quarta-feira, 30 de setembro de 2026

A LAGOA DAS MÃES

A LAGOA DAS MÃES
Tadeu Everton Zamoiski — Guaratuba
QUINTA
Na quinta-feira, às nove da manhã, como conselheira tutelar, recebi a ficha de Davi, oito anos.

Setenta e duas horas. Domingo, às nove, o caso precisava estar fechado.

Li duas vezes.

Faltas frequentes. Febre. Queda no rendimento.

Liguei para a mãe. Atendeu depois de quatro toques.

— Alô?

— Neusa? Aqui é do Conselho. Sobre o Davi.

— Ele tá em casa.

— Ele andou com febre?

— Já dei um chazinho pra ele.

— A professora disse que ele saiu à noite.

Silêncio curto.

— Ele vai na lagoa.

— Sozinho?

— Às vezes ele vai.

— Por quê?

Demorou.

— Vai ver o Lucas.

Lucas era o mais velho. Onze anos quando morreu afogado, três anos antes.

Anotei.

— O Davi acha que vê o irmão?

— Não é achar.

Minha mão parou sobre o papel.

— Ele conversa com ele.

— Neusa, ele pode estar confundindo uma lembrança.

— Eu sei o que ele fala.

Ouvi um menino ao fundo.

— Mãe.

Ela afastou o telefone.

— Fica aí, Davi.

Voltou mais baixo.

— Ele tá com medo de eu ir embora.

— A senhora tá sozinha com ele?

— Tô.

— E quando ele fala do Lucas?

— Eu deixo.

— O que ele diz?

— Que o Lucas tá esperando. Tá me esperando chegar.

Desligamos.

Escrevi: Necessária avaliação presencial.

No celular, uma mensagem da Lívia.

mãe, vc vem hoje?

Minha filha tinha treze anos, chave no pescoço, já fazia o próprio café de manhã. Mas ainda precisava saber se eu voltava.

Não respondi.

Liguei para o Conselho. Disseram que era baixa temporada, que não tinha viatura. Que eu segurasse até segunda se não houvesse risco iminente.

Anotei: rede acionada, sem retorno.



Fui à casa de Neusa naquela tarde. Antes de entrar, o cheiro de lodo e sabão em pó já vinha da janela da cozinha.

Davi estava no chão, desenhando.

— O que você está fazendo?

— O Lucas.

Dois meninos de mãos dadas diante de uma faixa azul.

— Essa é a lagoa?

— É.

— Esse é você?

— Sou.

— E o outro?

Ele passou o lápis preto várias vezes sobre uma das figuras.

— Ele.

— Por que de preto?

— Porque ele tá longe.

— Longe de onde?

— Daqui.

— E ele volta?

— Quando a água chama.

— Como você sabe que a água chamou?

— Ele escuta primeiro.

Neusa apareceu na porta com o casaco infantil dobrado no braço. Era azul, pequeno.

— Davi.

— Ontem ele perguntou por que a mãe não levou o casaco. Falou que tá frio. Quer o azul.

Neusa fechou os olhos.

— Davi, chega.

— Ele quer o outro também.

— O quê?

— O tênis.

Neusa abriu o armário. Tirou uma caixa vazia. Só cheiro de guardado dentro.

— Como era?

— Tinha uma faixa clara na lateral — eu disse, lembrando da foto da geladeira.

Davi estava descalço.

Anotei: Tênis do irmão não localizado.

— Eu deixei lá. Na lagoa.

Na cozinha, ela serviu café da garrafa térmica. O vapor subiu e trouxe o mesmo cheiro da janela, mas quente agora.

Na geladeira, a foto: Lucas numa cadeira de plástico, perna esticada, tênis preto de faixa clara.

Escrevi naquela noite:

Visita domiciliar realizada. Criança apresenta discurso recorrente relacionado ao irmão falecido. Recomenda-se nova avaliação antes do encerramento.

A tinta da caneta falhou no meio da palavra "encerramento". Passei por cima e borrou. A buzina da balsa chegou abafada lá de fora.


SEXTA
Neusa ligou de manhã.

— O Davi voltou.

— De onde?

— Da lagoa. Entrou pela janela de madrugada.

— Estava molhado?

— Só os pés.

— A senhora assinou o papel para Paranaguá?

— Assinei. Vai amanhã cedo.

— Não deixe ele sair sozinho.

— Eu sei.

A mensagem da Lívia continuava na tela. mãe, vc vem hoje?

Passei a tarde na escola.

— O Davi mudou depois do Lucas?

— Antes não largava a mãe. Agora fica olhando pra ela.

— Esperando o quê?

— Não sei. Ele desenhou a mãe na lagoa semana passada. Neusa numa cadeira. Duas crianças ao lado.

— Quem era?

— Disse que era o Davi e quem estava esperando. A Dona Alzira fala igual. Mora perto da lagoa, perto do mangue. Perdeu um filho faz muitos anos. Ela e a Célia iam juntas pra lá.

Anotei os dois nomes. Célia e Alzira.

À noite, saí tarde. Três chamadas da Lívia.

— Mãe, sou eu. Você vem hoje?

— Lívia, tô trabalhando.

— Você falou que vinha.

— Vou tentar.

Desliguei. Tocou de novo. Deixei o dedo sobre o botão e silenciei. Depois fiquei olhando para a rua escura da minha casa. A luz apagada. Pensei: ela já aprendeu a não me esperar.

Voltei ao Conselho e tentei digitar:

Não foram identificados indícios objetivos de atividade criminosa.

O cursor travou no campo. Tive que fechar e abrir de novo o sistema.


SÁBADO
Fui à casa de Célia de manhã.

Casa pequena, perto do mangue. Sobre a mesa, um caderno escolar aberto: Miguel, 8 anos. Uma letra infantil na primeira página. Na pia, um prato a mais, seco, separado dos outros.

O quarto ao lado continuava como ele deixara. Mochila roxa atrás da porta, bola murcha debaixo da cama, uma cama menor encostada na parede.

— Era da irmã. Agora mora em outra cidade.

Ela fechou o caderno e passou a mão sobre a capa, como quem limpa poeira.

— Quando uma mãe passa muito tempo esperando, as outras percebem.

Na volta, sete chamadas perdidas da Lívia.

Parei na casa de Neusa para conferir o documento da tia de Paranaguá.

Porta aberta. Na mesa, o documento. Ao lado, o casaco azul de Lucas.

No portão, a garrafa térmica ainda quente e o tênis preto. Faixa clara na lateral. Molhado por dentro, encharcado de lodo. O lodo escorreu pelo meu pulso e sujou o relatório que eu levava na mão.

Coloquei o tênis no banco do passageiro. A buzina da balsa tocou de novo, mais perto.

Janela do quarto de Davi aberta. Vazio.

Liguei para a tia.

— Neusa disse que o Davi ia ficar com a senhora.

— Comigo? Não estou esperando ninguém.

Neusa apareceu no quintal.

— Onde está o Davi?

— Ia para Paranaguá.

— Sua irmã não está esperando.

— Ele mudou de ideia no caminho.

À noite, fui à casa de Dona Alzira. Casa baixa, perto da estrada da balsa.

Ela abriu a porta torcendo a ponta do avental úmido nas mãos. O mesmo cheiro de sabão em pó barato.

— A senhora é do Conselho?

— Sou.

Na cozinha, uma cadeira de plástico junto à mesa. O assento molhado. O chão seco.

Ela viu meu olhar.

— Ele sentou aí.

— Seu filho?

— Vi a água no banco. Depois foi para a lagoa.

— Como ele a chama?

— Mãezinha Alê.

Às dez e meia, a professora ligou.

— Voltei de um velório da família da Neusa e passei na rua dela. Vi o Davi saindo sozinho, indo para a lagoa.

— Você foi atrás?

— Até a entrada da trilha. Depois voltei.

Faltavam dez horas.

A trilha começava atrás das últimas casas. Moto sem escapamento ao longe. Buzina abafada.

Na lagoa, quatro cadeiras de plástico. Neusa com a garrafa térmica no colo, Célia com o caderno de Miguel abraçado contra o peito, Dona Alzira torcendo o avental úmido. Três ocupadas. Uma vazia.

Ninguém pareceu surpresa.

— Onde está o Davi?

— Com o irmão — disse Neusa, sem soltar a garrafa.

— E o Miguel?

Célia apertou o caderno.

— Ele está esperando. Perguntou por que parei de guardar o prato dele.

Neusa disse baixo, como se fosse segredo:

— O Lucas pergunta do casaco. Ele troca o R pelo L quando está com frio. Frio virava flio.

Dona Alzira olhou para a água.

— Meu filho me chamou pelo apelido.

O cheiro de lodo subiu mais forte, frio.

Voltei para o carro. Deixei o tênis no banco do passageiro e fiquei ali fora, com a mão na porta. O vidro embaçou por dentro.

O telefone tocou. Pai da Lívia.

— Deixei a Lívia na sua casa no fim da tarde.

— Você deixou ela sozinha? Ela tem treze anos!

— Ela tem a chave no pescoço. A porta está trancada.

Liguei para Lívia.

— Lívia? Sou eu. Tranca a porta pra mim. Não abre pra ninguém.

— Tô com sono, mãe.

— Só tranca, por favor.

— Tá.

Dez segundos depois, de novo. Na tela: Lívia.

— Filha?

O contador ficou parado em 00:00. O nome sumiu.

Longe, da água, nítida, a voz atravessou o brejo:

— Mãe, tô com flio.

Não era a Lívia.

Carregada pela água, a voz de Dona Alzira veio também:

— Chegou.

Entrei no carro. Passei dois semáforos vermelhos com o vidro embaçado e o cheiro de lodo entranhado no estofado.

Na rua de casa, antes de descer, com a mão ainda no volante, olhei para o banco do passageiro.

O tênis não estava mais lá. Só uma mancha escura de lodo no tecido.

Desci. Porta destrancada, entreaberta. Luz do corredor acesa. No tapete, barro ainda úmido.

— Lívia?

Ela dormia de lado. Lençol seco. O quarto cheirava a terra molhada, lodo e sabão em pó.

Na altura dos pés, duas marcas úmidas com contorno de solado, número 36.

Ela abriu os olhos.

— Você voltou?

— Quem está aqui com você?

Olhou para o canto vazio.

— Ele disse que você vinha.

Passei a noite sentada no chão, encostada na porta do quarto, com o celular na mão.


DOMINGO
No domingo o plantão tinha deixado a portaria aberta. Levei Lívia comigo. Ela ficou ao meu lado, ainda de pijama, com a chave no pescoço balançando.

Abri o relatório. O relógio da sala marcava 9h03. O papel estava úmido na borda. O carimbo de encerramento que eu tinha batido na sexta estava borrado, como se tivesse pego chuva.

Caso encerrado às 9h. A criança não está em situação de risco. A mãe está em casa. Ele voltou.

Embaixo, dois campos vazios. Tentei digitar o nome de Davi. O campo não aceitava. Ficava em branco.

Nome da criança:

Nome da responsável:

Fiquei olhando para o Ele.

Lívia ao meu lado, celular desligado no colo. A cadeira diante da minha mesa estava molhada. No chão, uma pequena poça se espalhando.

Ela apertou minha mão.

Meu celular tocou sobre a mesa.

Na tela:

Lívia.

Olhei para minha filha. Ela não mexeu no aparelho.

O telefone continuou tocando.

Então veio o silêncio.

Depois, a voz de menino saiu do aparelho:

— Mãe, você vem hoje?

Olhei para Lívia.

Não atendi.

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