Tadeu Everton Zamoiski
Setembro de 2026,
Rio do Nunes, Antonina
A chuva tinha parado durante a madrugada, mas a estrada ainda estava ruim. O cascalho solto fazia o carro deslizar nas curvas e, em alguns trechos, a água que descia do barranco havia transformado o caminho numa mistura de barro e pedra. Marcos dirigia devagar, escolhendo onde passar. De vez em quando, o Rio do Nunes aparecia entre as árvores, tão perto da estrada que Luísa conseguia enxergar as pedras do fundo através da água limpa.
Ela mantinha o vidro fechado por causa do frio, mas o cheiro da mata entrava de algum jeito. Terra molhada, folhas esmagadas e um aroma diferente, mais forte quando passavam perto de algum trecho de plantação.
“Gengibre”, disse Marcos.
“Você sente de dentro do carro?”
“Quando está úmido, sinto.”
Depois de uma curva apareceu a primeira cancela.
Marcos parou, desligou o motor e desceu. A porteira era pesada, feita de madeira, e estava presa por uma corrente. Ele abriu o cadeado, soltou a corrente e empurrou a cancela para o lado.
Luísa aproveitou para olhar para trás. A estrada que tinham acabado de percorrer já parecia distante. Não havia casa, poste ou outro carro à vista, apenas o caminho de cascalho, a mata e o rio acompanhando tudo por baixo das árvores.
Marcos voltou ao carro, passou pela abertura e desceu outra vez para fechar a cancela.
“Quantas dessas ainda têm?”, perguntou Luísa.
“Não sei.”
“Você não veio aqui antes?”
“Vim.”
“E não lembra?”
“Faz bastante tempo.”
Luísa ficou alguns segundos olhando para ele.
“Você está estranho desde que entramos.”
Marcos ligou o carro.
“Só estou dirigindo.”
Ela não insistiu.
As outras cancelas apareceram ao longo do caminho. Marcos parava, abria e fechava cada uma delas quase sem pensar, como quem já tinha feito aquilo muitas vezes. Na terceira, a chuva começou novamente, fina, quase uma névoa sobre o para-brisa.
Depois de uma curva, o rio apareceu mais aberto. A água corria sobre pedras arredondadas e era tão transparente que Luísa conseguia acompanhar alguns lambaris se movimentando contra a corrente.
Havia três homens pescando na margem. Estavam sentados em cadeiras baixas, cada um com uma vara nas mãos. Um balde branco descansava perto do homem mais velho.
Luísa abaixou o vidro.
“Pegaram alguma coisa?”
O homem levantou os olhos.
“Lambari.”
“Tem bastante?”
Ele olhou para o rio.
“Quando querem.”
Voltou para a vara e não disse mais nada.
Luísa fechou o vidro.
“Ele é meio estranho.”
“Pescador.”
“Isso explica?”
“Às vezes.”
Ela riu. Marcos também.
A fazenda ficava depois de uma curva fechada. Primeiro apareceu a plantação de gengibre, em fileiras que acompanhavam o terreno até desaparecerem perto da mata. A terra escura estava molhada e algumas folhas ainda carregavam gotas da chuva.
Mais adiante surgiu outra cancela. Essa estava apenas encostada.
“Por quê?”, perguntou Luísa.
“Costume.”
“Você fazia isso quando vinha?”
Marcos olhou rapidamente para ela.
“Fazia.”
Ele desceu, abriu a cancela, passou com o carro e voltou para fechá-la.
Alguns metros depois havia uma placa de madeira presa em dois mourões. A tinta estava velha e descascada. As letras tinham sido pintadas à mão, grandes e tortas.
AQUI TERMINA DEUS
Luísa virou o corpo para acompanhar a placa enquanto o carro avançava.
“Você já tinha visto isso?”
“Não.”
“Tem certeza?”
“Tenho.”
Ela continuou olhando para a placa pelo vidro traseiro.
“Então por que você sabia onde ficava a casa?”
Marcos demorou alguns segundos.
“Porque já estive aqui.”
Luísa voltou o rosto para ele.
“Você não falou isso.”
“Você não perguntou.”
Ela ficou quieta.
A estrada terminou diante da casa.
Era uma construção antiga de madeira escura, com telhado de barro e uma varanda comprida voltada para o rio. Nos fundos havia uma churrasqueira de alvenaria, mesas e bancos. Debaixo de uma cobertura estavam empilhados alguns pedaços de lenha ainda secos, apesar da chuva. Uma caixa térmica velha permanecia encostada na parede.
Luísa desceu do carro e bateu no braço de Marcos.
“Já começou.”
“Borrachudo?”
Ela mostrou a marca vermelha que surgia no antebraço.
“Vou precisar daquele repelente.”
Enquanto Marcos tirava as malas, Luísa caminhou até o rio. A margem ficava poucos metros abaixo da casa. A água corria limpa sobre as pedras, formando pequenas áreas mais fundas entre uma corredeira e outra. Um grupo de lambaris passou perto da margem e desapareceu sob uma pedra.
Ela ficou observando até Marcos chamá-la.
“Vem ajudar aqui.”
“Já vou.”
Antes de voltar, olhou novamente para a água.
Uma pedra branca chamou sua atenção. Havia muitas pedras no fundo, mas aquela era diferente. Lisa, comprida e quase branca, parecia deslocada entre as demais.
Marcos se aproximou.
“O que foi?”
“Essa pedra.”
Ele se agachou.
“Que tem?”
“Parece colocada aí.”
Marcos olhou para a pedra e depois para ela.
“É uma pedra.”
“Eu sei.”
Ele se levantou.
“Então está resolvido.”
Luísa sorriu, mas continuou olhando para o rio.
Naquela tarde, entraram na água. Marcos conhecia alguns pontos onde era possível nadar sem escorregar nas pedras. A água estava gelada e Luísa reclamou nos primeiros minutos, mas depois se acostumou.
Ficaram algum tempo numa parte mais funda, onde a corrente passava devagar.
Luísa mergulhou e voltou limpando o rosto.
“Dá para ver tudo daqui.”
“Quase tudo.”
Ela olhou para o meio do rio.
“Ali não.”
Marcos acompanhou o olhar.
“Ali é fundo.”
“Quanto?”
“Não sei.”
Ela riu.
“Você conhece tudo e não sabe nada.”
“É por isso que ainda estou vivo.”
Voltaram antes do escurecer. Prepararam a churrasqueira e ficaram na varanda enquanto a noite chegava. De vez em quando alguma coisa se mexia no mato. Um pássaro passou entre as árvores. Mais longe, perto dos pesqueiros, uma luz apareceu durante alguns minutos e depois sumiu.
Luísa pegou o celular para tirar uma foto do rio.
“Sem sinal.”
Marcos olhou para o próprio aparelho.
“Tem aqui também?”
Ele verificou.
“Nada.”
“Nem uma barrinha?”
“Nem uma.”
Ela guardou o celular.
“Se acontecer alguma coisa, estamos ferrados.”
Marcos mexeu na carne sobre a grelha.
“Tem telefone fixo.”
Luísa olhou para dentro da casa.
“Tem?”
“Na cozinha.”
“Funciona?”
Marcos ficou em silêncio por um instante.
“Funcionava.”
Ela percebeu a resposta.
“Você está me tranquilizando bastante.”
“Não era essa a intenção.”
Luísa sorriu, mas não respondeu.
Quando a chuva voltou, entraram.
Mais tarde, já perto da meia-noite, ouviram uma pancada na água.
Os dois estavam na sala. Marcos tinha acabado de abrir uma cerveja.
“Ouviu?”, perguntou Luísa.
“Ouvi.”
Esperaram.
Alguns segundos depois veio outra pancada, mais perto.
“Tem alguém pescando?”
“Essa hora?”
Luísa foi até a janela. A chuva escorria pelo vidro e distorcia o que havia do lado de fora. Não havia luz na outra margem.
Então alguma coisa caiu na água.
O som foi mais pesado.
Marcos levantou e pegou a lanterna.
“Fica aqui.”
“Nem pensar.”
Ele abriu a porta da varanda e os dois saíram.
A luz percorreu a margem, as árvores e o rio. A água continuava correndo sobre as pedras, clara mesmo sob a chuva.
“Não tem nada”, disse Marcos.
“Olha mais para a esquerda.”
Ele virou a lanterna.
Foi quando Luísa viu alguma coisa entre as árvores do outro lado do rio. Marcos apontou a luz para o mesmo lugar e os dois perceberam que parecia uma pessoa parada perto da margem.
Não havia vara, mochila ou lanterna. A figura apenas permanecia ali, olhando para a casa.
Marcos levantou mais a luz.
“Ei!”
Nenhuma resposta.
“Está tudo bem aí?”
A figura deu um passo para trás.
Marcos avançou até o limite da varanda.
“Tem alguém aí?”
A chuva aumentou por alguns segundos. A luz da lanterna oscilou sobre as folhas e, quando voltou para o mesmo ponto, não havia mais ninguém.
Marcos continuou olhando.
“Você viu?”, perguntou Luísa.
“Vi.”
“Quem era?”
Ele demorou antes de responder.
“Não sei.”
“Você tem certeza de que não era alguém da fazenda?”
Marcos baixou a lanterna.
“Não.”
“Como sabe?”
Ele não respondeu.
Voltaram para dentro e trancaram a porta.
Luísa ainda ficou alguns segundos olhando para Marcos.
“Você realmente já esteve aqui?”
Ele tirou a capa de chuva.
“Já.”
“Quando?”
Marcos pendurou a capa perto da porta.
“Faz tempo.”
“Quanto tempo?”
Ele não respondeu.
Foi até a sala e sentou no sofá.
Luísa não perguntou novamente.
Por volta das duas da manhã, Luísa acordou com sede. A casa estava silenciosa. Marcos dormia no quarto ao lado e ela decidiu não acordá-lo.
Foi até a cozinha, pegou um copo e abriu a torneira.
A água caiu normalmente.
Foi então que ela ouviu outro barulho.
Água correndo do lado de fora.
Luísa fechou a torneira.
O som continuou.
Ela ficou parada, tentando entender de onde vinha. Parecia água escorrendo pela varanda, mas havia alguma coisa misturada ao ruído, um arrastar lento seguido de um pequeno estalo da madeira.
Ela olhou para a porta.
Ouviu um passo.
Depois outro.
Não eram passos rápidos. Quem quer que estivesse lá fora caminhava devagar, sem nenhuma pressa.
Luísa ficou imóvel.
Os passos pararam diante da porta.
Por alguns segundos não aconteceu nada.
Então uma voz falou do outro lado.
“Você leu a placa.”
Luísa sentiu o estômago apertar.
Não respondeu.
A voz veio novamente.
“Agora já sabe onde está.”
Ela olhou para o chão.
Uma pequena quantidade de água começava a passar por baixo da porta da varanda. Era limpa e muito fria. Entre a água havia pequenos grãos de areia e duas pedras claras.
Luísa recuou.
Olhou para as pedras.
Reconheceu uma delas.
Era igual à que tinha visto no rio naquela tarde.
Só que havia duas.
Então percebeu outra coisa.
A terceira pedra estava dentro do copo que ela acabara de encher.
Luísa soltou o copo.
O barulho fez Marcos acordar no quarto.
Antes que ele aparecesse, ela ouviu novamente a voz do lado de fora.
Dessa vez não conseguiu entender as palavras.
Marcos surgiu no corredor.
“Luísa?”
Ela não respondeu.
Continuava olhando para o chão.
A água tinha parado de entrar.
Mas havia pegadas molhadas no chão da cozinha.
Começavam na porta da varanda e terminavam ao lado dela.
Nenhuma delas era de Luísa.
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