Tadeu Everton Zamoiski
Setembro de 2026 — Paranaguá e Antonina, litoral do Paraná
A primeira coisa que vi foi a mancha. Esfreguei e não saiu. Depois piorou.
O homem estava sentado diante de mim, com as duas mãos apoiadas na mesa. Uns quarenta e poucos anos. Uniforme azul desbotado, unha curta e roída. Uma aliança de metal no dedo esquerdo, já sem brilho. A mancha tomava a palma da mão direita. Vermelha. Quase laranja. Cor de ferrugem mesmo.
— Quando apareceu?
— Ontem.
— Coça?
— Um pouco.
— Arde?
Ele ficou olhando para a própria mão, como se esperasse ela responder.
— Agora tá ardendo.
Peguei a lupa da gaveta. Não tinha corte. Não tinha bolha. Era só um pó fino, entranhado nas linhas da pele. Como se ele tivesse fechado a mão em cima de tijolo moído.
— Mexeu com minério?
— Mexi.
— Qual?
— O de sempre, doutora.
Perguntei de luva, de óleo, de solvente. Se tinha trocado de detergente em casa. Nada.
— Rasgou a luva?
— Acho que não.
Fiquei esperando. No ambulatório a gente aprende a esperar o “acho”.
— Então não rasgou.
Mandei lavar com água e sabão. Dez minutos depois ele voltou com a mão limpa.
Limpa demais.
— Irritação por contato. Se voltar, você me procura.
Ele ficou olhando para a palma vazia.
— Vai voltar?
— Espero que não.
— Eu também.
Naquela semana vieram mais quatro.
Um cheirava a farelo de soja, aquele cheiro doce que entra pela janela do ambulatório e gruda na roupa. Outro entrou e deixou um rastro de barro seco no chão, da sola da bota. O terceiro tinha uma linha fina, vermelha, atravessando o pulso, como marca de relógio apertado.
As manchas não eram iguais. Mas pareciam da mesma família.
O primeiro vinha do pátio novo. O segundo jurou que nem tinha passado perto do minério. O terceiro estava do outro lado do porto, carregando caminhão.
Mesmo assim, aparecia.
Perguntei da comida para dois.
— Comeu diferente?
— Não, doutora. PF de sempre.
O outro almoçava em outro lugar.
Deixei de lado.
Comecei a anotar. Função, setor, turno. Comecei a anotar tudo porque não sabia o que anotar.
No segundo dia, a tinta da caneta manchou meu dedo de laranja. Lavei. Saiu.
No outro dia, abri o prontuário e algumas palavras estavam borradas. Não todas. Só as que eu tinha escrito sobre a mancha.
Tentei cobrir. A caneta falhou.
Peguei outra na gaveta. Escrevi o nome do paciente. No fim da tarde, aquele nome também estava laranja.
Guardei a caneta.
Os casos aumentaram.
Um dia entrou um sem relógio.
— Cadê seu relógio?
— Joguei fora.
— Por quê?
Ele olhou para o pulso vazio.
— Tava enferrujando.
— O relógio?
Ele levantou os olhos para mim.
— O tempo. O tempo tava enferrujando.
Perguntei que dia era.
— Terça.
Olhei para o calendário na parede. Era terça mesmo.
No prontuário estava escrito segunda. Na minha letra.
Fiquei um tempo olhando para aquilo.
No dia seguinte ele voltou. A mesma camisa.
— Você esteve aqui ontem.
— Estive?
— A gente conversou.
— Não.
Ele olhou para a porta.
— Ontem foi hoje.
Anotei a frase. A tinta começou a ficar laranja antes de eu terminar o “hoje”.
Fechei o prontuário com força.
Fui atrás dos papéis da última remessa. Carga estrangeira. No campo de transporte, um nome escrito à mão, meio apagado:
Mare Alta.
Joguei no sistema. Nada.
Desci no administrativo. O rapaz nem levantou a cabeça.
— Mare Alta.
— Conhece?
— Não.
— Navio?
— Pode ser.
— Carga?
— Pode ser carga também.
— Já vi aparecer como empresa.
Ele me devolveu a folha como quem devolve um problema que não é dele.
“Doutora, eu só confiro documento. Se veio escrito, eu registro. Se não veio, eu não invento.”
Guardei a frase. Ela ficou na minha cabeça o dia inteiro.
De noite, minha filha mandou mensagem:
Mãe, você lembra daquela mancha que eu tinha quando era pequena?
Fiquei olhando para a tela.
Aquela que você dizia que era terra.
Eu lembrava. Uma marquinha vermelha no joelho dela, quando ela tinha seis anos. Eu lavei com água e sabão, esfreguei. Não saiu de primeira. Falei que era terra do parquinho. Depois sumiu.
Lembro. Por quê?
Ela demorou para responder.
Apareceu de novo.
Mandou uma foto. Perto do cotovelo. Uma manchinha pequena.
Tá ardendo.
Fiquei com o telefone na mão. Gelado.
Chegou outra:
Mãe, tá ardend
O último “o” estava quase apagado.
Não respondi.
De manhã, ela mandou outra foto. Tinha crescido.
Naquela tarde, comecei a guardar minhas coisas em sacos plásticos. Crachá, caneta, a tampa da garrafa. Bobagem.
As chaves ficaram limpas. O relógio também.
O crachá não. A caneta não.
Naquela tarde, o primeiro homem voltou. Reconheci a camisa antes do rosto.
A aliança agora tinha uma faixa fina de ferrugem por baixo.
— Tava assim ontem?
— Não.
— Dói?
— Não.
Passei o polegar na lateral do meu indicador. Não coçava. Só esquentava. Um calor que não era meu.
De noite, procurei Mare Alta de novo. Achei um arquivo velho de Antonina. A data quase não dava para ler. Parecia 1998.
Em outra folha, mais velha ainda, havia só dois números no canto:
68.
Mare Alta.
Navio. Carga. Empresa.
Tudo que o porto precisava que fosse.
No rodapé, uma assinatura:
Nivaldo Ferreira.
Peguei o carro no sábado. Chovia fino em Antonina. O porto estava vazio. A baía parada, aquela água escura que parece não ir para lugar nenhum. O céu baixo escondia parte da serra.
Perguntei por Nivaldo. Me apontaram uma área coberta.
Ele tinha 78 anos. Era magro, cabelo branco, jaqueta velha grande demais. Sem relógio.
Mostrei a cópia de longe.
— Mare Alta.
— Conheço o nome.
— Era navio?
— Já foi.
— Carga?
— Já foi também.
— Empresa?
Ele me olhou com uma pena que me irritou.
— Tudo que o porto precisava que fosse.
Mostrei o papel mais velho. Ele nem tocou.
— Esse devia ter sumido.
— Por quê?
— Porque já sumiu uma vez.
— O senhor trabalhava com meu pai?
— Qual o nome dele?
Eu falei.
Ele baixou os olhos.
— Ele usava uma caneca azul?
Meu corpo respondeu antes de mim. Senti um frio na barriga.
A caneca ficava na cozinha. Tinha a borda lascada. Minha mãe reclamava que ele deixava o café esfriar. Eu lembrava do barulhinho da colher batendo no fundo.
— Usava.
— Então era ele.
Ele olhou para o próprio pulso vazio.
— Ele também jogou o relógio fora.
— Quando?
Nivaldo levantou a mão. Chega.
Olhou para o galpão no fundo.
— Não entra lá.
— Por quê?
— Porque eu já entrei.
— E o que aconteceu?
Ele fechou o zíper da jaqueta até em cima.
— Já fiz essa parte da minha vida.
Fui sozinha.
A porta lateral estava aberta o suficiente para passar de lado. Lá dentro fazia frio. Cheiro de madeira molhada, óleo velho e metal. Máquinas cobertas de ferrugem. Algumas abandonadas havia décadas. Outras tinham marcas de mão recentes por cima da ferrugem.
No fundo, uma faixa vermelha atravessava a parede. Começava no chão e subia uns dois metros. Do lado de fora, a parede estava limpa.
Tirei uma foto.
As letras apareceram depois.
Sozinhas.
Primeiro uma.
Depois outra.
PARANAGUÁ.
Meu celular vibrou.
Mãe, aumentou.
A mancha da Clara estava maior na foto.
Guardei o telefone no bolso.
Atrás de mim, alguma coisa raspou no chão.
Virei.
Nada.
A faixa vermelha começou a descer.
Sem água. Sem motivo.
A linha chegou ao concreto e veio vindo, devagar, até parar na ponta do meu sapato.
Olhei para minha mão.
A mancha estava ali.
Dessa vez não esfreguei.
As letras na parede começaram a sumir. Uma por uma.
PARANAGUÁ.
No lugar surgiu:
1968.
Lembrei do rapaz do administrativo:
“Se veio escrito, eu registro.”
Tirei a caneta do bolso.
A ponta já estava laranja.
Pensei na mancha que eu tinha chamado de terra.
Minha mãe fazia a mesma coisa. Molhava um pano e esfregava a barra da calça do meu pai.
Passei a mão no bolso onde estava o celular.
Encostei a caneta na parede.
Escrevi o nome dela.
CLARA.
A última letra mal terminou de aparecer quando a primeira já estava sumindo.
C
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