quarta-feira, 30 de setembro de 2026

O COLECIONADOR DE MARÉS

O COLECIONADOR DE MARÉS
Guaratuba não devolve nada de graça.

Tadeu Everton Zamoiski

Valdecir tinha 59 anos, pedreiro aposentado, morador da terceira quadra da Rua Vieira. Todo dia, cinco e meia da manhã, fazia a mesma coisa há onze anos. Um balde branco de massa na mão esquerda, olho no chão, novecentos metros até a foz e novecentos de volta.

Começou depois que a mulher se afogou no canal. Na primeira semana sem ela, ele achou na beira um grampo de cabelo de florzinha verde, igualzinho ao que ela usava pra prender o coque. Não era dela. Ele sabia. Mesmo assim guardou. Ficou apertando o grampo na palma até deixar marca e levou pra casa. Lavou na torneira do tanque e deixou em cima da cômoda. Depois disso não conseguiu mais passar pela praia sem olhar.

O povo já sabia e atravessava a rua.

— Lá vem o Valdecir da maré — dizia Dona Cida da peixaria. — Deixa ele, Cida. Isso é vício. Igual rede. Se não puxa, a mão coça — respondia Seu Nestor.

Ele não catava concha bonita. Catava coisa de gente. Um pé de chinelo 37, um controle de TV com a pilha ainda boa, uma boneca sem um olho. Levava pra casa, lavava, passava uma fita crepe com a data escrita de canetão e enfiava num quartinho nos fundos. O pessoal do posto de saúde chamava aquilo de TOC. Ele dizia que era guarda.

— Eu não roubo, seu Nestor. Eu seguro. Se eu não seguro, some.

O Lucas, filho dele, 23 anos, ajudante dele na obra, vivia zoando.

— Pai, um dia o senhor vai achar até a carteira do prefeito aí.

Lucas tinha mania de estalar o pulso antes de apertar qualquer parafuso. Fazia isso desde pivete. Era um costume que nem percebia.

Numa terça de junho, Valdecir achou um óculos infantil azul, do Ben 10, quase novo, meio enterrado na areia fofa perto do Morro do Cristo. Deixou secando no muro e foi embora. Só na fila do pão, no dia seguinte, ouviu Dona Cida comentar sem olhar pra ele:

— Menino de sete anos sumiu ontem na praia. Entrou com o pai e não voltou.

Dois dias depois o menino apareceu na Barra do Saí. O óculos continuou no muro.

Na outra semana he pegou a praia com vento sul. Veio uma touquinha rosa de crochê, de recém-nascido, ainda com cheiro de amaciante. Valdecir não terminou a volta. Ficou com ela na mão, virando do avesso, e subiu pela Tiradentes antes da foz. De noite, na venda, duas mulheres falavam baixo:

— Sumiu um bebê no Piçarras. Levou a touquinha que a avó fez.

Ele não respondeu. Deixou a touquinha em cima do grampo verde.

Foi na benzedeira da Prainha.

— Valdecir, você tá guardando coisa que não era pra você guardar.

— Mas eu guardo com cuidado, Dona Maria.

— Justamente. Por isso mesmo.

He desceu a rua sem jogar nada fora.

No dia 18 de julho, numa maré muito baixa, céu roxo de chuva, ele foi até a foz mais longe que de costume. O vento cortava. A água tava gelada, com espuma amarela de ressaca. O mar não tava brabo. Tava só quieto demais.

Brilhando entre as pedras pretas, coberto de limo e areia grossa, tava um relógio.

Era um Casio F-91W, de pulseira preta. O visor riscado na diagonal. Valdecir sentiu o estômago virar. A mão ficou fria antes mesmo de encostar. O metal tava frio, a pulseira áspera, impregnada de maresia e um cheiro fraco de ferrugem com suor velho. O risco. Fino, torto, no canto do visor. O mesmo que o Lucas tinha feito no SENAI, com a ponta do compasso tentando gravar um L.

He ficou de joelhos. A água gelada atravessou a calça e mordeu o joelho. Ficou olhando pro risco, com a respiração presa.

— Não. Não, não. Não esse.

Pela primeira vez em onze anos largou o objeto onde tava. Deixou o balde branco tombado na areia e saiu correndo descalço pra casa, com a areia grudando nos pés.

— Lucas! Cadê seu relógio! — gritou da porta.

Lucas tava na cozinha, de bermuda, comendo pão com margarina, estalando o pulso sem perceber.

— Tá aqui, pai. No pulso. Que susto é esse?

E tava. O mesmo Casio, com o mesmo risco.

— Pai, o senhor precisa parar com essa praia. O pessoal do posto já falou. Isso não é vida — disse Lucas.

— Eu parei, filho. Hoje eu parei.

Não parou. De madrugada ele voltou. O balde ainda tava lá, tombado, cheio d'água da maré que subiu. No lugar onde o relógio tava, agora era só um buraco liso na areia.

Seu Nestor encontrou Valdecir sentado, tremendo.

— Valdecir, tem coisa que o mar mostra uma vez só.

Na sexta-feira o Lucas não apareceu pra trabalhar. O mestre ligou no fim da tarde, com a voz abafada de obra.

— Valdecir, seu piá não veio hoje. Deixou a marmita aí.

Valdecir disse que não sabia.

Na manhã seguinte o telefone tocou de novo. Era o mestre.

— De novo, Valdecir. Ele não veio. A mulher da pensão disse que ele não dormiu lá. Você viu ele?

Na rua o pessoal começou a falar baixo quando ele passava. Não era mais o esquisito do balde. Era o pai do Lucas que sumiu.

No sábado de noite Valdecir não aguentou. Pegou o balde e jogou tudo fora. Mais de duas mil peças na maré cheia. Chinelo, boneca, controle, touquinha rosa, e no fundo do balde o grampo verde de florzinha. Gritou com a garganta ardendo de sal.

— Toma! Toma tudo de volta!

O mar não responde.

Voltou pra casa encharcado, com os pés sangrando de concha. Abriu a porta do quartinho. O quartinho tava vazio. No chão ainda apareciam as marcas de poeira onde ficavam as prateleiras.

No meio da mesa de ferramenta tava o relógio.

Pingando, com areia grudada na pulseira e ticando.

Valdecir ficou parado na porta. Não encostou.

Depois de um tempo, respirou fundo, esticou a mão e colocou o relógio no pulso. Ficou grande. E foi andando até a praia. Entrou. A água de julho corta a canela, corta o joelho, corta a cintura. Quando bateu no peito, fechou o olho e continuou.

— PAI!

O grito veio da rua, não da água.

Na calçada um carro de aplicativo parava. Do carro desceu Lucas, mancando, com uma perna presa numa tala improvisada de madeira e a calça de obra suja de cimento, apoiando-se no motorista.

— Pai! Sai daí!

Valdecir ficou no mar, com água no peito, sem entender. O relógio ticava no pulso.

Lucas veio até a beira, respirando fundo, segurando a perna.

— O senhor tá me ouvindo? Eu caí no fosso... Na obra, pai... Sem celular...

Valdecir saiu da água, encharcado, com as pernas bambas, puxando o ar.

— Que que o senhor tá fazendo com meu relógio? Eu perdi na obra na sexta!

Valdecir olhou pro pulso. Olhou pro filho. Riu e chorou ao mesmo tempo, com soluço de velho.

— Achei. Achei na maré.

Naquela madrugada, a maré derrubou o muro dos fundos. Levou o quartinho inteiro.

Só o chão lavado, com cheiro de cimento molhado.

He ficou ali até clarear, sentado na mureta, olhando aquele quadrado limpo. Foi o primeiro amanhecer em onze anos sem balde na mão.

A Praia Central tava lisa, varrida.

Dona Cida passou com a sacola de pão, olhou pro terreno aberto, pro Valdecir sentado na mureta de bermuda molhada.

— E o quartinho, Valdecir? Caiu?

Ele só fez que sim com a cabeça.

— Vixe — ela disse, e continuou andando.

Valdecir nunca mais colecionou.

Até hoje, cinco e meia da manhã, ele vai até a areia. Sem balde. Só fica olhando a espuminha.

De vez em quando ainda brilha um Casio preto lá. E ele finge que não viu. E o mar finge que não está lá.

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