sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O LADO B

O LADO B
Tadeu Everton Zamoiski
Pontal do Paraná / Praia de Leste

Beira da estrada velha, chão batido
A canção que a criança aprende antes de nascer.

O carro morreu na subida de areia. Não foi dramático. Só fez nhoc e apagou.

Era um Corsa velho, 98, com o banco do carona quebrado pra trás. Eu tinha oito meses de barriga e trinta e sete reais no bolso. O celular sem sinal desde o balneário Shangri-lá. A estrada velha de Praia de Leste, aquela que ninguém usa mais depois que asfaltaram a outra.

O Beto me achou às cinco da tarde. Me deu dois tapas porque eu queimei o arroz. Na segunda ele jogou o prato na parede. Na terça disse que se eu fosse embora ia me achar. Na quarta eu fui.

Dirigi quatro horas com a calcinha molhada de medo e a bexiga apertando o bebê. Agora o carro não ligava. A chave virava e nada.

Na minha frente, uma luz amarela. Um bar.

Não tinha nome. Só um quadrado de madeira com telha de Brasilit, chão de terra batida mesmo, compactada de tanto pé. Uma lâmpada nua pendurada por um fio. Uma mesa de madeira crua com marca de cigarro. Um freezer velho desligado.

E uma jukebox.

Wurlitzer. Daquelas grandes, com plástico bolha na frente, luz que gira. Só que suja, cheia de barro seco na base. Não tava ligada na tomada. O fio atrás tava cortado, enrolado.

O velho atrás do balcão não perguntou nada. Devia ter uns oitenta anos, pele de couro. Me olhou de cima a baixo, olhou minha barriga, e só fez que sim com a cabeça.

— Tem água? — eu perguntei.

Ele me deu um copo de plástico com água morna. Cheirava a poço.

Eu sentei. O banco de madeira tava quente do sol do dia todo. Minhas pernas incharam. Minha calça legging grudava.

— Seu carro?

— Morreu.

— Amanhã o guincho passa. Se passar.

Eu comecei a chorar. Sem som. Só as lágrimas descendo.

Foi aí que a jukebox acendeu.

Sozinha.

Click. Uma luzinha fraca. O disco de dentro começou a girar. Não tinha ficha. Não tinha ninguém perto.

E tocou.

Não era sertanejo, não era rádio. Era uma valsa. Lenta. Piano velho e uma mulher cantando baixo, em português mas com sotaque esquisito, como se fosse de muito antigamente.

Dorme, meu bem, dorme no fundo...

Quando o primeiro acorde fez pam-pam-pam, o bebê chutou.

No tempo.

Eu levei a mão na barriga automaticamente.

— Ai.

O velho me olhou.

— Ela gostou.

— O que é isso?

— Lado B.

A música continuou. E o bebê continuou marcando. Cada nota grave do piano, um chute. A voz da mulher fazia um vibrato e o bebê virava dentro de mim.

Me deu ânsia. Aquela sensação de corpo invadido que você tem a gravidez inteira mas tenta não pensar. De que tem uma coisa viva usando seu corpo por dentro. Agora essa coisa tava ouvindo música antes de nascer e dançando.

— Desliga isso — eu falei.

— Não desliga.

Ele enxugou um copo com um pano sujo.

— De onde veio essa jukebox?

— Veio da praia.

Ele apontou pra estrada, pro lado do mar que a gente não via. Só isso.

— Tinha uma vila ali. O mar comeu.

A valsa repetia. Eu comecei a entender a letra, porque a mulher cantava bem arrastado, bem perto do microfone:

Dorme, meu bem, dorme no fundo Onde o mar não faz barulho Mamãe te leva pro profundo Onde nenhum homem te machuca

Minha espinha gelou. O bebê chutou mais forte.

O velho disse, sem eu perguntar:

— Cantavam pra dormir. Antes de levar.

Eu vomitei. Água morna e bile, no chão batido.

O bebê não parou.

— Por que tá tocando pra mim?

Ele olhou pra minha barriga.

— Ela sabe.

— Eu não vou fazer nada com meu filho!

Ele não respondeu. Só secou o mesmo copo de novo.

— Nenhuma delas ia.

A jukebox aumentou o volume sozinha. A lâmpada nua começou a piscar no ritmo. O chão batido vibrava.

Senti uma contração. Forte. Falsa, eu achei. Só que veio outra em cima. E água. Minha calça molhou de vez.

— Minha bolsa...

— Já vi isso antes — ele disse, baixo. E olhou pra estrada. Não disse mais nada.

A dor rasgou de um lado ao outro da minha barriga. Eu caí de joelhos no chão batido. Terra entrou na minha unha. A valsa tava no refrão de novo. E o bebê se mexia como se quisesse sair no tempo exato.

Dorme, meu bem, dorme no fundo...

Eu gritei. Não de dor de parto. De ódio. Peguei uma pedra do chão — terra dura — e taquei na jukebox.

O plástico quebrou. A luz faiscou. A música arranhou, ficou lenta, voz de mulher arrastada como disco molhado.

O bebê parou de chutar.

Silêncio.

Só minha respiração e o chiado da jukebox morrendo.

Aí a dor voltou, mas era minha agora. Era parto mesmo. Sem música. Sem ritmo.

— Me ajuda! — eu gritei pro velho.

Ele finalmente saiu de trás do balcão. Se ajoelhou com dificuldade. Tinha uma toalha imunda no ombro.

— Faz força.

Eu fiz. Na terra. No chão batido de um bar sem nome na estrada velha de Praia de Leste, com 37 reais no bolso e sem marido pra me bater nunca mais.

Empurrei. Gritei o nome da minha mãe que morreu quando eu tinha 12. Empurrei de novo.

O bebê saiu. Escorregou na terra. Vermelho, sujo de sangue e de barro. Chorou alto. Choro de pulmão bom.

O velho cortou o cordão com um canivete.

Eu peguei ele. Menino. Coloquei no peito. Ele cheirava a mar, mesmo o mar estando a dois quilômetros.

Fiquei ali deitada, sangrando no chão batido, com meu filho no colo.

A jukebox deu um último estalo. Uma faísca.

E tocou de novo. Baixinho. Só um pedaço.

Onde nenhum homem te machuca...

O menino, no meu colo, com menos de um minuto de nascido, parou de chorar.

E cantarolou.

Hmm. Hmm. Hmm.

Do lado de fora, mesmo sem vento, ouvi o mar.

Mesmo longe, ouvi a onda quebrando. E parecia que quebrava no ritmo.

Pam-pam-pam.

Ele respondeu.

Nenhum comentário: