Tadeu Everton Zamoiski
Setembro de 2026 — Serra do Mar, Paraná
Amaro chegou antes das seis.
Ainda escuro quando desligou o carro. Ficou ali, mãos no volante, olhando a entrada.
A cancela estava aberta.
Ele tinha certeza de que não devia estar.
Disse à filha que ia dar uma volta na serra. Ela perguntou se estava sozinho.
— Estou.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Você não gosta mais de montanha.
Amaro não respondeu. Agora, sentado no carro, soube que ela tinha razão.
Abriu a porta. O frio entrou primeiro. Cheiro de chuva e terra antiga.
Pegou a mochila no banco de trás. A mesma. Trocou o zíper, costurou a alça, reforçou o fundo. Havia uma pequena queimadura no tecido, perto do bolso lateral. Por anos pensou em jogar fora. Nunca conseguiu.
Colocou nas costas. Fechou o carro. Olhou o estacionamento vazio. Podia voltar. E talvez fosse o único que sabia.
Passou pela cancela.
A trilha parecia mais estreita. Ou era a memória que aumentou tudo.
Reconheceu uma pedra perto do córrego. Uma árvore torta. Uma curva onde alguém parou para apertar o cadarço. A voz veio junto, leve como o vento:
— Vai morrer de velho antes de chegar lá.
Amaro quase sorriu. O sorriso morreu antes de chegar inteiro.
Seguiu.
A chuva da madrugada deixou o chão macio. A sola afundava, como se a terra puxasse. Galhos molhados batiam no rosto. A mochila começou a pesar.
Parou para beber água. Ouviu uma pedra rolar. Olhou. Só folhas pingando. Esperou. Outra, mais perto.
Voltou a andar. Os passos vieram depois. Não atrás. Ao lado. Parava, paravam. Andava, andavam. Era um passo que conhecia bem demais.
Acelerou. Acompanharam. Parou de repente. Silêncio.
— Eduardo?
Não sabia por que disse o nome. Talvez porque ainda o dissesse quando estava só. Ninguém respondeu. Seguiu.
A bifurcação apareceu pouco antes das nove. Dois caminhos. O da esquerda, mais aberto. O da direita, fechado na mata.
Não lembrava. Ou nunca quis lembrar.
Tirou o celular. Sem sinal. Guardou. Pegou a bússola. Apontou normalmente. Norte. Montanha. Norte. Guardou.
O caminho da direita tinha pegadas. Lama ainda úmida. Um conjunto só. Nenhuma outra ao lado. Alguém tinha passado há pouco. Agachou. Não reconheceu a sola. Levantou.
— Tem gente aqui — disse.
Foi atrás.
Encontrou a pedra vinte minutos depois. Baixa, quase escondida. Nela, riscado:
E D U A R D O
Ficou parado. Não tocou. Olhou ao redor. Depois se aproximou. Passou o dedo nas letras. A pedra úmida. Os riscos, não. Eram novos.
Limpou a mão na calça. Deu um passo para trás. Ouviu uma respiração tão próxima que o ar pareceu mudar. Virou. Árvores. Folhas pingando. Nada.
Continuou subindo. Não olhou para trás.
Perto do meio-dia, começou a chover. Água fina que vai molhando sem perceber. Nuca úmida. Mangas pesadas. O chão escorregadio.
Apoiou a mão numa árvore. Foi quando viu o casaco. Azul. Pendurado num galho. Intocado.
Não precisou chegar perto. Conhecia aquele casaco. O rasgo perto do bolso. A manga esquerda mais comprida. Eduardo usava.
Aproximou. Não tocou. Lembrou:
— Tá quente — disse ele, tirando o casaco.
— Depois esfria — respondeu Amaro.
— Aí eu pego.
Jogou sobre o galho. Lembrava de tudo. Menos do que veio depois.
Deu um passo para trás. O casaco continuou ali. Normal. Comum. Era isso que doía mais. Seguiu.
A subida ficou mais dura. Pernas pesadas. Joelho doendo. Pensou em parar. Não parou.
A neblina veio chegando. Em minutos, não enxergava mais que quinze metros. O mundo ficou pequeno: pedra, barro, raiz, respiração.
Ouviu de novo. Atrás. Parou. Parou. Andou. Veio mais perto. Seguiu sem virar.
A voz veio de frente:
— Ainda anda assim?
Parou. Olhou. Eduardo estava ali. A uns quinze metros. Igual. Sem feridas. Sem marcas. Como se tivesse esperado.
— Demorou — disse.
— Eu procurei você.
Eduardo não respondeu. Virou e seguiu. Amaro foi atrás.
Olhou o chão. As suas pegadas estavam ali. As de Eduardo, não.
Chegaram à corda. Velha. Desfiada. Reconheceu o lugar. O estômago apertou.
Eduardo olhou para trás. E veio a memória.
Eduardo escorregou. Segurou a raiz. Amaro estava perto. Muito perto. O braço estendido. Segurou o pulso. A unha do polegar enterrou na pele dele. Doía.
— Me puxa.
Lembrava agora. Sem grito. Sem pânico. Só isso.
Olhou para baixo. Pedra molhada. O pé escorregou. Pensou: os dois caem. Ninguém sabe. Pensou na mãe. No pai. No que ainda queria viver.
Abriu a mão.
Os dedos dele buscaram. Arranharam a pele. Deslizaram. Sumiram. A marca ficou vermelha por semanas. Depois sumiu. A lembrança não.
Dizia a todos que ele escorregou. Era verdade. Só não era a história toda.
Quando levantou os olhos, Eduardo estava ali perto. Amaro chorava sem perceber.
— Eu soltei.
— Eu sei.
— Tive medo.
— Eu sei.
— Me perdoa?
Eduardo demorou.
— Você voltou.
Eduardo voltou a subir. Amaro foi atrás.
No topo, o vento era forte. A neblina se abria aos poucos. A serra lá embaixo.
Olhou para Eduardo. Depois para o horizonte. Quando voltou, ele não estava mais. Sem som. Sem clarão. Simplesmente não estava.
Sentou. Desceu.
A volta pareceu mais curta. Escolheu o caminho da esquerda.
Mais abaixo, achou o casaco no chão. Pegou. Pesado de água. O rasgo no mesmo lugar. Colocou na mochila. Pela primeira vez, levou algo de volta.
Sentiu alguma coisa no fundo. Puxou. Era um cadarço preto, desfiado numa ponta.
A cancela apareceu no fim da tarde. Entrou no carro. Ligou. Ficou parado. Saiu.
Chegou em casa à noite. Banho. Mochila no canto. Nada contado.
Percebeu a mancha de barro perto da porta. Olhou os pés. Limpos. Tocou. Úmida. Cheiro de terra. Lavou a mão.
Dormiu mal. Acordou às quatro. Foi beber água. Parou no corredor.
A porta da frente estava aberta. Tinha certeza de que trancara. Pegadas molhadas. Da porta ao quarto. Paradas. Não eram dele. Mais finas.
Do outro lado, uma respiração. Devagar.
— Disse que ia voltar.
Fechou os olhos. Não respondeu.
Quando abriu, as pegadas voltavam. Pela porta, pelo quintal. Exceto uma. A última. Mais funda. Parada.
Amaro não foi atrás.
Dessa vez, não.
Fim.
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