Pontal do Paraná / Ipanema Tadeu Everton Zamoiski
Ipanema fora de temporada não existe. É só vento e placa de vende-se. E cachorro magro.
Me chamaram porque o Seu Olavo morreu no banheiro do cinema. Afogado. Três dias lá até o filho sentir o cheiro. O banheiro de homem fede a mijo seco e desinfetante barato. Porta riscada com letra caprichada: "Sentado na privada sinto uma emoção profunda: a bosta bate na água e a água bate na bunda."
O projetor ficou sem ninguém que soubesse fazer ele não mastigar o filme.
Aceitei porque estava devendo na farmácia. Fazia três meses que eu tinha largado o Rivotril. Não parei. Só diminuí. Misturava com Velho Barreiro. Dois goles para cada meio comprimido. Ficava no ponto. Nem bêbado, nem acordado. Só menos eu.
O Cine Mar é de madeira. Azul que já foi azul. Na sala, cheiro de pipoca velha requentada e aquele aromatizador de tomada, cheiro de talco de bebê, doce que enjoa e gruda na língua. Na cabine, tapete molhado, óleo de máquina, poeira, filme grudando no dedo. A lâmpada esquenta a mão.
Na porta, cartaz torto de pincel atômico: HOJE 20H - A LAGOA AZUL.
— Seu Olavo passava isso direto — falou o filho, e me entregou uma chave pequena, enferrujada. — Ele guardava dentro da lata. Dizia que era para ninguém roubar a projeção. A chave do cadeado da porta. Tranca quando sair.
— Ninguém vem ver isso.
— Vem. Sempre vem uns dois, três. Gente esquisita.
Na cabine, três latas. Uma estava rodando no projetor, outra já estava preparada para a troca e uma terceira encostada no canto, cheia de pó. Na lata de cima, etiqueta trêmula do Seu Olavo: NÃO PASSAR DE NOVO. JÁ COBROU. Na emenda da fita, esmalte vermelho seco. Tec-tec-tec-tec.
Veio a Dona Célia, de boina mesmo com o abafado, e um piá de uns dez anos com um boné do Banestado desbotado, aquele B bordado torto, de banco que nem existe mais.
Apaguei a luz. Quando a luz bateu na tela, subiu aquele cheiro de mar preso em lata. Sal e lodo. Mais forte que o talco.
Na cena da jangada, a imagem queimou um segundo. Quando voltou, por um frame, não era Brooke Shields. Era um velho de rosto na água suja do vaso. Depois, no frame seguinte, uma senhora de boina dentro da banheira. Água no nariz.
A Dona Célia levantou no meio do filme. Sem falar nada. Deixou a bolsa na cadeira. Saiu.
Continuei passando o filme. Tec-tec-tec-tec. Fingi que não tinha visto.
De manhã o João da farmácia me cutucou no balcão.
— Soube da Célia? Afogada na banheira ontem de noite. Sozinha.
Fui para a cabine. Rebobinei o rolo na mão. A fita estava úmida. Lá estava. O banheiro, a Dona Célia. Antes dela, o Seu Olavo, de rosto na água.
Abri a bolsa dela, que tinha ficado na sala. Dentro, um ingresso antigo do Cine Mar, de 1987. Todo molhado, pingando. No verso, a caneta: Célia + Olavo - 12/07/87.
Na segunda noite botei TUBARÃO porque era o que estava na lata já montada. Vieram o mesmo piá e um casal de Curitiba de Havaianas. A mulher com a toalha molhada no ombro, reclamando do preço da pipoca que nem tinha.
— Tem pipoca?
— Não.
— Achei que tinha.
Na cena do piá da boia amarela, o projetor engasgou e a imagem queimou, a tela ficou branca e doeu no olho, depois voltou manchada. Tec... tec...... tec.
O que boiava de costas não era o ator. Era o piá da plateia. De boné. Na mesma boia amarela. Olho aberto. Boca cheia d'água suja.
Gritei lá de cima que a lâmpada tinha queimado.
O piá ficou sentado. Virou a cara para a cabine. Apertou a borda da cadeira com as duas mãos. Unha branca.
De manhã a mãe dele gritava na Rua das Sereias. Acharam ele na valeta da frente da igreja. Trinta centímetros de água suja.
Fiquei sentado na escada da farmácia até o meio-dia. Boca seca. Fiquei repetindo: eu deixei ele sentado. Quando varreram a sala, peguei o boné dele que tinha ficado na cadeira e enfiei na mochila. Não sei por quê.
Só de tarde abri todas as latas na bancada. Mão suada escorregando no metal. Em cada filme, um frame colado com aquele mesmo esmalte vermelho. No Tubarão, o piá. Na Lagoa Azul, a Célia e o Seu Olavo. Na terceira lata, CONTA COMIGO, um frame do casal de Curitiba. Os dois deitados na areia. Boca cheia de areia.
Na terceira noite voltei para a cabine. No balcão da entrada, quebrei meio Rivotril no dente e empurrei com um gole de Velho Barreiro.
A mão tremia tanto que não achava o plugue. Liguei só para testar.
A luz vazou pela fresta. Foi vista da rua.
Bateram 19h50.
O casal de Curitiba.
— Vai ter?
— Não vai. Fechou.
— Mas está passando. A gente viu da rua, está passando.
Na tela estava eu no chão da cabine, de rosto no chão, com água preta saindo da boca.
Arranquei o plugue com as duas mãos. O cheiro de mar fechado voltou, mais forte que o talco, que o mijo.
O projetor continuou rodando no escuro.
Tec-tec-tec-tec.
Abri a lata de A LAGOA AZUL ainda na cabine, soltei a chave do cadeado lá dentro e larguei tudo girando. Ouvi o metal bater no fundo da lata. Saí e deixei a porta só encostada.
Fui embora a pé pela PR. Não olhei para trás.
Uma semana depois o filho do Seu Olavo me ligou.
— Ô, você fechou direito? O vizinho disse que está com luz acesa de madrugada.
— Vendi.
— Para quem?
Desliguei. Tirei o chip.
Ontem estava no terminal de Paranaguá, esperando o circular para Matinhos que só saía às 20h15. Na fila, duas cadeiras na frente, o casal de Curitiba. Com areia grudada na canela, olhando fixo para a banca de pastel. O piá não estava. Só o boné em cima da cadeira vazia. Pingando.
O mesmo boné que eu tinha enfiado na mochila.
Na banca, cartaz novo colado com durex.
CINE MAR - NOVA DIREÇÃO - IPANEMA - HOJE 20H - A HISTÓRIA SEM FIM - ENTRADA FRANCA.
Embaixo, com a mesma letra trêmula da etiqueta, mas com a minha pressa:
HOJE TEM PROJEÇÃO ESPECIAL PARA VOCÊ.
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