quarta-feira, 30 de setembro de 2026

CAIOBÁ, 3H DA MANHÃ

CAIOBÁ, 3H DA MANHÃ

O frio do piso atravessa a meia antes de eu acender a luz. Cheiro de mofo, de colchão que nunca secou e de sal que entrou pela janela mesmo fechada. Quitinete da Rua Argus, segundo andar, vista parcial pro mar.

Trouxe um violão, uma Tascam de 4 canais que comprei em 2012, uma garrafa de cachaça branca do mercado e, no bolso interno do case, um Rivotril quebrado em quatro.

A emergência começou na primeira noite.

Acordei com a luzinha vermelha da Tascam acesa. REC. 2:47 no visor. Eu não tinha apertado. Tava gravando o ronco da geladeira. E por baixo, outra coisa.

O mar não tem harmonia.

Era um som vindo da Praia Brava. Não era onda. Era uma respiração só, longa demais, segurando uma nota. E por baixo, uma vozinha de criança um quarto de tom acima, insistindo.

Eu devia ter apagado a fita e voltado a dormir. Eu aumentei o volume.

Era a música que eu tentei escrever por dez anos e nunca consegui. Dó menor pra um acorde que meus dedos nem sabiam fazer. Toquei até minhas unhas ficarem pretas, com aquele pó preto das cordas velhas entranhado embaixo.

Gravei ela no dia seguinte. Quando terminou, a quitinete ficou em silêncio total. Até a geladeira parou. Foi nesse silêncio que me veio: Os Afogados. Guitarrista. 2018, 2019. Se você procurava meu nome no Google, era isso.

Enquanto as caixinhas ainda chiavam, vi a porta da sala, que eu tinha trancado com duas voltas e colocado a cadeira atrás, entreaberta. Um palmo. Com uma linha fina de areia molhada no linóleo.

Fechei. O clique estalou e a areia grudou úmida no meu dedão. Fiquei um tempo com a mão na maçaneta.

Na gravação seguinte, quando dei o play, o box do banheiro estava todo embaçado, como se alguém tivesse tomado um banho muito quente. No espelho tinha uma marca de mão pelo lado de dentro do vapor. Os dedos muito juntos e o polegar muito pra trás. Como de alguém que não aprendeu direito como é uma mão.

Senti cheiro de perfume. O da Camila. Ela me largou em 2020. Foi morar em Joinville.

Limpei o braço do violão. Ainda lembrava do cheiro do escritório do meu empresário naquela época.

E do gosto de ferro da primeira vez que meu nariz sangrou sozinho no meio da tarde.

Depois daquela gravação, esqueci o sobrenome dela. Fiquei com o comprimido frio na palma. Nem tomei. Só o gosto metálico subindo pela garganta.

Na outra, esqueci como se escreve meu próprio nome. Fiquei olhando a identidade e a letra Z não fazia sentido.

Na outra, esqueci o número da quitinete. Rua Argus, 47. Tomei um gole. O dedo foi sozinho pro acorde que eu não sabia fazer. Acertou.

Depois disso, fiquei na frente do espelho e não reconheci meu rosto por dois segundos. Acordei com sal grudado no lábio de baixo.

O cara de Curitiba mandou mensagem faz uns dias. "Mauro, vence hoje". Eu li e esqueci.

Quanto melhor eu tocava, menos eu ficava.

3h da manhã.

Eu nem sei mais quantas faixas tem. Tem a primeira, a segunda e umas que eu não lembro de ter gravado. Se tento lembrar, vem só aquele silêncio gelado e o cheiro de maré baixa grudado no lençol.

As vozes na Tascam não estão mais por baixo da minha. Estão junto, me corrigindo. Eu faço um sol e uma voz por trás faz um sol sustenido. Meu ombro afrouxou antes da cabeça entender.

Na última gravação, uma voz pequena, muito clara por cima do meu violão, disse só: "Assim."

E tocou o acorde.

O silêncio que veio depois foi pior.

Olhei pro Rivotril quebrado em cima da mesa. A palma gelou de novo. O gosto de ferro desceu rasgando.

Deixei o comprimido cair. Agarrei a garrafa.

Vou deixar a porta aberta de verdade.

Olhei agora pro visor da Tascam. Tem uma FAIXA 8 lá. 3:12 de duração.

3:12 era a duração exata do nosso hit na novela.

Eu não gravei faixa 8 nenhuma.

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