A ciclovia parecia um erro urbano cometido por alguém sóbrio demais. Postes altos, luz branca em excesso; tudo alinhado como um necrotério de boas intenções que apodreceram no papel. A chuva tinha passado, deixando aquele cheiro de asfalto molhado que sopra promessas — daquelas que você faz para uma mulher de bar às três da manhã e esquece antes que o hálito de gim desapareça.
Não tinha ninguém pedalando. Nunca tem. Ciclovia é tipo o otimismo: um conceito bonito inventado por burocratas que andam de carro oficial. É feita para pessoas que acordam cedo, tomam suco verde e acreditam no futuro. Eu não era uma delas. Caminhei por ali como quem sobrevive por puro desaforo, arrastando os calcanhares gastos. O mar, à direita, era um abismo barulhento, uma massa escura que não dava a mínima para os meus boletos vencidos. As casas, à esquerda, dormiam com a TV ligada. Dava para ver o brilho azulado pelas janelas: gente anestesiada, sonhando com vidas que não escolheram enquanto o apresentador do telejornal mentia sobre o PIB.
No chão, os reflexos da luz na água pareciam rachaduras no mundo. Talvez o mundo estivesse mesmo quebrando, e eu estava apenas observando as fendas aumentarem. Pensei nas vezes que tentei ir para frente e acabei apenas cavando um buraco maior. Mulheres que levaram meu fígado, empregos que me cuspiram na sarjeta e amigos que hoje são só nomes difíceis de pronunciar entre um gole e outro.
A seta pintada no asfalto ordenava em letras garrafais: “SIGA”.
Sempre diz isso. É a grande piada do universo. O mundo te empurra, te dá um chute na bunda e diz para continuar andando, mas nunca se dá ao trabalho de te dar um mapa ou uma razão para não pular da ponte mais próxima.
Foi quando ele apareceu. O gato não era um animal de comercial de ração. Era um emaranhado de pelos sebosos, com uma cicatriz que atravessava o focinho e uma orelha pendurada como uma bandeira de rendição. Ele não miou. Gatos que sabem da vida não perdem tempo com música. Ele apenas parou no meio daquela tinta branca impecável e cuspiu um tufo de pelos, me olhando como se eu fosse um fiscal de impostos vindo cobrar uma dívida antiga.
— É, eu sei — eu disse, a voz saindo rouca, cheia de areia. — O planejamento urbano é uma merda, e nós somos os ratos que sobraram.
O bicho deu uma volta em torno das minhas botas, sentindo o cheiro de fracasso e de fumaça de segunda mão. Ele sabia que eu era um clandestino naquele asfalto perfeito. O gato deu um último olhar de desprezo para a seta de "SIGA", levantou o rabo e desapareceu na escuridão entre dois prédios, provavelmente indo atrás de algo que ainda estivesse sangrando.
Eu fiz o mesmo, mas meu alvo era outro tipo de sangue.
Caminhei mais dois quarteirões até que a luz da ciclovia morreu, engolida pela penumbra de uma rua que a prefeitura tinha esquecido de maquiar. No fim do beco, um letreiro de neon vermelho piscava com a urgência de um coração enfartando: BAR DO EDDIE. Empurrei a porta e o cheiro me recebeu como um velho soco no estômago: desinfetante barato, mofo e o suor acumulado de homens que tinham desistido de tentar antes mesmo de eu nascer. Eddie estava lá, limpando um copo com um pano que já tinha visto dias melhores na década de 70.
— O de sempre? — perguntou ele, sem levantar os olhos.
— O de sempre. E deixa a garrafa por perto. A ciclovia lá fora está organizada demais para o meu gosto.
Ele colocou o copo de uísque na minha frente. O líquido tinha a cor de urina de anjo e desceu queimando, limpando a fuligem da alma e substituindo a angústia por um calor entorpecente. Eddie soltou o pano encardido e serviu uma dose para si mesmo. Ele não costumava beber em serviço, mas o Eddie nunca estava realmente em serviço; ele estava apenas esperando a morte em um ambiente com ar-condicionado estragado.
— Vi você vindo pela ciclovia — Eddie disse, a voz soando como dois pedaços de lixa se esfregando. — Você parecia um fantasma tentando seguir uma linha reta.
— Aquela pista é um insulto — respondi, observando o gelo derreter no copo. — É como colocar um laço de fita num cadáver. Eles pintam o chão e acham que a cidade parou de sangrar.
Eddie deu um gole curto e limpou a boca com as costas da mão peluda.
— O progresso é para quem tem pernas fortes e lugar para chegar, Henry. Para gente como nós, o progresso é só mais um jeito de ser atropelado por algo mais brilhante.
— Um gato me parou lá fora — falei, sentindo o uísque finalmente atingir o centro nervoso da minha apatia. — Ele tinha mais bom senso que todo o departamento de urbanismo. Ele olhou para a seta e foi para o lixo. O lixo é honesto. O lixo não finge que é uma autoestrada para o paraíso.
Eddie soltou uma risada seca que terminou em uma tosse de fumante.
— O lixo é a única coisa que cresce sem investimento público. Sabe qual é o problema dessa ciclovia? Ela é silenciosa demais. Não tem o som do fracasso. Eu prefiro o barulho dos carros velhos engasgando.
— É — eu disse, levantando o copo. — À saúde das coisas que não funcionam.
— Às coisas que não têm conserto — Eddie completou, batendo o copo dele no meu.
O som do vidro se encontrando foi a única nota musical que prestou em toda a noite. Lá fora, o mundo continuava tentando ser linear e cheio de setas. Aqui dentro, o relógio estava parado, o uísque era real e ninguém esperava que você fosse a lugar nenhum. A ciclovia ficou para trás: vazia, limpa e inútil. Um monumento à nossa mania de pavimentar o caminho para esconder que, no fundo, estamos todos tropeçando no escuro.
Bebi o resto da garrafa em silêncio. Pela primeira vez na noite, o silêncio parou de gritar