quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O Pescador de Guaratuba

O Pescador de Guaratuba

Guaratuba, Paraná Tadeu Everton Zamoiski

Guaratuba não tem mar. Tem boca. Foi meu avô Aníbal que me ensinou isso. Ele morreu em 88, três dias depois de me tirar vivo da boca da barra. Eu tinha dez anos. O dente da frente dele tinha uma falha igual à minha.

Eu sou João Batista. Não por causa do santo. Porque meu pai achou bonito. Nasci em 78. Tenho 48. Pesco desde os nove. Minha baleeira é a LURDES II, azul e branco, com o nome já quase apagado na popa. Todo dia saía quatro da manhã. Passava na Igreja do Porto, molhava o dedo na garrafinha de água benta que a Lurdes deixava na proa, benzia a testa e ia.

Dia 17 de maio o rádio disse que ia ventar. Só ventar. Aqui quando falam só ventar, pode se preparar que o céu fecha em dez minutos e a água fica preta de óleo queimado. Era safra de tainha. Tainha gorda de maio.

Eu já tava fora. Na boca da barra. A mesma boca que levou meu avô. A rede veio estufada. Tainha se debatendo, batendo no fundo do barco. Gritei alto:

— Obrigado, meu Deus!

A água me respondeu.

Veio de sudoeste uma parede preta d'água com aquela renda branca em cima rasgando. O vento arrancou meu boné. O céu ficou verde de machucado. O motor da LURDES II tossiu duas vezes e morreu. Fiquei no remo.

Primeira onda me deitou. Segunda me encheu até a metade. Água na boca, no nariz, no olho. Sal que arde. Gritei Lurdes. Gritei Ana. Depois gritei qualquer coisa, só pra não ficar quieto.

E foi ali que eu fiz merda.

Eu não rezei. Eu negociei.

Dei um tapa na borda do barco, com água na cara, e falei pra baixo, pra água, como se fala pra cachorro bravo que vai morder:

— Me deixa voltar. Me deixa voltar que eu te dou o que você quiser.

O mar parou. Um segundo só. Juro por Deus que parou. No meio daquele inferno todo, o barco ficou parado. Liso. E boiou na minha frente uma boia velha, de isopor, toda comida de craca. A boia do meu avô. Eu conhecia de criança. O barco dele se chamava ANINHA. Nome da minha avó. Minha filha Ana herdou o nome dela. Ele escrevia o nome de caneta azul em tudo que era dele.

Na boia só dava pra ver ANI... o resto a craca comeu. Mas eu li certo. Tava escrito ANINHA.

Aí o vento voltou. O motor pegou. Sozinho. Tec-tec-tec e pegou.

Me empurrou pra dentro da baía feito mão de gigante empurrando pelas costas. Cheguei no cais vomitando água e peixe. A Lurdes me abraçou. Eu chorava no ombro dela que nem piá. A Ana perguntou por que eu tava chorando.

De noite a Ana pegou febre. Quarenta. A Lurdes botou pano frio, deu dipirona, levou no postinho. Nada. A menina delirava. Falava baixinho:

— Pai, tá frio na água. Tá frio.

No terceiro dia eu não aguentava mais.

Fui na Igreja do Porto. Confessei pro Padre Ivo.

— Fiz um pacto.

Ele me olhou por cima dos óculos. Ficou quieto um tempo.

— Igual seu avô, João. Em 88. No dia que ele te trouxe de volta vivo da boca da barra. Você ficou com febre de quarenta por três dias. Ele me contou na porta da igreja, antes de voltar pro barco, que tinha falado igualzinho: "me deixa voltar que eu te dou o que você quiser". No fim da febre, o mar levou ele.

Eu não sabia. Nunca me contaram.

Me deu dez Ave-Marias e mandou eu parar de beber. Eu não bebo. Eu só pesco.

Voltei pra casa. Ana tava pior. Lábio roxo. Unha roxa. E a casa inteira cheirando a mar, mesmo com janela fechada. A Lurdes me olhou e já sabia.

— O que você trouxe, João?

Contei. Ela não gritou. Sentou no chão da cozinha e botou a mão na boca.

— Devolve, João. Devolve pedindo.

Mar não devolve.

Meu avô contava que lá no Poço das Pedras, em 71, o filho do Seu Antônio caiu na rede e não voltava. Ele pegou o cachorro do vizinho, botou no barco e jogou no meio da baía. O cachorro se afogou e o menino melhorou no hospital em Paranaguá na mesma hora. Ele dizia: a boca tem que comer, mas aceita troca.

Pensei no Seu Olavo, do mercado. Velho ruim. Batia na mulher, roubava no peso do camarão. Pensei: levo ele.

De madrugada peguei a LURDES II. Sem lamparina. Bati na porta dele.

— Olavo, me ajuda na rede?

Ele saiu de cueca, fedendo a cachaça. Magro, seco.

— Que horas são, caralho?

Levei ele pro barco. Leve feito graveto. Parei no meio da baía, em frente ao Morro do Cristo, onde a água fica mais preta.

— O que cê tá fazendo, João?

Ele se agarrou na borda com as duas mãos e começou a rezar baixinho, um Pai-Nosso atropelado. No cais, a luz da casa dele acendeu. A mulher dele na janela.

Não consegui. Liguei o motor. Deixei ele no cais.

Me xingou até eu sumir na neblina.

Voltei pra casa. Ana tava sentada na cama. Sem febre nenhuma. Brincando de boneca. Me viu e riu. Atrás dela, no canto do quarto, tinha uma mancha na parede que nunca teve. Em formato de homem. Alta. Pingando água. A silhueta do meu avô.

A mancha olhou pra mim e começou a abrir no meio. Não era mais homem. Virou boca.

A Lurdes tossiu na cozinha. Uma tosse funda, de dentro.

Corri. Ela tava em pé, com a mão no peito, com água saindo pelo nariz. Primeiro clara. Depois escura, de lodo.

Botei a mão no rosto dela. Ficou salgada.

— Não — falei pra boca na parede. Pro mar que tava dentro da minha casa. — Não ela. Eu. Eu que fiz o pacto. Pega eu.

A boca cresceu. Tomou a parede inteira. O cheiro de lodo tomou a casa toda. Aí a Lurdes parou de tossir. A água parou.

Ana me chamou da cama:

— Pai, quem é o moço molhado atrás de você?

Dentro da boca na parede tinha um barco desenhado. A LURDES II.

Peguei a Ana no colo. Tava quente, normal. Cheirando a criança. Beijei a testa dela. Falei pra Lurdes:

— Leva ela pra casa da tua mãe hoje. Não volta antes de amanhã.

— João, o que você vai fazer?

— Pagar.

Saí de madrugada. Sozinho. Sem benção. Deixei a garrafinha de água benta no cais. Se o mar quer, que venha sem reza.

Fui até o mesmo ponto. A boca da barra. Desliguei o motor. Tirei a camisa. O mar tava liso, igual vidro sujo. Sem vento nenhum. E mesmo assim o barco balançava.

Eu entrei.

A água tava tão gelada que queimava. Não afundei. Ela me segurou em pé, até a cintura, como se fosse chão. E debaixo d'água eu vi eles. Pescador antigo de chapéu de palha, criança afogada, mulher de toalha molhada. Todo mundo olhando pra cima. Imóvel.

Na frente de todos, tava meu avô Aníbal. Com a falha no dente. Me esperando.

A LURDES II ficou boiando vazia em cima, com o nome descascado.

A última coisa que senti antes da água entrar de vez foi a mãozinha da Ana na minha, quando ela tinha dois aninhos e eu ensinava ela a dar tchau. Fechei a mão, com força, como se a dela ainda tivesse ali dentro.

Ouvi a voz da Ana atravessando a água, gritando: "Mãe! O barco do pai voltou sozinho!" Ouvi as tainhas batendo. E por baixo, ouvi o motor da LURDES II pegar sozinho de novo. Tec-tec-tec.



A LURDES II tava amarrada no cais. Perfeita. Seca. Cheia. Dezoito caixas de tainha gorda, pulando, batendo. Trezentos quilos. Na banca do Olavo, no Mercado Municipal, a tainha fresca tava saindo a R$ 18,90 o quilo naquela semana de maio. Dava mais de cinco mil reais de peixe.

Em cima da tainha tinha meu boné. Pingando.

A Ana pegou e botou na cabeça. Ficou grande.

A Lurdes pegou a garrafinha de água benta no cais, molhou o dedo e benzeu a testa da Ana.

O mar tava liso e azul, de boca fechada.

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