Tadeu Everton Zamoiski
Setembro de 2026
Guaraqueçaba, Litoral do Paraná
A estrada encolheu no instante em que o asfalto terminou.
Tiago diminuiu a velocidade. As pedras molhadas batiam por baixo do carro, e a lama começava a subir pelas laterais. Elisa olhava pela janela, acompanhando as casas que apareciam de vez em quando entre árvores e cercas tortas.
"Você sabia?"
"Sabia."
"Podia ter avisado."
"Você teria vindo do mesmo jeito."
"Não é esse o ponto."
A discussão morreu ali, mas continuou dentro do carro. Os dois já tinham aprendido que algumas brigas podiam ficar horas sem que ninguém precisasse continuar falando.
Mais adiante, a estrada desceu e a baía apareceu entre as árvores. A água estava quase parada, cinza sob o céu fechado. Alguns barcos balançavam perto da margem.
"É bonito", Elisa disse.
"É."
"Foi por isso que você escolheu esse lugar?"
Tiago demorou um pouco para responder.
"Queria que você conhecesse."
A pousada ficava perto da igreja, numa construção antiga de madeira. Havia cheiro de pano úmido, produto de limpeza e madeira molhada. Um cachorro dormia debaixo da escada.
Nivaldo, o dono, entregou a chave do quarto.
"Se precisarem de alguma coisa, estou aqui."
Tiago apontou para a rua.
"Tem algum bar aberto por perto?"
"Tem um depois da igreja."
"Serve cataia?"
Nivaldo sorriu de leve.
"Serve."
No fim da tarde, os dois foram até a igreja.
Tiago caminhava na frente. Não precisava procurar o caminho.
"Você já esteve aqui", Elisa disse.
"Uma vez."
"Com seu pai?"
"Com ele."
Na entrada da igreja, entre duas pedras, havia uma folha pequena, amarelada e ainda molhada. O chão em volta estava seco. Tiago parou por um instante, olhando para ela.
Elisa percebeu.
"Que foi?"
"Nada."
Ele entrou.
Depois de alguns minutos, ficaram do lado de fora.
"Foi aqui que ele sumiu."
Elisa olhou para Tiago.
"Seu pai?"
"Foi."
Tiago contou que o pai tinha saído depois do jantar. Disse que ia caminhar um pouco. Tiago ficou na pousada. Esperou até tarde. Em algum momento, ouviu a porta.
"Ele voltou?"
"Eu ouvi os passos."
Tiago olhou para a rua vazia.
"Meu pai batia duas vezes antes de entrar em casa. Sempre."
No bar, havia três homens perto do balcão e um rádio ligado baixo. Tiago sentou e pediu:
"Me vê um martelinho de cataia."
O homem colocou o copo diante dele. O líquido era escuro e dourado quando a luz bateu.
Elisa experimentou um gole.
"Forte."
Tiago bebeu o restante.
Ficaram algum tempo em silêncio, ouvindo o rádio, os copos e a chuva começando do lado de fora.
"Você veio para cá por causa daquela noite", Elisa disse.
Tiago não respondeu de imediato.
"Eu queria lembrar direito."
"Você não lembra?"
"Algumas coisas."
"Ele saiu."
"É."
"Você disse alguma coisa para ele?"
Tiago olhou para o copo vazio.
"Eu disse uma coisa para ele."
Elisa esperou.
Ele não terminou.
A chuva apertou durante a noite. O telhado da pousada estalava com o peso da água.
Na manhã seguinte, foram até o Salto Morato.
A trilha estava úmida. Folhas grudavam nas solas dos tênis, e o cheiro de terra e madeira molhada ficava mais forte conforme avançavam.
"Foi aqui que ele me mandou esperar", Tiago disse.
"Ele demorou?"
"Demorou."
Continuaram andando.
Mais tarde, sentados perto da água, ficaram algum tempo sem falar sobre o pai. Elisa também não insistiu.
À noite, Tiago saiu sozinho.
Voltou depois de algum tempo com uma garrafa pequena de cataia. Colocou-a sobre a mesa do quarto.
Elisa olhou para a garrafa, mas não perguntou nada.
Nivaldo apareceu mais tarde no corredor. Viu a garrafa pela porta aberta e parou.
"Seu pai gostava."
Tiago levantou os olhos.
Nivaldo continuou andando.
Na manhã seguinte, enquanto arrumavam as coisas, Tiago procurou a garrafa sobre a mesa.
Não estava mais lá.
"Você mexeu nisso?"
Elisa olhou para ele.
"Não."
Ele procurou no quarto. Encontrou a garrafa no parapeito da janela.
Ficou olhando para ela.
Não disse nada.
Na volta para Curitiba, a chuva acompanhou boa parte da estrada.
Depois de alguns quilômetros, Elisa perguntou:
"O que aconteceu depois que você ouviu a porta?"
"Eu ouvi os passos."
"Você abriu?"
"Não."
"Você achou que era seu pai?"
"Eu achei."
"Você não viu?"
"Não."
Elisa ficou olhando pela janela.
"Então por que disse que ele voltou?"
Tiago demorou para responder.
"Porque foi isso que eu guardei."
"Guardou?"
"É."
Ela ficou quieta.
Depois de mais alguns quilômetros, Tiago falou:
"Eu lembro de ter encontrado meu pai na cozinha naquela manhã."
Elisa virou o rosto para ele.
"Você acabou de dizer que não abriu a porta."
"Eu sei."
"Então qual lembrança é verdadeira?"
Tiago manteve os olhos na estrada.
"Não sei."
Elisa olhou novamente pela janela.
"Foi o bastante."
O sinal do celular voltou alguns quilômetros depois.
Em Curitiba, Elisa dormiu no quarto de hóspedes. Foi a primeira vez que fez isso desde que estavam juntos.
Na manhã seguinte, Tiago encontrou a pequena garrafa de cataia sobre a mesa da cozinha.
Elisa estava arrumando uma bolsa.
"Você vai embora?"
"Vou passar uns dias na minha irmã."
"Por causa da viagem?"
"Por causa da mentira."
"Que mentira?"
"Você disse que me levou para conhecer Guaraqueçaba."
Tiago abaixou os olhos.
"Você já conhecia o caminho. Sabia onde ficava o bar. Sabia da igreja. Sabia exatamente onde seu pai tinha desaparecido."
Ele não respondeu.
"Você não me trouxe para conhecer Guaraqueçaba."
Tiago continuou olhando para a mesa.
Elisa fechou a bolsa.
"Eu consigo viver com as coisas que você não lembra. O que eu não consigo é você decidir o que eu posso saber."
Ela saiu.
A casa ficou quieta.
Dois dias passaram.
Na terceira noite, Tiago abriu o armário da cozinha. A pequena garrafa estava no fundo, atrás das outras.
Ele ficou parado.
Lembrava de tê-la deixado sobre a mesa.
Pegou a garrafa e ficou olhando para o líquido escuro.
A lembrança voltou aos poucos. A porta. Duas batidas. Os passos no corredor. Depois a cozinha.
Ou talvez não.
Tiago fechou os olhos.
"Eu queria que você..."
A frase morreu antes do fim.
Ele guardou a garrafa novamente no armário, apagou a luz da cozinha e foi para o quarto. Deitou sem trocar de roupa. A chuva começava a bater no telhado.
Pouco antes do amanhecer, duas batidas soaram na porta da frente.
Tiago abriu os olhos.
Ficou sentado na cama.
Olhou para o celular sobre o criado-mudo.
A última mensagem de Elisa continuava ali desde três dias antes.
"Cheguei."
Ele não tinha respondido.
Duas batidas.
Tiago levantou.
Foi até a porta.
Parou diante dela.
Não abriu.
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