Tadeu Everton Zamoiski
Setembro de 2026 — Antonina, Litoral do Paraná
A capela fica onde a rua de pedra termina e o cais começa. De costas para a cidade, olha para a baía.
Foi ali que Mariana esperou pelo noivo.
Conheci essa história quando era criança. Minha avó dizia que ela esperou vários dias. Meu pai achava que tinha sido menos. Em Antonina, ouvi versões diferentes, mas ninguém discordava do final.
O homem não veio.
Na manhã em que morreu, Mariana ainda estava com o vestido de casamento. Sentou-se no degrau da capela e ficou olhando para a baía. O padre tentou convencê-la a entrar. Ela não entrou.
Foi enterrada com o vestido.
Depois começaram os relatos de uma mulher de branco aparecendo perto do cais quando a cidade ficava coberta pela neblina. Alguns juravam ter ouvido passos na rua de pedra. Outros diziam que ela procurava um navio.
Eu nunca levei aquilo a sério.
Meu avô paterno se chamava Carlos. Meu pai recebeu o mesmo nome e eu também. Na família, ninguém achava aquilo estranho. Era apenas o nome que passava de uma geração para outra.
Meu avô nasceu em Antonina e trabalhou boa parte da vida perto do porto. Conhecia os navios, os horários e as mudanças da maré. Quando eu era pequeno, gostava de ficar com ele na varanda no fim da tarde.
Foi numa dessas tardes que ele chegou em casa com a roupa úmida e os sapatos sujos de barro.
Minha avó perguntou onde ele tinha ido.
Ele não respondeu.
Sentou-se na varanda, tirou do bolso uma faca pequena e começou a descascar uma laranja, fazendo uma espiral comprida, sem quebrar a casca.
Minha avó olhou para ele, depois para mim.
“Vou deixar vocês conversarem.”
Ela entrava em casa toda vez que meu avô pegava aquela faca.
Eu não entendia por quê.
“Você foi ao porto?”
Ele continuou descascando.
“Fui.”
“Por quê?”
A mão dele parou sobre a laranja.
“Eu tinha serviço num navio.”
Ficou alguns segundos olhando para a fruta.
“Era para eu voltar antes do casamento.”
Não entendi.
Ele retomou a faca.
Perguntei sobre Mariana.
Ele baixou os olhos para a laranja.
“Por que você quer saber disso?”
“Porque todo mundo fala dela.”
Ele voltou a descascar.
“Todo mundo fala sem saber.”
Perguntei se ele a tinha conhecido.
Dessa vez, deixou a faca sobre o prato.
“Conheci.”
Ele não olhou para mim.
“Eu era o homem que ela esperava.”
Achei que fosse conversa de velho.
A mão dele tremia um pouco. Meu avô apoiou o polegar na laranja e terminou de tirar a casca. A espiral caiu inteira sobre o prato.
Depois tirou do bolso uma bala de banana.
“Ela me deu duas.”
Estendeu a última para mim.
“Guarda.”
Когда peguei a bala, ele não soltou minha mão. Antes de eu sair da varanda, fechou meus dedos sobre ela.
Anos depois da morte dele, encontrei uma fotografia dentro de uma caixa de madeira. Meu avô era jovem e estava diante do antigo Complexo Matarazzo.
No verso havia uma anotação:
Mariana.
4 de novembro de 1938.
Fiquei algum tempo olhando para a data.
Trinta anos depois, no mesmo dia, eu nasci.
Entre as coisas que eu tinha guardado sem saber por quê, estava a bala de banana que ele havia colocado na minha mão.
O papel estava amarelado. O doce, intacto.
Guardei a fotografia junto dela.
Semanas depois, o carro parou.
Eu voltava de Paranaguá. A estrada estava úmida e o vidro começava a embaçar por dentro. O cheiro de maré entrava pela ventilação. A neblina vinha baixa, atravessando a estrada e apagando as luzes dos postes antes de devolvê-las alguns metros adiante.
O rádio tinha perdido o sinal. Pouco depois, o celular também.
Tentei ligar o motor outra vez.
Nada.
Vi a mulher do outro lado da rua, perto da direção do cais.
Vestia branco.
Por alguns segundos, achei que fosse alguém voltando para casa. Uma moradora, talvez.
Ela atravessou a rua e parou diante do carro.
“Você viu?”
“Vi o quê?”
“O navio.”
Olhei para a baía. A neblina tinha engolido quase tudo.
“Não.”
Ela ficou olhando para a água.
“Ele está atrasado.”
Depois olhou para mim.
“Você é da família dele?”
“De quem?”
“Seu avô tinha esse jeito de olhar.”
Não soube o que responder.
Ela disse:
“Seu avô prometeu que voltaria.”
Eu tinha dez anos.
A lembrança da varanda voltou.
“Se ela perguntar pelo navio, o que você vai dizer?”
Eu sabia de quem ele falava.
Meu avô olhou para a minha mão fechada.
A lembrança terminava ali.
A mulher continuava me olhando.
“Então é você.”
O motor pegou.
Entrei no carro e saí.
Em casa, deixei a chave sobre a mesa e fui dormir.
Acordei de madrugada com sede. Na cozinha havia uma espiral de casca de laranja sobre a mesa, comprida, ainda úmida. Eu não tinha comprado laranjas. Coloquei a bala ao lado da casca. O cheiro de banana ficou no ar.
Alguém bateu três vezes na porta da frente.
Esperei alguns segundos. Não se repetiu.
Na manhã seguinte, a casca estava seca. A bala havia desaparecido.
Havia água no corredor.
Duas semanas depois, voltei a Antonina durante o dia.
Levei a fotografia comigo.
Queria ver a capela. Não sabia exatamente o que procurava.
A porta estava aberta. O sacristão estava perto do altar, passando um pano numa das imagens e ajeitando o tecido sobre a mesa. Fiz um aceno e entrei. Os bancos estavam vazios. No fundo, junto à parede lateral, havia uma mesa pequena com um livro encadernado à mão. As páginas estavam amareladas e gastas nas bordas. Peguei o livro e comecei a folheá-lo. Encontrei o nome dela.
Abaixo estava o nome do noivo.
Carlos.
Meu avô.
O nome pareceu errado na página.
Li outra vez.
A data era 4 de novembro de 1938.
Na margem, alguém havia escrito:
O noivo não compareceu.
Abaixo, em outra caligrafia, havia uma anotação mais recente:
Voltou. Não entrou.
Perguntei ao sacristão quem havia escrito aquilo.
“Meu pai.”
“Ele conheceu meu avô?”
“Conheceu.”
Passei o dedo pela margem.
A lembrança daquela tarde de 1978 voltou. A roupa úmida, os sapatos sujos de barro, a laranja descascada na varanda.
Deixei a fotografia ali.
Na saída, olhei para a baía.
A neblina começava a subir outra vez.
Não havia ninguém.
Voltei para o carro.
Senti alguma coisa apertando o dedo da mão esquerda.
Uma aliança estava presa ali.
Eu não a tinha colocado.
Tentei puxá-la. Não saiu.
Dentro do aro havia uma palavra gravada.
MARIANA.
Naquela noite, ouvi passos dentro de casa. Pareciam vir da cozinha. Fui até lá e encontrei a espiral de casca de laranja sobre a mesa. O papel vazio da bala estava ao lado dela. Não toquei em nenhum dos dois. Voltei para o quarto e fechei a porta.
Alguém bateu na porta da frente.
Esperei.
Dessa vez, ouvi a batida morrer na rua.
Na manhã seguinte, encontrei uma pegada molhada no corredor, voltada para a porta.
Passei o dia pensando na capela.
No fim da tarde, fui até lá.
Já estava escurecendo quando cheguei.
A porta da capela estava fechada.
Ouvi um arrastar lento do outro lado.
Depois, uma pancada na madeira.
Encostei a mão na porta.
“Mariana?”
Nada respondeu.
Abri.
A capela estava escura.
O banco da primeira fila estava molhado.
Sentei-me por um instante.
Tirei do bolso o papel vazio da bala e deixei sobre o banco.
Levantei.
A voz veio atrás de mim.
“Você viu o navio?”
Fiquei calado.
“Ele está atrasado.”
A voz veio outra vez:
“Seu avô também disse que voltaria.”
Pensei na varanda, na mão dele fechando a minha e naquela pergunta.
Se ela perguntar pelo navio, o que você vai dizer?
Mariana falou outra vez:
“Você prometeu, Carlos.”
Engoli seco.
Depois respondi:
“Que ele vem.”
O apito veio da baía.
Baixo no começo. Depois tão perto que os vidros da capela vibraram.
Passos soaram atrás de mim.
Lentos.
Когда pararam, senti cheiro de laranja e maresia.
A voz veio muito baixa:
“Demorou.”
A aliança afrouxou no meu dedo.
Caiu no chão.
Olhei para ela.
Do outro lado da capela, Mariana estava de pé.
Sem véu.
O vestido continuava branco, mas estava seco.
Ela segurava alguma coisa na mão fechada.
Abriu os dedos.
Era a bala de banana.
Por um instante, ela ficou olhando para o doce.
Depois colocou a bala na boca.
Mastigou devagar.
Engoliu.
Então se virou.
Pela primeira vez, ficou de costas para a baía.
Os passos passaram por mim e pararam diante dela.