Tadeu Everton Zamoiski Riviera
Eu não acredito em planta que sente dor. Planta sofre com praga, com sol demais, com raiz entupindo cano. Dor é coisa de gente.
Foi o que eu falei pro velho do chapéu no primeiro dia. Meu nome é Cleuza. 54 anos, dois joelhos ruins e uma Kombi branca que só pega na segunda tentativa. Faço jardinagem na Riviera há vinte anos.
Me chamaram pra limpar a casa da Rua das Palmeiras, 47, antes de vender. A dona morreu. Casa antiga. Madeira comida de maresia. Terreno enorme nos fundos.
No meio do mato, um retângulo capinado. Diferente do resto. Como se alguém tivesse cuidado daquilo até semana passada.
— Isso aqui quem plantou?
— Dona Lúcia. A mãe da moça. Vinha todo mês só pra mexer ali.
No primeiro palmo, a enxada bateu em terra fofa. Um saco plástico preto.
Dentro, fotos de um homem magro, de bigode, com uma criança no colo. Reconheci a criança pela pintinha no queixo. Era a filha que me contratou, mais nova. No mesmo saco, enrolado num guardanapo, um anel de noivado. E atrás da foto: "Guaratuba, 78 -"
Só isso. O resto apagado de tanto dedo.
No dia seguinte, brotou uma flor ali. Tipo copo-de-leite, torta. Com uma mancha que parecia bigode. O homem da foto.
— Que praga é essa, Cleuza?
— É fungo.
Continuei cavando. Mais fundo, começou um som curto, abafado, vindo da terra. Como choro abafado por terra. Achei que era bicho. Mas bicho não chora assim.
No palmo seguinte, uma caixinha de remédio vazia. Receita amarelada. "Maria da Glória - parteira. Pra secar o leite. 1971. Tomar 2 por dia."
Quando tirei a caixinha, as flores mudaram. Não era mais só o homem de bigode. Tinha outras agora, espalhadas pelo canteiro. Umas tinham cara de menina, outras a boca torta. Todas viradas pra casa. É fungo, eu pensei já sem acreditar.
No meio da semana, a filha me ligou.
— Dona Cleuza, deu muito trabalho aí no terreno?
— Só mato.
No fundo, quase um metro abaixo da caixinha da parteira, a enxada bateu numa caixa de madeira, do tamanho de uma de sapato. Pesada.
Dentro, ossos pequenos. E uma pulseirinha de hospital. Nome: Lúcia. Data: 12/03/1971. E embaixo, com a mesma letra do verso da foto:
"Lúcia, como eu. Que"
Só isso.
Levei pra filha, na Caiobá.
Ela pegou a pulseirinha e ficou olhando a letra.
— É a letra dela. Reconheço de cor. Era assim que escrevia as listas de mercado. Ela dizia que tinha perdido um bebê antes de eu nascer.
Ela ficou olhando pra pulseirinha como se tivesse achado uma foto dela que nunca existiu.
Voltamos juntas pra Riviera. Ela queria arrancar tudo.
O jardim já tinha saído do canteiro.
Em duas semanas, tava na grama, na fresta da calçada, subindo pela parede de madeira.
O mais bonito da Riviera.
A corretora passava e elogiava. Algumas pessoas comentavam baixinho e iam embora.
No meio de tudo, no centro do canteiro original, tinha uma flor enorme, vermelha. Com o rosto da Dona Lúcia mais nova. A de 1971.
Quando cheguei com a enxada, a pétala se fechou um pouco. A seiva subiu escura pelo cabo. Quente. Cheirava a leite azedo e talco de bebê. Daquele Johnson rosa antigo. Minha mão tremeu no cabo. Larguei.
A filha ficou em pé, na frente da flor vermelha.
— Ela sorria assim nas fotos antigas — ela disse. — Antes de eu nascer.
No dia seguinte a placa de VENDE-SE sumiu.
— Deixa — ela me disse no telefone. — Se ela quis guardar, deixa guardado lá.
Disse "guardado". Não "enterrado".
Hoje eu passo na frente às vezes. A casa fechada. O jardim lindo.
Cheio de flores com rostos. Todas viradas pro sol.
Menos a vermelha. A vermelha tá sempre virada pra rua. Mesmo quando o sol tá nas costas.
Ontem o velho do chapéu me parou no portão.
— Voltou a ouvir?
Eu não respondi.
Na saída, fui dar partida na Kombi. Pegou de primeira.
Isso nunca aconteceu.
Quando olhei no retrovisor pra sair, vi terra fofa, preta, de canteiro, no banco do passageiro.
Eu não acredito em planta que sente dor.
Mas comecei a achar que tem planta que não esquece.
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