Tadeu Everton Zamoiski — Guaratuba
QUINTA
Na quinta-feira, às nove da manhã, como conselheira tutelar, recebi a ficha de Davi, oito anos.
Setenta e duas horas. Domingo, às nove, o caso precisava estar fechado.
Li duas vezes.
Faltas frequentes. Febre. Queda no rendimento.
Liguei para a mãe. Atendeu depois de quatro toques.
— Alô?
— Neusa? Aqui é do Conselho. Sobre o Davi.
— Ele tá em casa.
— Ele andou com febre?
— Já dei um chazinho pra ele.
— A professora disse que ele saiu à noite.
Silêncio curto.
— Ele vai na lagoa.
— Sozinho?
— Às vezes ele vai.
— Por quê?
Demorou.
— Vai ver o Lucas.
Lucas era o mais velho. Onze anos quando morreu afogado, três anos antes.
Anotei.
— O Davi acha que vê o irmão?
— Não é achar.
Minha mão parou sobre o papel.
— Ele conversa com ele.
— Neusa, ele pode estar confundindo uma lembrança.
— Eu sei o que ele fala.
Ouvi um menino ao fundo.
— Mãe.
Ela afastou o telefone.
— Fica aí, Davi.
Voltou mais baixo.
— Ele tá com medo de eu ir embora.
— A senhora tá sozinha com ele?
— Tô.
— E quando ele fala do Lucas?
— Eu deixo.
— O que ele diz?
— Que o Lucas tá esperando. Tá me esperando chegar.
Desligamos.
Escrevi: Necessária avaliação presencial.
No celular, uma mensagem da Lívia.
mãe, vc vem hoje?
Minha filha tinha treze anos, chave no pescoço, já fazia o próprio café de manhã. Mas ainda precisava saber se eu voltava.
Não respondi.
Liguei para o Conselho. Disseram que era baixa temporada, que não tinha viatura. Que eu segurasse até segunda se não houvesse risco iminente.
Anotei: rede acionada, sem retorno.
Fui à casa de Neusa naquela tarde. Antes de entrar, o cheiro de lodo e sabão em pó já vinha da janela da cozinha.
Davi estava no chão, desenhando.
— O que você está fazendo?
— O Lucas.
Dois meninos de mãos dadas diante de uma faixa azul.
— Essa é a lagoa?
— É.
— Esse é você?
— Sou.
— E o outro?
Ele passou o lápis preto várias vezes sobre uma das figuras.
— Ele.
— Por que de preto?
— Porque ele tá longe.
— Longe de onde?
— Daqui.
— E ele volta?
— Quando a água chama.
— Como você sabe que a água chamou?
— Ele escuta primeiro.
Neusa apareceu na porta com o casaco infantil dobrado no braço. Era azul, pequeno.
— Davi.
— Ontem ele perguntou por que a mãe não levou o casaco. Falou que tá frio. Quer o azul.
Neusa fechou os olhos.
— Davi, chega.
— Ele quer o outro também.
— O quê?
— O tênis.
Neusa abriu o armário. Tirou uma caixa vazia. Só cheiro de guardado dentro.
— Como era?
— Tinha uma faixa clara na lateral — eu disse, lembrando da foto da geladeira.
Davi estava descalço.
Anotei: Tênis do irmão não localizado.
— Eu deixei lá. Na lagoa.
Na cozinha, ela serviu café da garrafa térmica. O vapor subiu e trouxe o mesmo cheiro da janela, mas quente agora.
Na geladeira, a foto: Lucas numa cadeira de plástico, perna esticada, tênis preto de faixa clara.
Escrevi naquela noite:
Visita domiciliar realizada. Criança apresenta discurso recorrente relacionado ao irmão falecido. Recomenda-se nova avaliação antes do encerramento.
A tinta da caneta falhou no meio da palavra "encerramento". Passei por cima e borrou. A buzina da balsa chegou abafada lá de fora.
SEXTA
Neusa ligou de manhã.
— O Davi voltou.
— De onde?
— Da lagoa. Entrou pela janela de madrugada.
— Estava molhado?
— Só os pés.
— A senhora assinou o papel para Paranaguá?
— Assinei. Vai amanhã cedo.
— Não deixe ele sair sozinho.
— Eu sei.
A mensagem da Lívia continuava na tela. mãe, vc vem hoje?
Passei a tarde na escola.
— O Davi mudou depois do Lucas?
— Antes não largava a mãe. Agora fica olhando pra ela.
— Esperando o quê?
— Não sei. Ele desenhou a mãe na lagoa semana passada. Neusa numa cadeira. Duas crianças ao lado.
— Quem era?
— Disse que era o Davi e quem estava esperando. A Dona Alzira fala igual. Mora perto da lagoa, perto do mangue. Perdeu um filho faz muitos anos. Ela e a Célia iam juntas pra lá.
Anotei os dois nomes. Célia e Alzira.
À noite, saí tarde. Três chamadas da Lívia.
— Mãe, sou eu. Você vem hoje?
— Lívia, tô trabalhando.
— Você falou que vinha.
— Vou tentar.
Desliguei. Tocou de novo. Deixei o dedo sobre o botão e silenciei. Depois fiquei olhando para a rua escura da minha casa. A luz apagada. Pensei: ela já aprendeu a não me esperar.
Voltei ao Conselho e tentei digitar:
Não foram identificados indícios objetivos de atividade criminosa.
O cursor travou no campo. Tive que fechar e abrir de novo o sistema.
SÁBADO
Fui à casa de Célia de manhã.
Casa pequena, perto do mangue. Sobre a mesa, um caderno escolar aberto: Miguel, 8 anos. Uma letra infantil na primeira página. Na pia, um prato a mais, seco, separado dos outros.
O quarto ao lado continuava como ele deixara. Mochila roxa atrás da porta, bola murcha debaixo da cama, uma cama menor encostada na parede.
— Era da irmã. Agora mora em outra cidade.
Ela fechou o caderno e passou a mão sobre a capa, como quem limpa poeira.
— Quando uma mãe passa muito tempo esperando, as outras percebem.
Na volta, sete chamadas perdidas da Lívia.
Parei na casa de Neusa para conferir o documento da tia de Paranaguá.
Porta aberta. Na mesa, o documento. Ao lado, o casaco azul de Lucas.
No portão, a garrafa térmica ainda quente e o tênis preto. Faixa clara na lateral. Molhado por dentro, encharcado de lodo. O lodo escorreu pelo meu pulso e sujou o relatório que eu levava na mão.
Coloquei o tênis no banco do passageiro. A buzina da balsa tocou de novo, mais perto.
Janela do quarto de Davi aberta. Vazio.
Liguei para a tia.
— Neusa disse que o Davi ia ficar com a senhora.
— Comigo? Não estou esperando ninguém.
Neusa apareceu no quintal.
— Onde está o Davi?
— Ia para Paranaguá.
— Sua irmã não está esperando.
— Ele mudou de ideia no caminho.
À noite, fui à casa de Dona Alzira. Casa baixa, perto da estrada da balsa.
Ela abriu a porta torcendo a ponta do avental úmido nas mãos. O mesmo cheiro de sabão em pó barato.
— A senhora é do Conselho?
— Sou.
Na cozinha, uma cadeira de plástico junto à mesa. O assento molhado. O chão seco.
Ela viu meu olhar.
— Ele sentou aí.
— Seu filho?
— Vi a água no banco. Depois foi para a lagoa.
— Como ele a chama?
— Mãezinha Alê.
Às dez e meia, a professora ligou.
— Voltei de um velório da família da Neusa e passei na rua dela. Vi o Davi saindo sozinho, indo para a lagoa.
— Você foi atrás?
— Até a entrada da trilha. Depois voltei.
Faltavam dez horas.
A trilha começava atrás das últimas casas. Moto sem escapamento ao longe. Buzina abafada.
Na lagoa, quatro cadeiras de plástico. Neusa com a garrafa térmica no colo, Célia com o caderno de Miguel abraçado contra o peito, Dona Alzira torcendo o avental úmido. Três ocupadas. Uma vazia.
Ninguém pareceu surpresa.
— Onde está o Davi?
— Com o irmão — disse Neusa, sem soltar a garrafa.
— E o Miguel?
Célia apertou o caderno.
— Ele está esperando. Perguntou por que parei de guardar o prato dele.
Neusa disse baixo, como se fosse segredo:
— O Lucas pergunta do casaco. Ele troca o R pelo L quando está com frio. Frio virava flio.
Dona Alzira olhou para a água.
— Meu filho me chamou pelo apelido.
O cheiro de lodo subiu mais forte, frio.
Voltei para o carro. Deixei o tênis no banco do passageiro e fiquei ali fora, com a mão na porta. O vidro embaçou por dentro.
O telefone tocou. Pai da Lívia.
— Deixei a Lívia na sua casa no fim da tarde.
— Você deixou ela sozinha? Ela tem treze anos!
— Ela tem a chave no pescoço. A porta está trancada.
Liguei para Lívia.
— Lívia? Sou eu. Tranca a porta pra mim. Não abre pra ninguém.
— Tô com sono, mãe.
— Só tranca, por favor.
— Tá.
Dez segundos depois, de novo. Na tela: Lívia.
— Filha?
O contador ficou parado em 00:00. O nome sumiu.
Longe, da água, nítida, a voz atravessou o brejo:
— Mãe, tô com flio.
Não era a Lívia.
Carregada pela água, a voz de Dona Alzira veio também:
— Chegou.
Entrei no carro. Passei dois semáforos vermelhos com o vidro embaçado e o cheiro de lodo entranhado no estofado.
Na rua de casa, antes de descer, com a mão ainda no volante, olhei para o banco do passageiro.
O tênis não estava mais lá. Só uma mancha escura de lodo no tecido.
Desci. Porta destrancada, entreaberta. Luz do corredor acesa. No tapete, barro ainda úmido.
— Lívia?
Ela dormia de lado. Lençol seco. O quarto cheirava a terra molhada, lodo e sabão em pó.
Na altura dos pés, duas marcas úmidas com contorno de solado, número 36.
Ela abriu os olhos.
— Você voltou?
— Quem está aqui com você?
Olhou para o canto vazio.
— Ele disse que você vinha.
Passei a noite sentada no chão, encostada na porta do quarto, com o celular na mão.
DOMINGO
No domingo o plantão tinha deixado a portaria aberta. Levei Lívia comigo. Ela ficou ao meu lado, ainda de pijama, com a chave no pescoço balançando.
Abri o relatório. O relógio da sala marcava 9h03. O papel estava úmido na borda. O carimbo de encerramento que eu tinha batido na sexta estava borrado, como se tivesse pego chuva.
Caso encerrado às 9h. A criança não está em situação de risco. A mãe está em casa. Ele voltou.
Embaixo, dois campos vazios. Tentei digitar o nome de Davi. O campo não aceitava. Ficava em branco.
Nome da criança:
Nome da responsável:
Fiquei olhando para o Ele.
Lívia ao meu lado, celular desligado no colo. A cadeira diante da minha mesa estava molhada. No chão, uma pequena poça se espalhando.
Ela apertou minha mão.
Meu celular tocou sobre a mesa.
Na tela:
Lívia.
Olhei para minha filha. Ela não mexeu no aparelho.
O telefone continuou tocando.
Então veio o silêncio.
Depois, a voz de menino saiu do aparelho:
— Mãe, você vem hoje?
Olhei para Lívia.
Não atendi.
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