Tadeu Everton Zamoiski
Setembro de 2026 — Paranaguá, Paraná
Helena chegou a Paranaguá numa quinta-feira de chuva fina.
Entrou na Pastelaria Kubo antes de atravessar para a Ilha dos Valadares. Pediu um pastel de camarão e um café. Abriu o caderno e leu de novo a anotação que tinha recebido dois dias antes, em Antonina.
Esse fandango não se grava.
Porque depois é ele que grava você.
Helena não gostava desse tipo de frase. Trabalhava com memória oral havia quase dez anos e sabia como as histórias mudavam de boca em boca. Quase sempre havia uma morte antiga ou uma briga de família por trás. Mesmo assim precisava daquele registro. O prazo estava acabando.
Terminou o pastel. O camarão tinha o gosto de lama da baía, aquele que só aparece depois da chuva. Tomou o café e atravessou.
O barco estava quase vazio. O motor cobria as conversas e o cheiro de diesel se misturava ao da água barrenta. Helena conferiu os dois gravadores dentro da bolsa. Ainda pensava na colega do trabalho anterior, que morreu antes de ouvir a própria história. O arquivo tinha corrompido no cartão. Desde então carregava dois aparelhos.
Na Ilha dos Valadares encontrou Damião.
Pouco mais de sessenta anos, camisa azul desbotada, uma garrafa térmica na mão.
— Você é a moça do fandango.
— Sou.
— Então vamos.
Ela mostrou um dos gravadores.
— Vou registrar só o som.
Damião olhou para o aparelho e assentiu.
Começaram a caminhar. Helena perguntou pelos instrumentos e pelas rodas antigas. Damião falava sem pressa. Disse que os tamancos precisavam estar bem secos para o som sair direito. Falou da viola e das famílias que ainda guardavam instrumentos antigos.
Depois comentou:
— Minha mãe morreu quando eu tinha quatro anos.
— Você lembra dela?
Ele demorou.
— O cheiro do café. Uma toalha xadrez. O cabelo, eu acho. É pouco.
Quando Helena mencionou o fandango de Antonina, Damião diminuiu o passo.
— Qual?
Ela abriu o caderno e leu o nome.
Ele ficou um tempo sem responder.
— Meu pai dizia para não mexer nisso. Tinha medo que eu lembrasse.
— De quê?
— Não sei. Só dizia que tinha coisa melhor deixar quieta.
Andaram mais um pouco.
— Ele falava uma coisa… uma vez era acidente. Duas, escolha. Depois… alguém fica no lugar de alguém.
O fim da tarde já caía quando chegaram. A casa ficava no final do caminho de terra.
Havia gente na varanda. Uma panela grande no fogo. Cheiro de marisco. Arroz e conchas abertas sobre a mesa.
Na parede, perto da cozinha, uma fotografia antiga: homens diante de um barco.
— Meu pai está ali — disse Damião.
Helena apontou para o homem magro da última fila e depois para a criança descalça sentada no chão entre dois adultos.
— Quem é aquela criança?
Damião olhou, tirou a fotografia da parede e guardou na gaveta sem responder.
— Começa a gravar.
Helena ligou o primeiro aparelho. O segundo ficou desligado dentro da bolsa.
No início tudo parecia normal. Conversa na cozinha, alguém rindo, tamancos batendo secos no assoalho, a viola marcando o ritmo.
Depois veio determinada música.
Os instrumentos baixaram. A conversa morreu. Os tamancos continuaram.
Helena olhou para Damião. Ele olhava para a porta.
A música terminou sem aplausos. Um homem apagou a lâmpada da varanda.
Perto da porta o chão estava molhado. Uma faixa fina de água salgada atravessava a madeira.
Helena desligou o gravador.
— Acabou?
— Essa parte.
— Tem outra?
— Não.
Na manhã seguinte ela abriu o arquivo.
O cheiro de sal ainda estava no quarto.
Colocou o fone.
A gravação começou com as vozes e os tamancos.
Então percebeu.
Seis pessoas dançando.
Sete passos.
O sétimo vinha sempre atrasado. Esperava os outros baterem. Só então batia. Como quem aprendeu ouvindo de fora.
Helena tirou o fone.
Uma vez, acidente.
Conferiu o segundo gravador e guardou de novo.
Sentou-se diante do computador. Pensou em ouvir outra vez. Abriu o celular. A colega tinha mandado mensagem cobrando o material. Apagou a tela.
Não apertou o play.
Passou a manhã em outras entrevistas. À tarde tentou escrever o relatório, mas a cabeça voltava para o sétimo passo.
No fim do dia abriu a gravação outra vez.
Pensou na colega que morreu sem ouvir a própria história. O segundo gravador pesava na mão.
Agora seria escolha.
Ligou o aparelho, deixou-o registrando o silêncio do quarto e colocou os fones.
A voz apareceu depois dos passos. A própria voz.
— Quem está aí?
Ela tirou o fone. Não lembrava de ter dito aquilo.
Voltou a colocar.
Por baixo dos tamancos, água correndo.
Depois a voz de criança:
— Clari.
Mais baixa:
— Clari, pega o café.
Uma risada.
Uma voz adulta, rouca:
— Não deixa esfriar, menina.
Cheiro de café veio do fone.
A gravação mudou. Cozinha pequena, toalha xadrez, xícara perto da janela. Menina no chão, joelhos ralados, escondendo as mãos.
Duas batidas na porta.
A menina parou.
Helena sentiu o medo dela.
A lembrança sumiu.
O segundo gravador ainda gravava. Helena o desligou e guardou.
Antes de dormir abriu o arquivo dele sem fone.
No quarto vazio os sete passos soaram claros. A água também.
A voz dela não estava lá.
Não havia “Quem está aí?”.
Foi ao banheiro. Quando voltou havia uma faixa úmida junto à parede.
Tocou o piso. A água era fria e tinha gosto de sal.
Na manhã seguinte encontrou Damião perto da margem. Ele abriu a garrafa térmica e ofereceu café.
— Você ouviu a gravação?
— Ouvi.
Helena contou o que tinha escutado. Quando falou da toalha e do cheiro de café, Damião ficou quieto um tempo.
— Minha mãe tinha uma toalha assim. Fazia café nessa cozinha.
Ele olhou para a água.
— Eu conheço essa casa.
— É a casa onde você cresceu?
Assentiu.
Helena falou da menina, dos joelhos ralados, das batidas na porta.
Damião levou a mão ao rosto.
— Ela tinha medo quando alguém batia.
— Quem era?
— Minha irmã…
A voz quase não saiu. Ele repetiu, mais para si mesmo:
— Minha irmã. Eu não lembrava que existia.
Contou que o pai o fizera ouvir o fandango quando era menino. Queria que ele parasse de sentir falta da menina que tinha morrido.
— Ela morreu como?
— Sumiu na maré. Minha mãe entrou na água atrás dela. Depois ninguém mais falava.
Passou a mão pelos olhos.
— Meu pai achava que era melhor.
— Você ouviu de novo?
— Na noite do fandango. Lá na casa. Não saí de lá do mesmo jeito.
Ficou um tempo calado.
— Minha filha falou comigo hoje de manhã. Eu não reconheci a voz. Fiquei procurando quem era. No fim só conseguia ouvir minha mãe.
Helena guardou o gravador.
Naquela tarde voltou sozinha à casa onde Damião tinha crescido.
Ficava no fim do caminho, com o mangue já tomando conta do quintal. Damião não entrava ali havia anos.
A porta estava encostada.
Helena entrou.
A casa parecia menor do que na lembrança.
Na cozinha reconheceu a toalha xadrez e a rachadura atrás do fogão.
Sabia onde a menina se sentava.
No canto, uma caixa de madeira. Dentro, outra fotografia: o mesmo barco, os mesmos homens, a criança descalça entre dois adultos.
No verso, uma data e um nome.
Clara.
Do lado de fora, duas batidas na porta.
Helena parou diante da maçaneta.
As batidas não se repetiram.
Ela saiu levando a fotografia.
No caminho de volta, parou. Fechou os olhos.
O nome da rua onde cresceu — sumiu.
O cheiro da casa dos pais — só café e sal.
O rosto do pai — um vulto sem traços.
Abriu os olhos.
Clara estava nítida.
Voltou e colocou a fotografia sobre a mesa de Damião.
Ele olhou longo tempo.
— Clara. Minha irmã.
O olhar desceu até o homem magro da última fila.
— Quem é esse?
Helena não respondeu.
Naquela noite deixou a ilha, entrou na Pastelaria Kubo, sentou-se perto da janela e pediu um pastel de camarão e um café.
O vidro estava úmido. O cheiro do óleo subia da fritadeira.
Antes de o café chegar, Helena tirou o segundo gravador da bolsa, ligou e deixou ao lado do prato.
A atendente era uma mulher idosa, dona do balcão desde menina. Trouxe o pedido e ficou olhando.
— Clari? Você sentava aí com a sua mãe, esperando o barco.
No vidro da janela, o reflexo de uma menina descalça.
O rosto era o dela.
O olhar não.
A luz vermelha do gravador piscava.
Os passos chegaram perto dos pés.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Cinco.
Seis.
O sétimo veio molhado.
A água tocou a ponta do sapato. Depois o outro pé.
O gosto de sal subiu pela garganta.
E ela não soube mais se estava sentada… ou afundando.
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