Fora de temporada
Tadeu Everton Zamoiski
Valdecir acordava antes da lotérica abrir. Cinco e quarenta em Matinhos já tem claridade, mas ainda tem aquela friagem que entra pela fresta da janela. Ele morava nos fundos da Juscelino, no Tabuleiro, numa casa de duas peças com a mulher e com a caixa de ferramentas encostada na geladeira porque não tinha outro lugar. A mulher passava a manhã na cadeirinha baixa de madeira na cozinha, descascando batata. O remédio novo era cento e vinte reais. A parcela da moto, uma CG 125 que ele usava para fazer as rondas, vencia dia dez. Já era dia oito.
Ele cuidava de sete casas de temporada entre Matinhos e Caiobá. Ganhava por faxina e por manutenção. Tirar mofo, passar veneno para barata, ligar a geladeira que fica meses desligada, ver se a caixa d'água não criou limo, cortar mato. Em Caiobá o sal come tudo. Dobradiça, parafuso, portão. Ele andava com um vidro de WD na mochila e com um rodo pequeno que não largava.
A casa da Rua Jacarandá, 212, era da Dona Lourdes de Curitiba. Ela ligou na terça.
"Valdecir, vou ter que alugar no fim de semana. O senhor pode dar uma geral. O pessoal entra na sexta."
Ele anotou no caderno de capa preta todo manchado de graxa. Casa 212. Limpeza completa. A Dona Lourdes pagava atrasado mas pagava. Sem aquela casa, seriam quatrocentos reais a menos no mês.
Chegou lá às oito. A rua ainda estava úmida da noite. A casa tinha dois andares, reboco grosso e um portão de ferro que deixava a mão laranja de ferrugem. Cheiro de casa fechada, mistura de mofo com areia fina. Abriu as janelas da frente e a porta dos fundos para ventilar. Ligou o disjuntor.
A sala estava normal. Capa nos sofás, marca de sol no piso. Na cozinha, copos virados. Começou a varrer. Quando foi para a área pegar o balde, viu a cadeira.
Era uma cadeira de plástico branca, daquelas de bar, com a perna traseira um pouco torta. Estava no meio da sala, em cima do tapete que ele ainda nem tinha aspirado. E estava molhada. Não úmida. Molhada mesmo, com água acumulada no assento, escorrendo pelas pernas e fazendo uma poça escura no tapete.
Ele parou com a vassoura na mão. Olhou para o teto. Sem goteira. Olhou para as janelas. Fechadas. Encostou a mão na água. Fria, com areia grossa no fundo, aquela areia de praia que arranha. Cheirava forte a maresia.
Pensou primeiro em alguém que tinha entrado ali. Pegou o celular e mandou áudio.
"Dona Lourdes, cheguei aqui na casa. Tem uma cadeira no meio da sala cheia de água. A senhora emprestou para alguém esses dias."
Ela respondeu uma hora depois, enquanto ele esfregava o banheiro de cima.
"Não, Valdecir. Ninguém foi. Essa cadeira nem é minha. Minhas cadeiras são as de ferro da área. Pode tirar de lá."
Ele voltou para a sala. A cadeira continuava pingando. Pegou pelas costas, levou para a garagem e encostou atrás das quatro cadeiras de ferro. Lavou as mãos no tanque. A água deixou um cheiro de peixe e lodo na pele que o sabão não tirou de primeira.
Terminou a limpeza às três. Varreu a garagem de novo, tirou foto e mandou para a Dona Lourdes. Fechou tudo.
Na quarta ele passou na lotérica para tentar pagar metade da parcela. O sistema estava fora do ar. Na volta, passou na Jacarandá só para conferir o portão.
Abriu. Da calçada já viu a porta da frente trancada como tinha deixado. Entrou.
Ainda havia cheiro de produto de limpeza. E no meio da sala, exatamente onde tinha deixado, estava a cadeira de plástico branca de novo.
Agora seca. Completamente seca. Mas com areia nos quatro pés, fazendo quatro círculos escuros no tapete claro que ele tinha aspirado.
Ele sentiu raiva porque o tapete estava limpo e agora estava sujo de novo e a Dona Lourdes ia achar que ele não tinha feito o serviço.
Deu a volta na casa inteira. Porta dos fundos trancada por dentro, com a tramela que só fecha por dentro. Janelas fechadas. Olhou o muro dos fundos. Um metro e meio, com caco de vidro em cima.
Pensou nos moleques da rua. Um deles podia ter pulado o muro. Moleque pula muro para pegar bola, para pegar manga.
Ficou alguns segundos parado na sala com a cadeira na frente. Era isso. Tinha que ser.
Pegou a cadeira e jogou no quintal dos fundos, deitada de lado, perto do muro.
Tirou foto do tapete e mandou para a Dona Lourdes.
"Dona Lourdes, a cadeira voltou para dentro da sala. Deixei no quintal."
Ela respondeu seca.
"Valdecir, só o senhor tem a chave. Deixa no quintal e pronto."
Cortou o mato da frente mais curto do que precisava. Antes de ir embora, foi na garagem contar as cadeiras de ferro. Quatro. Foi no quintal ver se a branca ainda estava lá deitada.
Não estava mais. No lugar onde tinha deixado, tinha só a grama amassada e um pouco de areia úmida grudada, mesmo sem ter chovido.
Na quinta choveu o dia inteiro, aquela chuva fina de Matinhos que enferruja tudo em dois dias. Ele não tinha serviço na Jacarandá, mas passou de moto na frente na volta do mercado. O quintal estava encharcado, cheio de poças. A marca onde ele havia deixado a cadeira tinha desaparecido. A cadeira não estava lá.
Na sexta os inquilinos entraram. Família de Ponta Grossa. Ele entregou a chave na imobiliária e não foi até a casa.
No sábado de manhã o telefone tocou. Era o rapaz da imobiliária.
"Seu Valdecir, o pessoal da Jacarandá reclamou que tem uma cadeira de plástico no meio da sala, cheia de água do mar. A Dona Lourdes está brava."
Levantou da cama ainda de bermuda.
"Eu limpei. Essa cadeira não é de lá."
"Então dá um pulo lá."
Chegou de chinelo, camisa amassada. A família estava na área fazendo churrasco. O homem veio falar com ele na garagem.
"Desculpa aí, mas a gente chegou e essa cadeira estava no meio da sala. Minha filha sentou e ficou toda molhada."
Valdecir entrou na sala. A cadeira estava lá, no centro do tapete. Molhada de novo, escorregando muito mais que da primeira vez. O assento cheio de água turva, quase preta, com areia grossa e um pouco de lodo. No meio da água turva havia duas marcas pequenas de pés descalços.
Ele não falou nada. O barulho da água pingando no tapete era alto. Pegou a cadeira com as duas mãos. A água fria escorreu pelo braço.
Levou para fora, atravessou a rua e jogou na caçamba de entulho da esquina da Rua das Flores. A cadeira caiu no fundo. Ele ainda ouviu o plástico bater duas vezes antes de parar.
Voltou, pegou o rodo e secou o tapete na frente da família.
"Essa cadeira não é da casa", ele disse. "Se aparecer de novo, me liga."
No domingo não trabalhou. Na segunda de manhã a Dona Lourdes mandou mensagem dizendo que os inquilinos tinham ido embora e que a casa estava boa, mas que tinha achado areia demais na sala. Ia descontar cinquenta reais da faxina para pagar a lavagem do tapete.
Cinquenta reais. Ele ficou olhando para a mensagem. Era quase metade do remédio. Respondeu que não era justo. Ela não respondeu.
Na segunda à tarde foi até a casa buscar a extensão laranja que tinha esquecido na área. Abriu o portão. A casa vazia, ainda com cheiro de churrasco. Entrou. A sala estava limpa.
No meio da sala não tinha cadeira nenhuma.
Respirou fundo e foi para a área pegar a extensão. A porta da lavanderia, que ele tinha certeza que tinha fechado, estava entreaberta.
Empurrou com o pé.
Na lavanderia, encostada na parede, estava a cadeira de plástico branca. Seca. Virada para o azulejo.
Valdecir ficou olhando. A cadeira estava exatamente no canto onde ele costumava sentar para fumar quando terminava de lavar o quintal. No mesmo lugar onde ele deixava o balde virado para servir de banco.
Virou as costas, fechou a casa e foi embora de moto, mais rápido do que costumava andar naquela rua esburacada.
Chegou em casa no fim da tarde. Deixou a bota na área e entrou de meia.
A mulher estava na pia. Olhou para ele.
"Valdecir..."
Ela apontou para o chão.
No lugar da cadeirinha baixa de madeira, estava a cadeira de plástico branca. Molhada. A água escorria pelas quatro pernas e se espalhava pelo cimento queimado. Havia areia grossa em volta.
"Eu tirei a minha daqui agora", ela disse.
Valdecir não respondeu. Ficou parado na entrada da cozinha. Estava de meia. A água já tinha chegado à ponta do pé dele.
Olhou para the cadeira branca.
A água continuava pingando do assento.
No lugar onde ficava a cadeirinha de madeira, havia quatro marcas molhadas no cimento.
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