domingo, 27 de setembro de 2026

Veda Rosca

Veda Rosca
Tadeu Everton Zamoiski

O dente doía desde terça. Anísio vinha empurrando com analgésico, um molar do fundo que ele nem sabia direito qual era. Na quarta acordou com o rosto inchado, mas não falou nada pra Marisa. Tomou um comprimido a mais, o que era errado, ele sabia, que estômago não é de aço, mas era o que tinha. A coluna também reclamava, do lado direito, uma fisgada que aparecia quando ele abaixava rápido. Fazia tempo que ele não ia ao posto por causa disso. Não ia ao posto por causa de nada.

Bia tinha aprendido a assobiar naquela semana. Assobiava o dia inteiro, mal, o ar saindo mais do que o som, e ria de si mesma cada vez que errava. Na quarta à noite Anísio ouviu aquilo do corredor e ficou parado um tempo, a mão no batente, ouvindo a filha assobiar mal no escuro. Pensou em entrar. Não entrou. Não sabia bem por quê. Depois foi dormir.

Contou os trocados em cima do balcão na quinta de manhã. Dava para o gás. Não dava para o remédio da Bia. O de manutenção, que o pediatra insistia, mais caro que o genérico do posto e, segundo Marisa, o único que segurava a crise quando o inverno apertava o peito da menina. Ele já tinha adiado a conta de luz na semana anterior. Se adiasse de novo, cortava.

Dois anos trabalhando sozinho. Sem ajudante fixo. Encanamento nas casas de temporada de Caiobá. De maio a novembro a maioria fechada, o dinheiro rareando junto com os clientes. Ele completava com bico em obra, troca de telha, o que a imobiliária mandasse. Mesmo assim o mês fechava raspando.

Marisa trabalhava de manhã numa padaria perto da rodoviária, voltava depois das duas. Nos dias em que a Bia amanhecia mais cansada, era Anísio quem ficava com ela até a vizinha chegar. Isso atrasava a saída para os serviços. Cliente ligando cobrando antes de ele botar o pé na rua. Teve um que ligou três vezes num dia só, um tal de Wanderlei, querendo saber se ele ia ou não ia, e Anísio respondeu seco. Depois passou o dia com aquilo na cabeça, remoendo. Com vergonha.

A ligação da imobiliária veio cedo. Casa na rua das Camélias, torneira da cozinha pingando fazia semanas, o dono vinha de Curitiba no fim de semana e queria aquilo resolvido. Pagamento em dinheiro, na hora, direto com o zelador. Anísio pegou sem pensar duas vezes, ajeitou a caixa de ferramentas no banco de trás e saiu ainda mastigando o resto do café.

A casa tinha cheiro de fechada. Mofo, maresia, madeira velha. Na parede da sala, um calendário de 2019 com uma foto de praia, ainda aberto no mês de junho. Em algum lugar da casa, uma geladeira velha zumbia, aquele zumbido que não desliga nunca, e Anísio ficou com aquilo no ouvido o resto do dia, sem saber por quê. Seu Osni esperava do lado de fora fumando, olhando o relógio, um cigarro que ele segurava entre o indicador e o médio, com a mão meio fechada, como quem esconde alguma coisa. Avisou que precisava trancar tudo antes do almoço porque o dono tinha ligado de novo cobrando alguma coisa, sempre alguma coisa. Antes de Anísio entrar, comentou meio de brincadeira que era bom não deixar peça velha de encanamento espalhada pela casa, que aquilo atraía bicho. Anísio riu sem vontade, o riso saindo torto por causa do dente, e seu Osni olhou para ele um segundo a mais do que precisava.

Ele gostava de abrir armário de pia. Gostava do jeito que a luz entrava por baixo e mostrava o encanamento inteiro, um mapa que só ele sabia ler. Naquele dia, porém, o mapa tinha uma peça que não devia estar ali. A torneira era de latão amarelado, com uma rachadura fina em meia lua bem na base, por onde a água escorria num fio constante. Ele parou o giro da chave de boca por um instante. Por um instante teve a impressão de que já tinha apertado aquela mesma porca com aquela mesma chave. Descartou a sensação. Mão de encanador repete movimento. Às vezes a memória inventa o resto.

Aquela meia-lua no latão. O jeito como a água escapava pela base. Tinha visto antes, numa casa perto da praça, dois ou três anos atrás, quando ainda trabalhava com o cunhado. O cunhado tinha ido embora depois do que aconteceu com o irmão de Marisa, e ninguém mais tocou no assunto. Anísio nem lembrava direito o que tinha acontecido. Lembrava da briga, lembrava de Marisa chorando, mas os motivos já tinham se misturado com outras coisas, outras brigas, e ele não sabia mais o que era verdade. Lembrou do cheiro da casa, parecido com esse. Só isso.

Trocou pela nova, de plástico reforçado, guardou a velha na caixa por hábito de não deixar lixo na casa do cliente. Recebeu o dinheiro combinado e foi embora pensando já no próximo compromisso. O calendário de 2019 ficou na cabeça dele sem motivo. Não pensou mais nisso.

Passou o resto do dia com a cabeça em outra coisa. Almoçou dentro do carro, entre um serviço e outro, um sanduíche de mortadela que comprou no posto e comeu devagar por causa do dente, mastigando do lado esquerdo, com cuidado. Só voltou para casa depois das seis, cansado demais para pensar em torneira nenhuma.

Na quinta à noite, quando voltou para casa, Bia estava na porta esperando ele. Queria mostrar uma coisa. Tinha aprendido a fazer estrela com elástico nos dedos. Mostrou, toda orgulhosa, e Anísio ficou olhando aquilo sem entender direito como aqueles dedos pequenos faziam aquilo. Ela tentou ensinar, mas ele não conseguiu, e os dois riram daquilo. Depois ele foi tomar banho.

Mais tarde, ainda naquela quinta, comprou a torneira nova para a própria casa. A velha da cozinha vazava havia meses, empurrada para o fim da lista porque conserto de casa própria sempre ficava para depois de todo o resto. Marisa já tinha reclamado duas vezes naquela semana, e na segunda vez falou num tom que não era o de sempre, um tom de quem está cansada de pedir a mesma coisa. Anísio não respondeu. Passou na loja perto da rodoviária porque estava no caminho de volta e não queria perder mais tempo escolhendo entre modelos. Escolheu a mais barata, lacrada, e só abriu a caixa em cima da mesa depois do jantar, com Bia já dormindo e Marisa assistindo televisão na sala.

O plástico branco cobria um núcleo. Ele só notou porque a peça pesava mais do que deveria para aquele tipo de torneira. Desmontou com uma chave de fenda, sem pressa, achando que fosse algum reforço de fábrica. Por baixo do plástico havia latão amarelado, gasto, com uma rachadura em meia lua na mesma posição exata das outras duas.

Ficou olhando aquilo por um tempo comprido, sentado à mesa da cozinha, sem tocar de novo na peça. O dente pulsava. Na parede em frente tinha uma mancha de umidade que ele vinha prometendo pintar desde o ano passado, uma mancha escura que subia do rodapé e parava mais o menos na altura da tomada. Ele olhou para a mancha. Olhou para a torneira. Não pensou nada de especial sobre nenhuma das duas.

Contou para Marisa no dia seguinte, de manhã, enquanto ela passava manteiga no pão. Ela ouviu sem parar o movimento da faca e disse que devia ser lote antigo, essas lojas empurram qualquer coisa. Fazia sentido enquanto ela falava. Anísio quis acreditar. A explicação durou até ela sair para o trabalho e ele ficar sozinho com a torneira aberta em cima da mesa, o núcleo de latão brilhando fosco sob a luz da manhã.

Levou o pedaço para seu Ivo, na ferragem da avenida, mais para ouvir alguma coisa que fizesse sentido do que por precisar de peça nova. Seu Ivo trabalhava ali desde os anos oitenta, tinha vendido torneira para quase toda casa da orla, uma época em que ainda conhecia os clientes pelo nome. Pegou o núcleo, virou entre os dedos grossos, ficou calado por um tempo maior do que uma resposta simple costuma levar. Disse só que já tinha visto modelo parecido, fazia muito tempo, e que aquela linha não se fazia mais. Devolveu o pedaço rápido demais, como quem larga alguma coisa quente. Antes de virar para o próximo cliente, ainda olhou para a porta dos fundos da loja. Depois já perguntava se Anísio ia levar o rolo de fita veda rosca ou não, olhando para o próximo cliente na fila do balcão. Antes de Anísio sair, ainda comentou que a pressão dele tinha subido de novo, que o médico tinha mandado cortar o sal, mas que comida sem sal não desce, e que a mulher dele tinha escondido o saleiro, e que ele tinha comprado outro e escondido no balcão, e ria sozinho daquilo. Anísio riu também, sem saber direito por quê.

Saiu da loja sem saber se tinha ficado mais tranquilo ou pior do que antes de entrar, o pedaço de latão de volta no bolso da jaqueta, batendo contra a perna a cada passo até o carro.

Quis se livrar do núcleo naquela noite. Colocou dentro de uma sacola plástica e atravessou o quintal até a lata de lixo perto do portão. No meio do caminho a sacola pareceu pesar mais na mão. O cheiro de maré vinha forte do outro lado da rua, onde a água tinha subido mais que o normal naquela semana. Anísio parou. Depois voltou para dentro. Guardou tudo no fundo do armário da área de serviço, atrás dos produtos de limpeza que quase nunca usava. Naquela noite, um cachorro magro apareceu no quintal. Anísio viu pela janela. O cachorro ficou um tempo parado, olhando para a casa, depois foi embora. Anísio não pensou nada sobre aquilo.

Depois daquilo evitou o assunto. Não comentou com os outros encanadores que conhecia. Também não voltou à casa da rua das Camélias para conferir se a torneira ainda estava lá, nem quis saber se seu Osni tinha notado alguma diferença. Quando a imobiliária ligou de novo, oferecendo serviço parecido numa casa na Riviera, Anísio ficou um tempo com o telefone na mão antes de responder. Inventou que estava sem agenda. Desligou. Ficou olhando para o telefone, como se ele fosse ligar de novo. Marisa notou o silêncio dele naqueles dias, perguntou uma vez se estava tudo bem no trabalho, e aceitou sem insistir quando ele disse que sim.

Numa dessas noites, deitado no escuro, Anísio pensou uma coisa sobre a Bia. Não chegou a terminar. Ficou acordado um tempo depois, com vergonha. Não sabia de quê.

Naquela sexta à noite, Bia piorou. A respiração ficou curta, o chiado subindo cada vez que ela tossia, e Marisa quis levar direto para a UPA. Anísio pediu para esperar até de manhã, quando pegaria o resto de um pagamento pendente e dava para completar o remédio certo, o de manutenção, sem depender do genérico do posto. Marisa disse que ele só pensava em dinheiro. Disse também que não era só ele que estava cansado, que ela também trabalhava, que ela também não dormia, e disse isso com uma raiva que não combinava com o momento, uma raiva acumulada de outras coisas que não tinham nada a residir com a filha. Anísio não respondeu. Pensou em dizer alguma coisa, uma coisa que ele nem sabia direito o que era, mas não disse. Sentou na beira da cama da Bia com a mão no peito pequeno dela, sentindo o ar entrar e sair em soluços curtos, e ficou ali até o chiado baixar um pouco, os olhos abertos no escuro muito depois de Marisa ter apagado a luz do corredor.

Foi beber água na cozinha perto da meia-noite. O som veio antes de ele acender a luz, uma gota batendo na cuba de metal com um timbre agudo que ele reconheceu antes mesmo de abrir os olhos direito. Se agachou e puxou a porta do armário embaixo da pia. A torneira nova estava fechada, o registro geral da casa também fechado, do jeito que ele mesmo tinha deixado ao instalar a peça dias antes. Girou o registro com mais força ainda, sentindo a vedação travar por completo contra a mão.

A gota continuou caindo no mesmo ritmo.

Ele tocou o líquido com a ponta do dedo. Estava frio e salgado, com o mesmo cheiro de maré baixa que sentira no quintal e na casa da rua das Camélias. Levou o dedo à boca. Era salgado mesmo. Cuspiu na pia.

Ficou parado ali, o dedo molhado, ouvindo a gota cair mais uma vez.

Não disse nada. Não chamou Marisa. Fechou o armário devagar, sem fazer barulho, e voltou para o quarto. Deitado de costas. O dente pulsava. Pensou no cachorro magro, sem saber por quê.

Da cozinha veio outra gota.

Anísio fechou os olhos.

Amanhã tinha consulta da Bia.

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