quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Estrada do Atami

Estrada do Atami
Tadeu Everton Zamoiski
Atami, Pontal do Paraná, PR

O aplicativo apitou 23h48 e Jorge quase não aceitou.

Tava parado na frente do Mercado Costa, em Praia de Leste, com o Corolla ligado e o ar no dois. O banco do motorista tava gasto do lado esquerdo, de tanto ele ficar ali o dia inteiro. Já fazia três anos. No para-brisa, presa com uma fita crepe já amarela de sol, a foto da Ana em Guaratuba. Vestido amarelo, cabelo comprido. O sol tinha comido o rosto dela, tava quase apagado.

Em casa a cama tava arrumada do lado dela. O travesseiro que ele não lavava desde o velório. O copo d'água na mesinha que ele nunca tirou de lá. Dirigir era melhor. Dirigir era não precisar chegar.

Aceitou.

O passageiro entrou sem falar nada. Magro, de terno cinza encharcado, o cabelo grudado na testa. Sentou atrás e ficou parado. Jorge ajeitou o retrovisor. O homem não piscava. Ele ficou esperando aquele piscar que não vinha, daí desviou os olhos.

— Boa noite — tentou.

O homem só fez que sim com a cabeça.

Chovia fino, aquela chuva que nem molha. Jorge ligou o limpador no intermitente. O GPS mandou pela PR-407 e depois jogou numa vicinal. Jorge fez cara feia. Doze anos fazendo aquela volta. Conhecia a curva do posto, a curva do cemitério, a curva onde o filho do Nelsinho se matou de moto. Aquela entradinha ali não existia. Ele passava toda semana e nunca tinha visto.

— O senhor tem certeza que é por aqui?

— É por aqui.

A voz veio de longe.

A estrada foi estreitando. O mato fechou em cima do carro, os galhos raspando no teto. Ligou o farol alto e a luz não ia. O asfalto tava todo estourado, com mato saindo do meio da rachadura. Daí pra frente não tinha mais poste. Não tinha casa. Só a luz dele mesmo.

— O senhor mora no Atami?

— Morava.

Passaram por uma placa de madeira podre. ATAMI, escrito à mão. Não tinha balneário. Não tinha nada.

— Pare aqui.

Jorge parou. Olhou pra trás. No banco, do lado do passageiro, tinha uma caixinha. De madeira escura, os cantos gastos de tanto ser segurada, sem fecho nenhum.

— Esqueceu sua caixa.

Quando virou de novo, o banco tava vazio.

A porta não tinha aberto. Ele ia ter ouvido. O carro continuava trancado. Olhou pra estrada, pra chuva que de repente engrossou. Não tinha ninguém.

A caixa continuava lá.

No porta-luvas, Jorge guardava um relógio de bolso que um passageiro deixou umas semanas atrás. Tentou devolver. Descobriu que o dono tinha morrido em 87. Desde então ele não devolvia mais nada. Só jogava numa gaveta da cozinha e tentava não pensar.

Mas aquela era diferente. Era pesada demais pro tamanho. Quando encostou a mão, subiu um arrepio pelo braço, como se tivesse enfiado a mão em água gelada.

O aplicativo apitou de novo.

Nova corrida. Destino: Atami.

O estômago dele despencou. Olhou no retrovisor.

O homem de terno cinza tava de volta.

E a caixa, agora, tava aberta.

Dentro tinha uma chave e uma fotografia.

A chave era a reserva do Corolla. Ele guardava na mesma gaveta do relógio. Fazia tempo que não via.

Pegou a foto. Era a mesma do para-brisa. Ana rindo, de vestido amarelo, em Guaratuba. Ele mais novo do lado dela. Só que no fundo, atrás dos dois, tinha um carro que não tava na foto original. Um Corolla prata, com a frente toda amassada. O mesmo adesivinho torto no para-brisa. A mesma fita crepe.

— O que é isso? — a voz dele saiu fina.

— Você já esteve aqui antes.

— Nunca vim aqui.

— Vai estar.

A chuva parou de uma vez. Fez um silêncio total.

Uns cinquenta metros pra frente, no meio da estrada, tinha um carro.

Um Corolla prata. Portas abertas. Airbag estourado. O banco do motorista gasto do lado esquerdo.

Jorge sentiu o volante escorregar de suor. Jogou na ré. O motor berrou, o carro tremeu, mas não saiu do lugar. Puxou a maçaneta. Trancada.

Sentiu gosto de sal antes de perceber que tava chorando.

— Na volta. Na curva do Atami — disse o homem lá de trás.

— Por que tá me falando isso?

— Porque você sempre esquece.

— Tô morto?

O passageiro não respondeu.

Ele ficou olhando pra foto na mão. Pro carro batido. Ana. O cheiro dela. O riso dela quando ficava brava. O jeito que ela falava o nome dele, arrastado. O jeito que reclamava da goteira, da chuva no telhado. O copo d'água na mesinha. Como é que alguém esquece uma coisa dessas?

— Eu quero lembrar dela.

— Você não pode.

— Eu quero.

O homem suspirou. Um barulho igualzinho ao do telhado de casa em dia de chuva.

— Então dirija.

Jorge pisou no acelerador. O carro foi. A estrada esticou escura, sem fim. O limpador continuava batendo, mesmo com o vidro seco. No retrovisor, o carro acidentado sumiu. O homem também.

E ele dirigiu.

A estrada nunca acabava. Às vezes via uma menina na beira, de vestido amarelo, de costas. Às vezes entrava um passageiro, deixava uma coisa no banco — um chinelo, um boné, uma garrafinha d'água pela metade — e sumiu antes de chegar. Jorge aprendeu a não olhar pra trás.

Até que numa noite, a estrada fez uma curva mais aberta.

Tinha uma casa. Pequena, de madeira, com luz acesa na janela. Na varanda, uma mulher de vestido amarelo.

Parou o carro. Desligou o motor. Pela primeira vez em três anos, abriu a porta sem olhar pra aplicativo.

Pisou na terra batida.

Ela tava esperando.

— Demorou — ela disse.

— Me perdi.

— Eu sei. Você sempre se perde.

Ele abraçou ela. Ela tava quente. Chorou no ombro dela, e não doeu.

— Não vou mais dirigir — ele falou.

— Não precisa mais.

E ficaram ali.

De manhã cedo um caminhoneiro achou um Corolla batido na curva do Atami. Portas abertas, airbag estourado. No banco do carona, uma caixinha de madeira vazia. No barro, uma foto velha virada pra baixo.

O celular, preso no painel com aquele suporte velho, ainda tava ligado. A tela acesa.

Passageiro aguardando. A 20 metros.

A porta de trás abriu sozinha.

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