Tadeu Everton Zamoiski
O telhado do terminal é de zinco. Mesmo sem chuva, pinga. Valdir conta os pingos do zinco para não contar outra coisa. Vinte e três. Vinte e quatro.
Guichê 2. Cinco e meia da manhã e a chave prende de novo. O vidro está suado por dentro e alguém riscou com canetão preto no canto, torto: 29/05. Cheiro de diesel da ABALINE com pastel frio da barraca da frente. Lá fora a neblina apagou a Ilha do Mel.
O alto-falante chia. O zinco responde.
A máquina tosse sozinha.
trrr
Cai um bilhete quente na bandeja de metal. Queima o dedo.
MARIA DAS DORES CORREA - 29/05 - 17:45
DESTINO: ÚLTIMA CHAMADA - P-0
Sem poltrona. Só P-0 escrito à mão no canto.
Valdir conhece todas as poltronas. P-0 não existe na planilha.
Do lado do teclado, o carimbo. Cabo de madeira lascado, borracha seca, sem tinta no estojo há anos. Mesmo assim, quando bate na madeira, deixa roxo. Quente. Valdir tenta pegar o bilhete rápido e o carimbo pega de raspão no antebraço. Fica roxo na pele.
Ele esfrega. Não sai.
Marta chega com o coque molhado e a sacola de bala de banana. Guichê 1.
— De novo essa velha cuspindo papel?
Deixa a garrafa térmica no balcão dele. Lê por cima do ombro, como sempre faz. Encosta sem querer no carimbo.
— Ai.
No dedo indicador dela fica um ponto roxo. Ela esfrega no avental. O ponto clareia. Ela não repara. Valdir repara.
— P-0? Isso não existe.
Valdir amassa o papel e joga na lixeira debaixo do guichê. O zinco pinga mais forte.
No fim do turno da manhã, ele abre o armário de ferro do mezanino. Pasta preta com cheiro de barata. Manual da Lóide Paranaense, 1961.
Página 14, grifada de Bic, letra do avô:
P-0 (Última Chamada) não se retém. Usa Formulário 7. Quem emite e não carimba responde pelo bilhete. Se o cessionário não aceita, volta para quem emitiu.
Embaixo, outra letra, do pai:
Toninho, 71. Voltou. Doeu mais.
Atrás do manual, grampeado, o Formulário 7. Folha fina, amarela. Dois campos: CEDENTE e CESSIONÁRIO. Um quadrado vazio para o carimbo.
No bolso da camisa, sem ter pedido, um bilhete quente que não estava lá antes:
VALDIR MOREIRA - 01/06 - 18:00
Valdir passa a mão no antebraço. O roxo não sai. Na cabeça, água até o joelho. Areia. Uma voz pequena.
À tarde, Valdir evita olhar o relógio. Olha o zinco. Olha a rua. O vento traz maresia com óleo diesel e roupa úmida do varal do terminal.
29/05, 17h43.
Uma capa amarela na fila. Mulher rindo alto, ajeitando a alça da bolsa. Compra água. O pix da Marta apita: Maria das Dores Correa.
— Dona, ali escorrega — fala alto demais.
Ela ri.
— Que nada, filho.
17h45 cravado. O chinelo dela prende no meio-fio. Nem chega na rampa. O corpo amolece de uma vez. Nuca na quina do banco de concreto. Barulho oco. A garrafa d'água estoura no chão. Só o zinco, alto.
No bolso da capa, o bilhete amassado. Seco.
A máquina tosse de madrugada e o zinco para. Quando Valdir chega, o bilhete já está quente na bandeja.
LUCAS MATHEUS DOS SANTOS - 30/05 - 14:20 - P-0
Mochila da Copel desbotada na fila. Âncora tatuada no braço. O rapaz chega cedo, deixa cair uma laranja do bolso. Pega do chão, limpa na camiseta, oferece.
— Quer? Peguei da árvore da minha avó em Morretes.
Valdir não entrega bilhete nenhum. O P-0 com o nome do rapaz já está na bandeja, quente.
— O barco das 14:20 quebrou. Fica aqui dentro.
— Mas no aplicativo ainda está lá?
— Quebrou agora. Fica.
14h19. O rapaz sentado, perna tremendo. 14h20. Levanta para fumar na calçada. Uma bicicleta elétrica amarela desce os paralelepípedos e sobe na calçada. Pega ele de costas na pilastra. A laranja rola até o meio-fio.
No bolso, o papel reimprime mais quente.
VALDIR MOREIRA - 01/06 - 17:08
O roxo subiu para o cotovelo.
31/05, manhã. O bilhete quente cheira a concha podre.
ANA LUIZA - 31/05 - 11:05
Menina de vestido com abacaxi, boca verde de picolé que manchou o vidro quando encostou. Valdir se abaixa e esconde a bandeja com o corpo, para Marta não ver.
— Não corre no estacionamento hoje, tá?
A menina faz que sim e sai correndo, rindo. No cascalho, para de repente. Leva a mão ao peito. O picolé cai e derrete no pó. Valdir fica atrás do vidro, com a mão no carimbo, sem conseguir abrir a portinha.
A mãe carrega ela até a rua. Lá fora uma sirene longe. Dona Nair, com a marmita na mão, vê da calçada.
Só quando a sirene some é que o balcão muda.
VALDIR MOREIRA - 01/06 - 16:03
Roxo no ombro. Quase no peito. Frio agora.
31/05, quase meio-dia. Marta sobe com outra pasta. Joga na mesa sem falar. Põe um copo d'água do lado do carimbo, como faz quando ele fica pálido.
Livro de ocorrência. Uma linha isolada, no meio da página:
29/05/62 - 17:45 - Falecimento funcionário Valdir Moreira (guichê).
Colado com durex, um bilhete em carbono igual aos de agora. Nome: Valdir Moreira. Cessionário: Elias Moreira, escrito à mão, sem carimbo em cima. O avô, Valdir, escreveu o nome do filho. O nome de Elias ficou sem carimbo. Herdou o posto e o silêncio.
Valdir nasceu em 74. Tinha nove anos em 83, quando o Lico, de sete, de mochila azul da Copel desbotada, rindo com o dente da frente faltando, disse "me espera, Valdir" na Praia de Fora e entrou na água enquanto a mãe gritava da areia para voltar. Ele ficou na areia contando concha. Um, dois, três.
Tranca a máquina no depósito, com cadeado. A mão hesita um segundo antes de encostar no ferro. Está quente. Guarda a chave. O zinco volta, fraco.
01/06, 15h25. O cadeado está quente.
Lá dentro:
trrr
VALDIR MOREIRA - 01/06 - 15:30
DEIXE OUTRO EMBARCAR
Embaixo, um quadrado vazio esperando carimbo. O roxo queimando no peito dele, por baixo da camisa.
O terminal esvazia de som. A luz fluorescente fica acesa, amarela, cheia de mosquitinho morto. O alto-falante não chia mais.
Marta entra correndo. Na mão, um bilhete em branco, frio, sem nome.
— Saiu para mim agora. Está gelado, Valdir.
Valdir segura o pulso dela. O ponto roxo no dedo dela está do tamanho de uma lentilha. Marta afrouxa a mão e enfia uma bala de banana no bolso da camisa dele, por cima da Bic.
Na fila, sozinho, um menino descalço. Mochila azul desbotada. Dente da frente faltando.
Valdir olha para o menino. O menino segura um bilhete em branco e olha para o vidro. No vidro, vê Valdir. Depois olha para o carimbo na mão dele.
O alto-falante chama, limpo:
— Passageiro Valdir Moreira, última chamada.
O barco está na rampa. Casco preto, sem nome. Água lisa, preta, sem reflexo.
Valdir levanta o carimbo. A mão treme tanto que o suor cai no papel e chia.
Procura o Formulário 7. Não está.
Olha para o quadrado vazio. Pega a Bic. A ponta paira um segundo sobre o papel, o pulso trava. Desce.
CEDENTE: VALDIR MOREIRA
CESSIONÁRIO: LICO
Escreve com a letra do pai. Devagar.
Vira o carimbo para o próprio peito. O impacto é seco. O som volta pelo osso.
PÁ.
O zinco para de vez.
— Eu espero.
O roxo some do peito, do ombro, do braço.
O bilhete em branco do menino cai no cimento. Agora diz LICO, roxo.
Na mão de Valdir, o bilhete muda, sem queimar:
VALDIR MOREIRA - ILHA DO MEL - 02/06
O barco apita. Uma vez. Quando olha de novo, continua preto, sem reflexo. Lá fora a neblina rasga e a Ilha aparece, cinza-esverdeada.
O menino sobe sozinho pela rampa. Descalço. No topo, olha para trás.
— Me espera?
Valdir olha a rampa vazia. Não sobe. Fica. Aperta o bilhete de 02/06 no bolso. Acha, junto da Bic, a bala de banana que Marta deixou.
Marta fecha os dedos sobre o bilhete em branco. Um nome aparece, roxo, bem fraco: M...
O zinco volta a pingar.
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