segunda-feira, 28 de setembro de 2026

FAROL DAS CONCHAS, 3h33

FAROL DAS CONCHAS, 3h33

Tadeu Everton Zamoiski
Setembro de 2026 | Litoral do Paraná



O barqueiro não olhou para o farol enquanto descarregava minhas duas malas, a caixa de ferramentas e a mochila.

Eu tinha sido contratado para passar trinta dias na ilha.

Ele apontou para a casa.

= Tem rádio. O gerador está funcionando. Se der problema, você me chama.

Perguntei quando voltaria.

= Quando for a hora.

Olhei para o farol.

Foi então que ele olhou para mim.

= Já levei muita gente pra lá. Nunca levei ninguém de volta.

Soltou a corda.

O motor pegou. O zumbido ficou alguns segundos no ar antes de o barco se afastar.

Subi sozinho.

A casa do faroleiro era pequena. Tinha cozinha, banheiro, quarto e uma escada estreita que levava à torre.


DIA 1
Na primeira tarde, encontrei um assoalho solto perto da cama.

Debaixo dele havia um caderno preto.

Na primeira página estava escrito:

Ele chegou pela manhã. Duas malas, uma caixa de ferramentas e uma mochila.

À noite vai sentir cheiro de baunilha.

Fiquei olhando para a letra.

Era a minha.

À noite senti o cheiro.

Baunilha.

Foi quando pensei em Mi.

Mi era o nome que eu usava para ela. Só eu a chamava assim.

Ela tinha ido embora às 3h33.

Não morreu.

Foi embora.

Passei anos repetindo essa diferença para mim mesmo.


DIA 2
Abri o caderno depois do café.

Havia uma frase nova:

Ele vai pensar nela de novo.

Pensei.

Mi usava duas gotas de essência de baunilha nos bolos. Eu sempre reclamava que ficava doce demais.

Fechei o caderno.

Não escrevi nada.


DIA 3
Fui até a vila.

Um pescador consertava uma rede na frente de casa.

Perguntei pelo faroleiro anterior.

= Qual deles?

= Anselmo.

Ele continuou trabalhando.

= Ficou trinta dias. Depois não voltou.

= Como assim?

= Ele dizia que não tinha acontecido nada.

Perguntei se conhecia Anselmo.

= Conhecia.

Antes de voltar, notei alguns galhos amarrados perto do caminho que levava ao trapiche. Um deles tinha sido dobrado formando uma cruz.

No caminho de volta, ouvi um zumbido baixo vindo da ilha.

Parecia o motor do barco.

Não havia barco.


DIA 4
Abri o caderno.

Não procure o barulho.

Escrevi embaixo:

Eu não acredito em você.

Na manhã seguinte havia outra frase:

Anselmo também não acreditou.


DIA 5
Voltei a falar com o homem da rede.

Perguntei por Anselmo.

He disse que Anselmo tinha uma mulher.

= Ela nunca foi para a ilha?

= Não.

= E depois dos trinta dias?

= Veio outro homem.

= E Anselmo?

O pescador deu de ombros.

= Não foi.

Depois voltei para o farol.

Havia uma concha molhada encostada na janela do quarto.

Fiquei olhando para ela por algum tempo.

Pensei em Mi.


DIA 6
Naquela noite lembrei da nossa última discussão.

Foi por dinheiro.

Eu tinha uma reserva guardada e disse que não tinha.

Mi me olhou por alguns segundos.

= Você tem.

Não respondi.

Ela continuou sentada na cama, olhando para as próprias mãos.

Depois perguntou:

= Você quer que eu vá embora?

Eu disse que, se ela achava que era melhor, então fosse.

Ficamos em silêncio.

Um tempo depois ela perguntou:

= Você não vai nem perguntar onde eu vou?

Eu estava cansado.

Virei para o outro lado e não perguntei.

Às 3h33, ela foi embora.


DIA 7
Enquanto eu fingia dormir, Mi deixou uma mensagem:

Eu precisava que você pedisse para eu ficar.

Li várias vezes.

Não respondi.

Apaguei a mensagem.

Depois contei para algumas pessoas que ela tinha decidido ir embora.

Era mais fácil.


DIA 8
Encontrei pegadas na areia.

Eram largas demais para serem minhas. Vinham da água e terminavam perto das pedras.

Não havia marcas no sentido contrário.

Ao lado da última pegada havia outra concha.

No caderno encontrei uma frase:

Ele vai começar a lembrar.


DIA 9
O gerador tossiu e parou.

Ouvi a voz de Mi do lado de fora:

= Tadeu.

Abri a porta.

Não havia ninguém.

O cheiro de baunilha estava forte.

Voltei para a cozinha e escrevi no caderno:

Eu tinha deixado que fosse.


DIA 10
Abri o caderno e encontrei:

Ele não vai reconhecer a letra hoje.

Li a anotação do dia anterior e, por alguns segundos, não reconheci a letra.

Depois reconheci.

Era minha.

O que me incomodou foi perceber que eu não lembrava de ter escrito aquilo.


DIA 11
Arrumei a mochila.

Fiquei esperando o barco.

Não veio.

Desarrumei tudo.

No caderno havia outra frase:

Ele vai deixar a mochila pronta.


DIA 12
Encontrei uma folha dobrada dentro de uma gaveta.

A letra era de Anselmo.

Havia poucas frases:

O pior não é ouvir a voz dela.
É lembrar.
Das coisas que você fez.
Depois a gente entende.
Quando o barco vier...
Não peça para ir embora.

Guardei a folha na mochila.


DIA 13
O rádio começou a transmitir uma música que eu não conhecia.

Depois reconheci a voz.

Era Mi cantando.

Desliguei o rádio.

A música continuou vindo da escada.

Fiquei sentado na cozinha até amanhecer.

Quando fui abrir a porta, encontrei duas xícaras sobre a mesa.

Uma estava vazia.

A outra tinha café frio e cheiro de baunilha.


DIA 14
Passei a manhã fazendo manutenção na torre.

Troquei uma lâmpada.

Apertei dois parafusos da porta.

Limpei o vidro.


DIA 15
Escrevi no caderno:

Estou cansado.

Quando voltei a olhar, a frase já estava ali.

Na minha letra.

Abaixo dela:

Eu sei.

Fiquei olhando para aquilo.

Não soube se o caderno tinha escrito antes ou depois de mim.

Fui até o trapiche.

Não havia barco.

Quando voltei, a frase estava na página seguinte:

Você voltou.


DIA 16
Deixei a porta destrancada.

Fui até o trapiche.

Quando voltei, ouvi o zumbido do motor.

O gerador estava desligado.

Fiquei parado na porta, escutando.

O som vinha de algum lugar abaixo da ilha.


DIA 17
O gerador continuava desligado, mas o farol estava girando.

O facho passava pelas paredes, varria o mar e desaparecia sempre no mesmo ponto escuro.

Pensei em Mi.

Lembrei de quantas vezes eu tinha contado aquela história para mim mesmo, sempre do mesmo jeito:

Ela quis ir embora. Eu respeitei. Poderia ter ligado. Poderia ter procurado. Não fiz.

Durante anos chamei isso de respeito.


DIA 18
Fui limpar a lente do farol.

Encontrei uma marca de mão do lado de fora do vidro.

Cinco dedos. A palma inteira.

Passei um pano.

A marca saiu.

Ouvi um barco no mar.

Não havia barco.


DIA 19
Sonhei com Mi.

Ela estava sentada na cama.

= Você queria mesmo que eu fosse embora?

Não respondi.

= Então por que deixou?

Acordei antes que ela terminasse.

No caderno escrevi:

Porque achei que ela voltaria.

Abaixo estava escrito:

Anselmo também achou.


DIA 20
Voltei a falar com o homem da rede.

Perguntei por Anselmo.

= Ele ficou esperando o barco depois dos trinta dias.

= E depois?

= Até chegar outro.

= Outro faroleiro?

= Sim.

= E Anselmo foi embora?

O homem ergueu os olhos:

= Ele levou o outro até a ilha.

Não perguntei mais nada.

Naquela noite encontrei a folha de Anselmo no chão da cozinha.

Eu tinha certeza de que a havia deixado dentro da mochila.

Abri a mochila.

A folha estava lá.

Peguei as duas.

Eram iguais.

Mesma dobra. Mesma letra. As mesmas manchas no canto.

Fiquei olhando para uma e depois para a outra.


DIA 21
Choveu durante quase todo o dia.

À noite, fui até uma pequena gruta perto da parte mais baixa da ilha.

Na parede havia marcas antigas.

Uma delas ainda dava para ler:

TADEU

Mais abaixo, quase coberto por sal:

ANSELMO

Perto do chão havia um risco fundo na pedra:

3h33

Voltei para a casa molhado.

Não escrevi nada no caderno.


DIA 22
Acordei sem saber se era manhã ou tarde.

O relógio da cozinha marcava 11h20.

O da sala marcava 6h45.

Subi até a torre.

O farol estava girando.

Fiquei olhando para o mecanismo durante alguns minutos.

Voltei para a cozinha.

No caderno havia uma frase nova:

Você ainda está aqui.


DIA 23
Passei o dia tentando lembrar do dia anterior.

Consegui lembrar do farol.

Não consegui lembrar de ter escrito no caderno.

À noite subi novamente à torre.

O facho atravessou a janela e passou sobre o mar.

Olhei para o relógio:

3h33.

O farol apagou.

Esperei.

Depois voltou a girar.


DIA 24
Fiquei diante do espelho do banheiro.

Levantei a mão.

Meu reflexo demorou.

Foi pouco. Menos de um segundo.

Mas demorou.

Fechei os olhos.

Quando abri, meu reflexo estava olhando para a porta.

Eu não estava.

Fiquei imóvel.

O caderno estava sobre a pia.

Eu o havia deixado dentro da mochila.

Meu reflexo continuava olhando para a porta.

Quando virei, não havia ninguém.

Olhei novamente para o espelho.

Ele estava olhando para mim.


DIA 25
Encontrei a mochila aberta sobre a cama.

A folha de Anselmo estava dentro.

Só havia uma.

Fui até a cozinha.

A outra tinha desaparecido.

Não procurei.


DIA 26
Ouvi o zumbido outra vez.

Dessa vez parecia mais perto.

Fui até o trapiche.

O mar estava vazio.

Voltei para casa e encontrei a porta aberta.

Eu tinha certeza de que a havia fechado.


DIA 27
O caderno estava aberto sobre a mesa.

As páginas anteriores pareciam mais gastas.

Na última página estava escrito:

Você vai preparar a mochila.

Minha mochila já estava pronta.

Abaixo:

DIA 30


DIA 28
Fiquei olhando para o teto, como naquela noite.

Ouvi quando Mi levantou.

Ouvi quando abriu a porta.

Poderia ter chamado:

Fica.

Não chamei.

Fiquei deitado até ouvir a porta fechar.

O gerador estava desligado.

Mesmo assim, o zumbido começou.

Levantei.

O farol estava girando.

Olhei para o relógio:

3h32.

Fui até a torre.

Quando o ponteiro mudou, o farol apagou.

Dessa vez não voltou a girar.

3h33.

O mar ficou completamente escuro.

Então ouvi o barco.

Desci até o trapiche.

Não havia barco.


DIA 29
Não aconteceu nada durante o dia.

Passei a manhã dentro da casa.

À tarde, fiz café.

À noite, deixei a mochila ao lado da porta.

Não abri o caderno.

Pouco antes de dormir, ouvi o motor no mar.

Dessa vez não havia dúvida.

O barco estava vindo.


DIA 30
Olhei para o relógio:

3h33.

O barco encostou.

O barqueiro desceu primeiro.

Atrás dele vinha um rapaz com uma mala pequena e uma camiseta azul desbotada.

Ele olhou para o farol.

Depois para mim.

= Quando o barco volta?

Olhei para o rapaz:

= Quando for a hora.

Ele ficou em silêncio.

Então ouvi minha própria voz:

= Tem rádio. O gerador está funcionando. Se der problema, você me chama.

O barqueiro segurou a corda.

Olhei para a casa.

O rapaz também olhou.

Na janela havia uma marca de mão.

Cinco dedos.

A palma inteira.

Ele percebeu.

Não disse nada.

Segurei as alças da mochila e entrei no barco.

O barqueiro tirou o boné e colocou no banco.

Só então soltou a corda.

Seguiu pelo trapiche até as pedras.

Ficou ali.

O rapaz começou a subir a escada que levava ao farol.

Eu me sentei no lugar do piloto.

Minhas mãos encontraram os controles.

Eu não sabia pilotar.

Mesmo assim, soube o que fazer.

O motor pegou.

O som era o mesmo zumbido que eu vinha ouvindo desde o primeiro dia.

Quando o barco começou a se afastar da ilha, olhei para o trapiche.

Uma cruz feita de dois galhos estava amarrada ao último poste.

O barqueiro estava parado junto às pedras.

Na água, vi meu reflexo.

O barco continuava andando.

O reflexo não.

Fiquei olhando até ele desaparecer.

No banco, ao lado do boné, estava o caderno.

Abri.

Na primeira página havia uma frase nova:

Ele chegou às 3h33. Uma mala pequena.

Abaixo estava a folha de Anselmo.

No fim da página, na minha letra:

Já levei muita gente pra lá.

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