por Tadeu Zamoiski
O sobrado não queria ser consertado. Queria ser deixado quieto. Eu aceitei.
Rafael Lins. É o que tá no carimbo. Restaurador de patrimônio. Na prática sou o cara que a prefeitura chama quando ninguém mais quer se enfiar no mofo.
No meu celular, foto do Miguel de papel de parede. Tela toda trincada. Seis anos. Está em Matinhos com a Ana. Eu prometi buscar no sábado. Fazia três sábados que eu prometia.
O dono me ligou. Médico aposentado.
Dr. Almir = Sr. Rafael, herdei o imóvel da família na Rua da Praia. Segundo andar, sala íntima, umidade crônica. Que volta sempre. O engenheiro falou em infiltração, mas para mim parece outra coisa. Uma ferida que não cicatriza. Quero que o senhor raspe até achar o que presta.
Eu = Doutor, isso aí é sete demão de cal por cima de reboco podre. É igual dente cariado, o senhor pinta por cima e continua podre por dentro. Tenho que vir na espátula até o tijolo aparecer.
Dr. Almir = Faça. Eu não entro lá. Minha mãe faleceu nessa sala. Eu não consigo.
Pagou metade no pix e sumiu.
No décimo dia, raspando a saleta, a cal caiu em placa. Oca. Atrás tinha um nicho. E dentro, um espelho.
De corpo inteiro, moldura de jacarandá, pesada que só a porra. Sem um risco. Numa casa onde tudo tinha um dedo de pó, ele estava limpo. Dava pra ver meu bafo nele.
Me olhei. 38 anos, camiseta encardida, suor escorrendo pela costela e grudando nas costas.
O reflexo demorou. E quando mexeu, mexeu primeiro. Antes de mim.
Reflexo = Demorou. Não eu.
Travei com a espátula na mão.
Eu = Quem está aí?
Reflexo = Você. Só que sem o resto.
Ele falava igual eu falo em obra. Sem vírgula.
Sentei no taco gelado. Levei a cachaça que uso para limpar pincel.
Reflexo = Por que não foi no enterro do seu pai?
Eu = Estava com trampo em Morretes. Tinha que entregar o forro, senão não recebia.
Reflexo = Mentira. Você teve nojo. Nojo dele largado na cama, com a perna preta. Justo você, que vive de coisa podre.
Doeu porque era verdade.
O Dr. Almir apareceu no dia seguinte, de máscara PFF2, ofegante, com um oxímetro na mão.
Dr. Almir = Rafael, o senhor está pálido. Está se alimentando? Aqui tem fungo, Stachybotrys, pode fechar seu pulmão.
Eu = Estou bem, doutor. Olha o que achei. Era da sua mãe, né?
Ele ficou branco.
Dr. Almir = Minha mãe dizia que esse espelho pesava. Ela morreu aqui. Eu estava de plantão no Regional. Uma apendicectomia. Eu escolhi ficar no centro cirúrgico. Escolhi um estranho no lugar da minha mãe. Quando cheguei ela já estava fria. Em rigor. A cuidadora disse que ela ficou me chamando, olhando para esse vidro.
Respirou fundo. A voz quebrou.
Dr. Almir = Troquei minha mãe por um apêndice. E perdi os dois.
Foi embora quase correndo.
De noite o reflexo estava mais nítido. Mais bonito que eu.
Reflexo = Viu? O doutor também guarda um morto num canto que ninguém limpa. Me alimenta de novo. Cancela o Miguel. Você está acabado, vai chegar lá fedendo a verniz. O menino não precisa ver o pai assim.
Fez sentido. O sentido que eu queria ouvir.
Eu = Alô, Ana... ó, não vou conseguir buscar o Miguel amanhã. Deu um problema feio na laje aqui, vai cair tudo.
Ana = De novo, Rafael? Você é igualzinho ao teu pai. Só foge.
Desliguei. Mão tremendo.
Voltei para a saleta. O reflexo estava com a minha carteira no bolso. Sorrindo com um dente que eu não tenho mais.
Reflexo = Mais leve, né? Agora liga para ela. Fala que nunca amou ela de verdade. Fala de uma vez.
Eu liguei. Falei tudo que ele mandou. Minha ex chorou e me chamou de lixo. Derrubei a garrafa no chão.
Quando levantei a cabeça, a sala tinha mudado de cheiro. Cheiro de tinta nova. Cheiro de casa que nunca apodreceu. Parede branca, taco brilhando. Eu não tinha pintado nada.
Olhei para o vidro. Vazio.
Atrás de mim, barulho de mão lisa na parede. Devagar.
Me virei. Ele estava ali. De costas. De terno claro, cheiroso pra caralho. Passando a mão no meu serviço.
Rafael limpo = Serviço de primeira, hein, mestre? Quanto o doutor está te pagando? Está te explorando.
Eu = Sai da minha parede.
He se virou. Mudou a voz. Ficou frio, igual médico dando notícia.
Rafael limpo = Rafael, quadro compatível com delírio por inalação de solvente. Sudorese, taquicardia, confusão. Sugiro afastamento imediato.
Peguei a marreta.
Eu = Volta para o vidro agora.
Bati com tudo. A marreta entrou como se o vidro fosse água. Uma mão quente me puxou pelo pulso. De repente eu era o vidro. Ele era a sala.
Caí sentado do lado de dentro. Gelado.
Lá embaixo, campainha.
Dr. Almir = Sr. Rafael? Trouxe um oxímetro. O senhor não estava bem ontem, fiquei preocupado. Estou ouvindo sua respiração daqui de baixo, está taquipneica.
O outro eu desceu as escadas sorrindo. Leve.
Rafael limpo = Doutor! Que bom que veio. Terminei o restauro. Ficou curado. Pode entrar? A sala íntima ficou perfeita. Parece que nunca morreu ninguém aqui dentro.
Ele sorriu. A casa estava perfeita. Sem uma marca.
E eu fiquei do lado de dentro, vendo a minha vida seguir sem mim.
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