Tadeu Everton Zamoiski
Setembro de 2026
Serra do Mar, Paraná
I.
Foi ali que comecei a trabalhar depois de dezoito meses sem beber.
Não digo isso com orgulho.
Há coisas das quais a gente deveria se orgulhar, suponho. Criar um filho. Construir uma casa. Salvar alguém de um incêndio. Ficar dezoito meses sem beber depois de passar quase vinte anos tentando se destruir não me parecia uma conquista. Parecia apenas manutenção.
Como escovar os dentes.
Como pagar uma conta.
Como respirar.
Se eu parasse, sabia o que aconteceria.
A BR-277 descia a Serra do Mar como se tivesse sido aberta à força entre a montanha e a mata. Durante o dia, a estrada era apenas uma estrada: caminhões carregados em direção ao porto, ônibus de turismo, carros seguindo para o litoral, motociclistas que pareciam não temer a chuva. Depois da meia-noite, porém, alguma coisa mudava. Não na estrada propriamente dita, mas naquilo que se podia ver dela. A neblina chegava devagar, apagando primeiro as árvores mais distantes, depois os barrancos, os guarda-corpos, as placas. Por fim, restavam apenas alguns metros de asfalto molhado e a impressão de que qualquer coisa poderia estar esperando logo depois deles.
O posto ficava numa descida, pouco depois de uma sequência de curvas fechadas. Era pequeno, antigo e suficientemente afastado para que, durante as madrugadas, o mundo parecesse terminar ali. Havia três bombas sob a cobertura, uma loja de conveniência que fechava antes da meia-noite e uma guarita de madeira onde ficavam o caixa, o rádio e um relógio redondo que nunca atrasava.
O álcool havia levado a maior parte das coisas que eu julgava importantes, embora essa frase seja simples demais para explicar o estrago. Minha esposa não desapareceu numa noite. Meu filho não deixou de falar comigo de uma vez. Minha casa não foi arrancada das minhas mãos por alguma tragédia repentina. Tudo aconteceu aos poucos, em parcelas pequenas, quase administrativas. Uma discussão. Uma promessa. Outra discussão. Um pedido de desculpas. Uma manhã sem memória. Uma conta que não deveria existir. Uma porta fechada.
Quando percebi, minha vida já não parecia uma vida arruinada.
Parecia a vida de outra pessoa, e eu apenas tinha esquecido de sair dela.
O gerente do posto não perguntou muita coisa quando me contratou. Disse apenas que o turno era da meia-noite às seis.
— Ninguém gosta de trabalhar aqui nesse horário.
— Eu gosto de ficar sozinho.
Ele me olhou por alguns segundos.
— Isso passa.
Na época, não entendi. Hoje não tenho certeza se ele estava falando comigo.
II. O fundo
A primeira coisa que senti foi a água gelada na nuca. Não lembrava de ter deitado. Não lembrava de ter saído de casa. Lembrava de cair. De chão duro nas costas. De boca cheia de terra e gosto de sangue.
Uma formiga subia pelo meu braço esquerdo. Devagar. Esmaguei. Não senti nada.
Uma mulher passou. Guarda-chuva preto. Calçados brancos. Olhou para frente. Não me viu. Um carro passou. Um cachorro latiu longe. Ninguém parou.
Eu fiquei ali.
O frio entrava pela roupa. A cabeça pesava. Eu não conseguia juntar força para levantar.
Se alguém tivesse me estendido uma garrafa naquele instante, eu teria aceitado.
Não por raiva.
Não por tristeza.
Porque era mais fácil deixar levar do que levantar.
Foi a pior verdade que aprendi.
E a mais verdadeira.
III. 3h15
Nas primeiras noites, aprendi a rotina. Depois da uma da manhã, quase não havia movimento. Às duas, eu fazia café. Às duas e meia, conferia o caixa, organizava as prateleiras e ligava o rádio. Gostava das estações AM porque os locutores pareciam cansados. Falavam devagar, anunciavam músicas antigas e davam notícias que ninguém estava acordado para ouvir.
Às vezes, quando a vontade de beber vinha, eu aumentava o volume.
A vontade não tinha forma. Era só uma ideia que aparecia e ocupava espaço. Eu tinha aprendido isso durante o tratamento. Podia tomar banho frio, caminhar, mastigar alguma coisa, ligar para alguém. A vontade vinha, crescia e depois diminuía.
Era preciso esperar.
Na quarta madrugada, o relógio marcou 3h15.
Ouvi o motor antes de ver o carro. Era um som grave, antigo, quase confortável. Um motor que parecia conhecer a estrada. Olhei para a pista. Os faróis atravessaram a neblina.
O Dodge entrou devagar sob a cobertura. Preto. Comprido. Brilhando sob a chuva. Parou diante da bomba número 2.
Fiquei esperando o motorista sair. Ele não saiu. Peguei a caneta e fui até o carro. Bati no vidro.
— Vai abastecer?
O vidro começou a descer.
Antes de ver o motorista, senti o cheiro.
Cachaça.
Meu corpo reconheceu antes da minha cabeça. Foi isso que me fez recuar.
Então vi o homem.
Durante alguns segundos, não pensei em fantasma. Não pensei em loucura.
Pensei apenas que conhecia aquele rosto.
Era o meu.
Não o rosto que eu tinha aos quarenta e quatro anos. Era o rosto que eu tinha antes de perder tudo. Mais cheio. Mais vermelho. Os olhos brilhando daquele jeito que eu aprendera a odiar porque, durante muito tempo, achei que aquilo fosse felicidade.
Havia uma garrafa no banco do passageiro. Ele sorriu.
— Demorou.
Não respondi. Olhei para trás. A guarita parecia muito distante. Quando voltei a encará-lo, ele continuava sorrindo.
— Você está bem? — perguntei.
Ele pareceu achar graça.
— Melhor que você.
A garrafa estava agora em sua mão. Não vi quando ele a pegou.
— Faz quanto tempo?
— O quê?
— Que você não bebe.
Não respondi. Ele sabia.
— Dezoito meses.
Meu estômago apertou.
— Quem é você?
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Você sabe.
O relógio da guarita marcava 3h17.
— Não.
O sorriso diminuiu.
— Ainda não.
Ele tomou um gole. Minha garganta queimou.
Às 3h20, o motor acelerou. O Dodge saiu. Fiquei parado sob a cobertura até os faróis desaparecerem. Depois fui até a bomba 2. Não havia marcas de pneus. A chuva podia ter apagado. Foi o que pensei.
IV. A outra coisa
Na noite seguinte, não esperei na guarita. Às 3h10, já estava de pé, olhando para a estrada.
O carro não apareceu. 3h12 — nada. 3h14 — ainda nada.
Когда o relógio marcou 3h15, as luzes apagaram. Não houve queda de energia na região. O rádio simplesmente morreu, as bombas ficaram escuras e a guarita mergulhou numa sombra tão completa que, por alguns segundos, achei que tivesse ficado cego.
Então ouvi alguma coisa na parede. Uma unha. Ou algo parecido com uma unha. Arrastando-se lentamente pela madeira.
Fiquei imóvel. O som contornou a guarita. Parou atrás de mim.
— Pai?
Não me virei. Meu filho tinha oito anos quando começava a me chamar assim com medo. Eu sabia exatamente como aquela voz soava. Mas meu filho tinha trinta e dois anos.
— Pai?
A mão que segurava a lanterna começou a tremer. Não acendi.
— Abre.
Raspe. Raspe. Raspe.
O som vinha do outro lado da porta. Não sei quanto tempo aquilo durou. Quando as luzes voltaram, o relógio marcava 3h20.
O Dodge estava na bomba 2. Não tinha ouvido o motor chegar. O homem olhava para mim através do para-brisa. Não saí. Ele não buzinou. Não fez sinal. Esperou. Quando o relógio marcou 3h21, o carro não estava mais ali.
Na manhã seguinte, encontrei três marcas na madeira atrás da guarita. E uma coisa que não deveria estar ali. Uma tampinha metálica. Velha. Enferrujada. Levei até a lixeira. Depois tirei de lá. Fiquei alguns segundos segurando aquela coisa na palma da mão. Era apenas uma tampa de garrafa. Joguei fora novamente.
V. O que esteve antes
Na quinta madrugada, ele chegou antes. 3h12.
O vidro estava aberto. Ele apontou com o queixo para a bomba 2.
— Olha ali.
Olhei.
— O concreto já viu você chegar.
Fiquei calado. Ele falava baixo.
— Outro esteve no seu lugar.
— Quem?
Demorou um pouco.
— Nivaldo.
O nome ficou entre nós.
— Trabalhava aqui?
— No seu lugar. Jaqueta marrom.
Não sabia por que aquilo me incomodou.
— Quanto tempo?
— Três meses e meio. Durou três meses e meio.
— O que aconteceu?
Ele passou a língua nos lábios.
— Deixou a chave. Ali.
Apontou para o concreto. Havia uma mancha escura perto da base.
— E depois?
— O gerente disse que foi embora.
— Foi?
Ele me encarou.
— A chave ficou.
O motor começou a vibrar.
— Onde está Nivaldo?
Ele olhou para a estrada.
— Esperando.
Partiu sem acelerar. Fui até a bomba 2. A mancha estava lá. Passei o dedo. Estava seca. Limpei o dedo na calça. Naquela noite, demorei para voltar à guarita.
VI. O homem que lembrava
O Dodge voltou. Não todas as noites. Isso era pior. Algumas madrugadas passavam normalmente. Eu começava a acreditar que tinha imaginado tudo. Então, às 3h15, os faróis surgiam.
Na terceira vez, o homem falou sobre minha esposa. Não sobre o dia em que ela foi embora. Sobre uma terça-feira qualquer. Disse que eu tinha chegado em casa com uma garrafa escondida dentro da mochila. Minha esposa estava na cozinha, cortando tomates. Meu filho fazia a lição na mesa.
— Você entrou sem tirar os sapatos. Deixou marcas de lama no corredor.
Não perguntei como sabia.
— Ela viu a garrafa quando você se abaixou para pegar a carteira. Você disse que não era sua.
Olhei para o relógio. 3h18.
— Eu não disse isso.
Ele sorriu.
— Disse.
E repetiu a frase. Até a pausa antes da última palavra. Fiquei olhando para ele. Ele não falou mais nada. Nem eu.
VII. A mochila azul
Parei de perguntar quem era. Ele parou de responder. Conversávamos. A palavra parece leve. Não era.
Nunca entrava no carro. Nunca aceitava a garrafa. Nunca ficava depois das 3h20. Mas eu ia até ele. Às vezes por medo do que rondava a guarita. Outras vezes por medo de ele não aparecer.
Ele percebia.
— Sente minha falta.
Não respondi. Ele riu.
Na sexta vez, havia uma mochila azul no banco de trás. Igual à do meu filho. Eu conhecia aquela mochila. O zíper tinha um pedaço de linha azul preso no puxador. Eu tinha comprado aquela mochila para ele. Dezessete anos antes.
Não toquei no vidro. Ele levantou a mochila. Ficou olhando para mim. Não disse nada.
— Não.
A boca dele se mexeu num sorriso pequeno.
— Você nunca olhou.
— Cala a boca.
Ele continuou segurando a mochila.
Lembrei do portão. Dezessete anos. Ele disse: "Me liga quando estiver sóbrio." Não liguei. Ele também não.
O Dodge foi embora às 3h20. Fiquei parado até as seis.
VIII. O rosto errado
Chovia desde antes do meu turno. Às duas e quarenta, o rádio falhou. Às duas e cinquenta, desliguei. Às três, percebi que não respirava direito. Não por medo dele. Por medo de ele não aparecer.
Às 3h15, o motor veio de trás. Não da estrada. De trás da guarita. Senti a vibração no chão. Virei.
O Dodge estava ali. Não ouvi chegar. Não ouvi nada. Caminhei até a janela. Ela desceu.
Vi meu rosto. Não o de antes. O de agora. Depois outro. Mais jovem. Depois o rosto que minha esposa conheceu nos últimos meses. Depois o rosto do meu filho quando ainda tinha oito anos. Piscar não ajudou.
Ele ergueu a garrafa.
— Hoje entende.
3h17.
— O quê?
— Nunca pedi para beber. Só esperei. Esperei você.
O som na parede recomeçou. Lento.
A garrafa chegou mais perto. Senti o cheiro. Cachaça.
— Uma dose.
Estendi a mão. Toquei o gargalo. Tudo parou. Chuva. Motor. Respiração.
Lembrei da sarjeta. Do frio. Da formiga. Da mulher que passou. A mão continuava no gargalo. Eu queria.
Retirei a mão.
Ele não se surpreendeu. Pareceu cansado.
— É isso.
— É.
— Vai continuar?
Olhei para ele. Não sabia de amanhã. Sabia daquele minuto.
Dei um passo para trás. 3h19. Ele assentiu. O vidro subiu.
3h20. Banco vazio. Porta fechada. Ninguém. Algo respirou atrás de mim. Não virei. O motor morreu. Когда olhei, não estava mais ali. Apenas a bomba 2. A chuva. Uma tampinha no concreto.
Dessa vez, não toquei.
IX. Depois
Fiquei mais dois meses. Pedi transferência. O gerente entregou a chave. Ficou segurando minha mão por alguns segundos.
— O que vem depois já chegou.
Não entendi. Ou talvez tivesse entendido.
Ele soltou minha mão.
— Tem alguém esperando seu turno. Mais novo. Não vai durar tanto.
Não perguntei mais nada.
Naquela manhã, quando saí do posto, havia um rapaz parado perto da loja. Devia ter pouco mais de vinte anos. Uma mochila azul pendia de um dos ombros.
Não olhei para ele por muito tempo. Quando cheguei ao carro, não lembrava mais se ele estava mesmo ali.
Hoje moro longe. Nunca mais vi o Dodge. Mas acordo às 3h15. Não olho para o relógio. Когда chove forte, sinto o cheiro.
Espero. A vontade vem. Passa.
Só preciso esperar que ela passe. Uma noite. Uma hora. Um minuto de cada vez.
Naquela madrugada, na bomba número 2, eu fiquei.
E, por enquanto, isso basta.
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