Tadeu Everton Zamoiski
A mancha no teto tinha crescido desde o inverno passado. Silvia apontou na época, e ele disse que ia resolver. Não resolveu. Agora ocupava um canto inteiro do quarto, uma ilha escura que ficava mais visível quando a luz da manhã entrava pela janela. Tinta, massa corrida, impermeabilizante. Duzentos e cinquenta, talvez trezentos. Jorge acordou às cinco e vinte, antes do despertador, e ficou olhando para aquilo. Silvia dormia de costas, o cobertor puxado até o ombro. Ele pensou, sem querer, que ela podia ter feito os exames em Paranaguá, que era mais barato. Não disse nada. Mas pensou.
Na quarta anterior, ela tinha feito os exames no posto de Matinhos. O resultado saía na sexta. Nada grave, disse o médico. Mas era preciso investigar. Jorge não perguntou o que significava investigar. Trezentos e cinquenta era o preço da consulta com o especialista. Ele fez a conta de cabeça. Seis dias. Seis dias que ele não tinha.
Levantou sem fazer barulho. Vestiu a jaqueta com o rasgo no cotovelo, a que Silvia falava em costurar há duas semanas, e saiu. O ar de Caiobá em junho era pesado, cheio de maresia e de uma garoa fina que não molhava, só deixava tudo com aquela sensação de coisa que não seca. As calçadas rachadas brilhavam sob os postes. Passou pela Lotérica fechada, pelo mercado que só abria às sete, pegou a bicicleta no ponto de sempre. O quadro estava enferrujado. As rodas giravam.
Na esquina da Atlântica com a Curitiba, um homem de boné mexia numa caçamba de entulho, procurando alguma coisa. Jorge passou direto. Não sabia quem era. Talvez fosse o pedreiro que estava reformando a casa da esquina. Ou o irmão do seu Anselmo, que morreu no ano passado.
A imobiliária ficava na Avenida Atlântica, numa sala com balcão de fórmica e um ar-condicionado quebrado que ninguém consertava. Dona Cida chegava às nove, mas Jorge tinha a chave. Naquele dia, havia um bilhete na porta. "Jorge, precisamos conversar sobre a redução. Me liga." Leu duas vezes, dobrou o papel, guardou no bolso. Redução. Todo ano era a mesma coisa. Em junho, o movimento caía. O serviço passava de três para dois dias por semana. Menos casas, menos dinheiro.
Pegou a lista na gaveta. Sete imóveis, todos de veranistas que passavam o verão e deixavam as chaves com Dona Cida. A maioria ficava fechada de abril a novembro. O trabalho era simples. Passar duas vezes por semana, abrir as janelas, verificar infiltração, mofo, vazamento, trancar tudo de novo. Jorge fazia isso há sete anos. Nunca tinha acontecido nada.
A primeira casa era na Rua Londrina, construção antiga de madeira, portão que rangia. Jorge abriu o cadeado, entrou, fez o de sempre. Janelas, banheiro, teto da cozinha. Nada. Trancou e foi para a próxima.
A segunda era um sobrado na Rua Alvorada, perto da praia de Caiobá. Três quartos, os donos eram um casal de Curitiba que só aparecia em janeiro. Jorge subiu a escada externa, abriu a porta da frente, sentiu o cheiro de sempre. Madeira velha e mofo. Abriu as janelas, verificou os quartos, o banheiro, a cozinha. Tudo em ordem. Desceu, trancou a porta da frente, foi até os fundos verificar a porta traseira, que dava para um quintal pequeno com um limoeiro.
A porta dos fundos estava destrancada.
Jorge parou. Lembrava de ter trancado na quarta-feira. Lembrava do clique da chave. Mais talvez não tivesse trancado. Talvez tivesse se distraído. Acontecia. Girou a chave, sentiu o mecanismo travar, puxou para confirmar. Estava trancada. Ficou olhando para a chave por um instante. Alguma coisa incomodava, mas ele não sabia o quê. Foi embora.
Na sexta, voltou. A porta dos fundos estava destrancada de novo. Ficou parado na soleira, com a chave na mão. Tinha certeza de que havia trancado. Dormia mal, acordava às três com a cabeça cheia de contas, talvez estivesse esquecendo coisas. Trancou, testou, foi embora.
No sábado, Silvia perguntou se ele tinha falado com Dona Cida sobre a redução. Ele disse que não. Ela disse que a consulta era na terça. Ele disse que sabia. Ela disse que não parecia. Ele não respondeu. Ficaram os dois na sala, vendo televisão, sem falar. Em algum momento, ela foi dormir. Ele ficou.
Na segunda, comprou uma fechadura nova numa loja de ferragens da Rua Curitiba. Quarenta reais. O dinheiro saiu do que ele tinha separado para a consulta. Instalou com cuidado. Testou. Na quarta, a porta estava destrancada.
O vizinho viu. Ligou para o dono. O dono ligou para Dona Cida. Dona Cida ligou para Jorge.
"Jorge, o homem está querendo saber por que a porta da casa dele fica aberta. Você tem alguma explicação?"
Ele ficou em silêncio. Do outro lado, Dona Cida esperava.
"Eu troquei a fechadura", ele disse.
"E?"
"Não adiantou."
Dona Cida ficou quieta um momento. Jorge ouviu o barulho de uma cadeira, alguém falando em segundo plano. "Olha, Jorge, eu não sei o que está acontecendo. Mas o homem está pensando em chamar outra pessoa. Você entende?"
He entendeu. Se perdesse aquela casa, perderia parte do pagamento. E se perdesse o pagamento, não teria os trezentos e cinquenta. Teria ainda menos, porque quarenta já tinham ido embora na fechadura.
Na quinta, Jorge foi até a casa. Abriu a porta da frente, entrou, ficou parado na sala. Tudo como ele havia deixado. Cheiro de mofo, móveis cobertos com lençóis, poeira no chão. Foi até os fundos, abriu a porta, olhou para o quintal. O limoeiro, a grama alta, o muro de concreto. A chave que ele havia deixado na fechadura nova não estava mais lá. Não procurou. Trancou com a chave reserva, puxou, sentou-se no chão da cozinha para esperar.
O chão estava frio. A casa ficava mais escura a cada meia hora. Em algum momento, ele ouviu o mar. Em outro, um cachorro latindo longe. Jorge ficou olhando para o teto da cozinha. Tinha uma mancha parecida com a do quarto dele, só que menor. Pensou que, aos vinte anos, tinha trabalhado numa oficina de bicicletas na Rua XV, em Curitiba. O dono, seu Nelson, dizia que ele tinha mão boa para consertar coisas. Depois seu Nelson morreu, a oficina fechou, e Jorge voltou para o litoral. Nunca mais mexeu em bicicleta que não fosse a dele.
Perto das cinco, ouviu um estalo. Veio da porta dos fundos. Um som pequeno, seco, como quando a trava se ajusta no batente. Jorge levantou a cabeça. Olhou para a porta. A porta continuou trancada. Ele esperou mais um pouco. Nada. Sentou-se de novo. Quando escureceu de vez, levantou para ir embora.
Enfiou a mão no bolso para pegar a chave reserva. Não estava lá. Conferiu os dois bolsos da calça, depois o bolso da jaqueta. Nada. Foi até a porta dos fundos, olhou para a fechadura. A chave reserva estava lá, do lado de dentro. Não lembrava de ter deixado. Tirou a chave, guardou no bolso, saiu.
Em casa, Silvia estava na mesa da cozinha, com os papéis do posto espalhados à frente. Ergueu os olhos quando ele entrou.
"Conseguiu falar com alguém sobre o dinheiro?"
"Ainda não."
Ela assentiu e voltou a ler os papéis. Jorge pendurou a jaqueta no encosto da cadeira. Ficou parado um instante, olhando para as costas dela. Quis dizer alguma coisa. Não disse.
Antes de ir para a cama, olhou para o teto do quarto. A mancha parecia maior. Não comentou. Deitou. Ficou olhando para o teto no escuro. Em algum momento, sentiu a mão de Silvia no braço dele. Ela não disse nada. Só deixou a mão ali. Ele não se mexeu.
Na manhã seguinte, acordou às cinco e vinte. Vestiu a mesma jaqueta, calçou as botas, foi até a cozinha preparar o café. Antes de acender o fogão, viu. A porta da cozinha estava destrancada. A chave estava na maçaneta, do lado de dentro. Abriu a porta. O quintal de casa era pequeno, um pé de mexerica, um tanque de lavar roupa. A grama estava molhada de orvalho. Nada mais. Fechou a porta, trancou, puxou. Estava trancada.
Silvia apareceu na cozinha, ainda de camisola.
"Você está bem?"
"Estou", ele disse. "A fechadura está meio dura."
Ela olhou para ele por um instante. Olhou para a mão dele, que ainda estava no bolso da jaqueta. Jorge percebeu. Tirou a mão do bolso, mas era tarde.
"O que você está carregando aí?"
"Nada."
Ela não insistiu. Foi preparar o café. Jorge ficou na porta, olhando para o quintal. A roupa no varal balançava com o vento.
Ele trancou a porta de novo, pela segunda vez. Ficou parado na cozinha, com a chave da casa na mão. Olhou para a porta. Olhou para a chave. Depois pegou a chave da Rua Alvorada, que ainda estava no bolso da jaqueta, e encostou na fechadura da porta dos fundos de casa. Só encostou. Não tentou girar. Ficou com a chave na mão, sem fazer nada, por um tempo que não soube medir.
Depois guardou a chave de novo no bolso e saiu para trabalhar. No caminho, enfiou a mão no bolso para pegar a chave da bicicleta. Os dedos encontraram o metal. A mão ficou molhada. He não olhou. Continuou pedalando.
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