domingo, 27 de setembro de 2026

PICO PARANÁ

PICO PARANÁ
Tadeu Everton Zamoiski
Setembro de 2026 — Serra do Mar, Paraná

Amaro chegou antes das seis.

Ainda escuro quando desligou o carro. Ficou ali, mãos no volante, olhando a entrada.

A cancela estava aberta.

Ele tinha certeza de que não devia estar.

Disse à filha que ia dar uma volta na serra. Ela perguntou se estava sozinho.

— Estou.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Você não gosta mais de montanha.

Amaro não respondeu. Agora, sentado no carro, soube que ela tinha razão.

Abriu a porta. O frio entrou primeiro. Cheiro de chuva e terra antiga.

Pegou a mochila no banco de trás. A mesma. Trocou o zíper, costurou a alça, reforçou o fundo. Havia uma pequena queimadura no tecido, perto do bolso lateral. Por anos pensou em jogar fora. Nunca conseguiu.

Colocou nas costas. Fechou o carro. Olhou o estacionamento vazio. Podia voltar. E talvez fosse o único que sabia.

Passou pela cancela.



A trilha parecia mais estreita. Ou era a memória que aumentou tudo.

Reconheceu uma pedra perto do córrego. Uma árvore torta. Uma curva onde alguém parou para apertar o cadarço. A voz veio junto, leve como o vento:

— Vai morrer de velho antes de chegar lá.

Amaro quase sorriu. O sorriso morreu antes de chegar inteiro.

Seguiu.

A chuva da madrugada deixou o chão macio. A sola afundava, como se a terra puxasse. Galhos molhados batiam no rosto. A mochila começou a pesar.

Parou para beber água. Ouviu uma pedra rolar. Olhou. Só folhas pingando. Esperou. Outra, mais perto.

Voltou a andar. Os passos vieram depois. Não atrás. Ao lado. Parava, paravam. Andava, andavam. Era um passo que conhecia bem demais.

Acelerou. Acompanharam. Parou de repente. Silêncio.

— Eduardo?

Não sabia por que disse o nome. Talvez porque ainda o dissesse quando estava só. Ninguém respondeu. Seguiu.



A bifurcação apareceu pouco antes das nove. Dois caminhos. O da esquerda, mais aberto. O da direita, fechado na mata.

Não lembrava. Ou nunca quis lembrar.

Tirou o celular. Sem sinal. Guardou. Pegou a bússola. Apontou normalmente. Norte. Montanha. Norte. Guardou.

O caminho da direita tinha pegadas. Lama ainda úmida. Um conjunto só. Nenhuma outra ao lado. Alguém tinha passado há pouco. Agachou. Não reconheceu a sola. Levantou.

— Tem gente aqui — disse.

Foi atrás.



Encontrou a pedra vinte minutos depois. Baixa, quase escondida. Nela, riscado:

E D U A R D O

Ficou parado. Não tocou. Olhou ao redor. Depois se aproximou. Passou o dedo nas letras. A pedra úmida. Os riscos, não. Eram novos.

Limpou a mão na calça. Deu um passo para trás. Ouviu uma respiração tão próxima que o ar pareceu mudar. Virou. Árvores. Folhas pingando. Nada.

Continuou subindo. Não olhou para trás.



Perto do meio-dia, começou a chover. Água fina que vai molhando sem perceber. Nuca úmida. Mangas pesadas. O chão escorregadio.

Apoiou a mão numa árvore. Foi quando viu o casaco. Azul. Pendurado num galho. Intocado.

Não precisou chegar perto. Conhecia aquele casaco. O rasgo perto do bolso. A manga esquerda mais comprida. Eduardo usava.

Aproximou. Não tocou. Lembrou:

— Tá quente — disse ele, tirando o casaco.
— Depois esfria — respondeu Amaro.
— Aí eu pego.

Jogou sobre o galho. Lembrava de tudo. Menos do que veio depois.

Deu um passo para trás. O casaco continuou ali. Normal. Comum. Era isso que doía mais. Seguiu.



A subida ficou mais dura. Pernas pesadas. Joelho doendo. Pensou em parar. Não parou.

A neblina veio chegando. Em minutos, não enxergava mais que quinze metros. O mundo ficou pequeno: pedra, barro, raiz, respiração.

Ouviu de novo. Atrás. Parou. Parou. Andou. Veio mais perto. Seguiu sem virar.

A voz veio de frente:

— Ainda anda assim?

Parou. Olhou. Eduardo estava ali. A uns quinze metros. Igual. Sem feridas. Sem marcas. Como se tivesse esperado.

— Demorou — disse.

— Eu procurei você.

Eduardo não respondeu. Virou e seguiu. Amaro foi atrás.

Olhou o chão. As suas pegadas estavam ali. As de Eduardo, não.



Chegaram à corda. Velha. Desfiada. Reconheceu o lugar. O estômago apertou.

Eduardo olhou para trás. E veio a memória.

Eduardo escorregou. Segurou a raiz. Amaro estava perto. Muito perto. O braço estendido. Segurou o pulso. A unha do polegar enterrou na pele dele. Doía.

— Me puxa.

Lembrava agora. Sem grito. Sem pânico. Só isso.

Olhou para baixo. Pedra molhada. O pé escorregou. Pensou: os dois caem. Ninguém sabe. Pensou na mãe. No pai. No que ainda queria viver.

Abriu a mão.

Os dedos dele buscaram. Arranharam a pele. Deslizaram. Sumiram. A marca ficou vermelha por semanas. Depois sumiu. A lembrança não.

Dizia a todos que ele escorregou. Era verdade. Só não era a história toda.



Quando levantou os olhos, Eduardo estava ali perto. Amaro chorava sem perceber.

— Eu soltei.

— Eu sei.

— Tive medo.

— Eu sei.

— Me perdoa?

Eduardo demorou.

— Você voltou.

Eduardo voltou a subir. Amaro foi atrás.



No topo, o vento era forte. A neblina se abria aos poucos. A serra lá embaixo.

Olhou para Eduardo. Depois para o horizonte. Quando voltou, ele não estava mais. Sem som. Sem clarão. Simplesmente não estava.

Sentou. Desceu.



A volta pareceu mais curta. Escolheu o caminho da esquerda.

Mais abaixo, achou o casaco no chão. Pegou. Pesado de água. O rasgo no mesmo lugar. Colocou na mochila. Pela primeira vez, levou algo de volta.

Sentiu alguma coisa no fundo. Puxou. Era um cadarço preto, desfiado numa ponta.



A cancela apareceu no fim da tarde. Entrou no carro. Ligou. Ficou parado. Saiu.



Chegou em casa à noite. Banho. Mochila no canto. Nada contado.

Percebeu a mancha de barro perto da porta. Olhou os pés. Limpos. Tocou. Úmida. Cheiro de terra. Lavou a mão.

Dormiu mal. Acordou às quatro. Foi beber água. Parou no corredor.

A porta da frente estava aberta. Tinha certeza de que trancara. Pegadas molhadas. Da porta ao quarto. Paradas. Não eram dele. Mais finas.

Do outro lado, uma respiração. Devagar.

— Disse que ia voltar.

Fechou os olhos. Não respondeu.

Quando abriu, as pegadas voltavam. Pela porta, pelo quintal. Exceto uma. A última. Mais funda. Parada.

Amaro não foi atrás.

Dessa vez, não.

Fim.

Nenhum comentário: