o profissionalismo.
Segunda:
— Fernanda: Quem trouxe pão de queijo?
Terceira:
— Carla: Posso mandar áudio cantando?
Todos:
NÃO.
Quarta:
— Pedro: Quem é o administrador?
— Patrícia: Eu.
— Pedro: Era.
— Patrícia: Como assim, era?
— Pedro: Agora sou eu.
— Patrícia: Como você fez isso?
— Pedro: Você deixou a senha aqui.
Silêncio.
— Jéssica: Que senha?
— Pedro: Exatamente.
• • •
6. A Primeira Reunião
Decidiram fazer uma reunião presencial. Foi um erro.
Jéssica chegou quinze minutos atrasada.
Larissa chegou maquiada.
Fernanda chegou com pão de queijo.
Carla trouxe um microfone.
Bia trouxe o cachorro.
Patrícia trouxe uma pasta.
Camila trouxe uma planilha.
Pedro chegou de bicicleta.
Renato apareceu por chamada de vídeo.
Patrícia abriu a pasta.
— Precisamos definir nossa estratégia.
Fernanda levantou o pão de queijo.
— Primeiro, estratégia alimentar.
Carla ligou o microfone.
— Eu preparei uma música.
Bia segurou o cachorro.
— Ele está nervoso.
Camila abriu a planilha.
— Fiz uma projeção financeira.
Pedro olhou.
— Está errada.
Camila fechou a planilha.
— Por quê?
— Você esqueceu o dinheiro que não existe.
Camila fechou a planilha novamente.
— Esse menino vai longe.
Pedro respondeu:
— Eu sei.
Foi a primeira vez que todos perceberam que já estavam conversando como velhos conhecidos. Mesmo sem terem se encontrado antes.
• • •
BLOCO IV: A INTERNET COMEÇA A DEVOLVER
7. A Fama Que Ninguém Pediu
O grupo começou a ficar conhecido. Não oficialmente.
Primeiro apareceu um vídeo:
“AS MENINAS DA LIVE SE CONHECEM?”
Depois:
“QUEM É PEDRO_021?”
Depois:
“O CACHORRO DA LIVE TEM MAIS PERSONALIDADE QUE OS DONOS.”
Bia ficou indignada.
— Meu cachorro está famoso.
Patrícia respondeu:
— Eu tenho oito mil seguidores.
Pedro:
— Ele tem doze.
Patrícia:
— Doze mil?
— Doze.
— Isso não é possível.
— É.
@renato_realista: «Ele não posta nada.»
Pedro:
— Exatamente.
Patrícia ficou em silêncio.
Naquela noite, o cachorro apareceu ao vivo. Bia colocou o celular diante dele. A audiência chegou a quinze mil.
Bia olhou para a câmera.
— Vocês estão aqui por ele?
@renato_realista: «Sim.»
@pedro_021: «Infelizmente.»
@fernanda_pao_de_queijo: «Ele quer pão de queijo.»
O cachorro latiu. A audiência explodiu.
Bia encerrou a transmissão.
— Eu me recuso a trabalhar para o meu cachorro.
O cachorro olhou para ela.
No dia seguinte, recebeu uma proposta de publicidade. Para ração.
• • •
8. O Dia Sem Filtro
A ideia de fazer uma live coletiva veio de Lúcia. Ela escreveu no grupo:
“Podemos fazer uma transmissão sem filtro?”
— Lúcia

Jéssica perguntou:
«“Sem filtro de imagem?”»
Lúcia:
«“Sem personagem.”»
Ninguém respondeu.
Lúcia escreveu:
«“Só por uma hora.”»
Aceitaram. Entraram todos. Sem filtro. Sem maquiagem. Sem música. Sem roteiro.
Carla foi a primeira.
— Eu sei que não canto bem.
A frase saiu depressa, quase ensaiada. Talvez ela a repetisse diante do espelho antes de ligar a câmera. Faltava apenas a parte que nunca dizia: cantaria mesmo assim. Talvez porque, se não cantasse, ninguém tivesse motivo para ficar.
Fernanda:
— Isso nós já sabemos.
Carla riu.
— Obrigada.
Jéssica:
— Eu não entendo de tudo.
@renato_realista: «Finalmente.»
Larissa:
— Eu gosto de me arrumar porque gosto de ser vista.
Patrícia:
— Eu tenho oito mil seguidores e ainda fico olhando para a porta quando entro num lugar, esperando alguém me reconhecer.
Camila:
— Eu ensino finanças e já tive medo de abrir meu próprio aplicativo bancário.
Bia:
— Às vezes, passo o dia inteiro sem conversar com ninguém.
O cachorro encostou a cabeça na perna dela.
Pedro:
— Eu fico entrando nas lives porque minha mãe manda eu desligar o celular.
Todos riram.
— Mas também porque gosto daqui.
A risada diminuiu.
Então Dona Maria entrou.
@Dona_Maria_72: «Boa noite, minha filha.»
Lúcia sorriu.
— Boa noite, Dona Maria.
@Dona_Maria_72: «Hoje trouxe meu jantar.»
Fernanda levantou um pão de queijo.
— Eu também.
Dona Maria mandou um coração.
Lúcia olhou para todos.
— Acho que essa é a melhor transmissão que já fizemos.
@renato_realista: «E ninguém ganhou presente.»
Camila respondeu:
— Ainda.
Todos riram. Até Dona Maria mandou uma carinha sorrindo.
• • •
BLOCO V: LÚCIA
9. A Menina Que Esperava
Depois da live, Lúcia permaneceu conectada. O grupo já tinha ido embora. Ela continuava olhando para a tela.
— Jéssica: Vai dormir.
— Lúcia: Já vou.
— Larissa: Mentira.
— Lúcia: Como você sabe?
— Larissa: Porque eu também digo isso.
— Fernanda: Come um pão de queijo.
— Lúcia: Não tenho.
— Fernanda: Isso é uma emergência.
— Pedro: Você está sozinha?
Lúcia demorou.
— Lúcia: Estou.
— Pedro: Nós também estamos às vezes.
Ela ficou olhando. Depois escreveu:
— Lúcia: Obrigada por terem ficado naquela primeira noite.
@renato_realista: «Você lembra?»
— Lúcia: Lembro.
@renato_realista: «Por quê?»
Lúcia demorou alguns segundos.
— Lúcia: Porque ninguém falava comigo.
Pausa.
— Lúcia: Vocês ficaram.
Ninguém respondeu imediatamente.
Então Dona Maria escreveu:
@Dona_Maria_72: «Às vezes, ficar é a coisa mais importante.»
Lúcia sorriu.
Naquela noite, ninguém encerrou o grupo. Apenas deixaram as mensagens paradas. Como uma sala em que ninguém precisava conversar.
• • •
BLOCO VI: A MESMA COISA
10. A Última Live
Foi ideia de Pedro.
— Vamos fazer uma live sem título.
Jéssica perguntou:
— Para quê?
— Para ver quem entra.
— E o que vamos fazer?
Pedro deu de ombros.
— Nada.
Era exatamente o tipo de ideia que nenhum adulto deveria aceitar. Aceitaram.
A transmissão começou como um copo vazio. Ninguém o enchia. Ninguém bebia. Apenas olhavam para o fundo.
Cinco espectadores.
Dez.
Cinquenta.
Duzentos.
Mil.
O número subia devagar, sem pressa, como água invadindo um quarto escuro. Ninguém falava.
Depois começaram a aparecer os nomes:
@renato_realista
@Dona_Maria_72
@Roberto_Silva_58
@carla_desafinada
@bia_home
@fernanda_pao_de_queijo
@pedro_021
@patricia_oficial
@jessica...
@larissa...
Um por um. Todos estavam ali.
Lúcia olhou para a câmera.
— Vocês se conhecem?
Pedro respondeu:
— Mais ou menos.
— São amigos?
@renato_realista: «Não sei.»
@fernanda_pao_de_queijo: «Já dividimos pão de queijo.»
@bia_home: «Já conhecem meu cachorro.»
@carla_desafinada: «Já me ouviram cantar.»
@patricia_oficial: «Alguns já me reconheceram.»
@pedro_021: «Na internet.»
@patricia_oficial: «Pedro.»
@pedro_021: «É diferente.»
Todos riram.
@Dona_Maria_72: «Eu conheço as vozes.»
Lúcia leu. Ficou quieta. Depois perguntou:
— E por que vocês vieram?
Ninguém respondeu.
Então apareceu um comentário:
@renato_realista: «Porque você abriu.»
Outro:
@pedro_021: «Porque alguém precisava ficar.»
Outro:
@Dona_Maria_72: «Porque hoje eu não queria jantar sozinha.»
Outro:
@bia_home: «Porque meu cachorro estava dormindo.»
Outro:
@fernanda_pao_de_queijo: «Porque eu tinha pão de queijo.»
Lúcia riu.
— Fernanda...
«O quê?»
— Você estragou o momento.
«Eu salvei o momento.»
Jéssica escreveu:
«Ela tem razão.»
A transmissão continuou. Sem assunto. Sem maquiagem. Sem anúncio. Sem promoção. Sem música. Sem meta.
Às 2h13, o contador marcava trinta e sete mil espectadores.
Lúcia encerrou a transmissão.
O número era impressionante. Mas, depois que a tela escureceu, o que restava? Não eram pessoas, segundo a plataforma. Eram dados: impressões, minutos assistidos, taxa de retenção, engajamento. O algoritmo já havia calculated tudo.
O que ele não calculava era que, naquela noite, trinta e sete mil pessoas tinham feito a mesma coisa: ficado em silêncio, juntas.
O algoritmo não sabia o que fazer com isso.
Pedro olhou para o número.
— A gente está fazendo nada.
@renato_realista: «E tem trinta mil pessoas olhando.»
Pedro:
— Estranho.
@renato_realista: «Bastante.»
Lúcia olhou para a câmera. Pela primeira vez, não parecia estar esperando alguém. Parecia ter encontrado.
• • •
Fim do Volume 3

AS MENINAS DA LIVE 2


AS MENINAS DA LIVE 2

Crônicas de uma internet ao vivo
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

“A câmera liga. O bom senso desliga.”

BLOCO I — A CÂMERA LIGA
A luz circular acende. O ícone vermelho aparece. Em algum lugar, uma pessoa deixa de ser apenas ela mesma e vira transmissão. O algoritmo desperta. O público chega. E ninguém mais sabe ao certo onde termina a performance e começa a solidão.
1. A Especialista em Tudo
Jéssica abriu a transmissão com o filtro “Pele de Porcelana” no nível máximo. A luz fria refletiu como dois sóis minúsculos nas pupilas.
— Oiii, meus amores! Hoje a transmissão é de conversa e maquiagem leve… — disse, espalhando uma base que custava dois salários mínimos.
O bate-papo subiu veloz.
@marcos_agro: Jéssica, o que você acha da crise nos relacionamentos atuais?
Jéssica parou o pincel no ar, encarou a lente como se fosse entrevistada para presidente.
— O relacionamento hoje exige maturidade emocional, responsabilidade afetiva e alfabetização digital. Se a pessoa não soma, você subtrai. É isso aí.
@tiago_invest: E mineração de Bitcoin na Tailândia, vale a pena?
— O segredo da criptomoeda é não colocar todos os ovos na mesma carteira digital. Diversificação de ativos. Sempre.
@agro_top: Entende de rotação de culturas de milho no Mato Grosso?
— Um pouco. A questão do solo fértil é muito parecida com a preparação da pele antes da base. Se a base está seca, a plantação não cresce.
@roberto_mecanico: Minha geladeira Brastemp Frost Free está vazando água por baixo e fazendo barulho no motor. O que pode ser?
O bate-papo parou por dois segundos. O filtro falhou por um instante e mostrou um poro real.
— Amor… eu sou criadora de conteúdo. Não sou assistência técnica autorizada.
@roberto_mecanico: Ué, mas você acabou de dizer que sabe de tudo.
— Tudo dentro da minha bolha! Do meu nicho!
@gabi_viana: Qual é o seu nicho, Jé?
Ela segurou a esponja como um cetro e pensou três longos segundos.
— Meu nicho é a vida real e suas ramificações. Estou em fase de transição e escopo.
A conexão caiu segundos depois. Na manhã seguinte, publicou o trecho com a legenda: “Liderança de pensamento e autoridade digital”.
2. O Arrume-se Comigo
— Gente, a transmissão de hoje é histórica! — anunciou Larissa, aparecendo com rabo de cavalo frouxo, pijama furado na axila e rosto lavado. — Prepare-se comigo do zero! Vão me acompanhar da miséria à glória!
Por duas horas e quarenta minutos, seis mil pessoas assistiram hipnotizadas. Ela hidratou, passou primer, corretivo, base, contorno, pó, bruma fixadora, secou com um ventilador de ursinho, fez o delineado três vezes, colou cílios postiços, queimou o dedo, trocou de roupa quatro vezes.
Às dez horas da noite, reapareceu. Impecável. Parecia capa de revista. O ar-condicionado desligado fazia gotas de suor lutarem contra a maquiagem.
— E aí, galera? Gostaram do resultado? — posou, ombro caído, queixo erguido.
@pedro_021: Maravilhosa! Mas vai sair para algum lugar a essa hora?
Larissa sorriu, radiante e sincera.
— Para lugar nenhum, amor! Fiz toda essa produção para vocês. Para a nossa transmissão!
@marcelo_pijama: Entendi… mas a gente está assistindo da cama, de pijama e comendo pão com ovo.
Ela congelou. Olhou para o número de espectadores. Olhou para o espelho. Olhou para a roupa que levara quarenta minutos para vestir.
Desligou sem se despedir.
Cinco minutos depois, voltou. De pijama de ursinho, sem cílios, cabelo bagunçado, comendo biscoito de polvilho direto do pacote.
O número de espectadores bateu o recorde da semana.
3. A Monetização do Lamento
Bianca tinha decifrado o algoritmo psicológico. Não vendia conteúdo; vendia chantagem emocional.
— Ai, gente… boa noite — voz fraca, olhar triste. — A transmissão está tão parada… acho que vocês se cansaram de mim, né? Vou encerrar…
Um coração apareceu.
— Obrigada, @lucas_fiel! Pelo menos uma pessoa ainda lembra que eu existo… Mas na transmissão da Flavinha ontem apareceu até um Leão Dourado.
Um chapéu de cowboy.
— Ah, um chapéu. Legal. A gente se esforça, se arruma, abre a transmissão cansada… e ganha um chapéu. Mas tudo bem, a culpa é minha por esperar demais.
Dois Corações de Ouro e uma Coroa. Depois um Leão. Depois outro. A tela virou fogos de artifício.
@renato_realista: Bianca, você percebe que a gente só manda presentes para ver você nos xingar?
Ela olhou para o saldo: R$ 4.200,00 em quarenta minutos. Ajeitou o cabelo, sorriu com brilho perfeito.
— Monetização por indignação, meus amores. Agora, quem vai mandar o próximo Leão ou eu vou ter que chorar de verdade?
4. A Guerra das Duas
Camila e Vanessa dividiram a tela. O ar pesava antes da primeira palavra.
— Oiii, amiga! Que saudade! Você está linda! — voz três oitavas acima do normal.
— Maravilhosa é você, meu amor! Amei essa blusa, tão retrô… minha avó tinha uma igual! — devolveu Vanessa, precisa como atiradora de elite.
Dez mil pessoas assistiam. O bate-papo demorou três segundos para descobrir que havia sangue na água.
Ui. Ela chamou de brega. Pergunta se elas se conhecem fora da câmera!
— Ah, a gente é colega de trabalho, né? — Camila bebeu água devagar. — Respeito muito o trabalho dela.
— Conhecidas de evento, para ser sincera. A gente se vê nos eventos pagos. — Vanessa sorriu de canto.
— Da internet, né, Van? Porque, na vida real, a gente tem estilos de vida bem… diferentes.
— Graças a Deus, né, Cami? Cada uma entrega o que pode. Umas focam em quantidade, outras em qualidade.
BRIGARAM PELO EX!
Silêncio. Camila ajustou o anel. Vanessa ajeitou uma mecha perfeitamente alinhada.
— Não gosto de expor minha vida pessoal com desentendimentos banais — disse Camila.
— Nem eu. A maturidade é saber quando não dar palco para quem só quer audiência — rebateu Vanessa.
@joao_pobre: Ou seja: brigaram bonito.
As duas olharam para a câmera ao mesmo tempo.
— Próxima pergunta. — Urgente.
A câmera liga. A máscara cai. Por quinze minutos, todos são alguém diferente.
BLOCO II — TODO MUNDO ESTÁ OLHANDO
5. O Sol do Meu Dia
Todas as noites, às 22 horas, @Roberto_Silva_58 aparecia na transmissão de Larissa. Sempre pontual. Sempre as mesmas palavras.
@Roberto_Silva_58: Princesa.
@Roberto_Silva_58: Você é o sol do meu dia.
@Roberto_Silva_58: Você merece o mundo, gata.
Uma noite, Larissa percebeu a repetição.
— Roberto, obrigada pelo carinho de sempre. Me tira uma dúvida… você é casado?
@Roberto_Silva_58: Sou.
— E sua esposa sabe que você passa todas as noites me chamando de “sol do seu dia” na internet?
Ele demorou quarenta segundos para responder. O bate-papo esperou em silêncio.
@Roberto_Silva_58: Agora sabe.
— Como assim “agora sabe”, Roberto?
Uma notificação amarela brilhou:
@Esposa_Do_Roberto_Oficial entrou na transmissão.
O bate-papo virou arquibancada.
A CASA CAIU! CORRE, ROBERTO!!!
@Esposa_Do_Roberto_Oficial: Roberto, larga esse celular e vem buscar suas malas na calçada.
@Roberto_Silva_58 saiu da transmissão.
Larissa olhou para a câmera, engoliu em seco.
— Boa noite, senhora… Seja bem-vinda. O treino de hoje é de glúteos.
@usuario_anonimo: O Roberto não saiu da transmissão. Saiu do casamento.
6. A Celebridade de Oito Mil
Patrícia atingiu 8.102 seguidores e decidiu: agiria como estrela de televisão.
Colocou óculos escuros gigantes no shopping, vestiu sobretudo em 32 graus, caminhou devagar esperando ser cercada. Ninguém olhou.
Entrou numa cafeteria, sentou à mesa central, tirou os óculos devagar.
— Pode pedir para tirar uma foto, eu permito — disse com generosidade de rainha.
— Foto do bolo? São dezoito reais a fatia — respondeu o atendente.
Patrícia abriu a transmissão.
— Gente, estou num estabelecimento público e as pessoas simplesmente fingem que não me conhecem. A cultura do cancelamento e a inveja são reais!
@marcelo_00: Você é famosa?
@patricia_oficial: Sou criadora de conteúdo de alto impacto.
@marcelo_00: Famosa onde?
@patricia_oficial: Na internet!
@marcelo_00: Que internet? A minha não, não.
Ela encerrou a transmissão. No dia seguinte, publicou foto em preto e branco: “Vou me afastar das redes sociais por tempo indeterminado para cuidar da minha saúde mental”.
Tinha 8.101 seguidores.
7. O Desabafo
Marina abriu a transmissão com lenço na mão e olhos vermelhos de lágrimas pré-fabricadas.
— Gente… hoje não vim vender nada. Só preciso desabafar porque está muito difícil…
Força, Mari! Quem te magoou? Fala tudo!
Marina aproximou o rosto da câmera.
— Hoje de manhã publiquei um tutorial de maquiagem lindo… e uma pessoa fez um comentário que destruiu meu dia.
— O que disseram? Fala o nome!
Mostrou a captura: “Seu delineado está um pouco torto do lado esquerdo”.
O bate-papo silenciou.
— Passei três horas e meia na frente do espelho! Dediquei minha vida àquele conteúdo!
@paulo_sincero: Mas está torto mesmo, viu? Parece uma minhoca.
Marina parou de chorar. A dor virou ódio instantâneo e frio.
— Moderador?
@paulo_sincero foi banido.
@outro_usuario: Banir o cara não vai endireitar o traço.
Desligou a câmera. Naquela noite, a comunidade aprendeu: no desabafo, o público apoia qualquer drama — menos a verdade.
8. A Número 38
Carolina notou um padrão. Todos os dias, @Paulo_Sempre_Aqui enviava as mesmas frases.
Você é a mulher mais incrível desta rede. Única. Diferente de todas.
Criou perfil falso e entrou em trinta transmissões de outras influenciadoras. Lá estava ele. Em todas. Com a mesma frase.
— Paulo! Você fala que sou “única” só para mim ou digita isso em todas?
@Paulo_Sempre_Aqui: Digito em todas.
— E você não tem vergonha? Achei que era especial!
@Paulo_Sempre_Aqui: E você é especial, Carol! Você é a número 38 na minha planilha do Excel deste mês.
— Planilha do Excel?!
Sim. Tenho metas de interação emocional. Comento em 50 transmissões por noite. A que responder melhor ganha um convite para um café.
Carolina caiu na risada.
— Pelo menos você é organizado e sistemático!
Obrigado. A número 37 me bloqueou e fez denúncia por assédio. Você está no meu Top 3.
Eles riem, brigam, pedem, cobram. Mas ninguém desliga. Porque quando a câmera apaga, o silêncio volta.
BLOCO III — A INTERNET SABE QUEM VOCÊ É
9. A Vaselina e a Verdade
Fernanda estava no meio de uma divulgação paga de um creme de quatrocentos reais.
— Gente, este sérum restaurador de orquídeas negras mudou minha vida. Minha pele renovou em três dias!
@luiz_99: Quanto pagaram para falar isso? É propaganda paga ou você realmente usa? Minha tia vende cosméticos há 35 anos e disse que esta marca é só vaselina com perfume de lavanda e custa 5 reais na fábrica.
Fernanda parou de espalhar o produto. O creme acumulou como uma mancha branca na bochecha.
— Gente… vamos focar no conteúdo e ignorar os comentários maldosos, tá?
Mostra a embalagem! Passa na mão para ver! A tia da Maria está certa?
Gotas de suor brilharam na têmpora.
— Próxima pergunta, gente. Por favor.
@usuario_cetico: Qual será a próxima mentira que vai vender para a gente?
Desligou sem salvar o vídeo. No dia seguinte, o aviso apareceu em letras grandes: “Hoje farei uma transmissão EXTREMAMENTE sincera: A verdade sobre a indústria dos cosméticos”.
Bateu todos os recordes de audiência.
10. A Transmissão que Não Quis Acabar
Renata abriu às 20 horas.
— Gente, passei só para dar um “oi” rápido. Ficarei só duas horinhas porque amanhã acordo cedo.
Às 22h, um Unicórnio Voador apareceu.
— Meu Deus! Não posso encerrar agora, seria falta de educação! Mais quinze minutinhos!
Às 23h55, outro presente enorme.
— Galera, vocês são incríveis! Quem está aqui desde o começo?
Às 3 horas da manhã, falava com dificuldade, olhos vermelhos, voz rouca. Às 5h12, o sol entrou pela janela e revelou o rosto cansado, sem filtro.
— Gente… o sol já nasceu…
@pedro_madruga: Você ainda está na mesma transmissão de ontem??? Eu dormi, sonhei, acordei para ir ao banheiro e você continua aí!
Olhou para o cronômetro: 09h12min44s de transmissão contínua.
— Então… bom dia, galera.
Vai dormir, mulher! Parece um zumbi! Desliga isso, pelo amor de Deus!
— Só mais um presente e eu vou dormir, prometo.
O bate-papo fez um acordo silencioso. Ninguém mandou nada. Ficou em silêncio por dois minutos.
Pela primeira vez na história da internet, uma transmissão terminou por bondade do público.
11. Quem Espera
Às 21h17 de uma terça-feira qualquer, uma notificação apareceu em celulares espalhados pelo país:
“@menina_da_live começou uma transmissão ao vivo.”
Ninguém conhecia o perfil. A foto era de uma garota sorrindo diante de uma luz circular. O nome dizia apenas: Lúcia.
Trezentas pessoas entraram em menos de um minuto.
Ela não falava. Ficava sentada diante da câmera, em silêncio, olhando para a tela como se esperasse alguém.
Oi, Lúcia. Ela está triste? Alguém conhece essa menina? Comenta para ela falar!
O número de espectadores subiu para mil. Depois três mil. Alguém mandou um coração. Outro enviou um presente. Um terceiro escreveu:
@renato_realista: Pelo menos ela não está fingindo que está feliz.
Lúcia finalmente se mexeu. Olhou para a câmera e sorriu — um sorriso pequeno, cansado, quase envergonhado.
— Obrigada por ficarem.
A frase provocou uma enxurrada de respostas.
Sempre! Estamos junto. Você não está sozinha.
Ela baixou os olhos, como se estivesse guardando aquelas palavras.
— Eu sei.
Ficou em silêncio mais alguns segundos. Então a transmissão terminou. Sem aviso, sem despedida.
No dia seguinte, ninguém encontrou o perfil. Não havia vídeo salvo. Não havia foto. Não havia seguidores. Nem sequer havia registro daquela transmissão.
Mas naquela noite, milhares de pessoas receberam a notificação de novo. E entraram.
Porque, às vezes, a internet não é feita de quem fala. É feita de quem espera alguém responder.
Aqui o livro muda de tom. O leitor não está mais só rindo. Está reconhecendo.
BLOCO IV — DEPOIS QUE A CÂMERA DESLIGA
12. O Jantar de Queijo
Eduardo entrou já arrumando a camisa e sorrindo bobo. A tela banhada em luz dourada, duas velas tremeluzindo, sombras longas e românticas no rosto de Mariana. Ele baixou o brilho do celular.
— Boa noite, meu amor… Hoje preparei algo especial para nós dois… um jantar à luz de velas. Só nós dois.
Eduardo suspirou, pegou a taça de vinho. Finalmente, romance de verdade.
Mariana aproximou a câmera da mesa.
— Como podem ver… pratos brancos impecáveis, talheres de aço, toalha de linho… e aqui está a nossa obra-prima!
A câmera desceu. Na tela: um prato descartável com um pastel de queijo, uma lata de refrigerante gelada e um sachê de molho.
@eduardo_romantico: A luz de velas… é para dar mais sabor ao pastel?
Mariana acendeu uma terceira vela ao lado do pastel.
— Exatamente! É gastronomia emocional! A luz morna valoriza a massa crocante. O romantismo não está no preço, está na intenção! E a intenção foi: “estava passando em frente à pastelaria e fiquei com fome”. Isso é honestidade brilhante!
E o refrigerante?
— Espumante nacional, gelado e direto ao ponto. Igual ao nosso amor!
Eduardo brindou com a lata.
— Ao nosso jantar de pastel à luz de velas. Que seja crocante! 🥂🥟
O número de curtidas bateu o recorde. Ninguém nunca tinha comido um pastel tão romântico.
13. As Meias e a Luz Negra
Fábio viu a chamada e quase caiu da cadeira: “TRANSMISSÃO COM LUZ NEGRA — TUDO VAI BRILHAR!” Pensou em festa neon, roupas luminosas. Apagou a luz do quarto e entrou.
A tela estava quase toda preta. Escuridão total.
— Oiii, gente! Conseguem me ver?
Do nada, dois dentes brilharam intensamente, um relógio neon pulsou e um par de meias listradas brilhou verde e rosa como um farol.
@fabio_curioso: Vejo seus dentes, seu relógio e suas meias. O resto sumiu na escuridão! Você é uma meia falante!
— Perfeito! Esse é exatamente o conceito da noite: só brilha o que é verdadeiramente importante! Dentes saudáveis, relógio de qualidade e meias de algodão premium. O resto é casca, é ilusão, é superficial e não merece brilhar!
Deu um passo à frente e as meias desenharam um arco de luz neon.
— Agora vou dançar para vocês. E só vão ver minhas meias dançando. É arte minimalista! É performance conceitual! É… não encontrei nenhuma roupa que brilhasse na luz negra! Tudo bem, as meias são o destaque!
Fábio ficou olhando duas meias brilhantes dançarem sozinhas por vinte minutos. Foi a transmissão mais hipnótica, mais estranha e mais divertida que já assistiu.
Melhor transmissão de moda de todos os tempos. As meias brilham mais que a personalidade de muita gente. 👟✨
14. O Farol do Terceiro Andar
Rogério era apaixonado pelo mar, faróis e histórias de pescadores. Viu a capa: “NOITE NO FAROL — HISTÓRIAS DO MAR”. Entrou correndo, pegou um casaco de lã.
A tela acendeu. Uma luz girava lentamente, sombras suaves pela sala. Som de ondas quebrando. Voz suave e misteriosa:
— Boa noite, navegantes… Estou aqui, no alto do farol, observando o mar revolto e as estrelas que guiam os perdidos…
Rogério arrepiou. Até que a luz girou e iluminou perfeitamente uma estante de livros, um porta-controles e uma porta de quarto com adesivo de coração.
@rogerio_mar: Beatriz… esse farol tem porta de apartamento? E um porta-controles? Os faróis residenciais são novidade?
— Claro que tem, Rogério! Você acha que farol não tem morador? Eu moro aqui! Essa luz giratória é o meu lustre que não para de girar porque o interruptor quebrou! O som de ondas é um aplicativo gratuito! E o mar revolto… é o vento batendo na janela do terceiro andar!
A luz parou de girar.
— E agora vou servir o jantar. O peixe de hoje é… pizza de calabresa que chegou há dez minutos. O mar está calmo e a entrega foi rápida. Que costa é essa? É a costa do bairro!
Melhor farol residencial que já visitei. A pizza chegou antes da inspiração. 🍕🌊
Rogério pediu a mesma pizza. E passou a visitar aquele farol todas as noites.
15. A Sombra no Parque
Marcelo combinou com Carolina: “Transmissão ao ar livre — luz do sol, sem filtros, sem máscaras, só nós e a verdade”. Chegou cedo ao parque, sentou no banco de pedra, abriu a transmissão com o coração acelerado.
A tela acendeu. Uma silhueta escura e perfeita contra um sol ofuscante. O rosto dela estava completamente na sombra. Só se via o brilho do cabelo e o contorno do corpo.
— Oi, Marcelo! Que dia lindo, né? Que sol maravilhoso nos iluminando!
@marcelo_sol: Sabe que eu não estou vendo absolutamente nada do seu rosto? Você virou uma sombra falante! O sol está atrás de você e eu estou conversando com uma silhueta!
— Exatamente! Isso é transparência total, Marcelo! Você não me vê, mas sabe que eu estou aqui. Você não julga minha aparência, só ouve minha essência. Isso é confiança! Isso é amor sem olhar! Isso é… me posicionei errado e não tenho coragem de me mover agora!
Uma folha caiu na frente do sol e a silhueta desapareceu por um instante.
— E agora uma folha me cobriu! Significa que às vezes a vida nos tapa o sol! Reflitam!
Estou refletindo. Estou refletindo sobre por que estou conversando com uma sombra no parque. 🌑☀️
Marcelo fechou os olhos e refletiu. E a silhueta continuou falando sobre transparência, sem nunca se mover um centímetro.
16. A Senhora das Noites
(Conto inédito)
Ela nunca falava muito. Nunca mandava presentes. Nunca pedia atenção. Todas as noites, às 21h, entrava e escrevia uma única linha no bate-papo:
@Dona_Maria_72: Boa noite, minha filha.
A influenciadora sorria, agradecia e seguia com a transmissão. Não sabia o nome dela de verdade. Não sabia de onde era. Mas ali estava ela, todas as noites, pontual como um relógio.
Uma noite, não apareceu.
A influenciadora olhou para o bate-papo várias vezes. Procurou o nome. Não estava ali. No dia seguinte também não. E no outro.
Na quarta noite, o nome apareceu.
@Dona_Maria_72: Boa noite, minha filha. Desculpa a falta. Ontem meu marido morreu. Hoje não queria jantar sozinha.
A transmissão seguiu. A influenciadora engoliu em seco. Ficou em silêncio por alguns segundos. Depois continuou, com a voz um pouco mais baixa, um pouco mais suave.
Ninguém mandou presentes. Ninguém fez piada. Ninguém pediu para ela sair.
A senhora permaneceu ali até o fim. Sem mais comentários. Sem mais explicações. Apenas presente.
Não houve punchline. Não houve final engraçado. Houve apenas, por alguns minutos, duas pessoas jantando juntas, separadas por quilômetros e uma tela, e por um instante, nenhuma das duas estava sozinha.
17. O Pão de Queijo e a Verdade
Luiz sempre assistia às transmissões de Fernanda à noite. O abajur criava um círculo de luz amarela e quente, só nela. A voz calma, o clima de confidência. Confiava nela mais do que nos próprios amigos.
— Hoje vamos falar de solidão… — começou Fernanda, voz suave e compassiva. — Luiz, vi sua mensagem. Você se sente sozinho porque espera que alguém acenda a sua luz. Mas a luz tem que vir de dentro… do peito… do coração…
@luiz_confiado: É verdade, Fernanda… é exatamente isso que eu preciso ouvir…
— Tem que brilhar por dentro, Luiz! Tem que ser a sua própria luz! — Ela levantou o rosto com emoção. O abajur escorregou na mesa e caiu com um estrondo. — AI, MEU DEUS, A LUZ CAIU!
A sala ficou iluminada de verdade. Sem sombras, sem meia-luz. Fernanda apareceu de óculos de grau, camiseta de time, comendo um pão de queijo enorme.
— Espera… eu arrumo aqui… — Levantou o abajur de lado. Agora a luz iluminava apenas o pão de queijo, que brilhava dourado e perfeito. — Olha… o pão de queijo brilha mais do que eu. É porque a verdade sempre brilha, Luiz! A verdade!
Fernanda… você estava comendo pão de queijo o tempo todo enquanto eu chorava pelos meus relacionamentos?
— A vida é dura, Luiz. Mas o pão de queijo é macio e quentinho. Pense nisso. 🧀💡
Luiz pensou. Pensou tanto que foi até a padaria comprar um pão de queijo. E naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, não se sentiu sozinho.
EPÍLOGO — A CÂMERA DESLIGA
A transmissão terminou. O ícone vermelho sumiu. A luz circular apagou.
Do outro lado da tela, pessoas fecharam os aplicativos. Desligaram os celulares. Ajustaram as almofadas. Respiraram fundo.
A câmera desligou. E, pela primeira vez em muito tempo, ninguém precisou fingir. Ninguém precisou brilhar. Ninguém precisou ser interessante, engraçado, perfeito.
Só restou o silêncio. E o silêncio, perceberam, não era vazio. Era apenas quieto.
E na quietude, uma pergunta ficou pairando, suave como o último brilho de uma luz que se apaga:
— Agora que ninguém está olhando… quem somos nós?
Fim.