quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O Cão da Praia de Leste

O Cão da Praia de Leste
Tadeu Everton Zamoiski
Praia de Leste

Praia de Leste em outubro não é praia. É vento e casa fechada.
Aluguei a mais barata da Rua do Coro, no OLX. A Marcia falou, Tadeu, você precisa sair de Curitiba. Eu passei a ficar sentado no chão, na frente da porta do quarto do Rafael.
O Rafael fez dezessete em fevereiro. Em março me ligaram. Acidente na 277, foi o que me disseram. Eu não fui ver. Não deixaram. Ou eu não quis. Só me entregaram uma urna lacrada depois. Nunca abri.
No terceiro dia o cão apareceu.
Não ouvi ele chegar. Ele tava sentado no fim do meu deck podre, olhando pro mar. Grande, amarelo sujo de praia, pelo duro de sal, uma orelha rasgada no meio. Magro mas não fraco. O olho era amarelo, quase marrom. Olho que te mede.
Falei, vaza.
Ele abanou o rabo uma vez só. Seco.
Eu tava comendo pão com mortadela. Dei metade. Foi assim que fechei contrato sem saber.
De manhã ele já tava na porta. Me seguiu pra areia. Fora de temporada a praia aqui é larga demais, você se sente pequeno. O vento apaga sua pegada enquanto você ainda tá fazendo ela. Ele ia uns dez metros na frente, parava, olhava pra trás pra ver se eu vinha. Se eu parava, latia. Um latido curto.
Perto do canal ele parou. Farejou, cavou, parou, escutou, cavou de novo. A areia voava entre as pernas traseiras. Eu fiquei com a mão no bolso do moletom, olhando.
Aí apareceu o branco.
Não era concha.
Era osso. Depois outro. O cheiro veio depois. Doce e velho, guardado pela areia fria.
Chamei a polícia de Pontal. Vieram duas viaturas. Trouxeram uma pá. Quando abriram mais, juntou gente. Um pescador velho ficou olhando e falou, essa aí é a mulher do lote do seu Valdomiro. A do verão.
No dia seguinte ele já tava na porta.
A gente andou muito até as pedras do Ipanema. A praia estica, o vento fica mais forte, a areia bate na canela e dói. Ele na frente, eu atrás.
Onde o mar deixa aquele lodo preto que fede, ele parou. Farejou e começou a cavar. Dessa vez mais rápido. Eu falei não. Falei chega. Ele cavou mais rápido ainda.
Era pequeno.
Deus do céu, era pequena.
Eu vomitei de joelho. O Jeferson chegou depois. Bigodinho dos anos oitenta. Me olhou e falou, outro, Tadeu?
Não é meu cachorro, eu disse.
Ele anotou num caderninho e falou, cachorro não acha defunto de dois anos enterrado desse jeito. Alguém enterrou e alguém desenterrou antes. Fica por aqui, não viaja.
Na terceira noite deixei a porta aberta. Ele entrou e deitou no pé da cama. Fiquei ali passando a mão naquele pelo duro. Falei do Rafael em voz alta pela primeira vez sem estar na frente de uma porta fechada. Falei que não fui ver. Que assinei os papéis que a Marcia me deu. Que eu precisava saber o que tinha dentro daquela urna e ao mesmo tempo rezei pra nunca saber.
Ele só ficou ali.
De manhã tinha aquela chuva de Pontal que não cai. Ela fica no ar e te encharca sem você ver. Ele me esperou na porta. Andamos até o fim de tudo, onde Praia de Leste acaba e vira mangue, areia fofa que puxa seu pé. Lugar onde ninguém vai nem em janeiro. O vento trazia sacola, pedaço de isopor, cheiro de esgoto.
Ele parou num pedaço liso. Sem pegada. Só areia batida de chuva.
E deitou. Deitou comprido, cobrindo aquele chão com o corpo dele.
Ele não saiu.
Cavei com a mão. A areia tava gelada, pesada, cheia d'água. Minha unha quebrou logo, entrou areia embaixo. Cavei como bicho mesmo. Como ele.
Achei o plástico. Saco preto duplo, de obra.
Rasguei.
O tênis vermelho. All Star, 41, desbotado. Eu dei no Natal. Ele falou que apertava o dedão e usou igual.
A calça jeans rasgada no joelho. De uso.
A camiseta do Coxa. Que ele usava pra dormir e a Marcia reclamava que tava larga demais.
E ele.
Era ele. Parecia que tinha dormido na praia e pegado friagem. Não tinha nada de moto. Nada de asfalto.
Meu celular vibrou no bolso. MARCIA.
Nunca abri aquela urna. Vai ver não tinha nada lá dentro. Ou teve areia. Ou me entregaram a história que era mais fácil de contar.
O cão levantou. Veio até mim, encostou o focinho na minha mão suja de areia. Depois sentou do meu lado, olhando pro mar cinza.
Eu fiquei ali sentado com o tênis vermelho do meu filho na mão.
Eu só tinha vento.

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