Tadeu Everton Zamoiski
Caiobá
Meu avô jurava que foi ele quem abriu o canal da Avenida Paraná. Falava cuspindo o fumo de corda, com aquela empáfia de quem meteu o facão no mato e achou que virou dono da terra. Dizia que antes dali não tinha nada: nem rua, nem calçada, nem casa com laje batida. Só lama, maré cheia e um silêncio grosso de mangue. Primeiro o canal, ele repetia. Só depois a cidade veio em cima.
E que “não mexe onde já está mexido”, ele resmungava de cara amarrada quando a gente era moleque e tentava cavar buraco fundo na beirada da vala. Na época, a gente achava que era manha de velho. Hoje eu sei que ele não era o pioneiro de porra nenhuma. Ele era o carcereiro. O velho sabia perfeitamente o que a gente pisava em cima; só preferiu inventar a história da fundação para ninguém ter a curiosidade de olhar para baixo.
Eu mergulho naquele trecho desde os doze anos. Conheço cada palmo daquele fundo como se fosse a palma da minha mão calejada. Sei onde tem linguado entocado, onde o toco de bracatinga está preso no lodo, onde a pedra de contenção cedeu. Todo mês de junho, na ressaca de sul, quando a prefeitura chama a turma para a limpeza de rotina antes das chuvas, sou eu quem desce. É trabalho braçal, sujo, na água barrenta e gelada.
Até o dia em que a lâmina da minha espátula bateu em seco.
Não era pedra. Não era o concreto cinzento e remendado da última engorda de praia. Era madeira.
Passei a mão enluvada pelo limo grosso, limpando a craca com cuidado. Meus dedos tatearam as ranhuras de uma porta. Uma porta de verdade, com uma maçaneta de ferro pesado, gasta e redonda como uma castanha grossa, e dobradiças fundidas que o tempo tentou comer, mas não conseguiu. Estava embutida ali na alvenaria submersa, a uns dois metros de profundidade.
Segurei firme na maçaneta. Ela girou com um rangido abafado pela pressão. Puxei.
Na mesma hora, a água barrenta do canal deu um puxão, rodopiando num vácuo rápido. Mas o que apareceu do outro lado não foi o breu do fundo. Era ar.
Aproximei o visor de vidro, apertei o rosto contra o batente e respirei fundo pelo regulador. Vi um corredor de tijolos aparentes, secos, iluminados por uma claridade suja, que não vinha de sol nenhum. Tirei o bocal por um segundo, engoli aquele ar velho, cheirando a mofo e madeira antiga, e empurrei o corpo para dentro.
Fiquei de pé. O chão sob minhas botas era de terra batida, totalmente seca. Olhei para trás: a porta estava aberta para o verde escuro e barrento do canal de Matinhos, mas a água não caía para o corredor. Ficava presa ali na soleira, como uma respiração presa.
Dei três passos e saí na margem da Riviera de Baixo.
O canal estava ali. Era o mesmo. A mesma largura exata, a mesma curva suave buscando a maré. Mas a ponte que cruzava a água não era de concreto cinzento com nome de político e pichação de torcida. Era de toras grossas de madeira preta, encharcadas de chuva antiga.
Olhei para as margens. Não tinha sobrado, não tinha placa de aluguel de temporada. Eram casebres de tábua tosca, com rede estendida na varanda e lampiões amarelos acesos nas janelas, bem no meio do dia. As árvores... figueiras bravas gigantescas, guabirobas imensas que ninguém na Riviera de hoje viu em pé.
Mais à frente, na penumbra de uma das varandas, ouvi o arrastar abafado de um pé descalço na terra batida. Um assobio curto, antigo, que cortou o silêncio.
Uma tontura funda me pegou pelo estômago. Dei meia-volta, corri pelo corredor, atravessei a porta e me joguei de volta na água turva. Fechei a folha com toda a minha força até ouvir o baque abafado e subi à tona, cuspindo o gosto amargo de lodo e ferro, puxando o ar do mundo real com desespero.
Joguei o casco na lancha, tirei a máscara e fiquei ali, sentado no banco de alumínio, tremendo que nem vara verde. Em casa, tentei lavar o rosto com água quente e sabão azul. Não adiantou. O cheiro de lodo seco ficou grudado no meu nariz a noite inteira. E, no meu ouvido esquerdo, a água continuava batendo — um eco grosso, como se o mar de lá debaixo estivesse tentando subir pelo meu pescoço.
No dia seguinte, voltei cedo, com a maré bem baixa.
A porta estava entreaberta. Exatos dez centímetros.
Mergulhei com o corpo tenso, o suor frio misturado com o sal. Olhei para a régua de medição de cheia fincada perto do molhe, aquela que a prefeitura usa todo ano. O nível da água no canal de cima tinha baixado dois centímetros exatos da véspera para hoje. Como se a nossa vala estivesse esvaziando por dentro, pingando devagarzinho para alimentar o mundo que ficou embaixo.
Dois centímetros a menos hoje. Quinze centímetros a mais de abertura na porta. A Riviera de cima está secando, esvaziando ralo abaixo, e a conta não vai demorar a fechar.
Olhei para as camadas da parede do canal à minha volta. O concreto novo da engorda de praia. Mais abaixo, a alvenaria batida nos anos 70 pelo meu avô. E, cortando o fundo, atravessando os tijolos antigos, o topo de um tronco queimado de uma cerca que nunca esteve nos mapas.
A Riviera nunca foi a primeira Riviera.
Meu avô não foi o primeiro a cavar. Ele foi só o que encontrou a maçaneta da vez, fechou a cara e mentiu para a gente dormir em paz.
Mas em junho do ano que vem tem limpeza de novo. E não vai ser eu quem vai descer. Vai ser outro guri de doze anos. E a porta vai estar esperando por ele, dez centímetros mais aberta.