quinta-feira, 1 de outubro de 2026

A Voz do Mangue

A Voz do Mangue
Tadeu Everton Zamoiski Guaratuba

Guaratuba não tem noite. Tem mangue.

Eu voltei porque minha mãe morreu. Semana passada. Ficou na casa da Rua da Praia dizendo que era friagem. Madeira que já foi azul.

Eu tinha oito anos quando o Léo sumiu. Meu irmão. Dez. A gente brincava de atravessar o mangue na maré baixa. Minha mãe gritava: não vai, que a lama come.

Naquele dia a maré subiu rápido demais. Ele ficou preso. Eu vi a lama subir no joelho, depois na cintura. Eu não fiz nada. Corri. Me escondi atrás da caixa-d'água. Quando contei, já era tarde. Só acharam o boné.

Seu Valdir apareceu no dia seguinte com preço. Menina, ninguém compra casa com quintal para o mangue. Isso aqui a gente aluga para os de fora. Para os curitibanos. Dona Nica veio atrás, com café sem açúcar.

Na primeira noite eu ouvi.

— Lia?

Veio da cozinha, mas vinha do quintal.

— Estou com frio.

Ele tinha um jeito de falar meu nome. Liiiia. Fui até a porta dos fundos. A maré estava cheia, preta. Sem lua. O mangue soltou um pum de gás. Cheiro de ovo podre.

Fechei a porta. Tranquei.

De manhã Dona Nica olhou para o quintal.

— Ouviu, né?

— O quê?

Ela não respondeu.

Na segunda noite ele chorou.

— Lia, por que você me deixou?

Fiquei sentada no chão da cozinha, de costas para a porta, com a luz acesa. Falei alto pela primeira vez desde os oito anos.

— Eu tive medo.

Ficou quieto. Aí a voz afundou.

— Traz ele.

Não dormi.

Na terceira noite acordei com a galocha da minha mãe no pé. Morna. O quintal puxava. Cada passo grudava. Fui até onde a água é preta e não reflete nada.

— Léo?

A lama abriu. Não como água.

Tinha gente ali embaixo, com o olho aberto. E ele no meio. Não com dez anos. Trinta e dois. Barba de lama. Estendeu a mão. Estava limpa.

Eu não dei.

Deitei. De costas. Deixei subir no tornozelo, no joelho, na barriga. Fria, depois morna. Entrou no meu nariz. Na boca. Cantei baixinho. A música que minha mãe cantava quando o mangue fazia barulho. A garganta queimou.

Ele chorou.

A lama parou. Não desceu.

De manhã me acharam suja até o peito, com a boca cheia de barro, abraçada com o boné dele. O boné estava limpo demais.

Seu Valdir veio com o trator. Vamos aterrar isso aqui, menina.

Eu falei: não. Deixa.

Ontem sumiu um turista no Cabaraquara. Disseram que foi cachaça. Dona Nica me olhou da janela e fez o sinal da cruz.

Hoje a pia estava cheia de lama preta. A torneira fechada. Fechada.

Agora tem água correndo dentro das paredes. Tic, tic, dentro do reboco.

Dona Nica bateu. Nem entrou.

— Chamou?

— Ainda não.

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